A vida de Bocage: sátira, censura, pobreza | Autor: Adelto Gonçalves | por Ademir Demarchi

Para investigar a vida de Bocage em suas minúcias, Adelto Gonçalves percorreu todas as biografias e estudos importantes sobre o autor.

I

“Bocage, alistado na Marinha, cursou a respectiva Academia, embarcou para a Índia, foi boêmio no Rio de Janeiro, passou três anos em Goa e Damão, desertou fugindo para Macau, regressou a Lisboa, onde a vida livre e as sátiras o atiraram para a prisão e o hospício. Morreu doente e pobre, traduzindo nos seus versos a sua vida e o seu tempo”.
Essa síntese da vida de Bocage (1765-1805), feita no prefácio de Bocage, o Perfil Perdido pelo professor catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, Fernando  Cristóvão, bem caberia em similaridade àquela feita por Nabokov sobre um personagem no início de seu romance Gargalhada na escuridão, em relação à qual o escritor russo acrescenta: “Eis aí toda a história, e bem poderíamos abandoná-la neste ponto, se não houvesse vantagem e prazer em contá-la. Embora haja espaço mais do que suficiente numa pedra tumular para conter, encadernada em musgo, a versão re sumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem recebidos”.
É o que faz o professor e escritor Adelto Gonçalves ao investigar a vida de Bocage em suas minúcias, percorrendo todas as biografias e estudos importantes sobre o autor, cotejando e contrapondo-os às suas novas descobertas e correções oriundas de exaustivas pesquisas em arquivos e fontes primárias como trabalho de pós-doutoramento na Universidade de São Paulo (USP), que teve sua primeira edição em 2003, em Portugal, pela Editorial Caminho, de Lisboa, e que agora sai em nova edição, com excelente projeto gráfico e ilustrações, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
A vida do poeta português, propagandeada pelo senso comum como “agitada e de boemia” em geral para promover seleções mais vendáveis de sua poética, se decompõe nessa biografia quando a acompanhamos inserida em detalhes na sociedade da sua época histórica e cultural que, agitada e contraditória, se expressa na obra de Bocage transitando do neoclassicismo das Arcádias aos primeiros momentos do romantismo.

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A CANÇÃO DA VIDA | Mário Quintana

A vida é louca

a vida é uma sarabanda

é um corrupio…

A vida múltipla dá-se as mãos como um bando

de raparigas em flor

e está cantando

em torno a ti:

Como eu sou bela

amor!

Entra em mim, como em uma tela

de Renoir

enquanto é primavera,

enquanto o mundo

não poluir

o azul do ar!

Não vás ficar

não vás ficar

aí…

como um salso chorando

na beira do rio…

(Como a vida é bela! )

2 | Poesia | Zeca Afonso

Amigo

Maior que o pensamento

Por essa estrada amigo vem

Não percas tempo que o vento

É meu amigo também

Em terras

Em todas as fronteiras

Seja bem-vindo quem vier por bem

Se alguém houver que não queira

Trá-lo contigo também

Aqueles

Aqueles que ficaram

(Em toda a parte

todo o mundo tem)

Em sonhos me visitaram

Traz outro amigo também

1 | Poesia | Luís Vaz de Camões

Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Os Lusíadas, (Canto IX, 83)

Luís Vaz de Camões

 Eduardo Fontes | a poesia como evocação da infância | por Adelto Gonçalves 

Poeta faz com versos nada herméticos uma viagem ao tempo da inocência

     I
            Para comemorar o centenário de seus pais, os poetas Humberto Pinheiro Fontes e Maria do Carmo Alencar Oliveira Fontes, ambos nascidos em 1917, o poeta cearense Eduardo Fontes lançou Devaneios (Fortaleza, Editora Expressão Gráfica, 2017), seu 17º livro, que traz prefácio de Anderson Braga Horta, da Associação Nacional de Escritores (ANE), de Brasília, e ilustrações do artista plástico Descartes Gadelha. Poeta bastante conhecido no Nordeste, talvez porque em seus versos nada herméticos e extremamente líricos sempre se mostrou muito preocupado em exaltar suas origens, Fontes, mais uma vez, confirm a sua opção por uma simplicidade que faz evocar nos leitores os anônimos menestréis de tempos mais amenos.

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Heterónima e outras demonstrações | Amélia Vieira – 28 Jul 2016 (publicado em Macau Hoje)

VII-1

«A heterónima Pessoana não nasce apenas da multiplicidade do carácter ou de uma forma de fugir a uma Lisboa enfadonha no início do século vinte que, por acaso, até nem o era, dado o clima efervescente da Primeira República onde todas as viragens sociais e culturais se davam à velocidade do vapor. Essa tese cai por terra de tão inexacta que é. Em nós, não cabem, não -todos os sonhos do mundo – muito menos temos a elasticidade mimética de ser conforme a circunstância. Há, sem dúvida, componentes que fazem um homem mais vibrátil na multiplicação de si mesmo. Mas o que a uns parece do efeito da quimera e do desdobramento da personalidade, pode neste caso ter outras origens bem mais profundas.

Pessoa é originário da Covilhã e de um ramo bastante circunscrito. Sabendo-se da sua descendência familiar que partia de cristãos-novos referenciados, ora existe ainda um ramo remoto que vem das duas filhas de António José da Silva, judeu relapso: uma fugida para os Países Baixos de onde não mais regressaria e outra que vivera escondida dentro de casa para o resto da sua vida. É desta que o ramo é descendente. Para se viver, para se ter subsistido, foram precisas muito mais que análises vãs e, para se ter desembocado em Pessoa, foi preciso também muito mais que uma imaginação torrencial, inspiração, génio e “jeito”. Foi ainda preciso ter nas veias aquela plasticidade de saber que mudar de nome, ter vários nomes, até formas de expressão, fazia parte de uma camuflagem em prol da resistência e do salvar a vida. Aqui chegados, e caso os inimigos sejam só fantasmas, a memória nem por isso se torna um elo morto. E foi nesta imensa componente toldada de segredos que ele se deslinda, acrescentando à necessidade a arte de transformar o medo, a arte pura. Aliás, grandes obras nascem destes caminhos que, depois de aparentemente solucionados, libertam para outra área elevando os mesmos argumentos.

