O complexo do sobrinho mimado da tia rica | Francisco Louçã in Jornal Expresso

Há, na ofensiva desembestada da direita contra o controlo público da TAP, um rancor que contrasta curiosamente com a pedinchice de financiamento sempre que esta ou outra empresa cai em dificuldades. Se a chuva de dinheiro se limitasse a salvar Neeleman, que aliás parece ter pouco que o recomende, a considerar as provas que deu nestes anos, cantariam os anjos no céu. Se esse dinheiro fosse somente uma carita transição para a venda à Lufthansa, como mandam as leis do mercado, era um sacrifício em prol do destino, mas aleluia que o mercado está salvo.

Agora o Estado querer dirigir a empresa que comprou, haver uma companhia de bandeira em Portugal e não se desbarretar perante a soberania alemã, isso é um atrevimento, que levanta no mesmo fervor espíritos tão diversos como Júdice, Figueiredo e Rangel. Vai ser caro, anunciam, lúgubres; se pagassemos abdicando do direito de exigir a adaptação da empresa às necessidades de Portugal, então seria um fulgurante negócio, como está bom de ver. É de notar que, entre os que agora se indignam com o custo, estão alguns dos que advogaram, intermediaram, consultoraram ou aplaudiram negócios como a privatização dos CTT, da EDP, da REN e outros esplêndidos contratos que acomodaram fortunas, são portanto especialistas de cartilha passada em questões de gestão da coisa pública.

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O frustrado concurso de beleza monástica | Crónica inédita (2008) | Carlos Esperança

Em 2008, um padre italiano propôs uma competição que pretendia eleger a freira mais bonita, via internet. Face às críticas, voltou atrás e suspendeu tudo.

De onde vem este ódio ao corpo feminino, a fúria misógina, o ranger de dentes, perante a forma de um corpo, as curvas do desejo e a beleza da mulher?

Paulo de Tarso, um místico desequilibrado, rotulou o cabelo e a voz das mulheres como coisas obscenas e Agostinho de Hipona entrava em desvario por não poder resistir-lhes, e ambos foram santos na infância dos milagres, quando a produção em série estava por inventar e a Igreja católica era avara na produção de taumaturgos.

Mas que obsessão é essa dos que lhes querem cobrir o corpo, seja com o hábito, alvo, de freira ou com a negrura da burca, e esconder-lhes as formas, porque temem a beleza, e as reduzem a um corpo sem feitio porque lhe adivinham a inteligência da alma?

Não, não é dessa alma que falo, da criação ontológica que alimenta um deus sedento no Olimpo de todos os medos, da metafísica dos negócios pios, do pretexto para a renúncia à vida e ao sortilégio do amor. Falo da alma com que as mulheres cantam, riem, choram e gritam, da alma com que animam a vida, da alma com que amam e procriam, da força que lhes vem dos séculos de tirania e humilhação.

Quem oprime as mulheres são doentes de desejos reprimidos, inquietos com a perda do poder, célibes que temem o amor e o escândalo, maníacos da castidade que a educação e o múnus castram e que, no êxtase de fantasias sórdidas, se entretêm a inventar castigos.

Quando homens e mulheres descobrirem que a liberdade é feminina, dar-se-ão conta de que a igualdade não é uma utopia e a discriminação dos livros pios é uma afronta que se perpetua para gáudio de homens sós e eterna perdição da felicidade humana numa vida irrepetível.

Agosto de 2008

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

A mulher e as religiões | Carlos Esperança

Que demência misógina levou os patriarcas tribais da Idade do Bronze a impor a metade da Humanidade a subalternidade que castigou a mulher durante milénios e que, ainda hoje, 72 anos depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos, persiste? Não lhes ocorreu que ninguém é livre se alguém for escravo.

O que surpreende é a condescendência com a alegada vontade divina, a manutenção dos preconceitos que impuseram a infelicidade e indizível sofrimento das mulheres, como se os algozes não fossem filhos, irmãos, pais e avós das vítimas que querem perpetuar. O mais implacável dos monoteísmos é o paradigma do despotismo e do desprezo contra quem dá aos homens a vida e o amor, e lhes garante a eternização do ignóbil privilégio.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

O MARTELO DE THOR | José Pacheco Pereira

«Eu gosto muito do meu país, mas não tenho muitas ilusões sobre ele. É um país atrasado, pouco desenvolvido, sem massa crítica, pouco culto, sem grande qualificação da mão-de-obra, muito dependente de vagas de superficialidade, onde a maioria das pessoas trabalha duramente para não receber sequer o mínimo vital, sem vida cívica autónoma do Estado, com uma economia débil, desindustrializado, com uma agricultura desigual, pouco cosmopolita, com muitos aproveitadores e alguns bandidos, mas aí como os outros.

É um país que cada vez menos tem autonomia política, dependente da transferência dos centros de decisão para Bruxelas. Aquilo em que somos melhores não coloca o pão no prato ao fim do dia, como agora se diz. Temos uma língua e uma literatura de valor universal, a melhor obra dos portugueses, mas ninguém come literatura. E temos uma democracia que é um valor que só quem sabe o que é ditadura percebe qual é. É mau? Não é mau, há muito pior, mas é sofrível, e sofrível não permite andar por aí a bater em pandeiretas.

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O PADRE ANTÓNIO VIEIRA E A ESCRAVATURA | por João Pedro Marques – (2018)

Seria o padre António Vieira um defensor da escravatura dos africanos? A resposta, depois do que ficou exposto, é claramente não. Aceitar ou tolerar não são sinónimos de defender ou promover.

“Cada Um é da Cor do seu Coração” (…) é uma seleção de textos representativos do pensamento do padre António Vieira sobre a escravatura. Trata-se de uma obra muito útil pois continuam a escrever-se e a dizer-se coisas incrivelmente ignorantes sobre a forma como Vieira via a escravatura dos africanos. Algumas confusas cabeças deram, até, em acusá-lo de ser um acérrimo defensor da escravidão dos negros. Terá isso algum fundamento?

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Mário Centeno e o Banco de Portugal | Carlos Esperança

Grassa uma onda de ódio partidário contra Mário Centeno, por sair do Governo, para os que não queriam que tivesse entrado, por ser competente, para quem nunca se resignou com o seu mérito, por presidir ao Eurogrupo, para quem considerou uma piada do 1.º de abril o seu prestígio, enfim, ressentimento, inveja e vingança contra quem suportou Cavaco e Passos Coelho a vaticinarem a vinda do Diabo e a difamarem o governo PS, porque BE, PCP e PEV o apoiaram, alheios ao prejuízo nos juros da dívida soberana.

A saída do ministro, prevista há muito, com eventual ida para Governador do Banco de Portugal, expôs a vileza da inveja, a mesquinhez da vingança e a baixeza do ódio.

A pressa de impedir que a personalidade mais qualificada ocupe o lugar para o qual tem perfil, qualificação, currículo e experiência ímpares, é a tentativa tosca de criar uma lei ‘ad hominem’ contra o mais competente ministro das Finanças da democracia.

Surpreende que não trema a mão a quem apoiar uma lei, sem precedentes, com a pressa da perseguição a uma personalidade a quem todos somos devedores.

Calculo a azia que despertou a revista The Banker, um suplemento do Financial Times, ao revelar na última quarta-feira que o ministro das Finanças português, Mário Centeno, foi considerado em 2019 o melhor ministro das Finanças do ano, na Europa.

Doem os elogios da generalidade dos ministros das Finanças do Eurogrupo onde, tantas vezes, conseguiu dirimir divergências que pareciam insanáveis e, sobretudo, o prestígio que a sua competência técnica granjeou. Não é fácil absolver o ministro que conseguiu baixar o clássico défice orçamental de Portugal e teve o descaramento de conseguir um superavit orçamental.

Em democracia, foi uma situação inédita desde há 105 anos, quando Afonso Costa, PM, em acumulação com ministro das Finanças, obteve em 1912/13 um lucro 117 mil libras-ouro e em 1913/14, 1257 mil libras ouro.

Aguardo pelo voto dos partidos para decidir o meu nas eleições presidenciais. Já tinha um/a candidato/a entre os que prevejo na corrida presidencial, e decidirei de acordo com o voto do seu partido em relação a Centeno.

É deplorável que a competência, dedicação e integridade sejam motivo de represália.

Há quem preferisse que se tivesse vendido a um fundo abutre e acumulasse com o lugar de deputado, um precedente inexplicavelmente esquecido.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

𝐀 𝐀𝐌𝐈𝐙𝐀𝐃𝐄 É 𝐔𝐌𝐀 𝐏Á𝐓𝐑𝐈𝐀 | José Tolentino Mendonça in Expresso, 13.06.2020

Foi isso, ou melhor, foi mais do que isso que o escritor Joseph Roth escreveu numa carta ao seu amigo Stefan Zweig, datada do verão de 1935. Ele escreveu: “Por fim, a amizade é a verdadeira pátria.” Na verdade, dois anos antes, nos meses fatídicos em que Hitler se tornara chanceler do Reich, Roth começara a perder as suas pátrias, e percebemos melhor aquele “por fim” a encabeçar a sua afirmação. Com o estabelecimento do nazismo, Joseph Roth perdia para sempre a Alemanha, mas estava consciente de que esse seria apenas o início do irreversível processo que conduziria a tantas outras perdas: “Avizinhamo-nos a grandes catástrofes. Para lá daquelas privadas — a nossa existência literária e material está liquidada — tudo conduz a uma nova guerra… Conseguiu-se que a barbárie governe. Não se iluda. O inferno comanda.” Porém, em 1935, ainda restava a Roth uma pátria imaginária: o regresso da Casa de Habsburgo, a nostalgia por uma Áustria imperial que servisse de tampão ao avanço daquela loucura extrema. Mas, em relação a essa pátria idealizada, não havia propriamente certezas. Ele próprio balançava entre a militância e o luto, como confessa no prefácio a um dos seus grandes romances, “A Marcha de Radetzky”: “Uma cruel vontade da história estilhaçou a minha velha pátria, a monarquia austro-húngara. Amei-a, a esta pátria, que me permitiu ser contemporaneamente um patriota e um cidadão do mundo, um austríaco e um alemão… Amei as suas virtudes e qualidades e agora que está morta e perdida, amo também os seus erros e fraquezas. E tinha muitos. Expiou-os a todos com a sua morte.” Restava, portanto, a Joseph Roth o que ele, naquele verão, refugiado no Hotel Foyot, em Paris, declarou a Stefan Zweig: “Por fim, a amizade é a verdadeira pátria.”

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O Momento Chernobyl de Trump e Bolsonaro? | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

Não foi o acidente nuclear de Chernobyl em 1986 que derrubou o regime soviético, que se viria a desagregar irreversivelmente com a queda do Muro em 1989 e com o golpe militar em 1991. O poder de Gorbachov, que já representava uma transição, fracassou cinco anos depois, no fim de um longo processo em que foi corroído por contradições internas, pelo esgotamento económico e pelo desgaste social, acentuado pela derrota na guerra do Afeganistão. O acidente foi somente um choque que se sobrepôs a essa exaustão. Mas, por isso, foi também um momento trágico que revelou a fragilidade do Kremlin, sobretudo pela tentativa de ocultação, pela revelação da impotência e pela impopularidade que multiplicou. O tempo de Chernobyl foi a mentira e a revelação da mentira e, com isso, o início do fim de uma era.

A pandemia pode ser o Momento Chernobyl da extrema-direita no poder em países poderosos, como os Estados Unidos ou o Brasil. O caso com maiores implicações internacionais será o de Trump que, nas suas deambulações justificativas e na verve desculpatória, revela uma obsessão pelo interesse económico de curto prazo contra a proteção das vidas. E aí entra o efeito Chernobyl: ele precisa de ocultar o desprezo pela população e, sobretudo, a sua calculista impotência perante a doença.

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A reeleição de Trump e a destituição de Bolsonaro — os efeitos da reputação | Carlos Matos Gomes

Reputação tem origem no latim, reputatio-onis, e significa ponderação, conceito favorável ou desfavorável. Como palavras relacionadas o dicionário apresenta, reputaria e figurona.

A comunicação social nacional e internacional tem referido como questões importantes a reeleição de Trump e a destituição de Bolsonaro, a este através do processo que os brasileiros designam por “impinchamento”, dentro da mesma lógica que os leva a chamar “midia” à comunicação social. Já sobre a reputaria não é conhecida adaptação. A palavra e o conceito valem por si.

À primeira vista a eleição de presidentes dos EUA e do Brasil seria um assunto importante para a comunidade internacional. Os EUA são uma superpotência planetária e o Brasil a maior potência na América do Sul, além de falar uma versão do português e de lá viver uma numerosa comunidade portuguesa. Não é assim. Trump e Bolsonaro conseguiram o feito de tornarem as suas eleições e destituições irrelevantes! E não só as deles, como a dos que lhes venham a suceder! Eles destruíram a reputação dos seus países. Transformaram a reputação em reputaria e eles próprios se assumiram como figuronas, ou, em termos de Carnaval de Torres Vedras, como matrafonas.

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Acórdão do Tribunal Constitucional Alemão sobre o programa de compra de ativos do BCE | Texto de José Luís da Cruz Vilaça | Introdução de Paulo Sande | in Facebook

Este texto resume o essencial da análise feita por José Luís da Cruz Vilaça ao acórdão do Tribunal Constitucional Alemão sobre o programa de compra de ativos do BCE.
Antigo Juiz do Tribunal de Justiça da União Europeia, seu Advogado Geral e primeiro Presidente do Tribunal de Primeira Instância, atual Tribunal Geral da União Europeia, Cruz Vilaça é dos portugueses mais abalizados para interpretar o referido acórdão nos seus devidos termos e consequências
O TC alemão ultrapassou várias linhas vermelhas
1. O acórdão do 2º Senado do Tribunal Constitucional Federal da Alemanha (adiante “TC alemão”), de 5 de maio, sobre o programa PSPP – Public Sector Purchase Programme (programa de compra de ativos do setor público em mercados secundários) do Banco Central Europeu (BCE), provocou ondas de choque em toda a Europa. Não é caso para menos: o debate jurisdicional entre o TC alemão e o Tribunal de Justiça da União Europeia(adiante “TJUE”) suscita, inevitavelmente, a questão essencial de saber se é possível evitar o risco de desagregação constitucional na UE.

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27.5.20 | Querem mesmo um ensino sem aulas presenciais? | Francisco Louçã | in blog Entre as Brumas da Memória

«Confesso que fiquei surpreendido quando ouvi um dirigente sindical criticar a abertura das aulas para o 11º e 12º anos. O que começou por dizer pareceu-me convincente: é preciso garantir a segurança de alunos, professores e funcionários. Mas depois acrescentou, se bem registei, que preferia que se mantivessem as aulas à distância. Eu não prefiro. Por isso é que gostaria de ter ouvido algo mais, que temos que nos mexer para ter as condições para voltar à vida das escolas. O mais depressa possível. Sem aulas presenciais não há ensino.
É provável que sem aulas presenciais também deixe de haver professores. De facto, manda a prudência que se tenha em conta que, se o sistema de ensino for só uma telescola, alguém um dia imaginará que basta um vídeo das aulas de cada cadeira e que se pode repeti-lo ad infinitum. Umas dezenas de figurantes contratados para apresentarem um texto e um powerpoint e está dado o curso. Ponham-lhe o bastão na mão e já verão como é o vilão, saltar da telescola para a youtubescola será um ápice. Este risco profissional pode ser grave, mas ainda assim não é a única ameaça. Até sugiro aos leitores, sentindo o ceticismo de alguns que leram as últimas linhas, que esqueçam por completo esta questão. O que não se pode ignorar, em contrapartida, é que o encanto das novas tecnologias não substitui a relação entre os docentes e os alunos, a atenção ao detalhe, a aprendizagem viva, a insistência e a resposta imediata, as dúvidas durante e no fim da aula, a conversa nos intervalos, as atividades extracurriculares, a forma como os estudantes se envolvem com a escola.

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UE | UMA VISÃO OPTIMISTA, APESAR DE TUDO | Do lado certo da história | Bernardo Pires de Lima

A proposta franco-alemã vai muito além dos 500 mil milhões de euros. Responde à enésima crise europeia, forjando o aprofundamento da integração, reflete a evolução qualitativa no debate alemão e tem a ambição de moldar positivamente a globalização. Cinco páginas que podem ficar na história.

Já dizia Jean Monnet, o europeu nunca eleito mais importante do pós-Guerra, que a “Europa será forjada em crises”. Caro Monnet: tem sido na mouche. Guerras totais ou regionais forçaram a paz improvável entre a França e a Alemanha ou entre repúblicas da antiga Jugoslávia. Crises económicas ou choques geopolíticos aceleram adesões, transições democráticas e transferências voluntárias de soberania para fortalecer políticas comuns. Crises e integração europeia têm andado de braço dado desde sempre. Por outras palavras, a consolidação da paz, através do comércio e da diplomacia, e o alargamento da geografia democrática, têm sido as duas grandes estratégias de sucesso destes 70 anos de Europa progressivamente integrada.

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O comentário mais antigo aos Evangelhos em latim | Frederico Lourenço

Em 2012, o latinista austríaco Lukas Dorfbauer fez uma descoberta sensacional no fundo de manuscritos da catedral de Colónia. Descobriu o mais antigo comentário aos Evangelhos em latim, que desaparecera de vista na época carolíngia. Escrito no século IV por Fortunaciano, bispo de Aquileia, este texto transporta-nos directamente para o cristianismo pré- e pós- constantiniano: «pré-» porque quando Fortunaciano nasceu, no início do século IV, o cristianismo era ainda uma religião ilegal, cujos adeptos a praticavam com risco de vida; «pós-» porque Fortunaciano teve a fortuna (quiçá plasmada no seu nome) de pertencer à geração que viveu com alegria a despenalização da fé cristã e se confrontou com a realidade surpreendente de um novo cristão no seu meio: o próprio imperador Constantino. Este supremo benfeitor da igreja (que não viu incompatibilidade entre ser cristão e mandar matar a mulher e o filho, entre muitas outras acções condenáveis à luz dos ensinamentos de Jesus) legou ao cristianismo uma tensão que até hoje não está resolvida: e essa tensão reside na permissibilidade de alguém se intitular cristão, e de ser incentivado nessa auto-percepção pela hierarquia esclesiástica (sobretudo se for rico e poderoso), sem precisar de pôr em prática quase nada do que Jesus ensinou. Penso muito em Constantino cada vez que vejo a corte de pastores evangélicos à volta de Trump e de Bolsonaro – e, para não batermos só nos evangélicos, não esqueçamos como os vários papas nunca deram a Pinochet, a Franco ou a Salazar motivo para auto-questionarem a sua identidade de bons católicos.

 

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O Harakiri de uma civilização | Carlos Matos Gomes

Uma ideia de explicação para os aviões cheios e os espetáculos a meia casa

Aviões a 100%?! “Expliquem-me, como se eu fosse uma criança”, pedem tantos bons amigos. É o título da crónica de uma jornalista do DN. Outros apontam o seu desapontamento contra a Diretora Geral de Saúde: perdeu toda a credibilidade! Então o vírus mata numa sala de espetáculos e não mata num avião!

Esta é a minha humilde explicação. A decisão faz todo o sentido dentro dos princípios da nossa civilização. É racional. É uma resposta de sobrevivência da nossa velha civilização. Mais, é a decisão que permite responder ao vírus, isto é, pagar os serviços públicos de saúde que lhe responderam e os serviços de segurança social públicos que permitiram a sobrevivência de tantos europeus que viram os seus rendimentos diminuírem ou desapareceram precisamente por os aviões não voarem. E eles, os aviões comerciais, a aviação comercial com todos os serviços associados, aeroportuários, logística, foram desenhados para gerarem lucro (ou riqueza) apenas se os aviões voarem cheios, ou perto disso (+ de 75% da capacidade).

