VERDI, AIDA “MARCHA TRIUNFAL”

AIDA Es un nombre femenino que significa “visitante” o “regresando” es una ópera en cuatro actos con música de Giuseppe Verdi y libreto en italiano de Antonio Ghislanzoni, fue estrenada en el Teatro de Ópera del Jedive en El Cairo el 24 de diciembre de 1871 Y dirigida por Giovanni Bottesini.

En contra de la creencia popular, la ópera no se escribió para conmemorar la inauguración del Canal de Suez en 1869, ni tampoco para el Teatro de Ópera del Jedive en el Cairo y el mismo año.

Es cierto que A Verdi le pidieron componer una oda para la apertura del Canal, pero declinó la petición arguyendo que no escribía “piezas ocasionales”, más cuando Verdi leyó el argumento escrito por Auguste Mariette lo consideró como una buena opción y finalmente aceptó el encargo el 2 de junio de 1870.

Música | Aïda, Aida, Act II: Triumphal March

Artista | Deutsches Symphonie-Orchester Berlin, Carl-August Bünte

O CONFLITO na UCRÂNIA – OS ERROS – O FUTURO | Miguel Mattos Chaves

AVISO: esta análise não tem “sound bites” nem “estados de alma”, nem obedece a “desejos do políticamente correcto”, pelo que poderá ser desinteressante para os espíritos que vivem da “espuma do dia” e do “sensacional”.

Comecemos então:

O Presidente de França Emannuel Macron afirmou há dias algo que me parece de elementar lucidez:

– “esta crise não é sobre a Ucrânia, mas sim sobre a NATO e sobre a segurança da Rússia”.

Tenho escrito por diversas vezes, ao longo dos anos, que alguns dirigentes de países europeus e alguns dirigentes políticos dos Estados Unidos têm cedido demasiado ao “politicamente correcto” imposto pela esquerda, quer pela comunicação social, quer pelas redes sociais.

Numa palavra, os dirigentes políticos dos países ocidentais, com muito raras excepções, não têm um pensamento estratégico, nem uma visão do médio e longo prazo em práticamente todas as matérias, neste caso, sobre o desenho da política internacional e sobre a forma de estabilização do Sistema Internacional.

Vivem apenas do dia-a-dia, vivem da “espuma dos dias”, vivem dos “sound bites”, preocupando-se apenas em como vão aparecer nas notícias do dia seguinte, nos meios de comunicação social ou nas redes sociais.

Convido-vos agora a acompanhar-me numa análise que faço sobre a questão que agora vivemos no leste da Europa.

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VIAGEM AO PASSADO POR CAUSA DO PRESENTE | por José Pacheco Pereira in Jornal Público | 22/12/2012 (nós, humanidade, não temos vergonha – vcs)

Hoje tudo é muito diferente em relação ao passado, mas também muita coisa é demasiadamente igual.

No final do século XIX, princípio do século XX, o incipiente operariado português concentrava-se em poucas fábricas dignas desse nome no Norte do país, em particular no Porto, e numa multidão de pequenas oficinas em Lisboa e Setúbal e nas principais cidades do país. Eram operários e operárias, tabaqueiros, têxteis, soldadores, conserveiros, corticeiros, mineiros, padeiros, alfaiates, costureiras, cinzeladores, cortadores de carnes verdes, carpinteiros, fragateiros, estivadores, carregadores, carrejonas no Porto, carvoeiros, costureiras, douradores, etc., etc. Havia uma multidão de criados e criadas, criadas “de servir”, e muito trabalho infantil em todas as profissões, em particular nas mercearias, onde os marçanos viviam uma infância muitas vezes brutal, dormindo na loja e carregando com cargas muito pesadas. Falei em operariado, mas na verdade, muito poucos correspondem ao conceito, porque se trata mais de artífices, trabalhadores indiscriminados, e em muitos casos com profissões hierarquizadas em que os aprendizes eram sujeitos a todos os abusos. Havia depois uma aristocracia operária, essencialmente entre os que faziam tarefas qualificadas e mais bem pagas, como era o caso dos tipógrafos, que sabiam ler e por isso tinham um mundo social diferente. Antero de Quental foi tipógrafo de passagem.

Deixo o campo de lado, em que a maioria dos portugueses ainda vivia, onde havia igualmente um território obscuro e pouco conhecido que despertou com a I República, os trabalhadores rurais alentejanos. Estes viviam uma vida violenta e esquecida no meio do deserto alentejano. Nos meios rurais vários grupos de trabalhadores vegetavam na mais negra miséria e vendiam o seu trabalho sazonalmente, nas vinhas do Douro, nos campos do Alentejo e Ribatejo como maltezes e ratinhos. O que de mau se pode dizer das cidades, pode-se dizer pior do campo ou das vilas piscatórias do litoral e mineiras do interior.

A economia do mundo operário centrava-se no salário muito escasso, na renda de casa, numa vila operária ou numa “ilha” se fosse no Norte do país, onde se amontoavam em condições higiénicas e sanitárias inimagináveis. A epidemia de cólera no Porto, e a habitual ocorrência de tifo, demoraram muito anos a lembrar os governantes do problema de insalubridade da “habitação operária” e deram origem aos bairros sociais no salazarismo.

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A Final Four na Ucrânia – A Europa apanha bolas | por Carlos de Matos Gomes

A Final Four na Ucrânia – A Europa apanha bolas

Hoje o pensamento é um subproduto do futebol. O futebolês passou a linguagem filosófica. Aderindo então aos ventos do momento: 

A “final four” é um torneio em que quatro equipas disputam uma classificação. Uma versão da final four apura os três primeiros e o quarto desce de divisão. O que se está a passar com a crise da Ucrânia é uma final four em que os dirigentes da União Europeia já decidiram que ficam em quarto lugar e deixam de participar nos jogos ao mais alto nível nas próximas temporadas

O que está em jogo na Ucrânia é decisivo para a União Europeia. Escrever e debater o papel da União Europeia neste confronto entre a Rússia e os Estados Unidos, tendo a China a observar, é decisivo em dois pontos: o político e económico (que papel para a União Europeia no Mundo?); e, principalmente, quanto à questão melindrosa e por isso raramente aflorada do conflito de civilizações.

Dirão alguns que se fala demais da Ucrânia, que a questão é da maldade intrínseca de Putin – e saem insultos, que são a negação do pensamento e a revelação da falta de argumentos: czar, filho de Estaline, soviético, facínora – e resmas de folhas de História para garantir que os russos veem aí, filhos dos comunistas sanguinários.

Na realidade:

A primeira questão que a Ucrânia coloca à UE é que o conflito assenta numa luta entre potências Estados Unidos e Rússia, com 3 vetores por parte dos EUA: (1) manutenção do dólar como moeda de troca internacional (a UE é o maior parceiro da Rússia e o segundo dos Estados Unidos); (2) o domínio militar em terra, no mar e no espaço (a Europa não tem poderio militar significativo em nenhum destes espaços); (3) por fim a questão energética (em particular o gás, de que a Rússia é um grande produtor e o coloca na Europa a 1/3 do preço do gás americano).

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Os três tipos de “obcecados” por Putin | por Rodrigo Sousa e Castro

Ontem ouvi o general Arnaud na RTP1 a considerar Putin um mestre de estratégia e a explicar porquê. Existem portanto três tipos de “obcecados” por Putin e pela sua conduta politico- militar-diplomática e que passo a caracterizar;

1 – Os que admiram genuinamente Putin, gente radical de direita e extrema direita/esquerda para quem os sistemas autocráticos capitalistas são a solução para calar o Povo , espezinhar as Liberdades, como Bolsonaro, Trump, Orban , o chinoca  o coreano, ;

2 – Os que desejariam que a Rússia fosse governada por um pusilânime como O Gorbachev ou por um bêbado como Yeltsin, que abrisse as pernas ao capitalismo predador ocidental, para que se apossasse das imensas riquezas russas o que teria acontecido sem o Putin ou um seu equivalente;

3 – Os que tal como os generais portugueses p.ex. o citado e o gen. Carlos Branco p. ex. procuram serenamente as causas, as motivações e as intenções do politico e não avacalham a discussão com sectarismos ideológicos que nada acrescentam à compreensão da crise. Procuro situar-me aqui;

4 – E por ultimo a legião de ignorantes, com uma amostra significativa nas redes sociais, que vêm a disputa de Poder à escala Global, Regional ou Local, com o sectarismo clubista e que disparam às cegas da bancada onde acriticamente se sentam.

