Código Deontológico do Jornalista | Rodrigo Sousa e Castro

1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.

2. O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.

3. O jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar. É obrigação do jornalista divulgar as ofensas a estes direitos.

4. O jornalista deve utilizar meios legais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja. A identificação como jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público.

5. O jornalista deve assumir a responsabilidade por todos os seus trabalhos e actos profissionais, assim como promover a pronta rectificação das informações que se revelem inexactas ou falsas. O jornalista deve também recusar actos que violentem a sua consciência.

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18 de agosto de 1936 | Assassinato de Federico Garcia Lorca pelos esbirros de Francisco Franco

O SILÊNCIO

Ouve, meu filho, o silêncio.
É um silêncio ondulado,
um silêncio
donde resvalam ecos e vales,
e que inclina a fronte
para o chão.

Federico Garcia Lorca – Traduzido por Eugénio de Andrade

 

 

EL SILENCIO

Oye, hijo mío, el silencio.
Es un silencio ondulado,
un silencio
donde resbalan valles y ecos
y que inclina las frentes
hacia el suelo.

O PROVEDOR | Francisco Seixas da Costa

Não vale a pena iludirmo-nos: a questão dos incêndios florestais é muito séria. Tanto pelos imensos danos materiais provocados como pelo descrédito induzido na imagem do Estado.

Por muito que alguns, na esfera política, possam não querer aceitar, é uma evidência que está criada, na sociedade portuguesa, a ideia de que a administração do Estado é hoje impotente para gerir, com aceitável eficácia, esta situação, limitando-se a reagir, perante os factos com que se vê confrontada, numa penosa e quase patética navegação à vista.

O executivo faz o que pode: tenta utilizar da melhor forma os meios ao seu dispor, mas já terá percebido que, a repetirem-se, no futuro, conjugações climatéricas negativas, o que não parece improvável, a tragédia vai reeditar-se. No meio de tudo isto, a fé na eficácia tempestiva das alterações legislativas acaba por ser uma atitude quase ridícula. Não que o “pacote florestal” não seja necessário, mas é mais do que óbvio que a sua completa implementação vai demorar um imenso tempo que o país não tem. E, até lá, é preciso agir com medidas urgentes e excecionais, a montante de uma nova crise, com as autarquias e com o governo central na primeira linha da prevenção, aproveitando o que a declaração de calamidade pública agora facilita.

A mais miserável dimensão desta história é a sua exploração político-partidária. Será que alguém, minimamente honesto, acredita que, se acaso a direita estivesse no poder, a Proteção Civil teria sido mais eficaz, o Siresp teria funcionado melhor, outro modelo de responsabilização funcional e pessoal teria levado a resultados diferentes?

Sejamos claros: PS ou PSD/CDS (PCP ou BE quase não contam aqui) são as duas faces da mesma moeda – onde se misturam o aparelhismo e o compadrio político, a instrumentalização partidária dos bombeiros, uma maior ou menor complacência face às negociatas em torno do material de combate aos incêndios. Ter a esquerda ou a direita no poder, nesta questão dos incêndios é, como dizem os franceses, “bonnet blanc/blanc bonnet”. É absolutamente indiferente. Toda a gente sabe isto, de António Costa a Passos Coelho, embora todos façam de conta que não.

Contudo, os incêndios deste ano não foram iguais aos outros. Na dimensão, nas tragédias, no trauma coletivo que provocaram. O Estado, e a confiança no Estado, não saem intocados disto. É aqui que, inevitavelmente, entra o papel do chefe desse Estado, pelo crédito afetivo que hoje o responsabiliza perante o país. No tradicional Inverno do nosso esquecimento que aí vem, compete-lhe ser o provedor do sentimento nacional de urgência e desespero e não permitir que a espuma dos dias seguintes abafe a necessidade de atuar. Já.

Francisco Seixas da Costa

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa

Todo o canto deste poema para Maram al Massri | Maria Cantinho

Un poème que j’ai écrit pour la grande poétesse syrienne Maram Al Masri, mon amie très chére, après une des prémières fois que je l’ai vu et entendu, en lisant sa poésie douloureuse et tragique, en parlant de son bien aimé pays: la Syria. Ici je laisse les deux versions, la portugaise et la traduction.
 