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Adalberto de Queiroz: vozes do passado em versos | por Adelto Gonçalves (*)

Poeta faz da evocação da mãe que não teve a música inominável de sua poesia

                                                         I
            Em poucos poetas antigos ou modernos brasileiros (para não se dizer nenhum), a evocação da mãe é tão presente e tão luminosa como em Adalberto de Queiroz (1955), que foi educado como órfão em abrigo de Anápolis, no interior de Goiás, de onde saiu só em 1973 para cursar Física na Universidade Federal de Goiás (UFG). Poeta, jornalista e ensaísta, Queiroz, em 2021, lançou a segunda edição, revista e repensada, de Cadernos de Sizenando, publicado em 2014, livro de poemas que “saem da angústia para o enfrentamento da realidade”, como definiu no pref&a acute;cio o escritor Iúri Rincon Godinho, membro da Academia Goiana de Letras.
            Godinho explica que, a pedido do autor, para a segunda edição da obra, retirou os textos em prosa poética da primeira, deixando apenas os poemas, garantindo que o material que ficou de fora “merece outro livro”. Tanto os textos em prosa poética quanto os poemas haviam sido publicados inicialmente em um blog (http://www.betoqueiroz.com) que Adalberto de Queiroz ainda mantém na internet. Como diz Godinho com percuciência, se ele, como editor do texto, tivesse tirado também todos os poemas e deixasse apenas aquele que tem por título “É a Mãe” o livro já valer ia a pena ser lido.

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O Que Há Em Mim É Sobretudo Cansaço | Poema de Fernando Pessoa com narração de Mundo Dos Poemas

Fernando António Nogueira Pessoa (1888 — 1935) foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Um dos maiores génios poéticos de toda a nossa Literatura e um dos poucos escritores portugueses mundialmente conhecidos. A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século XX. Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da Vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.

A PAZ | SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN | por Casimiro de Brito

AQUI HÁ UNS ANOS FOMOS CONVIDADOS, EU E A SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, PARA FAZER UM RECITAL NO KING’S COLLEGE (LONDRES). EIS UM DOS POEMAS QUE LI E A SUA TRADUÇÃO POR JONATHAN GRIFFIN, E QUE DEPOIS FOI INCLUÍDO NA BELÍSSIMA ANTOLOGIA “CONTEMPORARY PORTUGUESE POETRY”. VOU ILUSTRÁ-LO COM A GUERNICA, DE PICASSO.

A PAZ

Se eu te pedisse a paz, o que me darias

pequeno insecto da memória de quem sou

ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,

a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,

a voz limpa dos frutos, o que me darias

respiração pausada de outro corpo

sob o meu corpo?

Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda

do meu exílio. Perdoa-me se não te peço

a paz. Apenas pergunto: o que me darias

em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?

Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha

para nele gravar o teu nome junto ao meu?

Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,

no centro do coração?

Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,

o teu corpo de cinza. Falo de mim,

entrego-te o meu destino. E a morte vivo

só de perguntar-te: o que me darias

se te pedisses a paz

e soubesses de como a quero construída

com as matérias vivas da liberdade?

(in Jardins de Guerra, 1966)

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John Donne | Poema “O êxtase” | Tradução de Augusto de Campos

“The ecstasy”

Where, like a pillow on a bed,
A pregnant bank swell’d up, to rest
The violet’s reclining head,
Sat we two, one another’s best.

Our hands were firmly cemented
By a fast balm, which thence did spring ;
Our eye-beams twisted, and did thread
Our eyes upon one double string.

So to engraft our hands, as yet
Was all the means to make us one ;
And pictures in our eyes to get
Was all our propagation.

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DESPEDIDA | Cecília Meireles

Por mim, e por vós, e por mais aquilo

que está onde as outras coisas nunca estão,

deixo o mar bravo e o céu tranquilo:

quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.

E como o conheces? – me perguntarão.

– Por não ter palavras, por não ter imagens.

Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.

Viajo sozinha com o meu coração.

Não ando perdida, mas desencontrada.

Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.

Voou meu amor, minha imaginação…

Talvez eu morra antes do horizonte.

Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.

(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!

Estandarte triste de uma estranha guerra…)

Quero solidão.

Adeus Senhor António | Texto de Fernando Pessoa com narração de Mundo Dos Poemas

Ouve-se, encantamo-nos … e choramos. É impossível não chorar! [vcs]

Único texto conhecido do heterónimo esquecido de Fernando Pessoa “Maria José”, cujo nome conhecido é “Carta Da Corcunda Para o Serralheiro”.

Fernando Pessoa criou 46 pseudónimos e autores fictícios mas só um era mulher, Maria José, corcunda e patética, figura nada atraente, imagem que o poeta também tinha de si. Fernando António Nogueira Pessoa (1888 — 1935) foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Um dos maiores génios poéticos de toda a nossa Literatura e um dos poucos escritores portugueses mundialmente conhecidos. A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século XX. Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da Vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.

Carolina | A Esposa de Machado de Assis | in Brazil Imperial

A Portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novaes (1835-1904) foi esposa do escritor Brasileiro Machado de Assis de 1869 a 1904, ano da morte de Carolina.

Eles se conheceram por intermédio do irmão de Carolina, o poeta Faustino Xavier de Novaes, após ela se mudar de Portugal para o Rio de Janeiro, aos 32 anos, cinco a mais do que Machado. No período, era incomum uma mulher solteira com essa idade, mas a decisão, nesse caso, era da própria Carolina, a quem sobravam pretendes. A portuguesa é descrita por Miguel-Pereira como “mulher feita, inteligente, desembaraçada, senhora de si, habituada, na casa paterna, ao trato dos intelectuais”.

