MANUEL CARVALHO DA SILVA | Agressões escondidas

mcdasilva(…) trouxe-me à memória o que um amigo, normalmente navegando na área do PSD, me costuma enunciar como um dos mais graves problemas do “Ocidente”: diz ele, “o Ocidente viciou-se em viver na mentira”.

O que esta semana se escreveu e disse sobre o Orçamento do Estado (OE), analisado por especialistas ou explicado pela ministra das Finanças e pelo primeiro-ministro, trouxe-me à memória o que um amigo, normalmente navegando na área do PSD, me costuma enunciar como um dos mais graves problemas do “Ocidente”: diz ele, “o Ocidente viciou-se em viver na mentira”. E explica: não é capaz de respeitar novas realidades do Mundo, nomeadamente geoestratégicas; mente ao afirmar a possibilidade de universalização do estilo de vida que propagandeia como modelo; intervém unilateralmente e na base de pressupostos feitos de mentira e agredindo brutalmente milhões de pessoas. Também o Governo PSD/CDS se foi apurando como viciado compulsivo da dissimulação, da manipulação e da mentira.

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Da Europa de Schuman à Não Europa de Merkel

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«Que reste-t-il de nos amours?» É a indagação nostálgica de uma bela canção de Charles Trenet, dos tempos da grande música europeia. É, também, de algum modo, o fio interrogativo de um livro em que se questiona a forma como foi possível passar de uma construção europeia destinada a assegurar a solidariedade e a prosperidade de um continente devastado – criando estruturas jurídicas de organização social e económica que se impuseram ao Mundo –, para um continente cada vez mais irrelevante, cujos valores fundadores se desvaneceram quase por completo.

Como se passou de um projecto comum, em que todas as vozes e vontades se juntavam, a um (des)agregado de países, alguns unidos por pouco mais do que uma moeda comum, em que os interesses nacionais a tudo se sobrepõem, e os conflitos e ódios florescem? Onde errámos? Nos termos da própria criação do Mercado Comum? No Tratado de Maastricht e nas suas revisões? Nos poderes não controlados, outorgados a um grupo de políticos com legitimação frágil e a uma massa anónima de eurocratas insensíveis? Ou teremos errado ao criar o ambiente que levou à passagem de uma Alemanha Europeia a uma Europa Alemã?

Num livro pontuado pela decepção, mas em que persiste a ilusão do grande sonho europeu, há ainda espaço para a apresentação de um programa geral de acção para a Europa: democratizar, desenvolver e “desgermanizar”. Existirá uma Europa capaz de responder a este programa?

www.quetzal.blogs.sapo.pt

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The End of History? | BY NOAM CHOMSKY

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An Indian army camp on the “world’s highest battlefield,” the Siachen Glacier. Long the site of brutal battles between India and Pakistan, the glacier is now melting as the result of climate change. (Annirudha Mookerjee/Getty Images)

It is not pleasant to contemplate the thoughts that must be passing through the mind of the Owl of Minerva as the dusk falls and she undertakes the task of interpreting the era of human civilization, which may now be approaching its inglorious end.

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PORQUE É QUE NÃO VALE MUITO A PENA TER ESPERANÇA … | José Pacheco Pereira

jppereira… como no Inferno quando se entra pela porta maldita e se deixa a dita esperança à entrada. Agosto é um bom mês para percebermos tudo. Milhares e milhares de jovens que não lêem um livro, passam o mês em festivais no meio do lixo, do pó, da cerveja e dos charros. Milhares e milhares de adultos vão meter o corpo na água e na areia, sem verdadeira alegria nem descanso. Outros muitos milhares de jovens e adultos nem isto podem fazer porque não tem dinheiro. No interior, já que não há correios, nem centros médicos, nem tribunais, proliferam as capitais, da chanfana, do caracol, do marisco, do bacalhau, dos enchidos, da açorda, as “feiras medievais” de chave na mão, as feiras de tudo e mais alguma coisa desde que não sejam muito sofisticadas. Não é uma Feira da Ciência, nem Silicon Valley.

As televisões, RTP, SIC e TVI “descentralizam-se” e fazem arraiais com umas estrelas pimba aos saltos no palco, mais umas “bailarinas”, nem sequer para um grande público. Incêndios este ano há pouco, pelo que não há imagens fortes, ficamos pelo balde de água. Crimes violentos “aterrorizam” umas aldeias de nomes entre o ridículo e o muito antigo, que os jornalistas que apresentam telejornais com tudo isto gostam de repetir mil vezes. Felizmente que já começa outra vez a haver futebol, cada vez mais cedo. O governo, com excepção das finanças e dos cortes contra os do costume, não governa, mas isso é o habitual.

A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social. No tempo de Salazar falava-se do embrutecimento dos três f: futebol, Fátima e fado. Se houvesse Internet acrescentar-se-ia o Facebook como o quarto f. Agora não se pode falar disso porque parece elitismo. Áreas decisivas do nosso quotidiano hoje não são sujeitas à crítica, porque se convencionou que em democracia não se critica o “povo”.

