ENTREVISTA EXCLUSIVA A MIGUEL ESTEVES CARDOSO: “SEM O PRAZER, É TUDO UMA ESTUCHA” | por JOÃO PEDRO GEORGE | in VISÃO

Entrevista exclusiva a Miguel Esteves Cardoso: “Sem o prazer, é tudo uma estucha”

Aos 67 anos, é um dos mais brilhantes retratistas de Portugal, país que ama, mas no qual identifica uma paralisante resignação e uma falta de sentido de humor. Numa rara e longa conversa, conduzida pelo escritor João Pedro George, falou de tudo – da infância, dos prazeres da vida, da escrita, de política

Há muitas pessoas que têm o costume de fazer listas com as coisas que gostariam de fazer antes de morrer: passear num balão, participar num safari, saltar de para-quedas, montar um elefante, ficar representado num busto, ver a Aurora Boreal, flutuar no Mar Morto, declamar Herberto Helder numa reunião de empresários, ir ao supermercado de pijama. A mim, o que mais gozo me daria, antes de morrer, era uma coisa muito mais insensata: conversar com o Miguel Esteves Cardoso. Consegui-lo tornou a minha vida realmente magnífica. Por isso, estou-lhe grato. Grato no duplo sentido de agradecido e agradado.

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LISBOA | Aeroporto: há novidades | in DN

SOLUÇÃO MAIS ACONSELHÁVEL : Portela c/ mais 1 pista + Alverca. Num futuro próximo os aviões não poluirão como actualmente.

Nenhuma conclusão substitui o estudo que o Governo mandou fazer sobre a melhor localização para o aeroporto de Lisboa. Mas há novas pistas, fruto do debate promovido pelo Conselho Económico e Social e o Público. No quadro abaixo ficam alguns dos pontos fortes e fracos de cada projeto apresentados na terça-feira. As premissas da análise são estas:

IMPACTO NO AMBIENTE: não há tema mais crítico para a construção de um aeroporto em qualquer ponto do mundo. Olhando para as seis hipóteses em análise, talvez apenas Alverca (que já tem uma pista, numa área menos crítica do estuário) ou Santarém (numa zona menos sensível) escapem. Alcochete e Montijo são indubitavelmente as piores pelas consequências ecológicas em redor. Manter a Portela tem um impacto pesado sobre os habitantes da capital – daí as dúvidas sobre se se deve diminuir a operação, ou pura e simplesmente acabar. Nem o presidente da Câmara, Carlos Moedas, consegue dizer qual escolhe…

CUSTO DE INVESTIMENTO: a grande novidade veio da Vinci-ANA. Afinal, não há aeroportos grátis, ao contrário do que António Costa deu a entender quanto ao Montijo. Ficou subentendido nas afirmações do líder da Vinci que ou a ANA paga o aeroporto com os lucros que não entrega ao Estado, ou o Estado paga tudo. Só a melhoria da Portela fica por conta dos franceses (ou não?). Portanto, não é indiferente querermos um aeroporto + acessos cuja escala pode ir de 500 milhões (Alverca) até 8 mil milhões (Alcochete). Não sendo certo, Santarém começou por assinalar mil milhões para a primeira fase, tal como o Montijo. Acessos já construídos: Alverca e Santarém são claramente os melhores.

ATÉ 30 MINUTOS DE LISBOA: este ponto é decisivo e não se mede em quilómetros, mas em tempo de acesso. A Portela é imbatível – já está na cidade. Alverca e Montijo estão mais perto, Alcochete, Ota e Santarém mais longe. No entanto, todas as soluções de transporte os colocam a 30 minutos da capital. Mais: se a alta velocidade ficar no subterrâneo do aeroporto escolhido, não é por este critério que Santarém – o mais distante – fica de fora. E quanto ao resto das regiões em redor da capital? Em população abrangida, Santarém também é o que marca mais pontos neste item.

NAVEGAÇÃO AÉREA: o maior argumento contra Alverca sempre foi o de ter uma pista conflituante com a da Portela, mas a nova proposta traz até três pistas sem conflitos de tráfego. A presidente da autoridade de navegação aérea (NAV) confirmou essa plausibilidade na terça-feira. Ora, se é assim, Alverca passa a ser uma hipótese muito próxima, barata e de impacto mais reduzido do que, por exemplo, Montijo – apesar de também estar no estuário e ambas terem contra si a questão das aves. A Ota, com a serra da Montejunto a limitar a operação aérea, e os frequentes nevoeiros, sempre foi má hipótese. A Portela, com uma só pista, tem os problemas conhecidos. Santarém e Alcochete parecem ser os que têm menos limitações de expansão.

FUTURO: no estudo do professor de Coimbra, Pais Antunes, especialista em mobilidade, o crescimento do tráfego aéreo global até 2050 é de apenas 2 a 4%. Nas suas contas, a capital portuguesa só necessitaria de construir mais uma pista, além da atual. Queremos um aeroporto que possa crescer muito mais? O ministro Pedro Nuno Santos não quer um futuro pequenino. Só que a vantagem deste processo é que qualquer solução só crescerá por fases e o dinheiro impõe a realidade. AlcocheteOtaSantarém, mas até Alverca (ainda que mais limitada), têm espaço para crescer gradualmente. Se houver procura.

Conclusão: não perdemos 50 anos a adiar. Pura e simplesmente não tivemos capacidade de realizar mais endividamento para um enorme investimento público. Entretanto, se levarmos o comboio de alta velocidade ao novo aeroporto, garantirmos um custo decente e gradual, e minimizarmos o impacto na capital pela chegada de aviões mais limpos, o tempo deu-nos uma melhor solução. E não destruímos nem o estuário do Tejo, nem a muralha de sobreiros e biodiversidade ambiental da margem Sul. Seria notável.

https://www.dn.pt/opiniao/amp/aeroporto-ha-novidades-15423237.html?fbclid=IwAR1YDjxGzZl4vXGO-pkNg7V5vis_fPK4pKld30rdA7xS9GOTFAbohya_Nb8

Saúde – o maior negócio do mundo | por Carlos Matos Gomes

O senso comum considera o negócio da guerra o maior negócio do mundo. Não é. O maior negócio do mundo é o da Saúde. O segundo é o do “infoentertainment” (a manipulação pelo entretinimento) e a guerra é o terceiro. Esta hierarquia faz todo o sentido: todos os humanos querem ser saudáveis, viver mais e melhor; a mais eficaz (custo-eficácia) atividade para dominar uma sociedade é a manipulação da sua opinião; por fim, porque se não obedecemos a bem obedecemos a mal: a guerra.

No sistema político dominante – o do capitalismo neoliberal – é evidente que o maior negócio tem de ser dominado pelas oligarquias. Os serviços públicos e tendencialmente gratuitos de saúde são uma heresia “comunista”.

Já agora, o envolvimento da Europa (UE e Reino Unido) na guerra na Ucrânia que os Estados Unidos provocaram, teve também como finalidade destruir o modelo social europeu – assente em serviços públicos – e substituí-lo pelo capital privado, das grandes multinacionais que vigora nas Américas, onde se tens dinheiro vais para o hospital, se não tens vais para a morgue.

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A decadência da sociedade ocidental | por António Jorge

A Europa Ocidental, é hoje uma realidade sem futuro, por ser um tipo de sociedade desumana que é dirigida por mentirosos e psicopatas políticos-sociais criminosos ao serviço de quem os usa.

A palavra Democracia tão abusivamente utilizada, é apenas propaganda feita para iludir e enganar idiotas e propagandistas pagos pelo sistema.

Só não vê quem não quer… onde está o futuro… que não se vê… mesmo com óculos graduados?

– Basta-nos ver o que não devíamos ter de ver… os programas televisivos idiotizados, vazios de interesse cultural e social, para perceber a realidade a que chegamos.

Não se trata de um desabafo circunstancial… ou de critica política, nem de uma noite mal dormida… Não tive nenhum pesadelo… mas acordado e a pensar que tipo de sociedade é esta?

Empurram-nos para a guerra, sem ninguém se meter com nós e justificado por traições e mentiras feitas contra os povos da Europa Ocidental, através de comissários políticos que ninguém elegeu em nome do povo ordeiro… que como carneiros seguem a caminho do matadouro e enganados por tanta mentira sórdida à solta.

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Maria Estela Guedes: ode a García Lorca | por Adelto Gonçalves

Obra reconstitui trajetória do vate espanhol em périplo poético que soa como uma conversa íntima com o espírito do poeta

                                                         I
            Uma ode formada por versos inspirados na vida e na obra do poeta espanhol Federico García Lorca (1898-1936) é o que o leitor irá encontrar no livro mais recente da dramaturga, poeta e ensaísta portuguesa Maria Estela Guedes, que acaba de sair pela Editora Urutau, estabelecida no Barreiro, em Setúbal, do lado de lá do rio Tejo, em Portugal, e em Cotia, no Estado de São Paulo, no Brasil. Com capa que reproduz desenho do próprio poeta, a obra Conversas com Federico García Lorca traz 107 poemas que procuram reconstituir a breve e fulgurante trajetória do vate que seria interrompida com o seu fuzilamento por hordas direitist as comandadas pelo general Francisco Franco (1892-1975).
            Lenda em vida, e ainda longe da idade madura, Lorca já era à época um ícone daquela que, mais tarde, viria a ser definida como a geração de 27, que incluía, entre outros, Pedro Salinas (1891-1951), Jorge Guillén (1893-1984), Rafael Alberti (1902-1999), Vicente Aleixandre (1898-1984) e Luis Cernuda (1902-1963), ainda que não constituísse um grupo movido por qualquer motivação histórica ou influxo literário ou mesmo por um líder.

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O ESTRANHO DESAPARECIMENTO DA OSCE | por Carlos Matos Gomes

O que aconteceu à OSCE? Finou-se em segredo! Raptaram-na? O desaparecimento da OSCE tem um significado: a tentativa dos EUA de impedir o multilateralismo nas relações internacionais.

A guerra na Ucrânia, é um dos resultados do desaparecimento da OSCE e da reposição da ordem bipolar — bons e maus; nós e os outros — da guerra fria. O desaparecimento sem dor nem deixar rasto da OSCE é a vitória da política de confronto, de alinhamentos, da ideia de quem não é por mim é conta mim, da visão do mundo a preto e branco. Os atuais dirigentes europeus enfiaram a Europa nesse beco sem nada terem perguntado aos europeus. Antes pelo contrário, ludibriando-os, iludindo-os, metendo questões inconvenientes debaixo do tapete. Onde está OSCE?

A OSCE — a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa — desapareceu. Segundo as notícias antigas, incluindo do governo português no seu site, a dita criatura havia nascido na sequência de um processo político, iniciado em 1973, intitulado “Conferência para a Segurança e Cooperação na Europa” (CSCE), que visava melhorar o clima entre o bloco soviético e o bloco NATO, e reforçado em 1990, com a “Carta de Paris para uma nova Europa”, adotada na sequência do fim da União Soviética.

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Major-General Carlos Branco | O confronto dos EUA com a Rússia

O confronto dos EUA com a Rússia é apenas um dos capítulos do projeto da afirmação hegemónica global de Washington, que visa, entre outros aspetos, afetar as relações da Rússia com Europa, e as veleidades europeias de autonomia estratégica, nomeadamente quebrar o comércio e o investimento bilateral com a Rússia e a China.

Isso passa, entre outros aspetos, por impedir a entrada em funcionamento do Nord Stream 2, tornar a Europa dependente do gás americano, viabilizar uma indústria com elevado break even, assim como os bancos que a financiam, bloquear a implementação dos acordos celebrados entre a Europa e a China, e inviabilizar economicamente os corredores euroasiáticos da “Uma Faixa, Uma Rota”, com passagem pela Rússia e fim na Europa, impedindo o aprofundamento das relações comerciais e investimentos mútuos europeus com a China e a Rússia.

