A ÉTICA DE ESPINOSA (1632-1677)  Ramiro Marques 

A Vida
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Baruch de Espinosa nasceu em Amesterdão, filho de pais judeus, oriundos de Espanha, que se mudaram para Portugal e daí para a Holanda, por causa das perseguições religiosas. Educado na comunidade hebraica de Amesterdão, começou por receber os ensinamentos tradicionais do talmudismo. O pai era um próspero negociante que via, com alguma desconfiança, a preferência que o filho dava aos estudos filosóficos e teológicos. Espinosa era um estudante notável que preferia passar o tempo na biblioteca da Sinagoga do que no escritório do pai. Começou por estudar a Bíblia e o Talmud, ainda muito jovem. Ainda adolescente, estudou as obras de Maimónides, Levi Bem Gerson, Ibn Ezra e Hesdai Crescas. Impressionou-o a identificação de Deus com o Cosmos, a eternidade do Mundo, e a ideia de que a matéria do Universo seria o corpo de Deus. Em Maiomónides, tomou contacto com a teoria averroístas da impessoalidade da alma e da unidade do intelecto. A leitura atenta de todos os grandes filósofos judaicos levou-o a descobrir contradições no Antigo Testamento e a duvidar da interpretação que dele fazia o judaísmo ortodoxo.

A sua curiosidade levou-o a aprender latim, com o mestre holandês, Van den Ende, de forma a poder ler os filósofos cristãos da Idade Média. Do encontro com o mestre Van den Ende resultou a grande paixão de Espinosa pela filha que, no entanto, não se sentiu atraída pela grandeza intelectual do filósofo. Apesar de não Ter sido capaz de atrair as atenções da jovem filha do seu mestre de latim, Espinosa ficou equipado para poder penetrar na leitura de Platão, Aristóteles, Demócrito, Epicuro e Lucrécio. Foram, sobretudo, os filósofos atomistas, principalmente Demócrito, que conquistaram o seu coração. Mas a insaciável curiosidade de Espinosa não o fez ficar por aqui. Estudou os escolásticos, apreciou Giordano Bruno e fixou-se no seu contemporâneo Descartes. Em 1656 foi expulso da sinagoga de Amesterdão, acusado de blasfémia, após o que viveu em várias cidades holandesas, dedicando-se ao ofício de polidor de lentes. Sobre o episódio da excomunhão, Will Durant, na História da Filosofia, diz o seguinte: “Foram estes antecedentes mentais do jovem (nascera em 1632) cuja aparência tranquila dissimulava uma profunda agitação interior e que se viu intimidado a comparecer perante os velhos da sinagoga para se defender das heresias. Seria certo – perguntaram-lhe – que andava a propalar que o corpo de Deus era o mundo da matéria, que os anjos eram alucinações, que a alma não passava da vida e que o Velho testamento nada dizia sobre a imortalidade? Ignoramos a sua resposta.

Só sabemos que lhe foi oferecida uma anuidade correspondente a 500 dólares em troca de manter-se , pelo menos na aparência, leal à sinagoga e à velha fé. Espinosa recusou a oferta – e a 27 de Julho de 1656 foi solenemente excomungado de acordo com o rito hebreu” (1). Diz-se que Espinosa recebeu a excomunhão com estoicismo, afirmando apenas: “não me compele a nada”. O ano de 1656 marcou o início de uma prolonga aventura solitária para Espinosa. Teve de abandonar Amesterdão para sempre, já que todos os judeus ficaram proibidos de lhe dirigir a palavra. O pai recebeu com grande irritação esta atitude do filho. A irmã abandonou-o à sua sorte e terá mesmo tentado prejudicá-lo na herança paterna. Foi, nessa altura, que Baruch Espinosa passou a assinar Bento Espinosa e foi viver, quase incógnito, para o sótão de uma casa, em Outerdek, não muito longe de Amesterdão. Em 1660, o filósofo muda-se para mais longe, indo viver para Rhynsburg, perto da cidade de Leyden. Foi durante os cinco anos que passou em Rhynsburg que escreveu o tratado Da Reforma do Entendimento e a Ética Demonstrada Geometricamente. Temendo represálias, tanto dos cristão, como dos hebreus, Espinosa não quis publicar a Ética, mas preocupou-se em deixá-la pronta para publicação após a sua morte. E com efeito a Ética é publicada, pela primeira vez, em 1677. Os únicos livros que Espinosa publicou em vida foram Os Princípios da Filosofia Cartesiana (1663) e o Tratado TeológicoPolítico (1670). mesmo assim, o último foi publicado anónimo. Apesar de Espinosa ter levado uma vida relativamente solitária, a verdade é que se correspondeu com muitos intelectuais da sua época. Em 1665, doze anos antes de morrer, mudou-se para Voorburg, nos arredores de Haia e, em 1670, foi viver para Haia, onde permaneceu os últimos sete anos da sua vida. Aí travou amizade com um importante político, De Witt, que o protegeu.

O assassinato de De Witt, às mãos da multidão enfurecida, acusado de responsabilidade pela derrota das tropas holandesas pelas francesas, em 1672. Quando a sua fama de grande filósofo ecoava por toda a Europa, teve oportunidade de recusar o convite para leccionar Filosofia na Universidade de Heidelberg, com o argumento de não estar interessado em trocar a sua liberdade e independência de espírito pelas limitações impostas à vida de professor universitário. Quando Espinosa morreu, em 1677, tinha apenas 44 anos de idade. Deixou uma das mais importantes obras filosóficas de todos os tempos. O seu tratado Ética é, ainda hoje considerado uma obra-prima da fiolosofia. As sua obras principais foram: Ética Exposta ao Modo Geométrico; Tratado Teológico-Político; Tratado da Reforma do Entendimento; Epistolário. A Obra A melhor forma de conhecer o pensamento ético de Espinosa é ler a Ética. Este tratado não pode ser lido como um livro vulgar. Exige leituras parciais espaçadas no tempo, com avanços e recuos. Só após uma Segunda ou uma terceira leitura é que o leitor começa a perceber o texto. è preciso ter em consideração que o tratado foi escrito em latim e que Espinosa faz uso de uma terminologia filosófica muito própria, com paralelo apenas na filosofia escolástica. As semelhanças formais e estruturais entre a sua escrita filosófica e a escrita dos escolásticos do século XIII é muito evidente. O leitor precisa de tomar consciência do verdadeiro significado das palavraschave de Espinosa: substância, perfeito, ideal, objectivamente e formalmente. Substância é o mesmo que realidade; perfeito significa completo; ideal é o mesmo que objecto; objectivamente quer dizer subjectivamente; formalmente significa objectivamente. Sobre os cuidados a ter no estudo da Ética de Espinosa, Will Durant avisa: “Em resumo, Espinosa não é filósofo para ser lido, mas sim estudado; temos que nos aproximar dele como nos aproximamos de Euclides, admitindo que nessas breves duzentas páginas um homem lançou o pensamento de toda uma vida, numa escultura estóica onde todo o supérfluo foi omitido.

Não espereis apanhar-lhe a essência numa rápida leitura; nenhuma outra obra filosófica como esta em que o mais pequeno pormenor possa menos impunemente ser desdenhado. Cada parte depende das antecedentes; algumas proposições óbvias e na aparência desnecessárias surgem de súbito como pedras angulares de um soberbo desenvolvimento lógico” (2). O sistema ético de Espinosa inclui três palavras-chave: substância, atributo e modo. O vocábulo modo significa toda a forma ou figura particular que passageiramente a realidade assume. Por exemplo, o meu computador, a minha casa ou o meu corpo são modos. A realidade subjacente é a substância. Ou seja, a substância não é a matéria constituinte de qualquer coisa, como vulgarmente se supõe. Os escolásticos, onde Espinosa foi buscar o termo, usavam o vocábulo substância para querem dizer a essência. Para Espinosa, a substância é o que é. Dito por outras palavras, é o que não muda e é eterno. Na Reforma do Entendimento, o filósofo terá oportunidade de dividir o Mundo em substância e modo.

A substância é a eterna ordem das leis e das relações invariáveis. O modo é a ordem temporal das coisas perecíveis. Substância para Espinosa é o mesmo que ordem eterna para os escolásticos. Espinosa identifica a substância com a Natureza e com Deus: “à maneira dos escolásticos, concebe a natureza sob um duplo aspecto; como um processo vital e activo, a que chama natura naturans, natureza naturante e como o produto passivo de tal processus, natura naturata – natureza criada, e material e conteúdo da natureza – as árvores, ventos, águas, as montanhas ou campos e miríades de formas externas” (3). Portanto, a substância é a natureza activa, ou Deus, e o modo é a natureza passiva, a matéria, ou o Mundo. É por isso que Espinosa afirma no Tratado Teológico-Político que as leis universais da natureza e os eternos decretos de Deus são uma e a mesma coisa. Espinosa vai tirar da sua noção de substância uma teoria da liberdade que se afasta do livre arbítrio: a vontade de Deus e as leis da natureza, sendo uma e a mesma realidade, diversamente expressa, segue-se que todos os fenómenos são o efeito mecânico de leis invariáveis e não joguete de um autocrata irresponsável entronizado lá nas estrelas. O mecanismo que Descartes viu unicamente no corpo e na matéria, Espinosa Vê-o em Deus e na alma. O Mundo é regido pelo determinismo e não pela finalidade. Porque agimos em vista a fins conscientes, supomos que todos os fenómenos se produzem em função de tais fins; e porque somos humanos, cremos que todos os acontecimentos se reportam ao homem e que tudo se destina a satisfazer as suas necessidades.

Mas isso é uma ilusão antropocêntrica, como tantos outros dos nossos pensamentos” (4). A visão panteísta de Espinosa leva-o afirmar que a vontade de Deus é a soma de todas as causas e leis e que o intelecto de Deus é a soma de todos os pensamentos. É por isso que afirma que o espírito de Deus é a mentalidade difusa no espaço e no tempo, a consciência difusa que anima do Mundo. Will Durant estabelece a seguinte comparação entre o sistema ético de Espinosa e os sistemas clássico e cristão: “hoje só subsistem três sistemas de ética, três concepções de carácter ideal e de vida moral. Uma é de Buda e Jesus, que dá preponderância às virtudes femininas; que considera todos os homens igualmente preciosos; que resiste ao mal contrapondo-lhe o bem; que identifica virtude com amor e se inclina, em política, para a ilimitada democracia. Outra, é a ética de Maquiavel e de Nietzsche, que dá preponderância às virtudes masculinas, que aceita a desigualdade dos homens; que se deleita nos riscos do combate, da conquista e do mando; que identifica virtude com poder e exalta a aristocracia hereditária. Uma terceira, é a de Sócrates, Platão e Aristóteles, que nega a aplicabilidade universal quer das virtudes masculinas quer das virtudes femininas; que considera que somente os espíritos maduros e bem informados podem decidir, de acordo com as circunstâncias, quando deve imperar o amor e quando deve imperar o poder; que identifica virtude com inteligência e advoga no governo uma mistura de democracia e de aristocracia. O que distingue a ética de Espinosa é que ela reconcilia inconscientemente essas filosofias aparentemente hostis e que as enlaça numa unidade harmoniosa e nos apresenta desse modo um sistema de moral que é o do pensamento moderno” (5). Para Espinosa, a felicidade é o objectivo da conduta. O que é a felicidade? É simplesmente a presença do prazer e a ausência da dor. Contudo, prazer e dor são categorias relativas e subjectivas. O prazer é a transição de um estado inferior de perfeição para um estado superior. A dor é a transição de um estado superior de perfeição para um estado inferior.

A emoção é a modificação do corpo, por meio da qual o poder de acção do corpo é aumentado ou diminuído. Uma emoção é boa quando aumenta o poder de acção do corpo e é má quando diminui esse poder. Uma virtude é um poder de agir, uma forma de capacidade. O carácter transitório, passageiro e relativo das paixões e das emoções é um dado adquirido na ética espinosista. A partir destas definições é possível verificar que o filósofo edifica a sua ética, não na base do altruísmo, bondade natural ou solidariedade, mas sobre uma realidade natural que considera o egoísmo inevitável e justificável à luz da natureza humana. Espinosa afasta-se da tradição ética cristã porque considera que um sistema moral que ensina o homem a ser fraco é destituído de valor. À semelhança de Hobbes e de Nietzsche, o filósofo de ascendência portuguesa não atribui grande qualidade à humildade e ao remorso, preferindo acentuar as virtudes relacionadas com a capacidade de agir e com o poder. Apesar disso, e ao contrário de Hobbes e Nietzsche, admira a modéstia e lamenta o orgulho. No fundo, a sua ética é mais grega do que hebraica ou cristã. A noção socrática de que a compreensão e o conhecimento são as bases da virtude, é muito cara a Espinosa. Distingue-o dos gregos, a diferenciação que estabelece entre razão e paixão: “ele sabe que se a paixão sem razão é cega, a razão sem paixão é morta. Uma emoção só pode ser detida ou removida por outra emoção, contrária e mais forte. Em vez de inutilmente opor razão à paixão – caso em que o elemento de maiores raízes ancestrais sempre vence – Espinosa opõe às paixões desordenadas as paixões coordenadas pela razão e perfeitamente reguladas pela perspectiva total da situação. Ao pensamento não deve faltar o calor do desejo, nem ao desejo a luz do pensamento” (6).

Ou seja, os apetites gerados por ideias adequadas são virtudes, mas, quando gerados por ideias inadequadas, são paixões. Embora Espinosa insista na ideia de que ninguém é verdadeiramente livre, embora todos tenham a ilusão da liberdade, acrescenta que a acção da razão é libertadora e a passividade às paixões é escravizante. Só somos livres quando sabemos. O sobre-humano não é, à maneira de Nietzsche, o que ostenta a sua superioridade aristocrática, mas sim o que alcança a tranquilidade, a paz e a harmonia do espírito. Ser grande não significa permanecer acima dos outros, mas conseguir ultrapassar as paixões inadequadas, isto é, as paixões que limitam e distorcem as nossas capacidades para agir: “esta é uma liberdade mais nobre que aquela que os homens chamam livre arbítrio, porque a vontade nem é livre nem talvez seja vontade. E ninguém suponha que porque não é livre deixa de ser moralmente responsável pela sua conduta e pela estrutura da sua vida. Exactamente porque as acções dos homens são determinadas pelas suas lembranças, a sociedade precisa, para se proteger, de formar os cidadãos dentro do quadro das suas esperanças e receios num certo grau de ordem e de cooperação sociais. Toda a educação pressupõe o determinismo e inculca no espírito aberto da juventude um conjunto de proibições destinadas a determinar-lhes a conduta” (7).

O determinismo de Espinosa faz-nos lembrar a resignação, autodomínio e persistência dos estóicos. O determinismo espinosista habilita-nos a esperar e a suportar com coragem os azares da fortuna. Sabemos que tudo o que acontece não pode deixar de acontecer, de acordo com as leis naturais e a alta vontade de Deus. Não há lugar, na ética de Espinosa, para o queixume, a lamúria e a inveja. A infelicidade encontra justificação na sucessão e na estrutura eterna do Universo. Conformado face ao infortúnio, o homem de Espinosa ergue-se contra a desordem das paixões e atinge a serenidade da contemplação, vendo tudo o que acontece como partes de uma ordem eterna e universal, face à qual o homem não tem poder de interferência. Com a ética de Espinosa, assiste-se ao desabar do antropocentrismo, ficando, de ora em diante, o homem colocado no seu verdadeiro lugar na ordem eterna do Universo: um lugar, cuja ausência, não faz falta. O Deus de Espinosa é uma entidade muito próxima do Deus de Platão: um ser de tal forma grande e poderoso que não tem tempo nem paciência para se absorver nos negócios dos homens. Este sistema ético “ajuda-nos a dizer sim à vida e também à morte…Com a ampliação das suas perspectivas, esta filosofia acalma os nossos atormentados eus; reconcilia-nos com as limitações dentro das quais os nossos propósitos têm de ser circunscritos. Pode levar à resignação ou à passividade oriental; mas é também a base indispensável de toda a sabedoria e força” (8).

O panteísmo de Espinosa encerra a noção da imortalidade de uma forma muito diferente do conceito criado pelo Cristianismo: “enquanto partes do todo somos imortais. O espírito humano não pode ser absolutamente destruído com o corpo; parte dele permanece eterna, a parte que concebe as coisas sub specie aeternitatis; quanto mais concebemos desse modo as coisas, mais eterno é o nosso pensamento” (9). Mas distingue eternidade de perpetuidade. A eternidade não pode confundir-se com duração. Tão-pouco, a memória individual pode sobreviver à morte do corpo, porque o espírito só pode lembrar-se quando está no corpo. Também não acredita em recompensas após a morte. Aquele que, em vida, serve a Deus, obtém a recompensa enquanto vive, na serenidade e tranquilidade que andam associadas à felicidade, pois a bem-aventurança não é a recompensa da virtude mas a virtude em si. A imortalidade do pensamento justifica-se porque a verdade é uma criação permanente, constituindo uma aquisição eterna do homem. É no Tratado Político-Teológico que Espinosa procede à explanação do seu pensamento político. O carácter inovador do pensamento político de Espinosa é surpreendente. Na mesma época, Hobbes fazia o elogio da monarquia absoluta. Espinosa, amigo do republicano De Witt, fazia a defesa do liberalismo político, acalentando esperanças na democracia holandesa. “Toda a filosofia política, pensa Espinosa, deve basear-se na distinção entre ordem natural e ordem moral, isto é, entre a existência antes e a existência depois da formação das sociedades organizadas. Espinosa supõe que os homens já viveram em completo isolamento, sem lei ou organização social; não havia então, diz ele, conceito do justo e do injusto; direito e força era tudo a mesma coisa” (10).