Agosto é um grande revelador e um balde de água fria em cima da cabeça para aparecer na televisão ou no You Tube. Participar num rebanho, mesmo que por uma boa causa, podia pelo menos despertar alguma coisa. Nem isso, passará a moda e esquecer-se-á a doença. Pode ser que para o ano a moda seja meter a cabeça numa fossa séptica, a favor da cura do Ebola.

Assim não vamos a lado nenhum. Como muito bem sabem os que não querem que vamos a qualquer lado.

http://abrupto.blogspot.pt/2014/08/versao-da-porque-e-que-nao-vale-muito.html … (FONTE)

A banalização do fascismo | Rui Bebiano in Blog “A Terceira Noite”

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Quando oiço dizer que vivemos, em Portugal e nesta complicada Europa que nos cabe, «pior que no tempo do fascismo», ocorrem-me três argumentos contra uma afirmação tão imperfeita e perigosa. Em primeiro lugar, ninguém que tenha vivido ou conheça de forma cabal o tempo e a experiência dos fascismos que envenenaram o século passado, fazendo dos Estados aparelhos de coação e não de garantia dos direitos fundamentais, é incapaz de proferir em consciência uma afirmação dessa natureza. Em segundo lugar, estabelecer uma comparação que incide de forma particularmente negativa sobre o presente é prova de um claro desconhecimento da História, pois nenhum dos conflitos e formas de opressão pelos quais passamos hoje, sobretudo no mundo industrializado e nas suas contíguas periferias, se compara, em escala e na brutalidade, com aqueles que cruzaram as décadas em que os fascismos se impuseram. Em terceiro lugar, quem o diz vive provavelmente no terreno nebuloso de um wishful thinking feito de enormes simplificações, com recurso às quais pensa agudizar contradições e desta forma prover as «condições objetivas» para impor mudanças julgadas redentoras, necessariamente ilusórias. No fundo, quem de tudo isto beneficia são de facto os novos fascismos, agora mais insidiosos e apurados nos seus métodos, que pelo efeito de banalização que uma tal afirmação provoca vão podendo desbravar caminho. Desta maneira, em vez de se baterem pela defesa dos direitos alcançados em décadas de lutas pela democracia e pelo bem-estar, muitos cidadãos desenvolvem uma consciência política feita essencialmente de ressentimento, que acaba por isolá-los, desmobilizando-os de facto e colocando-os à mercê dos algozes. À noite, nas suas casas, adormecem narcotizados, tentando esquecer um mundo que os atemoriza e não compreendem.

Rui Bebiano

http://aterceiranoite.org/2014/08/26/a-banalizacao-do-fascismo/ … (FONTE)

FOTO: Auschwitz

A mansa revolta da dor | José António Barreiros in Blog “A Revolta das Palavras”

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Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta não é mansa e gera o mal que se faz sofrer a partir do mal que se sofreu. E há sempre as vítimas sem razão.
Mas há um momento em que a violência brutal, que nos chega como quotidiana, já está para além da capacidade de a suportar.

Quando era miúdo não conseguia ver filmes que se diziam para a minha idade porque havia um nó na garganta, de dor, que me sufocava e as lágrimas contidas a tal ponto que os olhos pareciam implodir. Era uma forma, ouvia dizer, de, por esse meio, nos educarem a sensibilidade, gerando na nossa afectividade em formação, os bons sentimentos. E havia o cão que, morrendo, deixava o menino sozinho e o rapaz que, porque órfão, nunca seria menino. E a vida era um Natal gélido e faminto vivido do lado de cá da vidraça.

E depois era a mágoa dos amores quando ainda eram apenas ternuras inconsequentes, o medo dos adultos e da sua violência castigadora, os remorsos pelo tanto que se poderia ter feito ou por outra forma. E o pecado. E o dia em que as coisas de que gostávamos e as pessoas que amávamos começavam a morrer.
Hoje já não há muito disso que aleijou a alma. Torná-mo-nos adultos. Atentos ao mundo, há, porém, o que nos chega pelas notícias: a selvajaria das guerras entre povos e o mesmo povo, a cruel violência no seio da própria família. E, na dança macabra dos fins de festa, há a estupidez acéfala dos embriagados pela futilidade, a indiferença que nasce pela banalização do horror. Que não magoa menos.

Confesso que sinto de novo a surgir essa até agora longínqua incapacidade de suportar.
Quando, porque nascido em Malanje, me chegaram, tinha eu doze anos, os primeiros sinais da violência feroz que se tornou em guerra, vinda da revolta indígena na Baixa de Cassanje, mais a violência feroz da retaliação e a ferocidade angustiante do medo, quando, tudo tornado pavor e insónia, a ingenuidade infantil quebrou estilhaçada em cacos, senti que se me franqueara do mundo o horrível e o feio. E tentei encontrar então uma razão que ao menos me desse a paz de uma explicação.

