Carta aos meus filhos sobre Freitas do Amaral (onde se fala do CDS) | por Luís Osório

1.

Sabem o que sou politicamente.

Sou do mesmo lugar onde sempre me encontraram.

Mas sabem também da minha vontade que sejam abertos para o mundo, a vontade que escutem todas as partes, que conheçam as histórias de mulheres e homens que não pensam como eu.

Nestes dias em que se anuncia a morte do CDS gostaria de vos falar de um homem que morreu há dois anos, os mais velhos sabem quem foi, os outros um dia saberão.

Chamava-se Diogo Freitas do Amaral

2.

Foi um vencedor.

Um vencedor que não marcou golos como os gigantes do futebol, um vencedor que perdeu as batalhas políticas mais importantes da sua vida, um vencedor que viveu os últimos anos da sua vida condenado pelas elites políticas e jornalísticas ao estatuto de personagem secundário.

É um interessante paradoxo.

Fundou o CDS. Mas no CDS não gostavam dele. Chegaram a tirar a sua fotografia da sede, Paulo Portas condenou-o ao ostracismo. Como antes condenara Lucas Pires.

Interessante que agora são os mesmos que condenaram Freitas do Amaral ao esquecimento a rasgarem as vestes contra a incrível falta de democracia interna e memória por parte da nova liderança.

Mas isso fica para o nosso almoço.

3.

Freitas do Amaral candidatou-se à Presidência da República quando eu tinha apenas 14 anos. ~

Adorava que pudessem ter visto.

O país dividiu-se. De um lado, Mário Soares. Do outro, Diogo Freitas do Amaral. Esse mesmo, o homem que morreu há pouco mais de dois anos num hospital, o vencedor que parecia condenado a não o ser, a pessoa de que vos quis falar.

O país dividiu-se, contava. No final, ganhou Soares por menos de dois por cento. E Diogo ficou os vinte anos a seguir a pagar as dívidas da campanha. Deixaram-no na mão, pendurado. Mas pagou-as até ao último cêntimo. Foi muito difícil, mas fez o que tinha de ser feito. E tornou-se amigo íntimo de Soares, vejam bem.

4.

Fez depois o que nunca se pode fazer, mudou de barricada. Quando tal se faz está-se lixado para sempre. Os que são abandonados nunca perdoam. Os que acolhem nunca veem quem entra como um dos seus. Chegou a ser ministro no primeiro governo de José Sócrates. Não correu bem. E saiu um ano depois, não estava para aturar a política e os políticos.

Afastou-se e soube fazer silêncio. Escrever. Ouvir. Estar com as pessoas de quem gostava, pessoas que foram diminuindo com o tempo. Pensou sobre o que fora o seu caminho. Sobre os quatro magníficos que nos partidos construíram a democracia em Portugal, ele e mais três: Soares, Sá Carneiro, Cunhal.

Numa última conversa que tivemos, talvez há uns cinco anos, confessou-me que morreria democrata-cristão, o que sempre fora. Uma ideologia que o tempo foi condenando, nunca se conseguiu adaptar a essa morte política.

5.

Tudo isto para vos dizer… que as vitórias não dependem da quantidade de vitórias que se conquistam, mas da qualidade do que se faz. Da coragem de desempenhar um papel, do que se deixa, do que se combate, do que se desiste, do que se acredita.

Um vencido pode ser um vencedor no fim. E pode acontecer o contrário, nunca se esqueçam. Diogo Freitas do Amaral foi um português que o país escutava quando falava na sua voz pausada de professor. Fazia-se silêncio.

E André, Miguel, Afonso e Benedita, deixem-me que vos peça: não tenham medo de fazer silêncio, de o convocar e de reconhecer os homens e mulheres que, pela sua mera presença, vos obriguem a isso.

LO

Retirado do facebook | Mural de Luís Osório

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