Legislativas 2022 | Frederico Lourenço

«Nunca escreves sobre política». É um comentário que oiço muitas vezes.

Talvez a minha relação com a política nunca tenha sido clara. Sou filho de dois oposicionistas do regime de Salazar (os meus pais, Manuel e Manuela, conheceram-se na sala de espera da PIDE, antes de serem submetidos a interrogatórios). Mas cresci num ambiente familiar bipolarizado: os meus avós (e logo o quarteto completo) veneravam «o Dr. Salazar» e pronunciavam a palavra «esquerda» com a mesma repugnância com que diriam (se dissessem tal palavra) «sífilis».

A minha mãe, por outro lado, pronunciava a palavra «direita» como se ela exprimisse a quinta-essência da maldade humana. À mesa, em casa dos meus avós maternos, os meus ouvidos de adolescente escutavam o meu avô a falar de esquerdistas e de «pederastas» (como ele dizia) como sendo a escória da humanidade. Depois comecei a perceber que ele evitava mais esse tipo de assunto quando estavam presentes a minha mãe e o meu tio (ambos esquerdistas convictos). Hoje pergunto-me se ele não estaria a fazer já, com o neto, uma forma de «gay conversion therapy». Seja como for, não resultou.

É verdade que nunca escrevo sobre política. Não tenho esse dom do Rui Tavares ou do Miguel Vale de Almeida. Tenho as minhas ideias, é claro, mas não sinto motivação para escrever sobre elas. Talvez porque a política em si mesma, para mim, não seja a paixão que é para muitas pessoas: interessa-me, sobretudo, pensar na política em termos daquilo que significa para os assuntos que ocupam a minha vida interior.

E são assuntos – quer falemos do poeta romano Vergílio, quer da Bíblia – que não existem num vácuo apolítico. Acredito que muitos dos estudantes que assistem, na Universidade de Coimbra, às minhas aulas sobre Vergílio ficam convencidos de que o seu professor é um radical de esquerda. Porque não é possível falar sobre Vergílio sem tomar posição sobre questões políticas – ele que esteve, apercebendo-se de tudo, na transição de uma (forma de) democracia para o totalitarismo assumido.

O meu modo de olhar os textos do Novo Testamento também não está imune a um olhar político. Porque os próprios textos são políticos: muitos deles têm uma agenda política clara, que consiste, antes de mais, em encontrar uma maneira de representar o cristianismo sob um prisma que o possa tornar compatível (ou pelo menos não-incompatível) com o totalitarismo imperial romano. Toda a gente conhece a famosa frase de Jesus, quando os fariseus lhe perguntam: «devemos ou não pagar imposto a César?» Ao que Jesus responde: «Pagai a César as coisas de César; e as coisas de Deus a Deus» (Mateus 22:21; passagens quase iguais em Marcos 12:13-17 e Lucas 20:20-26).

Todo o processo da condenação e crucificação de Jesus está contado de modo a ilibar na medida do possível os romanos e culpabilizar o mais possível os judeus. Quando lemos os Actos dos Apóstolos ou as cartas desse alegado cidadão romano – São Paulo –, somos permanentemente confrontados com essa atitude subreptícia de que o cristianismo e o Império Romano não são incompatíveis. Vários textos do Novo Testamento acham normal e bem a escravatura; acham normal e bem que os cidadãos obedeçam cegamente aos seus governantes (leia-se o capítulo 13 da Carta aos Romanos de São Paulo). Tal como em Vergílio, há muito por onde pegar, no Novo Testamento, para afirmarmos que legitima uma agenda de direita.

No entanto, seria absurdo ver em Jesus Cristo um promotor daquilo a que chamamos hoje o ideário de direita. Só que a apropriação, pela direita, do cristianismo é indesmentível; e isso será sempre um dos grandes paradoxos da História. Como entender o casamento de conveniência entre as igrejas e o Estado, desde o imperador Constantino a Donald Trump (sobre sinistra trindade católico-latina – Franco, Salazar, Pinochet – é melhor nem falar)? Porque é que as igrejas abrem mais prontamente os braços aos regimes de direita do que aos de esquerda? Porque é que a direita se sente tão legitimada pelo cristianismo e os cristãos de direita tão confortáveis nele, ao passo que os cristãos de esquerda têm sempre de estar a dizer que «esquerda cristã» não é uma contradição de termos?

Certamente os partidos também têm aí um papel decisivo: se o CDS não se apresentasse como um partido de «fados, missas e touradas» (como li hoje num post do Leonel Pedroso Gonçalves), perderia eleitores; do mesmo modo que caberia igual destino ao BE, se se declarasse inspirado pelo esquerdismo implícito de Jesus. Os partidos ficam prisioneiros dos seus próprios estereótipos.

Razão pela qual nunca me consegui rever convictamente em nenhum partido. Não me revejo, em absoluto, nos partidos à direita do PS. Simpatizo, é certo, em muitos aspectos com partidos bem à esquerda do PS. Mas bem vistas as coisas – e ponderados os prós e contras – este domingo o meu voto será mesmo no PS.

——

«O trabalhador é digno do seu salário» (Lucas 10:7)

«Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mateus 6:24)

«Compadeço-me da multidão…: não têm o que comer» (Marcos 8:2)

«Não acumuleis riquezas na terra» (Mateus 6:19)

«Guardai-vos de toda a ganância, porque a vida de uma pessoa não consiste na abundância das suas posses» (Lucas 12:15)

«Vende tudo o que tens e dá o dinheiro aos pobres» (Marcos 10:21)

«Eu vim para que tenham vida – e a tenham abundantemente» (João 10:10)

«Todos os crentes tinham tudo em comum; vendiam tanto os haveres como os bens e dividiam-nos com todos, segundo a necessidade de cada um» (Actos dos Apóstolos 2:44).

«Pagai a César as coisas de César» (Mateus 22:21; porque, contrariamente à evasão fiscal dos ricos deste mundo, é preciso pagar impostos SIM, para que todos possam beneficiar de uma vida digna).

(na imagem: o «Cristo da Moeda» [«Cristo della Moneta», em Génova], de Van Dyck; o quadro ilustra justamente Mateus 22:21)

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