 

TODO O CANTO DESTE POEMA

para Maram al Massri

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Viva a Inglaterra | Manuel Alegre in jornal Diário de Notícias

Eu era muito pequeno, não devia ter sequer 4 anos. Passeávamos na avenida, em Espinho, e, de repente, meu avô materno, republicano, e meu pai, monárquico, tiraram os chapéus e começaram a gritar Viva a Inglaterra! Nunca mais esqueci. Voltei a lembrar-me ao ver o filme Dunkirk. Também a mim me apeteceu dar um viva à Inglaterra. A evacuação das tropas cercadas pelos nazis é um feito histórico incomparável e decisivo para o futuro da guerra. Milhares de civis foram a Dunquerque em barcos de recreio ou de pesca buscar os seus soldados. Governantes, diplomatas e funcionários da União Europeia deviam ver esse filme para recordarem e não caírem na mesquinha tentação de aproveitar as dificuldades provocadas pelo brexit para castigarem a Inglaterra e conseguirem benefícios perversos.

As democracias europeias tinham caído uma a uma. Estaline celebrara com Hitler o pacto germano-soviético. Os americanos, apesar dos esforços de Roosevelt, viviam um período de isolacionismo e pensavam em si próprios. Durante anos, a Inglaterra resistiu sozinha. Lutou no ar, no mar, em terra, pronta a defender a sua ilha, cidade a cidade, rua a rua, como disse Churchill no célebre discurso em que proclamou: “Jamais nos renderemos.” Bateram-se pela sua e pela nossa liberdade. Podem ter muitos defeitos, mas esse é um valor que os ingleses sabem preservar. Não creio que alguma vez permitissem que outra instituição que não o seu Parlamento discutisse e condicionasse o seu orçamento. Por isso jamais aprovariam o tratado orçamental. Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre o brexit, os países europeus têm todo o interesse em manter com o Reino Unido uma relação estável e amistosa. Espero, pelo menos, que Portugal se lembre do papel da Inglaterra em momentos decisivos da nossa luta pela independência. E quando alguém tiver a tentação de cálculos mesquinhos, haja quem não se esqueça dos quase quinhentos mil emigrantes portugueses. Se há matéria de política externa em que Portugal deve ter uma posição própria e autónoma, é a das relações com a Inglaterra, que devem ser ditadas pelos laços históricos entre as nossas nações com uma aliança multissecular. Por mim, não esqueço esses anos terríveis em que a Inglaterra se bateu sozinha por uma Europa livre. Por isso, quando alguns pretendem fazer agora o papel de duros, eu tenho vontade de repetir o grito de meu avô e de meu pai: Viva a Inglaterra!

Manuel Alegre

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/convidados/interior/viva-a-inglaterra-8709813.html

“Todas as vidas são falhadas, mesmo aquelas que aparentemente foram mais conseguidas” | Marcello Duarte Mathias com João Céu e Silva in jornal Diário de Notícias

O ex-embaixador Marcello Duarte Mathias é dos poucos diaristas que têm registado a sua visão sobre os acontecimentos do mundo e a sua correspondência em Portugal.

Era, diga-se, porque desistiu de os escrever. No entanto, publicou recentemente um volume, Caminhos e Destinos, em que recolhe alguns dos seus escritos, uma matéria em muito parecida à que imprimia nos diários, tal é a sua mundivisão. Uma entrevista que é um pretexto para perceber a opinião de um “analista” sobre as grandes questões da portugalidade.

“Só acredito nas coisas depois de as escrever.” Não está com uma atitude demasiado radical contra o entendimento do mundo?

Recentemente, citei uma frase da Virginia Woolf que é assim: “As coisas só acontecem verdadeiramente depois de transpostas para a escrita.” Eu acho que isso é muito característico de quem escreve, pois tem uma dupla vida no sentido em que é testemunha de certas coisas, presencia-as, mas ao passar essas realidades para o papel as situações adquirem uma nova realidade. Ou seja, apoderamo-nos do que escrevemos e do que descrevemos. Dou um exemplo exagerado: se vejo uma exposição de um pintor, se escrevo sobre ele, quando me dizem que há uma nova exposição dele não me interessa, porque já vi, escrevi, estudei e disse o que tinha a dizer sobre ele. Portanto, escrever é apoderarmo-nos, tornar as coisas nossas.

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17 de Agosto de 1962: Ao tentar atravessar o Muro de Berlim, Peter Fechter, de 18 anos, é morto, tornando-se uma das primeiras vítimas dos guardas de fronteira da Alemanha Oriental.

No dia 17 de Agosto de 1962, guardas da Alemanha Oriental matam o jovem Peter Fechter, de 18 anos, que tentava fugir saltando o Muro de Berlim em direcção a Berlim Ocidental.
O incidente de 1962 ocorreu quase um ano após o início da construção do Muro de Berlim. Em Agosto de 1961, as autoridades de Berlim Oriental começaram a estender rolos de arame farpado através da fronteira entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental. Apenas em questão de dias, um muro de blocos de betão era erguido, com guaritas de vigilância. Nos meses que se seguiram, mais arame farpado, metralhadoras, holofotes, guardas fronteiriços, minas e barreiras de betão foram postos, separando completamente as duas metades da cidade. Funcionários norte-americanos, ingleses e franceses condenaram a acção do governo da Alemanha Oriental, mas nada fizeram para evitar a construção.

No dia 17 de Agosto de 1962, dois jovens de Berlim Oriental tentaram escalar o muro e passar para o outro lado. Um deles conseguiu escalar e, embora tenha sofrido vários cortes, conseguiu passar para Berlim Ocidental. Enquanto polícias no lado oeste observavam a cena petrificados, o segundo jovem foi alvejado por metralhadoras cujos tiros partiam do lado oriental. O rapaz caiu mas conseguiu levantar-se novamente, alcançar o muro e tentar a escalada. Mais tiros foram ouvidos. O jovem foi ferido nas costas, gritou e caiu de costas no muro. Durante uma hora, permaneceu estendido,  a gritar por socorro.

Uma multidão furiosa de cidadãos berlinenses ocidentais bradava aos homens da segurança oriental para socorrê-lo, porém parecia que estavam contentes em ver o rapaz morrer. Finalmente, ele morreu no próprio local. Os guardas orientais correram então até onde o corpo jazia e removeram-no numa viatura.

Durante a existência do Muro de Berlim (1961 a 1989), cerca de 136 pessoas foram mortas a tentar passar do Leste para o Oeste de Berlim. Os dirigentes da Alemanha Oriental sempre alegaram que o muro foi erguido para proteger o regime e a economia das perniciosas influências da cultura e do capitalismo da Alemanha Ocidental. Os ocidentais respondiam, no entanto, que nos cerca de 30 anos em que perdurou o muro ninguém foi fuzilado tentando entrar em Berlim Oriental.

Em 1997, dois dos guardas que atiraram contra Peter Fechter foram levados a julgamento e condenados por homicídio. Erich Schreiber e Rolf Friedrich tieveram penas de 21 e 20 meses de prisão, respectivamente.

Fontes: Opera Mundi

wikipedia (imagens)

PSEUDO-COISO | Rui Bebiano

Percebo, mas não aceito. Refiro-me à tendência de muitas pessoas para se desculparem por ter ideias, por falar de livros ou de filósofos, por usar conceitos um pouco maios complexos: «não quero parecer intelectual, nem pretensioso». Um dos males do nosso tempo é justamente a tendência para simplificar o conhecimento, ou evitar certo tipo de prática ou de discurso sustentado pela leitura, pelo debate, pelo pensamento, pelo exercício da língua, só para não parecer «intelectual». Ou, como dizem alguns, «pseudo-intelectual». É a ditadura do pragmatismo e da eficiência, para os quais pensar, especular, é pura perda de tempo. Quem não desenvolve o intelecto – o instrumento mais básico do esforço intelectual – pensa e fala com os pés. Partilhar conhecimento, debater as coisas com substância, nada tem a ver com exibicionismo ou arrogância, que são matéria de outro departamento, matéria partilhada por sábios e por asnos. Mas mal vão os tempos em que é preciso escrever isto.

Rui Bebiano

Retirado do Facebook | Mural de Rui Bebiano

16-08-2017 | Governo diz que há mão criminosa nos incêndios em Portugal | in Jornal de Notícias

O secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, afirmou na terça-feira que os fogos que começam à noite e em “lugares estratégicos e cirúrgicos” não podem ser de “mão bondosa”, apontando situações de “criação de incêndios”.

“Estou apenas a constatar o que está a acontecer: e não é às 22:30 que nasce um incêndio em Idanha e que podemos culpar o sol e nem são dois incêndios em Vila de Rei, [ocorridos hoje] depois de [o fogo] estar extinto e que aparecem em locais estratégicos e cirúrgicos, que são de mão bondosa”, afirmou.

O governante falava ao final da noite de terça-feira, no Fundão, concelhos onde desde domingo lavra um incêndio de grande dimensão, que tem dizimado Serra da Gardunha e que começou na madrugada desse dia no Louriçal do Campo, no concelho de Castelo Branco.

Um sítio onde, segundo o secretário de Estado, já se tinham registado, anteriormente, 20 tentativas de incêndios, todas apagadas com sucesso, até que “conseguiram o pretendiam”, referiu.

Sempre sem usar a palavra “incendiário”, Jorge Gomes também considerou estranho o fogo que começou esta noite em Idanha-a-Nova, exatamente quando reunia com os responsáveis do teatro de operações no Fundão, ou ainda os dois incêndios registados em Vila de Rei e que não configuram situações de reacendimento.

Questionado sobre se tais conclusões vão levar a tutela a preparar legislação mais dura para o crime de fogo posto, o governante referiu que importa sensibilizar e chamar a atenção dos cidadãos para os próprios comportamentos e também para aquilo que chamou de “mão menos boa”.

Por outro lado, referiu que os exemplos citados, todos no distrito de Castelo Branco, também demonstram que, “quando há vontade de que as coisas ardam”, por “muito bem organizados e instalados” que os sistemas de proteção estejam, “por vezes não conseguem ter capacidade de resposta”.

Confrontado com as queixas e apelos constantes do presidente da Câmara do Fundão, Paulo Fernandes, relativos à falta de meios e necessidade de um “reforço musculado”, Jorge Gomes garantiu que a Proteção Civil está no terreno com a força máxima, mas também lembrou que “os recursos são finitos” e que, por isso, têm de ser geridos.

Enaltecendo o trabalho feito pelos operacionais, bem como pela autarquia local, apontou o comportamento deste fogo e as constantes mudanças de direção como uma das causas para a intensidade que atingiu.

Adiantou ainda que este incêndio tinha cerca de 600 operacionais envolvidos no combate, já provocou 12 feridos, todos ligeiros e oito dos quais bombeiros, mas salientou que nenhuma situação inspira cuidado.

Retirado do Facebook | Mural do Jornal de Notícias

http://www.jn.pt/nacional/interior/governo-diz-que-ha-mao-criminosa-nos-incendios-em-portugal-8708225.html

Trump and his friends cannot hear the dead who are crying to be heard. Can you? | Richard Zimler

418,000 American women and men died in World War II, most of them while fighting fascists, ultra-nationalists, Nazis and neo-Nazis. To speak of neo-Nazis and Nazis and KKK members marching in Charlottesville as having a valid and legitimate “philosophy” and value system – equal to those who oppose them – is an insult to all those dead American soldiers who fought to liberate France, Italy, Germany and the rest of the Europe. Yes, Trump has insulted 418,000 dead American soldiers and their families and friends, as well as everyone else, like me, who greatly respects and thanks the sacrifice they made. It is also an insult to every African-American and Jew. Tens of millions of Africans were tormented and tortured as slaves from the early 1600s up until the end of the Civil War, and then, after they were granted freedom, persecuted and hounded by White nationalists and even the police right up until the present day. Every American who died in World War II and every lynched African American and every Jew murdered in the Holocaust is telling us us that there is no place in America for neo-Nazis, Nazis, KKK segregationists and White Nationalists. Trump and his friends cannot hear the dead who are crying to be heard. Can you?

Retirado do Facebook | Mural de Richar Zimler

FRAGMENTO 694 DO “LIVRO DE EROS” | IMAGEM DE MODIGLIANI | Casimiro de Brito

A mulher, embora queiram fazer dela
um jardim, é uma floresta que não pertence 
a ninguém. Res nullius. E o seu sexo,
embora o queiram preencher em cada momento,
é para sempre um locus neminis, um lugar
de ninguém. De passagem, sim: eu passei por lá,
quando nasci
e ficaram saudades, e por isso regresso
sempre que posso. Afável, acolhe-me; outras vezes
fecha-se ou morde e não me deixa morrer no paraíso.
Que bom saber tão pouco do seu mistério
e viver à sombra desta delicada ignorância!
E porque não sei, e porque não aprendi
e não me podem ensinar,
vou sempre regressando em busca desse graal
infinitamente perdido
em lugares inóspitos e outras vezes
amenos: na mais delicada
das florestas. Ou é
um jardim?

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito