Talvez uma crónica por António Paiva

Nascemos impregnados de uma estranha substância que nos deprime, e nos confere uma estranha apetência cultural para a infelicidade. E ao que parece só a inacção nos consola, porque nos preserva o gozo de sofrer.

Secretamente todas as mulheres desejam um homem que tenha em si algo de poeta. Durante o ritual de conquista todos eles ensaiam versos até no olhar. Elas encarnam o papel de musas. Mas a convivência prolongada acaba por provocar a erosão. O erotismo arrefece e inicia-se a terrível dança do suportar a presença do outro com mais ou menos subtileza. É terrível de dizer, é chocante ler, constrangedor falar, insuportável admitir. Mas é a realidade disseminada no lar doce lar comum. À noite vem a ânsia de apagar a luz, esconder suspiros na almofada e fixar o olhar na parede – vidas tão comuns como o respirar.

Habitamos um mundo de tal modo organizado que perdemos a liberdade, abdicamos das emoções e censuramos o desejo. A eficiência e a eficácia material anulam o saber do espírito, tornamo-nos autómatos como as máquinas que nos substituem nas tarefas. Dizem que crescemos intelectualmente, que nos tornámos mais inteligentes – não estou certo disso – o que sei é que perdemos a coragem e a determinação. Porque ligar uma máquina que nos substitui não carece de coragem nem de determinação. Basta um gesto vulgar; pressionar um botão. O homem delega e ao delegar demite-se – anula-se.

Passamos tanto tempo nos lugares e nunca lá estamos. Vamos mas não estamos. E às vezes bastava um pequeno gesto, uma carícia, para nos colocar lá, e tudo seria substancialmente diferente, substancialmente melhor. Temos muitas vidas terrenas antes da última, mais nenhuma depois dela – já escutei crenças – não mais do que isso. Em que acredito eu?, acredito que o medo corrompe e corrói, e temos tanto medo de nós, que culpamos terceiros. E porque ainda ninguém a escriturou notarialmente como propriedade sua – a culpa morre sempre solteira.

António Paiva

O Processo é o Projecto por Márcia Novais em 16 de Outubro de 2010 in PNETdesign

Eram nove quando chegamos à Casa da Música. Ainda não estava muita gente por lá, e as que estavam eram maioritariamente funcionários ou da organização da AGI. Ficamos uns dez minutos à espera para levantarmos os bilhetes, mas ninguém estava na bilheteira; alguém nos veio dizer que só abria às 9.30 e que fôssemos tomar um café – o horário das AGI começava às 10, o que não aconteceu, contribuindo para o atraso geral durante o dia. O tema foi o Processo é o Projecto, sendo expectável que os intervenientes apresentassem o seu processo de trabalho, fosse em relação apenas a um projecto ou à sua forma de trabalhar. As conferências seriam de vinte minutos, desde a manhã até ao final da tarde. Houve duas alterações no alinhamento: o irmão de Javier Mariscal veio substituí-lo e Henrik Kubal veio por vez de Étienne Mineur.

Paula Scher fez uma breve introdução à Alliance Graphique Internacionale, contextualizando a sua origem e passado até ao presente; criada no pós-Guerra por suíços e franceses, teve até hoje cerca de seiscentos membros.

Chico e Rita foi o filme de animação que Javier Mariscal fez durante seis anos. Não sendo um projecto restritamente gráfico, os cenários estavam muito bem trabalhados, principalmente na replicação da tipografia de cada cidade. No entanto, toda a apresentação incidiu mais no processo do aspecto musical do filme, o que reduziu a sua abrangência.

Desde há muito que sigo o trabalho do colectivo A2. Henrik Kubal apresentou vários projectos, no qual se depreendeu uma certa obsessão com a perfeição, através do contínuo processo de trabalho à volta da font New Rail, que irá ser posta à venda em breve.

A intervenção de Marjan Bantjes foi extremamente sedutora para o público. Quando nos falou do seu processo de trabalho, falou-nos de tudo o que nós gostaríamos que acontecesse connosco: primeiro, dorme muito (disse isso enquanto nos mostrava imagens da sua cama, da sua poltrona, chaise-longue (…)) e que as suas melhores ideias são as quando acorda. Depois pensa sobre o trabalho e são projectadas imagens do seu alpendre ou da sua sala de estar. Depois começa a trabalhar e fica horas a olhar para o trabalho para perceber como está a correr. Depois finaliza-o, consoante o media em que está a trabalhar. Uma das conclusões que temos do seu processo de trabalho, o que já tinha levantado por Kubal, é a ideia de desistir e começar de novo e de aproveitar algo deste processo.