Hoje, como insecto estonteado ante a luz, dói-me só de ouvir e dói também constatar que evito saber. Não nasce aí o regresso à inocência, sim o enfrentar o espelho acusador da má consciência.
É que foi este, afinal, o mundo que criámos e deixámos que surgisse.
Há um momento na vida em que a tirania mansa esgota a paciência e atiça o fogo da revolta. E a revolta é connosco mesmo por causa daquilo em que nos tornámos.

José António Barreiros

http://revoltadaspalavras.blogspot.pt/2014/08/a-mansa-revolta-da-dor.html … (FONTE)

Foto: Hugo Simberg | The Wounded Angel | Google Art Project

O povo da televisão | ANTÓNIO GUERREIRO in Jornal Público

O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos.

O espírito popular desapareceu”, escreveu Pasolini num dos seus textos de crítica e resistência ao presente. Quarenta anos depois, esta proposição tornou-se um axioma, mas de onde se ausentou o sentido que tinha para Pasolini: o de uma catástrofe. Desapareceu o espírito popular, mas os vários canais portugueses de televisão insistem, quase sem excepção, em construir um povo que não existe, mas cujo simulacro — pensam eles, os “produtores de conteúdos” televisivos — é telegénico que se farta e tem aquela qualidade tão apreciada pelos construtores de mentiras: o “efeito de real”. Trata-se daqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e entertainers para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco. O povo construído pela televisão é degenerado, ridículo, monstruoso. E os seus criminosos construtores têm nomes publicamente conhecidos e sucesso alargado: são as Júlias, as Luísas, os Joões, os Manueis e os seus directores de programas, produtores, chefes, empresários, até ao topo da hierarquia. Há o “povo” que vem aos estúdios dos programas da televisão (quase sempre um “povo” suburbano que já conhece bem os códigos da televisão e sabe imitá-los); e há o povo que a televisão visita no seuhabitat natural, geralmente os recantos profundos do país onde se vai em busca de arquétipos. Um e outro são descaradas mentiras, falsas construções que deformam até à degradação. Qualquer que seja o sentido da palavra, tenha ela um sentido sociológico e político ou aponte na direcção utópica da criação artística para a qual há sempre “um povo que falta”, existe mais “povo” em qualquer filme de Pedro Costa (um povo que vem, isto é, venturo, como o nome de Ventura) do que em todos os programas de televisão. O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos. Quantas vezes não assistimos já às câmaras a fazerem um zoom sobre as mãos encarquilhadas, ou qualquer outra parte do corpo, do indivíduo do “povo” que se queixa de uma qualquer decisão — ou da ausência dela — dos governantes? Nesse momento, a pessoa é espoliada do seu estatuto político e ganha uma espécie de qualidade étnica. Já alguém deu por a televisão fazer um grande plano das mãos de um ministro? Já alguém viu, na televisão, as mãos de Marcelo Rebelo de Sousa a não ser como instrumentos de gesticulação expressivo-didáctica? O povo da televisão não é representado como sujeito minoritário do populus, do corpo de todos os cidadãos. É visto, antes, como espécie castiça de um parque natural que fica longe, muito longe, da Comporta. Deste modo, este povo que a televisão reconstrói e deforma à medida das suas exigências tem alguns pontos de coincidência com o povo do populismo. Mas há uma diferença fundamental: o populismo dirige-se à classe geralmente excluída da política e que, por isso, não tem privilégios de sujeito político constitutivo, reclamando que essa classe é o único poder legítimo, é uma parte do populus, do povo como categoria política, detentor da soberania, que deve funcionar como a totalidade da comunidade. A televisão, pelo contrário, quer tudo muito bem arrumado nos seus lugares e que não se quebre a harmonia estabelecida no parque natural do povo.

António Guerreiro

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Em defesa de Lobo Xavier e Pacheco Pereira | Pedro da Silva Pereira

Pedro-Silva-PereiraVítor Gaspar sentiu-se atingido por Lobo Xavier e Pacheco Pereira terem reconhecido, com honestidade, que a verdadeira razão que levou Portugal a ter de pedir ajuda externa foi o assalto ao poder lançado pela direita com a rejeição do PEC IV, que tinha recebido o apoio do BCE e dos nossos parceiros europeus.

A resposta de Gaspar insiste na falsificação da história.

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Por uma esquerda recomposta | André Barata in “jornal i”

winstonPara a esquerda ser alternativa, é indispensável vontades políticas alcançarem uma convergência e imprescindível constituírem-se veículo de um programa político.

A recomposição da esquerda portuguesa está na ordem do dia. Uma esquerda antiausteritária que se queira consequente não pode satisfazer-se com o papel de protesto. Por bem que cumpra esta função, se ao protesto não se seguir nenhuma mudança, se dele nada se esperar além da catarse da rua, então é justo concluir que o protesto serve sobretudo de válvula de escape ao descontentamento social, com benefício exclusivo, na ressaca do dia, para a própria política de austeridade, cuja continuidade se vê assim mais bem assegurada.

