Papa cristão | Daniel Oliveira | in Jornal Expresso

Ao defender uma lei civil que enquadre as relações entre pessoas do mesmo sexo, o Papa Francisco não reconheceu ou aceitou o casamento. Mas deu mais um passo. E se este gesto pode não ser importante para o conjunto da comunidade, porque os Estados laicos não precisam de bênção papal para garantirem igualdade de direitos, é-o para milhões de católicos LGBT, que passam a sentir-se um pouco mais em casa na sua Igreja. Como mostrou com os divorciados, o Papa quer recuperar aqueles que a Igreja foi deixando pelo caminho e que já não aceitam a culpa dessa exclusão.

Quer impedir que a Igreja Católica se transforme num reduto de ultraconservadores, incapaz de lidar com a pluralidade dos seus fieis. Dirão que se adapta aos tempos modernos. É o contrário. Estes não são tempos de inclusão e pontes, são de polarização. O Papa Francisco tenta livrar a Igreja de uma guerra cultural que tem sido suicida para sectores políticos tradicionais e que a entregaria a nichos fanatizados. (…) Tenta colocar a Igreja num lugar mais próximo da radicalidade do cristianismo. (…)

Para os que se habituaram a ver a Igreja como um lugar de castigo, que usam o perdão como forma de agressão, que se armam com a religião para perseguir o que não compreendem, que vivem obcecados com o sexo consensual entre adultos mas fecharam os olhos ao abuso de menores, deve ser perturbante ter um Papa cristão.

O Amor é fodido | Miguel Esteves Cardoso | Prefácio de Ricardo Araújo Pereira

“O sobressalto começa no título. Mesmo o leitor menos experiente suspeita que, embora escritores de todos os tempos e lugares se tenham dedicado a tentar definir o amor, talvez seja improvável que alguém alguma vez tenha optado por terminar uma frase começada pela expressão «o amor é» com a palavra «fodido». O amor costuma ter, apesar de tudo, boa imprensa – o que, pensando bem, é incompreensível. Dizer que o amor é fodido é, finalmente, tratá-lo como ele merece. É resumir, para quem não quer perder tempo com eufemismos eruditos, a etimologia da palavra paixão.” Ricardo Araújo Pereira

Baruch Espinosa | Carta sobre o Infinito

CARTA N.° 12 – (OU CARTA SOBRE O INFINITO)

(RIJNSBURG, 20 DE ABRIL DE 1663)

Ao mui sábio e experiente Lodewijik Meijer, doutor em Medicina

Meu excelente amigo,

Recebi duas cartas tuas, uma de 11 de janeiro (que me foi entregue por nosso amigo N.N.) e outra de 20 de março (enviada de Leyden por um amigo desconhecido). Ambas me encheram de alegria, sobretudo porque compreendi que tudo vai muito bem para ti e que te lembras de mim. Agradeço-te pela bondade e pela consideração com que me honras; peço-te para creres que também te sou muito devotado e que me esforçarei para mostrá-lo sempre que a ocasião e minhas fracas forças o permitirem. Para começar, tentarei responder ao que me perguntas nas cartas. Pedes também que te comunique o que penso sobre o infinito. Fá-lo-ei de bom grado.

A questão do infinito sempre pareceu dificílima para todos, até mesmo inextricável, porque não distinguiram entre aquilo que é infinito por sua natureza, ou pela força de sua definição, e aquilo que não tem fim, não pela força de sua essência, mas pela sua causa. E também porque não distinguiram entre aquilo que é dito infinito porque não tem fim, e aquilo cujas partes, embora conheçamos o máximo e o mínimo, não podem ser explicadas ou representadas apenas por um número. Enfim, porque não distinguiram entre aquilo que só pode ser inteligido, mas não imaginado, e aquilo que também podemos imaginar. Se tivessem prestado atenção nisso, jamais teriam sido esmagados sob o peso de tantas dificuldades. Com efeito, teriam claramente compreendido qual infinito não se divide em partes (ou que não tem partes) e qual, ao contrário, pode ser dividido em partes sem contradição.

As cartas de Nise da Silveira a Spinoza

CARTA I

Meu caro Spinoza,

Você é mesmo singular. Através dos séculos continua despertando admirações fervorosas, oposições, leituras diferentes de seus livros, não só no mundo dos filósofos, mas, curiosamente, atraindo pensadores das mais diversas áreas do saber, até despretensiosos leitores que insistem, embora sem formação filosófica (e este é o meu caso), no difícil e fascinante estudo da filosofia.

Mais surpreendente ainda é que, à atração intelectual, muitas vezes venham juntar-se sentimentos profundos de afeição. Assim, Einstein refere-se a você como se, entre ambos, houvesse “familiaridade cotidiana”. Dedica-lhe poemas. O poema para A Ética de Spinoza transborda de afeto: “Como eu amo este homem nobre / mais do que posso dizer por palavras”.