Process is what happens to you while you’re making other plans. Esta apropriação de Abbott Miller explica o seu método de trabalho. Através de pequenas analogias como A book is a movie you hold in your hands ou An exhibition is a room with a plot, foi apresentado o seu trabalho relativo a cada frase, tocando ali e aqui no processo.

Stefan Sagmeister está para o design como o Morrissey está para a música. Apresentou novamente The Happy Designer, que começa a ser uma revisitação constante de cada conferência. Apesar disso, ele é um entretainer. Tal como Miller, através de statements, foi mostrando projectos.

O momento em que Bruno Monguzzi se coloca no meio do palco a gritar por Sara (Fanelli) a simular carícias, é provavelmente um dos mais memoráveis de toda a AGI. No entanto, devo dizer que o mais me interessou foi a forma como ele vê que a tipografia deve ser utilizada: esta deve funcionar da mesma maneira que o locutor usa a voz e as mãos.

Michael Bierut finalizou, trocando as voltas em relação às outras apresentações. O que mostrou foi um projecto que, a nível processual, foi atribulado, começando por erros ortográficos (Have you red?), subestimação do público-alvo e ainda a percepção que as pessoas que usufruem das bibliotecas não entendem o que ele fez, dando mais valor ao trabalho comissariado de ilustração que ao rebranding das bibliotecas.

No final, a ideia transversal a todas as apresentações foi a de give up and start over. Curioso ainda, perceber que os grandes – sim, grandes, sendo a AGI um grupo de elite – também se vêem aflitos quando encaram o brief. Um dos maiores problemas das

conferências foi exactamente algumas delas não se focarem no tema; algumas foram apresentações de trabalhos, excluindo completamente a questão do processo. No entanto, a título de exemplo, a apresentação do Peter Knapp das revistas Elle dos anos 60 foi muito interessante, ou ainda, a de Ang Sang-Soo.

No todo, o balanço é positivo. Uma sala cheia para assistir a conferências sobre design indica que há um público para estas e que, provavelmente, deverão acontecer mais. Assim o espero.

Márcia Novais

Nadine Gordimer dá voz a “O Centauro” de José Saramago

“I’m Nadine Gordimer and I’m going to read a story of the great José Saramago”: assim começa a leitura do conto “O Centauro”, incluída no livro “Objecto Quase” (1978), hoje publicada na série de short stories da versão online do jornal britânico The Guardian.

Esta gravação faz parte da série de contos escolhidos por grandes escritores que o The Guardian está a publicar desde o dia 21.

Nadine Gordimer considera que este texto é “uma fábula extraordinária”, que fala de “uma criatura imaginária, algo que é maior e melhor e diferente de um homem”. “Este é o sonho de uma criatura que é metade cavalo, metade homem, com a força física de um cavalo e a complexidade mental de um homem”,  e que aborda o conflito entre a mente e o corpo”.

A série de contos que o The Guardian publica nas semanas de Natal e Ano Novo começou com a leitura, por Zadie Smith, de “Umberto Buti” de Giuseppe Pontiggia. Seguiram-se Richard Ford a ler “The Student’s Wife”, de Raymond Carver, RuthRendell com a leitura de “Canon Alberic’s Scrapbook” de M.R.James e, ontem, Simon Callow com “A Árvore de Natal” de Charles Dickens.

Prémio Nobel da Literatura em 1991, a escritora sul-africana nasceu em Joanesburgo em 1923 e é autora de “Um mundo de estranhos”, “A história do meu filho” e “O fim dos anos burgueses”, entre outros romances.

Nadine Gordimer e José Saramago foram amigos, cruzaram-se em diversos continentes em conferências e apresentações de livros um do outro. Estiverem presentes ambos em 2001 no centenário do Prémio Nobel, em Estocolmo. Saramago participou num livro organizado por Gordimer a favor da luta contra a Sida na África do Sul e no mundo.

Nadine Gordimer