O namoro foi reprovado pela família de Carolina, pertencente à elite intelectual, enquanto Machado ainda não tinha grande reconhecimento social – na época, escrevia para jornais e trabalhava no Diário Oficial – e, mais importante, era mulato.

“Na hierarquia social, Carolina se uniu, por escolha própria, a alguém de nível abaixo. Ela foi determinante para que ele tivesse estabilidade emocional e também transitasse entre intelectuais”, diz Luís Augusto Fischer, professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor do livro Machado e Borges (Arquipélago).

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Roberto Manzano Hernandez, “Balance”, 2010, white marble sculpture, private collection.

“LEAVE MY hands free

and the heart, set me free!

let my fingers run

through the pathways of your body.

The passion —blood, fire, kisses—

It burns me with tremulous flames.

Oh, you do not know what this is!

It is the storm of my senses

bending the sensitive jungle of my nerves.

It is the meat that screams with its fiery tongues!

It’s the fire!

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Arquitectura | Óscar Niemeyer

Na folha branca de papel faço o meu risco.

Retas e curvas entrelaçadas.

E prossigo atento e tudo arrisco na procura das formas desejadas.

São templos e palácios soltos pelo ar, pássaros alados, o que você quiser.

Mas se os olhar um pouco devagar, encontrará, em todos,

os encantos da mulher.

Deixo de lado o sonho que sonhava.

A miséria do mundo me revolta.

Quero pouco, muito pouco, quase nada.

A arquitetura que faço não importa.

O que eu quero é a pobreza superada,

a vida mais feliz, a pátria mais amada

Poema | Verão sobre o corpo | Maria Isabel Fidalgo

O verão há de durar sobre o meu corpo

sobrepor-se ao inverno e aos temporais

porque o amor abrasa a água,

incendeia de sol os meus olhos de outono,

revigora de verde as vinhas de setembro

a sonharem com a espuma do vinho

nas vestes das parras.

Será verão quando escreveres versos no mar da salvação

para que Romeu e Julieta renasçam do inefável silêncio

e  repitam as palavras salvíficas:

“Não sei como vieste, mas deve haver um caminho para regressar da morte”

A Noite na Ilha | Pablo Neruda

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.

Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

0 teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
— pão, vinho, amor e cólera —
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.

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Maria Isabel Fidalgo | Poema dos sete beijos

Dá- me sete beijos de papel em folha de papiro com laço de seda que bem mereço.

Não perguntes deste meu desejo irreal a que chamarás absurdo.

Sabes que vivo de ilusões

e de sonhos de impossibilidade ilimitada.

Só por isso sobrevivo na grande nave do mundo sem precisar de ir ao espaço.

Sete beijos em papel de papiro

e uma taça de champanhe para comemorar a audácia de os ler

com o estrondo da garrafa que embebede de espuma a fita de seda

e a boca que houver.

Poema | Maria Isabel Fidalgo

Não me firas com o teu silêncio.

Enche com os teus  olhos de  ausência os meus olhos de pássaro.

Traz- me a leveza das tuas mãos que tão breves partiram sem aceno.

Clama pelo meu nome como se a primeira estrela fosse a noite com o teu rosto.

Não me castigues de catos.

Traz- me rosas sobre os lábios e pica-me de beijos que sangrem.

Afasta a solidão e traz o teu silêncio.

Pousa-o sobre  a leveza do meu corpo e seremos um oásis manso de paixão.

Vem e faz- me acreditar que o sol ainda arde na labareda da fome.

MIF

Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca… o eco dos teus passos…

O teu riso de fonte… os teus abraços…

Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…

Quando os olhos se me cerram de desejo…

E os meus braços se estendem para ti…

——

Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”

Florbela Espanca (Vila Viçosa8 de dezembro de 1894 — Matosinhos8 de dezembro de 1930), batizada como Flor Bela Lobo, e que opta por se autonomear Florbela d’Alma da Conceição Espanca, foi uma poeta portuguesa. A sua vida, de apenas 36 anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos, que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotizaçãofeminilidade e panteísmo. Há uma biblioteca com o seu nome em Matosinhos.

Bocage, a vida passada a limpo | Adelto Gonçalves | por Hugo Almeida

Bocage, a vida passada a limpo

Em pesquisa de grande fôlego, o escritor e pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves recuperou dados da vida e obra, muitos antes inéditos, de Manuel Maria Barbosa du Bocage, o poeta que sonhava ser um novo Camões

Por Hugo Almeida

                                                 I

Com outras palavras, Jorge Luis Borges disse na apresentação de Vidas imaginárias, de Marcel Schwob, que a trajetória de uma pessoa está contida naquele tracinho que liga a data de nascimento à de morte. Ou, como escreveu Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.De certa forma, é isso que o escritor e pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),mostra na biografia de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805),Bocage, o perfil perdido (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2021).

Em pesquisade impressionante fôlego, paciente,minuciosa,riquíssima em documentação inédita,Gonçalves recompôs em 520 páginasos 40 anos da vida intensa, agitada e contraditória do poeta que não realizou o sonho megalomaníaco de ser um novo Camões, mas entrou para a história da literatura portuguesa. O livro já havia sido publicado em Portugal em 2003 e foi aplaudido pela crítica especializada.

No prefácio da edição brasileira, Fernando Cristóvão, professor catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, resume em um parágrafo quem foi o poeta: “Bocage, alistado na Marinha, cursou a respectiva Academia, embarcou para a Índia, foi boêmio no Rio de Janeiro, passou três anos em Goa e Damão, desertou fugindo para Macau, regressou a Lisboa, onde a vida livre e as sátiras o atiraram para a prisão e o hospício. Morreu doente e pobre, traduzindo nos seus versos a sua vida e o seu tempo”. Cristóvão ressalta a importância de Bocage, o perfil perdido: “Foi para historiar e elucidar as contradições e lances da biografia do poeta que Adelto Gonçalves se abalançou a uma pesquisa aturada e sistemática, de que esta publicação dá conta”. E completa: “O excelente trabalho de agora vai desde o traçado da árvore genealógica da família de Bocage até ao final dos seus dias, facultando-nos abundante documentação”.

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Adieu | Poèsie – Ines Hayouni | SILA 2022

Contempler ton cortège funèbre un beau jour d’été

J’attendais impatiemment ta belle arrivée

Les nobles soldats portaient ton tombeau fleurdelisé

Quel rêve fantasmagorique de voir ton corps endormi

Enveloppé dans ce beau linceul

De ta gentillesse, le monde s’est appauvri

L’odeur de camphre caresse mes narines

Et apaise mon cœur affaibli

Les anges t’ont bercé jusqu’à la méridienne

J’appréhendais notre rencontre

Mais notre séparation m’a laissée sereine

Un contentement trompeur a pris le relais de ma peine

Prologue d’une douleur à en perdre haleine

Solha: a história da Humanidade num poema | por Adelto Gonçalves

I 

Depois de publicar, em 2019, Vida Aberta (São Paulo, Editora Penalux), o romancista, poeta, cordelista e ator de teatro e cinema W. J. Solha (1941) chega com 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite (Cajazeiras-Paraíba, Arribaçã Editora, 2021), ao quinto volume de seu Tratado Poético-Filosófico, de seis que pretende publicar. Trata-se da continuação de um longo poema em versos livres, um discurso utópico, em que procura reconstituir a história da Humanidade e seus muitos saberes e numerosos fracassos.  

Poeta que sempre operou a anarquia nos gêneros, espécies e formas literárias como maneira de se libertar do peso da tradição que sempre impediu que se fizessem voos mais altos e abertos para a intuição, Solha volta a fazer a junção do popular com o erudito, exigindo de seu leitor um conhecimento profundo não só de Literatura e Filosofia como de fatos que marcaram a vida no planeta, com citações que vão desde o Evangelho de João até Machado de Assis, passando por Descartes, Santos Dumont, Frida Khalo, Salvador Dali, Mozart, Caravaggio, Bela Bartok, Shakespeare, Charlie Chaplin, Freud, Stendhal, Tolstoi, Darwin, Gilberto Gil, Gal Costa, Ivete Sangalo e muitos outros nomes representativos da cultura mundial e nacional. 

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Veuve | Ines Hayouni

Ils se sont dits oui
Pour le meilleur et pour le pire
Elle a passé des décennies à pleurer
C’est dans leur lit conjugal
Qu’elle se verra croupir
Elle maudit le jour
Où elle avait accepté
De vivre avec l’homme
Qu’elle avait tant aimé
Elle n’avait qu’une idée en tête
Celle de déguerpir
Mais les bons moments l’en empêchaient
Il ne passe pas un jour
Sans qu’elle pousse de fourbus soupirs
Elle en avait gros sur le cœur
Personne ne pouvait le nier
Elle se plaignait tous les jours à son seigneur
Il a fini par être fatigué de l’écouter
Alors pour mettre fin à son malheur Il tua son mari

Casimiro de Brito | DOZE FRAGMENTOS DO MEU “LIVRO DE EROS OU AS TEIAS DO DESEJO”, TÃO MÍNIMOS QUANTO POSSÍVEL E A IMAGEM DA CAPA DO MEU LIVRO (UM FRESCO DE POMPEIA)

1

A morte não existe. Tudo é sexo e canto.
7

Razão? A razão? Que razão? Estou apaixonado.
27

O sexo é um festim; amar, uma cerimónia.
30

Amor, que amor o de quem o vive sem a lâmpada da loucura?
37

Eros, um deus? Com saudáveis pés de barro.
57

Ela nunca se lavava depois de fazermos amor. Levo-te comigo, dizia.
62

A separação é um deserto quando um só grão de areia já seria dor bastante.
64

A arte de amar, sem ti, não me serve para nada.
86

A paixão (essa que tanto dói) é o golpe de graça do amor.
102

As mil e uma noites – a noite que passei contigo.
108

Amando, separo o bem do mal. Ainda não aprendi a amar.
125

Dói. Dói muito. Mas temos ainda espaço para a dor maior, a do amor.

Poema à Mãe, de Eugénio de Andrade

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

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Solitude | Ines Hayouni

 Ne compte sur personne 

Tu es seul

Du matin à la nuit 

Des voisins aux amis

Ne compte sur personne

Tu es seul

Tu es né seul et tu mourras seul

Du sein nourrissant à l’inévitable linceul

Ne compte sur personne

Tu es seul 

Profite des présents de la vie 

Ne donne pas d’importance aux moments un peu moins jolis

Tu es le seul responsable de ta survie

Fumoir | Ines HAYOUNI

Il était là Sous la trochée de la lanterne

Cette rue lugubre et apatride

Devenue le fumoir de la morose baderne

La gorge nouée

Un amalgame d’angoisses et de regrets macramés

Un regard mouillé

Lorsqu’il repense à son desiderata assassiné

Ses cernes couleurs de lilas

Apportent un peu de vie

À la vie qui n’est plus là

Une vie partie en fumée

Tout le monde le désertera

De toutes les cigarettes qu’il a allumées

Il pense que la dernière le consolera

“Não esqueças o meu nome” | Maria Isabel Fidalgo | Poética Edições

Um nome é uma eternidade mesmo no silêncio,

quando as aves não regressam à árvore e a noite se fecha.

Digo o teu nome, uma sílaba, e uma cascata de luz consubstancia a verdade.

Sal de lume, se te chamo, mais alto que os voos, o teu nome.

Maria Isabel Fidalgo, in “Não esqueças o meu nome”, Poética Edições.