Materiais Diversos | Livro “Paisagens Imprevistas” | 10 anos de Festival Materiais Diversos

Materiais Diversos apresenta livro Paisagens Imprevistas – Outros lugares para as artes performativas e reflete sobre 10 anos de Festival Materiais Diversos | dia 24 de Outubro, às 16h, no Cine-teatro Rogério Venâncio – Minde
O livro Paisagens Imprevistas – Outros lugares para as artes performativas celebra as 10 edições do Festival Materiais Diversos e traz diferentes olhares sobre o panorama da criação e programação artística fora das grandes cidades. 
Em 2019, o Festival Materiais Diversos comemorou 10 anos de existência, com núcleos de programação em Alcanena, Minde e Cartaxo. A propósito do aniversário, a Materiais Diversos propôs-se reflectir e sistematizar 10 anos de edições do festival, mas não só. Observar a história do Festival Materiais Diversos foi o mote para traçar e escrever sobre as artes performativas e a sua relação com os novos centros de criação, programação e divulgação, fora das grandes cidades.
A par do desenvolvimento deste livro, a Materiais Diversos tem-se dedicado a um trabalho de análise do seu investimento e impactos nos territórios onde actua e das suas relações com habitantes, organizações privadas e públicas e empresas locais. 
Gostaríamos muito de o/a convidar para o lançamento do livro em Minde, no próximo dia 24 de Outubro, às 16h, no Cine-teatro Rogério Venâncio (convite em anexo) onde partilharemos também esta visão e análise do investimento humano, programático e financeiro da Materiais Diversos no concelho de Alcanena. 
Em anexo enviamos um breve dossier que apresenta dados do trabalho realizado nos últimos 10 anos no concelho de Alcanena, bem como observações e comentários de parceiros da região.     

La société autophage | Capitalisme, démesure et autodestruction | Anselm Jappe | in Facebook Mur de Yacine Bouzaher

” La société capitaliste est-elle en train de s’auto-dévorer ? On voit partout les signes non seulement d’un effondrement économique, mais aussi d’un délitement des structures psychiques qui ont caractérisé la modernité. Le narcissisme est en train de devenir la pathologie dominante. La critique radicale de la valeur et de l’argent, du travail, de la marchandise et de l’État peut-elle aider à mieux comprendre ces phénomènes ? “

Le mythe grec d’Érysichthon nous parle d’un roi qui s’autodévora parce que rien ne pouvait assouvir sa faim – punition divine pour un outrage fait à la nature. Cette anticipation d’une société vouée à une dynamique autodestructrice constitue le point de départ de La Société autophage. Anselm Jappe y poursuit l’enquête commencée dans ses livres précédents, où il montrait – en relisant les théories de Karl Marx au prisme de la « critique de la valeur » – que la société moderne est entièrement fondée sur le travail abstrait et l’argent, la marchandise et la valeur.Mais comment les individus vivent-ils la société marchande ? Quel type de subjectivité le capitalisme produit-il ? Pour le comprendre, il faut rouvrir le dialogue avec la tradition psychanalytique, de Freud à Erich Fromm ou Christopher Lasch. Et renoncer à l’idée, forgée par la Raison moderne, que le « sujet » est un individu libre et autonome. En réalité, ce dernier est le fruit de l’intériorisation des contraintes créées par le capitalisme, et aujourd’hui le réceptacle d’une combinaison létale entre narcissisme et fétichisme de la marchandise.

Le sujet fétichiste-narcissique ne tolère plus aucune frustration et conçoit le monde comme un moyen sans fin voué à l’illimitation et la démesure. Cette perte de sens et cette négation des limites débouchent sur ce qu’Anselm Jappe appelle la « pulsion de mort du capitalisme » : un déchaînement de violences extrêmes, de tueries de masse et de meurtres « gratuits » qui précipite le monde des hommes vers sa chute.Dans ce contexte, les tenants de l’émancipation sociale doivent urgemment dépasser la simple indignation contre les tares du présent – qui est souvent le masque d’une nostalgie pour des stades antérieurs du capitalisme – et prendre acte d’une véritable « mutation anthropologique » ayant tous les atours d’une dynamique régressive.

O mercado da diferença | O PCP e o BE são hoje formações políticas sociais-democratas | Carlos Matos Gomes

O mercado da diferença. Pode alguém ser o que não é? É o título de uma canção, que podia aplicar-se às dificuldades do BE e do PCP em aceitarem um compromisso com o PS para a aprovação de um Orçamento e ajuda a entender as manobras em curso. O PCP e o BE são hoje formações políticas sociais-democratas, por muito que se esforcem ao nível do discurso por se apresentarem como portadoras de um projeto revolucionário.