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Pepe, o nome de um monstro | João Querido Manha

O senhor Anael Ferreira podia ter escolhido para o filho o seu nome hebraico de arcanjo, vulgar de Lineu, o sueco que inventou o método de baptizar os grupos biológicos, mas não. Quis ir ainda um pouco mais longe para distinguir o primogénito, nascido na recôndita Maceió, dos confins do Nordeste brasileiro, povoado de gerações de luso-descendentes únicos e diferenciados.

O senhor Anael obteve autorização de Dona Rosilene para chamarem o menino de Kepler Laveran, no longínquo ano de 1983, quando ainda não havia internet e as enciclopédias eram privilégio de curiosos ávidos de conhecimento. Um nome único no mundo, acredito, porque juntar o de um astrónomo e matemático alemão do século XVII ao de um francês Prémio Nobel da Medicina de 1907, é tão rebuscado e original que muito cedo a família se terá cansado de dar explicações a familiares, vizinhos e amigos.

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ZELENSKY ARMADILHADO POR MOSCOVO E WASHINGTON | Por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 22/11/2022 – via Estátua de Sal

A evolução da relação de forças no campo de batalha ucraniano e o trágico episódio do G20 em Bali marcam uma viragem da situação. Se os Ocidentais continuam a acreditar na vitória próxima sobre Moscovo, os Estados Unidos iniciaram já negociações secretas com a Rússia. Eles aprestam-se a deixar cair a Ucrânia e em deitar as culpas exclusivamente a Volodymyr Zelensky. Tal como no Afeganistão, o despertar será brutal.

Conversando, há cerca de dez dias em Bruxelas, com um chefe de bancada de deputados que diria de mente aberta, escutei-o dizer-me que o conflito ucraniano era decerto complexo, mas que a coisa mais saliente era que a Rússia tinha invadido esse país. Respondi-lhe observando que o Direito internacional obrigava a Alemanha, a França e a Rússia a aplicar a Resolução 2202, o que Moscovo , sozinho, havia feito. Prossegui lembrando-lhe a responsabilidade de proteger as populações em caso de falha do próprio governo.

Ele cortou-me a palavra e perguntou-me : « Se o meu governo se queixar da sorte dos seus cidadãos na Rússia e atacar esse país, achará isso normal? ». Sim, respondi-lhe, se tiver uma Resolução do Conselho de Segurança. Você tem alguma? Apanhado de surpresa, ele mudou de assunto. Por três vezes, perguntei-lhe se podíamos abordar a questão dos « nacionalistas integralistas » ucranianos. Por três vezes, ele recusou. Despedimo-nos com cortesia.

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O Sul Global gera um novo sistema de pagamento revolucionário | por Pepe Escobar | 30/11/2022

Desafiando o sistema monetário ocidental, a União Econômica da Eurásia está liderando o Sul Global em direção a um novo sistema de pagamento comum para contornar o dólar americano.

A União Econômica da Eurásia (EAEU) está acelerando seu projeto de um sistema de pagamento comum, que tem sido discutido de perto por quase um ano com os chineses sob a administração deSergey Glazyev, ministro da UEEA encarregado da Integração e Macroeconomia.

Através de seu órgão regulador, a Comissão Econômica da Eurásia (CEE), a UEEA acaba de estender uma proposta muito séria aos países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que, crucialmente, já estão a caminho de se transformar emBRICS +: uma espécie de G20 do Sul Global.

O sistema incluirá um único cartão de pagamento – em concorrência direta com a Visa e a Mastercard – fundindo o já existente MIR russo, o UnionPay da China, o RuPay da Índia, o Elo do Brasil e outros.

Isso representará um desafio direto ao sistema monetário projetado (e aplicado) pelo Ocidente, de frente. E vem na esteira de membros do BRICS que já transacionam seu comércio bilateral em moedas locais e ignoram o dólar americano.

Esta união EAEU-BRICS estava há muito tempo em construção – e agora também se moverá em direção à prefiguração de uma nova fusão geoeconômica com os países membros da Organização de Cooperação de Xangai (SCO).

A UEEA foi criada em 2015 como uma união aduaneira da Rússia, Cazaquistão e Bielorrússia, à qual se juntaram um ano depois a Arménia e o Quirguistão. O Vietnã já é um parceiro de livre comércio da UEE, e o Irã, membro recentemente consagrado da OCS, também está fechando um acordo.

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A identidade da Europa — o Ocidente para que lado fica? | por Carlos Matos Gomes

Um artigo de Simon Jenkins no The Guardian comenta o resultado do último senso no Reino Unido: De acordo com o censo, agora somos uma terra de muitas religiões.

“Inglaterra e País de Gales não são mais cristãos! De acordo com o censo de 2021, o número dos que colocaram um X na caixa cristã do formulário caiu para menos de 48%. Um número superior de habitantes vai a uma mesquita todas as semanas em vez de ir a uma igreja paroquial. Os “sem religião” triplicaram desde o milênio, para 37%. As minorias étnicas agora compreendem 18% da população e formam maioria em cidades como Birmingham e Leicester. Isso significa que muçulmanos e hindus criaram algum terreno para a religião como tal.”

As opiniões dominantes nos meios de comunicação europeus podem condenar o racismo e a discriminação, mas isso não deve esconder as alterações resultantes da diversidade, nem as suas consequências, seja nas Ilhas Britânicas, seja na Europa continental onde a mesma alteração demográfica e cultural está a ocorrer. Paris, o Sul de França, Bruxelas, Berlim, Franckfurt, Amesterdão são hoje regiões multiétnicas, multiculturais, onde o cristianismo e a sua história, a visão do mundo que marcou a Europa desde o império romano são minoritárias e estão em competição com outras cosmogonias.

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O recorde de Eusébio e os coreanos | João Querido Manha

“Colored” e “olhos em bico” foram duas expressões que aprendi em 1966, por altura do histórico Eusébio versus Coreia do Norte. Eram usadas nos jornais que me ensinaram a ler, sobretudo o Diário Popular, como compreensíveis e lógicas, carinhosas até, sem vislumbre de xenofobia ou ódio. Era o “velho normal”.

Dos coreanos, dizia-se meio a brincar, meio a sério, que eram todos iguais, que todos se chamavam Park qualquer coisa, que talvez tivessem substituído os onze da primeira parte por outros onze ao intervalo e que podia ter sido isso, não a sua qualidade atlética nem o efeito surpresa, a provocar a eliminação prematura da poderosa Itália. Quando a “equipa da Disney”, como lhe chamou Otto Glória pela comicidade dos passinhos de corrida, vencia Portugal por 3-0 aos 25 minutos de jogo, esses eram os comentários que ouvia à minha volta: “olhem como eles correm, parece que são mais que os nossos e ao intervalo ainda vão trocá-los por outros iguais, isto não devia ser permitido!”

Mas a fé em Eusébio, aquele ‘sprint’ com bola pelo lado esquerdo até ser derrubado dentro da área, a frieza a marcar os penaltis, a tranquilidade corajosa, o cavalheirismo na vitória, a liderança natural e a classe insuperável tudo dissolveram, como uma barrela ao preconceito. A maior reviravolta da história dos campeonatos do Mundo, um recorde irrepetível!

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1640 | DEANA BARROQUEIRO

(O POETA, O PROSADOR, A PROFESSA E O PREGADOR)


«1640» é o título do que considero o meu principal romance, que me levou 13 anos a fazer, embora alternando com outros de mais fácil construção. É a data em que os portugueses dos três Estados – povo, clero e nobreza – se revoltaram contra o governo dos burocratas, a mando de um Rei estrangeiro (D. Filipe IV de Espanha),, que os humilhava e esmagava, e soltaram o grito de liberdade, elegendo um Rei português, Dom João IV, para tomar o destino do país nas suas mãos, defendê-lo dos predadores e fazê-lo sair da crise pelos seus próprios meios.
A acção decorre num período de cinquenta anos (1617-1667), riquíssimo em acontecimentos, dramas e personagens, num Portugal esgotado que tentava desesperadamente sobreviver como país independente, acossado por nações inimigas – a Espanha e as suas aliadas –, mas também pelas «amigas» de longa data, como a Inglaterra e a França, que impuseram condições esmagadoras em troca da sua ajuda.

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Palestina (1947–2022) — 75 anos de Direito Internacional | por Carlos Matos Gomes

29 de Novembro, o Dia Internacional da Solidariedade com o Povo Palestino, é uma data comemorativa, instituída pelas Nações Unidas, para lembrar o aniversário da Resolução 181 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 29 de novembro de 1947, que aprovou, sem consulta aos habitantes locais, o Plano de Partição da Palestina. O Plano consistia na divisão da área do Mandato Britânico da Palestina em dois estados: um estado judeu e outro um estado árabe.

O Estado judeu (o primeiro estado teocrático, que contrariava a Declaração dos Direitos Humanos da própria ONU, que declara a inadmissibilidade de discriminação racial e religiosa) foi imediatamente constituído, iniciando os recém chegados judeus vindos de todas as partes do mundo e as suas organizações armadas de imediato a expulsão violenta dos habitantes locais, palestinos, das suas casas. O Estado árabe, que não era árabe, mas palestino, nunca foi constituído. Setenta e cinco anos após a Declaração da ONU, esta é letra morta e letra de mortes, de milhares de mortes.

Tive a honra de ser convidado pelo MPPM — o Movimento para a Paz e a Palestina Livre — para fazer o discurso de evocação desta data de exposição da sangrenta hipocrisia do que é invocado como o Direito Internacional, numa cerimónia realizada na Casa do Alentejo e com a presença do embaixador da Autoridade Palestiniana, a entidade que representa o que deveria ser o Estado Palestino e dotado de idêntica dignidade do embaixador do Estado de Israel.

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Efeito Dunning-Kruger | Wikipédia

O efeito Dunning-Kruger é definido como a tendência das pessoas com baixa habilidade em uma área específica para dar avaliações excessivamente positivas desta habilidade.

Isto é frequentemente entendido como um viés cognitivo, ou seja, como uma tendência sistemática de se envolver em formas errôneas de pensar e julgar.

Os vieses são sistemáticos no sentido de que ocorrem consistentemente em diferentes situações. São tendências, pois dizem respeito a certas inclinações ou disposições que podem ser observadas em grupos de pessoas, mas não se manifestam em todos os desempenhos.

No caso do efeito Dunning-Kruger, isto se aplica principalmente a pessoas com baixa habilidade em uma área específica que tentam avaliar sua competência dentro desta área.

O erro sistemático diz respeito à sua tendência de superestimar muito sua competência ou de se considerar mais habilidosas do que são.

A vida de Bocage: sátira, censura, pobreza | Autor: Adelto Gonçalves | por Ademir Demarchi

Para investigar a vida de Bocage em suas minúcias, Adelto Gonçalves percorreu todas as biografias e estudos importantes sobre o autor.

I

“Bocage, alistado na Marinha, cursou a respectiva Academia, embarcou para a Índia, foi boêmio no Rio de Janeiro, passou três anos em Goa e Damão, desertou fugindo para Macau, regressou a Lisboa, onde a vida livre e as sátiras o atiraram para a prisão e o hospício. Morreu doente e pobre, traduzindo nos seus versos a sua vida e o seu tempo”.
Essa síntese da vida de Bocage (1765-1805), feita no prefácio de Bocage, o Perfil Perdido pelo professor catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, Fernando  Cristóvão, bem caberia em similaridade àquela feita por Nabokov sobre um personagem no início de seu romance Gargalhada na escuridão, em relação à qual o escritor russo acrescenta: “Eis aí toda a história, e bem poderíamos abandoná-la neste ponto, se não houvesse vantagem e prazer em contá-la. Embora haja espaço mais do que suficiente numa pedra tumular para conter, encadernada em musgo, a versão re sumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem recebidos”.
É o que faz o professor e escritor Adelto Gonçalves ao investigar a vida de Bocage em suas minúcias, percorrendo todas as biografias e estudos importantes sobre o autor, cotejando e contrapondo-os às suas novas descobertas e correções oriundas de exaustivas pesquisas em arquivos e fontes primárias como trabalho de pós-doutoramento na Universidade de São Paulo (USP), que teve sua primeira edição em 2003, em Portugal, pela Editorial Caminho, de Lisboa, e que agora sai em nova edição, com excelente projeto gráfico e ilustrações, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
A vida do poeta português, propagandeada pelo senso comum como “agitada e de boemia” em geral para promover seleções mais vendáveis de sua poética, se decompõe nessa biografia quando a acompanhamos inserida em detalhes na sociedade da sua época histórica e cultural que, agitada e contraditória, se expressa na obra de Bocage transitando do neoclassicismo das Arcádias aos primeiros momentos do romantismo.

