Os Rothschild não são menos corruptos que os Espírito Santo! | Carlos Matos Gomes in Blog ” Medium”

Ontem estive na SIC Notícias a falar sobre o 25 de Abril e a reedição do meu romance Nó Cego. Isto porque a questão colonial e a guerra foram a causa profunda do 25 de Abril e do derrube de um regime assente na exploração colonial e no domínio policial da população. Em 25 de Abril esse regime chegou ao seu fim, para ser substituído por um regime de normalidade democrática europeia, não colonialista, de economia liberal e com um sistema político de democracia parlamentar.

Surgem no ecrã do estúdio as reportagens a acompanhar o noticiário — uma delas o jantar comemorativo organizado pela Associação 25 de Abril e duas entrevistas a dois dos meus camaradas e amigos, Otelo e Vasco Lourenço. Pergunta: qual é a principal falha do regime que vivemos hoje, 44 anos após o 25 de Abril. Resposta de ambos: a corrupção! Pergunta-me a jornalista Teresa Dimas: Concorda que a corrupção é o principal problema de Portugal 44 anos após o 25 de Abril?

Não. Não concordo e por várias razões.

A corrupção não é devida à instauração do regime democrático. O Estado Novo era um regime baseado na corrupção: O condicionamento industrial assentava na corrupção. Foi a corrupção, a corrupção de estado, que possibilitou a emergência das sete ou oito famílias donas de tudo isto. Melos, Champalimaud, Espirito Santo, Vinhas, Cupertino…

A democracia não inventou a corrupção — democratizou-a e abriu-a a outros agentes. Mas mais, com o fim da censura, a democracia publicitou a corrupção através da liberdade de informação e através da fragmentação partidária, introduziu-a no sistema judicial. Os partidos passaram a utilizar o sistema judicial para incluírem as acusações de corrupção na panóplia de armas da luta política/eleitoral. A corrupção entrou como elemento de disputa pelo poder, em conjunto e em concorrência com as eternas maleitas do Serviço Nacional de Saúde, os sazonais incêndios e outras calamidades, as deficiências do sistema escolar, do saneamento básico, ou das obras públicas.

A corrupção não é um mal nacional exclusivo, como é difundido na opinião publicada.

Não há corrupção em Portugal? Claro que sim, há, mas:

O problema da corrupção em Portugal é mais grave do que nos outros países? Somos intrinsecamente corruptos? É por sermos latinos? Católicos? Somos uma choldra como não há outra? Os políticos portugueses sofrem de um aleijão que os faz corruptos sem cura desde que são eleitos?

As respostas da vox populi parecem ser: Sim.

Mas não é verdadeira. Ou, para ser verdadeira, teríamos de nos comparar com os que nos acompanham neste planeta.

Apenas uma lista feita de lembranças de escândalos de corrupção.

Tivemos ou temos aqui em Portugal algum caso parecido como o escândalo da Lockheed (hoje Lockheed Martin), companhia americana de construção de aviões e de armamentos, fabricante do Hercules, por exemplo? Entre 1950 e 1970 a Lockheed distribuiu comissões por meio mundo, os casos mais emblemáticos foram na Alemanha Ocidental, ao ministro da Defesa Franz Joseph Strauss, para comprar F-104 Starfighter. Na Itália os beneficiados incluíram o primeiro ministro Mariano Rumor e o presidente da Republica Giovanni Leone. No Japão a corrupção atingiu o primeiro ministro Tanaka e um herói de guerra Minoru Genda (que curiosamente comandou o ataque a Pearl Harbour). Mas o maior volume de comissões foi pago na Arábia Saudita. Na Holanda, o corrompido foi o príncipe Bernhard, marido da Rainha Juliana. O caso foi arquivado pela justiça americana e a Lockheed Martin vale hoje na Bolsa 68 mil milhões de dólares, está prospera e não se fala mais no assunto.

Quanto a submarinos, só existiu corrupção em Portugal? Empresas alemãs estão sob suspeita de corrupção no caso do submarino argentino ARA San Juan, recentemente desaparecido no mar. A Ferrostaal e a EnerSys-Hawker forneceram as baterias e pagaram comissões para conseguir o contrato e terão fornecido peças de qualidade inferior. Em França as autoridades investigam a atuação da estatal DCNS no esquema de corrupção envolvendo a construção de submarinos contratada pelo governo brasileiro.

A Siemens, alemã, e a BP, anglo-holandesa, estiveram envolvidas em escândalos, uma na corrupção para fornecimento de comboios e de centrais eléctricas nos EUA e na Europa, a outra num escândalo com exploração de petróleo no México. A Toshiba, do Japão, falsificou as contas em 1,2 mil milhões de dólares.

A Eron, nos anos 90, uma empresa de energia do Texas (que até quis construir uma central a gás em Portugal) tornou-se um sinónimo de contas adulteradas. Com uma contabilidade paralela, um clássico internacional. Estas contas não foram detetadas pela auditora, no caso a Arthur Anderson, outro clássico. A Parmalat, a multinacional italiana fará o mesmo. Contas em offshores e, no final, em 2004, 14 mil milhões desaparecidos. Será a Eron europeia.

O sistema bancário é outro ninho de corrupção a grande escala e não um exclusivo português: O banco Lheman Brothers era americano, em 2008 despoletou a crise do subprime, os produtos tóxicos do crédito hipotecário que contaminaram o sistema financeiro mundial. Resultado: 540 mil milhões de dólares no vazio. Os contribuintes de todo o mundo, incluindo os portugueses, pagaram os milhões injectados para reembolsar os grandes cúmplices, a seguradora AEG e o Goldman Sachs e ainda sobrou para comissões milionárias aos gestores.

Bernard Madoff, considerado o maior burlão da história, não era português. Nem se chamava José Sócrates, nem Ricardo Salgado. Teve negócios da ordem dos 50 mil milhões de dólares.

Quer isto dizer que a corrupção não é um problema em Portugal? Não. Quer dizer que sendo um problema, não é problema. Quer ainda dizer que a corrupção não é uma fatalidade nacional. É um problema como muitos outros, da falta de respeito pelo horários ao absentismo, da ideia de que existe um “Eles é que sabem” e que a culpa é sempre deles, de um eles, dos outros.

Quer ainda dizer que existe uma intenção política na exacerbação da corrupção — a de associar o regime democrático à corrupção para contestar o regime democrático. É um ato político deliberado de manipulação política.

O aproveitamento do caso Sócrates insere-se nesta manobra que tem como arma de resposta a acusação de que quem assim o considera ser acusado de defender Sócrates e a sua inocência, de defender a corrupção. É pura mistificação, mas resulta. Não é disso que se trata, como é óbvio, mas de desmascarar a utilização para fins partidários e ideológicos de um caso de justiça, de eventuais crimes de corrupção, que a justiça deveria julgar com isenção e serenidade.

O problema em Portugal é o da desigualdade e o da produtividade. O problema em Portugal é preparar a sociedade para os desafios do presente e do futuro. E como se faz? Faz-se com educação — dotar as atuais e as futuras gerações de competências para enfrentar situações novas — e com coesão social: educar para a solidariedade — em conjunto somos mais fortes — e combater o individualismo. Os neoliberais estão na posição contrária.

A percepção de Portugal como país corrupto e de corruptos não corresponde à realidade e nem sequer ajuda a combatê-la. O que ajuda a combatê-la é despartidarizar a justiça, para que a luta da corrupção seja retirada da luta partidária e colocada nos seus lugares: como um crime, em termos de sistema judicial/penal e como uma atitude reprovável perante a sociedade.

Estamos a fazer alguma coisa neste sentido?

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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