TERRATENENTES | António Galopim de Carvalho

Num regime de propriedade como ainda é o do Alentejo, de “terra pouca para muitos, terra muita para poucos”, como cantou Manuel Alegre, em 1996, ou de “muita terra a dividir por poucos”, como escreveram José Mattoso e Suzanne Daveau, em 1997, terratenente (do latim terra, com igual significado, e tenentis, particípio presente do verbo teneo, -ere, que significa ter, possuir), palavra hoje pouco usada, era o nome que então se dava aos proprietários de muitas terras ou, como hoje se vulgarizou dizer, o latifundiário ou agrário.
De grande influência socioeconómica local, inclusivamente, na administração, os terratenentes dominavam parte importante da vida da cidade, inclusive na administração.


Na continuação do chamado “Direito de Pernada” ou “Direito da Primeira Noite”, atribuído aos suseranos feudais, era voz corrente, nunca declaradamente confirmada, que um ou outro destes senhores da terra praticavam impunemente esta tradição. Falava a minha mãe de um rico lavrador eborense que, para satisfação da sua líbido, procurava adolescentes, ainda virgens, filhas de famílias muito pobres e a viverem nas suas terras. Meia dúzia de contos de réis era, dizia-se, a quantia combinada com a mãe da donzelinha para conseguir esse favor. Falava-se então do “preço da borrega”, sendo que “borrega” era o nome pelo qual se referia a menina alvo desta iniquidade.


É evidente que esta história, a ser verdadeira, não qualifica esta classe sócio-económica que, na cidade, está evocada numa das coplas da Revista Musical “Palhas e Moinhas”, da autoria de João de Vasconcelos e Sá, levada à cena no Teatro Garcia de Resende, em 1936.


«Que seria de vós, Murteiras e Rosados
Alves, Potes, Calhaus, sem porcos nem montados?
Que seria de vós, Piteiras e Fernandes,
Se os porcos que criais não se fizessem grandes?
E que serieis vós, Queirogas, Ervideiras,
Sem paios, salsichões, chouriços, farinheiras?

Retirado do Facebook | Mural de António Galopim de Carvalho

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