Retirado do Facebook | Mural de Rodrigo Sousa Castro

O Paradoxo da Escolha do PSD — e o neoliberalismo | por Carlos de Matos Gomes

O PSD vive hoje o paradoxo da escolha que já atingiu mortalmente o CDS: Ser neoliberal ou ser social.

O neoliberalismo é fruto dos anos 70, e a sua versão prática foi estabelecida para contestar o modelo do Estado de bem-estar social do pós Segunda Guerra. Uma das primeiras experiências neoliberais foi levada a cabo no Chile. O ditador chileno Augusto Pinochet entrou em contacto com professores da Escola de Chicago (Milton Friedman, p.ex), que recomendaram medidas pró-liberalização do mercado e diminuição do Estado. Entre medidas constavam a drástica redução da despesa pública, demissão em massa de funcionários, e a privatização de empresas estatais. As eleições de Margareth Thatcher no Reino Unido e de Ronald Reagan nos Estados Unidos no início dos anos 1980 foram indicativos desse fenómeno de instauração da lei da selva económica e social, darwinismo social, chamaram-lhe, vencem os mais fortes e ai dos vencidos, a pobreza é fruto da preguiça ou da ausência de espirito lutador, não há sociedade, apenas clientes e consumidores.

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25 de Abril: uma revolução em ambiente de soberania limitada | Carlos de Matos Gomes

Todos os Estados, até mesmo os impérios, têm uma soberania limitada pela dos seus competidores. Contudo, a limitação da soberania do Estado Português tem características próprias, devido, por um lado, à sua pequena dimensão (um território de 89 mil km2), à diminuta população e à escassez de recursos e, por outro, a uma situação geográfica na fachada atlântica da Península Ibérica e da Europa continental, logo, possuidor de uma localização estrategicamente importante para as grandes potências europeias, como ligação do Atlântico Norte ao Mediterrâneo e à costa africana. Este quadro foi praticamente constante ao longo da história.

O Estado Português, dados os condicionalismos, foi desde a fundação o que podemos designar como um estado vassalo da potência marítima, a Inglaterra, e todos os momentos chave da sua história foram determinados por ela, desde logo a independência contra outros estados ibéricos e contra a tentativa de unificação peninsular. Os cruzados ingleses estiveram com Afonso Henriques na fundação do Reino, serão tropas inglesas que decidirão Aljubarrota, e será a uma inglesa, Filipa de Lencastre, que se deve a estratégia expansionista da ínclita geração. Será ainda a Inglaterra que viabilizará a restauração da soberania no processo iniciado em 1640 e que assegurará a independência na Guerra Peninsular, com Wellington a defender Portugal das tropas invasoras de Napoleão. Também serão os ingleses que introduzirão o liberalismo e a modernidade europeia em Portugal, que, a partir de 1822, conduzirão o processo de independência do Brasil e, que, na Conferência de Berlim, atribuirão as colónias a Portugal, complementares das suas. O colonialismo português começa pela mão dos ingleses. A instauração da República deve-se, em parte e ironicamente, aos ingleses, que tinham desencadeado fervores patrióticos com o Ultimato.

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Cartas a Spinoza | por Nise da Silveira, Francisco Alves | in Revista Caliban

As sete cartas escritas em 1989 compõem o livro Cartas a Spinoza, Nise da Silveira, Francisco Alves, 1995.

Pintura de Eduardo Ruiz, Dra. Nise da Silveira

Cada Leitor, um Spinoza

  • CARTA I

Meu caro Spinoza,

Você é mesmo singular. Através dos séculos continua despertando admirações fervorosas, oposições, leituras diferentes de seus livros, não só no mundo dos filósofos, mas, curiosamente, atraindo pensadores das mais diversas áreas do saber, até despretensiosos leitores que insistem, embora sem formação filosófica (e este é o meu caso), no difícil e fascinante estudo da filosofia.

Mais surpreendente ainda é que, à atração intelectual, muitas vezes venham juntar-se sentimentos profundos de afeição. Assim, Einstein refere-se a você como se, entre ambos, houvesse “familiaridade cotidiana”. Dedica-lhe poemas. O poema para A Ética de Spinoza [1] transborda de afeto: “Como eu amo este homem nobre / mais do que posso dizer por palavras”.

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A questão da Ucrânia | Carlos Matos Gomes

A questão da Ucrânia tornou-se uma farsa com farsantes rascas, que dá vontade de ir utilizando como divertimento.  O homem mais poderoso do mundo, o presidente dos Estados Unidos, o honorável Joe Biden, afirmou publicamente, que o ataque Russo iria ocorrer dia 16 de Fevereiro. Não aconteceu. Agora informa que “ Está convencido que o ataque à Ucrânia ocorrerá nos próximos dias”. Lê-se e não se acredita! O Presidente da super potência dominante que os Estados Unidos são, ou sabe e não diz, ou diz que não sabe: não está convencido de… . Quem pode estar convencido de… são os Marques Mendes, os opinadores de televisão. O chefe quando diz sim, podemos estar seguros que é sim.  E não é apenas mais um tarálogo.

Os  americanos já descobriram armas de destruição maciça no Iraque há 20 anos. Descobriram o Bin Laden sabe-se lá onde, o Saddam num buraco, o Kahdafi num esgoto,  e até descobriram os planos de um jovem de 18 anos no bairro dos Olivais, que ia realizar um massacre numa sexta feira de manhã no Campo Grande, em Lisboa e não conseguem descobrir o dia do ataque das divisões blindadas russas, com apoio de artilharia, de aviação, com a inundação do espetro eletromagnético para comunicações?

Em 1964 – há quase 60 anos, foi estreado o filme Dr Strange Love – How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (como deixei de me aborrecer e me apaixonei por uma bomba), com Peter Sellers a representar o General Ripper, que fica maluco e prepara um plano para iniciar a Guerra Nuclear. As mais altas autoridades dos Estados Unidos e da União Soviética tentam deter um avião-bombardeiro cuja tripulação recebera ordens de lançar uma bomba nuclear na Rússia. Quase 60 anos passados temos um Presidente dos Estados Unidos que em vez de evitar a ação do general doido, quer mesmo lançar as bombas. O doutor Strangelove, apaixonado por bombas, está aos comandos dos Estados Unidos, com o apoio dos dirigentes europeus! Um progresso!

Aliás o Biden ainda dá uns ares do pantera cor-de rosa, ou ao doutor Strangelove.

Retirado do Facebook | Mural de  Carlos Matos Gomes

Vladimir Putin: “Deberían haber tratado a Rusia como un aliado. Ha sido al revés”

“O sucesso da minha carreira permite-me ponderar ser candidato à liderança do PSD” | Ribau Esteves

Reeleito presidente da Câmara de Aveiro para um terceiro mandato, Ribau Esteves defende que o PSD deve “puxar pela sua costela popular” e assume que o partido deve estar disponível para fazer reformas com o PS. | Sofia Rodrigues e Manuela Pires( Rádio Renascença)

17 de Fevereiro de 2022

https://www.publico.pt/2022/02/17/politica/entrevista/sucesso-carreira-permiteme-ponderar-candidato-lideranca-1995761

Porquê a guerra? | João Fraga Oliveira

Isso acontece desde que temos consciência do mundo e sociedade em que vivemos mas o que é certo é que as circunstâncias actuais tornam mais relevante esta pergunta que foi mote de correspondência entre Einstein e Freud, dois convictos, activos e eminentes pacifistas.

“Existe alguma forma de livrar a Humanidade da ameaça de guerra?”.

É assim que Einstein, de Potsdam, na Alemanha, numa carta de 30/07/1932, interpela Freud.

Reconhecendo que “o objectivo habitual do seu pensamento” (a Física) “não lhe permite uma compreensão interna das obscuras regiões da vontade e do sentimento humano”, propõe a Freud a “elucidação do problema, mediante o auxílio do seu profundo conhecimento da vida instintiva do Homem”.

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O Fim da Civilização | Gustave Flaubert, in ‘Memória de um Louco’

Quando se extinguirá esta sociedade corrompida por todas as devassidões, devassidões de espírito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hipócrita a que se chama civilização, haverá sem dúvida alegria sobre a terra; abandonar-se-á o manto real, o ceptro, os diamantes, o palácio em ruínas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da égua e da loba.

Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.

Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensidão deve acabar por cansar-se desse grão de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de mãos e de corromper, o outro esgotar-se-á; este vapor de sangue abrandará, o palácio desmoronar-se-á sob o peso das riquezas que oculta, a orgia cessará e nós despertaremos.

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As Mulheres São Mais Fortes | José Saramago

Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação?

José Saramago, in ‘L’Orient le Jour (2007)’

Retirado do Facebook | Mural de Julio Machado Vaz

A teologia de Jesus | por JOSÉ BRISSOS-LINO in Revista Visão 16.02.22 | sobre texto de Viriato Soromenho Marques

Se um dia boa parte dos teólogos e das igrejas cristãs tiverem a coragem de se centrar efectivamente no discurso e obra do Mestre de Nazaré, deixando de lado o corpo das respectivas tradições, terão um choque ao verificar quão distantes se encontram daquilo a que podemos chamar a teologia de Jesus.

Grande parte das atuais controvérsias no campo religioso cristão, mas também das tensões entre este e o mundo secular relacionam-se com aquilo que S. Paulo denomina “preceitos e doutrinas de homens”: “As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens. As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:22,23). Com efeito, o que os textos neotestamentários nos fornecem relativamente tanto à palavra como à ação do Cristo dos evangelhos, parece ir em contramão com a pregação, os preceitos e a praxis do cristianismo como o conhecemos, nas suas diferentes versões.

Em obra recentemente publicada (“A Teologia de Jesus: Tudo o que o Mestre falou”, Lisboa: Ed. Univ. Lusófonas, 2021) e que Viriato Soromenho Marques me deu a honra de prefaciar, procurei abordar a questão, com apoio de um esforçado colaborador nesta investigação (Vitor Rafael).

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VÊM AÍ OS RUSSOS | Paulo Sande

São tantas e tão variegadas as opiniões sobre o iminente ataque da Rússia à Ucrânia, que confesso a minha dificuldade em contribuir. Mas estou desde o início céptico sobre a possibilidade de um ataque – e suspeito que a sua iminência não passa de um mero recurso de intimação no âmbito de um processo negocial que é a um tempo político, diplomático, estratégico e económico. No fundo, é mais uma questão de eminência do que de iminência.

Permitam-me uma breve e limitada análise.

A GEOPOLÍTICA E A UCRÂNIA

O país onde a civilização russa (“Rus”) nasceu é hoje um nó geopolítico sobre o qual giram os interesses opostos de dois pólos de poder mundial – os EUA e aliados, a Rússia e aliados. De facto, a Ucrânia é um corredor entre a Europa ocidental e a Ásia, através do qual a Rússia faz passar uma parte importante da energia que exporta.

Apesar das muitas narrativas divergentes, trata-se de um Estado frágil, com problemas demográficos crescentes, cuja população se divide entre russófonos, a sul e leste, e ucranófonos, a norte, sem que haja uma correspondência perfeita entre russófonos e russófilos e entre ucranófonos e russófobos. Mas a tendência é essa, o que permitiu a fácil e quase não contestada internamente anexação da Crimeia.

A divisão tem mais a ver com o idioma usado, do que com a pertença étnica, que é a mesma.

E foi este o país que, ao anunciar a disponibilidade para considerar a adesão à NATO, despoletou a presente crise, como o anúncio da celebração de um acordo comercial aprofundado com a União Europeia em 2014 levou à invasão da Crimeia.

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Albert Einstein | “Acredito no Deus de Spinoza”

Acredito no Deus de Spinoza, que se revela num mundo regrado e harmonioso, não em um Deus que se preocupa com o destino e os afazeres da humanidade”.

“Não posso imaginar um Deus pessoal que influencia diretamente a ação das pessoas… Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração do Espírito Infinitamente Superior que se revela no pouco que compreendemos de nosso próprio mundo. A profunda convicção na presença de um Poder Superior, que aparece no universo incompreensível, forma minha ideia de Deus”

Pourquoi la crise ukrainienne est la faute de l’Occident | Par John J. Mearsheimer | in Arrêt sur Info

Arrêt sur info — 14 février 2022

Aujourd’hui, comme en 2014, les Occidentaux présentent le président Poutine comme le coupable. John J. Mearsheimer, l’auteur de ce texte remarquable, rédigé en 2014, fait porter aux Etats-Unis et à l’UE  la responsabilité de la crise ukrainienne. La racine du mal étant l’élargissement de l’OTAN. La Russie s’est opposée depuis les années 90 à cette stratégie visant à transformer l’Ukraine en un bastion de l’Occident à la frontière russe. Le coup d’Etat de 2014 a été la goutte de trop. Face au grave danger que représente cette nouvelle crise, les Etats-Unis et leurs alliés devraient répondre aux garanties mutuelles de sécurité que la Russie leur réclame depuis plus 20 ans, notamment en stoppant l’expansion de l’OTAN. [ASI]

Sous Barack Obama, Victoria Nuland a été porte-parole du département d’État avant d’assumer le rôle de secrétaire d’État adjoint pour les affaires européennes et eurasiennes. C’est dans ce rôle que Nuland a aidé à orchestrer le renversement d’un président démocratiquement élu de l’Ukraine, Viktor Ianoukovitch, en février 2014, qui a conduit à une guerre civile dans laquelle plus de 13’000 personnes sont mortes(*).

  • Les illusions libérales qui ont provoqué Poutine
  • Paru en septembre/octobre 2014 sur Foreign Affairs, sous le titre Why the Ukraine Crisis Is the West’s Fault

Selon la doxa dominante en Occident, la crise ukrainienne peut être attribuée presque entièrement à l’agression russe. Le président russe Vladimir Poutine, selon cet argument, a annexé la Crimée en raison d’un désir de longue date de ressusciter l’empire soviétique, et il pourrait éventuellement s’en prendre au reste de l’Ukraine, ainsi qu’à d’autres pays d’Europe orientale. Selon ce point de vue, l’éviction du président ukrainien Viktor Ianoukovitch en février 2014 n’a servi que de prétexte à la décision de Poutine d’ordonner aux forces russes de s’emparer d’une partie de l’Ukraine.

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“The Lady of Shalott” | Bronze Sculpture Benjamin Matthew Victor, 1979

American sculptor living and working in Boise, Idaho. “A gift from God” is how Benjamin Victor describes his ability to create spectacular works of art. He is the only living artist to have three works in the National Statuary Hall in the United States Capitol.

As dimensões racista, xenófoba, misógina ou globalmente autocráticas | João Mendes

Há quem não compreenda as dimensões racista, xenófoba, misógina ou globalmente autocrática – to name a few – do Chega. Pior: há quem as compreenda, compreendendo também as consequências que daí resultam, mas opta por desvalorizar e normalizar, por ódio à esquerda, por simpatia envergonhada pelo Chega ou por comungar do mesmo ideário. Ou por todos estes motivos. E mais alguns.

Daqui salta-se quase sempre para a vitimização. E uma das modalidades de vitimização mais comuns é esta: então e a extrema-esquerda? Quando me deparo com esta sobrevorização do papel de micropartidos como o MRPP ou o MAS, fico sempre perplexo. Bem sei que o MRPP defende a morte dos traidores, mas será que alguém os leva a sério? Têm relevância política? Recebem financiamento significativo que possa transformar estes partidos numa ameaça real? Não, não e não. Três vezes não.

Depois percebo que estão a falar do BE e o PCP. E pergunto-me, como pergunto a essas pessoas, quando me cruzo com elas, que ameaça representam estes dois partidos. Raramente obtenho uma resposta clara e objectiva. Só frases feitas e clichés. Aparentemente, o BE quer impor uma ditadura em que todos temos que ser gays. E quer sair da Europa. E do Euro. Raios, isto é uma grande ameaça! Imagino-os logo na rua, de cabeça rapada, a espancar transeuntes pelo seu europeismo. Fico até com algum medo, na medida em que sou acérrimo defensor da UE, e a seguir posso ser eu.