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INTIMIDADES | Tiago Salazar

Se vos contar uma história baseada em factos reais vão acompanhar-me até ao fim? Vão voltar atrás, e reler, e tentar entrar na intenção do autor? Vão perorar aí em baixo, clicar numa das opções reactivas? Vão comentar com acidez ou escárnio sem clicar no gosto por desdém irritativo? Faltam aqui patilhas do não gosto, não curto, não me identifico, ou uma que me apraz, vai-te catar. Mas isto hoje é sério. Ser levado a sério implica toda uma reputação de conduta retrospectiva. Como para votar num indivíduo há que apurar do seu currículo, de públicas virtudes e impúdicas particulares. O Bill, por exemplo, ganhou ou perdeu mais pelo facto de se aprestar a um fellatio na sala oval? Entre os machos, marcou pontos de virilidade, sobretudo os de pele rosada e cheínhos. Entre as fêmeas púdicas, recebeu as ovações de porco, canalha, sacana, facínora, no pressuposto de que o adultério é um crime solitário. Não sabemos se o Bill vivia numa relação aberta e a Hillary não andava em coboiadas, ou se o casamento não era apenas um contrato social de onde a sexualidade estava arredada. Que sabemos, no fundo, dessas coisas pudibundas que alimentam o voyeurismo, aqui, a jusante, ou na Ferrante, que fala disso, desabrida como poucos?

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Mortos sem valor de mercado | Carlos Matos Gomes

Desenvolvemos uma sociedade onde tudo — mas tudo — tem um valor de mercado. Onde não existem pessoas, mas produtos e consumidores. Tudo é mercado. Esta é a civilização que criámos. O coronavirus expôs os fundamentos dessa “descivilização” que tem como farol os Estados Unidos da América e a Big Apple, Nova Iorque, como capital. Nós, os portugueses e os europeus, pertencemos a essa civilização. Quando o presidente dos Estados Unidos aponta o dedo à China como responsável pela pandemia está a dizer que a “nossa” civilização perdeu, apodreceu, está a reconhecer: A nossa Maçã está podre!

Há dias a comunicação social da nossa civilização mostrava a sede do império — Nova Iorque, a Grande Maçã, a metrópole que não dorme, a da Wall Street, a Bolsa que impõe o valor dos produtos no mercado, a Lota Mundial — a enterrar mortos do “vírus chinês” em valas comuns abertas por escavadoras, porventura chinesas, ou japonesas, ou coreanas, operadas por hispânicos! Conclusão a tirar da confissão de Trump: a China obrigou o nosso império a enterrar os seus mortos sem valor de mercado em valas comuns. Para aí vão os que, no Império do Mercado, não têm dinheiro para pagar um seguro privado de saúde, um fundo privado de pensões, um funeral como os que aparecem nos filmes, num campo relvado e música de fundo! As mesmas valas onde, provavelmente, há uns anos foram enterradas as vacas loucas, aquelas que sofreram uma degenerescência neurológica, ou os frangos da gripe aviária, ou os porcos da peste suína (que veio de Hong Kong) que também já foram sacrificados por não terem valor de mercado.

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O MELODRAMA | Eduardo Pitta, in Facebook

Toda a gente se lembra da noite do primeiro domingo de Agosto de 2014, quando Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, anunciou em directo a «Resolução» do BES. O Grupo Espírito Santo implodia em horário nobre e das cinzas do BES nascia o Novo Banco.

Nunca tal se tinha visto na Europa. Embora previsto pelo BCE, foi uma estreia absoluta. No dia seguinte ficou a saber-se que mais de metade dos ministros (era o Governo Passos & Portas) tinham assinado na praia.

Passaram seis anos. O Fundo de Resolução, constituído pelos Bancos a operar no país, enterrou 3,9 mil milhões de euros no Novo Banco. Mas a venda ao Lone Star, em 2017, não exonerou os compromissos contratuais. Dito de outro modo, os Governos de António Costa não podem assobiar para o lado. Há poucos dias foram mais 850 milhões, devidamente inscritos no OE 2020. Mas ainda faltam mais mil milhões.

Encenar uma ópera-bufa a pretexto de uma verba inscrita no Orçamento de Estado (ou seja, um diploma escrutinado por todos os deputados, aprovado por uma maioria deles, promulgado pelo Presidente da República, referendado pelo primeiro-ministro e publicado em «Diário da República»), não lembra ao Diabo. Abstenho-me de comentar a polémica em torno de gaps de comunicação.

A Direita, no seu conjunto, e uma parte significativa da Esquerda, julgou ter chegado o momento de abater Centeno, que ainda esta tarde, ouvido no Parlamento, foi claro: «Os senhores fizeram na praia a mais desastrosa Resolução da história da Europa…»

Rui Rio pediu a demissão do ministro das Finanças. Deputadas do BE e do CDS deram pinotes de corça. Pivôs de telejornal salivaram com o desfecho da reunião que à mesma hora juntava Centeno e o primeiro-ministro.

Tudo acabou em anticlímax: os dois abandonaram juntos a residência oficial e uma nota esclarece: «O primeiro-ministro reafirma publicamente a sua confiança pessoal e política no Ministro de Estado e das Finanças, Mário Centeno.»

Eduardo Pitta

Retirado do Facebook | Mural de Eduardo Pitta

A Censura no Estado Novo de 1926 a 1974 | Jorge Alves

Todos sabemos, talvez alguns mais novos desconheçam, que o Estado Novo dos infelizes tempos da outra senhora amordaçava a Comunicação Social então existente com a Censura. Ou seja, não existia de todo liberdade de imprensa. Salazar e o seu seguidor, Marcelo Caetano, montaram uma imensa teia por todo o País e pelas colónias que visava não deixar passar nos jornais, na Rádio e na Televisão tudo o que pudesse ser em desfavor do regime. Essa teia, que actuava em estreita colaboração com a famigerada PIDE/DGS, era tecida por militares e civis afectos aos fascistas, que então controlavam tudo e todos neste nosso Portugal.

Vamos então ver como actuava a Censura, por quem era formada e o ridículo de boa parte das suas actuações?

Vamos então por partes. Nada ia para o prelo ou para o ar sem primeiro passar pelo crivo da Censura. Os senhores militares designados para o efeito, refastelados nos seus cadeirões, tudo viam e analisavam. E não só artigos, mas também peças de teatro ou argumentos de cinema. Tudo tinha de estar conforme aos desígnios do senhor professor Salazar, que Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria o abençoassem. Pelo menos era o que dizia sua eminência o senhor cardeal Cerejeira. À cintura não traziam arma, mas sim um lápis azul com que riscavam isto e aquilo. Por vezes riscavam simplesmente tudo. E quem eram esses homens? Geralmente oficiais superiores do Exército, na reserva ou no activo, que encontravam assim, as mais das vezes, um excelente pretexto para não serem destacados para a Guerra Colonial. E além disso ganhavam mais do que os seus pares. Raros foram os civis que integraram esse triste serviço. E quando isso sucedeu claro que eram reputados fascistas que geralmente integravam a Legião Portuguesa, guarda pretoriana do regime, e, na sua componente política, afectos à União Nacional, o partido único do regime.

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Corrupção, ideologia e ética | Texto de há dois anos* | Carlos Esperança

A corrupção é suscetível de atravessar todo o espetro partidário, mas a sua incidência é mais marcada em partidos que ocupam o poder, dependendo a perceção da liberdade de informação, que só os regimes pluripartidários consentem, enquanto a ética assume um carácter pessoal, havendo, em qualquer partido, militantes impolutos e venais.

A necessidade de financiamento dos partidos e a proximidade dos grupos económicos, com porta giratória entre os governos e as empresas, promovem a corrupção, enquanto a perceção depende da comunicação social e, sobretudo, dos interesses que ela defende.

O poder judicial devia ser o garante da investigação imparcial e do julgamento isento de todos os crimes, sem prejuízo do julgamento político que cabe à AR e aos cidadãos, mas a promiscuidade que parece haver entre alguns agentes e a comunicação social tem sido motivo de preocupação com a eventual politização da Justiça.

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Michel Houellebecq | el mundo después de pandemia ‘será exactamente igual’ | in RFI.fr, texto por Alejo Schapire

Houellebecq no cree que nada vaya a cambiar, sino que las tendencias de fondo de la sociedad tecnificada se agudizarán. “En primer lugar, no creo ni por medio segundo en afirmaciones como ‘nada volverá a ser lo mismo’. Al contrario, todo seguirá siendo exactamente igual. 

El más influyente de los narradores franceses de la actualidad publica este lunes una carta en la que reflexiona sobre las consecuencias del coronavirus. El impacto del confinamiento en la escritura, la confirmación de la tendencia de una “obsolescencia en las relaciones humanas” o la disimulación de los muertos son algunos de los temas que aborda, lo que le lleva a decir que el día después el mundo “será el mismo, solo que un poco peor”.

A contramano de quienes vaticinan que ya nada será igual, que la pandemia es una oportunidad para replantearse el mundo y salir mejores, Michel Houellebecq (1956) responde con una risita desesperada que echa por tierra cualquier esperanza.

En una carta titulada “Un poco peor”, el narrador francés resume el estado del mundo tal como lo ve después de la convulsión provocada por la COVID-19.

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O direito ao contraditório e ao ruído | Carlos Esperança

Gosto de quem exerce o legítimo direito de discordar das minhas posições invocando o gosto de pensar pela própria cabeça, na insinuação subliminar de que eu penso com uma cabeça alheia.

Aprecio a alegação contra a denúncia dos crimes cometidos por Hitler, Franco, Pinochet ou Salazar com perguntas retóricas sobre os de Mao, Estaline, Enver Hoxha ou Pol Pot, como se alguma vez tivessem defesa uns ou outros.

Agrada-me o argumento irritado, quanto à denúncia de crimes cometidos por militantes de um qualquer partido, com o desfiar do rol de delinquentes de um partido concorrente, como se a bondade partidária se medisse pela conduta dos militantes.

Regozijo-me com a amnésia dos admiradores de Cavaco, Passos e Portas, que os julgam salvadores da Pátria e responsabilizam o governo anterior pelas suas malfeitorias, como se a crise financeira mundial de 2008 não tivesse existido, e ignorando que a falência de um Estado ou de uma empresa (bancarrota) não se confunde com a fissura numa banca da praça do peixe (banca rota), como há uma década vêm escrevendo.

Mas nada me extasia tanto como os ataques irritados a qualquer governo que não inclua o PSD e o seu apêndice de serviço, o CDS. Há quem, na sua crença, pense que Cavaco é um intelectual e Passos Coelho um académico. É mais um motivo para minha diversão.

Finalmente, resta-me recordar à direita truculenta a satisfação manifestada pela eleição de Bolsonaro, por Paulo Portas, Nuno Melo, Assunção Cristas, André Ventura e Luís Nobre Guedes, para não falar da carta de felicitações que Santana Lopes lhe enviou.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

O Futuro — talvez valha a pena pensar nele | Carlos Matos Gomes

Um vírus fez e faz tremer o planeta. Confinou habitantes de continentes, ceifou mais de 230 mil vidas, até agora, e alterou o modo de vivermos e como vamos viver. Como será o mundo que nos espera após esta crise? Que rumo devemos tomar individual e coletivamente? O jornal espanhol El País perguntou a 75 especialistas e pensadores quais as suas chaves e qual a sua visão para a nova era. Resumi 7 delas, uma por cada dia, que me pareceram mais marcantes, do meu ponto de vista. O link para o artigo encontra-se no fim. Também serve de contraponto à querela bizantina 1 de Maio contra 13 de Maio.

Vai em espanhol, mas parece-me compreensível. Todos hablamos poquito.

1. Reestruturar toda a dívida publica e privada

Así, un virus sin cerebro nos obliga a enfrentarnos a un sencillo dilema: o la zombificación de los bancos y las empresas posterior a 2008 engulle al resto de la economía, o reestructuramos masivamente la deuda pública y privada. Esta es la decisión política fundamental de nuestra época. Por desgracia, nuestras pseudodemocracias la están evitando.

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As Fúrias da Televisão — Oresteia e as Erínias | Carlos Matos Gomes

Vejo pouca televisão. A televisão interessa-me mais enquanto meio de manipulação de opinião (a sua verdadeira função) do que como meio de informação ou de entretenimento. Já vi menos. Agora mais, por efeito colateral do cofinamento. Vou percorrendo as estações. Há menos anúncios, logo, menos dinheiro, mais luta interna, mais espaço para cada estação mostrar os seus interiores, a sua alma, a natureza do seu produto e dos seus vendedores. A verdadeira face. Os anúncios são do melhor que as televisões apresentam, juntamente com alguns documentários. Sem anúncios, com poucos documentários, sem a peixeirada à volta do futebol, resta a televisão propriamente dita, sem maquilhagem, entregue ao seu elenco residente e aos seus guiões descarnados como os chifres de um touro que está na arena, às lutas de bastidores que são sempre o recheio mais interessante das peças, sejam farsas sejam comédias, sejam tragédias.

Tenho andado à procura nos clássicos — há tempo para os clássicos em tempos de confinamento, e eles disseram o que havia a dizer de essencial sobre a natureza humana — de referências para o que vai passando pelo palco liso dos ecrãs e imaginando o reboliço nos camarins, nos corredores. As mensagens explícitas e as sublimares. Descobri que todas as estações de televisão exibem perante nós, mais ou menos condenados à assistência, versões da Oresteia, a Triologia de Orestes, peças do dramaturgo grego Ésquilo, que o CCB apresentou em 2018.

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Le Maghreb, Le Machrek et le Portugal | L’œcuménisme dans la vision grecque de la culture ouverte | Jorge Alves

“Le Portugal, pour des raisons historiques et géographiques, ne peut et ne doit pas ignorer l’héritage historique qu’il détient du Maghreb et du Machrek. Nous devons au moins le respecter. Pour une raison simple – il fait partie de notre ADN. Et, mes chers amis, que ce serait bien si nous ne gaspillions pas le capital de sympathie que nous avons dans le monde arabe! Comme je me souviens des regards brillants et pleins d’affection de ceux qui m’ont demandé d’où je venais, dans n’importe quel coin de la Syrie ou de la Palestine, quand j’ai répondu: Portugal.”

[ JORGE ALVES , journaliste ]


Étymologie | Le Maghreb et Le Machrek ( Wikipedia )

Le Machrek peut d’abord être défini par rapport au MaghrebMachreq signifie en effet Levant, par opposition à Maghreb qui veut dire Couchant. Le Maghreb désigne aujourd’hui un ensemble septentrional de l’Afrique, qui correspond aussi à la partie occidentale du monde arabe, entre le Maroc (dont le nom arabe a longtemps été Al Maghrib Al Aqsa, ou le couchant extrême, désormais abrégé en Al Maghrib) et la Tripolitaine (en Libye), en passant par l’Algérie et la Tunisie, voire par la Mauritanie. Quand la péninsule ibérique était sous souveraineté arabe, elle était aussi incluse dans l’appellation Maghreb, de même que Malte et la Sicile.


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1º de Maio | Sem Novidade | Carlos Matos Gomes in Jornal Tornado

A propósito das comemorações do 25 de Abril – Dia da iberdade, e do 1º De Maio – Dia do Trabalhador. Eu, que não sou encenador, preocupei-me pouco com a encenação das cerimónias. Também não sou tutor de adultos que, para o caso são até dirigentes políticos e responsáveis por si e pela condução das coisas publicas para me preocupar com o seu grau de confinamento, nem de exposição a riscos sanitários. Dito isto, deixando o teatro aos encenadores e as preocupações sanitárias a quem de direito, a começar pelos próprios, interessou-me, enquanto cidadão conhecer o que me tinham a dizer os políticos e os dirigentes das grandes organizações de trabalhadores, afinal aqueles que regulam o nosso presente e devem preparar o nosso futuro, enquanto sociedade num momento de crise, em que tudo, mas tudo, está posto em causa. Desde logo o nosso modelo de sociedade. É sobre o conteúdo dos discursos, ou da falta dele, que aqui escrevo. Se os senhores e as senhoras estavam à distancia regulamentar, se tinham guia de marcha interconcelhia… coisas assim graves não constam do texto.

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Ecumenismo na visão grega de cultura aberta | Jorge Alves

“Le Portugal, pour des raisons historiques et géographiques, ne peut et ne doit pas ignorer l’héritage historique qu’il détient du Maghreb et du Mashrek. Nous devons au moins le respecter. Pour une raison simple – il fait partie de notre ADN. Et, mes chers amis, que ce serait bien si nous ne gaspillions pas le capital de sympathie que nous avons dans le monde arabe! Comme je me souviens des regards brillants et pleins d’affection de ceux qui m’ont demandé d’où je venais, dans n’importe quel coin de la Syrie ou de la Palestine, quand j’ai répondu: Portugal. “

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“Portugal, por razões históricas e geográficas, não pode e não deve ignorar a herança histórica que detém do Magreb e do Mashreq. Devemos no mínimo respeitá-la. Por uma simples razão – faz parte do nosso ADN. E, meus caros amigos, que bom seria se não desperdiçássemos o capital de simpatia que temos no mundo árabe! Como me recordo dos olhares brilhantes, plenos de afecto, de quem me perguntava de onde eu era, em qualquer recanto da Síria ou da Palestina, quando eu respondia: de Portugal.”

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Notas Soltas – Abril/2020 | Carlos Esperança

Brasil – Ninguém melhor do que o governador de S. Paulo definiu Bolsonaro: “Temos um presidente que não está em plenas faculdades mentais para liderar um país”. Já não estava quando a IURD, o juiz Moro e interesses suspeitos o levaram à vitória eleitoral.

Turquia – Quando um chefe de Estado se torna pirata, não surpreende que retenha um avião, que faz escala no País e leva ventiladores para Espanha, com o argumento de que a carga lhe é imprescindível. A pirataria era o crime que faltava no seu currículo.

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HONRA OS TEUS VELHOS | Cardeal José Tolentino de Mendonça | in Jornal Expresso

Um facto ao qual não nos deveríamos habituar é este: que na informação sobre as vítimas da pandemia venha associada a sua idade e a indicação de que eram afetados por outras patologias. Não nos damos conta, mas com isso descemos, de forma irreversível, alguns degraus daquele precioso património comum a que chamamos civilização. Não discuto que a intenção possa ser virtuosa, pois supostamente visa serenar os outros segmentos da população. Mas certas serenidades induzidas têm de ser questionadas, sobretudo se reforçam a vulnerabilidade de quem já tem de suportar tanto. É fundamental que para as nossas sociedades seja claro que há coisas piores do que a infeção com o vírus da covid-19. Se os velhos são reduzidos a números, e a números com escassa relevância humana e social, podemos até superar airosamente a crise sanitária, mas sairemos diminuídos como comunidade. Rodarão as estações. A esta primavera suceder-se-á outra, porventura, mais risonha, distendida e ampla. Mas nunca mais respiraremos da mesma maneira.

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O 25 de Abril e os revivalistas militares | Carlos Matos Gomes

O 25 de Abril e os revivalistas militares

Dos que mordem a mão de quem lhes abriu a porta

Muito raramente escrevo sobre assuntos militares. Evito fazê-lo porque estou há anos fora do serviço ativo e desconheço os elementos essenciais que fundamentam as decisões.

Escrevo desta vez porque me choca a violação do princípio do respeito pelo passado entre gerações de militares, e mistificação da História que mais uma vez e a propósito das comemorações do 25 de Abril li nas redes sociais, em textos da autoria de militares retirados do serviço, mas de uma geração que cumpriu a sua carreira já depois do fim da guerra colonial e do 25 de Abril.