Adelto Gonçalves | Bocage: uma história agora contada com primor | por Silas Corrêa Leite

Lançado em Portugal em 2003, o livro ganhou a sua edição brasileira em 2021 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

                                                           I

            Pelo que me lembro, na minha chamada memória recorrente desde priscas eras de atiçado buscador e ledor voraz, Bocage era e ficava entre um Pedro Malasartes  (figura tradicional nos contos populares da Península Ibérica, tido como burlão invencível, astucioso, cínico, inesgotável de expedientes, de enganos, sem escrúpulos e sem remorsos) e um Casanova (Giacomo Girolamo Casanova, escritor e aventureiro italiano, tendo interrompido as carreiras profissionais que iniciou — a militar e a eclesiástica — e que passou a levar uma vida aventurada), em terras de Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, muito antes ainda de José Saramago, portanto. Tinha-o como um boêmio aprontador em terras lusas de Cabral e de Pero Vaz Caminha.

            Lendo agora Bocage, o perfil perdido, que virou clássico da obra-pesquisa-documentário do mestre e doutor Adelto Gonçalves, depois de levar tempo para lê-lo, tal o peso do livraço e a densidade do historial enquanto pesquisa e documentário também, posso dizer que tive uma universidade de mais de ano inteiro sobre o poeta. Afinal, um curso e tanto, um livro precioso, com aulas magnas desse que já é escritor esmerado de tantos outros portentosos livros, que tive o prazer de ler, curtir e gostar, e até me mesmo fazer aqui e ali breves resenhas.

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Maria João Cantinho e a arte de esculpir poemas | por Adelto Gonçalves

                                                 I

       Autora consagrada na área ensaística, especialmente com livros sobre o filósofo e sociólogo alemão Walter Benjamin (1892-1940), Maria João Cantinho (1963) chega ao seu quinto livro de poemas com Escopro e Luz (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2021), afirmando-se como uma das maiores poetisas (e por que não poetas?) da Língua Portuguesa dos séculos XX e XXI. Mas isto não significa que atue de maneira independente numa e noutra área do pensamento.

            Pelo contrário. Em sua poesia, percebe-se o desencanto da poetisa com o mundo em que lhe coube viver, como se visse a História pelas lentes de Walter Benjamin que, em sua crítica ao progresso, prognosticara períodos de crescimento seguidos de outros de barbárie e selvageria, antevendo o retrocesso europeu e norte-americano dos tempos atuais, o que inclui também a época de desconstrução e desagregação social por que passa o Brasil de hoje.   

            Como já anteviu o professor José Cândido de Oliveira Martins, da Universidade Católica Portuguesa, em alentado e percuciente ensaio-introdutório de 12 páginas escrito à guisa de prefácio, a palavra poética de Maria João Cantinho “tem o misterioso poder de ajudar a cicatrizar a ferida aberta, regenerando e revitalizando o corpo sofrido, assim plasmado no corpo do poema ou da poesia”. Afinal de contas, diz o professor, são estas vozes (da poesia, das lembranças da infância ou de outras proveniências) que nos resgatam da iminência do naufrágio – “São as vozes que nos salvam”.

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POEMA 128 DO LIVRO INÉDITO “NA FLORESTA DO MÍNIMO” | Casimiro de Brito

Amo as mulheres: são belas

e sangram. Foram feridas por deuses

que já não existem. Sim,

elas descendem dos deuses cantados por Hesíodo!

Sal, espuma, resinas! E por igual

as amo

quando já não sangram: porque têm

do sangue

a suave memória. E então a sua ferida

é mais doce ainda: mel, perfumes,

especiarias!

Borges, Cristina e a poesia cotidiana Beth Soares

A poesia já me salvou muitas vezes. Salvou-me, inclusive, da vontade de não escrever, sintoma que sempre indica coisa ruim, já que esta é a tarefa que mais me aproxima do que entendo por Deus. Falo de todo tipo de poesia. Daquela da vida cotidiana, que se esconde nos pormenores do mundo. Disfarçada de seu prato predileto, feito por uma amiga num dia despretensioso. Revelada na foto de um amigo, de tirar o fôlego pela beleza. Embalada pela prosa num comentário sensível ou numa mensagem de voz emocionada sobre algo que a gente escreveu. Ela está também na sabedoria de um pai que, do outro lado do oceano, diz a uma filha: “Não se preocupe. O Bem sempre encontra um jeito de chegar aos justos”.

A poesia sempre me pega de surpresa nas madrugadas. Acho que é nestas horas que ela anda por aí a nos espreitar pelos silêncios, pelas reflexões que chegam abraçadas à insônia. Quando o sono não vem – seja pela ansiedade por algo bom, seja pela preocupação com algo ruim – torno-me mais sensível aos sons, cores e acontecimentos comuns. E foi justo num desses dias pós-insônia que recebi o texto do escritor angolano José Eduardo Agualusa das mãos da professora Cristina. Nele, Agualusa dá voz ao escritor argentino José Luis Borges, falecido em 1986, tornando-se uma espécie de ‘médium’ e permitindo que Borges relate-nos como tem sido sua experiência no paraíso: “O Paraíso é pensar”, diz. O texto nos leva a uma reflexão sobre o mundo dos livros hoje e sobre a importância das pequenas editoras, com sua luta ingrata para que a literatura seja preservada. E termina: “A beleza é ingrata. E, contudo, é a beleza”. Diante daquele presente-poesia no meu primeiro dia de aulas em terras estrangeiras, deixei correr uma emoção aliviada. Aquela manifestação poética, para mim, era a confirmação de que eu estava há milhares de quilômetros da minha casa, da minha família, dos meus amigos e dos meus gatos, mas era exatamente onde eu deveria estar.

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“Apelo” | Carlos Drummond de Andrade

Em 1965, a jovem Nara Leão, então com 23 anos, dá uma entrevista por telefone a um jornal brasileiro em que critica duramente o regime militar ditatorial acabado de instalar: “Sou contra militar no poder. Considero os exércitos, no plural, desnecessários e prepotentes.” A censura ainda não tinha sido instaurada no país e a musa da Bossa Nova, que deve conhecer do clássico “João e Maria”, enfrentava a ameaça de prisão e tortura. Mas não vacilava: “Não mudo de opinião.” O poeta modernista Carlos Drummond de Andrade, que nem a conhecia pessoalmente, escreveu então um poema ao marechal-ditador Castelo Branco que mandou publicar nos jornais.

É assim: 

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FELIZ NATAL | 24.12.2021

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
– Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa… em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

FLORBELA ESPANCA

Laissons-nous bercer par l’écume des jours, mon amour … | Hanane Trinel

Sans clepsydre, ni sablier, sans horloge, ni pendule, sans attendre le crépuscule, Amira s’inquiète de l’heure, elle l’observe.

Son visage adoré est son cadran solaire.

Hélas, elle le vois qui lui annonce que le rêve, aussi sublime fut-il ces deux dernières semaines, s’est déjà achevé, qu’il va devoir se lever, se rhabiller, son bagage boucler, qu’il va l’embrasser, et puis, encore une fois, à mille lieues d’elle, être obligé de s’en retourner.

Il es allé, son magicien, ce soir-là, jusqu’à prendre au mot cette phrase de Boris VIAN qu’elle lui avait envoyée, si innocemment :

« Je voudrais que tu sois là

Que tu frappes à la porte

Et tu me dirais c’est moi

Devine ce que j’apporte

Et tu m’apporterais toi. »

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Guardador de Rebanhos | Fernando Pessoa | Poesia Portuguesa II | Mário Viegas

Mário Viegas ironiza sobre a “popularidade” de Fernando Pessoa, escritor e poeta da primeira metade do século XX; Mário Viegas conversa com “Fernando Pessoa” (personagem interpretada por Mário Viegas) sobre a sua personalidade e obra; 41m50: Mário Viegas declama 10 poemas do livro “Guardador de Rebanhos ” de Alberto Caeiro, acompanhado por António Marques à flauta e a interpretação de Rui Miguel, ator; reconstituição do quadro “Retrato de Fernando Pessoa” de José Almada Negreiros.

Soliloques | Kateb Yacine

CE QU’EN DIT L’ÉDITEUR – Je suis étudiant. Mais je n’ai pas envie de continuer. Je voudrais écrire.  – Ah, ça tombe bien, moi je suis imprimeur. Apporte moi tes poèmes.”

Cet homme extraordinaire, mon premier éditeur, s’appelait Carlavan. Il était en faillite, après avoir dirigé l’imprimerie du Réveilbônois, journal du soir à Annaba. Commeil lui restait un stock de papier, il a décidé de finir en beauté, en publiant un jeune poète inconnu.

C’est ainsi qu’il a imprimé “Soliloques” en mille exemplaires qu’il m’a remis, sans rien me demander en échange. Ces poèmes de jeunesse datent de presque un demi-siècle. On y retrouve deux thèmes majeurs : l’amour et la révolution, dans une première ébauche de l’œuvre qui allait suivre. En un mot, “Soliloques”, ce n’est pas encore Nedjma, mais c’est son acte de naissance.” Extrait de l’introduction de Kateb Yacine, écrite quelque temps avant sa mort.

Poema escrito por Mário Soares a Maria Barroso, em 1962, quando se encontrava detido na prisão do Aljube.

Para ti

Meu amor

Levanto a voz

No silêncio

Desta solidão em que me encontro

Sei que gostas de ouvir

A minha voz

Feita de palavras ternas e doces

Que invento para ti

Nos momentos calmos

Em que estamos sós

Sei que me ouves

Agora…

… uma vez mais

Apesar da distância

E do silêncio

Opera esse milagre

Simples

Como tudo o que é natural.

[Na fotografia: Mário Soares e Maria Barroso em 1958]

Parles moi d’amour… | Hanane Trinel

Une amie m’a dit ce soir, je te donne un royaume pour une jolie histoire ! J’ai envie d’amour, j’ai envie de sexe, j’ai envie de bonheur.

Ma vocation serait donc donner du bonheur ?! Pourquoi pas.

Et là, la troisième se fâche.

 Paler de sexe ne choque plus personne ?! Mais nous marchons sur la tête !

Et alors ? Il en faut de peu pour que certains partagent la même couche. Et ce n’est pas les sites de rencontres qui vont me contredire, il faut bien que le corps exulte chantait déjà le grand Jacques , il y’a près d’un demi-siècle.

Oui mais parler de sexe, parler d’amour,  exposer la chose au grand jour, vraiment, ça ne se fait pas ! Et puis, nous  devons réserver ces mots à l’unique, le seul !

Les hommes le font bien eux ! Ils chantent, peingnent, écrivent bien leurs fantasmes, leurs désirs, l’amour selon eux !

Mais les hommes ont toujours préféré ces femmes-là Hanane !

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«Bucólicas» de Vergílio | Frederico Lourenço

Saiu hoje a minha edição das «Bucólicas» de Vergílio. É difícil encontrar palavras para dizer quanto estou grato pelo cuidado esmerado com que o livro foi concebido por Francisco José Viegas: a vinheta inspirada num desenho de Nicolas Poussin; a reprodução no interior do livro da deslumbrante Cena Campestre de Claude Lorrain (esse quadro mítico). Um enorme obrigado a toda a equipa da Quetzal que produziu este livro.

Agradeço, acima de tudo, o privilégio de vos dar a ler (pelos meus olhos – isto é, pelo resultado das minhas muitas leituras e reflexões) estes poemas sublimes.

Não são poemas ingénuos acerca de pastores. Estes textos tratam, em linguagem codificada, das maiores questões da vida humana, desde a política, à religião e ao sexo. Tratam do lugar e do poder da arte nas nossas vidas. Tratam da natureza e da necessidade de a respeitarmos – em vez de a rapinarmos.

Tratam da dor incurável do amor sem solução, mas tratam também do mistério da esperança; e da possibilidade de sermos felizes, na Terra, se o quisermos.

Como novidade absoluta na poesia latina, estes poemas olham de frente para a polarização na vida política e para os efeitos que daí advêm para vítimas inocentes.

São poemas de há 2000 anos, mas são poemas que nos falam hoje, das questões de hoje, das emoções e dos problemas que todos nós sentimos.

E como se tudo isso não fosse suficiente para partirmos à descoberta dos mistérios das «Bucólicas» vergilianas, há ainda o factor da sua musicalidade inultrapassável em latim. Na verdade: nunca se escreveu poesia auditivamente tão bela. Um milagre.

Gabriel Nascente: poesia e pesadelo epidêmico | por Adelto Gonçalves                                                                     

                                               I                                            

Tirar poesia do horror – foi a essa ingente tarefa que se atirou o experimentado poeta goiano Gabriel Nascente (1950) para produzir o alentado A Ópera dos Ausentes – pesadelo epidêmico: poema-reportagem (Goiânia, edição do autor, 687 páginas), provavelmente a primeira obra poética de vulto inspirada pela pandemia do coronavírus (covid-19), que desde o final de 2019, quando apareceu na cidade de Wuhan, na China, tem trazido dor e pânico em todo o planeta.

Logo no pórtico, o poeta diz que este longo poema foi “construído com a iluminação das trevas”, ao som “horripilante das ambulâncias despedaçando a inocência das madrugadas”. E tão assoberbado se sentiu diante do tema e da ameaça de morte que ronda todos nós que tratou de propor um novo gênero literário, o poema-reportagem, pois só assim se sentiria capaz de narrar essa tragédia universal, “sob o impacto das mais dolorosas emoções e sofrimentos, causados pelo assombroso vírus”.

 Como observa no prefácio intitulado “A cerimônia das trevas”, que escreveu para a sua própria obra, Gabriel Nascente diz que a questão central do poema “foi trazer para dentro do texto as sombrias impressões de uma realidade (cruelmente mortífera)”, que roubou a vida de mais de cinco milhões de seres humanos em todo o mundo e continua desvairada em sua sanha assassina. E confessa que o fez “arrastado pelas correntes do choque”, pois, do contrário, “estaria mastigando a solidão das paredes. Ou uivando como um louco entre as grades de um hospício”.

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‘Ar de arestas’: uma meditação sobre a dor | Iacyr Anderson Freitas | por Adelto Gonçalves

Livro de Iacyr Anderson Freitas: poeta presente em mais de 20 antologias no Brasil e no exterior, e Ozias Filho, jornalista, fotógrafo e poeta: carioca radicado em Portugal há três décadas (em baixo).                                                             

A precariedade da vida ou a dor da partida – este é o tema de um longo poema de Iacyr Anderson Freitas que se lê em Ar de arestas (São Paulo, Escrituras Editora, Juiz de Fora-MG, Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage-Funalfa, 2013), livro finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Portugal Telecom. Em quadras rimadas, com versos heptassílabos, trata-se de um peça que medita sobre a precariedade iminente do ser, sobrepujado pela manifestação da dor, que lhe é transfigurada “através da exploração sistemática de um sistema de símiles e metáforas”, como observou o crítico, contista, ensaísta e tradutor Paulo Henriques Britto em enriquecedor posfácio que escreveu para este livro.

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Doce Certeza | Florbela Espanca

Por essa vida fora hás-de adorar

Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,

Em infinito anseio hás de beijar

Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado

Cabelos d´ouro e risos de mulher,

Muito beijo d´amor apaixonado;

E não te lembrarás de mim sequer…

Hás de tecer uns sonhos delicados…

Hão de por muitos olhos magoados,

Os teus olhos de luz andar imersos!…

Mas nunca encontrarás p´la vida fora,

Amor assim como este amor que chora

Neste beijo d´amor que são meus versos!…

Florbela Espanca, in “A Mensageira das Violetas”

Retirado do Facebook | Mural de Emilia Roque

VIDA | Maria Helena Ventura

Quando os teus olhos

molhados de infinito

pedirem o esboço de uma

nova rota

aprenderás a navegar

pelas ranhuras da ruína.

E entre céu limpo

e a densidade de abismos

sentirás a doce aragem

da manhã seguinte

aconchegada no regaço

de um canal de luz.

Estás viva.

Maria Helena Ventura – QUANDO O SILÊNCIO FALAR

Pintura: PAPOILAS de MIKKI SENKARIK

Rústica | Florbela Espanca

Ser a moça mais linda do povoado.

Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,

Ver descer sobre o ninho aconchegado

A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,

Cheirando a alfazema e a tomilho…

– Com o luar matar a sede ao gado,

Dar às pombas o sol num grão de milho…

Ser pura como a água da cisterna,

Ter confiança numa vida eterna

Quando descer à “terra da verdade”…

Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!

Dou por elas meu trono de Princesa,

E todos os meus Reinos de Ansiedade.

Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”

Retirado do Facebook | Mural de Emilia Roque

Poema 36 | Livro da Dança | Gonçalo M. Tavares

a proporção é morta.

a geometria tem tristeza.

Os seios feridos deitam sangue em vez de leite.

a matemática é impossível

a confirmação é a insistência do impossível

a prova é morder o fantástico e dar importância aos dentes

a proporção é MORTA.

Os ossos têm Cérebro e apaixonam-se.

a geometria tem tristeza

todo o conceito tem buracos por onde se escapa o vinho e o INSÓLITO.

a proporção é MORTA

o corpo é a biografia das últimas horas da CARNE à frente da técnica

É o dia depois da geometria (a dança)

últimas horas da carne à frente da técnica.

Gonçalo M. Tavares | Livro da Dança, edição Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

Descrição de uma cidade | in Livro 1 | Gonçalo M. Tavares

Não há lado esquerdo na metafísica,

O que não é uma limitação.

A produção industrial de problemas

Solta para o ar nuvens espessas

Que interferem no aeródromo.