O processo histórico do pós-Muro de Berlim provocou uma nova divisão de modelos políticos, de um lado os neoliberais, de outro os estados que na Europa ainda mantêm a matriz de estado social, ou social democrata. Para já a situação é esta e não se alterará com o Orçamento do Estado Português para 2021.O PCP e o BE estão hoje neste grupo social democrata a competir com o tradicional ocupante do espaço, o Partido Socialista. Para sobreviverem neste mercado têm de “mostrar serviço”. Vivem a conhecida situação das mercearias que se transformaram em minimercados na zona dos supermercados. Fazem promoções nos produtos de maior impacto, são mais agressivos nas campanhas, recusam alianças, mesmo que mutuamente vantajosas, procuram fidelizar nichos de mercado, mas vendem o mesmo.

A sua sobrevivência depende da demonstração de diferença. A apresentação de um candidato à presidência de República por cada uma das formações é reveladora da indispensabilidade de cada uma “marcar a diferença a todo o custo” para sobreviver.As disputas sobre o Orçamento são parte da afirmação de existência do PCP e do BE. São opções conscientes e compreensíveis tomadas pelos seus dirigentes para se manterem no jogo da política e fidelizarem a clientela tradicional. É um jogo arriscado, que pode remeter para fábula do escorpião que ia às costas da rã e que a matou por ser a sua natureza e assim morreu também, mas é um jogo legítimo, que os órgãos de direção dos dois partidos decidiram correr e que têm praticado ao longo dos tempos. É o mercado a funcionar. A clientela decidirá.

Paulo Portas | De VÍTOR MATOS no EXPRESSO CURTO de 19/10/2020

“Entrevista de Paulo Portas ontem ao “Público”, que convém guardar para reler daqui a uns anos. O ex-líder do CDS faz o mais importante endorsment da direita a Marcelo Rebelo de Sousa. Nem Rui Rio o tinha feito nestes termos, nem Pedro Passos Coelho o faria assim, muito menos Francisco Rodrigues dos Santos. Portas surge como personalidade federadora da direita, à revelia de radicalismos e em contraste com a gritaria que para aí vai: compreende a ação de Marcelo, faz críticas ligeiras e enaltece o Presidente por defender pontos de vista caros à direita (como o papel do mercado e dos privados). A frase “Marcelo está do lado certo das coisas” mete as reservas de ‘Chicão’ no bolso, secundariza as declarações de circunstância de Rui Rio e arruma Ventura. Para memória futura fica o registo: daqui a cinco anos Portas estará no cardápio da direita para Belém, com uma posição suficientemente moderada para se apresentar preparado para o coabitar com governos de esquerda, à imagem de Marcelo. Para segundas leituras fica a ausência de comentários à situação do CDS e da direita em geral, sobretudo a omissão de qualquer análise ao fenómeno do Chega. Não é o momento de fragilizar a liderança.”

LER MAIS: https://www.publico.pt/2020/10/18/politica/entrevista/marcelo-lado-certo-1935394

Humanismo | Paulo Roberto Falcão – Mário Quintana

Mário Quintana (1906-1994) foi um enormíssimo poeta brasileiro. Entre muitos e muitos outros toca-me o seu poema “Das Utopias”, onde escreveu: “Se as coisas são inatingíveis… ora! Não é motivo para não querê-las…Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas!

”Paulo Roberto Falcão (nascido em 1953) foi, por sua vez, uma estrela do futebol brasileiro, depois treinador, comentarista desportivo e jornalista. Foi considerado um dos maiores futebolistas brasileiros de sempre.

Um dia, em 1983, o Hotel Majestic, em Porto Alegre, onde Quintana, já velhinho, residia há muito tempo, colocou-o no olho da rua. A miséria tinha batido à porta do poeta e jornalista e ele não tinha como pagar a sua conta. O porteiro do hotel, porque aos pobres até os outros pobres rebaixam com maldade, atira-lhe um casaco que tinha ficado no quarto, dizendo:- Toma, velho!

O poeta, sem ter para onde ir, sentou-se, pensando na vida, sobre a mala que lhe tinham colocado no passeio A sarjeta aguardava-o.

Paulo Roberto Falcão, o agora técnico de futebol e antiga estrela da seleção do Brasil ouviu na rádio, em direto, algo sobre o acontecido. Pouco depois estacionava o seu carro em frente ao hotel e observava de longe aquela cena absurda, triste. Até que saiu do carro e caminhou até ao poeta, perguntando-lhe:

– Sr. Quintana, o que está acontecendo? Mário Quintana ergue os olhos e enxuga uma lágrima, daquelas que insistem em molhar os olhos dos poetas. Naquela hora quem lhe dera ter ouvido os conselhos da sua mãe, quando era jovem, e ter estudado para engenheiro, médico, farmacêutico… e não ter vivido para a poesia. Ninguém vive da poesia. Quintana explica a Falcão que o dinheiro acabou, que está velho e se encontra desempregado, sem família, sem amigos… sozinho. Que lhe restam apenas a sua dor e aquela mala no meio de uma rua de Porto Alegre, que agora é mais um empecilho que um apoio…

Falcão pega na mala e coloca-a no porta-malas do seu carro, em silêncio. E em silêncio, abre a porta do automóvel a Mário Quintana, convidando-o a entrar.

No silencio da tristeza, duas almas de poeta (poeta não é só aquele que escreve poesia…) atravessam a tarde fria de Porto Alegre.

O carro ruma ao Hotel Royal. Falcão para, descarrega as malas e chama o gerente:- O Sr. Quintana agora é nosso hóspede!

– Por quanto tempo, Sr. Falcão? – quis saber o gerente. O homem do futebol observa o olhar tímido e surpreso do poeta e enquanto o abraça comovido, responde:

– Para sempre…O hotel pertencia ao Falcão. Mário Quintana faleceu em 5 de maio de 1994.

Frateli tutti: a política como ternura e amabilidade. Artigo de Leonardo Boff

nova encíclica do Papa Francisco, assinada sobre a sepultura de Francisco de Assis, na cidade de Assis, no dia 3 de outubro, será um marco na doutrina social da Igreja. Ela é vasta e detalhada em sua temática, sempre procurando somar valores, até do liberalismo que ele fortemente critica. Certamente será analisada em detalhe por cristãos e não cristãos pois se dirige a todas as pessoas de boa vontade. Ressaltarei neste espaço aquilo que considero inovador face ao magistério anterior dos Papas.

Viva a República!

A Revolução de 1820 (24 de agosto), o 31 de Janeiro, o 5 de OUTUBRO e o 25 de Abril são os marcos históricos da liberdade, em Portugal. Foram os momentos que nos redimiram da monarquia absoluta e da dinastia de Bragança; são as datas que honram e dão alento para encarar o futuro e acreditar na determinação e patriotismo portugueses.

Passos Coelho, Portas e Cavaco Silva eliminaram o feriado da data que mudou Portugal, pedra basilar da democracia, ofenderam a cidadania, ultrajaram os heróis da Rotunda e traíram a história, vilania que nem a ditadura ousou.

Comemorar a República é prestar homenagem aos cidadãos que não quiseram continuar vassalos. O 5 de Outubro de 1910 não se limitou a mudar de regime, foi portador de um ideário libertador que as forças conservadoras obstinadamente combateram.

Com a monarquia caíram os privilégios da nobreza, o imenso poderio da Igreja católica e os títulos nobiliárquicos. Ao poder hereditário e vitalício sucedeu o escrutínio do voto; aos registos paroquiais do batismo, o Registo Civil obrigatório; ao direito divino, a vontade popular; à indissolubilidade do matrimónio, o direito ao divórcio; à conivência entre o trono e o altar, a separação da Igreja e do Estado.

Há 110 anos, ao meio-dia, na Câmara Municipal de Lisboa, foi proclamada a República, aclamada pelo povo e vivida com júbilo por milhares de cidadãos. É essa data gloriosa que hoje se evoca, prestando homenagem aos seus heróis.

Cândido dos Reis, Machado dos Santos, Magalhães Lima, António José de Almeida, Teófilo Braga, Basílio Teles, Eusébio Leão, Cupertino Ribeiro, José Relvas, Afonso Costa, e João Chagas, além de Miguel Bombarda, foram os mais destacados desses heróis que prepararam e fizeram a Revolução.

Afonso Costa, uma figura maior da nossa história, honrado e ilustríssimo republicano, mereceu o ódio de estimação das forças mais reacionárias e o vilipêndio da ditadura salazarista. Para ele vai a homenagem de quem respeita os que serviram honradamente a República.

Há quem vire costas à República que lhe permitiu o poder, quem despreze os heróis a quem deve as honrarias e esqueça a dívida. Há quem se remeta ao silêncio para calar um Viva à República e se esconda, com vergonha da ingratidão.

Não esperaram honras nem favores os heróis do 5 de Outubro. Não se governaram os republicanos. Foram exemplo da ética por que lutaram. Morreram pobres e dignos.

Glória aos heróis do 5 de Outubro.

Viva a República!

Carlos Esperança

(Texto antigo, adaptado)

BATER NO FUNDO | Soromenho Marques | in Jornal DN

«Faltou a bola vermelha no canto superior direito na transmissão do debate presidencial entre Trump e Biden. Aquele deplorável choque de anciãos, marcando pontos num pugilato verbal de mentira, ignorância e desprezo por quem se deu ao trabalho de os ver e escutar, merecia ter um aviso desaconselhando os jovens e as almas mais frágeis.

Quase duas horas a escutar aqueles improváveis campeões da política de Washington podem levar muitos a perder o pouco de confiança que ainda possa restar na humanidade. Trump foi igual a si próprio, um vulcão de descabelado narcisismo, ancorado numa autoconfiança postiça, que indicia uma tortuosa história clínica para biógrafos e outros curiosos. Biden fez a prova de vida que muitos duvidavam ser possível.O que a aldeia global assistiu foi ao aparente certificado de óbito do sonho americano, à sua crescente transformação em pesadelo.