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Emoceano | Beth Soares

Na noite passada, tive um sonho desses bem vívidos, difíceis de esquecer. Eu estava num lugar diferente do que vivo hoje, numa espécie de aldeia, para a qual eu havia acabado de me mudar. Era meu primeiro dia naquela casa, e eu tirava minhas coisas de caixas, quando a paisagem roubou minha atenção. Da janela, eu podia ver um castelo belíssimo, com uma cúpula arredondada. Eu sabia que estava perto do mar e, de repente, conseguia sentir a maresia e ouvir o som das ondas, que começaram a parecer cada vez mais fortes. Enquanto eu admirava o castelo, que agora parecia estar ao alcance das minhas mãos, comecei a ver as ondas arrebentando em suas muralhas. Pensei estar presenciando uma ressaca, algo que me é tão familiar na Ponta da Praia, em Santos.

Em poucos segundos, o mar avançou. As ondas ficavam cada vez maiores, mais fortes, até que uma delas cobriu o castelo. Eu sentia que a próxima seria ainda maior. Vi quando ela, gigante, começou a se formar e cobrir o sol. Eu me afastei um pouco da janela e, embora fosse um cenário cataclísmico, não senti um medo paralisante.

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POEMA 128 DO LIVRO INÉDITO “NA FLORESTA DO MÍNIMO” | Casimiro de Brito

Amo as mulheres: são belas

e sangram. Foram feridas por deuses

que já não existem. Sim,

elas descendem dos deuses cantados por Hesíodo!

Sal, espuma, resinas! E por igual

as amo

quando já não sangram: porque têm

do sangue

a suave memória. E então a sua ferida

é mais doce ainda: mel, perfumes,

especiarias!

Steve Hanks (1949 – 2015, American)

Steve Hanks (1949 – 2015, American) Finest hyper-realistic watercolor, figurative painter, recognized as one of the best watercolor artists. The detail, color and realism of Steve Hanks’ paintings are unsee of in this difficult medium. A softly worn patterned quilt, the play of light on the thin veil of surf on sand, or the delicate expression of a child – Steve Hanks captures these patterns of life better than anyone.

Os três mandamentos do Facebook | Ricardo Paes Mamede

1º) Respeita aqueles que discordam de ti com fundamento (são uma espécie rara neste ecossistema e com eles aprende-se sempre qualquer coisa).

2º) Ignora quem argumenta com os intestinos (nada do que possas dizer vai alterar quem debate com ódio ou má-fé, é pura perda de tempo).

3º) Usa abundantemente as funções “delete” e “block” para lidar com a falta de cordialidade (o ambiente fica mais saudável e não corres riscos de incumprir o 1º mandamento).

Retirado do Facebook | Mural de Ricardo Paes Mamede

A Ucrânia — a NATO — Siga a dança | Carlos Matos Gomes

Num post no FB, o embaixador Luís Castro Mendes escreve a propósito de uma prestação do historiador Fernando Rosas na CNN que este está a cometer o mesmo erro que foi o de Vasco Pulido Valente, noutro tempo: reduzir a análise da realidade ao precedente histórico e minimizar as diferenças do novo para magnificar as constantes do passado. O meu amigo David Martelo, historiador com vasta obra na área da polemologia faz uma excelente síntese do passado de conflito na Europa Central a que deu o título: CORTINADOS GEOPOLÍTICOS, sobre o conflito “que opõe atualmente a Rússia aos aliados da OTAN, localizada sobre a fronteira da Ucrânia”, mas essa história não explica o presente.

A História serve para tudo. O que quer dizer que serve de pouco. Há exemplos para todas as explicações. O passado pode ajudar a perceber o presente, mas sem entendermos o presente o passado serve de pouco. O Japão não percebeu que o presente tinha mudado com a arma atómica e teve uma terrível surpresa. Marcelo Caetano não percebeu que o Exército de 1974, após 14 anos de guerra colonial, não era o Exército que tinha partido para Angola em 1961 e teve a surpresa do 25 de Abril. A Revolução Francesa e a Russa são exemplos de surpresas por incapacidade de perceber que o presente não é uma evolução em linha reta do passado. São inúmeros os exemplos.

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“𝐌𝐚𝐢𝐨𝐫𝐢𝐚 𝐚𝐛𝐬𝐨𝐥𝐮𝐭𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐞𝐠𝐮𝐢𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐨 𝐯𝐨𝐭𝐨 𝐝𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐥𝐡𝐨𝐬”? | José Alves

A Dona Clara Ferreira Alves, no jornal Expresso de hoje, profere a frase que serve de título a este escrito. É curiosa esta afirmação (ou não, vinda de onde vem!), quando o jornal para onde a senhora escreve, dizia há menos de uma semana, em grande título, “Tudo empatado. Voto de jovens decide eleições.” (Expresso de 28 janeiro 2022).

Afinal foram os velhos ou os novos que decidiram as eleições? Seja como for, foram seguramente os portugueses eleitores, maiores de 18 anos. É claro que a Dona Clara Ferreira Alves, quando escreve o que está em título, fá-lo de uma forma depreciativa, querendo com isto dizer, que foram os velhos dependentes do aparelho do Estado, que possibilitaram tal resultado. O tal “Portugal triste”, como ela escreve.

Volta a ser curioso, porém, que o jornal que lhe paga a avença, destacava na edição online de 31-01-2022, que a “Maioria absoluta de Costa foi à custa de 344.861 votos da esquerda.” É da sociologia política, que o voto à esquerda é, em regra, do eleitorado mais jovem. O eleitorado mais velho (como diz a Dona Clara), em regra, é mais conservador e tende a votar em partidos dessa matriz. Mas, com se disse, o intuito da Dona Clara Ferreira Alves, com aquela frase, tem outros objetivos, principalmente, a tentativa de denegrir a vitória incontestável do Partido Socialista. Tendo sido a senhora uma “santanista” e mais tarde uma “pafiosa”, é de acreditar que esta maioria absoluta do PS, lhe cause engulho senão mesmo urticária. Como tem o privilégio de usar uma tribuna semanal para afirmar o seu desconsolo e tendências, o resultado é que quem paga é o povo que, como diz uma ex-vice-presidente do PSD (Isabel Meirelles), “o povo português falhou”.

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‘Certos casais’: contos escritos com raro talento | Hugo Almeida | por Adelto Gonçalves

                                                                          I

               Com textos que misturam diálogo, descrição, fluxo de consciência, vozes cruzadas e, às vezes, a combinação disso tudo, Hugo Almeida (1952) chega ao seu quarto livro de contos, Certos casais (São Paulo, Editora Laranja Original, 2021), dentro de uma extensa obra que inclui livros dos gêneros infantil e juvenil, romance, ensaios e uma tese de doutoramento, além da organização de coletâneas de contos e ensaios. Dividido em duas partes, Livro I e Livro II, Certos casais reúne nove contos inéditos, alguns escritos há duas ou três décadas, mas que receberam ajustes para esta publicação.

            O livro está dividido em duas partes distintas, mas os oito contos da primeira podem ser lidos como uma espécie de romance ou minirromance porque as personagens fazem parte de três gerações de uma mesma família. Seja como for, os relatos podem ser lidos separadamente, sem que haja dependência de um texto para outro.

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Deus de Spinoza | ALBERT EINSTEIN

Sobre Deus, Einstein chegou a se definir como agnóstico em carta de 1950 a Morton Berkowitz. Ele já tinha afirmado anteriormente que acreditava no “Deus de Spinoza”, em referência ao filósofo holandês Baruch Spinoza:

“Acredito no Deus de Spinoza, que se revela num mundo regrado e harmonioso, não em um Deus que se preocupa com o destino e os afazeres da humanidade”, afirmou ele em um telegrama ao rabino Herbert S. Goldestein, publicado pelo jornal americano “New York Times” em 1929 (segundo o livro “The Ultimate Quotable Einstein”).

Com essa declaração, Einstein afirmava a visão que repetiu diversas vezes durante a vida: que tinha mais simpatia por um Deus presente em todos os lugares e que fosse responsável pelas leis do universo num sentido científico, que por uma entidade personificada e preocupada com problemas individuais:

“Não posso imaginar um Deus pessoal que influencia diretamente a ação das pessoas… Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração do espírito infinitamente superior que se revela no pouco que compreendemos de nosso próprio mundo. A profunda convicção na presença de um poder superior, que aparece no universo incompreensível, forma minha ideia de Deus”, disse Einstein em carta de 1927, publicada em seu obituário no “Times”, em 1955.