Aviões cobertos de graffiti não conseguem levantar voo

Porque, entre os vários desenhos, os miúdos

Desenharam pedras de granito. A Ideia de granito

Pesa mais que a existência concreta de um

Balão, o mundo das ideias é estado transitório entre

O Nada e a montanha. Entretanto, a

Natação tornou-se importante para a cidade

Depois do dilúvio ocorrido há três mil anos. O governo

Oferece inscrições gratuitas e ainda casais de animais

Bruscos, mas mansos. Os homens andam felizes, e também

As mulheres, porque todos aprendem a nadar antes dos

Sessenta. Hoje, neste século, morre-se afogado mais tarde.

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“Os olhos rasos de água” | Eugénio de Andrade

Cansado de ser homem durante o dia inteiro

chego à noite com os olhos rasos de água.

Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,

entrar dentro de ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:

posso ressuscitar os mortos e trazê-los  

a este quarto branco e despovoado,

onde entro sempre pela primeira vez,

para falarmos das grandes searas de trigo

afogadas a luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso

a quem se estender ao pé de mim,

ou deixar uma lágrima nos meus olhos

ser toda a nostalgia das areias.

Eugénio de Andrade, in “As palavras interditas”

Nourrir son âme | Julien Bouchard-Madrelle

Quand l’âme est affamée, il faut la contenter,

Lui trouver, ici-bas, un peu de nourriture,

De quoi la satisfaire et de quoi l’enchanter,

De quoi charmer un peu son ardente nature !

Car quoiqu’on puisse en dire, elle semble venir

D’un royaume inconnu plus lointain que la Chine,

Pays dont elle n’a pas gardé souvenir,

Pays d’Eternité et d’essence divine !

Viendrait-elle du Ciel plein d’astres scintillants,

D’où ces regards émus qu’on adresse aux étoiles,

D’où ces noms que l’on donne au sein du firmament

Viendrait-elle des monts, des flots mystérieux,

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A VELHICE | por António Lobo Antunes

Devo estar a ficar velho: as Paulas Cristinas têm mais de 20 anos, os Brunos Miguéis já vão nos 15, as Kátias e as Sónias deram lugar a Martas, Catarinas, Marianas. A maior parte dos polícias são mais velhos do que eu. Comecei a gostar de sopa de Nabiças. A apetecer-me voltar mais cedo para casa. A observar, no espelho matinal, desabamentos, rugas imprevistas, a boca entre parêntesis cada vez mais fundos. A ver os meus retratos de criança como se fosse um estranho. A deixar de me preocupar com o futebol, eu que sabia de cor os nomes de todos os jogadores do Benfica (…). A desinteressar-me dos gelados do Santini que o Dinis Machado, de cigarrilha nas gengivas achava peitorais.

Se calhar, daqui a pouco, uso um sapato num pé e uma pantufa de xadrez no outro e vou, de bengala, contar os pombos do Príncipe Real que circulam, de mãos atrás das costas como os chefes de repartição, em torno do cedro. Ou jogar sueca, com colegas de boina, na Alameda Afonso Henriques de manilha suspensa no ar, numa atitude de Estátua de Liberdade. Quando der por mim, encontro o meu sorriso na mesinha de cabeceira, a troçar-me, num copo de água, com 32 dentes de plástico. Reconhecerei o meu lugar à mesa pelos frasquinhos dos medicamentos sobre a toalha, que me farão lembrar as bandeiras que os exploradores antigos, vestidos de urso como os automobilistas dos tempos heróicos, cravavam nos gelos polares.

Devo estar a ficar velho. E no entanto, sem que me dê conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga. Ainda gostava de ter um canivete de madrepérola com sete lâminas, saca-rolhas, tesoura, abre-latas e chave de parafusos. Ainda queria que o meu pai me comprasse na feira de Nelas, um espelhinho com a fotografia da Yvonne de Carlo, em fato de banho, do outro lado. Ainda tenho vontade de escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito.

Pensando bem (e digo isto ao espelho), não sou um senhor de idade que conservou o coração de menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

António Lobo Antunes

‘Bocage, o perfil perdido’ ganha edição brasileira | por Adelto Gonçalves

SÃO PAULO – O poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), ícone da poesia em Língua Portuguesa, não nasceu na rua de São Domingos, atual rua de Edmond Bartissol, em Setúbal, como mostra uma placa ali instalada há mais de um século, mas ao Largo de Santa Maria com a rua de Antônio Joaquim Granjo, antiga rua das Canas Verdes, na mesma cidade. Esse e outros pormenores desconhecidos do poeta, como o tempo real de sua prisão e detalhes de sua obra e de seus últimos dias, constam do livro Bocage, o perfil perdido, do pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, que acaba de ser publicad o pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 18 anos depois da edição portuguesa que saiu pela Editorial Caminho, de Lisboa.
            Como a editora observa na contracapa, Bocage, o perfil perdido é biografia exaustiva e rigorosamente documentada. Já em si controversa, a história de vida do poeta é contextualizada pelos tempos tormentosos nos quais viveu, em que ocorreram a queda do marquês de Pombal, a ação do intendente de Polícia Pina Manique e a campanha do Rossilhão, entre outros fatos importantes. A biografia recua ao avô do poeta, apresenta sua árvore genealógica desde os bisavôs, abrangendo toda a sua vida, a passagem pelo Rio de Janeiro, Ilha de Moçambique e Índia, e sua participação e expulsão da Nova Arcádia.

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Guardador de Rebanhos | Poesia Portuguesa II

Mário Viegas ironiza sobre a “popularidade” de Fernando Pessoa, escritor e poeta da primeira metade do século XX; Mário Viegas conversa com “Fernando Pessoa” (personagem interpretada por Mário Viegas) sobre a sua personalidade e obra; 41m50: Mário Viegas declama 10 poemas do livro “Guardador de Rebanhos ” de Alberto Caeiro, acompanhado por António Marques à flauta e a interpretação de Rui Miguel, ator; reconstituição do quadro “Retrato de Fernando Pessoa” de José Almada Negreiros.