Também não basta a desmontagem argumentativa da austeridade, dos três ângulos, social, político e económico, por que tem sido feita: a) Fazer a demonstração, do ponto de vista social, de como a austeridade naturaliza a desigualdade, impinge a precariedade como normalidade social e instala no quotidiano das pessoas o medo da incerteza sobre o futuro próximo, recusando-lhes a capacidade de projectarem as suas vidas. b) Deixar claro, do ponto de vista político, como a dívida se substitui de facto ao soberano e como a precariedade restitui ao poder político atributos de um absolutismo que não conceberíamos há alguns anos atrás. c) Fazer evidência de como, do ponto de vista económico, a austeridade não resulta, em nada diminui a dívida soberana, antes transforma-a em dívida eterna, que nos subjugará social, política e economicamente por décadas.

Tornar consequentes estas vocações de protesto e de desmontagem argumentativa, exige à esquerda antiausteritária que encontre uma terceira vocação: mostrar-se alternativa credível de poder face à austeridade que nos governa. Sem esta vocação, a esquerda portuguesa, por empenhada e brilhante que seja, nulifica todos os seus esforços. E para a esquerda antiausteritária ser alternativa, é tão indispensável vontades políticas alcançarem uma convergência real como é imprescindível constituírem-se veículo de um programa político. Em poucas palavras: uma alternativa política para uma política alternativa.

Se a recomposição da esquerda for mais do que um espectro e servir para fechar este triângulo – protesto, argumentação, alternativa – far-se-á um pouco de história, pois desde que há democracia em Portugal nunca a esquerda à esquerda do PS teve ambições de governar. Mas, outra governação valerá a pena se, além disso, consumar a oportunidade histórica para uma recomposição da própria ideia de esquerda. Não deve preocupar à esquerda apenas as suas dificuldades em convergir, mas também de se renovar ideologicamente a sua capacidade propositiva. Não é certamente esse o caso de uma esquerda refugiada no patriotismo em extremidade peninsular ou, ainda, na nostalgia do regresso ao passado do escudo. Propor é fundamentalmente projectar, com linhas de futuro como horizonte. E pelo menos dois eixos merecem futuro:

1. Quando nos citam pela enésima vez a espirituosa frase de Churchill sobre a que considerou ser a pior forma de governo à excepção de todas as outras, fica bem explicado por que a democracia liberal é inaceitavelmente tímida, com eleitores postos à margem sempre que não há eleições, a democracia europeia resumida a um clube de chefes de governo, a democracia nacional a um clube de partidos, a democracia partidária a um clube de dirigentes. É preciso a esquerda reivindicar-se mais radicalmente democrata e bater-se pela inclusão plena das comunidades no processo político.

2. Hoje não restam dúvidas que a social-democracia, assente no Estado social e na função redistributiva das transferências sociais está a falhar maciçamente. As desigualdades aumentam por toda a parte, a concentração de riqueza também, mau grado as transferências sociais tradicionais. Pior ainda: mau grado o empobrecimento da sociedade. É preciso a esquerda propor-se a mais do que remediar, a jusante do ciclo económico, a desigualdade. Assumindo que as sociedades mais iguais fazem melhor, é preciso complementar as políticas redistributivas, radicalizando-as com políticas de pré-distribuição, que façam da igualdade força geradora de prosperidade económica.

Filósofo, dirigente do Livre

Construtores do caos | VIRIATO SOROMENHO MARQUES in “Diário de Notícias”

O caso GES-BES tem suscitado uma pergunta simples: como foi possível que gravíssimas práticas fraudulentas tivessem escapado durante anos à vigilância das autoridades de regulação, incluindo à vigilância da troika sobre o setor bancário? A resposta é tão dura quanto simples: nos últimos 30 anos muitos governos (de direita e de esquerda) foram responsáveis pela criação dos alçapões e das opacidades que transformaram o sistema financeiro europeu (e mundial) num campo minado onde aventureiros põem em perigo a segurança de milhões de pessoas. Em 1933, em plena Grande Depressão, o Congresso dos EUA produziu uma lei (Glass-Steagall Act) que restaurou a confiança no sistema financeiro: separou e protegeu os bancos comerciais, face aos bancos de investimento. Por outras palavras: os bancos que recebiam as poupanças dos depositantes e que emprestavam às empresas na economia real não podiam fazer operações especulativas com produtos financeiros. Durante décadas essa higiénica distância permitiu prosperidade económica, a par de visibilidade e eficácia no trabalho dos reguladores. Contudo, o lóbi financista, embalado pelo mantra do neoliberalismo, não descansou enquanto não meteu no bolso os governos e os parlamentos necessários para misturar tudo de novo. Em 1999, o Congresso americano revogou a lei de 1933, regressando à promiscuidade especulativa. Por todo o lado, incluindo a UE, as leis “liberalizaram-se”, no sentido de criar obscuridade, onde antes havia transparência. Criaram-se condições para mascarar a exposição da poupança das famílias, no labirinto arriscado das ações, das obrigações e de uma miríade de derivados toxicamente imaginativos. Os políticos que se queixam dos banqueiros deveriam ter vergonha. O caos habita nas leis que eles próprios assinaram. Seria interessante saber como e porquê…

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4051730&seccao=Viriato+Soromenho+Marques&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco … (FONTE)

Tudo num fósforo | Rui Tavares in jornal Público

Rui TavaresNo início do século passado havia um homem chamado Ivar Kreuger, sueco de nacionalidade, que se especializou inicialmente em produzir fósforos.

Na raiz da sua fortuna havia uma inovação: os fósforos de segurança vermelhos, que conhecemos hoje, superiores aos anteriores de fósforo amarelo que podiam acender-se sozinhos acidentalmente. A procura e utilização de fósforos era naqueles tempos praticamente fixa, o que tornava aquele mercado muito apetecível como monopólio.

A outra parte da história é que, após a I Guerra Mundial, havia países para reconstruir e alguns que eram independentes pela primeira vez. Ivar Kreuger viu aí uma oportunidade. Era fácil para ele fazer um empréstimo soberano à Polónia, por exemplo, em troca do monopólio dos fósforos naquele país. E depois era fácil usar esse monopólio para subir o preço dos fósforos, uma vez que toda a gente precisava deles e não havia como substituí-los de maneira prática. Kreuger seria reembolsado duas vezes: pelos estados e pelos consumidores.

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Perdidos | VIRIATO SOROMENHO-MARQUES

Viriato Soromenho MarquesPara onde quer que nos voltemos, os sinais de que Portugal é hoje um país à deriva são manifestos.

Com a saída da troika tornou-se ainda mais evidente que o Governo não tinha qualquer agenda que não fosse fazer a dobragem para português, por vezes com erros dolosos de tradução, das exigências dos nossos credores. Confundindo os efeitos com as causas, a austeridade falhou. Depois de três anos de destruição da economia, do emprego, dos direitos sociais, depois de a própria troika, através do FMI e da Comissão Europeia, ter admitido erros de conceção no memorando (algo que o Governo nunca fez com seriedade e de forma escrita), o País mergulha em cheio num novo turbilhão, que destrói ainda mais a confiança no sistema financeiro.

As causas da doença prevalecem sempre sobre os seus sintomas. Se o Governo emudece, deixando-se humilhar (e ao País) no processo da adesão da Guiné Equatorial à CPLP, ou sacudindo os ombros perante o que parecem ser graves erros de gestão na TAP, do lado da oposição, o debate interno no PS desnuda um abismo entre o excesso de pompa retórica e a escassez de ideias alternativas operacionais. Ser oposição de esquerda não dispensa, antes exige o esforço de pensar. É verdade que ainda não temos petardos a rebentar nas ruas, como na I República, mas há algo de profundamente violento no modo como o improviso, a ausência de conhecimento e reflexão, ou a pura sanha destruidora (veja-se a “política de ciência”, desenhada com bazuca), tomaram conta dos destinos do País. Estamos no deserto, sem bússola. As nações também podem morrer de sede. Quando lhes falta a promessa líquida do futuro.

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4050049&seccao=Viriato+Soromenho+Marques&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco … (FONTE)

Tenho uma Cassandra dentro mim | Pedro Bidarra in “Dinheiro Vivo”

Os estudos que li nos anos 90 sobre a reputação de Portugal no mundo – sobretudo na Europa e mundo anglo-saxónico, o mundo dos mercados – indicavam que o país era simpático, tradicional e hospitaleiro; características potenciadoras de estima mas não de respeito.

Nos estudos que mais tarde fiz na BBDO, em 2004/5, explorando a reputação de Portugal em dimensões geradoras de respeito, as conclusões foram mais ou menos as esperadas: Portugal continuava a ser um país patusco e estimado mas nada de suficientemente relevante e gerador de respeito por cá se fazia ou produzia. Nas dimensões que alimentam sentimentos de respeito por marcas, instituições ou nações, como a inovação, a competência, a produtividade, a riqueza, o poder, a influência, Portugal não aparecia considerado.
Com estas crises, apesar de termos mais notoriedade no mundo (até Obama disse que os Estados Unidos não eram Portugal), temos vindo a acentuar as mesmas características. Não vislumbro, no horizonte da minha vida, nada que possa voltar a fazer Portugal crescer nesse eixo. Até porque a nossa principal contribuição para o mundo, à parte de jogadores de futebol, é irrelevância.

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Entrevista a Adriano Moreira, Por Isabel Tavares | “Sou contra o neoliberalismo repressivo em que vivemos” in Jornal i

2 - IMG_7510O que aconteceu foi que os valores instrumentais foram, a pouco e pouco, substituindo na hierarquia os valores fundamentais. O êxito passou a ser a recompensa, o credo do mercado passou a substituir o credo dos valores, com a filosofia de que a iniciativa privada em liberdade é responsável pelo progresso e pela abundância, quando uma coisa não é incompatível com a outra. A crise que vivemos, que é ocidental e geral, mostra que o credo do mercado passou a ter uma vida independente do credo dos valores, e essa é a correcção que deve ser feita.

 

O líder histórico do CDS acredita que Portugal tem duas saídas: uma é a CPLP, a outra é o mar e a plataforma continental estendida
Histórico do CDS, faz 92 anos em Setembro e mantém a genica e as ideias como se a idade não pesasse. Adriano Moreira, estadista, ex-deputado e antigo ministro do Ultramar, recebeu o i no seu gabinete na Academia das Ciências de Lisboa, no dia em que a Guiné Equatorial entrou para a CPLP. Um erro, na sua opinião. Uma conversa que deu a volta ao mundo.

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Ou a finança ou o povo | JORGE BATEIRA in Jornal ionline

KeynesUma saída progressista para a crise que estamos a viver requer um apertado controlo dos capitais de curto prazo, como há pouco fez a Islândia e, quando a zona euro tiver sido desmantelada, a criação de um arranjo cooperativo do tipo “moeda comum”, com taxas de câmbio flexíveis e domesticação da banca, como defendia Keynes na conferência de Bretton Woods.

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BISCATES | “Sobre o Bloco de Esquerda” | por Carlos de Matos Gomes in “A Viagem dos Argonautas”

carlosdematosgomesEm 25 de novembro de 2011 o Centro de Estudos Sociais (CES) da universidade de Coimbra organizou um colóquio sobre João Martins Pereira (JMP), um dos mais argutos pensadores políticos da esquerda portuguesa. Participei nesse colóquio com um texto sobre as esquerdas, intitulado “A esquerda e o poder”, que me parece ainda servir para dizer o que penso sobre a crise do BE, que é, para mim, um sintoma da crise da esquerda europeia, mais do que um caso de habitual guerrilha de fações dentro de um grupúsculo, ou de vaidades pessoais, como alguns o apresentam.

A grande questão no centro da crise do BE é, para mim, o seu posicionamento relativamente ao poder. Dizia JMP na nota inicial de um artigo que citei, na Revista Critica de Ciências Sociais de Maio de 1985: “entendo que um projeto político tem de comportar uma concepção de organização da sociedade, a expressão mais ou menos coerente de uma ideologia de classe, ou de grupo de interesses sociais homogéneo e uma intenção/projeto de luta pela conquista e pelo exercício do poder, a fim de dar corpo à organização social proposta.”

Tal como a João Martins Pereira, o poder, a sua conquista e o seu exercício parece-me ser o centro da acção politica.Há quem pense assim no BE e o afirme e quem não pense e não o diga, refugiando-se num discurso maximalista de poder total e de classe – ditadura do proletariado, ou perto disso, ou de açãocentrada na denúncia e de protesto. Estas duas visões deixaram de ser compatíveis dentro do BE.

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Instituto Económico Alemão defende perdão da dívida para os países sul europeus

Numa entrevista à Agência Bloomberg, o presidente do Instituto alemão IFO considera que o alívio da dívida é essencial para retomar o crescimento económico.

Dá como exemplo a crise financeira asiática de 1997, que foi resolvida com recurso a perdão de parte da dívida.

O prestigiado economista diz que o alívio parcial é um assunto que deve ser discutido e negociado em conjunto com os vários países, numa altura em que o peso da dívida está em níveis quase insuportáveis.
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Lettre de Charles de Gaulle à sa mère | L’Allemagne se redressant deviendra plus arrogante, et finalement ne nous paiera pas à beaucoup près ce qu’elle nous doit.

Ma chère Maman,

Voici donc la paix signée. Il reste à la faire exécuter par l’ennemi, car tel que nous le connaissons, il ne fera rien, il ne cédera rien, il ne paiera rien, qu’on ne le contraigne à faire, à céder, à payer, et non pas seulement au moyen de la force, mais bien par la dernière brutalité. C’est le seul procédé à employer à son égard. Ses engagements sont une fumée, sa signature une mauvaise plaisanterie. Heureusement nous tenons, et il nous faut absolument garder, la rive gauche du Rhin. Les motifs d’y demeurer ne manqueront certes pas, car je ne crois pas une seconde à des paiements sérieux d’indemnités de la part de l’Allemagne. Non pas certes qu’elle ne puisse payer, mais parce qu’elle ne le veut pas. Nous allons donc nous heurter de suite à toute cette science de chicanes gémissantes, de délais prolongés, d’entêtements sournois, qui est la plus claire aptitude de cette race. Nous avons éprouvé cette science à mainte occasion, et notamment à propos de chacun des articles du traité d’armistice qu’il fallut plusieurs interventions impatientées du maréchal Foch pour faire exécuter à peu près.

Seulement nous n’allons plus avoir à brandir d’épée flamboyante, avec nos troupes démobilisées, et celles de nos alliés rentrées chez elle. Au fur et à mesure des années, l’Allemagne se redressant deviendra plus arrogante, et finalement ne nous paiera pas à beaucoup près ce qu’elle nous doit. Il faut craindre du reste que nos alliés ne soient d’ici à très peu de temps nos rivaux et ne se désintéressent de notre sort. La rive gauche du Rhin devra donc nous rester.