POSTAL DO DIA | António Lacerda Sales | por Luís Osório

1.

Muito se falou na noite eleitoral da vitória esmagadora de António Costa.

Do modo como o PS conseguiu ganhar em todos os distritos – com a exceção da Madeira. Uma coisa que nunca acontecera na história da democracia. E muito se acentuou que Bragança, Viseu e Leiria eram objetivos que ninguém pensaria poder alcançar.

Então no distrito de Leiria era mesmo considerado impossível.

Nunca antes o PS lá vencera.

Aconteceu.

2.

E estou convencido de que a influência de António Lacerda Sales, secretário de Estado da Saúde e cabeça de lista no distrito, foi determinante.

Muitas vezes, as elites políticas e jornalísticas esquecem-se que as pessoas boas, as que passam uma imagem de bondade, seriedade e amor pelo próximo podem ser decisivas – esquecem-se do fator humano.

Lacerda Sales está nesse grupo.

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Chamadas Telefónicas, Roberto Bolaño

No conto que dedica a Enrique Vila-Matas, no livro Chamadas TelefónicasRoberto Bolaño esclarece que o poeta consegue suportar tudo, mas essa máxima leva-o à ruína, à loucura, à morte. «Enrique  queria ser poeta e punha nesse empenho toda a força e toda a vontade de que era capaz», escreve Bolaño, na sua primeira coletânea de contos, que a Quetzal faz chegar às livrarias a 10 de fevereiro.

Um bom conto – segundo Ernest Hemingway – deve ser como um icebergue: o que se vê é sempre menos do que aquilo que se mantém oculto debaixo de água e que é o que dá densidade, mistério, força e significado ao que flutua à superfície. Os contos de Chamadas Telefónicas cumprem cabalmente esta premissa.

Reunidos em três blocos, os catorze contos que compõem esta antologia remetem para outros romances, outros escritores, outras personagens do universo ficcional daquele que é um dos grandes criadores literários do século xx. Um complexo e fascinante organismo vivo, em permanente expansão.

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Branislav Hrvol | Você está perguntando sobre os resultados da “agressão” russa? | in Facebook

24 de dezembro de 2021

Um blogueiro finlandês chocou o Facebook quando publicou este artigo: Você está perguntando sobre os resultados da “agressão” russa? Eles são os seguintes: metade da Europa e parte da Ásia obteve a sua cidadania das mãos deste Estado em particular.

Vamos nos lembrar de quem exatamente:

– Finlândia nos anos 1802 e 1918… (até 1802 nunca teve seu próprio estado).

– Letônia em 1918 (até 1918 nunca teve seu próprio estado).

– Estónia em 1918 (até 1918 nunca teve seu próprio estado).

– A Lituânia restaurou o seu estado em 1918 graças à Rússia.

– A Polónia restaurou o seu estado com a ajuda da Rússia duas vezes, em 1918 e 1944. A divisão da Polónia entre a URSS e a Alemanha é apenas por um curto período de tempo!

– A Roménia nasceu como resultado das guerras russo-turcas e tornou-se soberana pela vontade da Rússia em 1877-1878.

– A Moldávia como um estado nasceu dentro da URSS.

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Na noite das eleições | Paulo Querido

Na noite das eleições “ao lado de António Costa sentava-se Pedro Nuno Santos, o seu maior adversário interno e o que mais ameaça ou difere do seu legado ideológico.

O diretor de campanha de António Costa foi Duarte Cordeiro, um dos melhores amigos de Pedro Nuno Santos.

Como secretário-geral adjunto apresenta-se José Luís Carneiro, ex-braço direito de António José Seguro.

No penúltimo comício de campanha apareceu Manuel Alegre que nos últimos anos criticou mais vezes António Costa do que elogiou.

Apesar de muito aplaudido por muitos de nós sempre que desanca na Geringonça, Sérgio Sousa Pinto nunca esteve em causa nas listas do PS.

António Costa mostrou aos portugueses que sabia unir, sabia fazer pontes quer com os seus adversários internos quer externos.”

Quem escreveu este que é um dos melhores elogios a António Costa (e ajuda a compreender a facilidade com que tantos eleitores lhe deram a maioria absoluta, ainda que tenha contado mais a excelente prestação económica dos últimos 6 anos) foi Duarte Marques.

O antigo deputado do PSD (que eu não lia há mais de 10 anos) estava a desancar em Rui Rio precisamente por ter ‘secado’ as oposições internas, numa via diametralmente oposta à de Costa.

A forma, tão de direita, tão das direitas, a antiga em ciclo decrescente e as duas extremas que estão em ciclo crescente, como se olha para as eleições como se de um jogo se tratasse, em que se vence para esmagar o inimigo, como se olha para o Parlamento como um território a capturar e como se vê o Governo como uma ferramenta legal para açaimar e desapoderar todos os que não são da tribo é um dos Grandes Males da democracia.

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Querido

A FORÇA DO PC | Francisco Seixas da Costa

“Assim se vê a força do PC!”, é um estribilho conhecido de todos. A força do PC, depois das eleições de domingo, é muito inferior à força que o PC tinha no parlamento antes da respetiva dissolução, que o PC ajudou a consumar. Como resultado, cada vez menos se vê a força do PC.

Ontem, na televisão, ouvi atentamente João Oliveira, um dos quadros mais salientes na vida parlamentar dos comunistas, nos últimos 15 anos, que não foi eleito como cabeça de lista do partido pelo distrito de Évora. Se alguém me dissesse, no sábado, que os comunistas deixariam de estar representados no alentejano círculo eleitoral de Évora eu “explicaria”, com facilidade, a implausibilidade desse cenário.

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PORTUGAL | WIKIPÉDIA

Portugal, oficialmente República Portuguesa, é um país soberano unitário localizado no sudoeste da Europa, cujo território se situa na zona ocidental da Península Ibérica e em arquipélagos no Atlântico Norte. O território português tem uma área total de 92 090 km², sendo delimitado a norte e leste por Espanha e a sul e oeste pelo oceano Atlântico, compreendendo uma parte continental e duas regiões autónomas: os arquipélagos dos Açores e da Madeira. Portugal é a nação mais a ocidente do continente europeu. O nome do país provém da sua segunda maior cidade, Porto, cujo nome latinocelta era Portus Cale.

O território dentro das fronteiras atuais da República Portuguesa tem sido continuamente povoado desde os tempos pré-históricos: ocupado por lusitanos e por celtas, como os galaicos, foi integrado na República Romana e mais tarde anexado por povos germânicos, como os suevos e os visigodos. No século VIII, as terras foram conquistadas pelos mouros. Durante a Reconquista cristã foi formado o Condado Portucalense,  estabelecido no século IX por Vímara Peres, um vassalo do rei das Astúrias. O condado tornou-se parte do Reino de Leão em 1097, e os condes de Portugal estabeleceram-se como governantes independentes do reino no século XII, após a batalha de São Mamede. Em 1139 foi estabelecido o Reino de Portugal, cuja independência foi reconhecida em 1143. Em 1297 foram definidas as fronteiras no tratado de Alcanizes, tornando Portugal no mais antigo Estado-nação da Europa com fronteiras definidas. Nos séculos XV e XVI, como resultado de pioneirismo na Era dos Descobrimentos (ver: descobrimentos portugueses), Portugal expandiu a influência ocidental e estabeleceu um império que incluía possessões na ÁfricaÁsiaOceânia e América do Sul, tornando-se a potência económica, política e militar mais importante de todo o mundo. O Império Português foi o primeiro império global da História e também o mais duradouro dos impérios coloniais europeus, abrangendo quase 600 anos de existência, desde a conquista de Ceuta em 1415, até à transferência de soberania de Macau para a China em 1999. No entanto, a importância internacional do país foi bastante reduzida durante o século XIX, especialmente após a independência do Brasil, a sua maior colónia.

Com a Revolução de 1910, a monarquia foi abolida, contando entre 1139 e 1910, com 34 monarcas.

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https://pt.wikipedia.org/wiki/Portugal

António Costa tem com ele uma maioria sociológica. Sociológica, não política.

Perguntado na CMTV sobre se o António Costa absoluto seria diferente do António Costa minoritário, Francisco José Viegas respondeu: «António Costa é o mesmo desde os 14 anos. Conhece todos os corredores e todas as passagens. Tem com ele uma maioria sociológica. Sociológica, não política.»

Opera gala | great arias from Rossini, Verdi, Puccini, Donizetti, Bellini, Lehár and others

Listen to some of the most beloved arias by Rossini, Verdi, Massenet, Giordano, Wagner, Puccini, Donizetti, Bellini and Lehár! These masterpieces of opera are performed by internationally renowned singers: Agnes Baltsa – mezzo-soprano Piotr Beczala – tenor Pavol Breslik – tenor Franz Grundheber – baritone Štefan Kocán – bass Nino Machaidze – soprano Angela Marambio – soprano Marina Rebeka – soprano Matti Salminen – bass Krassimira Stoyanova – soprano They are accompanied by the Choir and Orchestra of the Deutsche Oper Berlin, conducted by Lawrence Foster.

Harrison Ford at IUCN Congress | 03/09/2021

“É difícil ler as manchetes e dizer aos filhos que está tudo bem. Não está tudo bem”, desabafa Harrison Ford | in https://www.pensarcontemporaneo.com

Suzana Camargo / Conexão Planeta

Esta não foi a primeira vez que o ator e ambientalista americano Harrison Ford fez um discurso forte e contundente. No ano passado, disse que “Nossa maior ameaça não é a crise climática. Mas as pessoas que estão no poder e não acreditam na ciência”. Há poucos dias, durante a abertura do Congresso da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), realizado em Marselha, na França, ele voltou a arrancar aplausos do público. Durante cinco minutos, falou com muita honestidade e demonstrou toda sua frustração perante o momento que vivemos.

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Pedro Nuno Santos no Comício em Aveiro | Legislativas 2022 | Discurso escrito + Discurso em vídeo

Deixo-vos o meu discurso ontem em Aveiro:

Caros camaradas e amigos,

No próximo domingo, o país vai ter de fazer uma escolha. Uma escolha entre um governo do Partido Socialista e um governo de direita. Os portugueses precisam, por isso, de conhecer os valores em que acreditam os partidos e as políticas que defendem para responder aos problemas do país. Vejamos algumas propostas emblemáticas que a direita apresenta aos portugueses.

– O líder do PSD defendeu num debate televisivo o regime misto de Segurança Social. Isto é, as pensões teriam uma parte financiada pelo sistema público e outra por um sistema de capitalização individual. Este sistema criaria dois problemas graves: primeiro, colocaria parte das pensões dos reformados na bolsa, correndo-se o risco de perder tudo como aconteceu com milhares de reformados americanos a seguir à grande crise financeira; segundo, provocaria um rombo nas contas públicas porque durante algumas décadas o Orçamento do Estado teria de financiar a parte das pensões, dos reformados atuais, que deixaria de ser financiada pelos descontos dos que hoje estão a trabalhar e a descontar. Esta proposta traduz uma determinada visão de sociedade.

– O CDS defende o cheque-ensino. Dizem-nos que isso daria a possibilidade às famílias da classe média de estudarem nos colégios dos ricos. Só não foi capaz de explicar que o que aconteceria era que os preços dos colégios mais caros subiriam na proporção do cheque-ensino e que assim continuariam reservados aos mais ricos. Teríamos colégios privados assim-assim para a classe média e continuaríamos a ter os melhores colégios só para os mais ricos. A única coisa que aconteceria era que o Estado passaria a ter menos dinheiro para melhorar a escola pública e pagar mais aos professores e passaria a financiar o negócio privado de educação. Mas esta proposta traduz uma determinada visão da sociedade.

– Já a Iniciativa Liberal quer convencer alguns jovens qualificados a defenderem o desmantelamento do Estado que lhes permitiu qualificarem-se e, enfim, defende uma taxa única de IRS. Isto é, defende uma reforma fiscal que devolveria mais dinheiro aos mais ricos e menos, ou nenhum, aos que ganham menos. Uma reforma fiscal que em vez de diminuir a desigualdade a aumentaria de forma grave. A redução do IRS para os mais ricos obrigaria a reduzir a oferta de serviços públicos de que beneficiam todos os portugueses – que, depois, teriam que ainda gastar dinheiro a comprar esses serviços no privado, sujeitando-se a todas as arbitrariedades. Também aqui o maior problema é que esta proposta traduz uma determinada visão da sociedade.

  • Camaradas e amigos, o que atravessa todas estas propostas da direita portuguesa é uma visão profundamente individualista da sociedade. É a ideia que as pessoas se interessam, aliás, se devem apenas interessar com as suas vidas; a ideia de sociedade de cada um por si, sem querer saber o que acontece aos outros. É por isso que dá tanta centralidade ao mercado; e é por isso que nunca fala de desigualdades. Acredita numa sociedade de vencedores e vencidos, em que o sucesso de alguns é o insucesso de muitos.
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Friedrich Nietzsche, Karl Marx, et Sigmund Freud

Selon la philosophie de Nietzsche( 1844 – 1900) , la religion est un stratagème utilisé par les analphabètes et les faibles , pour contrôler les intelligents, les intellectuels et ceux qui réussissent dans leur vie, leurs parcours académiques, qui à travers la religion, ils leur envoient un message codé selon lequel, si vous êtes une personne éduqué qui réussit dans sa vie , alors nous, nous somme spirituellement purs, nous sommes en relation avec Dieu, et nous sommes donc plus élevés aimés que vous aux yeux de Dieu. Où les perdants et les faibles entrent ici dans une bataille psychologique à briser les os , ils mènent une guerre froide dévastatrice, pour dominer les forts et les vainqueurs.

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O PS é herdeiro de Leon Blum e Olof Palme e não de Trótski e Lenine | Manuel Alegre | 28.01.2022 | O que é a Social-Democracia

Swedish Prime Minister Olof Palme was fatally shot at point-blank range on one of the busiest streets in downtown Stockholm as he and his wife, Lisbet, were leaving a movie theater on Feb. 28, 1986.

BLUM LÉON

(1872-1950)

Haï et injurié de son vivant par ses adversaires politiques comme rare ment ce fut le cas dans la vie politique française, Léon Blum apparaît aujourd’hui, avec le recul du temps, comme un des acteurs principaux de l’évolution de la France vers la modernité et la justice sociale ; il est aussi à placer parmi les penseurs du socialisme français au XXe siècle.

Venu au socialisme au début du siècle, cet intellectuel marqué par l’affaire Dreyfus, « disciple » de Jaurès, eut la redoutable charge d’incarner le socialisme démocratique alors que les guerres mondiales et les totalitarismes semblaient entraîner l’Europe vers la barbarie. Souvent, les penseurs socialistes ont eu la chance de rester à l’écart des difficultés du pouvoir ; Blum fut contraint d’affronter les responsabilités suprêmes de chef de gouvernement en un moment dramatique, alors que la France était au bord de la guerre civile. Plus tard, prisonnier politique, déporté, il devint « le sage » de la résistance socialiste pendant la Seconde Guerre mondiale. À la fin de sa vie, il dut encore monter au créneau au temps de la guerre froide.

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Rui Tavares | Partido Livre

Daqui a um par de horas estarei a encerrar a campanha do LIVRE com um direto em várias plataformas nas redes sociais. Aí se farão as alegações finais. Por agora, algumas notas escritas a correr com reflexões que me suscitam estes últimos dias e horas.

As três coisas mais importantes numa campanha são honrar a democracia trazendo conteúdo e elevação para o debate; tratar os nossos concidadãos como adultos inteligentes que são; guardar serenidade e sentido de humor. Outros dirão se conseguimos fazê-lo.

O LIVRE trouxe desde o início uma mensagem clara sobre governabilidade, que se resumia numa frase: com uma maioria à esquerda seremos parte da solução, com uma maioria à direita seremos parte da oposição. Não mudámos essa mensagem uma única vez.