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Jorge Miranda avisa que aumentar poderes do presidente é das propostas “mais perigosas” | in Expresso

Constitucionalista associa o aumento do mandato e dos poderes do Presidente da República a constituições ditatoriais

O constitucionalista Jorge Miranda considera as proposta para aumentar o mandato e os poderes do Presidente da República das “mais perigosas” já apresentadas e associa-as a constituições ditatoriais. Confessa-se ainda “muito preocupado” com o crescimento da extrema-direita.

As declarações foram feitas numa entrevista conjunta à TSF e ao Jornal de Notícias, em que Jorge Miranda começou por classificar de “lamentável” a decisão de iniciar agora um processo de revisão constitucional, “quando são tantos os problemas que o país enfrenta”.

Relativamente às propostas apresentadas, o constitucionalista referiu-se especificamente à do PSD, que prevê aumentar para sete anos o mandato do Presidente da República (PR), manifestando-se “totalmente em desacordo”. Para Jorge Miranda, essa possibilidade, a par com um aumento do poder do PR, “pode significar pôr em causa o sistema semipresidencial ou de parlamentarismo racionalizado, que foi consagrado na revisão constitucional de 1982”. “Um mandato muito longo do PR era o que havia na Constituição de 1933 e só em constituições num sentido ditatorial é que os mandatos do PR são muito longos”, explicou.

Assinalando que atualmente o PR é eleito por cinco anos e só pode ser reeleito uma vez, Jorge Miranda defendeu a importância de dar aos cidadãos eleitores a possibilidade de emitir um juízo à forma como o PR tem exercido o poder num primeiro mandato. “É mais democrático admitir a reeleição ao fim de um tempo razoável do que prescrever sete anos sem a possibilidade de os cidadãos emitirem qualquer opinião e visão.”

O constitucionalista abordou também o aumento de poderes do PR, preconizado em vários projetos, considerando ser “extremamente perigoso”, e defendeu a atual definição de PR consagrada na Constituição, pois admite “um exercício em interdependência institucional com o parlamento e com o Governo” e “um juízo dos cidadãos eleitores ao fim de um certo número de anos”. E sublinhou: “Acho inadmissível a proposta e uma das mais perigosas que foram apresentadas.”

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Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI | Entrevista ao “Washington Post”

“A guerra parece estar a desencadear uma série de desenvolvimentos que podem ficar fora de controlo”. A probabilidade de fragmentação da economia mundial tornou-se elevada: “podemos estar a caminhar como sonâmbulos para um mundo que é mais pobre e menos seguro.” Segundo ela, a construção de barreiras económicas pelos EUA e pela UE para obterem objetivos geopolíticos podem fazer mais mal do que bem, referindo apenas o campo económico.

A CANÇÃO DA VIDA | Mário Quintana

A vida é louca

a vida é uma sarabanda

é um corrupio…

A vida múltipla dá-se as mãos como um bando

de raparigas em flor

e está cantando

em torno a ti:

Como eu sou bela

amor!

Entra em mim, como em uma tela

de Renoir

enquanto é primavera,

enquanto o mundo

não poluir

o azul do ar!

Não vás ficar

não vás ficar

aí…

como um salso chorando

na beira do rio…

(Como a vida é bela! )

AS MODELAÇÕES DA PAZ NA UCRÂNIA

Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 25/11/2022



1 A guerra na Ucrânia foi um pretexto para Washington materializar o seu projeto geopolítico, tão bem descrito por vários pensadores e think tanks norte-americanos.

2 – É essencial para os EUA impedir essa aproximação. Foi exatamente isso que aconteceu, no final da Guerra Fria, quando Moscovo ambicionava aproximar-se da Europa e integrar as instituições europeias, nomeadamente a Comunidade Europeia e a NATO.



Mais recentemente, temos assistido a intervenções de várias entidades apelando à obtenção de uma solução política para o conflito, todas admitindo a possibilidade da amputação territorial da Ucrânia.

Foram precisos nove meses de guerra, a destruição de 50% das infraestruturas energéticas da Ucrânia, a ruína do seu tecido industrial, uma crise sem precedentes de refugiados (cerca de oito milhões) e de deslocados internos, a redução de 33,4% do seu PIB, mais de cinco milhões de desempregados, e centenas de milhares de vidas humanas ceifadas para se começar a falar de paz. Importa perceber a origem desta mudança discursiva.

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O Trapaceiro de Kiev | por António Jorge

Pela boca morre o peixe… e o trapaceiro… também.

– O comediante no poder em Kiev… sentenciou que só negociaria a paz com a Rússia, depois de Putin sair de cena… com um seu substituto… e que a seu tempo há-de surgir, porque nada nem ninguém é eterno

Obviamente… que pelo tempo, a sua decisão será confirmada… o tempo não tem tempo certo… e sempre se renova… ele sabe que Putin um dia… não se sabe quando, deixará de ser o presidente da Rússia!

Até lá… bem pode esperar sentado… até que o frio congele e despedace e destrua completamente a Ucrânia!

E tudo nos parece indicar… que o comediante demagogo, que Não se pode levar a sério… apesar da sua farsa criminosa…

– E assim… cabe em primeiro lugar ao povo ucraniano por razões de sobrevivência coletiva e decência política, libertar-se do coveiro… e enterrar o passado corrente de morte em massa e de todo o tipo de desgraças associadas… e eram… e são escusadas.

– Charlin Chaplin, apesar de ter sido comediante… e o maior de sempre em toda a história da sétima arte, deixou frases muito célebres e importantes na defesa da humanidade… porém, é preciso saber ser artista… e distinguir a vida virtual, da vida real.

A frase de Chaplin, de que o Mundo é um palco onde cada um representa o melhor que pode e sabe… Não estava a querer dizer que todos somos actores e estamos sempre a representar… Mas antes, a dar como exemplo para entender a vida.

A vida do povo ucraniano, é um Drama de morte, dirigido por um cómico… numa trama tragicómica de um povo entregue à aventura louca, e a precisar desesperadamente de quem o tire de cena, alimentado pelo sadismo de uns e os holofotes da fama perversa da desumanidade, na projeção macabra da arrogância de psicopatas, alimentada pela irresponsabilidade e cinismo mercenário da mentira organizada da comunicação social ocidental e de quem a usa.

Pôr fim à farsa, pelo direito dos povos à verdade.

Libertem o povo ucraniano dos seus algozes e falsos amigos de lá e de cá…

António Jorge – editor

Porto e Luanda

Retirado do Facebook | Mural de António Jorge

Europe accuses US of profiting from war

EUROPA ACUSA EUA DE ESTAREM A BENEFICIAR COM A GUERRA

Nine months after invading Ukraine, Vladimir Putin is beginning to fracture the West | EU officials attack Joe Biden over sky-high gas prices, weapons sales and trade as Vladimir Putin’s war threatens to destroy Western unity.

As principais autoridades europeias estão furiosas com a administração de Joe Biden e agora acusam os americanos de fazer fortuna com a guerra, enquanto os países da UE sofrem.

“O facto é que, se você olhar com seriedade, o país que está lucrando mais com esta guerra são os EUA porque estão vendendo mais gás a preços mais altos e porque estão vendendo mais armas”, disse um alto funcionário ao POLITICO.

Os comentários explosivos – apoiados em público e em privado por autoridades, diplomatas e ministros de outros lugares – seguem-se à crescente raiva suscitada na Europa pelos subsídios americanos que ameaçam destruir a indústria europeia. O Kremlin provavelmente receberá bem o envenenamento da atmosfera entre os aliados ocidentais.

“Estamos realmente numa conjuntura histórica”, disse aquele alto funcionário da UE, argumentando que o duplo impacto da interrupção comercial causada pelos subsídios dos EUA e pelos altos preços da energia corre o risco de virar a opinião pública contra o esforço de guerra e a aliança transatlântica.

“A América precisa perceber que a opinião pública está mudando em muitos países da UE.”

O diplomata-chefe da UE, Josep Borrell, pediu a Washington que responda às preocupações europeias. “Os americanos – nossos amigos – tomam decisões que têm impacto económico sobre nós”, disse ele em entrevista ao POLITICO.

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O Maestro do 25 de Novembro de 1975 | por Carlos Matos Gomes

Os acontecimentos da História são notas para várias sinfonias e distintas interpretações. A História conta-se através da interpretação de temas. A realidade transmitida pelos acontecimentos é apenas um tema conduzido por um maestro através dos executantes da orquestra que dirige.

O golpe de Estado 25 de Abril de 1974 e o processo político que o continuou até ele culminar no golpe de Estado de 25 de Novembro, um clássico putsch militar para alterar um regime, podem ser analisados como uma peça musical com vários andamentos, intérpretes, e um maestro que recebeu uma partitura com um tema: transformar um pequeno “perturbador rebelde” num menino invisível e bem comportado. Francisco da Costa Gomes recebeu essa partitura em Helsínquia, na Conferência para Segurança e Cooperação Europeia, no Verão de 1975, das mãos dos senhores do mundo dessa época, Gerald Ford, Leónidas Breshnev e os dirigentes da troika europeia, a Alemanha, a França e o Reino Unido. O 25 de Novembro constituiu o último andamento da sinfonia, em Moderato.

O 25 de Abril de 1974 foi um golpe militar da total responsabilidade de uma fação das forças armadas portuguesas para derrubar um regime de ditadura que levara o país a um beco sem saída com uma guerra colonial. A execução golpe não teve interferências estrangeiras. A ação dos “capitães” processou-se sem “autorização” de Estados estrangeiros, nem apoios externos.

Já o processo político desencadeado pelo 25 de Abril de 1974 teve, esse sim, fortíssimas intervenções externas até ao seu epílogo, em 25 de Novembro de 1975.

O derrube da ditadura portuguesa e a instauração de um regime de liberdade e de direitos políticos alterava a situação na Península Ibérica, onde conviviam duas ditaduras, e podia motivar fenómenos idênticos de intervenção democrática nas Forças Armadas de Espanha, com o ressuscitar de conflitos vindos da sangrenta Guerra Civil. Portugal era membro da NATO, um membro fundador e fiel, qualquer alteração política em Portugal e, mais ainda, causada por militares, implicava uma intervenção da NATO e em especial dos Estados Unidos. A Europa vivia ainda um momento de entusiasmo com o reforço da CEE devido à entrada do Reino Unido, existia um clima de détente na Guerra Fria, com a preparação de acordos de limitação de armas e forças entre a NATO/Estados Unidos e a URSS, que iriam conduzir aos Acordos de Helsínquia, que nem Gerald Ford e Kissinger, nem Breshnev queriam ver perturbados pela agitação num pequeno e periférico país, e, por fim, decorria o processo de descolonização com os negociações para a independência de Angola, a última joia da coroa do colonialismo europeu, cujo domínio interessava às duas superpotências, mas também, a toda a África Austral, à China e a Cuba.

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A Europa de Braudel e a Europa da Casa Branca | por Carlos Matos Gomes

Falar de Europa é forçosamente confrontarmo-nos com o problema dos dez últimos séculos da história do planeta: do domínio do mundo por um continente tão minúsculo. (…) Dir-se-á que a Europa foi genial, mais genial do que a humanidade não europeia, que a sua técnica foi superior às outras, que a sua agressividade foi mais eficaz, que a sua economia foi mais dinâmica… Mas estas afirmações limitam-se a formular o problema. (Formular os problemas é o que a maioria dos comentadores do espaço público tem feito, os melhores, a maioria limita-se a proferir ladainhas.)

A afirmação a itálico é de Fernand Braudel (1902–1985), um dos nomes maiores da historiografia do século xx, diretor da coletânea de textos reunido no livro «Europa», Terramar, 1996, num artigo intitulado: «A Europa conquista o planeta.» Nos círculos do pensamento único, Braudel seria hoje proscrito como um russófilo, um capacho de Putin.

Que resposta dá Fernand Braudel para o papel da Europa nos últimos dois mil anos?

“Há séculos que a Europa ultrapassou os obstáculos fantásticos da geografia e da dimensão, rompendo os seus «limites naturais». Voltada ao mar e o oceano, muito cedo se tornou num continente «sem margens»: conquistou, dominou os caminhos sem fim da água marinha. E, vista através das suas imagens essenciais de poderio, a Europa é acima de tudo, há séculos, os navios, as frotas que saem dos seus portos ou a eles regressam.

A proeza é a mesma, na verdade, do lado da densidade das terras, rumo à imensidão asiática. A Europa é, por vezes, de acordo com juízos apressados, confinada aos limites orientais da Polónia, mas isso não passa de uma opinião insustentável, isto porque, após o século XVIII, ela anexa de facto as florestas, as planícies, os pântanos, os cursos de água, as cidades, os povos da Rússia, até aos montes Urales, como diziam os velhos. […] Assim, podemos sustentar que uma certa Europa se espraia, sem perder o fôlego, através da imensidão da Sibéria, até Vladivostoque. A Rússia, Europa por si só, filha de Bizâncio e da Grécia, inventou a Sibéria, tal como o Ocidente inventou a América.

Rússia, Sibéria, América esboçam as superfícies essenciais da explosão da Europa através do mundo. São, por excelência, as zonas do seu enraizamento, da sua permanência.”

Braudel, escreveu este artigo antes da subida ao poder de Gorbachev (1985) que prenunciou a dissolução da URSS (1991) e a queda do Muro de Berlim (1989). Para ele, como para os políticos e intelectuais europeus que após a II Guerra Mundial reconstruíram a Europa e idealizaram uma Europa do Atlântico a Vladivostoque — que integrasse as planícies, os pântanos, os rios para além da Polónia, a Ucrânia, de hoje, a Rússia era Europa “ Numa dada igreja do Kremelim com quadros mais que familiares: o Juízo Final, Jonas a sair do ventre da baleia, as trombetas de Jericó…”

Aos pais fundadores da Europa do pós-Segunda Guerra, da reconstrução sempre atentamente controlada de perto pelos Estados Unidos, esses sim, uma criação da Europa e não um elemento dela, sempre foi clara natural a pertença da Rússia ao seu mundo civilizacional, à sua cultura e à sua história. Construir uma Europa com a Rússia era um objetivo estratégico do mais alto alcance, e mereceu sempre a oposição declarada dos EUA, para quem a Europa seria uma província sua, uma velha quinta de família, uma base contra a Rússia, dentro da sua estratégia de novo império em afirmação.

Os Estados Unidos foram controlando com desconfiança e sabotando sempre que puderam e através do Cavalo de Troia da Inglaterra o processo de União Europeia e de integração da Rússia nesse projeto. O ponto de rutura — escamoteado — dos EUA com este projeto ocorre com a dupla Reagan- Tatcher, com a criação do mercado global (a inclusão da China na Organização Mundial do Comércio, que substituiu o acordo geral de taxas e comércio — GATT), com a utilização da China para enfraquecer a Europa através da deslocalização da sua indústria para a Ásia, pela recusa em aceitar uma política comum de defesa europeia, de um mercado comum de energia e de comunicações.

A criação da União Europeia, em substituição da Comunidade Económica Europeia (Tratado de Maastrich — 1993), dotando a União de objetivos políticos para além de um mercado comum, violou as linhas vermelhas estabelecidas pelos ocupantes da Casa Branca de Washington para a Europa. Uma violação que se agravou com a criação do Euro (1999) e, por fim, com o Tratado de Lisboa de 2009.

É curioso notar que o Reino Unido procurará sabotar o processo de criação de uma União Europeia em todas as fases e momentos. Foi sempre essa a sua missão, ao serviço dos EUA (uma tarefa de sapador que De Gaulle percebeu desde o início, impedindo que a Inglaterra entrasse para o clube fundador). A Inglaterra, com Tatcher e depois com Tony Blair, colocará entraves a todas as medidas integradoras das políticas europeias, arrastará a Europa para as intervenções americanas no Médio Oriente, para o desmembramento da Jugoslávia, para o apoio à ocupação da Palestina e a ocupação dos campos de petróleo da Líbia. Mas, principalmente através de Blair, os ingleses promoveram a chamada política do “sapo fumador” para rebentar com a União Europeia, propondo sucessivas e rápidas integrações dos estados do Leste que haviam pertencido ao Pacto de Varsóvia e ao Comecon (caso da Hungria, da Polónia, da Checoslováquia, da Roménia, dos Estados Bálticos), violando o acordo estabelecido pelo “Ocidente” (Estados Unidos) com Gorbachev de não os incluir nem na UE, nem na NATO. O alargamento da UE de forma indiscriminada e incluindo membros sem atributos que cumprissem as regras estabelecidas para a ela pertencerem, a violação de acordos foram o “trabalho” da Inglaterra neste processo, onde se distinguiu Blair. Terminado o “trabalho” de sabotagem a Inglaterra podia voltar à servidão dos EUA, e provocou o Brexit.


Nas causas longínquas da atual guerra na Ucrânia encontramos uma violação de acordos estabelecidos pelos EUA com a Rússia, que antecedem a recusa ou a violação dos recentes acordos de Minsk por parte do atual regime da Ucrânia suportado pelos EUA. A justa guerra do Ocidente começa com duas faltas de palavra!


Também não deixa de ser revelador da estratégia dos EUA de implosão da UE, de que a guerra na Ucrânia parece ser o ato final e o toque de finados, que os presidentes da Comissão Europeia, a partir da sua constituição tenham sido duas figuras tão medíocres e submissos quanto o italiano Romano Prodi (1999–2004) e Durão Barroso (2004–2014) o rececionista da Cimeira das Lages, a vergonhosa encenação para justificar a invasão do Iraque, pago por esse papel com o lugar em Bruxelas, arranjado por Blair. Estas duas tristes personalidades substituem políticos do gabarito de Jacques Dellors, por exemplo. Para a última fase da implosão da UE foi selecionada uma belicista para fazer coro com o secretário-geral da NATO.

A Europa vista pelos olhos dos políticos europeus do pós-Segunda Guerra, pelos olhos dos historiadores europeus, dos seus pensadores continentais é a Europa de Braudel, a Europa que inclui a Rússia e Sibéria, mas também o Mediterrâneo. O «Mediterrâneo», que numa obra clássica Braudel apresentou como uma personagem da História, tal como a Europa e que é visto por ele como personagem ou protagonista, ativo e até determinante da própria História. É um Mediterrâneo do comércio, dos intercâmbios económicos, de deslocamentos demográficos de sucessivas migrações dos povos. A União Europeia seria mais do que um simples apêndice dos EUA e para isso incluiria naturalmente a Rússia. Essa Europa deveria tornar-se uma entidade autossuficiente e, mais que isso, um centro de poder decisivo no mundo. Um concorrente que os EUA não podem admitir e que castraram antes de se desenvolver.

Essa Europa, como o império romano, morreu por traições internas e às mãos dos bárbaros que lhe introduziram o Cavalo de Troia.

É triste, mas é a realidade, verificar quanto a propósito dos tempos que vivemos os que podiam utilizar os instrumentos do saber adquirido ao longo da história, dos pensadores e historiadores substituíram o pensamento por provas e teses de doutoramento, a reflexão por uma ida à televisão, a independência intelectual por um convite a uma conferência. Estão no mercado, justificam-se uns, são moralistas, dizem outros e estão do lado do Bem, os invasores subtis do Oeste contra os invasores de Leste, os Maus.

Há europeus que tinham da Europa a visão de Braudel — perderam. Há europeus que preferiram a da Casa Branca, ganharam, a sua Europa será um dos vários exemplos de sucesso deixados pelos americanos aos seus vassalos depois de os utilizarem, do Vietname ao Afeganistão, passando pelo Iraque, pela Líbia, pelas repúblicas bananeiras da América do Sul…

Carlos Matos Gomes

Hedy Lamarr | La mujer que inventó el WI-FI|

La mujer más bella del mundo del cine: gracias a ella tenemos Wi-Fi. Su nombre era Hedy Lamarr.
Ella era una mujer judía vienesa con la pasión por la tecnología y vocación por el teatro y cine.
Hedy Lamarr, además de ser una actriz muy exitosa, había practicado ingeniería eléctrica en su tiempo libre en el estudio de su casa.
La invención de Lamarr, “tecnología de espectro ensanchado”, era un sistema de salto de señal que evitaba que los enemigos interfirieran con las señales de radio entre un barco y sus torpedos.
Lo creó para ayudar a luchar contra los nazis. Lo que pocos sospechaban en Hollywood era que la hermosa morena que protagonizó junto a Spencer Tracy o Clark Gable era también una extraordinaria ingeniera de comunicaciones, capaz de inventar y patentar un sistema beeper para misiles.
El gobierno de los Estados Unidos rechazó el invento durante la Segunda Guerra Mundial, solo para recuperarlo en el momento de la crisis cubana.
En resumen, si hoy podemos conectarnos de forma inalámbrica con celulares, PC y tabletas a las redes, se lo debemos a ella, la mujer más hermosa del mundo.
Hedy Lamarr fue el epítome de la belleza y el cerebro en una época en que solo uno de ellos era apreciado en las mujeres.

Gracias Divina Hedy Lamarr !

Retirado do Facebook | Mural de Literatura y psicoanalisis

ALISON BALSOM | Sound the Trumpet (Royal Music of Purcell & Handel)

In the year of Queen Elizabeth II’s Diamond Jubilee, Alison Balsom celebrates the heroic era of the Baroque trumpet in works by George Frideric Handel (1685-1759) and Henry Purcell (1658 or 1659-1695), whose anthems, odes, sinfonias and operas have provided the music for numerous royal celebrations from their own day to the present.

Joining forces with Trevor Pinnock, harpsichordist, conductor and pioneer of historical performance, and with the English Concert orchestra that he founded, Balsom demonstrates the versatility and expressive power of her valve-less instrument in original works and new arrangements. These include Purcell’s Sound the trumpet and Handel’s Eternal Source of light divine in duet with countertenor Iestyn Davies and Purcell’s The Plaint from The Fairy Queen in duet with soprano Lucy Crowe. Further repertoire includes suites from Purcell’s semi-operas King Arthur (1691) and The Fairy Queen (1692) in new arrangements by Balsom and Pinnock, Handel’s Water Piece in D Major HWV 341 and his Oboe Concerto No. 1 in B-flat Major HWV 301 transposed into C Major.

Alison Balsom is one of today’s most popular classical musicians. Having managed to break through to the mainstream without abandoning her musical integrity, she continues to draw ever-wider audiences for her performances and recordings of diverse repertoire.

Golpe de Putin | Autor: Mike Whitney | Editora: Walt | 21 de novembro de 2022

Para ler e refletir:

Golpe de Putin – Autor: Mike Whitney | Editora: Walt | 21 de novembro de 2022

“Os ucranianos estão em péssimo estado… Não vai demorar muito para que os ucranianos fiquem sem comida. Não vai demorar muito para eles congelarem… Eles fizeram tudo o que podemos razoavelmente esperar deles. É hora de negociar… antes que a ofensiva comece, porque uma vez que ela comece, não haverá mais discussão entre Moscovo e Kiev até que seja concluída a contento dos russos.” (Coronel Douglas MacGregor) (1)

“A rigor, ainda não começamos nada. ” (Vladimir Poutine)

Os ataques implacáveis ​​à rede elétrica da Ucrânia, unidades de armazenamento de combustível, centros ferroviários e centros de comando e controle marcam o início de uma segunda fase mais mortal da guerra. O ritmo acelerado de ataques de mísseis de alta precisão e longo alcance sugere que Moscovo está preparando o terreno para uma grande ofensiva de inverno a ser lançada assim que os 300.000 reservistas russos retornarem às suas formações no leste da Ucrânia. A recusa de Kiev em negociar um acordo que aborde as principais preocupações de segurança da Rússia deixou o presidente russo, Vladimir Putin, sem escolha a não ser derrotar as forças ucranianas no campo de batalha e impor um acordo pela força das armas. A iminente ofensiva de inverno foi projetada para desferir o golpe decisivo que a Rússia precisa para atingir seus objetivos estratégicos e acabar com a guerra rapidamente.

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Rencontre avec Alain Aspect | Des concepts étranges aux technologies de pointe | la mécanique quantique

Alain Aspect vient nous expliquer les expériences qui lui ont valu son prix Nobel de physique 2022. En 1982, il met en évidence que deux particules distantes peuvent être liées sans communiquer. Comment l’intrication quantique a-t-elle changé notre conception de la localité ?

Avec

  • Alain Aspect Professeur à l’Institut d’optique et à l’école Polytechnique, directeur de recherche émérite du CNRS, membre de l’Académie des sciences et Prix Nobel de physique 2022

Entre 1980 et 1982, l’expérience d’Orsay d’Alain Aspect est l’une des expériences les plus importantes de la mécanique quantique et peut être même de toute la physique.

Le physicien prouve très clairement que l’intrication quantique est un phénomène observé- qui correspond à tout ce qu’avait prédit la physique quantique. Avec ce pionnier, on revient aujourd’hui sur cette expérience de pensée chère à Einstein, jusqu’à son expérimentation en laboratoire. Et sur comment ses travaux ont ouvert la voie à la seconde révolution quantique.

O Primeiro Direito do Ser humano: Ser | por Carlos Matos Gomes

O Primeiro Direito do Ser humano: Ser

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de Dezembro 1948, há quase 75 anos e no ambiente do pós-Segunda Guerra, da derrota do nazismo e do fascismo. O seu primeiro Artigo refere: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

A Declaração qualifica sempre aqueles a quem se dirige como seres. Seres humanos, no caso.

Esta designação é central e definidora do que se trata e do que se defende: Um ser!

Os autores da Declaração partiram do princípio — que lhes parecia evidente — de que os seus semelhantes espalhados pelo planeta se reconheciam como «seres», pelo que tomaram como uma estultícia, uma redundância e até uma ofensa à dignidade de cada um declarar que os humanos são, antes de tudo, seres.

A atualidade desmente esse pressuposto dos autores e dos subscritores da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Shakespeare, um dos génios da humanidade, conhecia a história dos humanos desde a antiguidade e da violência em que ela assentava. Ele conhecia e retratou a perversidade dos humanos, homens e mulheres, Hamlet e Lady Macbeth. Não acreditava na alma, nem na criação de seres humanos à imagem de um qualquer Deus. Ele duvidava que o ser humano tivesse, sequer, consciência de si. A célebre frase de Hamlet — to be or not to be — ser, ou não ser, coloca a questão de os humanos serem apenas seres vivos como os outros, sem consciência da sua singularidade, sem qualquer ligação a um passado com origem no divino, vindos do nada nas mãos de um Criador. As ações sanguinárias relatadas nas suas tragédias, as traições (Júlio César), os crimes, levaram Shakespeare a formular a dúvida sobre o ser humano ter direito a sê-lo.

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General Raul Luis Cunha | O bombardeamento da central nuclear de Zaporizhzhia continua | Quando se sabe quem é o verdadeiro culpado, é uma estupidez atribuir as culpas a Moscovo.

O bombardeamento da central nuclear de Zaporizhzhia continua. Ontem, em 20 de novembro, foram registados mais de 15 projécteis que atingiram as instalações da estação. Desses, oito granadas de artilharia de grande calibre caíram entre a Unidade 5 e a Unidade Especial 2, e uma atingiu o teto da unidade, onde o combustível nuclear já usado está armazenado. Além disso, as Forças Armadas ucranianas dispararam vários projécteis para o local da instalação de armazenamento seco do lixo nuclear.

Em reacção a esses bombardeamentos, o Director-Geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) pediu (https://www.cgtn.com/…/Latest-on-Russia-Ukraine-crisis…) o fim imediato do bombardeamento dessa central. A única coisa que ele não especificou foi a quem essa mensagem era endereçada. Parece que não resta óbvio para toda a gente que os militares russos não se estão a bombardear a si próprios, ou que a democracia ocidental está a ser completamente censurada, já que não pode ser abertamente nomeado o destinatário de tais apelos.

Bom, não devemos ficar surpreendidos com as tentativas do Ocidente de culpar a Rússia sob quaisquer circunstâncias, contrariando as evidências e o bom senso. O bombardeamento irresponsável da central nuclear de Zaporizhzhia ou o míssil que caiu recentemente na Polónia são disso um claríssimo exemplo. Quando se sabe quem é o verdadeiro culpado, é uma estupidez atribuir as culpas a Moscovo.

No entanto, continuaremos a ter que conviver bastante com estas tentativas de culpar a Rússia por todos os problemas do mundo, isto porque no Ocidente haverá sempre muito poucos políticos dispostos a admitir os seus erros, e muito menos os erros de Zelensky, pois uma tal atitude iria enfraquecer toda a estratégia anti-russa e, para os políticos ocidentais é preferível serem falsos e mentirosos, o que, aliás, já é do conhecimento geral.

Retirado do Facebook | Mural de Raul Luis Cunha

Silas Corrêa Leite e a voz dos deserdados da terra | por Adelto Gonçalves

Em novo livro, autor recolhe flagrantes da história oral vivida nas favelas de São Paulo

                                                          I
            Quem já percorreu os labirintos dos arquivos públicos sabe que a documentação, majoritariamente, reflete a posição das classes dominantes e de seus lacaios. Por isso, quando um dos deserdados da terra consegue fazer com que ouçam sua voz esse acontecimento torna-se motivo de regozijo. Foi o caso de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), catadora de papéis que vivia numa favela do Canindé, em São Paulo, que ficou conhecida por seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960, com auxílio do jornalista Audálio Dantas (1929-2018), obra traduzida para 14 idiomas.


Nessa linhagem, o poeta, romancista e contista Silas Corrêa Leite (1952), de origem humilde, também é uma espécie de deserdado da terra que encontrou na literatura uma forma de fazer com que a voz dos excluídos seja ouvida. Começou sua vida profissional cedo, tendo sido aprendiz de marceneiro e garçom em Itararé, cidade na divisa entre os Estados de São Paulo e Paraná, além de engraxate, boia-fria e vendedor de doce de groselha. Começou a escrever aos 16 anos, passando a produzir crônicas para o jornal O Guarani. E logo foi aprovado num concurso para locutor na Rádio Clube local.
 Em 1970, migrou para São Paulo, onde morou em pensões, cortiços, passou fome e dormiu na rua.  Já empregado, formou-se em Direito e Geografia, sendo especialista em Educação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de ter cursado pós-graduações nas áreas de Educação, Filosofia, Inteligência Emocional, Jornalismo Comunitário e Literatura na Comunicação, curso este que fez na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

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O decote do século XX | Manuel S. Fonseca

Nessa altura, nos meus tempos da SIC, viajava muito. Vi, então, o decote do século XX. Como aqui se conta.

Nudez, espécie em vias de extinção

A mulher nua é um escândalo do passado. Ou talvez não. Há dias, em Paris, num restaurante, o dono barrou a entrada a duas lábeis e decotadíssimas mulheres: a fenda da Tundavala que se lhes cavava no peito era uma anacronismo de fazer estremecer o século XXI. Há, estremeço também eu, um insidioso prurido a germinar na pele do século XXI. Ou virá o século XXI a ser o século do homem nu?

E já me belisco a mim mesmo: o maior decote que vi, não foi no peito, foi nas costas. Era o decote de Sharon Stone. Ela estava à minha frente, oferecendo o esplendor das costas nuas, o rendilhado desenho de uma perfeita coluna vertebral, das primeiras vértebras cervicais até essas nove vértebras fundidas e finais, cinco do sacro, quatro do cóccix, essa lança sacrococcígea a que se segue o que de mais sumptuário há na anatomia humana.

Eu vi: era o decote do século XX e foi nos estúdios da Warner, em Los Angeles, nuns longínquos MTV Awards, a Madona a dois passos. Houve convívio a seguir, mas a Stone levou-a o vento ou os deuses, e eu consolei-me a comer um hamburger com Danny Glover e a lamber um gelado com Valeria Golino. Lição moral: aquela foi a visão! Mais do que a roubada e fugaz visão do infame descruzar de pernas de “Basic Instinct”, a assumida resplandecência das costas de Sharon Stone, a insinuação do rotundo estuário onde desaguam, é a visão redentora. O que Sharon mostrou nessa noite, mostrava-o porque queria, sem medo e sem equívoco. Era para ver e eu vi: o traseiro decote do século XX.

Estará extinto o escândalo da mulher nua? E onde começou? No cinema? Lembro-me que, no cinema mudo, Mack Sennett despia as mulheres. Inundava as suas comédias de bathing beauties, como depois o genial Busby Berkeley, já o cinema falava e cantava, povoou de fatos de banho cor de pele os seus delírios musicais pré andy-wharolianos.

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A Rússia terá enviado um ultimato à Ucrânia, dando até ao final do mês, para se sentar à mesa das negociações. | Major-general Agostinho Costa

O major-general Agostinho Costa esteve, este domingo, na CNN Portugal e falou sobre o alerta lançado pelas autoridades ucranianas de possíveis ataques em todo o país.

O comentador da CNN Portugal não tem dúvidas de que algo assim só acontece quando “se vislumbra, e há sinais que alguma coisa de importante se vai passar” e que isso poderá estar relacionado com o facto de circular notícias de que “a Rússia terá enviado um ultimato à Ucrânia, dando até ao final do mês, para se sentar à mesa das negociações”.

E que poderá ter alertado que se isso não acontecer, “o próximo ataque” poderá “destruir o sistema de abastecimento energético da Ucrânia”. Sendo que a postura do país terá sido “que está pronto para que a população saia da Ucrânia”.

Todavia, major-general Agostinho, lembra que “os principais sinais” chegam dos Estados Unidos. E que, este domingo, o Secretário da Defesa norte-americano afirmou que “a NATO não está à procura de uma confrontação e não se deixará arrastar para o conflito”. Mas que irá continuar a apoiar a Ucrânia.Ver menos.

Francisco sobre o diálogo, as mulheres, os católicos alemães… Padre Anselmo Borges | in DN

Entre 3 e 6 deste mês de Novembro, o Papa Francisco esteve no Bahrain, no Fórum a favor do Diálogo: Oriente e Ocidente pela coexistência humana. No regresso, no avião, deu, como é hábito, uma conferência de imprensa. É sempre enriquecedor dar atenção a essas conferências, até porque há temáticas múltiplas da actualidade e uma espontaneidade acrescentada. Seguem-se alguns temas.

1. Referindo o diálogo, acentuou que é uma palavra-chave: “diálogo, diálogo”. Já tinha sublinhado, aliás, que os animais é que não dialogam, os humanos têm de resolver os seus problemas através do diálogo. Condição para dialogar é que se tem de partir da identidade própria, ter identidade afirmada, não difusa. Quando alguém não tem a sua própria identidade ou ela não é firme, o diálogo torna-se difícil, até impossível. A sua viagem foi uma viagem de encontro, porque o objectivo era estar em diálogo inter-religioso com o islão e ecuménico com os ortodoxos. Ora, tanto o Grande Imã de Al-Azhar, no Cairo, Ahmed al-Tayeb, como o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, “têm uma grande identidade” e as suas ideias vão no sentido de procurar a unidade, respeitando as diferenças, evidentemente, em ordem ao entendimento e ao trabalho conjunto para o bem e a paz da Humanidade. Também se chamou a atenção para a Criação e a sua protecção: “isto é uma preocupação de todos, muçulmanos, cristãos, todos”. Os crentes das várias religiões “devemos caminhar juntos como crentes, como amigos, como irmãos.”

2. Na sua viagem, lembrou outro jornalista, “falou sobre os direitos fundamentais, incluindo os direitos das mulheres, a sua dignidade, o direito a ter o seu lugar na esfera social pública”…

Resposta de Francisco. “Temos de dizer a verdade. A luta pelos direitos da mulher é uma luta contínua. Há lugares onde a mulher tem igualdade com o homem, mas noutros não. Pergunto: porque é que uma mulher tem de lutar tanto para manter os seus direitos?” E falou na ferida da mutilação genital feminina: “isto é terrível”. Como é que a humanidade não acaba com isto, que é “um crime, um acto criminoso! As mulheres, segundo dois comentários que ouvi, são material “descartável” – isso é mau, claro – ou são “espécies protegidas”. A igualdade entre homens e mulheres ainda não é universal, e existem estes incidentes: as mulheres são de segunda classe ou menos. Temos de continuar a lutar. Deus criou-os iguais, homens e mulheres. Todos os direitos das mulheres provêm desta igualdade. E uma sociedade que não é capaz de colocar a mulher no seu lugar não avança.” As mulheres têm uma capacidade de gerir as coisas de outra maneira, que “não é inferior, mas complementar”. E uma constatação: “Vi que no Vaticano sempre que entra uma mulher para fazer um trabalho as coisas melhoram: por exemplo, o vice-governador do Vaticano é uma mulher e as coisas mudaram para bem.” Só um exemplo.
Igualdade de direitos, mas também igualdade de oportunidades; caso contrário, empobrecemo-nos. Há ainda muito caminho para percorrer. Porque “existe o machismo. Venho de um povo machista. Lutamos não só pelos direitos, mas porque precisamos que as mulheres nos ajudem a mudar.”

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Emmylou Harris | (You Never Can Tell) C’est la Vie (live)

Emmylou Harris (born April 2, 1947) is an American singer, songwriter and musician. She has released many popular albums and singles over the course of her career, and she has won 14 Grammys, the Polar Music Prize, and numerous other honors, including induction into the Country Music Hall of Fame. In 2018 she was presented the Grammy Lifetime Achievement Award.

Eu tenho um discurso de sonho | Martin Luther King + Martin Luther King Jr. Nobel Peace Prize Acceptance Speech

Eu tenho um sonho “é um discurso público que foi entregue pelo ativista dos direitos civis americano Martin Luther King Jr. durante a Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade em 28 de agosto de 1963, na qual ele pediu direitos civis e econômicos e um fim para Nos EUA, entregues a mais de 250 mil defensores dos direitos civis dos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, DC, o discurso foi um momento decisivo do movimento pelos direitos civis e um dos discursos mais emblemáticos da história norte-americana.

Natalia Petrovna Osipova | Biografia

Após sua formatura, já com 18 anos ela entrou para o corpo de baile do Teatro Bolshoi. Em 2006, ela tornou-se solista, solista principal em 2008, bailarina principal em 2010. Em dezembro de 2011, ela entrou para o Mikhailovsky Ballet Company. Hoje em dia atua como primeira bailarina do Royal Ballet, Londres.

Natalia Osipova nasceu em Moscou. Ela começou a ir ao ballet quanto tinha 5 anos, devido a um problema nas costas. Com 8 anos ela entrou na escola Ballet Mikhail Lavrovsky. De 1995 até 2004, ela estudou na Academia Coreográfica de Moscou com Marina Kotova e Marina Leonova. Ainda um aluna na Academia, em abril de 2003, ela ganhou o “Grand Prix” no Concurso Internacional de Balé, em Luxemburgo, dançando as variações de “La Bayadère”, “Don Quixote”, “Esmeralda” e “Tchaikovsky Pas de Deux” , bem como da coreografia contemporânea criada para a peça “Liturgia” por Yegor Druzhinin.

Biografia

Decidida a seguir carreira como ginasta, quando ela era criança, Osipova apenas virou-se para balé por causa de um problema nas costas. De 1996 até 2004, ela estudou na Academia Coreográfica de Moscou com Marina e Kotova Leonova Marina. Embora sendo uma aluna na Academia, em abril de 2003, ela ganhou o “Grand Prix” no Concurso Internacional de Balé, no Luxemburgo, dançando variações de “La Bayadère”, “Don Quixote”, “Esmeralda” e “Tchaikovsky Pas de Deux”, bem como a peça contemporânea exclusivamente criada para ela, “Liturgia” por Yegor Druzhinin.

Após a formatura, em 2004, Natalia se juntou ao Ballet Bolshoi, como membro do corpo de baile. Juntamente com corpo de baile, ela recebeu imediatamente alguns solos. Já em setembro de 2004, ela realizou o “Pas De Deux Paysant” em “Giselle”, com Vyacheslav Lopatin. Em novembro de 2004, Natália foi escolhida como líder dançarina em “Bolero”, uma criação pelo diretor artístico Alexei Ratmansky, definido durante o primeiro workshop do Teatro Bolshoi. Inicialmente Natalia foi treinada por Ludmilla Semenyaka, mas posteriormente começou a trabalhar com Marina Kondratieva.

Em outros solos, dançou: a boneca espanhola em “O Quebra Nozes”, a Noiva Espanhola com Yuri Grigorovich do “Lago dos Cisnes” e as variações no primeiro Grand Pas de “Don Quixote”, e isso enfatizou seus saltos altos, magníficos (o seu ballon). Ao mesmo tempo, ela também criou pequenos papéis na versão Ratmansky de Dmitry Shostakovich “Bolt”, assim como na estréia Teatro Bolshoi de John Neumeier “A Midsummer Night’s Dream” (Mustardseed) e Leonide Massine “Parisienne Gaité” (como solista Cancan). No último, Natalia Massine, programa que também foi lançado como Frivolidade em “Les presságios”, destacou sua facilidade técnica e a qualidade do movimento.

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https://pt.wikipedia.org/wiki/Natalia_Osipova

Estivemos ” muito, muito próximo ” da III Guerra Mundial, de um conflito entre a NATO e a RÚSSIA | Major-General Agostinho Costa

O major-general Agostinho Costa esteve, este sábado, na CNN Portugal e falou sobre os acontecimentos da última semana na Ucrânia. O maior destaque foi para o incidente na Polónia que apesar de “estar ultrapassado, superado”, para o comentador “foi muito importante” porque “nos colocou muito, muito próximo de um conflito, da III Guerra Mundial, de um conflito entre a NATO e a Rússia”.

Referiu ainda que o incidente permitiu ver algum desentendimento entre Joe Biden, presidente norte-americano e Zelensky, presidente da Ucrânia. Já que este último terá ligado a Joe Biden, na terça-feira, e este “não lhe atendeu a chamada” Tal como, permitiu perceber que “há uma postura de alguns países da NATO nitidamente de confrontação, nomeadamente da Polónia e dos Países Bálticos”.

Destacou a reabertura da linha de caminho de ferro entre Kiev e Kherson que descreveu como “o cordão umbilical, que permitirá certamente chegar à cidade ajuda humanitária”. E explicou que na frente do comboio seguiam “dois vagões – só plataforma – como uma medida de segurança”. Mas o major-general Agostinho Costa lembrou as declarações feitas por Mark Milley, chefe de estado maior das forças armadas norte-americanas, em que este considerou que “as condições para a Ucrânia vencer esta guerra no plano militar, no curto prazo, são muito escassas e que a Ucrânia devia aproveitar o momento para a diplomacia”.

Garantindo que “se a Ucrânia entender continuar o combate, os Estados Unidos continuarão a apoiar”. Na opinião do comentador “esta mensagem é ‘se quiserem continuar a matar-se uns aos outros, tenham a bondade, que nós vamos fornecendo as munições. Mas tenham atenção que não está no horizonte imediato o fim desta guerra'”.

19-11-2022

Espinosa | Segunda Edição das “Obras Completas” em França | in Pléiade

A Pléiade, a mais considerada e prestigiada colecção em França, re-edita as obras completas do nosso Bento de Espinosa. Esta reedição (a primeira edição data de 1954) não é, contudo, uma cópia da anterior. É totalmente nova e inovadora.

Espinosa é filho de portugueses que se fixaram nos Países Baixos, fugindo às odiosas e bárbaras perseguições da Inquisição aos suspeitos de judaísmo. O seu mestre foi o filósofo português Uriel da Costa, também fugido aos mesmos esbirros. A sua língua materna era o português. E, no entanto, o criador da ideia filosófica de Liberdade e um dos grandes filósofos (senão, mesmo, o maior) da história da Europa continua a não ter as suas obras completas disponíveis na sua língua materna. Uma lacuna sem perdão… E uma falha terrível e muito lamentável no “softpower” de Portugal.

Libération: Spinosa, «ami du genre humain» mutant

Le philosophe d’Amsterdam voit ses œuvres complètes publiées une deuxième fois dans la Pléiade. Soixante-huit ans après la première édition, l’auteur de «l’Ethique» apparaît encore plus radical, à la lumière des lectures et exégèses menées depuis.

Est-ce fréquent qu’une prestigieuse collection – une institution – accueille en son sein, par deux fois, les œuvres complètes d’un même auteur ? C’est le cas de Spinosa, qui fait son entrée dans la bibliothèque de la Pléiade déjà en 1954, dans la version de Roland Caillois, Madeleine Francès et Robert Misrahi, et qui s’y retrouve de nouveau aujourd’hui, dans une édition impeccable (incluant, outre tous les textes évidemment, la Correspondance et le plus rare Précis de grammaire de la langue hébraïque), publiée sous la direction de Bernard Pautrat.

Si on ne peut voir là un doublon, c’est qu’il ne s’agit pas du même Spinosa, au sens où, en soixante-dix ans, il a totalement muté sous l’effet de l’«abondance inhabituelle» de lectures et d’exégèses qui ont été faites de son œuvre. Un seul exemple, le Traité politique: il a été longtemps «négligé, voire méprisé par les éditeurs, traducteurs, et même les doctes», alors qu’est évidente sa «fécondité subversive», insupportable à ceux qui n’aiment ni la vérité ni la liberté.

D’une certaine manière, c’est un Spinosa plus «radical» qui est apparu, dont la pensée s’avère irréductible à des formules «percutantes et faciles à retenir» : «philosophe de la joie», «conatus», «persévérer dans son être», «passions tristes», etc. Une pensée construite comme l’ingénieur construit une machine complexe, qui exige qu’on ne «saute» aucun rouage, aucune transition, aucun raccord, si on veut comp …..

https://www.liberation.fr/culture/livres/spinoza-ami-du-genre-humain-mutant-20221116_4UUXRZ3YJJFKVCKW4LS4MYPWWM/?fbclid=IwAR3o5YE3JJyduMu2rhzRZPWMUxN94c-SSFoMVgyOKafXbUODkLDicveU45E

Retirado do Facebook | Mural de José Mateus

Por ocasião do Dia Mundial da Filosofia | André Barata

17-11-2022 | Notas soltas

Ao contrário das ciências, a filosofia não é definida por um objecto nem por um método. Na verdade, revela-se parcialmente nessa diferença. Para a filosofia, o seu método, em vez de ponto de partida, é questão e resposta a que se chega em cada proposta original. E o seu objecto pode ser qualquer um, nada havendo no real reconhecível que se possa dizer à partida filosoficamente inapropriado. Desde que a fenomenologia tomou um cocktail de apricot sorvido à mesa de uma esplanada entre amigos e o tomou com um bom tema de reflexão fenomenológica, nem o mais mundano no mundo desinteressa à filosofia. Como tudo pode ser arte, tudo pode ser filosofia.