No debate Trump-Biden corporizaram-se dois dos principais temores dos antigos autores, que no debate constitucional fundacional de 1787-1788 ficaram conhecidos como “antifederalistas, sendo o primeiro o risco de a figura do Presidente federal poder transformar-se, nas mãos de um candidato a tirano, num perigo para as liberdades públicas. Sem qualquer rebuço, Trump mostrou que não vai respeitar os resultados eleitorais se estes não lhe forem favoráveis. Explicou que irá tratar os juízes do Supremo Tribunal, destinados a serem intérpretes isentos da Constituição, como cúmplices de fação para invalidar a expressão da vontade popular.

Recusou-se a condenar as milícias da “supremacia branca”, falou sempre e só para o seu exército de obedientes seguidores, deixando latente o possível recurso à violência para se manter no comando.O segundo receio dos antifederalistas veio à evidência quando o pivô da Fox News, Chris Wallace, interrogou os dois candidatos sobre se acreditavam na responsabilidade humana pelas alterações climáticas.

A pergunta é idiota, mas, pior ainda, foi a primeira vez em 20 anos (desde o debate Gore-Bush) que num pleito televisivo presidencial o tema foi aludido! Trump reiterou a insensatez habitual e Biden acentuou a sua recusa do Green New Deal, para fugir do embaraço de poder ser conotado com a esquerda do seu partido.Como é possível que num mês em que os EUA foram atingidos com particular violência por fenómenos extremos – incluindo incêndios apocalípticos que puseram em fuga, só no Oregon, meio milhão de pessoas (mais de 10% da população do Estado!) – estes candidatos tratem das alterações climáticas como tema menor? Isso ocorre porque, como temiam os antifederalistas, o sistema político federal foi capturado pelos grandes negócios.

Os EUA aparentam ser hoje uma democracia em decomposição, transmutada em plutocracia, e isso embacia qualquer visão lúcida do futuro.Em 1990 assistimos ao milagre da implosão pacífica do império soviético. Esperemos que um milagre ainda maior possa ocorrer para evitar a explosiva desintegração dos EUA. Caso contrário, não faltarão estilhaços cortantes a irromper em todas as direções.»

VIRIATO SOROMENHO MARQUES

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

Estados Unidos da América | Um debate impensável? | Manuel Augusto Araújo

Um debate impensável? Impensável porquê? Anda todo o mundo e ninguém distraído ou mentalmente intoxicado pelo que nem sequer se apercebe da realidade que há decadas é perfeitamente vísivel!!! Nos EUA o que existe é um totalitarismo corporativo bipartidário que trabalha para o complexo militar industrial e financeiro em que se elegem presidentes, senadores e representantes para a Câmara dos Representantes desde que sejam flexíveis para os lobistas que os direccionam. Têm dúvidas?

Desiludam-se !!! Comparem as gestões dos dois Bush e do Clinton e do Obama. Diferenças substanciais? Nenhumas nas políticas agressivas para o império sobreviver. O problema é que o império está em decadência económica mas continua a ser uma superpotência militar o que é um perigo real para a paz mundial. A esquerda norte-americana, com todos as suas particularidades, demite-se como o fez Bernie Sanders, da vez anterior trucidado pelos golpes sujos de Hillary Clinton que impossibilitaram a sua escolha, agora porque acabou abandonado por muitos apoios que lhe eram essenciais.

Se exceptuarmos Franklin Roosevelt, o que também muito se deve às particularidades e circunstâncias em que decorreram os seus mandatos, escolher entre um candidato republicano ou democrata é pouco expressivo no totalitarismo sistémico partilhado pelos dois partidos, o que agora provavelmente ficou mais visível pela qualidade(???) dos candidatos, para desilusão dos demo-liberais de todo o mundo que muito se comprazem com os espectáculos de opera buffa das democracias formais, o que explica os derrames lacrimosos nos media e nas redes sociais.

Leiam de Sheldon Wollin, Democracy Incorporated, Maneged Democracy and ther Specter of Iinverted Totalitarism «O governo não precisa acabar com a dissidência. A uniformidade da opinião pública imposta através da media corporativa faz um trabalho muito eficaz (…) as elites, especialmente a classe intelectual, foram compradas por meio de uma combinação de contratos governamentais, fundos corporativos e fundações, projectos conjuntos envolvendo pesquisadores universitários e corporativos.

Com doações de indivíduos muito ricos, universidades (especialmente as chamadas universidades de pesquisa), os intelectuais, os estudiosos e os pesquisadores foram perfeitamente integrados ao sistema (…) Nenhum livro é queimado, nenhum Einstein permanece na condição de refugiado (…) mas no totalitarismo invertido, o inverso é verdadeiro, a economia domina a política e com essa dominação surgem formas diferentes de crueldade (…)

Os Estados Unidos tornaram-se a vitrine de como somos tolerados como cidadãos, apenas enquanto participamos da ilusão de que vivemos numa democracia participativa. No momento em que nos rebelamos e nos recusamos a participar dessa ilusão, o rosto do totalitarismo invertido parecerá o rosto dos sistemas totalitários do passado.»

Retirado do Facebook | Mural de Manuel Augusto Araujo

O documento programático do DiEM25 sobre Paz e Política Internacional

Um comunicado rápido destinado a todos os interessados sobre a posição do DiEM25 no que diz respeito a assuntos internacionais, guerra e paz:

O prazo de contribuição para o documento programático do DiEM25 sobre Paz e Política Internacional foi alargado até ao dia 11 de outubro! Por favor dirija-se aqui para submeter as suas considerações. No DiEM25, temos orgulho de que sejam os nossos membros como um todo, e não um organismo eleito, a ditar todos os nossos documentos programáticos. Depois do dia 11 de outubro, o grupo de trabalho para a Paz e Política Internacional reverá todas as contribuições escritas, e preparará um primeiro esboço do documento programático – que será então novamente sujeito aos vossos comentários e correções. E vamos repetir o processo ainda mais uma vez, de forma a produzirmos um documento programático que tenha verdadeiramente sido produzido em co-autoria por todos os membros do DiEM25.

Lembre-se de não precisa de responder a todas as perguntas – responda apenas às que verdadeiramente lhe interessem, ou nas quais tenha uma ideia do que o DiEM25 deve exigir aos políticos. Se quiser ler algumas considerações iniciais, o grupo de trabalho publicou este pequeno folheto. Mas o conteúdo do nosso documento programático será escrito por si!

URSULA VON DER LEYEN EM PORTUGAL | por Nuno Vidal

Ursula von der Leyen, a Presidente da União Europeia, está em Portugal hoje e amanhã. Impressionou com o seu recente discurso do Estado da União. Embora proclamatório – tudo na Europa tem de ser aprovado por 27 países – destacou-se a defesa da dignidade do trabalho, designadamente pela criação de um salário mínimo europeu; o lançamento do NextGenerationEU, a prioridade ao Pacto Ecológico Europeu e a criação da Década Digital da Europa.

A determinação europeia que revelou faz-nos recordar que Van Der Leyen viveu sob proteção policial na sua juventude, tendo de ir viver para Inglaterra – onde se licenciou em Economia – devido a ameaça da RAF (grupo terrorista de extrema-esquerda) contra a sua família, tendo, depois do seu regresso à Alemanha, feito um doutoramento em Medicina em Hamburgo.

Em todos os lugares por onde tem passado (foi Ministra de três pastas na Alemanha) tem promovido a paridade, como fez agora na Comissão. Apoiou a aplicabilidade das mesmas regras fiscais a casais heterossexuais e homossexuais, bem como direitos iguais de adopção para casamentos do mesmo sexo e votou favoravelmente no Parlamento a aprovação da lei que prevê a igualdade entre casamentos homossexuais e heterossexuais, tendo combatido a pornografia infantil.

Uma democrata-cristã tolerante, aberta ao mundo e do seu tempo (em profundo contraste com os políticos bota-de-elástico que dominam a cena portuguesa).

Nuno Vidal

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

Gabriel Nascente ou a libertação da metáfora | por Adelto Gonçalves

                                                                              I

Para marcar uma trajetória literária de mais de meio século, o poeta goiano Gabriel Nascente (1950) lançou, em 2019, Galáxia dos dias, uma caixa com quatro volumes com mais de mil páginas cada um, com poemas de toda uma vida, revisados e até ampliados. Publicada pela Editora Kelps, de Goiânia, a coletânea reúne a obra do poeta em verso e prosa de 1966 até 2019, ao menos aquela publicada em livros, inclusive os primeiros que estavam esgotados e não são encontrados nem mesmo em alfarrábios, ainda que de fora tenham ficado muitos poemas esparsos que saíram em revistas, jornais e antologias.

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AS DUAS INTERNETS | Francisco Louçã | Expresso, 26.09.2020

A ofensiva de Trump contra a China, tendo como alvos imediatos a Huawei, a TikTok e a WeChat, é a guerra fria do nosso tempo. O resultado será a polarização do mundo entre duas internets.

O PODER DE MANDAR

A ordem da Casa Branca para proibir, a partir deste mês, o fornecimento de semicondutores é um golpe poderoso contra a Huawei. A empresa chinesa, que domina o 5G, depende da compra de chips e pode ficar sem acesso aos fornecedores. O efeito é mundial: uma empresa de Taiwan, a MediaTek, pediu às autoridades norte-americanas autorização para lhe continuar a vender, mas o Departamento do Comércio, que conduz a operação sob instruções do Presidente, deve recusar a licença. Mesmo o principal fornecedor chinês, a SMIC, pode ter que fechar os seus negócios com a Huawei, dado que depende de equipamento importado dos EUA e não pode arriscar-se a ficar sem essa capacidade.