Outros partidos pediam-nos o voto para ficar tudo mais ou menos na mesma; agora sugerem-nos um voto útil ao mesmo tempo que admitem aliar-se à direita. O voto no LIVRE é útil para impedir uma maioria de direita e construir um futuro à esquerda.

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Voto assim | André Barata

Não sei o que passou pela cabeça do PS de António Costa para pedir uma maioria absoluta. Só a ideia de uma aliança com a direita seria pior. Era mesmo a única coisa que não se podia querer sem entrar em flagrante contradição com uma convicção firmada na última meia dúzia de anos. A memória democrática das maiorias absolutas em Portugal não é boa. Comprimiram a respiração do pluralismo, a efectividade de concertação social, o esforço e a disponibilidade para ceder com que se fazem acontecer caminhos novos.

O PS de António Costa tinha o bom património de não querer maiorias absolutas, mas mandou-o às ortigas. O resultado era previsível. É difícil encontrar algo que, à esquerda, desconforte mais o eleitorado de esquerda do que a vontade de maiorias absolutas. Absoluto e esquerda não rimam. E a autoridade moral de que o orçamento de estado foi injustamente chumbado não chega para tanto. Precisamente, este tanto que foi pedir uma maioria absoluta “malgré tout” é uma boa chave de leitura para ir percebendo o que terá corrido mal.

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CINTIA MARTINS | RACISMO | DESPORTO | EDUCAÇÃO | POLÍTICA | António Carlos Cortez

CINTIA MARTINS é atleta do Sporting. Joga futebol, é talentosa e respeitada no clube por colegas, treinadores e dirigentes. Num jogo com a FUNDAÇÃO SALESIANOS, alguém a ofendeu, gritando “Macaca vai para a tua terra”.

Soube desta tristíssima notícia através dum post de Luís Osório. Junto-me à sua indignação e acrescento alguns dados e ideias.

Não só o CHEGA é um partido que tem alimentado o discurso racista em Portugal, como, provincianamente, procura normalizar-se a sua presença na nossa democracia. Um dos problemas que urgentemente o PS, o PSD e o PCP e o CDS – partidos que fizeram o regime democrático, fundando-o com Soares, Cunhal, Sá-Carneiro e Freitas do Amaral, – têm de resolver é este:

– não pactuar de forma alguma com o CHEGA. Há um princípio bíblico de que se deveriam lembrar: não se fazem festas a cobras. É responsabilidade de Costa e Rui Rio, de Chico e de Jerónimo de Sousa denunciar André ventura e condenar veementemente os comportamentos racistas, sexistas, xenófobos e machistas que vão fracturando a sociedade portuguesa.

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Basta olhar em volta | Viriato Soromenho Marques | in Revista Visão

A seu modo Não Olhem para Cima é uma reflexão sobre a fase terminal da era do niilismo em que há muito entrámos. Cuja porta de saída nos obriga a pensar se alguma vez a liberdade humana foi algo mais do que uma ilusão.

Quando em 15 de Outubro de 1940, O Grande Ditador, de Charlie Chaplin, estreou nas salas de cinema dos EUA não sei se o público terá sentido aquele libertar de tensão que esse imorredoiro e inspirado filme merece, quando apreciado a uma distância temporal conveniente. Nessa altura, apesar de os EUA não terem ainda entrado diretamente no conflito, os tambores de guerra ouviam-se já, tanto dos lados do Atlântico como das bandas agitadas do Pacífico. Apesar do desejo de paz, os cidadãos norte-americanos devem ter sentido alguma amargura perante a caricatura de Hitler, que na altura tinha a Europa a seus pés, com a exceção da Grã-Bretanha de Churchill.

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Legislativas 2022 | Frederico Lourenço

«Nunca escreves sobre política». É um comentário que oiço muitas vezes.

Talvez a minha relação com a política nunca tenha sido clara. Sou filho de dois oposicionistas do regime de Salazar (os meus pais, Manuel e Manuela, conheceram-se na sala de espera da PIDE, antes de serem submetidos a interrogatórios). Mas cresci num ambiente familiar bipolarizado: os meus avós (e logo o quarteto completo) veneravam «o Dr. Salazar» e pronunciavam a palavra «esquerda» com a mesma repugnância com que diriam (se dissessem tal palavra) «sífilis».

A minha mãe, por outro lado, pronunciava a palavra «direita» como se ela exprimisse a quinta-essência da maldade humana. À mesa, em casa dos meus avós maternos, os meus ouvidos de adolescente escutavam o meu avô a falar de esquerdistas e de «pederastas» (como ele dizia) como sendo a escória da humanidade. Depois comecei a perceber que ele evitava mais esse tipo de assunto quando estavam presentes a minha mãe e o meu tio (ambos esquerdistas convictos). Hoje pergunto-me se ele não estaria a fazer já, com o neto, uma forma de «gay conversion therapy». Seja como for, não resultou.

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Projecto de Bienal Literária Argélia / Portugal | Carlos Matos Gomes

Demos conhecimento a Carlos Matos Gomes da ideia, ainda em projecto, da realização de uma Bienal Literária entre Argélia e Portugal. Em resposta,  recebemos entusiasmado apoio que entendeu transmitir com o texto que tomamos a liberdade de publicar. Numa sucinta, clara e brilhante resenha histórica, justifica esta “reunião” de dois povos amigos, juntando intelectuais argelinos e portugueses, mulheres e homens de cultura de ambos os países, escritores, poetas e historiadores. Vamos tentar!

São historicamente conhecidas as antiquíssimas relações entre Portugal, o ocidente peninsular e o Magreb, são fortíssimas as relações culturais entre estas duas regiões, das margens do Mediterrâneo, da língua à poesia e à literatura em geral, da ciência às artes e às ciências. Mas, sendo tão antigas e tão profundas estas relações, elas são também atuais e essenciais aos povos do Mediterrâneo Ocidental, no caso, aos portugueses e argelinos.

Partilhamos preocupações com os nossos povos, com o seu desenvolvimento no respeito pelas suas idiossincrasias culturais, com a paz e a liberdade, com equilíbrios regionais, com movimentos demográficos e migratórios. Partilhamos esperanças e riscos.

A cultura, em todas as suas vertentes, é, porventura, o mais fácil e amigável meio de promover relações harmoniosas entre povos. Através da cultura podemos abordar todas as diferenças e encontrar as melhores zonas de entendimento.

Nos tempos mais recentes, as alterações provocadas pelo desfecho da Segunda Guerra Mundial causaram um impacto decisivo na história da Argélia e na de Portugal. Os ventos da mudança de que falou o primeiro-ministro inglês Harold Macmillan no discurso na cidade do Cabo, trouxeram com eles o movimento descolonizador. Para a Argélia estes novos tempos significaram a luta pela independência da França, conseguida através de uma guerra de grande violência, de novo tipo, a guerra subversiva. A Argélia seria o regaço acolhedor dos guerrilheiros e dos líderes políticos dos movimentos independentistas das colónias portuguesas, dos poucos que em África, pela recusa do governo da ditadura portuguesa de Salazar, tiveram de combater pela sua libertação do colonialismo, mas seria também o porto de abrigo dos oposicionistas e democratas portuguesas que na Argélia lutaram contra a ditadura colonial.

Para a literatura portuguesa com referências à guerra colonial, ao colonialismo e à descolonização faz pois o maior sentido a ligação à Argélia. Afinal foi na Argélia que se formaram os guerrilheiros dos movimentos independentistas – PAIGC, FRELIMO, MPLA, que lhes serviram de matéria prima para as suas obras, foi na Argélia que se desenvolveram as teorias da guerrilha e da contra-guerrilha, foi da Argélia que veio em boa parte da politização dos militares portugueses que em 25 de Abril de 1974, com a Revolução dos Cravos, derrubariam a ditadura e promoveriam a descolonização. Foi ainda na Argélia que estiveram exilados oposicionistas portugueses como o general Humberto Delgado, a grande figura da oposição à ditadura, Manuel Alegre, além de lutador pela liberdade, de jornalista na Rádio Argel, a Voz da Liberdade, um escritor e poeta de mérito, Fernando Piteira Santos, historiador e jornalista, entre tantos outros. Mas ainda intelectuais das antigas colónias e dirigentes políticos como Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Viriato da Cruz ou Aquino de Bragança.