Levada a sério a radicalidade bem-querida do seu questionar, a filosofia tem necessariamente de se fazer parte questionada. Por princípio, a pergunta “o que é a filosofia?” é uma pergunta filosófica e filosoficamente incontornável. O que torna a filosofia uma noção aberta e que não se deixa enquadrar. Além disso, uma noção contingente, que depende do acontecimento intelectual de se pôr em questão. Mas, tudo isto faz parte da própria indefinição que caracteriza, de forma necessariamente contingente, a filosofia.

E, contudo, a contingência história perturba a filosofia. Por exemplo, na sua Introdução à Antifilosofia (2009), Boris Groys escreveu que a filosofia é raramente praticada neste tempo de hoje, em que prevalece um saturado mercado de verdades. Como tudo passou a poder ser arte, também tudo passou a poder ser filosofia. O que parece muito – tudo poder ser filosofia – é afinal pouco: trata-se de um tudo pouco disponível, condicionado, até à exaustão dos praticantes, pelo formato da produção e do valor de mercado. Como temos uma anti-arte temos uma anti-filosofia, e ambas deslizam para um lugar de deserto. Não será a arte que se obceca a refutar incessantemente qualquer definição dela mesma um desses exercícios alucinatórios de novidade sem o novo? Não será exactamente assim também com a filosofia, em desenfreada produção de conceitos que se esvaem na própria sofreguidão da atualidade? Já se fez arte e filosofia, mesmo na pobreza; agora, que aderem ao regime da produção de valor, arte e filosofia arriscam a pobreza.

Ou, pelo contrário, não serão a arte e a filosofia os últimos lugares de sentido em que testamos a capacidade de fazer sobrevir o estranhamento que rompe com o banal, com a simples transmissão do movimento que nada mais deixa acontecer? E não vale esta tensão, e inerente ambivalência, para desafiar hoje especialmente a filosofia e a arte?

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100 anos de José Saramago, (in O Memorial do Convento)

“Quando Baltasar entra em casa, ouve o murmúrio que vem da cozinha, é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma, ora outra, mal se conhecem e têm tanto para dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fossem falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta, Deite-me sua benção, minha mãe, Deus te abençõe, meu filho, não falou Blimunda, não lhe falou Baltasar, apenas se olharam, olharem-se era a casa de ambos.

“Carta para Josefa, minha avó” – José Saramago

“Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida:

«O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.”

Retirado do Facebook | Mural de Amélia Cunha

Efemérides Históricas | Daniel Barenboim

Conductor Daniel Barenboim conducts the West-Eastern Divan Orchestra during the concert rehearsal at the Berlin Philharmonic in Berlin, Germany. BERLIN, GERMANY – MAY 22: (Photo by Jakubaszek/Getty Images)

No dia 15 de novembro de 1942, em Buenos Aires, nascia um exímio pianista e diretor de orquestra, embaixador da paz e único habitante do mundo que ostenta as cidadania Israelita e Palestina, esse dia chegava ao mundo Daniel Barenboim. Filho de Henrique Barenboim e Aida Schuster, ambos pianistas.

Enquanto estudava primária no Instituto Pestalozzi de Belgrano R. estreou em um concerto com apenas 7 anos. Em 1952, a família mudou-se para Israel e depois de estrear no Mozarteum de Salzburgo ficou lá para ter aulas de direção com Igor Markevitch. Depois de ter aulas de harmonia e composição com Nadia Boulanger em Paris estava pronto para conquistar o mundo. Pouco a pouco se abriram todos os palcos do mundo e foi convidado a presidir às orquestras mais importantes.

Dirigiu as Orquestras Filarmônicas de Londres, Paris, Chicago, Viena, Buenos Aires e Berlim. Sendo um cidadão Israelita, em julho de 2001, dirigiu a Staatskapelle de Berlim em Jerusalém. Barenboim ia interpretar o primeiro ato de La Walkiria com três cantores, entre os quais se encontrava o tenor espanhol Plácido Domingo. Antes de começar uma silvatina começou e foi insultado, indignado mudou o repertório. No final e antes do pedido bis, ele esclareceu que ia interpretar Wagner e que quem se incomodasse se retirasse. Por este incidente, foi necessário reflotar o projeto iniciado em 1999 juntamente com o escritor americano de origem palestina Edward Said, a “Orchestra Divan West-East”.

Esta orquestra é formada por promissores músicos judeus e palestinos, com eles realiza turnês mundiais mostrando que ambos os povos podem enfrentar projetos juntos. Por esta iniciativa recebeu elogios e prêmios por todo o planeta. Depois de um concerto em Ramalá, Barenboim aceitou também a cidadania palestina honorária, tornando-se o único homem do mundo com as cidadania israelense e palestina.

Retirado do Facebook | Mural de Efemérides Históricas

Zelensky mentiu | Joe Biden confirma aos aliados da NATO que míssil que caiu na Polónia é ucraniano

O Presidente dos Estados Unidos confirmou esta manhã aos aliados da NATO que o míssil que matou duas pessoas na Polónia faz parte defesa aérea ucraniana, com as autoridades ucranianas a culparem a Rússia com todos os acidentes com artilharia nos países fronteiriços.

Joe Biden confirmou hoje a informação que tinha avançado na véspera, tratando com prudência a queda na Polónia de um míssil inicialmente considerado como russo que fez duas vítimas mortais. Afinal, como confirmou o Presidente dos Estados Unidos aos aliados da NATO que se reuniram de forma urgente esta manhã, o míssil pertence à artilharia ucraniana, uma informação confirmada a várias agências de notícias.

Após Volodymyr Zelenski ter dito ao G20, reunido na Indonésia, que o alegado ataque da Rússia à Polónia era “uma mensagem da Rússia” para este encontro das 20 maiores economias do Mundo que condenou firmemente a guerra na Ucrânia, as autoridades de Kiev já vieram hoje retratar-se, insistindo que Moscovo é responsável por “todos os incidentes que impliquem armamento”.

Após a queda do míssil na aldeia de Przewodow, junto à fronteira com a Ucrânia, a Polónia mobilizou o seu exército, com as autoridades polacas a terem lançado uma investigação sobre este míssil que aparentava ter fabricação russa. A prudência reinou também noutras capitais europeias como Paris, com Emmanuel Macron a dizer já hoje que quer colaborar neste inquérito para se saber o que se passou com este míssil.

Já o novo primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak defendeu que este ataque à Polónia nunca teria acontecido caso a Rússia não tivesse invadido a Ucrânia, lamentando a intensidade de ataques dos russos às principais cidades ucranianas esta semana.

O Kremlin reagiu às acusações do Ocidente dizendo que “não teve nada a ver” com o míssil que caiu na Polónia e agradeceu a prudência das autoridades norte-americanas que ajudaram a esclarecer a proveniência deste míssil.

Caso o míssil tivesse sido identificado como um ataque russo à Polónia, como este país faz parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte, ou NATO, as autoridades polacas podiam invocar o artigo 5º do tratado desta instituição que diz que em caso de ataque armado a um dos países que a constituem, este é um ataque armado a todos os aliados, podendo levar a um agravamento no conflito na Europa.

General Raul Luis Cunha | Polónia/Ucrânia 15/11/2022

Face aos desenvolvimentos hoje verificados na guerra na Ucrânia, impõem-se desde já os seguintes esclarecimentos:

A tratarem-se de mísseis S-300 e há fotos dos destroços que o demonstram (salvo posteriores cosméticas), só haverá 3 hipóteses:

(1) Os ucranianos estavam a proceder a uma intercepção e o míssil não atingiu o alvo e o auto-destruidor não funcionou – e isso acontece com os antigos S-300;

(2) O míssil estava inicialmente em mau estado (o que não espanta, pois os sistemas ucranianos são antigos e a sua manutenção muito deficiente) e voou para onde a estava apontado, ou seja, neste caso para a Polónia, ou,

(3) Os ucranianos desenroscaram “um certo parafuzinho” e dispararam contra a Polónia deliberadamente de forma a provocar um incidente internacional que levasse à entrada da OTAN no conflito (aproveitando o momento do bombardeamento russo).

Na minha óptica a hipótese (1) é a mais provável e obviamente os ucranianos aproveitam a onda para tentar pela enésima vez a intervenção da OTAN, dizendo que se trata de um míssil russo e, pior ainda, os polacos também estão a cavalgar estes eventos para arranjarem companhia na sua tão desejada entrada no conflito (até para sacarem algum território). O azar desta malta é que os destroços do míssil permitiram de imediato a sua identificação… agora só mesmo falseando as provas,,,!

NOTA: o míssil S-300 é um míssil anti-aéreo accionado a partir de terra. No entanto pode ser utilizado contra alvos terrestres, mas o seu alcance é de 120 km, o que inviabiliza de todo a possibilidade de terem sido forças russas a lançá-lo.

Retirado do Facebook | Mural do Sr. General Raul Luis Cunha

Pepe Escobar: Imperador Xi, General Armageddon (20.10.22)

20 oct. 2022 | O jornalista Leonardo Attuch entrevista o correspondente internacional Pepe Escobar

0:00 Boas vindas 1:30 Pepe Escobar fala sobre a queda espetacular de Liz Truss 5:00 Boris Johnson voltou à corrida 12:00 Direita nacionalista e esquerda nacionalista podem forjar uma aliança na França. Há pontos de contato entre Melenchon e Le Pen 15:00 Tudo isso se deve ao fracasso do neoliberalismo 22:00 Kiev não decide nada. Todas as ordens vêm de Washington 25:00 Putin sempre mantém a porta aberta para a negociação. E a operação militar especial virou uma ação antiterrorista 32:00 Pepe explica quem é o general Armageddon 37:00 Maior parte da Ucrânia já sofre racionamento energético 40:00 O risco de uma escalada e de um conflito nuclear é real 44:00 Berlusconi sabe ler a opinião pública e pode tirar a Itália do apoio cego à OTAN 46:00 Próximas três semanas são cruciais para o desfecho da guerra 51:00 Republicanos podem cortar o financiamento para a guerra na Ucrânia 55:00 Rússia não fará o primeiro ataque nuclear. E não existe guerra nuclear limitada 1:02:00 Rússia não tem nenhuma preocupação com a eleição brasileira. Vão lidar com o fato consumado 1:04:00 Não é possível dizer que Trump encerraria a guerra da Ucrânia. Mas prioridade número um dos republicanos é a China, não a Rússia 1:06:00 Praticamente não se fala sobre a eleição brasileira 1:10:00 Pepe fala sobre o Congresso do Partido Comunista Chinês 1:13:00 Mensagem de Xi ao mundo é de respeito aos países e de defesa do mundo multipolar. O Império está canibalizando até o seu jardim 1:17:00 Há uma nova cortina de ferro do Báltico até o Mar Negro 1:30:00 Putin conseguiu atrair Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos 1:34:00 Uma vitória do Lula seria a vitória do Sul Global. A grande questão é: vão deixar governar? Bolsonaro é o candidato de Wall Street, do capitalismo de cassino 1:49:00 Xi já tem a dimensão de Mao e Deng

Os deuses são o fruto do ingénuo espanto humano ante a assombrosa realidade das coisas | António Mora, heterónimo de Fernando Pessoa

«António Mora»

[Entrada in Fernando Cabral Martins (coord.), Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo, Lisboa, Caminho (no prelo)]

Fernando Pessoa é o maior poeta português do século XX e um dos maiores da Modernidade europeia. Contudo, a sua maior genialidade estará, porventura, na criação/construção (mítica ─ «Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade» (OAM, I, 22, p.109) do theatrum mundi heteronímico («fragmentarismo sistemático»). O Dr. António Mora é uma delas, juntamente com Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e com o semi- heterónimo Bernardo Soares. Todos eles constituem o hiperespaço da máquina de produzir multiplicidades, de «sentir tudo de todas as maneiras», em que «cada canto da minha alma é um altar a um deus diferente» (A.Campos). Cada uma dessas figuras faz parte do «jogo heteronímico». No seu conjunto, estamos perante o que costumamos designar por «quadratura do círculo» heteronímico (de base quadrada – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Fernando Pessoa – e tendo por ‘hipotenusa’ Bernardo Soares e António Mora). Isto explica que a obra de cada um deles mais não seja do que «os meus livros d’outros», tratando-se, não de «um processo novo em literatura, mas de uma maneira nova de empregar um processo já antigo» (OAM, I,22, p.109).

Mas quem é este “médico da cultura”? António Mora aparece num conto sanatorial intitulado «Na Casa de Saude de Cascaes» (OAM, I, 01-20, pp. 93-105). Este título é anterior ao aparecimento da heteronímia (1912-1914), pois surge num plano de 1907-1910 com a indicação «Contos intellectuaes», junto à tradução do conto de Alexander Search «Um jantar muito original». Por outro lado, e apesar de nenhum dos documentos assinados por António Mora se encontrar datado, sabe-se que este heterónimo o acompanhou até aos últimos dias de vida, sendo referido em dois documentos pertencentes a 1931. Segundo um dos projectos (OAM, I,47, p.155), Pessoa planeou incluir nesse sanatório as várias figuras desse «grupo», o que pressupõe a amplificação da componente sanatorial a toda a heteronímia.

 Ensaio Completo | http://luisfilipeteixeira.com/ensaios.php?cat=2&ensaio=34

Ópera-performance Sun & Sea | Fundação Calouste Gulbenkian | por André Barata

Em Sun&Sea, a praia é uma janela para a sociedade. Vemo-la de cima e são muitas janelas. Os pensamentos de praia que ocorrem aos veraneantes são umas tantas, a compor um libreto cantado. Ouve-se e vê-se desigualdade, frivolidade, indiferença, compromisso político, encantamentos, diversidade, os corpos a ocuparem-se gestos de afirmação. Os livros ou revistas que eles lêem, o que comem, como se deitam na praia, no que se deitam são outras tantas janelas.

A praia é um caleidoscópio de presenças tácitas, murmúrios para dentro, da sociedade, apresentados sob o mesmo sol, a dividirem o espaço exíguo com espreguiçadeiras, toalhas, esteiras, cangas. Poderia ser uma distopia, ou a imagem dela. Não faltam razões. Nem um cão. E, no entanto, quando termina a ópera resistimos a sair. Já nos despimos alguma coisa, a entrar naquele tempo que conhecemos da praia, que dura o que o Sol der em calor. Talvez a utopia não esteja à distância da praia mais próxima, mas há ali uma força de partilha do Sol e daquele tempo que pode derreter aquela exiguidade que escancara o outro lado das janelas.

Haja praia para todos…

André Barata

Do perigo de pensar e de ler os tempos | Carlos Matos Gomes

Julgo que nós, os humanos, temos a convicção de que nos distinguimos das outras espécies e principalmente dos outros semelhantes porque pensamos. Não sei se essa convicção resiste a um pensamento mais frio. Pensamos individualmente, mas esse pensamento, que nos dota de individualidade, é fruto da necessidade de tratarmos da nossa vida, de sobrevivermos e está então mais próximo dos instintos básicos do que da racionalidade.

Contudo, desde muito cedo somos induzidos pelos que nos cercam a acreditar sem pensar, a acreditar que temos de pensar coletivamente porque nos unem referências e projetos de vida comum e a coesão da sociedade é essencial para a sua sobrevivência em competição com as outras. A convicção de que é natural numa dada sociedade todos partilharem no essencial dos mesmos pensamentos tem expressão em slogans muito difundidos, «a união faz a força», «e pluribus unum» (entre muitos, um), ou dos mosqueteiros: um por todos, todos por um e até o Deus, Pátria e Família.

No entanto, quando ouvimos líderes de grandes nações, personagens do tipo de Trump, ou de Bolsonaro, de certos bispos católicos, ou pregadores evangelistas, aytollahs e rabinos, de certos oligarcas como Elon Musk parece ser legítima a dúvida sobre a existência de um pensamento entre os humanos. Essas personagens comportam-se de acordo com um código próprio de outra espécie, das que se atiram a tudo o que brilha — caso dos espadartes — e a tudo o que mexe no seu raio de ação — caso dos toiros.

A existência dessas personagens e da multidão de fiéis e crentes que os seguem e se identificam com eles justifica que, enquanto céticos, nos interroguemos se será natural existir um pensamento coletivo em sociedades de estruturas complexas, hierarquizadas, social e politicamente desiguais. Ou será o pensamento coletivo uma construção artificial para facilitar o domínio de um ou de uns grupos sobre a sociedade, destinado a fazer parecer natural o que é uma ideologia de sujeição?

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Operação Militar da Rússia na Ucrânia | Raul Luís Cunha

Nos oito anos anteriores à Operação Militar da Rússia na Ucrânia, o exército ucraniano estava a combater activamente no Donbass, tendo sofrido por vezes alguns cercos e revezes e tendo experimentado muitas outras situações menos agradáveis. Durante esses oito anos (sobretudo nos primeiros), as Forças Armadas da Ucrânia cometeram a maioria dos possíveis erros numa guerra em todos os níveis de comando do exército, mas foram igualmente rápidas em corrigi-los. Todo esse processo decorreu com a participação activa de conselheiros e instrutores da OTAN, bem como com o apoio financeiro e logístico do Ocidente. De facto, no início da invasão russa, o exército ucraniano estava quase no auge das suas capacidades. Pode ainda ser dito, que desde o início da invasão, as FA ucranianas também ganharam mais experiência, mas não melhoraram muito mais, pois as suas capacidades já estavam quase no limite.

Por outro lado, o exército russo, iniciou o combate na Ucrânia sem nenhuma experiência em operações de combate em larga escala contra um adversário possuidor de elevada tecnologia. A experiência tida na Síria não foi essa: Aí, os oponentes não estavam tão evoluídos em termos de armamento e tecnologia, e as funções da infantaria do lado russo foram desempenhadas e a respectiva experiência foi obtida, principalmente pelas forças mercenárias Wagner e não pela infantaria regular. Somente com o início da operação militar na Ucrânia resultaram óbvias as falhas a todos os níveis nas Forças Armadas Russas. Falhas na logística, falhas no comando das tropas e na coordenação entre os ramos das forças armadas, e ainda o facto de as tácticas de combate estarem ultrapassadas para as condições actuais. Mau grado um bom desempenho ao nível da arte operacional, muitos outros erros e problemas foram evidenciados logo no início da operação militar.

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Encontro literário com o sertão | Adelto Gonçalves

Escritores discutem em Arinos temas ligados ao interior de Minas Gerais e Goiás

                                                     I
            O poeta, romancista e contista Napoleão Valadares (1946) é autor de Delírio Lírico (Rio de Janeiro, Edições Galo Branco, 2008), obra que tem tudo para se tornar um clássico da poesia brasileira deste século XXI. Trata-se de um poema construído em decassílabos brancos, sem estrofes, cujos cantos têm 49 versos cada um, exceto os de números V, VI e VII, num total de 1.759 versos, numa narrativa épica que funde a linguagem clássica à popular. E que abrange, em ordem cronológica, mais de 30 séculos de história, que se inicia com a Guerra de Troia (século XIII a.C. ), passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, até chegar praticamente aos nossos dias, como bem assinalou o poeta e crítico João Carlos Taveira em rica resenha publicada no Jornal Opção, de Goiânia, em 15/11/2020.
            Dono de extensa obra que inclui mais de três dezenas de livros, Valadares, que também se destaca como organizador de coletâneas e antologias, acaba de publicar Encontro de Escritores em Arinos (Brasília, André Quicé Editor, 2022), que reúne quatro palestras que foram lidas no dia 22 de maio de 2022, durante evento organizado pelo escritor com o patrocínio da Prefeitura de Arinos, em Minas Gerais: “A Literatura Brasileira”, por Anderson Braga Horta; “A água do Urucuia”, por Eugênio Giovenardi; “Antônio Dó, um jagunço urucuiano”, por Marcos Sílvio Pinheiro ; e “A obra de Guimarães Rosa”, por Wilson Pereira.
            Em sua palestra, Braga Horta fez um voo panorâmico sobre a literatura brasileira, desde a carta em que Pero Vaz de Caminha (1450-1500) comunicava ao rei dom Manuel I (1469-1521) as suas primeiras impressões da paisagem e do potencial econômico da terra “descoberta” até o Pré-Modernismo e Modernismo do século XX, depois de exauridos o Realismo e o Simbolismo, incluindo os movimentos de vanguarda. Em conclusão, Braga Horta reconheceu que a literatura praticada o Brasil não é muito estudada fora dos países de expressão portuguesa, ainda que seja extremamente rica e “sobejamente caracterizada como literatura nacional, brasileira, típica, sem perda de universalidade, sem xenofobia, sem chauvinismo, mas aberta aos ventos do mundo”.

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Acordo de Belfast | Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre

 Acordo de Belfast (também conhecido por Acordo da Sexta-feira Santa) foi assinado em Belfast em 10 de abril de 1998 pelos governos britânico e irlandês e apoiado pela maioria dos partidos políticos norte-irlandeses.[1][2][3][4][5] O acordo tinha por finalidade acabar com os conflitos entre nacionalistas e unionistas sobre a questão da união da Irlanda do Norte com a República da Irlanda, ou sua continuação como parte do Reino Unido.[1][3]

O acordo foi aprovado pela maioria dos votantes tanto na Irlanda do Norte como na República da Irlanda, chamados a pronunciar-se em referendos separados, em maio de 1998.[1][2][4][5]

https://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_de_Belfast

DiEM25 tem um plano para restabelecer a paz na Ucrânia

Enquanto a guerra na Ucrânia continua, não temos estado apenas nas ruas a exigir o fim deste derrame de sangue. No espírito da democracia, e das políticas realistas – mas também radicais – que guiam o DiEM25, perguntámos aos nossos membros: qual deve ser a nossa proposta para a paz na Ucrânia?

Agora, depois de muita discussão interna e de uma votação de todos os membros, temos uma resposta. O nosso plano de paz com cinco pontos exige:

  • Um cessar-fogo imediato, seguido de uma retirada das tropas russas de acordo com as linhas fronteiriças anteriores à guerra;
  • A criação de uma zona totalmente desmilitarizada, que se estenda por 200 km de cada lado dessas linhas fronteiriças;
  • Um protocolo de não-agressão, baseado no reconhecimento de que a Ucrânia é um país soberano e neutro, que não permite armas nucleares no seu território;
  • Uma estrutura de governação para as áreas do leste e sul da Ucrânia com base no Acordo de Belfast na Irlanda do Norte; *ver URL da wikipedia
  • Todas as partes concordam em remeter as disputas pendentes a negociações mediadas pela ONU.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_de_Belfast

Agora vem a parte difícil: a construção de um movimento e a organização da sociedade civil por toda a Europa, para tornar esta paz numa realidade.

O DiEM25 e os nossos partidos políticos estão prontos para fazer justamente isso. Este sábado vai nascer mais um partido nacional cujos estatutos e programa político foram também aprovados transnacionalmente pelos nossos membros em toda a Europa: O MERA25 Itália.

Se estiveres em Roma no dia 12 de Novembro, junta-te a nós no Acquario Romano às 11h00 para um evento de lançamento especial com Yanis Varoufakis, organizações da sociedade civil italiana, e DiEMers de toda a Itália e Europa.

Se não estiveres em Roma, podes sempre contribuir para este novo passo do movimento, fazendo uma doação.

Carpe DiEM!

Lucas | Diretor de Comunicação do DiEM25