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Elvira Fortunato Vence Prémio Europeu pelo Primeiro Ecrã Transparente

A cientista portuguesa Elvira Fortunato foi hoje distinguida pela Comissão Europeia, com o Prémio Impacto Horizonte 2020, pelo Projeto “Invisible” (Invisível), que consiste no desenvolvimento do primeiro ecrã transparente a partir de óxido de zinco, um material semicondutor de baixo custo, não degradável e que produz melhores resultados, o óxido de zinco, que entra na composição de pomadas para bebés ou protetores solares.

O prémio, no valor de 10.000,00€ (dez mil euros) distingue projetos científicos financiados por fundos europeus e cujos resultados tiveram impacto na sociedade.

A investigadora e engenheira de materiais, que dirige o Cenimat – Centro de Investigação de Materiais da Universidade Nova de Lisboa, da qual é vice-reitora, foi a única portuguesa premiada, entre outros cientistas distinguidos de uma lista de 10 finalistas.
O anúncio dos cinco vencedores da edição 2020 do Prémio Impacto Horizonte foi feito hoje, dia 23 de setembro, em Bruxelas, Bélgica.

O Prémio Impacto Horizonte destina-se a cientistas que lideram projetos financiados pelo 7º Programa-Quadro (2007-2017) e pelo Programa Horizonte 2020 (2014-2020).
O projeto “Invisible” foi financiado em 2,25 milhões de euros pelo Conselho Europeu de Investigação, agência da Comissão Europeia que apoia a investigação científica, nomeadamente através de bolsas, tendo sido desenvolvido durante cinco anos, entre 2009 e 2014.

Recorde-se que a cientista Elvira Fortunato, tem raízes no concelho de Alcanena, sendo os seus pais naturais de Louriceira.

Retirado do Facebook | Mural Câmara Municipal de Alcanena

Questão de Género | Autor desconhecido

Algures, numa repartição pública:

Utente – bom dia, queria renovar o meu cartão do cidadão.
Funcionária – já não se chama cartão do cidadão, agora é cartão da cidadania.
U – a sério?
F – sim, a designação “cartão do cidadão” não respeitava a
identidade de género.
U – ok, então queria tirar o meu cartão da cidadania.
F – pois, mas isso não é comigo, é ali com o meu colega.
U – colega ou colego?
F – desculpe?
U – perguntei se era com uma sua colega ou com um seu colego?
F – está a gozar comigo?
U – de forma alguma, apenas quero respeitar a identidade de género
da pessoa ou pessoo em causa.
F – olhe, tenho mais que fazer do que aturar as suas piadas. Por
favor dirija-se ao balcão ao lado para tratar do assunto.
U – ok, só uma ultima pergunta…
F – sim, diga lá,
U – balcão ou balcona?

Retirado do Facebook | Mural de Célia Rodrigues

DA MEDIOCRIDADE NECESSÁRIA | António Lobo Antunes

“A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza.

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Aperte o cinto de segurança, ainda vem aí o pior | Francisco Louçã

Costa Silva disse-o na apresentação do seu plano e tem razão: ainda virá o pior, antes de podermos melhorar. Mesmo que seja ainda difícil antecipar o efeito pleno da recessão e, sobretudo, o tempo do seu impacto, os dados apresentados esta semana pela OCDE são indicadores. Nos países do G20, os mais desenvolvidos, a queda do PIB no segundo trimestre terá sido de 6,9% e, só nos Estados Unidos, de 9%. Lembra a organização que, durante a recessão de 2009, que foi provocada pelo crash financeiro do final do ano anterior, o pior trimestre registou uma queda quatro vezes menor, de 1,6% (mas que se estendeu por vários trimestres). Nestes cálculos, se houver um novo confinamento, o que para já só ocorreu em Israel, a queda anual nestes países poderá chegar aos 6%. Ou seja, perder-se-iam num ápice cinco anos de crescimento, com efeitos sociais pesados. Como as economias do G20 representam 80% do produto global, só por este efeito teríamos a segunda recessão do século XXI a arrastar o mundo para uma redução do PIB em termos absolutos, o que nunca aconteceu na segunda metade do século XX, e recuperação pode demorar mais 5 anos, diz o Banco Mundial.

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ALGÉRIE | Ami Mouloud, le plus ancien bouquiniste de la capitale | Yacine Bouzaher

Parce que, je ne l’ai pas oublié, parce qu’il incarne une Algérie, à jamais disparu, il est une figure de l’Alger que j’ai tant aimé, ou j’ai vécu mes émois aussi bien amoureux que littéraires et culturels. Il est parti, il y a 4 ans (un 24 décembre 2016) suite à une agression de 3 individus dont il ne sait pas remis. Ami Mouloud, le plus ancien bouquiniste de la capitale, présent à la rue Didouche Mourad depuis l’indépendance, Mouloud Mechkour dit Ami Mouloud.
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Texto apresentação Guerra Colonial | Carlos Matos Gomes e Aniceto Afonso

A guerra que Portugal travou em África entre 1961 e 1974, e que contribuiu de forma decisiva para o 25 de Abril, é o acontecimento mais marcante da nossa história na segunda metade do século XX.