Foi ainda na Argélia que se procederam as trocas de prisioneiros portugueses entregues pelos movimentos à Cruz Vermelha Internacional, foi na Argélia que se realizaram as conversações para o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau.

Em suma, os lutadores pela liberdade, os intelectuais que conjugaram o pensamento, a cultura e a ação para conquistarem os objectivos de liberdade e respeito pela dignidade dos povos, os escritores quer da literatura portuguesa de ficção, quer a de investigação histórica da 2ª metade do século XX têm a Argélia como ponto nodal.

Faz pois todo o sentido reunir hoje intelectuais portugueses e argelinos, homens e mulheres da cultura de ambos os países, escritores, poetas, historiadores para revivificarem as relações entre dois povos amigos.

Assim seja possível concretizar esta reunião de boas vontades a bem de Portugal e da Argélia.

Com os melhores cumprimentos

Carlos Matos Gomes


Nous avons informé Carlos Matos Gomes de l’idée, encore en cours de développement, d’une Biennale littéraire entre l’Algérie et le Portugal. En réponse, nous avons reçu un soutien enthousiaste qu’il avait l’intention de transmettre avec le texte que nous avons pris la liberté de publier. Dans une approche historique succincte, claire et brillante, elle justifie cette « rencontre » de deux peuples amis, réunissant des intellectuels algériens et portugais, des femmes et des hommes de culture des deux pays, des écrivains, des poètes et des historiens. Essayons !

(vítor coelho da silva)

——

Les relations séculaires entre le Portugal, la péninsule ouest et du Maghreb, sont connues historiquement. Ce sont de très fortes relations culturelles entre ces deux régions, les rives de la Méditerranée, la langue de la poésie et de la littérature en général, de la science aux arts et aux sciences. Mais comme ces relations sont si anciennes et si profondes, elles sont également présentes et essentielles pour les peuples de la Méditerranée occidentale, en l’occurrence les Portugais et les Algériens.

Nous partageons les préoccupations de nos peuples, avec leur développement dans le respect de leurs idiosyncrasies culturelles, avec la paix et la liberté, avec des équilibres régionaux, avec des mouvements démographiques et migratoires. Nous partageons les espoirs et les risques.

La culture, sous tous ses aspects, est peut-être le moyen le plus facile et le plus amical de promouvoir des relations harmonieuses entre les peuples. Grâce à la culture, nous pouvons aborder toutes les différences et trouver les meilleurs domaines de compréhension.

Ces derniers temps, les changements provoqués par l’issue de la Seconde Guerre mondiale ont eu un impact décisif sur l’histoire de l’Algérie et du Portugal. Dans son discours au Cap, les vents de changement prononcés par le Premier Ministre anglais, Harold Macmillan, ont apporté avec eux le mouvement décolonisant. Pour l’Algérie ces temps nouveaux signifiaient la lutte pour l’indépendance de la France, réalisée à travers une guerre de grande violence, d’un nouveau type, la guerre subversive. L’Algérie serait le tour confortable de la guérilla et les dirigeants politiques des mouvements d’indépendance des colonies portugaises, et la base de quelques dirigeants en Afrique qui, par le refus du gouvernement de la dictature portugaise de Salazar, ont dû se battre pour leur libération du colonialisme. Mais ce serait également le port de l’abri des opposants et des démocrates portugais qui, en Algérie, ont combattu la dictature coloniale.

Pour la littérature portugaise avec des références à la guerre coloniale, au colonialisme et à la décolonisation, le lien avec l’Algérie prend tout son sens. Après tout, c’était en Algérie que la guérilla des mouvements indépendantistes s’est formée – PAIGC, le FRELIMO, le MPLA, qui les ont servis de matière première pour leurs œuvres. C’était en Algérie que les théories de la guérilla et contre-guérilla ont été développées. C’était Algérie qu’en grande partie la politisation de l’armée portugaise est développée.  C’est ainsi que le 25 avril 1974, avec la Révolution des Œillets, a renversé la dictature et a promu la décolonisation. Également, l’Algérie a été la terre des exilés de l’opposition portugaise comme le général Humberto Delgado, la grande figure de l’opposition à la dictature, Manuel Alegre, ainsi que combattant de la liberté, journaliste à Radio Alger, Voix de la Liberté, un écrivain et poète du mérite, Fernando Piteira Santos, historien et journaliste, parmi tant d’autres. Mais encore celle des intellectuels des anciennes colonies et leaders politiques comme Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Viriato da Cruz  ou Aquino de Bragança.

C’est également en Algérie où se sont déroulés les échanges des prisonniers portugais remis par les mouvements à la Croix-Rouge internationale et les pourparlers de reconnaissance de l’indépendance de la Guinée-Bissau.

En bref, l’Algérie est le point nodal des combattants de la liberté, les intellectuels qui combinent la pensée, la culture et l’action pour atteindre les objectifs de la liberté et le respect de la dignité des peuples, écrivains de la littérature portugaise, de la fiction et de la recherche historique de la seconde moitié du XXème siècle.

Il est logique de réunir aujourd’hui des intellectuels portugais et algériens, des hommes et des femmes de la culture des deux pays, des écrivains, des poètes, des historiens pour relancer les relations entre ces deux peuples amis.

Il est donc possible de faire cette rencontre de bonne volonté pour le bien du Portugal et l’Algérie.

Cordialement

Carlos Matos Gomes

Quem nos acode? | Engº João Azevedo | Professor do Instituto Superior Técnico | in Jornal “i”

Como cidadão, mas também como engenheiro civil e como projetista de estruturas, muito agradeceria que alguém pudesse, ainda que numa base aleatória, analisar os meus atos de engenharia.

Caro leitor:

– Compraria para seu uso um automóvel integralmente fabricado por um engenheiro mecânico numa oficina do seu bairro?

– Viajaria numa companhia aérea não certificada?

– Concordaria que se vendesse carne sem um controlo das condições higiénicas do local de abate dos animais e do local de venda?

– Tomaria os medicamentos produzidos por um farmacêutico numa farmácia não certificada?

– Beberia água da rede pública de uma cidade onde aquela não fosse objeto permanente de análises que confirmassem a sua qualidade?

Não se incomode se ficou na dúvida da resposta que daria a alguma das questões porque coletivamente já todos decidimos que tais atos não são possíveis, a não ser em situações muito excecionais.

Todas essas atividades são regulamentadas e os processos de certificação e controlo da qualidade do que adquirimos ou utilizamos são há muito percebidos como necessários e assumidos como eficazes.

Agora pense se compraria ou alugaria uma casa para viver se a única garantia de segurança estrutural (em palavras simples, de que o teto não lhe cai em cima da cabeça) lhe fosse dada pelo engenheiro civil que assinou o projeto.

A resposta é simples na esmagadora maioria dos casos: Sim.

Efetivamente quase todos compramos ou alugamos casa apenas com base nessa garantia. Não só não existe, em geral, nenhum processo adicional de controlo de qualidade de que nos possamos valer, como ainda, a maioria das pessoas dá como adquirido que esse processo existe e que portanto todas as construções são, por natureza, seguras.

Tal sensação de segurança leva a que nos preocupemos com a qualidade e o padrão dos azulejos, com o tipo de madeira, com as loiças sanitárias, mas não com a segurança estrutural. Como sociedade, também instituímos, entre outras, a obrigatoriedade de certificação energética e de qualidade do ar, mas não manifestamos preocupação com a segurança estrutural.

Felizmente, no nosso país a engenharia civil sempre se regeu por padrões de qualidade que, se devidamente cumpridos, nos dão uma garantia implícita de segurança, pelo menos quando não existem fatores imprevisíveis.

Entre esses fatores, os sismos são dos que mais nos deveriam preocupar.

Infelizmente, são eles que, noutros locais, tornam evidente a diferença entre um bom e um mau projeto e construção e fazem também a diferença entre continuar a ter uma casa ou ser (ou já não ser) dono de um monte de destroços.

Como cidadão, mas também como engenheiro civil e como projetista de estruturas, muito agradeceria que alguém pudesse, ainda que numa base aleatória, analisar os meus atos de engenharia. A bem de uma cultura de qualidade do que utilizamos, em que as construções não podem ser um ativo despiciente.

Quem nos acode?

João Azevedo

Professor do Instituto Superior Técnico

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