ENTREVISTA | Francisco Bethencourt | “O império português é talvez o mais flexível a gerir populações coloniais até ao século XVIII”

Francisco Bethencourt faz uma história do racismo no mundo ocidental. É uma obra surpreendente, publicada em inglês, e que traz à historiografia portuguesa uma ambição temática a que não estamos habituados.
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O historiador português Francisco Bethencourt, que publicou o livro Racisms: from the crusades to the twentieth century (Princeton University Press), não é, definitivamente, um saudosista do luso-tropicalismo do sociólogo e ensaísta brasileiro Gilberto Freyre. Não defende que o império colonial português tenha sido menos racista do que impérios como o britânico.

O seu livro, ao convocar um tema como o racismo e ao fazer uma história comparativa, vai ao coração das sociedades coloniais e à gestão dessas populações. Como é que se deve lidar com a intensa miscigenação no Brasil dos portugueses com a população indígena e com os escravos africanos, consequência de uma reduzida emigração de mulheres portuguesas logo desde o início da colonização? Porque é que esta população de raça mista ganhou muito mais privilégios sociais e políticos do que no império britânico? Porque é que na América do Norte no século XIX a raça mista desapareceu das classificações raciais e posteriormente passou a ser possível ser apenas branco ou preto? Por que razão, ao contrário, no fim do período colonial no Brasil a nomenclatura racial chegou a ter 150 categorias?

LER TUDO: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-imperio-portugues-e-talvez-o-mais-flexivel-a-gerir-populacoes-coloniais-ate-ao-seculo-xviii-1660324

Lettre du Général de Gaulle au Président du Conseil Paul Reynaud

Laissez-moi dire sans modestie que je suis le seul capable de commander ce corps qui sera notre suprême ressource.

De-gaulle-radio

Quelques jours avant l’appel du 18 juin, et d’écrire l’une des plus glorieuses pages de l’histoire de France, le général de Gaulle s’adressait une dernière fois au Président du Conseil, Paul Reynaud. Dernière tentative avant l’inéluctable ou mise au clair de ses idées, voici l’une des dernières lettres du général de Gaulle avant de devenir le sauveur de la France et le héros de la seconde guerre mondiale.

Monsieur le Président,

Nous sommes au bord de l’abîme et vous portez la France sur votre dos. Je vous demande de considérer ceci :

1. Notre première défaite provient de l’application par l’ennemi de conceptions qui sont les miennes et du refus de notre commandement d’appliquer les mêmes conceptions.

2. Après cette terrible leçon, vous qui, seul, m’aviez suivi, vous êtes trouvé le maître, en partie parce que vous m’aviez suivi et qu’on le savait.

3. Mais une fois devenu le maître, vous nous abandonnez aux hommes d’autrefois. Je ne méconnais ni leur gloire passée ni leurs mérites de jadis. Mais je dis que ces hommes
d’autrefois – si on les laisse faire – perdront cette guerre nouvelle.

4. Les hommes d’autrefois me redoutent parce qu’ils savent que j’ai raison et que je possède le dynamisme pour leur forcer la main. Ils vont donc tout faire aujourd’hui comme hier – et peut-être de très bonne foi – , pour m’empêcher d’accéder au poste où je pourrais
agir avec vous.

5. Le pays sent qu’il faut nous renouveler d’urgence. Il saluerait avec espoir l’avènement d’un homme nouveau, de l’homme de la guerre nouvelle.

6. Sortez du conformisme, des situations « acquises », des influences d’académie. Soyez Carnot, ou nous périrons. Carnot fit Hoche, Marceau, Poreau.


7. Venir près de vous comme irresponsable ? Chef de cabinet. Chef d’un bureau d’étude ? Non ! J’entends agir avec vous, mais par moi-même. Ou alors, c’est inutile et
je préfère commander !

8. Si vous renoncez à me prendre comme sous-secrétaire d’Etat, faites tout au moins de moi le chef – non point seulement d’une de vos quatre divisions cuirassées – mais bien du corps cuirassé groupant tous ces éléments.

Laissez-moi dire sans modestie, mais après expérience faite sous le feu depuis vingt jours, que je suis le seul capable de commander ce corps qui sera notre suprême ressource. L’ayant inventé, je prétends le conduire.

Général de Gaulle

José Pacheco Pereira | Bloquear, bater contra uma parede, chegar a um beco sem saída…

portugal-bandeiraComo é que não há bloqueio se numa sondagem a sério, as eleições, apenas 27% votou nos dois partidos do governo, nos dois sublinhe-se, e em sondagens mais precárias, mas todas coincidentes, mais de 60% dos portugueses querem Costa à frente do PS e pouco mais de 18% querem Seguro? Com este estado de opinião e voto, como é que a maioria dos portugueses se pode sentir representada pelos partidos que se reivindicam do “arco da governação”?
(…)
Se a vida fosse a ideal, o PSD mudaria de liderança, mas, mais importante que tudo, deixaria para trás esta continuada traição ao seu programa, à sua génese, ao seu papel histórico (…)

http://www.publico.pt/politica/noticia/bloquear-bater-contra-uma-parede-chegar-a-um-beco-sem-saida-1639798?page=-1

