Europa marítima e Europa continental - novos papéis | Carlos Matos Gomes

Substituir a Inglaterra como a potência marítima da Europa

A Europa, pelo menos desde as cruzadas, dividiu-se e articulou-se segundo dois polos: um polo atlântico, que fez dela uma potência marítima, e que incluiu as Ilhas Britânicas, a Holanda e Portugal, e um polo continental constituído com base no império de Carlos Magno, com a França, a Alemanha e o Norte de Itália, ao qual se associou a Espanha, que construiu um império nas Américas e no Pacífico (Filipinas), absorvido pelos ingleses.

Estes dois eixos mantiveram-se até à II Guerra Mundial. Nós, portugueses, pertencemos desde sempre ao “círculo” marítimo — a Batalha de Aljubarrota e o casamento do novo rei com Felipa de Lencastre são um exemplo, o apoio à restauração da soberania através de um rei português e a expulsão da rei espanhol é outro, assim como o decisivo apoio inglês contra as invasões napoleónicas. Até o ultimato inglês a propósito da presença portuguesa numa área de África é, no fundo, uma imposição da pertença de Portugal no “círculo” da potência marítima contra a tentação de se aliar à potência continental, na altura a Alemanha de Bismark.

O resumo pode ser demasiado sintético, mas a ideia da existência de dois eixos permanente na formação do poder da Europa parece corresponder a uma constante milenar.

A derrota da Inglaterra na II GM (foi a potência europeia que sofreu a maior derrota, pois perdeu o império, perdeu o papel de centro emissor da moeda de comércio mundial, a libra, e perdeu o papel de potência marítima, que passa a ser desempenhado pelos Estados Unidos) culmina agora com o Brexit.

Com o Brexit a Europa perde a sua referência marítima. A Inglaterra assume-se como um mero estado vassalo dos EUA para representar os seus interesses na Europa, o mesmo que Israel representa no Médio Oriente.

A proposta de Macron de uma União Europeia com três círculos de integração, que o presidente francês apresentou na Sorbonne, em Setembro de 2017, tem sido acompanhada de uma outra menos explícita, que é a da constituição do que pode ser designado como uma “espinha dorsal” para a nova União Europeia, que ligaria Lisboa, Madrid, Paris e Berlim.

É significativo que os chefes de governo de Portugal, de Espanha, de França e de Alemanha tenham passado a reunir-se constituindo um grupo de interesses específicos.

Estes quatro Estados podem representar a reconstituição dos dois vectores em que historicamente a Europa se articulou, com uma potência marítima, que seria representada pelos dois Estados peninsulares e pela França e a Alemanha, os tradicionais Estados continentais.

Construir com a Península Ibérica o substituto das Ilhas Britânicas como base do poder marítimo europeu é, julgo, uma excelente oportunidade para Portugal em termos estratégicos, económicos e político. Um papel que Portugal tem desempenhado ao longo da sua história como potencia marítima, que poderá ser reforçado.

Carlos Matos Gomes in Medium.com

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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