Independência de las Ramblas por supuesto — um caso pícaro | Carlos Matos Gomes

A declaração unilateral de independência da Catalunha de Espanha é uma sequência pícara. A literatura espanhola tem uma tradição de obras e autores pícaros, desde o clássico Lazarillo de Tormes, de sus fortunas y adversidades, de autor anónimo a La vida del Buscón, de Quevedo, de Alonso moço de muchos amos, de Jeronimo de Alcalá, ao D. Quijote, de Cervantes, a autores mais modernos como Alejandro Swa, cego e louco, que inspirou a figura de Max Estrella a Valle-Inclán, a Pedro Galvez. Puigdemont e a sua declaração de independência e de república das Ramblas acederam neste final de ano às glórias deste subgénero literário em que o protagonista, o pícaro, é quase sempre um humilde arrivista, um anti-herói, um anti-cavaleiro errante numa «epopeia de fome». Uma personagem que sobrevive graças aos enganos e vigarices e vive na ilusão de uma subida na escala social, o seu verdadeiro ideal.

A declaração de independência de Puigdemont a 27 de outubro de 2017, na sala do parlamento catalão, nas Ramblas, é um ato pícaro. Aproveitando a ocasião, os parlamentares presentes declararam também a fundação de uma «República Catalã independente». A cerimónia de apresentação urbi et orbidestas duas cruciais decisões decorreu, como foi possível ver nas reportagens televisivas, num ambiente de velório, com os libertadores da Catalunha e pais fundadores da República de facies de clandestinos, comprometidos, a beberem um copo de espumante, enquanto no exterior subia aos céus um fogo de artifício de arraial de pobre pueblo ao seu santo patrono.

No dia seguinte, o mundo, embora estupefacto, aguardava que o Bolívar da Catalunha, agora presidente da nova republica oferecida pelos catalães ao concerto das nações, tomasse posse com pompa e circunstância adequadas, numa cerimónia sem luxos faraónicos, mas digna, que passasse revista às tropas em parada, jurasse defender e governar os catalães com justiça perante um juiz do supremo tribunal e um livro sagrado ou profano, reunisse a assembleia, aprovasse uma constituição, apresentasse um pedido de aceitação como membro das Nações Unidas, cunhasse moeda, enviasse embaixadores aos países amigos e instituições relevantes, oferecesse um jantar aos embaixadores acreditados e chefes de estado convidados, que o povo cantasse e dançasse, que os navios da armada catalã salvassem do mar e os aviões de caça da força aérea republicana atroassem os ares sobre La Diagonal, o Camp Nou, a catedral da Sagrada Família e as Ramblas, claro.

No mínimo dos mínimos, republicanos e monárquicos, novos catalães e velhos espanhóis, esperariam que o novo chefe de Estado se instalasse no palácio presidencial e dali acenasse à multidão, com o chapéu alto e a esposa, agora primeira dama, ao lado.

Sabe-se o que aconteceu: Em vez de partir para a guerrilha libertadora numa Sierra Maestra nos Pirinéus, o novel chefe de estado, presidente da República da Catalunha, tirou com um disfarçado telemóvel uma foto de um escritório manhoso, publicou-a nas redes sociais a enganar a populaça, convencendo-a de que estava em assinaturas e despachos, enquanto escapava às escondidas como um contrabandista para Bruxelas, acompanhado por uns comparsas. Em vez do grito Patria ou Muerte, gritou na Grand Place: Sai uma dose de moules e frites!

Os chefes republicanos independentes desde a véspera, que permaneceram em Barcelona sem saber de que terra eram, obedeceram de cabeça baixa às autoridades espanholas, foram revistados e presos em Alcalá como delinquentes comuns, incluindo uma senhora com o ar aflito de quem não pagou a renda.

Nem num teatro de robertos há memória de uma cena tão absurda e tão triste, que não chega a ser drama nem comédia, apenas pícara. Nem nos saloons dos filmes do faroeste, nas cidades de minas esgotadas, o can-can é tão decadente, o sheriff tão desmiolado, os cowboys tão desajeitados.

Dois meses mais tarde, por ordem do governo de Espanha, realizam-se eleições para novo governo na Catalunha, necessárias por causa da algazarra anterior, da fuga do gerente da taberna e da prisão dos sócios, das inquietações da clientela sobre o futuro do tasco. Os catalães, já declarados independentes de Espanha e republicanos, mas convenientemente esquecidos, votam por ordem de Espanha e da monarquia, obedecendo — independentistas e republicanos — sem estremeções nem na consciência nem na moral republicana, dentro da lei do Estado espanhol.

O patibular estado espanhol até permite que os catalães residentes, desde que possuidores de bilhete de identidade de espanhóis, votem livremente em espanhóis da Catalunha fugitivos de 5 estrelas em Bruxelas à justiça de Espanha, e em presos à sua ordem nas masmorras de Madrid. De facto, o governo de Madrid trata o Puigdemont como um D. Quixote tonto, sem capacete, mas de cabeleira em tecido de alcatifa e o Junqueras como um Sancho Pança, que não passa de um bobo sem graça

O governo de Espanha olha com ofensiva condescendência para estes pícaros e para a reinação que armaram.

Perante os resultados das eleições, favoráveis ao independentismo, o presidente da República Catalã, a monte em Bruxeles, propõe de lá conversações com o presidente do governo Espanhol ubicado em Madrid. Isto é, Puigdemont quer conversar com quem não reconhece (ou não devia reconhecer, pois desde 27 de outubro é presidente de uma república que instituiu, o que lhe confere o estatuto de trabalhador por conta própria, liberto de patrões) e que não o reconhece a ele. Quer conversar com quem e a que título? Há gente nos hospícios por estas confusões de se julgarem o Napoleão a discutir com o Czar da Rússia.

Embora o Puigdemont esteja de presidente da República numa vilegiatura em Bruxelas não deveria, por um mínimo de senso, enquanto chefe de Estado, propor conversações ao seu homólogo, o rei, chefe de Estado espanhol, em vez de descer do seu pedestal para conversar com um simples primeiro-ministro, para mais galego? Não. Puigdemont não está seguro nem da independência, nem da república, nem de si, nem da sua sanidade mental.

Mas, enquanto Puigdemont, por teleconferência, propõe conversações com o chefe de governo de Espanha, o seu advogado esclarece que não é bem assim. Se o seu cliente, que é arguido, vier para Espanha, mesmo só para conversar sobre aquela tonteria de ter declarado uma independência, a justiça espanhola marimba-se para o seu estatuto de presidente de opereta, com melena e cascol amarelo de periquito, cumpre o seu papel e prende-o, se acaso não decidir sujeitá-lo a exames para o declarar inimputável.

Isto é, ou o presidente da picaríssima «republica catalana» continua a governar pelo Skype, por teleconferência, ou vai governar da prisão ou para um manicómio!

Depois destas cenas pouco edificantes, desta embrulhada que o Dom Roberto das Ramblas armou, os adeptos de Puigdemont, afirmam que quem tem um problema é o presidente do governo espanhol, Rajoy! Não, o verdadeiro problema é a existência de uns tipos em Madrid, numa instituição designada por Audiência Nacional, que levaram a sério a declaração de independência de Puigdemont! Tipos de preto, sem sentido de humor. Os juízes de Madrid estragaram a brincadeira no recreio de Puigdemont e dos seus colegas de turma. O parlamento das Ramblas era, afinal, uma loja de brinquedos da Toysrus, um parque de diversões para infantes a jogar aos presidentes!

Tramados ficarão os futuros desempregados.

Quanto ao Rajoy, à primeira vista, deve ter o mesmo problema do meu gato a brincar com uma mosca que escorrega no vidro da janela à espera que caia, enquanto ela tenta atravessar o vidro que não vê.

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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