Carlos Zorrinho | O PS, as primárias e o País (artigo publicado hoje no Expresso)

PS-Carlos-Zorrinho-1Retirado do mural do Facebook de Carlos Zorrinho

O PS, as primárias e o País (Artigo Publicado hoje no Jornal Expresso)

O tempo é um dos principais ingredientes da dinâmica política. Sobretudo em democracia os ciclos políticos tendem a ser fundamentais nas lógicas de alternância e de alternativa. O Partido Socialista estava a viver até 27 de Maio um ciclo político natural. Um Secretário-geral eleito e reconfirmado em Congresso, conduziu o Partido à vitória nas eleições autárquicas e nas eleições europeias e preparava-se para fechar o ciclo, disputando a liderança do Governo.

Os ciclos políticos, como praticamente tudo em política, são passíveis de alteração e disruptura. A partir da análise dos resultados das eleições europeias, reconhecidos militantes socialistas colocaram nos órgãos de Partido e fora deles a questão de saber se a incapacidade do PS em captar à abstenção uma significativa parte dos descontentes com a governação, obtendo um resultado abaixo das expetativas, deveria ser motivo para forçar a quebra dum ciclo político natural de liderança, pela primeira vez na história do PS.

Do meu ponto de vista, os fatos alegados são importantes, merecem reflexão, mas não são suficientes para interromper um ciclo natural de liderança. Por isso votarei no Secretário-geral em exercício nas primárias de 28 de Setembro.

Dito isto, imposta olhar em frente. A arte da política também é transformar dificuldades em oportunidades. Se o PS tem um problema de mobilização dos eleitores então está chegado o momento de contribuir para o resolver e as eleições primárias podem dar um forte impulso no reforço da ligação do partido à sociedade.

Para isso as candidaturas têm que respeitar a grandeza e a importância do PS na sociedade portuguesa. Devem competir por ideias e por propostas e não devem ceder a nenhuma tentação de menosprezar a história do partido ou de lavar “roupa suja” enquanto as pessoas esperam ver soluções concretas para os seus problemas.

O desafio à liderança do PS escancarou o partido perante a sociedade. Se as pessoas gostarem do que lhe for mostrado podemos estar perante a abertura de um novo ciclo de reforço da participação política e da democracia em Portugal.

Neste contexto a responsabilidade dos potenciais candidatos a Primeiro-Ministro é enorme, e qualquer eventual excesso de um dos lados não justifica a resposta nos mesmos termos da outra parte.

Olho por olho, dente por dente será neste caso uma tática suicida em que todos perderão, dentro e fora do PS.

Com naturalidade, quem souber manter uma postura de Estado e combater pela elevação das propostas é quem levará a melhor e retomará o caminho da disputa pela governação do País, espero que com um exército ainda mais forte e motivado.

O território da vingança e do ressabiamento é pura areia movediça. Quem lá entrar suicida-se politicamente e com isso enfraquece um dos principais esteios da democracia portuguesa. Comigo ninguém contará para isso.

O fascínio pelo PCP | ADELINO FORTUNATO | Jornal Público

Jeronimo de Sousa_zorateO PCP enquadra as mobilizações e acaba por esgotá-las num ponto em que nada mais resta senão a indignação contida.

A subida de votação nas europeias e uma aparente coerência do discurso de tom crítico em relação ao euro estão a dar ao PCP uma oxigenação política que há muito não sentia. Observadores de vários quadrantes não se cansam de elogiar o desempenho da CDU.

O caso não é para menos, considerando o acréscimo de mais de 35000 votos em relação a 2009, num contexto marcado pela abstenção e pelas ameaças populistas, e considerando que o PCP não costuma tirar partido da volatilidade eleitoral e das transferências interpartidárias, uma vez que a sua arma principal reside no efeito fidelidade de uma base de votantes fixa.

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A French message to Britain: get out of Europe before you wreck it | Michel Rocard

michel-rocardThere is, between you and us continental Europeans, a disagreement which is turning ugly. Your immense history justifies a limitless admiration for you. You were the inventors of democracy and of human rights, you dominated the world for centuries, first ruling the oceans and after that the world of finance. And when apocalypse threatened, your courage and tenacity – you held on long, American and Russian help arriving late in the day – saved our honour and freedom.

We know this and we have never shied away from saying, including in this commemorative week, that we owe you an immense debt. This should not, however, allow you to treat us with contempt and double-dealing.

You do not like Europe – that is your right and it is understandable. You nevertheless joined 41 years ago, but on a misunderstanding. You never shared the true meaning of the project which Winston Churchill, speaking on your behalf, set out in Zurich in 1946 with his incredible words: “We must build a kind of United States of Europe … Great Britain, the British Commonwealth of Nations, mighty America – and, I trust, Soviet Russia … must be the friends and sponsors of the new Europe and must champion its right to live.”

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