Este trabalho pretende contribuir para o melhor conhecimento do que foi esse conflito, das condições em que ele se desencadeou e das suas consequências.

Este é um trabalho de divulgação centrado sobre a guerra em si mesma, embora procure enquadrar os seus aspetos mais significativos para melhor compreensão. Na base da informação apresentada encontram-se elementos já publicados e outros obtidos em arquivos e memórias de entidades e personalidades que se disponibilizaram a cedê-los, muitos inéditos.

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MA JOLIE MÔME , DEIXOU-ME | Júlio Isidro

Desculpem-me mas vou falar na primeira pessoa .
Juliette Greco era e continuará a ser uma paixão minha, sempre presente nos sonhos irrealizáveis de Paris nos anos 40, 50 por onde não andei porque as crianças não se podem perder nas ruas misteriosas e encantatórias da cidade -luz.

Aos 18 anos, sozinho em Paris, procurei os lugares da Diva de Negro na margem esquerda, à procura do Tabou ou do L’oeil de Boeuf espaços de cultura, amor e pecado onde a voz dos poetas cantava “Je suis comme je suis” e convivia com Camus, Boris Vian, Jean Cocteau ou Sartre que dela disse: – A voz da Greco tem milhões de poemas que ainda não foram escritos.

O menino tímido, ficou à porta do calor húmido de Chez Barbara, porque aqueles abraços e beijos de paixões aquecidas a Calvados ou Créme de Cassis, me inibiram.
Maldita educação/ domesticação trazida do país dos “bons costumes”.

Tantas vezes adormeci a ouvir Juliette a cantar Désabillez-moi e sonhei que cruzava os dedos naquela mão branca de mármore desta mulher de tantas canções e quase tantos amores.

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VERDES ANOS | MEMÓRIA DE PORTUGAL EM DIA CINZENTO NOS TRÓPICOS | Carlos Fino

O tempo por aqui, hoje, está encoberto; faz até um friozinho pouco habitual nestas paragens tropicais, quase sempre bem mais cálidas. Talvez por isso – vá lá saber os mecanismos por que se rege a memória – vi-me de repente transportado para o cinzento Portugal de antes do 25 de Abril.

Estávamos em 1971 e a agitação estudantil, cada vez mais intensa, abalava as universidades. Compreendia-se porquê: a guerra nas colónias era uma realidade omnipresente que nos afetava a todos. Quem passasse de ano podia concluir os cursos antes de ir para a tropa, mas no final, o destino estava marcado: missão no ultramar depois de uns sumários meses de instrução militar, adiando – com perigo de morte – o ingresso na vida profissional.

Eu tinha 23 anos e fazia parte dos quadros associativos, tendo até integrado uma direção da Associação Académica de Direito, juntamente com o João Soares, o Luís Pinheiro de Almeida, o João Arsénio Nunes e o Duarte Teives. Na sequência de um movimento de greve às aulas que percorreu a cidade universitária, a repressão intensificou-se, com a PIDE à caça dos dirigentes associativos. A brigada dirigida pelo inspector Passos entrou na minha casa, em Castanheira do Ribatejo, às seis da manhã – fez buscas, levou livros, mas não me apanhou. Por precaução, ficava já então em Lisboa, só indo a casa de vez em quando ver a família e mudar de roupa.

A partir daí, porém, até esse simulacro de normalidade mudou. Com a PIDE no encalço, na perspectiva de ser preso, torturado e condenado, tendo depois de fazer a guerra, não tinha outro remédio que não fosse sair do país.
Mas a onda repressivoa era tão intensa (muitos dos meus companheiros da altura foram presos e condenados), que qualquer movimento nesse período seria facilmente detetado. Por isso, durante três meses consecutivos, fiquei retido, sem sair, num andar no Areeiro, à espera que as coisas acalmassem.
Foram dias inquietantes. Quando via da janela alguém parado no passeio em frente, logo suspeitava que era PIDE, perdendo a calma e temendo o pior.

Os momentos mais sossegados eram as refeições: pai e filho que generosa e corajosamente me albergavam mandavam vir as refeições, em marmita, de um pequeno restaurante das imediações, que partilhávamos depois ao som de música revolucionária tocada num velho gira-discos (não riam – esse era o espírito do tempo…) que ouvíamos, baixinho, não fosse alguém desconfiar e denunciar-nos. Havia um pouco de tudo – desde canções da resistência francesa ao coro do Exército Vermelho, passando pelas mais melodiosas canções cubanas, de que uma ficou para sempre na minha memória, tantas vezes a escutávamos: Hasta Siempre Comandante Che Guevara. Uma cena digna de filme, entre o surreal e o dramático, em fundo de opressão política, tortura e guerra.

Carlos Fino

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino