Andréia Kmita | A tecer reflexões em Madrid sobre liberdade

Submersa no meu país, verde vivo de sangue…

Um hoje sem fim

——

Talvez eu não amanheça

nessas palavras de ontem,

antes que me esqueça

trago também notícias do além;

ponteiro pulou hora e me escapei,

sumi sem rumo, andando a cansar

sola, tremendo a arrastar

perna do torpedo que levei.

De repente a fumaça

A empurrar minha carcaça

Do chão a cruz do limbo,

Parecia paz de cachimbo,

Mas era pura desgraça!

Antes tamanha fosse a graça

De ser posto ao centro da praça

E atomatado de graça.

Show de luzes, puta psicodelia

Gratuita cruzando céu parecia,

Fosse noutro tempo o cão

Na praça salvava o cidadão

De ser, ao dormir, levado

Do pé da porta do sagrado,

talvez nem nesse ato estaria

se soubesse do maio

de 69 às pompas do Rio.

Uma caça desvairada

Que o frio medo não punha,

Medonha era a campanha

Que propunha Arte ceifada.

Ai, meus cinco poemas rasgados

Ai, minhas cinco telas cortadas

Ai, minhas cinco canções apagadas

Ai, minhas cinco cenas queimadas

Ai, minha boca sendo amarrada,

Ai, como era sem a censura o céu?

Ai, como era, como era eu?

Voos livres de pássaros destarte

A cantar por toda lúcida parte

Sua arte de voar em liberdade,

Sim, eu era uma ave livre

Para falar, pintar e cantar,

Para escrever versos e amar,

Para crescer e sonhar

Sem a desmesura da escuridão,

Que nos veio inaugurada

Como em toda suja madrugada

Postos decretos à ruptura

de toda acessível cultura.

Neguei-me! Compus gritos

nas ruas, choquei a vizinha

ao ler dos meus escritos

e inflamar as entrelinhas.

Pronto! Portas fechadas

Às nacionais alegrias minhas,

Ei de escrever nos últimos versos

Dantes os membros mortos

E a boca costurada, matada,

Avisos que estou recordada.

“Escrevo berros desumanos,

A mostrar pra toda gente efeitos

Que no silêncio imposto foram

E n’alma liberdade sonharam.

Como se a caneta fosse granada,

Punham-me de madrugada

Como tábua de tiro ao alvo

A tecer dentro de mim verso,

Sem espaço a se furar profundos

Pois fundos já eram os buracos

Dentro do coração”.

Retirado do Facebook | Mural de Andréia Kmita

Pode ser uma imagem de 1 pessoa, sentada, oceano e texto que diz "escrita un"

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