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O Vírus Chinês e os misseis Strela da Guiné | A Confissão de Impotência do Imperador | Carlos Matos Gomes

No dia 23 de Março de 1973 o PAIGC disparou o primeiro míssil antiaéreo Strela contra um avião português. A 25 de Março foi abatido o primeiro avião, um Fiat G 91, sobre Guileje, no Sul, o piloto, tenente Pessoa, ejeta-se e salva-se. Três dias mais tarde, a 28 de Março, outro Fiat, desta vez pilotado pelo tenente-coronel Almeida Brito, também é abatido no sul da Guiné. O avião explode no ar provocando a morte do piloto. Na semana seguinte, a 6 de Abril, a Força Aérea perde ainda dois aviões ligeiros de transporte DO-27 e um avião de ataque ligeiro T-6G, com os respetivos pilotos, devido à ação do míssil. Para as tropas portuguesas é uma escalada na guerra com a qual não contavam e para a qual não estavam preparadas. Para o PAIGC foi a derradeira arma para vencer a guerra. A gravidade da situação é espelhada na informação que a delegação da DGS na Guiné envia para Lisboa, a 9 de Abril, sobre a perda de supremacia pela Força Aérea Portuguesa: “Não dispomos de meios aéreos que possam constituir uma força de dissuasão ou que nos permitam castigar duramente as bases de apoio, temos que encarar como muito possível que o PAIGC venha num muito curto prazo de tempo a estabelecer novas áreas libertadas, e dificultar ou impedir o tráfego aéreo e até mesmo a aniquilar algumas guarnições que agora passaram a não poder contar com o apoio aéreo para as defender, evacuar os feridos e reabastecer.”

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A propósito das comemorações do 25 de Abril e das hipocrisias | Carlos Matos Gomes

Uma pequena história sobre locais de reunião. Estamos no Verão de 1973. Na Guiné, um grupo de militares, quase todos capitães, reúne-se regularmente para conspirar. A conspiração tem dois níveis, o da contestação a um decreto sobre carreiras e o da contestação à política colonial da guerra eterna até ao desastre final de uma nova Índia. O comandante militar, brigadeiro Alberto Banazol, soube da contestação e pediu uma reunião com a comissão de contestatários. O brigadeiro Banazol cedia-nos as instalações da biblioteca do Quartel-general para nos reunirmos, para que não andássemos de Anás para Caifás, e nós comprometíamo-nos a informá-lo do essencial tratado nas nossas reuniões. Assim foi. Até que o brigadeiro Banazol convida a comissão e os capitães mais antigos para um beberete informal, em sua casa (onde é hoje a embaixada de Portugal em Bissau), fora das horas de serviço, para nos comunicar com toda a lealdade que, dado o teor das matérias tratadas nas reuniões e dadas também das orientações recebidas superiormente (referiu o ministério da Defesa), a autorização para nos reunirmos na biblioteca do Quartel-general era revogada. Não mais nos poderíamos ali reunir. Avançou o capitão mais antigo: o já falecido e digníssimo capitão Simões Vagos para agradecer a franqueza e a lealdade do oficial general e para lhe dizer, recordo as palavras: “Meu brigadeiro, continuaremos a reunir-nos mesmo que seja debaixo de um cajueiro!”

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A dívida e La Grand Bouffe | Carlos Matos Gomes

Acumulação de capital

Dinheiro fictício e dívida real — La Grande Bouffe

A “divida” — A dívida dos Estados — ou soberana — é “La Grande Bouffe” dos banqueiros. Todas a vezes que oiço falar na “Dívida” revejo o filme do Marco Ferreri. Uma história escatológica, em que quatro homens se reúnem numa mansão aristocrática durante um fim de semana com o único objectivo de cometerem os maiores excessos gastronómicos e sexuais. A Dívida é a grande farra dos sistema e dos seus ogres, a criatura mitológica do folclore ocidental, aparência grotesca e ameaçadora, que se alimenta de carne humana.

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Aleluia ou Hossana! | Um novo mundo — uma nova ordem financeira | Carlos Matos Gomes

Sofremos um tremor de terra que está a derrubar (ou já derrubou) o que havia sido construído com base na ideia da economia como ciência, do corte feito entre ação humana e a ética, em que tudo tem um preço, inclusive a terra e o trabalho. A pretensão de a economia ser uma ciência e, principalmente, a de se situar fora da ética, tem de ser questionada. Não estamos perante uma ventania que arrastará uns telhados que com mais ou menos esforço acabarão por ser repostos.

A pandemia vai obrigar-nos a voltar às origens, a ressuscitar o conceito que vigorou desde a Grécia Antiga até à Revolução Industrial de tratar a economia como um ramo da filosofia. Vamos ter de questionar a propriedade e o uso da propriedade, a produção e a acumulação da riqueza, a “arte da troca” e a “arte do uso”. O conceito de dinheiro, que para Aristóteles, tinha o único propósito de ser um meio de troca, o que significava para ele que era inútil. “ …não é útil como um meio para qualquer das necessidades da vida”. Um instrumento. A sua acumulação era, além de inútil, desonrosa: “a troca no comércio pela simples acumulação é justamente censurada, pois é desonrosa”. Aristóteles também desaprovava a usura e o lucro através do monopólio, instituídos como mandamentos pela civilização que se tornou dominante.

Não sou economista (apenas um pensionista com tempo e disponibilidade para ler e pensar), nem crente em ressurreições. O que morreu, está morto. Sou um tipo comum que aprendeu muito novo, antes de qualquer catequese, nos Açores, a distinguir uma tempestade de um tremor de terra.

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O “Sistema” funcionou — a vitória do Livro Razão | A crucificação foi adiada | Carlos Matos Gomes

Foi por um triz.

A origem da expressão “por um triz” tem uma versão histórica pouco animadora. “Depois de bajular o poder e a vida luxuosa do tirano Dionísio de Siracusa, o cortesão Dâmocles recebeu de Dionísio a proposta de trocarem de posições. O poder e a vida luxuosa passaram para Dâmocles, mas com o detalhe perturbador de à mesa dos banquetes estar sempre pendurada uma espada estava sobre cabeça de Dâmocles , presa apenas por um fio de crina de cavalo”, um thríks, fio de cabelo em grego.

O fio de cabelo aguentou ainda desta vez, e até ver, a espada sobre a cabeça da UE. Mário Centeno, felizmente, tem uma farta cabeleira e bom cabelo (e boa cabeça para produzir a queratina essencial aos fios pilosos) e ajudou a segurar a espada a baloiçar, mas a UE está quase careca e, em minha opinião, não só vai ficar careca e viver sem cabelo, como sofrerá uma mudança radical de configuração para os seus cidadãos sobreviverem enquanto portadores de uma civilização que já foi decisiva e, se não inspiradora, no mínimo vencedora. O que é sempre melhor do que ser servidora.

Não é ainda o tempo de analisar os resultados da reunião do Eurogrupo de 9 de Abril, mas o comunicado transmite o que julgo serem duas mensagens, uma boa e outra má. A boa, quanto a mim, a União Europeia mantém-se enquanto entidade política, o que é bom, porque se não se mantivesse a consequência seria a de hoje estarmos confinados e numa situação de salve-se quem puder, em debandada. A má: continuamos na mão de contabilistas (eles preferem o titulo de financeiros e economistas) que gerem o mesmo Livro Razão de registo de transações e contas de apurar saldos e os seus resultados.

No final da crise, como reza o comunicado, serão efetuados os balancetes da “empresa”: “Se estamos diante de uma crise temporária, simétrica e totalmente exógena como crise, não há razão para duvidarmos de que o passado anterior que todos nós estávamos seguindo seja retomado novamente e que os países o sigam”. Mantém-se o sistema contábil, garantem de Bruxelas, apesar de por videoconferência.

O título do comunicado bem poderia ser, adequando-o aos tempos: Devido à crise e à data litúrgica comum a católicos e protestantes, a crucificação do sistema foi adiada.

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PORTUGAL | Nicolau Santos | in Revista up da TAP

“Eu conheço um país que em 30 anos passou de uma das piores taxas de mortalidade infantil (80 por mil) para a quarta mais baixa taxa a nível mundial (3 por mil).
Que em oito anos construiu o segundo mais importante registo europeu de dadores de medula óssea, indispensável no combate às doenças leucémicas. Que é líder mundial no transplante de fígado e está em segundo lugar no transplante de rins.

Que é líder mundial na aplicação de implantes imediatos e próteses dentárias fixas para desdentados totais.
Eu conheço um país que tem uma empresa que desenvolveu um software para eliminação do papel enquanto suporte do registo clínico nos hospitais (Alert), outra que é uma das maiores empresas ibéricas na informatização de farmácias (Glint) e outra que inventou o primeiro antiepilético de raiz portuguesa (Bial).
Eu conheço um país que é líder mundial no sector da energia renovável e o quarto maior produtor de energia eólica do mundo, que também está a constuir o maior plano de barragens (dez) a nível europeu (EDP).

Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o primeiro sistema mundial de pagamentos pré-pagos para telemóveis (PT), que é líder mundial em software de identificação (NDrive), que tem uma empresa que corrige e detecta as falhas do sistema informático da Nasa (Critical)e que tem a melhor incubadora de empresas do mundo (Instituto Pedro Nunes da Universidade de Coimbra)
Eu conheço um país que calça cem milhões de pessoas em todo o mundo e que produz o segundo calçado mais caro a nível planetário, logo a seguir ao italiano. E que fabrica lençóis inovadores, com diferentes odores e propriedades anti-germes, onde dormem, por exemplo, 30 milhões de americanos.

Eu conheço um país que é o «state of art» nos moldes de plástico e líder mundial de tecnologia de transformadores de energia (Efacec) e que revolucionou o conceito do papel higiénico(Renova).
Eu conheço um país que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial e que desenvolveu um sistema inovador de pagar nas portagens das auto-estradas (Via Verde).
Eu conheço um país que revolucionou o sector da distribuição, que ganha prémios pela construção de centros comerciais noutros países (Sonae Sierra) e que lidera destacadíssimo o sector do «hard-discount» na Polónia (Jerónimo Martins).

Eu conheço um país que fabrica os fatos de banho que pulverizaram recordes nos Jogos Olímpicos de Pequim, que vestiu dez das selecções hípicas que estiveram nesses Jogos, que é o maior produtor mundial de caiaques para desporto, que tem uma das melhores seleções de futebol do mundo, o melhor treinador do planeta (José Mourinho) e um dos melhores jogadores (Cristiano Ronaldo).

Eu conheço um país que tem um Prémio Nobel da Literatura (José Saramago), uma das mais notáveis intérpretes de Mozart (Maria João Pires) e vários pintores e escultores reconhecidos internacionalmente (Paula Rego, Júlio Pomar, Maria Helena Vieira da Silva, João Cutileiro).

O leitor, possivelmente, não reconhece neste país aquele em que vive. Este país é Portugal. Tem tudo o que está escrito acima, mais um sol maravilhoso, uma luz deslumbrante, praias fabulosas, ótima gastronomia. Bem-vindo a este país que não conhece: PORTUGAL.”

Nicolau Santos,” in Revista up da TAP”

Retirado do Facebook | Mural de José Parreira Rodrigues

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Foi Nietzsche quem celebrizou a expressão “Deus está morto!” | Frederico Duarte Carvalho in Facebook

Querido Tiago,

Foi Nietzsche quem celebrizou a expressão “Deus está morto!”. E sabe-se que, quando o filósofo morreu, escreveram nas paredes da cidade “Nietzsche está morto! Assinado: Deus”. Agora, digo-te: Nietzsche e Deus estão mortos, mas nós ainda não. A diferença é que podemos ler Nietzsche, mas ele nunca nos leu nem o vai fazer. Estamos condenados a repetir gestos e palavras, condenados a sofrer porque ousámos cometer o mesmo erro dos homens livres: amar a vida. E não preciso da autorização de Deus para amar o quer que seja, para ser pleno, para ousar e errar. Tenho demasiada experiência para ter agora de andar a pedir licença para escrever o que me apetece, quando apetece. Tenho pouco tempo a perder porque sei que ainda tenho muito para conhecer, viajar e aprender. É precisamente isso que me dita a experiência.

Ao meu filho, já o proibi de crescer, mas ele insiste e diz que não pode fazer nada para evitar. Que é a ordem natural das coisas, responde com um sorriso. Em 2006 publiquei o livro “Abril Sangrento” (Edições Polvo, 2006), uma distopia sobre como seria Portugal caso o 25 de Abril tivesse degenerado num golpe militar sangrento, com o massacre de todos que estavam no Largo do Carmo. O personagem principal era um jornalista, Sebastião Saraiva, um jovem de 22 anos, que trabalhava desde Setembro de 1993 no jornal “Lusitânia”, dirigido por João Soares e que tinha Pedro Santana Lopes como Editor. A dada altura, diz o jornalista: “A minha pouca experiência na altura (repito, tinha 22 anos apenas) levou-me a ter, ‘arrogantemente’, mais certezas do que dúvidas”. Perguntaram-me se era mesmo aquilo que queria escrever. Se não era o contrário: um jovem deve ter mais dúvidas do que certezas, não? Expliquei que era mesmo isso: temos mais certeza quando somos jovens do que quando temos mais experiência. Porquê? Ora, porque só com a experiência é que aprendemos a não ter certeza e isso só acontece depois dos enganos que temos em juventude.

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A guerra biológica | Carlos Matos Gomes

A guerra biológica. Este artigo de José Goulão relata reuniões ocorridas em Nova Iorque e em Pequim que indiciam a origem programada da epidemia, como arma de uma guerra biológica. Todas as especulações são possíveis. Admitamos esta. Já que as superpotencias não podem utilizar as armas nucleares, por risco de destruição mútua, deitam mão à guerra biológica.
A guerra biológica está estudada e tem sido praticada, tal como química. O grande problema da guerra biológica é a facilidade com que os seus autores perdem o controlo do efeito das “armas”. Daí a prudência para não ir por lã e vir tosquiado ou sofrer o efeito do ricochete, ou de morrer com o seu veneno.

Mas a hipótese de estarmos no meio de uma guerra biológica tem, como todas as situações e neste caso, uma conclusão má e outra menos má. A má, é que, sendo a epidemia uma ação deliberada, os contendores que a desencadearam devem ter previsto contra-medidas de proteção. A guerra terá um final previsto e terminará quando os objetivos forem alcançados. Não valerá a pena tomar medidas, comprar máscaras, ventiladores, levantar hospitais de campanha… e então o Bolsonaro é o bufo, o idiota útil, que, pela despreocupação que revela, deu com a língua nos dentes e está a dizer ao mundo: o Trump e o Jinping estão tratando de negócio e a nóis só nos resta preparar caixões!

Ou então, na vertente pior, os desencadeadores da guerra biológica perderam o controlo e serão também eles arrastados pela destruição do virus. estamos então numa nave à deriva.
Sendo historicamente comprovado que todas as armas, mesmo as mais desumanas são um dia utilizadas, daí as proibições do uso da besta, na idade média, pela Igreja Católica, as da metralhadora.. e do controlo das armas nucleares, parece-me pouco provável estarmos a viver uma guerra biológica.
Mas parece-me altamente provável que os detentores dessas armas as estejam a utilizar como negaças, como instrumentos de demonstração de poder e a preparar o futuro…
Aqui fica o link do artigo de José Goulão, dentro do principio que há bruxas e bruxedos…

Carlos Matos Gomes

Retirado do facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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Os profetas dos Vírus – POR JOSÉ GOULÃO

https://www.abrilabril.pt/internacional/os-profetas-do-virus?fbclid=IwAR0ztzTt_t74Xr1YqMlpgpiSj6WfVhqlcqa7tWk_jxqfZQUHoJiymlH2NcY

𝐕𝐀𝐌𝐎𝐒 𝐅𝐀𝐋𝐀𝐑 𝐀 𝐒É𝐑𝐈𝐎 𝐃𝐄 𝐒𝐄𝐆𝐔𝐑𝐀𝐍Ç𝐀? | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

Expresso, 28.03.2020
Antes da pandemia, o mundo estava a ser reformatado por uma nova direita. Houve quem achasse que se tratava de um intermezzo e que os tiques de Trump e Bolsonaro eram uma galeria de piadas, mas descobriu-se depressa que encabeçam um mundo novo. A vaga autoritária que lideram é a principal ameaça contra a democracia, e estavam a ganhar. Convém por isso perceber o que lhes dava a vitória: era simplesmente a capacidade de corporizarem uma socie­dade do medo. A garantia de segurança foi a sua chave para o poder. A segurança, no caso de Bolsonaro, são milícias; no caso de Trump, um nacionalismo agressivo; em todos os casos usam a cruzada evangélica. Ora, o mundo descobriu agora que essas prosápias são inseguras. Sugiro então que discutamos segurança como um valor fundamental que é preciso disputar duramente nesta tragédia que estamos a viver.

A SEGURANÇA É O HOSPITAL PÚBLICO

Quando a vida é ameaçada, o mundo vira-se para os serviços públicos de saúde, descobrindo que há algo de essencial antes de tudo, a proteção da nossa gente. Ted Yoho, um ‘trumpista’ deputado pela Flórida, reconheceu que “isto pode ser considerado medicina socializada, mas, em face de um surto, de uma pandemia, quais são as tuas opções?” Macron, ex-banqueiro de gestão de fortunas e agora Presidente francês, estendeu este “socia­lismo” a uma promessa contra a globalização: “Delegar a nossa alimentação, a nossa proteção, a nossa capacidade de cuidar do nosso quadro de vida nas mãos de outros é uma loucura […] As próximas semanas e meses necessitarão de decisões de rutura nesse sentido. Irei assumi-las.” Em todo o mundo, os neoliberais fazem fila para pedir a intervenção do Estado que salve vidas.

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Os grandes homens morreram porquê? | Carlos Matos Gomes | in Medium

Por homem, neste contexto, entenda-se um ser humano, masculino ou feminino. Neste sentido tanto serve para o 3º Conde de Castelo Melhor, reorganizador das tropas portuguesas para expulsar os espanhóis após 1640, como para a rainha Filipa de Lencastre, inspiradora (no mínimo) da expansão marítima portuguesa. Parece que sim, que os “grandes homens” morreram sem descendência. Pelo menos não os encontramos nesta crise, nem na anterior, a de 2008, a do sistema financeiro, nem na guerra da Sérvia, nem na Invasão do Iraque, nem no ataque ao Afeganistão, nem na implosão da União Soviética… nem… nem…

No entanto deviam ter surgido, se fosse cumprida a definição de loucura erradamente atribuída a Einstein e a Benjamim Franklin: “ loucura é fazer a mesma coisa uma vez e outra e esperar obter resultados diferentes”. Podíamos dizer que circunstâncias idênticas produzem resultados idênticos e concluir que as grandes crises produzem grandes homens. Ora, não produziram.

A explicação da História a partir da ação e do impacto dos indivíduos determinantes por carisma, génio ou impacto político foi muito popular na Europa no final do século XIX e no início do XX. Em Portugal manteve-se dominante durante o Estado Novo, com uma historiografia assente na epopeia e na figura do “herói”, de Viriato a Salazar, passando por Vasco da Gama. Thomas Carlyle, um historiador, ensaísta e professor escocês durante a era vitoriana considerou que “A história do mundo é apenas a biografia de grandes homens”, mas teve a presciência de definir a economia como uma “ciência sombria”.

Então porque não produziram “grandes homens” as crises das últimas décadas, desde o desaparecimento dos que dividiram o mundo em Ialta, no pós-Segunda Guerra (Roosevelt, Estaline e Churchill) e dos que se reuniram em Bandung, na Indonésia, em 1955 para lançarem o conceito de Terceiro Mundo e o Movimento Descolonizador (Nheru, Sukarno, Nasser) e do emergir da China como ator mundial com Mao Tse Tung? Porque desapareceram os “grandes homens” da paisagem da história?

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Antonio Scurati | Milão.

Milão. A cidade mais privilegiada de Itália está agora na fila do pão. A partir de Milão, onde vive e está isolado, o escritor italiano Antonio Scurati escreve o que vê da janela da sua casa.

« Como posso convencer a minha mulher de que, enquanto olho pela janela, estou a trabalhar? — perguntava-se Joseph Conrad no início do século passado. Eu, em vez disso, pergunto-me: como posso explicar à minha filha que, quando olho pela janela, vejo o fim de uma era? A era em que ela nasceu, mas que não conhecerá, a era do mais longo e distraído período de paz e prosperidade desfrutado na história da Humanidade.

Vivo em Milão, até ontem a mais evoluída, rica e brilhante cidade de Itália, uma das mais desejadas do mundo. A cidade da moda, do design, da Expo. A cidade do aperitivo, que deu ao mundo o Negroni Sbagliato e a happy hour e que hoje é a capital mundial do Covid-19, a capital da região que, sozinha, soma trinta mil contágios confirmados e três mil mortos. Uma taxa de mortalidade de 10 por cento, os caixões empilhados à frente dos pavilhões dos hospitais, uma pestilência vaporosa que paira sobre as torres da sua catedral como sobre as cidades amaldiçoadas das antigas tragédias gregas. As sirenes das ambulâncias tornaram-se na banda sonora dos nossos dias; as nossas noites são atormentadas por homens adultos que choramingam no sono: “O que é, sentes-te bem?”; “Nada, não é nada, volta a dormir”. Milhares de amigos, parentes e conhecidos seus tossem até cuspir sangue, sozinhos, fora de todas as estatísticas e sem qualquer assistência, nas camas dos seus estúdios decorados por arquitetos de renome.

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Somos uma tragédia? Tem dias | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

Não sei se o pânico instalado com o coronavírus alterará a agenda do segundo congresso de um pomposo Movimento Europa e Liberdade, que se propõe nada menos do que refundar a direita na Culturgest, hoje mesmo. Seria pena, essa refundação faz tanta falta. Ao que informa o Expresso, a promoção do evento invoca as questões fundamentais da nossa existência coletiva: “Estará Portugal condenado? As novas desigualdades são superáveis? Somos uma tragédia? O Estado de Direito foi capturado pelos interesses? A ditadura do politicamente correto está a destruir-nos? Há saídas?”. O MEL não se limita a questionar, quer abrir soluções e, por isso, lança ainda a pergunta tremenda: “E quem é que protagoniza a alternativa à extrema-esquerda e ao socialismo radical?” Quem se oferece parece que tem que picar o ponto no congresso.
Candidatáveis, são bastantes. Diz-se que Portas, Júdice, Ventura, Cotrim de Figueiredo, o novel líder do CDS, Paulo Mota Pinto e Poiares Maduro abrilhantarão o evento, que os organizadores chamam de “primárias da direita”, sabe-se lá porquê. Mesmo que não conste que vão a votos, ou que apresentem currículos ou sequer propostas, os oradores passear-se-ão por estas “primárias”, que serão pelo menos um evento social, coisa grande quando se pergunta com inquietação se “somos uma tragédia”, claro que tudo por causa da “ditadura do politicamente correto”.
Candidamente, a convocatória repete os refrões brasileiros, nos termos exatos dos bolsominions, desta vez com “Portugal condenado”, a penar uma feroz “ditadura” sob um “socialismo radical”, que até foi ovacionado no dia anterior pelas associações patronais por se dispor a facilitar o lay off no contexto da epidemia. Ora, são linguagens dos dias que correm, quem ligaria a estas “primárias” se elas não prometessem sangue, Europa e liberalismo?

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A Terra é como a bolacha Maria? | Francisco Louçã

Imagine um mundo plano com apenas duas dimensões, Flatland, no qual triângulos, quadrados, pentágonos e outras figuras geométricas vivem e se movimentam. Este mundo é-nos apresentado pelo Quadrado, que um dia sonha que visita um mundo unidimensional, Lineland, que é habitado por pontos brilhantes. Estes não conseguem ver o Quadrado senão como um conjunto de pontos e linhas, e o Quadrado ressente-se desta imagem de si, porque sabe não corresponder ao que é na realidade. E é então que começam os problemas.

Afinal são três

Um dia, Flatland é visitada pela Esfera, uma habitante de Spaceland, um mundo tridimensional. A reação dos habitantes de Flatland foi semelhante à da dos de Lineland. Tal como os pontos brilhantes só conseguiam ver o Quadrado como um conjunto de pontos e linhas, também os habitantes de Flatland só conseguem ver a Esfera como um círculo. A Esfera, orgulhosa da sua tridimensionalidade, salta para cima e para baixo, de modo a que se consiga ver o círculo a expandir e a retrair e fique assim demonstrada a existência de uma terceira dimensão. Os líderes de Flatland reconhecem secretamente a existência da Esfera, mas decidem perseguir os divulgadores da notícia. O Quadrado, convertido à tridimensionalidade, tenta convencer a Esfera da hipótese da existência de uma quarta dimensão, caindo em desgraça aos seus olhos, que são incapazes de ver para além do que percecionam. O Quadrado tem, entretanto, outro sonho, no qual a Esfera o visita e lhe apresenta Pointland, um mundo adimensional composto por um único ponto. Ao contrário de Lineland, Flatland e Spaceland, onde, apesar das tensões e hierarquias, existem sociedades, em Pointland tal não é possível, porque existe apenas um habitante – o rei –, que vive preso num universo confinado a um ponto e acredita ser infinito e a única realidade existente.
Esta é, resumidamente, a deliciosa história de Flatland – O Mundo Plano, uma aventura matemática escrita por Edwin Abbott em 1884, que é um retrato mordaz da sociedade vitoriana, satirizando ditaduras e várias formas de censura, mas onde também explica conceitos físicos e matemáticos complexos.

Entra a bolacha Maria

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El orden natural de las cosas | ARTURO PÉREZ-REVERTE | in ZENDA LIBROS

En el restaurante Martinho de Arcada, mi casa de comidas habitual en Lisboa (allí donde el espía Lorenzo Falcó cena con la vedette Rita Moura tras cargarse a un agente republicano en Alfama), comento con Nuno y Paulo, camareros y amigos desde hace mucho, las cosas que pasan en Portugal, en España y en el mundo. El veterano Nuno, que es pequeño, rubio y simpático, trae un vino del Alentejo estupendo y barato, que yo no conocía, y mientras me lo hace probar cuenta que el alcalde de Oporto acaba de proponer unir a Portugal y España en un solo espacio político. ¿Te imaginas?, dice. Y le digo que sí, que lo imagino. Es la vieja idea de la Unión Ibérica de Garret, Saramago, Maragall y Unamuno, que resucita de vez en cuando, o tal vez nunca muere. Sesenta millones de personas y dos economías coordinadas. Lo que seríamos juntos. Un sueño maravilloso e imposible.

Algo más tarde, mientras paseo por la Baixa esquivando turistas anglosajones y japoneses, sigo dándole vueltas, pues me acuerdo de España y Portugal juntos como parte da orden natural das coisasque decía Teófilo Braga, o del somos hispanos, e devemos chamar hispanos a quantos habitamos a Península hispânica de Almeida Garret. Y, bueno. Es difícil no hacerlo, cuando pienso en el poco peso de Portugal y España en las decisiones que se toman en Bruselas, donde los españoles somos con harta frecuencia el hazmerreír de Europa; en el detalle de que los dos idiomas tengan una similitud léxica del 89%; en que la economía de los países que hablan español y portugués represente un 14% del PIB mundial, y en el hecho encuestado de que casi la mitad de los españoles y más de la mitad de los portugueses verían con buenos ojos una unión ibérica de tipo confederal: una asociación coordinada y fuerte, como el Benelux con que Bélgica, Holanda y Luxemburgo fundaron lo que luego sería Comunidad Económica Europea.

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A corrupção, a política e a demagogia | Carlos Esperança

Quando alguém afirma que “todos os políticos são corruptos”, interrogo-me se esse alguém é ignorante, fascista ou pretende, apenas, gritar as frustrações e dizer que, ao contrário de ‘todos os políticos’, (ele ou ela) não é ou não pode.

Cinco anos de ditadura militar e 43 de fascismo deixaram marcas indeléveis na nossa sociedade. A raiva contra os políticos é a herança transitada por má fé ou ignorância, de geração em geração, como se os políticos fossem menos honrados do que o comum dos cidadãos e as generalizações não fossem a revelação da indigência intelectual e cívica que habita um país cujas causas do atraso foram magistralmente analisadas por Antero de Quental na conferência sobre «As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares».

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EXTREMOS | Francisco Seixas da Costa in Jornal de Notícias

As expressões “extrema direita” e “extrema esquerda” têm duas similitudes. A primeira é semântica: em ambas, existe a palavra “extrema”. A segunda é que o passado em que essas correntes tiveram origem foi marcado por sinistras ditaduras – de um lado o fascismo e o nazismo, do outro os regimes comunistas, que resultaram num desastre totalitário. As similitudes acabam aí, pelo que é hoje profundamente desonesto procurar equiparar os dois conceitos.

A extrema direita é xenófoba, racista, discriminatória e promotora de políticas de ódio, obsessivamente securitária, cavalgando um sinistro nacionalismo.

A extrema esquerda, chamemos-lhe assim por facilidade, pelo contrário, defende políticas de igualdade e integração social, é anti-racista e anti-xenófoba e tem uma agenda política basicamente humanista – embora eu discorde do seu anti-europeísmo, do radicalismo simplista de muitas das suas receitas e ache irrealistas grande parte das suas propostas, por muito generosas que possam parecer.

Mas eu não esqueço nunca quem esteve do lado certo na 2ª Guerra Mundial, tendo tido um papel fundamental para a derrota do mais odiento projeto político que se conhece – o nazi-fascismo. E também me lembro bem de que, por cá, quando se tratou de ajudar a derrubar o projeto de fascismo saloio, mas criminoso, de Salazar, bem como lutar contra o colonialismo, essa esquerda foi essencial e, por virtude da sua luta corajosa, pagou um elevado preço, sofrendo o que nenhuma outra força de esquerda então sofreu.

Se é verdade que, nos anos de 1974/75 – vai para meio século! -, parte dessa esquerda foi tentada a uma deriva de populismo autoritário, é também uma evidência que a democraticidade da sua postura no sistema político tem sido, desde então, inquestionável. A sua participação na “geringonça” foi o reconhecimento natural desse seu pleno estatuto democrático.

Por isso, não votando eu nos partidos de Jerónimo de Sousa ou de Catarina Martins, de que muitas coisas me separam, deixo expresso que tenho consideração política (e, por sinal, também pessoal) por essas figuras e pelas formações que dirigem. E, como é óbvio, não tenho a menor consideração por quem titula políticas de extrema-direita, bem como por quem tende a desculpabilizá-las e por quem vier a prestar-se a estender-lhes a mão.

Há muito que me apetecia deixar isto bem claro. Seria porventura mais cómodo não o fazer, mas começo a estar cansado da fraude que é a recorrente tentativa de equiparar duas realidades que não se podem comparar.

Francisco Seixas da Costa

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa 

NOTA PESSOAL : subscrevo na totalidade esta reflexão do Sr. Embaixador – como melhor não sei expor e escrever, aqui deixo o testemunho de quanto me fatiga e desgosta ver testemunhos de pessoas que apoiam a extrema direita e todo e qualquer nazi/fascismo. De facto, e subscrevendo também as considerações expostas pelo Sr. Embaixador, é uma fraude equiparar duas realidades que não se podem comparar.

Passeport pour «l´aventure révolutionnaire comme castration» | Fernando Couto e Santos | Chronique de janvier 2020

«C´était au temps où, chassé de ce Parti auquel j´avais donné ma vie, je me trouvais désert et comme déraciné…». Cette phrase, que l´on peut lire dans le roman- ou recueil de nouvelles ?-Faux passeports, traduit ce que fut le désarroi, l´angoisse et le désespoir des déçus du communisme. Il n´est jamais d´ailleurs inutile de rappeler qu´en français on a le même mot pour le participe passé du verbe «partir» et pour le nom exprimant l´association de personnes possédant des idées politiques communes. Or, le verbe partir a toujours fait bon ménage avec le parti communiste, en France, en Belgique, ou ailleurs.

Le roman Faux passeports –dont la collection Espace Nord (Impressions Nouvelles, Fédération Wallonie-Bruxelles) vient de faire paraître une nouvelle édition- a remporté le prix Goncourt en 1937, au moment où en Union Soviétique les procès de Moscou battaient leur plein. Il était signé Charles Plisnier, un Belge, le premier écrivain ne possédant pas la nationalité française à obtenir le prix le plus prestigieux des lettres françaises.

Continue ici:  https://laplumedissidente.blogspot.com/2019/12/chronique-de-janvier-2020.html?fbclid=IwAR3Qd2yi77BkK4rUOMXITQm6iBEHqA4AJDduT58RDtkHeztejlgCE8zDkSc 

Uma sociedade moralista sem piedade | Henrique Monteiro | jornal Expresso Diário 13/11/2019

Henrique Monteiro

O caso da jovem de 22 anos que terá abandonado o filho recém-nascido num caixote de lixo é um horror? Claro que sim! Que se pode fazer? A nossa sociedade moralista e inquisitorial – em tudo o que não diga respeito às tradições e chamadas causas fraturantes – tem uma resposta: prender a mãe!

Sinceramente, não esperava que se chegasse a tamanha desumanidade. Recapitulemos: alguém com 17 anos, natural de Cabo Verde, tenta fugir da miséria vindo para Portugal (também li o seu nome, mas não o publico; haja recato). Cinco anos depois está a viver em condições desumanas numa tenda, ao pé de restaurantes, discotecas de luxo e cais de embarque de cruzeiros. Nestes cinco anos que esteve em Portugal quem lhe estendeu a mão? Quem se preocupou? Era uma miúda e nada lhe correu bem, o que se passou?

Quase ninguém se interroga e, quando chega o minuto de as autoridades se pronunciarem – depois de um outro sem abrigo ter alertado para o facto de estar um bebé num contentor –, é para lhe apontar o destino: a cadeia. A acusação é fácil: qualquer coisa como tentativa de homicídio qualificado na forma tentada. A prisão é preventiva, não houve julgamento. Mas as condições da prisão preventiva são mais do que duvidosas: não se prevê a continuação da atividade criminosa, nem prejuízo para o processo nem alarme social. Mesmo os mais alarves dos nossos concidadãos (e concidadãs), que também os há, além de felizmente não saberem exatamente quem é a rapariga de 22 anos, não me parece que a quisessem perseguir ou matar.

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O AR DO TEMPO | Francisco Seixas da Costa | 10 Junho 2019

Há um país que se sente mal neste país. Há um país que acha que o país o não segue ou, quando acaso episodicamente o faz, não consegue pôr o país a seu jeito. Há um país com uma infindável raiva, que acha que o país o não compreende, que vive num mal-estar endémico, em “blues” eternos. Há um país que acha que tem uma ideia salvífica para o país, a mezinha mágica para pôr isto direito, mas que o país, pateta, não consegue nunca entender. Há um país sobranceiro, arrogante, feito de gente que, afinal, apenas gostava que o país fosse aquilo que eles acham que o país devia ser. E que, talvez não por acaso, não é.

Esse país, que agora por aí anda com a bílis à solta, não gosta do país que tem, não gosta afinal do país que lhe deu a liberdade de não gostar do país. É o país tremendista do “nós” e do “eles”, em que estes últimos são o sujeito de todos os males, que só não são curados porque a “nós” não é dada a possibilidade de os corrigir. Esse país que agora anda muito vocal, mas que nunca fez nada pelo país, é filho incógnito daqueles a quem, em todas as épocas da nossa História, sempre desagradou o país que tinham. Para esses melancólicos iluminados pelas luzes da outra verdade, isto sempre foi uma “choldra”, uma “seca” feita país, a que urge abrir as portas e as janelas, deixando entrar o ar do tempo. O deles.

No passado, esse país indisposto com o país, era então o estrangeirado. Lá fora estavam todas as soluções, só era necessário importá-las para que a modernidade das ideias, afinal tão óbvia, pudesse aqui frutificar e dar-lhes, finalmente, a glória dos profetas. Com Abril, desembarcaram em Santa Apolónia, com livros e ambições de reconhecimento. O país, que tem da generosidade o sentido da medida, deu-lhes o que era devido. Não mais.

Mas a semente, qual OGM, mudou de qualidade, transmutou-se. O país do despeito mudou entretanto de geração, ilustrou-se nas Américas, leu Popper e, enterrando o latino, anglo-saxonizou o seu projeto. Andou os últimos anos a fazer livrinhos, acolhido em universidades da receita segura, colunizando-se pelas plataformas da moda. Nos partidos, onde se muda a política com a legitimidade do voto, entram e saem, nervosos, à medida das ambições, falhos de votos e reconhecimento. Cavalgando as inseguranças de muitos, as dúvidas de uns tantos, os temores de alguns, ei-los agora a adubar de populismo os seus dias, os seus discursos, tentando que os dias do país se confundam com os da sua raça.

Quem os topava bem era o O’Neill, que os citava, definitivos e, no entanto, tão tristemente provisórios: “Não, não é para mim este país!”. E era um poeta, imaginem!, de Portalegre, Régio de seu nome mas republicano de gema, quem lhes respondia, quem lhes responde, em nome do país: “Não vou por aí!”

Francisco Seixas da Costa

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa

Notre-Dame | Francisco Louçã

Notre-Dame é nossa como o são os Budas de Bamyan, e por isso queremos preservar todos esses sinais do tempo. Notre-Dame não é bela por ser prova de alguma superioridade europeia, é-o por ser uma glória do engenho e da cultura mundiais.

Provocado por desleixo ou acidente, o incêndio que destruiu pelo menos o pináculo e o teto da catedral de Notre-Dame é um choque civilizacional que emociona e magoa quem reconheça a cultura como ela é, uma expressão da História. História e cultura são isso mesmo, a diversidade dos olhares: alguns verão a catedral como um lugar de religião, outros recordarão Lutécia, alguns descobrirão a ousadia arquitetónica do gótico nascente, outros ainda a entrada para o Quartier Latin do outro lado da ponte, alguns lembrarão Joana d’Arc ou Napoleão Bonaparte, outros ainda evocarão Victor Hugo ou até a versão Disney da paixão de Quasimodo e de Esmeralda. Mas todos reconhecerão a solenidade do tempo, os vitrais e as torres desta nossa Notre-Dame.

Notava de manhã Sena Santos, na Antena Um, que outras catedrais foram feridas pelo desastre: a de Reims, glória gótica, bombardeada pelo exército alemão em 1917, a de Coventry, bombardeada em 1940 pela aviação hitleriana, a de Dresden, arrasada pelos Aliados em 1945, todas durante as tormentas das guerras europeias. Esta, a maior, terá ardido pela incúria. Mas a perda é a mesma, o fogo roubou-nos uma parte da memória da humanidade.

Não é de hoje mas continua hoje, a tragédia persegue a nossa História. Como os generais que nas guerras europeias escolheram aqueles alvos ou aceitaram que as bombas os atingissem, os talibãs dinamitaram no Afeganistão os Budas de Bamyan e o ISIS demoliu parte das ruínas de Palmira, na Síria. Em todos os casos, foram heranças comuns da humanidade que foram destroçadas. Estes não eram patrimónios caucasianos ou árabes, africanos ou asiáticos, eram e são de toda a humanidade. Por isso, perante a desgraça, evocar particularismos proprietários seria uma forma de racismo que nega a raiz universalista de toda a cultura.

