Anda a sentir falhas acentuadas de memória? António Damásio explica porquê.

O neurobiologista esteve na Fundação José Neves para explicar a importância dos sentimentos na nossa vida e na saúde mental. E dizer-nos como a consciência é o princípio para a regulação e equilíbrio do nosso corpo

Se depois deste confinamento pandémico começou a ter falta de memória, não é de admirar. Este pode ser um quadro generalizado ao ser humano depois da crise pandémica. Esquecemo-nos dos nomes (até dos colegas), dos sítios, do que deveríamos fazer… A que se deve? Ao “retiro do treino individual”, na opinião do neurobiologista António Damásio, que esteve à conversa com José Neves no evento anual da Fundação.

“A falta de treino acarreta falta de memória”, porque o nosso cérebro “precisa de uma reativação constante para que se mantenha no nosso mundo”, explica o neurobiologista atualmente a viver em Los Angeles, Estados Unidos. “Há coisas que as pessoas só agora se vão aperceber”, avisa, alegando ainda que “há toda uma série de fenómenos que terão de ser estudados” decorrentes desta disrupção causada no mundo pela pandemia. “E que podem abrir novos caminhos no campo da Ciência”, projetou o cientista, mostrando-se esperançoso e otimista.

“Sentir, saber e ser” foi o mote da conversa de António Damásio com o próprio José Neves, no quadro de um dos pilares primordiais da FJN, o do desenvolvimento pessoal, para a qual lançou a aplicação 29k FJN. Lamentou-se o modo como as emoções são desvalorizadas pelas sociedades atuais, e “como os sentimentos emocionais” são vistos como “um empecilho” às nossas vidas.

Há consequências? Quais? “Suprimir as emoções e não tratar corretamente o que nos preocupa leva à saúde mental”, responde, taxativo, António Damásio. É daí que nascem as depressões, as neuroses, tudo doenças “redutoras da nossa capacidade de criação”. Para além das consequências pessoais, há as sociais. “Suprimir os bons sentimentos humanos” pode levar-nos a fazer coisas extremamente más, a ficarmos imunes à violência, por exemplo.

“O afeto tem um valor fundamental”, reforça o professor. “Não é só pensar no êxito ou no sucesso”, é preciso “ser mais abrangente e ter compaixão”, até porque o que nos diferencia “é o sentir, o realizar o que é a vida”. Até porque conhecer as nossas vulnerabilidades torna-nos mais fortes, “o que parece paradoxal, mas não é”.

O sentir e a homeostasia

Antes da conversa, António Damásio deu uma pequena conferência onde explicou os processos da consciência e das descobertas mais recentes, para a qual “o sentir” se tornou primordial para a homeostasia, o processo que leva ao equilíbrio do nosso corpo. “Uma procura essencial na nossa vida”, sublinhou Damásio.

“Há uma crise de relações humanas, que exacerba os conflitos e os confrontos na comunicação social e reduz as capacidades de negociação e as possibilidades de encontro de soluções construtivas para os problemas que estamos a enfrentar”, começou por dizer. Para encontrar “estratégias de resposta a esses problemas” é necessária uma educação que integre “conhecimentos sobre biologia”.

“A ideia de que poderíamos abordar os problemas dos seres vivos sem conhecer os pormenores dos processos da vida não faz sentido”, sublinhou. “É preciso perceber o que é a vida” e a sua fisiologia, para uma melhor gerência dos problemas.

“O acontecimento principal do mundo natural é a vida. E a nossa conceção da vida está geralmente dominada por aquilo que mais facilmente percebemos à nossa volta, o que podemos ver, ouvir e conhecer pelo tato. Aquilo que sentimos, de bom e de mau, tende a ser posto de lado e a ser visto como uma espécie de empecilho à realização dos nossos intuitos, é uma menos valia. E, pelo contrário, o que acontece é que a forma de conhecer aquilo que somos e o que é o mundo à nossa volta, passa pelo sentir. O sentir é o alicerce, é o princípio do que é o nosso ser e do que vai ser o nosso saber. Sem esse princípio do sentir, não é possível progredir no conhecimento do que são os seres humanos e tentar corrigir o que está errado numa sociedade”, explica o neurobiologista.

É no sentir, portanto, que começa “o fenómeno a homeostasia, que é o que permite a regulação da nossa vida no interior do nosso corpo”, prossegue. “Quando a homeostasia se combina com a presença de sistemas nervosos vamos aceder à possibilidade do sentir e ter esse alicerce que vai ser tão importante para o saber, para o pensar”, precisou Damásio, sublinhando ser esta “uma história muito diferente da que era geralmente contada, e que esteve na base do seu livro A Estranha Ordem das Coisas.

A consciência como fator de equilíbrio

Vejamos como se estabelece a consciência em cada um de nós “em três etapas importantes”: “Há a maquinaria do ser corporal que traz a possibilidade de consciência básica. Quando sentimos sede, fome, bem estar, mal estar, dor, desejo, são os que nos permitem aceder à consciência e que nos trazem conhecimento do que somos neste momento; segue-se uma maquinaria de perceção, visual ou auditiva, a nossa possibilidade de imaginação e também diversas capacidades cognitivas, como a memória, o raciocínio, a possibilidade da linguagem e criatividade; e a isto junta-se uma outra maquinaria que é a das emoções, certos processos motores, que nos permitem reagir a situações complexas, como medo, alegria ou compaixão.”

E assim chegamos à “consciência alargada daquilo que é o mundo à nossa volta”, que nos vai permitir “ter a noção da nossa própria precaridade, do que é o risco para a nossa vida. E também o que é o vislumbrar da felicidade e do florescimento humano”.

Foi esta consciência que nos permitiu “desenvolver algo de novo, que não estava no plano da biologia”: as culturas humanas, ou seja, tudo aquilo que regula a nossa vida. Como os sistemas políticos e económicos, a medicina, as artes, as leis e até a própria inteligência emocional. “Isto é uma projeção do que é a nossa própria vida e a própria regulação da nossa vida no nosso corpo. Inventamos esquemas para regular a nossa vida, para assim conseguir o melhor equilíbrio da vida humana.”

Conseguir ligar a biologia à física é agora o desafio de António Damásio. “A vida e a sua regulação homeostática tem a ver com as partículas”, atira. Mas esta será já um outro nível de descobertas.

Retirado do facebook | Mural de Revista Visão 

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