Defensor da mínima intervenção possível do Estado na vida das pessoas, Espinosa entende que a função do Estado é promover o desenvolvimento e assegurar a liberdade. Promover o desenvolvimento não significa fazer leis que sufoquem a iniciativa individual. Perante leis injustas e Estados prepotentes, o indivíduo pode recorrer ao protesto razoável, envolver-se na discussão e fazer uso da palavra, caso seja dada liberdade para reivindicar pacificamente as mudanças. Acima de tudo, Espinosa defende a liberdade da palavra. Sem ela, todas as leis se tornam injustas, porque o homem deixa de respeitar as leis quando não as pode criticar. “Quanto menor for o poder do Estado sobre o espírito, tanto melhor para o Estado e para o indivíduo. Embora reconhecendo a necessidade do Estado, nele não confia Espinosa, pois o poder corrompe ainda os incorruptíveis; e não olha com favor para a extensão da sua autoridade sobre a alma e o pensamento dos homens; seria isso o termo do desenvolvimento e a morte da sociedade. Por isso, desaprova a direcção do Estado no que respeita à educação, especialmente nas Universidades. Sobre as Universidades públicas, Espinosa afirma que as academias criadas e financiadas pelo estado se destinam não a libertar os espíritos mas a sufocá-los. O ensino livre constitui para o filósofo uma condição do estado livre. O seu ideal educativo é semelhante à paideia grega, uma sociedade de intelectuais, constituída por indivíduos livres, que viajavam de cidade em cidade a ensinar, sem nenhuma fiscalização por parte do Estado. Sobre as formas de governo, Espinosa não hesita em dar a sua preferência à democracia, porque nela cada qual se submete à fiscalização de todos e a voz da maioria é lei sem abafar ou impedir o direito à palavra das minorias.

O contraste entre Hobbes e Espinosa é evidente. Embora contemporâneos, encontraram soluções diferentes para os problemas da moral. à ideia de que o homem é o lobo do homem, tão querida a Hobbes, prefere Espinosa a ideia do amor à verdade como o valor humano mais importante. Liberdade, razão e felicidade constituem três ideias-chave na ética de Espinosa. Força, domínio e conquista representam as traves mestras da filosofia de Hobbes. Para Hobbes o Estado existe para impedir que os homens se devorem uns aos outros. Incapaz de assegurar a ordem, a sociedade civil entrega o poder ao Estado que, a partir desse momento, não pode conhecer limites ao exercício do poder. Para Espinosa, pelo contrário, o Estado existe para promover os bens humanos e não apenas para impedir que os homens se matem uns aos outros. Espinosa justifica o seu determinismo com uma teoria do universo: “o universo é uma construção singular na qual o todo determina cada uma das partes. Explicar qualquer assunto é compreender que e como esse assunto deve necessariamente ser como é, dado que todas as outras coisas também são como são. Se tentarmos analisar algo fora desse sistema, estaremos a analisar qualquer coisa ininteligível, uma vez que ser inteligível é ser exibido como parte do sistema. O nome deste sistema singular é Deus ou Natureza. Não há, por isso, qualquer bem distinto da totalidade das coisas. Os atributos de Deus, eternidade e infinito, pertencem à única substância que é a Natureza ou Deus” (11).

Quais são as implicações para ética do panteísmo espinosista? “o crente judeu ou cristão pensa em Deus como um ser separado do universo, e nos mandamentos divinos como preceitos externos a que se deve obediência. Espinosa não desvalorizava a utilidade para as pessoas vulgares de uma moral supersticiosa de obediência externa. Mas a contrapartida de compreender Deus como idêntico à Natureza é entender a ética como o estudo, não de preceitos divinos, mas como preceitos que emergem da nossa própria natureza e daquilo que necessariamente nos move. A nossa natureza como seres humanos é existir como sistemas que se autopreservam e se automantêm” (12). Os seres humanos são uma unidade de corpo e alma. A partir dessa realidade unitária, o filósofo holandês de origem portuguesa desenvolve uma esquema que é uma tentativa importante para compreender a relação entre a razão, as paixões e a liberdade. Enquanto que, para Hobbes, o homem é simplesmente conduzido pelas paixões, para Espinosa é graças à razão que é possível o controlo das paixões. Ou seja, Hobbes considera que a razão serve apenas para conhecer os factos, calcular e compreender. A razão não conduz a acção. Espinosa afirma que os objectos associados ao prazer são desejados, enquanto os objectos associados à dor são evitados. Mas, quando o homem procura o prazer e evita a dor é afectado por causas que fogem ao controlo do conhecimento racional. O mesmo acontece com as emoções da alegria, orgulho, medo, ódio, etc. Contudo, a ausência do controlo exercido pelo conhecimento racional cessa quando o homem toma consciência da sua natureza e poder.

Ou seja, o autoconhecimento liberta. Por que razão o conhecimento liberta? Porque quanto mais sabemos, mais reconhecemos as condições de gestação das emoções e das paixões. Só dessa maneira o homem deixa de ter razões para se queixar dos outros ou de si próprio. Dessa forma, a inveja, o ódio e a culpa deixam de ter significado, porque é impossível uma pessoa se zangar com aquilo que não pode deixar de ser assim. Ninguém pode desejar o impossível e se as coisas não puderem ser diferentes daquilo que são, deixa de ter sentido a inveja e o ódio. De comum com Hobbes, apenas a ideia de que o Estado é necessário porque cada pessoa procura, acima de tudo, os seus próprios interesses, procurando expandir o seu próprio poder. Mas, para Espinosa, o Estado não deve ir além do assegurar da liberdade para que cada um possa perseguir o seu ideal de felicidade. De Espinosa já se disse quase tudo. Alguns elogiam o seu ateísmo sistemático, outros o seu panteísmo. Muitos acentuam o seu racionalismo absoluto e houve quem lhe chamasse um grande místico. Crítico da teocracia e do absolutismo monárquico, Espinosa é um percursor do liberalismo. Embora tenha levado uma vida algo solitária, sabemos que colaborou activamente com a política liberal de Jan de Witt, oposta ao partido absolutista dos orangistas. Neste sentido, o Tratado Teológico-Político pode ser visto como a tradução teórica do seu envolvimento com os liberais. Com a Ética, Espinosa faz-nos crer que a salvação humana começa pelo conhecimento e que a democracia constitui um regime político mais desejável do que a tirania porque se apresenta como mais racional e permite uma maior acumulação de potência, a potência de todos os indivíduos reunidos. No Tratado da Reforma do Entendimento, Espinosa defende que a falsidade consiste em afirmar algo que não está contido no conceito de uma coisa.

O conceito de substância, identificado com Deus e com a Natureza, possui infinitos atributos. Deus é a única substância, e como substância que não depende de nada, é indeterminada e infinita. Vejamos o significado do conceito de Deus em Espinosa: “Por Deus entendo um ser absolutamente infinito, isto é, uma substância que consta de atributos infinitos, cada uma dos quais expressa uma essência eterna e infinita” (13). E por substância, o filósofo entende ser “aquilo que é em si e se concebe por si, isto é, aquilo cujo conceito, para formar-se, não precisa do conceito de outra coisa” (14). É possível vislumbrar uma tábua de virtudes na Ética: potência, poder, autodomínio, resignação, aceitação, amor e, acima de tudo, inteligência e conhecimento. Como vícios, a soberba, a inveja e o ódio.

Notas

1) Durant, W. (s.d). História da Filosofia. (Prefácio, revisão, notas, glossário e textos escolhidos por Joel Serrão). Lisboa: Livros do Brasil, p. 160

2) idem, p. 173

3) ibid, p. 174

4) ibid, p. 176

5) ibid, p. 182

6) ibid, p. 186

7) ibid, p. 187

8) ibid, p. 188

9) ibid, p. 189

10) ibid, p. 191

11) MacIntyre, A.A (1998). A Short History of Ethics. Notre Dame: University of Notre Dame Press, p. 141

12) idem, p. 142

13) Espinosa (1998). Ética.Parte I, VI, p. 47

14) idem, Parte I, III, p. 46

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