A DESCOBERTA DO CORPO | SIMONE DE BEAUVOIR

“Desde que lhes desvendara o seu mistério, os livros proibidos amedrontavam-me menos; muitas vezes deixava demoradamente cair o meu olhar nas aparas de jornais pendurados nos W.C.. Foi assim que li um fragmento de folhetim em que o herói pousava sobre os seios brancos da heroína os seus lábios ardentes. Esse beijo queimou-me: simultaneamente macho, fêmea e “voyeur”, dava-o, recebia-o e enchia-me os olhos. Decerto, se senti uma tão grande emoção era porque o meu corpo já tinha despertado, mas os meus devaneios cristalizaram-se nesta imagem e não sei quantas vezes a evoquei antes de adormecer. Inventei outras: interrogo-me de onde as extraía. O facto de marido e mulher dormirem quase despidos na mesma cama não tinha bastado até então para me sugerir o abraço ou a carícia: suponho que os inventava a partir das minhas próprias necessidades, pois fui durante algum tempo o alvo de desejos torturantes; virava-me na cama com a garganta seca, chamando por um corpo de homem que viesse contra o meu corpo, por mãos de homem que tocassem a minha pele.

Calculava com desespero: “É proibido casar antes dos quinze anos!” E mesmo assim era uma idade mínima: era preciso esperar anos e anos para que o meu suplício acabasse. Começava docemente: no calor morno dos lençóis e no formigueiro do meu sangue, os meus fantasmas faziam-me deliciosamente pular o coração; pensava até que se materializariam; mas não, desapareciam; nenhuma mão, nenhuma boca apaziguava a minha carne irritada; a minha camisa de cambraia era uma túnica envenenada. Só o sono me libertava. Nunca associei estas desordens com a ideias de pecado: a sua brutalidade ultrapassava a minha complacência e sentia-me mais uma vítima que uma culpada. Não me interrogava tão-pouco se as outras meninas conheceriam este martírio. Não estava habituada a fazer comparações.”

— SIMONE Lucie-Ernestine-Marie Bertrand DE BEAUVOIR (9 de Janeiro de 1908 – 14 de Abril de 1986), filósofa, romancista, memorialista, ensaísta, feminista e activista política francesa, in “Memórias de uma Menina Bem-Comportada”, tradução de Maria João Remy Freire, Bertrand, 2.ª ed., 1982, pp. 104-105, primeiro volume das suas memórias, publicado pela primeira vez em França em 1958.

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