Notre-Dame é nossa como o são os Budas de Bamyan, e por isso queremos preservar todos esses sinais do tempo. Notre-Dame não é bela por ser prova de alguma superioridade europeia, é-o por ser uma glória do engenho e da cultura mundiais. Reconhecê-lo é o imenso ponto de convergência de quem se comove com estas perdas e quer defender e reconstruir o que é de toda a gente.

Pode-se por isso ceder à tentação de fazer desta tragédia um jogo (um candidato às eleições europeias não resistiu a exibir a sua mesquinhez alegando que a tristeza perante o incêndio comprova o seu discurso), ou pode-se tratar a perda como ela é: um desafio aos de hoje sobre como vivemos, respeitamos e preservamos o nosso passado comum. Um desafio a toda a gente, porque é de toda a gente.

Artigo publicado em expresso.pt a 16 de abril de 2019

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.

(…) do sucesso das redes sociais (…) | Inês Salvador

Creio que um fator crítico do sucesso das redes sociais é alimentar como nunca o ego dos que nelas participam. Quais amizades, quais colegas de escola, quais reencontros e futuros encontros, as redes sociais são, essencialmente, uma desvairada feira de egos. De pequenos egos a rebentar pelas costuras alinhavadas ao correr dos dias, de indignação em indignação, de heroísmo em heroísmo, rebenta-se um ponto, alinhava-se outro. Demagogos e pequenos pides, caçam likes como os políticos caçam votos, censuram a oposição, abatem-na por bloqueio. Nunca se lhes insinue uma ideia diversa, nunca se divirja do bem que os enaltece. Populistas atrasados da atrasada sociedade digital, publicam por “likes”, e, finalmente, pelo advento do “free wi-fi”, são populares. Geniais, eruditos, melómanos, cinéfilos, justiceiros para tudo o que de errado se passa no mundo, violentamente contra a violência, insultuosos contra o insulto, estúpidos contra a estupidez, têm a sua matilha e o seu rebanho. Os que enchem de likes o insulto contra o insulto e os que rejubilam em êxtase de aleluia a cada nova publicação. E belos, giros, com uma vida interessantíssima, super-heróis na projeção digital com sonhos de ramificação à vida real. Da compensação primitiva do sonho, à esperança da materialização do que projetam ser. Mais acessível do que a hipocrisia, só ter uma página numa rede social.
Sim, e depois há as excepções.

Inês Salvador

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Livros pouco livres | António Guerreiro in Jornal Público

Há dias, entrei numa livraria para comprar um romance que tenho muita vontade de ler, A Capital (Dom Quixote), do escritor austríaco Robert Menasse. Recuei quando vi a capa do livro, achei que não iria conviver facilmente com ela, durante o tempo de leitura, e muito menos guardaria um livro que assim se apresenta. Menasse não merece este gesto de rejeição, mas o seu livro também não merece ser assim editado. Em casa, fui à Internet ver como eram as capas do mesmo livro, na edição alemã, inglesa, francesa, italiana e espanhola. Não gostei de todas, mas conviveria com todas pacificamente. Sobretudo, nenhuma delas sofria desse realismo ilustrativo tão em voga desde há bastante tempo na edição em Portugal, que faz um uso imoderado da fotografia.

Robert Menasse é um dos grandes autores austríacos contemporâneos, dispensa certamente que os seus livros sejam embrulhados desta maneira e que sobre a imagem da capa (não numa badana, não numa cinta, não na contracapa) venha aterrar, vinda do Financial Times, uma daquelas frases bem recheadas de adjectivos e advérbios que parecem engendradas por maus publicitários: “Uma sátira deliciosamente cruel — e oportuna — sobre a União Europeia e o significado da Europa nos dias de hoje”. No Financial Times podem ter gostado muito de Capital,  mas tenho a certeza que não é desses lados que Menasse busca aplausos e legitimações. Fácil é perceber que o editor português aplicou a este livro, e a quase todos os que saem das suas oficinas, a bitola gráfica e propagandística que julga adequada a leitores incautos e com pouca autonomia, que é preciso atrair com imagens, cores, sinais e frases de alto ruído, grande visibilidade e fraca elaboração. Seja dito, em boa verdade, que não é um caso excepcional, é até a regra editorial em que vivemos, e é por isso que o tomo aqui como um exemplo banal, já quase naturalizado. Se quisermos procurar as excepções, temos que frequentar algumas franjas do mercado editorial. Por isso é que é um pesadelo entrar hoje nas livrarias portuguesas, sobretudo nas que pertencem às grandes cadeias: é um mundo saturado de cores e volumes de grande porte, prontos para uma guerra comercial completamente insensata (não há livros maiores do que os portugueses: de um romance de 150 páginas, conseguem as editoras fazer um calhamaço com a lombada do Guerra e Paz), com uma paginação e uma mancha que em tempos só eram usadas em livros infantis. Instaurou-se a infantilização dos leitores, a ideia de que quem entra numa livraria precisa, logo à entrada, de tutela e só quando chega às secções do fundo é que começa a ter direito à ousadia de pensar e ganhar autonomia.

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Vinte anos de Bloco | Francisco Louçã

Porque o Bloco passou a representar politicamente a força de um ativismo social com memória e foi sempre fiel a essa raiz.
Porque encerrou uma pré-história em que grupos testemoniais se identificavam mais pelas ideias generosas do que pela capacidade de as disputar na sociedade.
Porque restabeleceu a política de esquerda como ela é: um programa que faz, que conhece a relação de forças, que aprende na ação social com os de baixo.
Porque detesta a vaidade de quem cria um grupo ou partido se tem ou uma diferença de opinião ou a pretensão de representar a verdade de uma versão literária da história.
Porque o caminho da convergência é o da aprendizagem e o da divergência é o da fraqueza.
Porque aprendeu com uma urgência, a do referendo perdido em 1998.
Porque a luta alterglobalização batia à porta e, logo depois, a independência de Timor Leste e a oposição à guerra da Jugoslávia e à ocupação do Iraque confirmaram tanto a ofensiva do império quanto a necessidade de lhe opor um internacionalismo militante.
Porque juntar capacidades, trajetos e vontades num grande partido é a forma da política de massas.
Porque correr por fora e por dentro exige saber para onde se vai.
Porque um partido é necessário e útil quando, podendo, consegue aumentar o salário mínimo e as pensões ou parar as privatizações.
Porque o Bloco, ao fazer o seu caminho, se torna mais combativo à medida que é capaz de formular alternativas e de as apresentar como fatores decisivos no debate nacional.
Porque o Bloco foi o primeiro e, até hoje, o mais consistente dos novos partidos à esquerda que, na Europa, mas também noutros continentes, o foram replicando ou seguindo caminhos paralelos.
Porque a luta das mulheres e homens que trabalham ou estão reformados fica mais forte com uma esquerda de confiança.
Porque os jovens precários precisavam de uma força política para os seus movimentos.
Porque as lutas feministas, anti-racistas, LGBT+, ou de quem estuda precisam de uma voz política que muda a agenda nacional.
Porque ganhamos muitas vezes e perdemos outras.
Porque a política militante de esquerda é continuidade e é persistência.
Porque nos lembramos do Miguel, do João, da Helena e de tantas e tantos outros e outras.
Porque na esquerda não desistimos de nada.

Francisco Louçã

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã 

Pensamento do dia : Saúdo as diligências do Papa Francisco | Paulo Fonseca

Saúdo as diligências do Papa Francisco, mais uma vez a colocar o dedo na ferida, com coragem, assumindo um feroz combate ao maior nojo de que padece a raça humana, do qual não se exclui a Igreja.
Violações sexuais e, por maioria de razão pedofilia, são crimes hediondos que precisamos combater com determinação, por imperativo de consciência e por dever de cidadania.
A Igreja não escapa a este nojo civilizacional e precisa reformar-se, na penalização adequada, que castigue culpados e iniba tentações que, com propriedade, emanam do diabo.

Importa ainda referir algumas notas ….

1. Esta imposição do celibato na igreja é hoje um absurdo. Na verdade a Igreja tem um papel fundamental na sociedade e os seus membros são homens e mulheres como os outros. Impor-lhes o celibato como se fossem extraterrestres é desafiar o diabo a corromper o domínio de Deus…. Qual é o problema se um dia destes os padres, por exemplo, puderem casar e ter filhos e, nesse formato humano, continuarem a proclamar o bem em nome da religião que professam ? Na minha opinião, essa liberdade melhoraria, em muito, o papel dos membros da igreja e o resultado espiritual do seu trabalho. Por exemplo, não tenho dúvidas que aumentariam quer o número de membros do clero, quer a adesão de fiéis na comunhão dessa normalidade.
A Igreja impõe o celibato desde 1059 por razões que se prendiam com a defesa do património da instituição. Todavia, nada justifica hoje a manutenção dessa imposição que deverá passar a ser facultativa…. com urgência.

2. Se a Igreja impõe o celibato, deduzo eu que tal deveria aplicar-se a opções homossexuais e a opções heterossexuais. Não consigo compreender como se disserta, quase em êxtase, sobre as estatísticas da opção homossexual no seio da Igreja, como se esta fosse a opção proibida…. Mas o celibato não se refere ao desejo, à variedade de opções de cada um ? Então porque não se fala e escreve acerca da opção heterossexual de cada um ?
Ainda recentemente foi editado um livro que conclui por uma determinada percentagem, elevada, de homossexuais na Igreja Católica…deduzindo assim que os restantes seriam heterossexuais e portanto cumpririam os preceitos da instituição.
Na verdade, os homens e mulheres, pela simples razão de o serem, têm sentimentos, desejos, emoções, amores…e nada prejudica mais uma instituição do que castrar essa dimensão Humana, afinal de contas, a principal riqueza da mesma instituição. Se piorarmos a situação, classificando as pessoas com rótulos inaceitáveis à luz do século em que vivemos, só podemos concluir que estamos no mau caminho….

3. A Igreja, tal como acima refiro, tem um papel fundamental na sociedade. É precisa, útil e incontornável. Mesmo aqueles que assumem uma rebeldia exibicionista, se tiverem a grandeza de reflectir um pouco, irão perceber que este lubrificante dos humanos é a razão que permite o funcionamento do motor da humanidade. Não sejamos hipócritas. Respeitemos e sejamos contributivos no sentido de encontrar o melhor desempenho para a humanidade….seja nos momentos de fé, nos momentos de dúvida ou nos momentos de descrença … Porque apreender o Humanismo, e difundi-lo, vai muito para além de convicções domésticas ou de dogmas sem sentido.

4. Uma homenagem final ao Papa Francisco, esse revolucionário que tanto tem cultivado os princípios da grandeza Humana.

Paulo Fonseca

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Fonseca

Não só é uma batalha da ADSE | Francisco Louçã

Não há só uma luta pelos pagamentos da ADSE. Há antes uma luta por todo o SNS e pelo preço da saúde. Pois é, o que tivemos até há poucas semanas foi um mero entretenimento. Mas, de repente, tudo se precipita ao mesmo tempo. Temos uma persistente greve que se mede pelo número de cirurgias que consegue adiar nos grandes hospitais públicos e não se consegue saber quem paga a greve. Temos um governo nervoso que, tendo adiado por calendário político a solução que as enfermeiras exigiam, cede tarde e depois se precipita recorrendo a uma medida tão excepcional como a requisição civil. Temos uma discussão sobre a Lei de Bases de Saúde em que se movem as pressões que, do Presidente aos partidos de direita, visam assegurar que o privado mantém o seu quinhão nos pagamentos públicos, tudo dito muito ideológico, como é bom de ver. E, agora, temos os privados a ameaçar suspender os contratos com a ADSE se esta persistir em fazer pagar os 39 milhões cobrados em custos excessivos há um par de anos.
A questão resume-se a isto: há custos imputados à ADSE que variam de um para quatro no mesmo tratamento, num lado é cinco mil euros e noutro vinte mil. Os hospitais privados querem manter o seu poder de determinar o preço, a ADSE quer uma tabela restritiva e que, ainda assim, deixa uma margem que em alguns casos vai a 40% acima do preço de mercado. É milhão a milhão que se decide esta estranha negociação que ameaça os utentes do seguro público.
Em todo o caso, a jogada dos hospitais privados é arriscada. Fingem comprometer mais de 20% da sua faturação (e, com os pagamentos pelo SNS, o Estado paga a todos os privados mais de 50% da faturação), nos cinco maiores grupos hospitalares privados são 250 milhões, mas apostam em que os utentes da ADSE preferem evitar o SNS, ou que este está pelas costuras e não consegue responder a tal aumento súbito da procura. Ora, o SNS faz 42 milhões de consultas e a ADSE soma 2,8 milhões de consultas no privado; poder-se-ia portanto calcular que mais facilmente os hospitais e centros de saúde públicos, eventualmente com alguns privados que mantêm as convenções, aguentam mais utentes, do que os hospitais privados suportam a perda de receita. E, de facto, para tudo o que é mais complicado, é sempre ao SNS que o cidadão recorre e não aos hospitais privados.
Apesar disso, os grupos privados esperam que alguns utentes troquem o seguro ADSE, que é caro, por seguros privados que tenderão a ficar ainda mais caros. Provavelmente, haverá quem o faça, mesmo que ainda esteja indefinido o curso imediato deste jogo do empurra. A situação é muito apetitosa para as seguradoras de saúde, que já abrangerão um terço da população, em grande parte devido à promoção pelas empresas entre os seus trabalhadores.
Só que é tudo uma camuflagem. Uma parte dos médicos nos hospitais privados não tem convenção com a ADSE, cujos utentes são por vezes submetidos a tratos de poleiro. E a cobertura dos produtos oferecidos para substituir o seguro público esgota-se num ápice se a patologia for complicada, vai o doente recambiado para o hospital público. Parece portanto que os grupos privados só pretendem com esta manobra que não haja limite aos pagamentos pela ADSE e que as tabelas continuem a ser generosas, não tanto de romper relações – o privado não vive sem o dinheiro público.
Há depois o problema de fundo. A ADSE, criada 16 anos antes de existir o SNS, é paga pela maioria dos funcionários públicos e acrescenta aos impostos, com a contrapartida de um acesso facilitado a análises, consultas e tratamentos. Tem lucro e é portanto sustentável. Mas a convergência entre os sistemas públicos será sempre necessária num serviço nacional mais abrangente. Esse é o maior medo dos privados.

Francisco Louçã | (no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

TO FUCK, OR NOT TO FUCK: THAT’S THE QUESTION ! | Eugénio Lisboa

“O ratio literacia/iliteracia é constante, mas, 
nos nossos dias, os iletrados sabem ler e escrever”. 
(Alberto Moravia)

Peço, desde já, que me perdoem o tom desenfastiado desta prosa, a começar pelo título: paráfrase libertina de um solilóquio célebre. Vou usar, como verão, vocábulos desataviados ou mesmo crus: o culpado disto tudo é o escritor António Lobo Antunes que, numa entrevista recente – das muitas que ele não gosta de dar mas vai dando – sugeriu o mote, ao afirmar o seguinte, referindo-se a Fernando Pessoa: “Eu me pergunto se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.”

Não é a primeira vez que o autor de Memória de Elefante nos serve este mimo. Provavelmente, ao tê-la, gostou tanto da ideia, que não se cansa de no-la servir, faça chuva ou faça sol. Reajo a ela, não tanto pela crueza vicentina do tom (e do glossário), como pelo facto de me não parecer cientificamente sustentável.

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Amor sexual e bem-aventurança | Frederico Lourenço

As pessoas que se interessam por temas cristãos e sabem um bocadinho de grego conhecem a palavra que está em causa quando, nos Evangelhos, Jesus fala de amor: «agápē» (ἀγάπη). Trata-se de uma palavra que podemos distinguir de outras duas palavras gregas que significam «amor»: philía (φιλία) e érōs (ἔρως). A ideia de uma expressão sexual do amor pode estar implícita em «philía» e é explícita em «érōs», mas à partida «agápē», o amor de que fala Jesus, é aquilo que um padre com quem conversei há muitos anos chamou o «amor desinteressado».

Eu falava-lhe na minha homossexualidade e nas questões daí decorrentes para o católico que eu tentava ser; e a solução que ele me deu foi que não havia mal no facto de eu ter um namorado, desde que fosse um «amor desinteressado». Ele não o disse explicitamente, mas percebi que a ideia dele era que estaria tudo bem se vivêssemos «como irmãos».

Esta exigência de que eu deveria viver como irmão do homem que eu amava e com quem eu partilhava a minha vida foi recomendada no século XX porque se tratava de um casal constituído por dois homens. Se fôssemos um casal constituído por pessoas de sexos diferentes e casados pela igreja teríamos podido dar expressão sexual ao nosso amor.

No entanto, nos primeiros séculos do cristianismo, mesmo casais heterossexuais eram desafiados a viver como irmãos num casamento isento de sexo. A «moda» veio logo com São Paulo (1 Coríntios 7), mas a literatura cristã apócrifa dos séculos II-III está a abarrotar de histórias e de exemplos que dão como ideal da vida de casados a virgindade permanente de ambos os esposos.

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As estratégias Martin Luther King e Louis Farrakhan

A emergência de um movimento negro faz de Portugal um país melhor. Se as leis forem respeitadoras da universalidade dos direitos, se não houver abuso na base da cor da pele, se o espaço público viver a pluralidade cultural, as políticas integradoras da vida social serão mais potentes. Há portanto uma obrigação para o Estado, para quem legisla, para as câmaras municipais, para as autoridades. Mas há também uma obrigação para esse movimento negro. É que tem que decidir para onde vai, escolhendo entre pelo menos dois caminhos.
O primeiro caminho é o mais difícil. É o da aliança dos movimentos para uma política maioritária, exigindo o reconhecimento para conseguir a redistribuição social. O reconhecimento identifica mas separa: o movimento feminista parte da vivência de uma opressão, o movimento negro de uma discriminação, e elas distinguem. Reconhecer a imposição dessa distinção é a condição primeira para a enfrentar. Mas é por isso que o reconhecimento exige redistribuição, o processo que une as classes populares, em vez de as separar. Esta estratégia foi a seguida por Martin Luther King na Marcha sobre Washington em 1963: pelos direitos cívicos dos negros e ainda pelo aumento do salário mínimo e pelo emprego para toda a gente. Reconhecimento e redistribuição. Era essa a estratégia dos fundadores do movimento negro, como Du Bois, e por isso se tornou socialista. Foi o caminho que percorreu Malcolm X. É a voz de Angela Davis, nos nossos dias.
O segundo caminho é o de Louis Farrakhan: criou um movimento sob a forma de gueto, a Nação do Islão, e responde ao ódio com o discurso do ódio. É uma posição confortável, não pretende conseguir nada, só formar uma igreja. Isso levou-o muito longe, ao convívio com a extrema-direita. Alguns dos seus apoiantes assassinaram Malcolm X pelo pecado capital de ter abandonado a ideia de gueto e por se ter tornado socialista, ou seja, por ter defendido a política mais inclusiva, a da união de classe na resposta ao capitalismo e ao racismo.
No movimento negro norte-americano, em cada frase, em cada ação, os movimentos estão a escolher entre King e Farrakhan. Ainda bem que se aprende com ele.

Francisco Louçã

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Rui Vieira Nery | Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades

Estive, por curiosidade, a consultar a lista dos comissários das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades desde que elas recomeçaram sob esta designação, em 1977, na Guarda. Aqui vão alguns dos nomes: António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, António Barreto, Elvira Fortunato, João Caraça, Manuel Sobrinho Simões, Onésimo Teotónio de Almeida… E em 1977, na primeira comemoração, cujo comissário era o Major Vítor Alves, o orador convidado foi Jorge de Sena…

Para 2019 – soubemo-lo hoje – o comissário será João Miguel Tavares…

O que me perturba nesta escolha não é, obviamente, o princípio genérico do rejuvenescimento do perfil do orador. Podemos discuti-lo, alegando que, bem vistas as coisas, a efectiva juventude das ideias de cada um não se mede pela idade do portador mas pelo seu carácter inovador intrínseco. E a esse nível Onésimo Teotónio de Almeida, que segundo as minhas contas fará este ano 73 anos, é certamente uma cabeça dez vezes mais informada do pensamento contemporâneo do que João Miguel Tavares, cuja coluna não passa de uma sebenta requentada de clichês neo-liberais simplistas que remontam pelo menos ao consulado da Senhora Thatcher. Mas neste nível etário ocorrem-me tantos nomes de gente da mesma geração com tanta coisa de mais sólido para dizer: uma Maria Mota, um Gonçalo M. Tavares, uma Carmo Fonseca, um Miguel Gomes, um Tiago Rodrigues, um Luís Tinoco…

Também não me incomoda a opção por um autor conservador. Quem me conhece sabe que considero a Direita democrática como um pilar indispensável de qualquer regime constitucional e que valorizo o debate franco e aberto com todas as correntes de pensamento que se reivindicam dos direitos, garantias e liberdades consagrados na nossa Constituição. Mas, mais uma vez, passam-me pela cabeça tantos nomes de pensadores conservadores com outra consistência, com outra profundidade de reflexão, com outra preparação de base: cito, só a título de exemplo, um Miguel Poiares Maduro, um António Araújo, um Paulo Rangel ou o próprio Pedro Mexia, que o Presidente da República tinha ali mesmo à mão na sua Casa Civil…

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Brexit | Se todos querem que dê desgraça, assim será | Francisco Louçã

O desastre do Brexit não estava escrito nas estrelas, é antes o resultado de uma meticulosa construção em que nada foi deixado ao acaso. Começou pela intriga partidária, Cameron queria arrumar o Partido Conservador e prometeu o que não tencionava cumprir, até que uma inopinada maioria eleitoral o obrigou ao referendo. Aí chegado, pediu à Comissão Europeia a facilidade de incumprir normas dos tratados para mostrar músculo contra os imigrantes europeus e levou o que queria. Armado de demagogia contra a ameaça da vinda de trabalhadores, chegou à noite da contagem dos votos confortado pelas sondagens, mas amanheceu derrotado. E foi então que a intriga se adensou.

Vingança

Demitido Cameron, chegou May e a sua história conta-se em poucas palavras: foi a eleições para se reforçar e acabou minoritária e pendurada numa aliança com os unionistas irlandeses, e com um Labour renascido com Corbyn, um crítico das políticas liberais europeias que não lhe facilita a vida. A partir daí, foi uma penosa negociação em que a diplomacia britânica, tida como profissional, se afundou e descobriu que ninguém lhe dava a mão. May foi humilhada e despachada para fora da sala, ficando a saber o que é o bullying em versão bruxelense. A lição é esta: com a Suíça, com a Noruega, até com a Irlanda depois do seu referendo, com o Canadá, a negociação é para um acordo, com o Reino Unido é uma punição.

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O mito da honestidade de Salazar | Inês M. Santos

O mito da honestidade de Salazar só interessa a quem tem uma ideia errada do que era a vida naquela altura. A quem vive numa ignorância deslumbrada. E que não quer aprender o que realmente se passou.

Argumentam que naquele tempo é que era, que naquele tempo não havia políticos corruptos, naquele tempo os valores morais é que eram.

Sabem que mais? Salazar era corrupto. Salazar favorecia elites. Salazar sabia que eram as elites que lhe davam o poder e o mantinham à frente do país. Salazar sabia que a ignorância da população o ajudava a manter-se à frente do país. Salazar tirava aos pobres para dar às elites. Estão a ver o Robin Hood? É exactamente o contrário.

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AS DUAS OSESSÕES FANTASMÁTICAS DA DIREITA | A MAIORIA ABSOLUTA DO PS E A “MORTE DA GERINGONÇA” | José Gabriel Pereira Bastos

Os “media” de direita (que são todos, não existe qualquer “media” de esquerda, que corresponda a uma maioria actual de 60%) andam excitadíssimos a anunciar que o PS pretende atingir a maioria asoluta (pondo Costa a competir com Sócrates e a poder governar sózinho, livre para construir alianças à direita) e, desse modo, ‘liquidar’ a Geringonça, afastando a Esquerda do poder e, obsessivamente, o PCP, para voltarem aos péssimos dias de antanho.

São, obviamente, intrigas e manifestações delirantes do seu desejo de voltar ao Governo, sem qualquer mérito. A aliança de esquerda devia ter governado Portugal desde o 25 de Abril e todos perdemos com as guerras do PCP com o PS (empurrando o PS para os braços da direita) e com as lideranças de Sá Carneiro, Cavaco Silva, Durão Barroso e Passos Coelho.

Depois desta experiência feliz, o PS não vai voltar a isolar-se (mesmo com maioria absoluta, que obviamente não acontecerá, felizmente) e a aliança de esquerda tornou-se a alternativa para construir o futuro e melhorar a vida dos pobres e dos trabalhadores.

A Geringonça vai funcionar, com o PCP ou sem ele, e seria uma péssima aposta do PCP voltar a isolar-se, por decisão própria. Esta foi a única oportunidade de o PCP influenciar um Governo de Esquerda, e fora da Geringonça, não terá outra – e as bases sabem-no.

Depois da queda do Muro de Berlim, da implosão da URSS e da China se ter voltado para a abertura ao ‘Ocidente’, o PCP tem que actualizar-se, num mundo sem comunismo – e quanto mais depressa melhor, sem deixar de combater pelas causas que a Intersindical representa melhor que o PCP, que é, actualmente, depois da morte do comunismo, um Partido Trabalhista e não um Partido Revolucionário (não há qualquer Revolução no horizonte e o perigo maior está no crescimento de direitas populistas radicais – um perigo que a Geringonça anula com enorme eficácia.

José Gabriel Pereira Bastos

Retirado do Facebook | Mural de José Gabriel Pereira Bastos

O Natal de Jesus e a dignidade humana | Anselmo Borges in Diário de Notícias

Ernst Bloch, um dos maiores filósofos do século XX, ao mesmo tempo ateu (não acreditava no Deus pessoal) e religioso (estava religado à divina Natureza), quando era professor na Universidade de Leipzig, na antiga República Democrática Alemã, na última aula antes das férias de Natal desejava a todos os estudantes boas-festas, falando-lhes do significado do Natal e terminava, dizendo: “É sempre Advento”, querendo desse modo apelar para a esperança: o mundo e a humanidade continuam grávidos de ânsias e de possibilidades, e a esperança está viva e há razões objectivas para esperar. Apesar do Natal, ainda é Advento, porque a plenitude ainda não chegou.

Foi em Tubinga que o conheci, pois Ernst Bloch, embora se confessasse marxista e ateu, acabou por ter de deixar Leipzig e a República Democrática Alemã: as autoridades comunistas acusavam-no de misticismo religioso. Ele defendia-se, sublinhando o carácter único, na história das religiões, do judeo-cristianismo e do seu livro, a Bíblia. Para ele, “a Bíblia é o livro mais significativo da literatura mundial”, pois responde à pergunta decisiva do ser humano, que é a questão do fim, do sentido e da finalidade do mundo e da existência. Ir ao encontro da Bíblia “não pode prejudicar” nenhum ser humano que queira bem à humanidade e a si próprio. Concretamente, não é possível compreender o homem europeu e as suas obras literárias e artísticas, sem um conhecimento aprofundado da Bíblia. Os nazis, por exemplo, ao rejeitar a Bíblia como algo estranho que não devia ser estudado, não só não puderam compreender a cultura alemã como caíram na barbárie.

Sem a mitologia grega, não podemos entender a Antiguidade clássica. Assim também, sem o conhecimento da Bíblia, não podemos compreender as catedrais, o gótico, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Händel, Bach, Beethoven, os Requiem, “absolutamente nada”, escrevia Ernst Bloch. Impõe-se pôr termo ao desconhecimento da Bíblia, porque este desconhecimento constitui uma “situação insustentável”, pois produz bárbaros que, por exemplo, perante a “Paixão segundo São Mateus” ou o “Messias”, de Händel, ficam como bois a olhar para palácios.

Está aí o Natal. E o Natal, mesmo que alguns já não se lembrem disso – li há dias que um terço dos norte-americanos não sabem que o Natal se refere a Jesus – e haja até quem menospreze a data, é o aniversário natalício de Jesus Cristo. Sobre ele deixou escrito Ernst Bloch: Jesus agiu como um homem “pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido”. Anunciou o Deus próximo, de amor, o Deus da misericórdia, um Deus amoroso e amável, e o seu Reino: o Reino de Deus, reino da liberdade – “onde está o espírito de Cristo aí está a liberdade”, proclamou São Paulo -, reino da justiça, do amor, da fraternidade, da paz, da igualdade radical de todos perante Deus e perante os outros seres humanos, o reino da realização plena de toda a esperança.

Sobre Jesus, Mahatma Gandhi também deixou estas palavras: Jesus “foi um dos maiores mestres da humanidade”. “Não sei de ninguém que tenha feito mais pela humanidade do que Jesus. De facto, nada há de mau no cristianismo.” Mas acrescentou: “O problema está em vós, os cristãos, pois não viveis em conformidade com o que ensinais.” E tem razão.

Para quem está atento e não tem preconceitos é claro que um dos fundamentos da Europa é o cristianismo. É necessário confessar os erros, fragilidades e crimes do cristianismo histórico, mas é indubitável que da compreensão dos direitos humanos e da democracia, da tomada de consciência da dignidade inviolável do ser humano – de todo o ser humano -, da ideia de história e do progresso, da separação da Igreja e do Estado, portanto, da laicidade, de tal modo que crentes e ateus têm os mesmos direitos, faz parte inalienável a mensagem originária do cristianismo.

Lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A Figura Histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Ele conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas, continua, também sabemos que, “depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a “ressurreição””: aquele que tinha morrido realmente apareceu como “pessoa viva, mas transformada”. “Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso.” Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a história. Grande parte da humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta.

A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem que mudou a história.

Anselmo BorgesPadre e professor de Filosofia | in Diário de Notícias 22-12-2018 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-dez-2018/interior/o-natal-de-jesus-e-a-dignidade-humana-10347645.html?target=conteudo_fechado

Are We Still Good Europeans? | by Jürgen Habermas on 13/07/2018 in “Social Europe”

When I graduated from high school, my career aspiration was listed on my diploma: Habermas wants to become a journalist, it said. Yet once I began working for the Gummersbach section of the Cologne daily Kölner Stadtanzeiger, and then again when I wrote under Adolf Frisé for the culture pages of the Handelsblatt, it was repeatedly made clear to me that my writing style was far too complex. Even the extremely charitable Karl Korn, who fervently urged me to practice during my time as a university student in Bonn, later declared that I should perhaps stick to my academic proclivities. It is a critique that continues to be reflected in reader mail, and at my age, improvement isn’t likely. All of which makes me even more delighted about the invitation, extended to me by the director general of Saarland Broadcasting in conjunction with the German-French Journalism Prize, to follow in the footsteps of such distinguished predecessors as Tomi Ungerer, Simone Veil and Jean Asselborn. My connection to Asselborn is that he too prefers blunt honesty when speaking of Europe. With the prize presenter and laudator having found such complimentary words for my efforts – endeavours which are otherwise simply derogated as euro-romanticism – you will certainly not view it as a transgression of good taste if I, against the backdrop of our disintegrating continent, merely repeat that which I have often stated before on this subject.

I will refrain from addressing the symptomatic clamouring coming out of Bavaria, a ruckus that triggered a government crisis while shoving the more pressing issue – the lack of cooperation in the EU – into the background. The culpability lies with that sort of pro-European who shies away from admitting to the real reservations they in fact hold against a Europe of practiced solidarity. Jean-Paul Sartre explained the term mauvaise foias an elegant contradistinction to bonne foi. Who among us is not familiar with this quietly murmuring uneasiness? We act bona fide, in good faith, but in moments of reflection, we sense a gnawing doubt about the consistency of the assertively argued convictions we hold – as if there was a weak spot in the river bank over which the waters of our argument are flowing unnoticed. My impression is that Emmanuel Macron’s appearance on the European stage has exposed just such a weak spot in the self-image of those Germans who patted themselves on the back during the euro crisis, convinced as they were that they remained the best Europeans and were pulling everyone else out of the quagmire.

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Pela frente ou por trás? | Manuel S. Fonseca in “A Página Negra”

(…) mas umas costas nuas! Nada se com­para ao ves­tido de finas alças nos ombros, estuá­rio aberto que se vem fechar sobre as cinco fun­di­das vér­te­bras do sacro – incom­pa­rá­vel é a geo­gra­fia de umas cos­tas nuas. (…)

(…) se há prazer que merece ser celebrado, é o das costas nuas. À frente, há uma planície venu­si­ana, certo? Mas atrás! Espa­ços aber­tos, duas rasas margens de um vale com um rio de vértebras ao meio. Ebúrneas e delicadas, castanhas e bronzeadas, de acetinado ébano, cantemos, de uma mulher, e logo desta mulher, as costas nuas. (…)

(…) Mas as cos­tas nuas! As cos­tas nuas pedem a didác­tica tensão de um Oví­dio, a per­sis­tên­cia do lento apren­diz de uma “Ars Amatoria”. (…)

Manuel S. Fonseca

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Pela frente ou por trás?

Eles andam por aí | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

Eles sempre andaram por aí, na verdade, mas as gerações mudam. A extrema-direita tem entre nós uma raiz histórica e uma base social, há alguns anos houve gente suficiente para eleger numa televisão Salazar como a figura portuguesa do século XX. Mas tentativas de fazer renascer uma política fascizante logo após a revolução, nos anos setenta, mesmo quando figuras como Spínola, Champalimaud e tantos outros apareciam a liderar e a financiar os seus grupos armados, tinham sido goradas pela infâmia. Absorvidos pouco depois do 25 de Abril em partidos tradicionais, dadas as circunstâncias do colapso lúgubre do regime ditatorial, essa direita readaptou-se, alguns chegaram a ministros, todos fizeram pela vida. E assim foram passando os anos.

Quatro décadas depois, é uma outra extrema-direita que emerge. Vale a pena discutir essa especificidade, porque esse entendimento é a condição para responder ao risco. O que há de novo é que o espaço político desta nova extrema-direita não é saudade do império, mas a globalização infeliz; não é o desfile das fardas milicianas, mas o esvaziamento democrático; não é o delírio ideológico, mas o efeito profundo da austeridade. Ela vai portanto crescer. E essa novidade faz sistema: repare que nos anos setenta as ditaduras caíam na Europa (Portugal, Espanha, Grécia) enquanto venciam em contra-ciclo na América Latina (Chile, Uruguai, Argentina), ao passo que agora o movimento trumpiano impulsiona mudanças coincidentes em todo o mundo (de Washington a Orban, Le Pen, Salvini, Bolsonaro e o que mais se verá), que tomam ou que condicionam o poder. O seu sucesso pode ser medido, os populistas governam hoje uma parte maior da população mundial do que as democracias tradicionais, ao mesmo tempo que contamina as direitas clássicas, que cedem à tentação da imitação.

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Não são só as democracias que morrem devagar – O SNS também | TERESA DE SOUSA | in Jornal Público

Tal como as democracias, o SNS também pode morrer devagar. Se pensarmos bem, muito tem ele resistido às mais ou menos subtis tentativas de matá-lo devagarinho.

1. Temas não faltam, infelizmente, para escrever neste sábado nebuloso em Lisboa, recém-chegada dos graus negativos de Viena, onde descobri um debate mais intenso do que imaginaria sobre as consequências (bastante negativas) da participação de um partido de extrema-direita no governo de Sebastian Kurz. Theresa May veio de Bruxelas com muito pouco. É cada dia mais penoso e incompreensível ver um país orgulhoso da sua liberdade e da sua História mergulhado numa crise existencial profunda, sem saber para onde vai, às voltas com uma decisão que terá implicações profundas no seu futuro e – é bom insistir – no futuro da Europa. Talvez os líderes europeus já não possam fazer grande coisa para ajudar May a encontrar uma solução que seja a menos má possível. Talvez tenham razão quando dizem que qualquer sinal de boa vontade terá reduzido efeito sobre um Parlamento onde são demasiados os que querem chumbar o acordo de saída. Mesmo assim, é recomendável alguma humildade e alguma contenção nos títulos dos jornais. Nem os 27 estão tão unidos como possa parecer; nem a Europa respira saúde; nem o que vier a acontecer ao Reino Unido será indiferente. Uma saída sem acordo será um choque profundo também na economia europeia. A saída, a bem ou a mal, altera os equilíbrios políticos europeus num sentido que ainda se está para ver que custos terá para a integração. A União está, ela própria, a braços com uma crise profunda e, o que é pior, sem que se vislumbre entre os seus governos mais influentes a coragem de inverter o caminho. O último Conselho Europeu foi prova disso. A reforma da zona euro, aprovada depois de um ano de longas negociações, está longe daquilo que sabemos necessário para colocá-la à prova da próxima crise. Berlim apenas cedeu o mínimo dos mínimos a Paris para poder dizer que fez alguma coisa. A Alemanha continua a enfrentar o mesmo dilema: liderar mas sem pagar o custo da sua liderança. E liderar tem custos, que acabam por transformar-se em proveitos. Os EUA sempre pagaram um custo elevado, financeiro e humano, para liderar o mundo ocidental e manter a ordem liberal que construíram. É justamente porque Trump já não quer pagar esse custo que vivemos numa crescente e perigosa desordem mundial. Os alemães querem liderar apenas com ganhos. É impossível. Macron obteve uma pequena vitória com um pequeno “orçamento” da zona euro. Enfrenta em casa uma profunda crise que todos esperamos que consiga vencer a bem da França e a bem da Europa. O resultado é incerto. A Europa não resistiria a uma França à deriva e, muito menos, a uma França nas mãos de forças políticas extremistas. Marine Le Pen é a única que sobe nas sondagens com a revolta dos “gilets jaunes”.

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A NOSSA INSUSTENTÁVEL DEMOCRACIA CORPORATIVA COMO PRELÚDIO DO FIM DA III REPÙBLICA | Rodrigo Sousa e Castro

A Democracia Portuguesa desembocou ao fim de 43 anos numa insustentável democracia corporativa. O exemplo mais flagrante está à vista na disputa sobre o estatuto do Ministério Público.
Sendo o MP o órgão vital do funcionamento da Justiça, que monopoliza a função de defesa do Estado e da acusação pública, é governado por uma elite de funcionários seus, oriundos do seu seio e fazendo carreira no seu interior.
Com o argumento da independência do Poder Político, agem há décadas com a maior impunidade e o resultado está à vista. Para além de dois ou três casos mediáticos envolvendo membros de partidos políticos e ex governantes, resolvidos com algum sucesso,a delapidação de empresas, bancos e outro património, processou-se com a maior desfaçatez, desgraçando o País e assistindo-se agora à cena canalha de os promotores de tais desmandos, continuarem à vista de toda a gente sem punição exemplar.
O dinheiro esse, da ordem dos milhares de milhões, jaz em off-shores e outros refúgios sem que se lhe conheça o rasto.
Mas como se não bastasse, Ordens Profissionais, Médicos, Enfermeiros, Engenheiros, e agora até Contabilistas , em lugar de cumprirem o seu papel deontológico, de vigilância ética sobre os seus membros e de imposição de condutas consoantes com os seus estatutos, imiscuem-se na politica partidária , nas reivindicações puramente materiais, sobrepondo-se aos sindicatos ou entrando em concorrência com eles.

Estes por sua vez, proliferam como cogumelos em ambiente de permanente demagogia e oportunismo, chegando-se ao ponto de haver dezenas de sindicatos por classe profissionais para obterem mordomias para os seus membros ou ainda mais grave, constituírem-se sindicatos hd-hoc para travarem “lutas” de cariz duvidoso.
Com uma lei sindical que data da década de setenta e do governo de Vasco Gonçalves, com governos timoratos que não têm coragem de encarar instrumentos para debelar situações como a assassina greve dos enfermeiros aos blocos operatórios, os sindicatos transformaram-se também em corporações poderosas que abusam da paciência dos cidadãos.
Num País no fio da navalha, sujeito como raros outros às oscilações de circunstâncias internacionais que não controlamos, com uma economia débil e uma divida que não pára de crescer a persistência destas distopias funcionais levarão ao desastre politico e social e a uma grave crise nacional.

A falta de consciência cívica dos mais altos responsáveis e a luta mesquinha por benesses imerecidas impossíveis de satisfazer e que afrontam o Povo em geral são o caldo irreversível para o desastre.

Rodrigo Sousa e Castro

Retirado do Facebook | Mural de Rodrigo Sousa e Castro

Uma bastonária irresponsável? | José Gameiro in Jornal Expresso 

O psiquiatra José Gameiro critica a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, por uma declaração “falsa e demagógica” que, diz, o deixou “envergonhado”.

Já critiquei publicamente o meu bastonário, quando abandonou o Conselho Nacional de Saúde só porque o seu então presidente propôs discutir o eventual novo perfil funcional dos enfermeiros.

Mas não queria acreditar quando ouvi a bastonária da Ordem dos Enfermeiros comentar a greve dos enfermeiros dos Blocos Cirúrgicos de cinco hospitais públicos.

Começou por afirmar que há muito tempo que já morrem doentes por falta de enfermeiros. Tem toda a razão quando diz que há falta de enfermeiros nos hospitais e no Serviço Nacional de Saúde, que são mal pagos, que fazem um enorme esforço por manter as boas práticas, que sem a sua dedicação nada seria possível.

Mas dizer que morrem doentes por falta de enfermeiros é uma declaração falsa, vazia de provas, demagógica. Morrem doentes porque não há solução para eles, morrem por erro médico ou de enfermagem, morrem também, felizmente poucos, por negligência das duas classes. E também porque o nível de infeção hospitalar, apesar de estar a baixar, ainda é elevado nalguns hospitais.

Esta segunda-feira, ao comentar a longa greve prevista às cirurgias, disse que iriam morrer doentes devido a esta paralisação. Uma bastonária dizer isto é de uma enorme gravidade. Se pensa que vão morrer doentes só tem uma solução decente e humana: declarar-se abertamente contra a greve, porque jurou, tal como nós, médicos, defender em primeiro lugar os doentes.

Não vou aqui repetir o blá blá dos políticos, a greve é um direito, etc., mas há limites para a irresponsabilidade. A bastonária dos enfermeiros não pertence à minha classe profissional, mas mesmo assim tenho o direito de me sentir envergonhado, tal como me senti quando o meu bastonário foi leviano.

Que raio de Portugal é este em que, perante declarações como esta, ninguém “abre a boca”?

Se eu fosse partidário da teoria da conspiração diria que, assim, quem ganha cada vez mais são os hospitais privados, onde, estranhamente, nunca há greves e para onde, “fogem” os doentes que podem que estão à espera de cirurgias.

Este artigo foi escrito no dia 10 à noite

José Gameiro in Jornal Expresso

https://leitor.expresso.pt/diario/terca-7/html/caderno1/primeira-pagina/O-dia-em-que-o-mundo-girou-ao-contrario-no-Parlamento.-PSD-propoe-delacao-premiada-contra-opiniao-de-vice-presidente-e-de-porta-voz-do-partido.-Marcelo-faz-70-anos.-Agora-so-falo-de-anos-aos-100

Imperialismo chinês | Luís Fazenda in “Esquerda.net”

Agora que a vasta corte do presidente vitalício Xi Jinping abandonou Portugal, será porventura útil aclarar algumas referências chave sobre a potência oriental.

A China é uma potência capitalista que se aproxima de ser a líder mundial em termos económicos, dispondo de recursos militares e tecnológicos muito significativos.

O seu traço capitalista não pode ser iludido a pretexto da existência de empresas públicas. O capitalismo privado convive bem com setores ligados ao capitalismo de Estado. Aliás, a orientação estatal tem sido,de há muitas décadas, a da extensão do mercado, da intensificação da exploração laboral, muito para além das chamadas zonas económicas especiais (estas declaradamente capitalistas).

A orientação estatal tem sido também a aposta acelerada do produtivismo antiambiental. A constatação deste processo, e respetivos factos, poderia parecer óbvia, à vista desarmada, mas torna-se necessária sublinhá-la quando ainda há quem ache que a República Popular da China é um país socialista pelo simples facto de ser dirigida pelo Partido Comunista. A caricatura desse partido político-militar é a acusação de repressão dura das massas operárias para quem o direito à greve é inexistente.

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JOSÉ PACHECO PEREIRA | OPINIÃO | Aprender com a crise da Fundação Mário Soares | in Jornal Público

A crise na FMS tem outro efeito perverso que é a desconfiança de que a entrega de espólios e acervos a instituições que pareciam sólidas se revele instável com o tempo.

Este artigo pode ser entendido como manifestando um conflito de interesses. Fica já isto dito à cabeça, embora pense que na verdade não o seja, visto que o que me move é uma questão de interesse público que está muito para além de também eu “andar aos papéis” para o Arquivo Ephemera.

O assunto é, como é óbvio, a crise da Fundação Mário Soares (FMS), uma instituição com enorme mérito, que muito estimo e que acompanho praticamente desde a sua criação. Aproveito, aliás, para dizer que o que se diz pelas redes sociais e nos comentários, mesmo de leitores do PÚBLICO, sobre essa crise me merece a maior repulsa e um sentimento de vergonha pelos meus semelhantes capazes de se regozijarem com o que se está a passar em nome do ódio a Mário Soares. Esse ódio justifica para eles uma política de terra queimada, o equivalente a queimar livros numa pira como se fazia nos tempos do nacional-socialismo. A crise da FMS empobrece-nos a todos e torna Portugal pior.

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CADA PESSOA QUE INSULTAVA UM GILET JAUNE INSULTAVA O MEU PAI | Edouard Louis | Tradução de Ana Cristina Pereira Leonardo

“Modesta tradução do corajoso texto de Edouard Louis publicado na revista Les Inrockuptibles, para aqueles que não sabem francês. E sim, ele sabe do que fala. Salvo pela escola pública, como o próprio disse, tem pelo menos um extraordinário livro traduzido em Portugal: «Para Acabar com Eddy Bellegueule».” (Ana Cristina Pereira Leonardo)

Há já alguns dias que tento escrever um texto sobre e para os gilets jeunes, mas não consigo. Porque, de certo modo, me sinto pessoalmente visado, algo na extrema violência e no desprezo de classe que se abatem sobre esse movimento me paralisa.
Tenho dificuldade em descrever a sensação de choque quando vi aparecerem as primeiras imagens dos gilets jeunes. Nas fotografias que acompanhavam os artigos via corpos que raramente aparecem no espaço público e mediático, corpos em sofrimento, arruinados pelo trabalho, pelo cansaço, pela fome, pela humilhação permanente dos dominadores em relação aos dominados, pela exclusão social e geográfica, via corpos cansados, mãos cansadas, costas alquebradas, olhares exaustos.

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“A leitura feita sobre os gilets jaunes” | Sofia Amaro

Constato que a leitura feita sobre os gilets jaunes, nestes dias, é de tal forma enviesada que até o establishment avança amiúde com acusações excessivas, como sendo a extrema-direita ou o Steve Bannon que estão por detrás dos últimos tumultos protagonizados pelo movimento. E ninguém omite o facto de existir um aproveitamento político por parte da oposição, inclusive do FN, ou por parte de grupúsculos da ultradireita, no caso de Yvan Benedetti, ex-presidente do grupo ultranacionalista “L’œuvre française”. Seria simples se fosse apenas assim, mas basta andar nas ruas e estradas e constatar in loco o mar de descontentamento que se organiza horizontalmente e avançaria, com o que me foi dito, por vários quadrantes partidários e abstencionistas. Se por um lado, Macron esticou a corda liberal, a forja da espada de Dâmocles que pesa sobretudo sobre a classe média, é o resultado de uma política levada a cabo pelos sucessivos governantes, desde Chirac a Hollande, e não posso deixar de fazer aqui uma alusão às consecutivas políticas europeias. Todos encontraram fundamento e escola no TINA, na convergência dos tratados que reduziram implacavelmente o poder económico e social das pessoas nestes últimos anos, essas mesmas que se viram com as vidas esvaziadas de sentido, empurradas para a periferia, não só territorial, mas também longe dos centros de decisão, como meros joguetes para alimentar estratégias orçamentais. Os gilets jaunes representam o descontentamento de uma população que tem sido constantemente espoliada e esmagada por estados cada vez mais repressivos, impondo garrotes fiscais que se têm revelado iníquos e asfixiantes, sendo acompanhados de forma dolosa pela depauperação dos serviços públicos. As desigualdades têm sido ao longo da história o rastilho de insurreições, e aqui vislumbramos o presságio de “sous les pavés, la plage”, com a quase idêntica ordem dos soixante-huitards ou a violência entre os manifestantes GJ e os CRS. Palavras subversivas para uma população que se encontra melindrada e sob a premissa até agora da alienação, no início utilizada para embrandecer o espírito, basta analisar o papel dos OCS na marginalização educativa nos últimos decénios, como referiu Todd, acabando por ser descartada e descartável no injusto ascensor social.

Falando agora nas taxas sobre os combustíveis, é de facto uma medida punitiva pois parte do princípio que só o consumidor final será penalizado, excluindo os principais actores como a indústria automóvel, a indústria da aviação ou do transporte marítimo. E se mencionamos as medidas ecológicas, e aqui até a demissão de Hulot nos deu uma achega, não basta taxar novamente com medidas avulsas, remediar com o saco de plástico, mas por outro lado liberalizar ainda mais a caça ou avançar com moratórias sobre o glifosato. São estas as incongruências que entram em casa de cada francês, já agora de cada um de nós. Porque, vamos lá, temos o diesel, mas depois temos por exemplo a aviação civil ou a marítima. O avião emite entre 134 e 148 gramas de CO2 por passageiro ao quilómetro, contra 2,6 gramas para o comboio, segundo a consoglobe, e cada quilómetro adicional de voo resulta em querosene adicional queimado na atmosfera. Para cada quilo de querosene usado, 3 quilos de CO2 são emitidos. Segundo dados da ACNUSA, o avião é a principal fonte de emissões locais em plataformas para a maioria dos poluentes com níveis de emissão significativos como os óxidos de nitrogénio NOx, dióxido de carbono CO2, dióxido de enxofre SO2, monóxido de carbono CO. Segundo a FNE, a ONG alemã NABU, e outras instituições, a proliferação de cargueiros e indústria marítima, que usam principalmente um subproduto do petróleo e combustível pesado, é responsável pela emissão de grandes quantidades de partículas finas, óxidos de enxofre e óxidos de nitrogénio. Este poluente é uma das principais causas do problema de acidificação das chuvas, sendo extremamente tóxica para a saúde. Depois temos o consumo excessivo de carne, responsável pela duplicação das emissões de dióxido de carbono, quando sabemos que as grandes explorações agropecuárias​ são responsáveis não só pela deflorestação mas também pela emissão de gás metano; o consumo desmedido de peixe, que fez com que os oceanos tenham entrado em falência, sendo que a pesca massiva altera o equilíbrio dos fundos marinhos, e para além do processo de acidificação, algumas espécies já pouco proliferam, nomeadamente o bacalhau no Mar do Norte.

Os alertas avançados pelas várias instâncias internacionais são vários, os estudos são públicos, mas continua o frenesi que serve apenas o expurgar da dívida, quando se legitimam as sucessivas artimanhas financeiras, deslocalizando o tesouro público amealhado para fins pouco legítimos, deixando impunes os sucessivos culposos, e desfalcando a nossa única salvaguarda social.

Quem aponta o dedo aos homens e mulheres que se têm erguido nas ruas, não compreendeu ainda o desafio com que nos deparamos, sendo que a violência tem-nos sido revelada pela epidemiologia do suicídio, que vai para além dessas figuras antitéticas de Catão e Ofélia, e das divagações plumitivas, conduzindo à abertura de associações que resguardam a pouca dignidade que resta às pessoas. E elas não são contra a mudança de paradigma, mas não à custa dos últimos euros que lhes sobram a meio do mês, esses poucos euros que não lhes permite comer bio, local… Os que os acusam de “beaufs” são os mesmos que escrevem no telemóvel último modelo, com o coltan selvaticamente explorado e responsável pela disputa do “ouro azul”, ou fazem a lista de viagens turísticas com destinos intercontinentais, lendo artigos no Le Monde sobre esse fascinante mundo do lúmpen. Somos todos muito moralistas e pífios quando se trata de apontar o dedo ao mais fraco, já quanto ao nosso comportamento somos cinicamente indulgentes. Se é para mudar, teremos de mudar radicalmente começando pelas instâncias de poder, não só as políticas mas também as económicas, e mudarmos implica um esforço que terá de se ser exponencial ou nem sequer valerá o saco de amido de milho biodegradável ou mesmo a pedalada nessa ciclovia cosmopolita, que se pode transformar neste aparato mundial, e como todas as medidas avulsas, num estafado calcanhar de Aquiles.

Sofia Amaro 

Retirado do Facebook | Mural de Sofia Amaro

TOURADAS SEM SANGUE, RACISMO, VIOLÊNCIA AMERICANA E PEQUENAS PROVOCAÇÕES LOCAIS | José Gabriel Pereira Bastos

Alguém me convoca céptica e provocatoriamente para que eu “explique” porque é que as touradas causam tanta indignação a tanta gente e a mim não.

Respondi.

Transfiro para aqui a resposta porque abarca muito mais variáveis, identitárias, históricas, sociais, políticas, e até a minha experiência Californiana directa sobre a Universidade, a tourada sem sangue e a interdição de realizar investigações sobre processos identitários, indiciadores de racismo, em Berkeley e San José. Aí vai a minha resposta, que pode interessar a muitos mais interlocutores não meramente provocatórios, egocêntricos e surdos:

“Talvez seja, J., porque muitíssimas pessoas têm vistas curtas e vivem desinformadas e sem terem qualquer pesquisa pessoal sobre o que de tão grave se passa no mundo – com tropas americanas a invadir o Afeganistão, a destruir o Iraque e a tentar destruir a Síria, a assassinar Presidentes do Iraque e da Líbia, tornando este país ingovernável e entregue a senhores da Guerra, como está a acontecer no Iemen, e se prepara que venha a acontecer no Irão, com centenas de milhar de mortos e muitos milhões de deslocados.

E com a promoção de crises financistas que criam o caos económico, social e político na Venezuela e no Brasil, deixando pessoas à fome, na tentativa de mudar para a direita capitalista governos populares de países que são grandes produtores de petróleo, como os do Médio Oriente islâmico e, não por acaso, a Venezuela e o Brasil, os maiores produtores de petróleo para além dos Estados Unidos e da Arábia Saudita e Emiratos, (aliados dos Americanos), e dos Russos, fortemente atingidos pela crise financista manipulada a partir de Wall Street, da City e de Frankfurt.

“Jogos” geo-estratégicos capitalistas do “Ocidente” que destroem países e famílias – dramas imorais que passam fora do olhar, da indignação e do pensamento dos adeptos da Natureza, com uma enorme iliteracia histórica, económica e política mas com enormes cuidados com os seus animaisinhos de sala.

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Depressão | Tiago Salazar

Andrés Iniesta, um dos meus jogadores de eleição, assumiu ter sofrido de depressão, e de como a dita intrusa se instalou e lhe tirou o gosto e as sensações. “Só pensava em tomar o comprimido e dormir”. A depressão instala-se quando o sonho deixa de comandar a vida. É uma dor que desatina sem doer. É uma doença curável, mas incapacitante. Um comprimido serve de rede e um deprimido não é um atrasado mental. Pode bem ser um inadaptado à frente do seu tempo. Os deprimidos são por regras sensíveis e hiper sensíveis. Alguns são reactivos e são deprimidos ansiosos. Outros, afundam-se e estiolam. O pior para um deprimido é a indiferença e a frieza dos que o rodeiam e o tratam como um empecilho à sua felicidade parasitária. A mais premente necessidade de um deprimido (e de qualquer ser humano) é ser olhado como um ser humano, falível e vulnerável.

Tiago Salazar

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

Mulhererengos, femeeiros e outros | Tiago Salazar

Consta, na mais recente biografia de José Saramago, escrita por Joaquim Vieira, haver uma faceta menos conhecida de Saramago, a de um machista. Cresci a ouvir histórias de escritores galifões, casados e pais de filhos, mas dados a conquistas e investidas a eito, mais ou menos consentidas. Por exemplo, só para nomear alguns, José Cardoso Pires, António Lobo Antunes, David Mourão Ferreira, Baptista Bastos, ou, o mais exortado, o pintor de vulvas Henry Miller.
A propensão para o excesso deu cabo de alguns matrimónios e relações, embora muitos se mantivessem casados e as suas mulheres no silêncio. Outras, como Paula Rego ou Frida Kahlo, apesar do muito amor e da felicidade conjugal, seguiram o mesmo instinto. Por ajuste de contas ou paridade. A questão é bicuda: talvez se o ponto de partida fosse cordato não houvesse dominadores e dominados, ou vinganças ao retardador sobre o pressuposto de que ele (ou ela) não eram assim. Talvez o amor exclusivo seja raro, e a arte nascida de grandes amores um mero narcisismo.

Tiago Salazar

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

Para não cair na armadilha: A tourada que ensina a esquerda | Francisco Louçã

A excitação com a magna questão do IVA das touradas é reveladora de uma atitude, de um clima e de um risco.

A atitude é a que se poderia esperar, uma espécie de deslumbramento hiperbólico com a faena, numa espécie de competição entre toureiros que querem ganhar uma volta à praça. O touro foi “adotado pelo homem ibérico, e criado como o mais nobre dos adversários, digno de sobreviver para enfrentar o Homem até ao fim dos tempos, simulando e celebrando, com o cavalo de combate, a tradição milenar do guerreiro ibérico”, escreve Sousa Pinto, em modo de delírio poético. “Até ao fim dos tempos” é muito otimismo, mas o nosso “guerreiro ibérico” tem destas coisas. O mesmo diria da afirmação ousada, e algo constrangedora, de que não percebe poesia quem não festeja a bandarilha ou que namora o totalitarismo quem não comemora rabo e orelha.

Do outro lado, está o clima que dá por certo que, se a violência contra uma cadela é punida com pena de prisão, ou se os combates de cães são proibidos, se os sacrifícios de animais já são interditos e se a tradição nunca mais foi o que era, um dia a exibição do massacre do touro deixará de existir. 

Mas a lição para a esquerda não está nem na radicalização espetacular dos toureiros, nem na certeza tranquila de que o tempo concluirá esta querela. Está na demonstração atual do risco e da vulnerabilidade comunicacional das agendas de entretenimento. Há gente para tudo, como se viu, e sobretudo para a agitação de emoções apopléticas. Com tanta arrebatamento, o efeito de contaminação constrói um artifício de alheamento. Esse é o caldo de cultura em que tudo se confunde, pois se definem linhas de fractura apoiadas na distração. E, como 2019 é um ano de todos os perigos, a lição deste episódio taurino é de grande valia: pois saiba-se na esquerda que só ganhará quem nunca se desviar do que interessa e perderá quem deixar afirmar-se o interesse pelo desinteresse. É a vida das pessoas, mesmo a vida, o salário, a segurança no emprego, a segurança na saúde, o cuidado dos filhos, a pensão, o acompanhamento das pessoas dependentes, que tem que determinar as escolhas. Não será nunca uma bandarilha a definir os campos e os resultados.

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Franciso Louçã

PORTUGAL, AS TOURADAS E A ‘CIVILIZAÇÃO’ | José Gabriel Pereira Bastos

O facto de a nova Ministra da Cultura afirmar que prejudicar a tourada à portuguesa é um acto de ‘civilização’ permite constatar o óbvio – há quem ache que a civilização é norte-europeia ou, como dizem os Americanos, é WASP (white, anglo-sexon protestant) e que o Mundo Mediterrânico, polarizadamente católico, não é ‘civilizado’ por ser católico – um mundo de virgens, de santos e procissões, que os protestantes consideram semi-pagão, supersticioso e ‘atrasado’, a necessitar do seu colonialismo civilizacional. Há, por isso, em Portugal, portugueses ‘avançados’, que têm vergonha de serem portugueses e tencionam aproveitar lugares no Aparelho de Estado e no Governo para corrigir o ‘atraso’ civilizacional dos portugueses e nos tornar ‘mais europeus’, isto é, menos diferenciados culturalmente e mais absorvidos pela cultura protestante.
As touradas existem na península ibérica e no sul de França, associadas à pastorícia do gado bovino em liberdade. vigiados por campinos, sobretudo nas margens do Tejo (Ribatejo e Alentejo), originando esse facto cultural que é a tourada à portuguesa.

Têm contra si os que se auto-consideram os mais ‘civilizados’ dos portugueses, um agregado ideológico que forma uma minoria elitista activista, que se sente ‘superior’ aos outros portugueses – os vegan e vegetarianos, que não comem carne, os ecologistas, que são contra o gado bovino, por ser poluente, os ‘protetores dos animais’, que consideram a tourada um ‘divertimento’ marcado pela violência e pela tortura dos touros, algumas feministas, que associam a tourada ao Machismo (como se proibir as touradas acabasse com o machismo) e alguns católicos fanáticos que acham que a tourada é um resíduo dos cultos pagãos que ainda não conseguiram destruir. Uma ‘elite’ sub-cultural, com muito pouca gente, alinhada com a Cultura WASP.

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Os abutres ao poder | LEONARDO LEAL in Jornal “Público”

O respeito liberal e democrático pela soberania popular requer sempre o integral respeito pelos direitos das maiorias e das minorias, do governo e das oposições. Mas nada disso está garantido com Bolsonaro, antes pelo contrário.

O ano é 2018, 57 milhões de votos, Mestre Moa do Katendê – corpo imolado, universidades violadas, aplausos nas ruas para os militares, Brasil a minha gente sua frio. “A nossa bandeira jamais será vermelha” – um mote do populismo que mais uma vez unificou multidões em cidades brasileiras para colocar abutres no poder. Jair Bolsonaro (PSL), ao lado de um chicago boy e de um círculo de generais estranhos à democracia, celebram nessas eleições três grandes feitos: a vitória sem disputa em arena pública; a vitória da impostura; a vitória do arbítrio

Primeiro, a campanha bolsonarista violou a tradição que marca as mais intensas disputas no mundo democrático liberal, e que se traduz pela convivência entre indivíduos racionais e a troca de razões na esfera pública. Segundo, trespassou a igualdade de condições para argumentar, fugindo dos debates públicos, lançando-se no mundo da comunicação privada em grupos de WhatsApp para difundir fakenews, com indícios de financiamento empresarial –? esquema coibido pela justiça eleitoral brasileira. Terceiro, o grupo político de Bolsonaro retira das “sombras” ofertas políticas de elites antidemocráticas para penhorar o patrimônio público, os direitos sociais e as liberdades civilizadas.

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Está aí a reforma eleitoral | José Ribeiro e Castro in Jornal “i”

Com a petição pública “Legislar o poder de os Cidadãos escolherem e elegerem os seus Deputados”, está finalmente em cima da mesa a reforma eleitoral. Agora, já podemos tomar posição e puxar o tema para o centro dos debates da Assembleia da República.

petição, lançada pela histórica SEDES e pela APDQ, outra associação cívica mais recente, contém um projecto de lei cuja adopção muda para melhor, num instante, o sistema eleitoral português. Além de podermos escolher os partidos ou coligações da nossa preferência, determinando a proporção das representações parlamentares, passaríamos a eleger também os deputados que representam os territórios de maior proximidade e a influenciar o processo de escolha dos demais. Com esta lei, que concretiza plena e rigorosamente a Constituição, deixará de haver deputados mais dependentes dos directórios que do eleitorado. Entraremos numa democracia de qualidade e a abstenção cairá, de imediato, para perto dos 20% ou menos ainda.

Estamos à espera de quê?

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Os portugueses não conhecem o Diamantino, capitão de Abril | Carlos Matos Gomes

As portuguesas e os portugueses não conhecem o Diamantino 

Diamantino Gertrudes da Silva

Antes do Diamantino também não conheceram o Corvacho, nem o Tomaz Ferreira, nem o Vila Lobos, nem o Ramiro, nem o Ernesto, o Melo Antunes, nem o Varela, o Gomes, nem o Victor, o Crespo, os portugueses não conhecem os portugueses que estiveram no dia 25 de Abril de 1974 no comando das operações na Pontinha, nem nas unidades que tomaram o poder. Nem dos que estiveram em Bissau, em Luanda, ou em Nampula a assumir a responsabilidade histórica de resolver um problema colonial que se arrastava desde a Conferência de Berlim (1884), que fora causa da queda da monarquia, da implantação da República, da entrada de Portugal na I Grande Guerra, da instauração da ditadura em 1926 e de uma guerra colonial de 13 anos.
O desconhecimento desses nomes e o conhecimento de outros, de futebolistas e comentadores de TV, de cantores e de apresentadores de TV, de cabeleireiros e cozinheiros, de alfaiates e famosos das relações públicas representa a glória dos anónimos militares como o Diamantino.
O Diamantino morreu hoje. O Diamantino teve um papel decisivo no 25 de Abril, comandando a coluna militar que controlou o centro do país. Os portugueses não conhecem o Diamantino, nem os camaradas que o acompanharam nesse dia e nessa acção. O desconhecimento do Diamantino é a sua maior condecoração. O Diamantino e os seus camaradas fizeram o que fizeram para que os comentadores comentassem, os cantores cantassem, os famosos se exibissem. O Diamantino e os seus camaradas são anónimos para que os portugueses tenham nome e possam tê-lo. O Diamantino e os seus camaradas fizeram o que fizeram para que os portugueses tivessem um serviço nacional de saúde e também um multibanco.
O Diamantino morreu ontem. Nasceu em 1943, na Beira Alta, em Moimenta da Beira. Filho de gente humilde – não se trata de neo-realismo – frequentou o seminário e depois a Academia Militar, onde entrou em 1963. Conheci-o ainda de missal, expressão séria, a sair da caserna para ir à missa. Eu, três anos mais novo, já agnóstico. Nunca falámos de religião, de deuses, de salvação. Respeito. Ele infundia respeito, mesmo quando acreditava no que me merecia radicais oposições: eu dispensava a ideia de Deus, ele ainda a respeitava, não como amparo pessoal, mas como instância de justiça, julgo.
Ao longo da minha vida conheci pessoas extraordinárias. Sorte a minha. O mais extraordinário de todos, se me perguntarem, Samora Machel. Mas, falando apenas dos que já morreram, conheci também Aquino de Bragança (informem-se sobre a personagem), e Spínola (escrevi sobre ele no Expresso na data da sua morte), e Costa Gomes, e Varela Gomes, e Fernando Salgueiro Maia, e o comissário político da brigada Lister na guerra civil de Espanha, e Santos e Castro, fundador dos comandos e comandante de mercenários, fui amigo do Jaime Neves… e apoiante da Maria de Lurdes Pintassilgo. Fui amigo do Diamantino…
Quando, como é da história, nas revoluções se separam águas entre os que a fizeram, eu e o Diamantino ficámos na mesma margem. Foi depois do 25 de Novembro de 1975. Numa tarde, ou noite clandestina, encontrámo-nos em Viseu, a sua base, a conversar sobre o que era possível salvar, não da esperança, mas da parte do poder que devia caber aos que, sujeitos a séculos de dependências, iniciavam a descoberta da liberdade de decidirem o seu presente e o seu futuro. Poder popular, se não for descoberta outra designação aos sans culottes que, aqui em Portugal, viviam a sua revolução francesa no Portugal rural e eclesiástico após o 25 de abril. O “Comunismo” nos sermões dos padres lúbricos e guardadores de rebanhos.
O Diamantino formou-se em História, em Coimbra. Ele, e um outro destes capitães, também já desaparecido, o Monteiro Valente. Conheci-os, relacionei-me com eles como mais um privilégio que a vida me concedeu. O Monteiro Valente foi o único (julgo) capitão que teve de disparar a sua arma para impor o 25 de Abril numa unidade militar!
A História concedeu a Portugal, aos portugueses que não sabem quem eles foram, o privilégio de ter os capitães dos seus exércitos de terra, mar e ar no local certo, no tempo certo, para realizarem a 25 de Abril de 1974 aquilo que era necessário fazer e foi feito da forma exemplar que a História reconhece como a “revolução dos cravos”.
O Diamantino pertenceu a essa gesta de anónimos capitães que Portugal e os portugueses tiveram a sorte histórica de encontrar generosamente disponíveis e culturalmente preparados para assumirem os riscos de lhes traduzirem os anseios de liberdade e de paz. Ele escreveria ensaios e fições sobre a sua geração.
A morte do Diamantino, capitão de Abril, ocorre no tempo em que emerge do lado de lá do Atlântico, no Brasil a quem tanto nos une, um capitão de negrume, de nome Bolsanaro…um fantasma da História. Figura recorrente de abutre militar…
O capitão Diamantino, que morreu em Viseu, era a face luminosa dos militares de qualquer parte do mundo que estão do lado da História e dos seus povos…
Será enterrado singelamente. Como um militar digno. Com as “sem honras” que a sua vida merece.
Que a semente do seu exemplo frutifique…

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

Nunca conheci um patrão de casa de putas! | Carlos Vale Ferraz e Carlos Matos Gomes | in Jornal Tornado

(Capitulo para um futuro romance) – Eu também não.

Este é um texto que descobri nos rascunhos do marginal escritor Carlos Vale Ferraz, autor de um primeiro romance a que deu o título de Nó Cego, onde enreda as aventuras da geração que arriou as velas do fim de império africano.

Uma anti-epopeia que não merece sequer um registo nos planos nacionais de leitura, porque os juízos literários são isentos de boas vírgulas e prenhos de frases amendoadas. Dele disse ele no intróito do Nó Cego: “o autor  é pacato e gordo, cai-lhe o cabelo e escreve de noite com os óculos na ponta do nariz…” e, mais adiante: “Por si, garante, a Pátria não verá aumentada a galeria dos ilustres e não ganhará feriado em dia de morte ou de centenário.”

Não será tanto assim. Ou não foi. Descobri que esse tal Carlos Vale Ferraz pode ser agora gordo e careca, mas já foi, recolhido de fontes seguras, um belo valdevinos. Belo é autopromoção. Vaidade. Valdevinos é uma boa legenda para a foto antiga.

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A Idade das Trevas Chegou por Las Vegas ou Todos os Homens são culpados até provas em contrário | Raquel Varela

Não sei se todos compreenderam a gravidade do que se passou esta semana em Portugal. O caso Ronaldo não é caso Ronaldo, é o mote para a defesa do fim da presunção de inocência. É isso que os acusadores de Ronaldo querem introduzir no ordenamento jurídico português. Várias pessoas vieram a público esta semana, entre elas o ex-ministro Rui Pereira no Correio da Manhã, ou mulheres e homens nos jornais de referência, afirmar com base em «estudos» que as vitimas de abusos sexuais não mentem, deve-se presumir que os homens são culpados até prova em contrário. Bom, sobre as “mulheres não mentem” deixarei para outro artigo – merece um à parte. Quero agora ir ao central.

Não escrevi que o Metoo era conservador e reaccionário sem reflectir bem sobre isso – conheço o tema por dentro há anos. Embora pareça de esquerda, porque é «amigo das vítimas», trata-se de uma reacção mundial conservadora em curso em vários países que defende que em nome da segurança deve-se diminuir a liberdade. Este é todo o centro da questão. Tudo o resto que se tem debatido é colateral.

O que está em causa não é a defesa das mulheres com quem poucos se preocupam, desde logo com a defesa de segurança no emprego, creches públicas, diminuição de horários de trabalho, salários, etc, o que está em causa no caso Ronaldo é a defesa da restrição das liberdades – tema caro a muitos.

Está em curso uma proposta global de alteração dos ordenamentos jurídicos democráticos, feita a partir da desigualdade de género para ter verniz de progressista. É aliás por isso que além de esquerdistas desesperados o maior palco da defesa deste valor medieval do fim da irreversibilidade do ónus da prova e o fim da presunção de inocência sejam os jornais da direita liberal norte-americanos, onde todos os dias há uma denúncia de uma mulher e se enxovalha o nome de qualquer homem porque à partida ele é culpado. É isso que faz com que seja permitido publicar tais artigos sem provas, ou investigação, apenas com o testemunho da mulher. Ora isto é nada mais nada menos do que colocar todos os homens sob suspeição e na arbitrariedade total na mão das mulheres.

O argumento é que em nome da vítima podem-se inverter os princípios jurídicos democráticos. A segurança exige suspensão parcial da democracia – numa palavra é isto o Metoo. Uma forma de totalitarismo.

Que nenhum homem e mulher se cale nesta hora. Não é só a liberdade sexual que está em causa com a mercantilização e o puritanismo do Metoo, nem a banalização do crime gravíssimo de violação. É algo ainda mais grave porque é uma politica de Estado. Hoje são os homens, amanhã são os grevistas, depois os dirigentes “subversivos”, os trabalhadores e os imigrantes, e por aí fora. Consonante a relação de forças de quem comanda o Estado e tem força nos media. É altura de gritarmos alto que esta barbárie jurídica representa um atentado à liberdade, são as trevas da reacção neoliberal, apesar de chegar da cidade mais iluminada do mundo, de um casino cintilante. Sim, o Metoo são as trevas anti iluministas e anti socialistas que chegaram cheias de luz e ideias de igualdade.

Às mulheres, vitimas de abuso sexual, devem ser dadas medidas públicas onde não se pode poupar um euro de protecção jurídica imediata (não é com julgamentos morosos), deve ser dada ajuda psicológica de alta qualidade, os melhores psiquiatras devem ser contratados pelo Estado para estar ali a ajudar nas denúncias, nos traumas, e em todas as consequências, temos que ter casas de abrigo, toda a protecção. Mas jamais acabar com a presunção de inocência.

Não, o mais odioso dos crimes – e para mim a violação é moralmente equiparada a homicídio ou lá perto, é destruir a vida de alguém, por isso não é compatível com penas ridículas – não justifica a suspensão de uma única liberdade democrática. Quem na esquerda progressista não compreender isto e não tiver coragem de se opor sem medo ficará com o ónus de dar poderes discricionários ao Estado, poderes que cairão como uma pedra na cabeça de toda a esquerda, homens e mulheres, em poucos anos. Basta uma pequena alteração na relação de forças para que todos os grevistas sejam culpados de subversão da economia e bem estar nacional ou coação e ameaça ao patrão, chantagem ao gestor, ataque à integridade física do encarregado na fábrica, chantagem ao director – culpados todos, até prova em contrário. E muitos dos grevistas serão naturalmente mulheres e serão destruídas publicamente, e na sequência, juridicamente, porque à partida serão “culpadas”.

A liberdade não é uma palavra. É a essência de toda a vida civilizada. Defendê-la é defender a humanidade.

Raquel Varela

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

Dez anos mal contados e que contam muito | Francisco Louçã

É o décimo aniversário da crise do subprime? Não, está mal contado. É certo que a bancarrota do Lehman Brothers, em setembro de 2008, com a sua dívida de 613 mil milhões de dólares, foi, à época, a maior na história dos EUA. Mas já em 2007 vários fundos da finança-sombra tinham entrado em incumprimento e desde março de 2008 as grandes falências multiplicaram-se nos EUA. Quando o Lehman caiu já a procissão saíra do adro e no fim desse mês já ia em mais sete falências: o venerável Bear Stearns (em Março); o gigante de seguros AIG; start-ups como o IndyMac, o Washington Mutual e o Wachovia; e entidades parapúblicas como o Fannie Mae e o Freddie Mac. A resposta foi mais liquidez, nacionalizar os ativos tóxicos e concentrar a banca. Dez anos depois, estamos pior em quatro domínios.

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Por Francisco | Carlos Zorrinho

Com as “guerras santas” a serem travadas um pouco por todo o globo e os escândalos mundanos dilacerando as diferentes igrejas, é importante refletir sobre a condição humana na sua complexidade espiritual e racional, face aos novos contextos da vida moderna.

A vida é antes de mais uma experiência que permite formar a consciência de que se existe e partir daí para todas as interrogações sobre o seu sentido. A experimentação do sagrado é uma forma de consciencialização que tem vindo a perder terreno face a tudo aquilo que a modernidade oferece ao Homem como experiências múltiplas, científicas, desportivas, artísticas, profissionais, sensoriais, relacionais ou outras. Experiências devidamente certificadas, embaladas, com folheto de instruções e prazos de validade.

O vazio da experiência, quando existe, tende a ser preenchido pela norma ou pelo estabelecido, naquilo a que podemos chamar fé nas suas diversas demonstrações e aplicações. Neste contexto, o espaço para o inesperado, para o deslumbramento puro, para a sensação forte, para a descoberta encantadora é cada vez menor.

É neste quadro de exaltação extrema da experiência organizada para ser consumida até ao limite do vazio e do acantonamento da fé, reservada para compor, quando é caso disso, os buracos negros da consciência, que emerge a força da tentação mesmo onde ela seria menos expectável.

Os recentes escândalos de práticas pecaminosas por dignitários da igreja católica, designadamente de práticas de pedofilia, são um alerta e um apelo ao retorno à simplicidade e ao reencontro dos indivíduos consigo mesmos e com a sua natureza, seja qual for a missão específica que desempenham na comunidade em que vivem.

O conservadorismo ultramontano que agora critica abertamente Francisco, ao impor no passado medidas não naturais como o celibato obrigatório dos Padres, ajudou a construir a teia onde agora quer prender os que demonstram uma mente mais aberta aos desafios dos novos tempos.

Uma das razões pelas quais Francisco é um Papa respeitado muito para além dos fieis da igreja que chefia é o seu sentido forte de relação com o que é natural, com a perservação do planeta, com o respeito pelas culturas e pelas diferenças e com a dignidade como direito matricial do ser humano.

Que Francisco continue a ser iluminado e a iluminar-nos, para que o sagrado e a fé, combinados à medida da consciência de cada um, nos afastem das tentações destrutivas e degradantes que corroem partes importantes da nossa sociedade.

Carlos Zorrinho

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Zorrinho