Pasolini e o sagrado | Abílio Hernandez

Sou ateu, disse Pasolini, mas a minha relação com as coisas está cheia de mistério e de sagrado. Nada para mim é natural, nem sequer a natureza.

Para Pier Paolo, o sagrado não é um conceito religioso, uma fuga ao presente ou uma fixação nostálgica no passado. É uma transcendência sem o divino, um mistério, uma alteridade incondicional e irredutível. Pertence ao domínio do sonho e da utopia, mas mantém uma relação intensa, simultaneamente distante e familiar, com a realidade quotidiana.

O sagrado representa para ele tudo o que foi sendo destruído por um poder que privilegia o fetichismo dos bens materiais, a uniformização dos costumes e do pensamento, a mercantilização do viver. É a diversidade, são as diferenças étnicas, os dialetos destruídos pela língua hegemónica, as tradições ancestrais, o instinto, a afirmação do corpo, a sexualidade plena. São todas as formas alternativas de liberdade. Nele reside o que em cada um de nós é inviolável, inapropriável pela realidade quotidiana.

Ao mesmo tempo familiar, íntimo, e longínquo, misterioso, como o hóspede de “Teorema”, o sagrado manifesta-se na obra de Pasolini como uma epifania e só pode ser apreendido pelo olhar dos puros, como Stracci, o pobre diabo faminto de “La Ricotta”, o esfomeado que morre empanturrado da sua própria fome, amarrado a uma cruz, quando representa o papel do Bom Ladrão, numa filmagem da crucifixão do Cristo, perante os bem alimentados e aperaltados representantes do poder local, que ali foram apreciar o espetáculo da representação.

O sagrado de Pasolini tem o tempo circular da natureza, dos rituais arcaicos que celebram a morte e a regeneração da terra. Porque só a morte dá sentido à vida: no exato momento em que para o Cristo tudo está consumado, ou quando Accatone, o Cristo chulo da borgata romana, murmura, moribundo, “mo stou bene”.

O sagrado é, pois, em Pasolini, um conceito político, resultante de um olhar antropológico sobre a lógica utilitarista que domina as relações sociais e sobre o poder que tem a ilusão de que é possível possuir as pessoas e as coisas. A burguesia não ama a vida, escreveu, possui-a, ou melhor, tem a ilusão de a possuir. É por isso urgente uma nova epifania. Herética.

O cinema é para ele o instrumento poético dessa revelação. Irremediavelmente solitário, homossexual assumido, intelectual incondicionalmente comprometido, comunista heterodoxo e cedo desiludido, herético sem remissão, Pasolini morre assassinado em 2 de novembro de 1975, num terreno baldio próximo de Ostia. A sua morte não foi um crime passional, foi um crime político. Pier Paolo foi brutalmente assassinado pela sociedade mercantilista a que sempre resistiu e sempre denunciou.

Nos cem anos do seu nascimento, celebremos a vida e a obra de uma das figuras mais singulares da nossa contemporaneidade.

Retirado do Facebook | Mural de Abílio Hernandez

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