Guardador de Rebanhos | Poesia Portuguesa II

Mário Viegas ironiza sobre a “popularidade” de Fernando Pessoa, escritor e poeta da primeira metade do século XX; Mário Viegas conversa com “Fernando Pessoa” (personagem interpretada por Mário Viegas) sobre a sua personalidade e obra; 41m50: Mário Viegas declama 10 poemas do livro “Guardador de Rebanhos ” de Alberto Caeiro, acompanhado por António Marques à flauta e a interpretação de Rui Miguel, ator; reconstituição do quadro “Retrato de Fernando Pessoa” de José Almada Negreiros.

Mourir d’aimer | Zoubida Belkacem

Des mots blessants assénés

Aussi mortels qu’une flèche empoisonnée.

Prélude d’une tragédie annoncée

Ce n’était pas une lune de miel

Mais une nuit d’horreur et de fiel

Au crépuscule d’une aube vacillante

Un goût d’amertume, sous une pluie battante

Les larmes coulent étouffant des sanglots

Une blessure béante qui ne retient plus les maux.

Un coeur meurtri qui souffre trop

J’aurai voulu mourir d’aimer

Connaître l’amour et l’ivresse désabusée

Croire encore en ses promesses insensées

Mais où est la magie ?

lorsqu’il ne reste plus que

mensonge et mépris !!

Zoubida Belkacem

Texte protégé

Bendito seja o mesmo sol de outras terras | Alberto Caeiro

Bendito seja o mesmo sol de outras terras

Que faz meus irmãos todos os homens

Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,

E nesse puro momento

Todo limpo e sensível

Regressam lacrimosamente

E com um suspiro que mal sentem

Ao Homem verdadeiro e primitivo

Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.

Porque isso é natural — mais natural

Que adorar o ouro e Deus

E a arte e a moral …

UM POEMA E UMA IMAGEM DO LIVRO “EUFORIA” RECENTEMENTE PUBLICADO | Casimiro de Brito

Aurora! Somos nós onde quer que respiremos;

somos nós em todos os rios e montanhas,

somos nós nas flores e nos templos sagrados,

em lágrimas e em grãos de areia. A febre

atravessa os bichos humanos, os criadores de deuses,

os mágicos tão pobres como a terra

onde nascem. Mas eles desencantam

mantos de alegria, levantam templos

e confiam. E mesmo quando a doença e a morte

se aproximam sorriem.

FRAGMENTOS MÍNIMOS | II VOLUME DE “A MÚSICA ROUCA DO PRAZER” | LIVRO DE EROS | Casimiro de Brito

1 – Eros. A música rouca do prazer.

3 – A morte. Conheci enfim a morte. A morte eufórica. Quando nos amámos.

14 – A boca quando beija: um fruto que não se esgota.

19 – Mata-me, o perfume da minha amada, que tanto gozo me dá.

29 – Do sexo: sol interior.32Quando a mulher se cala o homem treme.

39 – A mulher, quando ama, é líquida. Reparai como ela se molda ao seu amado.

41 – O mais doce dos exílios: a concha da minha amada.

52 – Amar-te é uma bebedeira sem fim.

60 – A tua febre dá-me paz. Agita-me. Estou vivo.

65 – Amo. Sei que tudo é boca e seio.

68 – A taça, dá-me a tua taça que me quero de novo embriagar.

“Velha Maria, Vais Morrer” | Um poema do médico-guerrilheiro Ernesto Che Guevara (1928-1967)

Velha Maria, vais morrer:
Quero falar contigo seriamente.

Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado nem saúde nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartilhada.
Mas quero falar-te da tua esperança,
das três diversas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Escuta, avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.

Não rezes ao deus inclemente
que toda uma vida desmentiu tua esperança;
não peças clemência à morte
para ver crescer tuas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti.
Mas terás uma vermelha vingança sobre tudo,
juro pela exata dimensão de meus ideais:
todos os teus netos viverão a aurora.
Morre em paz, velha lutadora.

Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vais.

Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte se conjugar com a asma
e copularem seu amor na tua garganta.

Essas três carícias construidas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome
chorarão os nós destes dedos velhos
onde sempre encontravam um sorriso.
E isso será tudo, velha Maria.

Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartilhada.
Tua vida foi triste, velha Maria.

Quando o anúncio do descanso eterno
suaviza a dor de tuas pupilas
e quando a tua mão de perpétua borralheira
absorve a última e ingênua carícia,
pensas neles… e choras,
pobre velha Maria!

Não, não o faças!
Não rezes ao deus indolente
que toda uma vida desmentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmednte vestida de fome
e acaba vestida de asma.

Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril das esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças.
Quero jurá-lo pela exata
dimensão de meus ideais.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.
EU JURO!

Ernesto Che Guevara

(Poema escrito a uma doente terminal de Che, quando este actuava como médico num hospital do México. Pouco antes da sua partida para a Sierra Maestra)

RISCOS | Maria Helena Ventura

Em óleo ou aguarela
tinta da china ou carvão
matizo os vivos tons
deste sentimento
num tropel de mãos
e riscos de asas
sonhos
gaivotas.
Decoro chorões de incunábulos
com lianas de novos signos
sem lágrimas nem sangue
nas coordenadas do afecto
suor, talvez
de pronto limpo à prosa suja.
E redimida de ventos
em ásperas transições
baloiço nas nuvens migrantes
do afecto vocabular.

Maria Helena Ventura – PEDRA DE SOL 

Diego Rivera – Retrato de Elena Flores de Carrillo – 1953

MENSAGEM POR DIZER | Maria Helena Ventura

Preferia a labareda
entre as dunas inventadas
quando a noite sobrava na ressaca
e preenchia a sede da raiz.

Vinha inteiro
aberto tanto à chuva temporária
como ao abrigo do desejo.
E pulsavam sinais indestrutíveis
de fecundo enleio
mesmo que a ternura
fosse chegando desfolhada
pétala a pétala.

Lembro a sedução latejante
no espaço bordado pela respiração
à espera do ritmo coreográfico
das palavras cálidas
um esperar de corpo nu
pela acendalha colorida.

Num coro delicado de alaúdes
as marés vivas decantavam a luz
reflectida no olhar
e uma estrela preparava cada noite
o céu do dia seguinte.

Assim era tão fácil
bordar frases na reinvenção do amor
que apetecia nascer repetidamente
em cubos de néctar
e silêncio.

Maria Helena Ventura – INTERTEXTO SUBMERSO

Tela ousada, como todas as do neocubista GEORGY KURASOV

LENÇOS BRANCOS | Maria Helena Ventura

LENÇOS BRANCOS

Tudo ficará como dantes
no tumulto da existência
menos o essencial…
O corpo que domava o meu
em ímpetos de fogo
e plantava bem dentro da terra
o gotejar do afecto
fica-me nos olhos
em narrativa sem continuidade…
E as mãos frementes
em coreografias de abraços
mais não podem fazer
do que alongar-se
até ao infinito do adeus.

Maria Helena Ventura – PEDRA DE SOL

A obra completa de Machado de Assis para download gratuito

O propósito desta homenagem a Machado de Assis, mais que lembrar o centenário de sua morte, é fazer com que a sua obra completa chegue a qualquer usuário internet, em edições confiáveis e gratuitas. Resultado de uma parceria entre o Portal Domínio Público – a biblioteca digital do MEC – e o Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Lingüística (NUPILL), da Universidade Federal de Santa Catarina, o projeto teve como propósito organizar, sistematizar, complementar e revisar as edições digitais até então existentes na rede, gerando o que se pode chamar de Coleção Digital Machado de Assis.

http://machado.mec.gov.br/#apresentacao

OS TEUS SEIOS | UM POEMA INÉDITO ILUSTRAÇÃO DE MANET | CASIMIRO DE BRITO

Os teus seios parecem oh não
os teus seios são uma caixa
de música deixas-me
ouvi-la?

Pássaros matinais os teus seios
e parece que vão voar
deixas-me voar com eles?

Aves macias a caminho
do céu azul da noite clara posso
aninhar-me neles?

Aves sagradas de bico terroso
posso beijá-los?

Os teus seios são raizes
que nos separam e unem quando
nos amamos e num só
nos transformamos

Ton rire | Pablo Neruda

Tu peux m’ôter le pain,
m’ôter l’air, si tu veux :
ne m’ôte pas ton rire.

Ne m’ôte pas la rose,
le fer que tu égrènes
ni l’eau qui brusquement
éclate dans ta joie
ni la vague d’argent
qui déferle de toi.

De ma lutte si dure
je rentre les yeux las
quelquefois d’avoir vu
la terre qui ne change
mais, dès le seuil, ton rire
monte au ciel, me cherchant
et ouvrant pour moi toutes
les portes de la vie.

À l’heure la plus sombre
Égrènes, mon amour,
Ton rire, et si tu vois
Mon sang tacher soudain
Les pierres de la rue,
Ris : aussitôt ton rire
Se fera pour tes mains
Fraîche lame d’épée.

Dans l’automne marin
Fais que ton rire dresse
Sa cascade d’écume,
Et au printemps, amour,
Que ton rire soit comme
La fleur que j’attendais,
La fleur guède, la rose
De mon pays sonore.

Moque-toi de la nuit,
Du jour et de la lune,
Moque-toi de ces rues
Divagantes d’île,
Moque-toi de cet homme
Amoureux maladroit,
Mais lorsque j’ouvre, moi,
Les yeux ou les referme,
Lorsque mes pas s’en vont,
Lorsque mes pas s’en viennent,
Refuse-moi le pain,
L’air, l’aube, le printemps,
Mais ton rire jamais
Car alors j’en mourrais.

(Pablo Neruda, Les vers du Capitaine, 1952. Aussi in Neruda par Skarmeta », Paris, Grasset, 2006, pp. 127-128.)

POÈME “HOMME de COULEUR” de Léopold Sédar SENGHOR

Quand je suis NÉ, j’étais NOIR !
Quand j’ai GRANDI, j’étais NOIR !
Quand j’ai PEUR, je suis NOIR !
Quand je vais au SOLEIL, je suis NOIR !
Quand je suis MALADE, je suis NOIR !

Quand tu es NÉ, tu étais ROSE !
Quand tu as GRANDI, tu es devenu BLANC !
Quand tu vas au SOLEIL, tu deviens ROUGE !
Quand tu as FROID, tu deviens BLEU !
Quand tu as PEUR, tu deviens VERT !
Quand tu es MALADE, tu deviens JAUNE !

Et APRÈS tout ça,
Tu oses M’APPELER,”HOMME de COULEUR” !!!

Poème de : Léopold Sedar Senghor,
né le 9 octobre 1906 à Joal, au Sénégal,
et mort le 20 décembre 2001 à Verson, en France,
est un poète, écrivain, homme politique sénégalais
et premier président de la République du Sénégal (1960-1980)
et il fut aussi le premier Africain à siéger à l’Académie française.
Il a également été ministre en France avant l’indépendance de son pays.

Eu Nunca Guardei Rebanhos | Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

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Olha amor | Maria Helena Ventura

Olha amor
faz diferença pôr a música de Bach no poema
enfeitar o teu nome com pedras de coral?
Ainda há pouco os pássaros cantavam entre os dedos
e em círculos pequenos embalavam as bússolas
na pulsação dos vocábulos.
Por aí sei que a noite vive à pressa o prazer efémero
na urgência dos minutos ruidosos
esquecida do silêncio vagaroso
e do fluido que me basta para esculpir um rosto
no contorno do teu.
Talvez o mais parecido com um texto
ou figura verbal desta imperícia
atravesse a distância e vá desaguar nas penas
de um rouxinol concebível.
De um portal entreaberto na frágil textura do meu peito
fugiu-me num estremecimento
antes de o decifrar completamente.
Se os teus dedos apontarem o local de partida
dita-me tu o que resta dele
com os sinais da luminosidade
recolhida numa tela de palavras
tuas, minhas, de nós todos.
Travo uma batalha cada vez mais dura
com o sono autoritário.
Esta ordem às pestanas: investir, retroceder
remete para a urgência de repetir a pergunta
rasando horizontalmente o campo
onde hei-de tombar de vez:
posso deixar escorrer a música de Bach
no rio da tua ausência?

Maria Helena Ventura – Intertexto Submerso

Retirado do Facebook | Mural de Helena Ventura Pereira

Tela de Kandinsky, sem título, de 1925.

CATARINA EUFÉMIA | Sophia de Mello Breyner Andresen | “Dual”, 1962

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos.

GARRAS DOS SENTIDOS | Agustina Bessa Luís

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Dá má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

É sempre no amor que pouso os ramos | Maria Isabel Fidalgo

É sempre no amor que pouso os ramos
e nele planto acácias ou faço florescer
rosas e cerejas no inverno gélido.
Dir-me-ás que repito as flores e os frutos
que massacro de primavera os versos
que soletro gorjeios violáceos
para falar de amor.
E eu dir-te-ei que sim
que é sempre no amor que pouso os ramos
e que nele colho o sémen a bússola a maravilha.
Porque o amor faz-me dançar nas árvores altas
faz-me correr nos bosques
castiga-me de estrelas
traz-me um tempo de palavras cálidas
nas cordas do frio rigoroso.
Por isso,
é sempre no amor que pouso os ramos
e crescem-me galhos de aves no coração.

maria isabel fidalgo

Poesia | Sou viagem | Lançamento a 16 de Maio | Maria Isabel Fidalgo

No dia 16 de Maio será lançado, via online, mais um livro de Poesia de Maria Isabel Fidalgo, pela Poética Edições, com o título ” Sou Viagem”. Alegoria da vida, os poemas retratam uma alma aberta à beleza, aos odores e rumores do mundo, sem esquecer os lados mais dramáticos da existência. E ainda a morte, fronteira aberta para o país do pó.

 

 

 

 

Sou Viagem
vela desfraldada em pleno alto mar
em ondas revoltas
barco seguro do apeadeiro
ao longe.
Sou Viagem
fruto mais que maduro
a medir o chão na árvore alta.
Fui viagem
ventre vento leve
batente luminoso
a colorir colos berços beijos
acordar de asa a mensurar alturas.
Sempre.
Sou viagem.
Cambraia cama lavra
cinto de terra
a medir o chão do alto da árvore.

Maria Isabel Fidalgo

Portugal em Paris | Manuel Alegre

Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era um perfil
de sal
e abril.
Era um puro país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente e solitário
nas ruas de Paris.

Vi minha pátria derramada
na Gare de Austerlitz. Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços
do meu país.
Restos.
Braços.
Minha pátria sem nada
sem nada
despejada nas ruas de Paris.

E o trigo?
E o mar?
Foi a terra que não te quis
ou alguém que roubou as flores de abril?
Solitário por entre a gente caminhei contigo
os olhos longe como o trigo e o mar.
Éramos cem duzentos mil?
E caminhávamos. Braços e mãos para alugar
meu Portugal nas ruas de Paris.

Manuel Alegre

É URGENTE O AMOR | Eugénio de Andrade

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

PARA LOS QUE PASAN POR AQUI | Ir. Joao De Blas Salamanca (1983)

  • SOLEDAD

¡ Oh Dios !

¡ Qué larga es la noche,

qué triste y callada!

No hay luna que ría

y cubra con luz

el frío del alma.

No hay fuentes que sacien

la sed que me abrasa…

  • LA NOCHE

Por entre las rocas,

perforada el alma,

brotaba un suspiro

que llevaba España.

Muy lejos moría la tarde.

Monótono canto de cigarra

llamaba a la luz

y respondía el alba

Joao De Blas Salamanca | 1983

CORPO APENAS | Maria Helena Ventura | Pintura de Tarsila do Amaral, Antropofagia

De repente eras o fogo
cascos de cavalo
na clareira acesa.
E sob as mãos
o grito respirado devagar
na curva dos abrigos musicais.

Vestias-te de corpo
nada mais
península ligada por um braço
ao mar inominável de outro corpo.

De repente eras a terra
aluviais as margens perfumadas.
E nos lábios
oceânicas nascentes flutuando
no barco do silêncio magoado.

Eras um corpo apenas
transpirado
enigma de pássaro perdido
reflectido na tela de outro corpo.

Maria Helena Ventura | Inominável Corpo Desnudado

Três sonetos de Luiz Vaz de Camões

Primeiro soneto:

Amor é um fogo que arde sem se ver;
é ferida que doi e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealmente.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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COMO O RISCAR DO RELÂMPAGO | MARIA HELENA VENTURA

É bom saber de ti
saber apenas
assim como um clarão ilumina
a sofreguidão na linha da distância
ou como ou pássaro segue o outro
na cumplicidade do voo

Por um momento
fecho todos os ruídos no armário
e deixo que um piano toque
repetido na vigília dos acordes
até ao infinito
Aqui moram apêndices de rima
e uma sombra impossível de romper
num deserto temporário
de palavras

Pelo vagar das noites ponteadas
de janelas sem sono
ninguém te anuncia a não ser os beirais
gota a gota
quando um líquido fantasma
que não sei se bate à porta
ou se fecha devagar os meus olhos
abre um mar de profundos logros
na perplexidade

É um mensageiro teu
e tanto basta conhecer
um atalho molhado
pela chuva de fora
pela chuva de dentro
a inspirar uma luz intensa
de todas as cores
numa imóvel linguagem
de lembranças
bebidas até à última gota

MARIA HELENA VENTURA – INTERTEXTO SUBMERSO

A castidade com que abria as coxas | Carlos Drummond de Andrade

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados.

Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘O Amor Natural’

Pour toujours | Carlos Drummond de Andrade

Pourquoi dieu permet
Que les mères s’en aillent ?
Maman n’a pas de limite,
C’est un temps sans heure,
Une lumière qui ne s’éteint
Quand souffle le vent
Et tombe la pluie,
Un velours caché
Au sein d’une peau rugueuse,
Une eau pure, un air pur,
Une pure pensée.

Mourir arrive
Soudainement
Et sans laisser de vestige.
Maman, dans sa grâce,
Est éternelle
Pour que dieu se rappelle
– mystère profond –
de la reprendre un jour ?
si c’était moi le roi du monde
je ferai une loi :
une mère ne meurt jamais
une mère resterai toujours
près de son fils
et lui, même vieux,
sera tout petit,
fait de grain de maïs.

Carlos Drummond de Andrade | photographie de ma mère (VCS)

Mon Regard | Le Gardeur de Troupeaux (Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Mon Regard | Le Gardeur de Troupeaux

Tout ce que je vois est net comme un tournesol.
J’ai l’habitude d’aller le long des routes
Tout en regardant à droite et à gauche,
Et de temps en temps derrière moi…
Or ce que je vois à chaque instant
Est cela même qu’auparavant jamais je n’avais vu,
Et je sais fort bien m’en rendre compte…
Je sais maintenir en moi l’étonnement
Que connaîtrait un nourrisson si, à sa naissance,
Il remarquait qu’il est bel et bien né…
Je me sens nouveau-né à chaque instant
Dans la sereine nouveauté du monde…

Je crois au monde comme à une marguerite,
parce que je le vois. Mais je ne pense pas à lui
Parce que penser, c’est ne pas comprendre…
Le monde ne s’est pas fait pour que nous pensions à lui
(Penser, c’est être dérangé des yeux)
Mais pour que nous le regardions et en tombions d’accord…
Moi je n’ai pas de philosophie : j’ai des sens…
Si je parle de la Nature ce n’est pas que je sache ce qu’elle est,
Mais c’est que je l’aime, et je l’aime pour cela même,
Parce que lorsqu’on aime, on ne sait jamais ce qu’on aime
Pas plus que pourquoi on aime, ou ce que c’est qu’aimer…

Aimer est la première innocence,
Et toute innocence ne pas penser…

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Quando Eu não te Tinha | Alberto Caeiro, in ‘O Pastor Amoroso’

Quando Eu não te Tinha

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima …
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza …
Tu mudaste a Natureza …
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou. 

Só me arrependo de outrora te não ter amado.

Alberto Caeiro, in ‘O Pastor Amoroso’.

Há metafísica bastante em não pensar em nada | Alberto Caeiro | Heterónimo de Fernando Pessoa

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

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Poema | Maria Isabel Fidalgo

Um dia morrerão todos os dias

e sem barulho ou vaidade

adormeceremos longe do orvalho

das gaivotas loucas na orla das ondas

da luz infinita da sede no alvor da madrugada.

Sorveremos exaustos o silêncio térreo

longe dos deuses mortais que tudo sabem

dos festins do metal e deferências.

Um dia iremos para além da noite

sem que nos seja possível o retorno

da felicidade infinita num jardim menino.

Um dia, apesar do amor

o peso das canseiras

transformará o suor em frio

um galo há de cantar de madrugada

a chuva calará a sede dos campos

o sol repetirá a nobreza da alegria

como graça divina

e numa manjedoura, príncipes do nada

repetirão o pão que o diabo amassou.

 

Maria Isabel Fidalgo

Poema | Maria Isabel Fidalgo

Nesta manhã de sol rasgado
domingo triunfante de preguiça
a nitidez da luz esmorece os sobressaltos.
Resplandecem cores quase estrangeiras ao longe
ocorrem-me primaveras intensas na rosa encarnada da jarra
que me consente a breve graça da alegria.
Hoje exalto o dia e o mistério efervescente de claridade
este sagrado brilho onde o coração dos pássaros se ergue alto na ara dos olhos.
Hoje exalto esta matina clara
a planar numa colina onde se erguem voos
rendidos à destreza dos sentidos.
Depois cantamos.
és-me tão sempre quando te fazes cântico depois da noite.

Amar | Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade – no livro Claro Enigma de 1951

POVO | Pedro Homem de Mello, in “Miserere”

Povo

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão…
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Pedro Homem de Mello, in “Miserere”

Chico Buarque de Hollanda | Prémio Camões | Poema “CONSTRUÇÃO”

CONSTRUÇÃO

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque de Hollanda | Prémio Camões

Sonata de Abril | Maria Isabel Fidalgo

Trago a poesia das searas
num anseio suspirado
pela luz de Maio 
do primeiro dia
e de um Abril cantado
folar de cravo
sol em folia.

Emerge de novo a noite
dos passos senhoreais
e gemem as doces brisas
nos pinheirais.

Mas a voz será de canto
se alguém quiser
na arma a mão da criança
se cravo houver.

«Antes de Mim um Verso», Poética Edições | maria isabel fidalgo

ALFA & ÓMEGA | Casimiro de Brito

EIS ALGUMAS DAS SUAS ENTRADAS

AMADA
Ela é água e vaso, a minha amada.
Escuto no seu corpo a música do mundo.

BACANTE
Quase não bebe, essa bacante. Tudo me dá a beber.

CANIBALISMO
Quando nos amamos, ó prazer tão alto!

DANÇA
A dança das flores ao vento, talvez a primeira inspiradora.

ETERNIDADE
A eternidade, embora de passagem, senta-se comigo à mesa.

FEMININA
Felina. São guerras que parecem perfumadas.

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A mulher mais bonita do mundo | José Luis Peixoto

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luis Peixoto

POEMA 165 DO LIVRO INÉDITO “SILÊNCIO QUASE” E UMA ESCULTURA DE RODIN | Casimiro de Brito

Amo-te porque sou dependente do teu odor. 
Amo-te porque balanças nos ventos futuros.
Porque sou uma árvore que se abriga à tua sombra.
Amo-te porque só sei respirar na cidade de Eros.
Amo as marcas indecifráveis de todas as etnias
que produzem a beleza do teu rosto.
Bebo nas tuas coxas o linho molhado da minha infância.
Amo-te porque és alucinação e mulher real
no mesmo corpo volátil. Amo-te
porque também de noite és o meu sol quotidiano.
Amando-te não preciso de correr por montes e vales
em busca da mais antiga das mães. Tu, a irmã
da minha vagabundagem sempre inaugural. Amo-te
porque deixei de ter pressa. Um poema infinito,
uma cascata em cada sílaba. Uma lua que me engole
quando começo a ser sábio. A vegetação
no jardim que foi de pedra. Conheci na tua carne
a lama do meu reino luminoso. Amo-te
porque me fazes saltar o coração e lá vai ele
a caminho do país dos cedros. E assim renasço
no enigma da tua carne que no chão deitada, voa.
Amo-te porque dependo da tua cor do teu odor.
Amo-te porque me acolhes à tua sombra de árvore
para sempre iluminada. Amo-te
porque não tenho pressa e também as tuas águas
parecem um ribeiro por entre as colinas
da manhã. Amo-te mistura de linho e do mármore
macio da manhã. Amo-te porque os teus caracóis
se transformaram em carícia onde sou mais só.
Amo-te porque te vejo arder
como se desejasses que também eu ardesse
a teu lado.

Casimiro de Brito

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito

Esta é a Forma Fêmea | This is the female form | WALT WHITMAN

À Vossa, Mulheres!
E aos Homens que nos encantam!

Sónia Soares Coelho 

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.

Walt Whitman
in “Leaves of Grass”

http://www.citador.pt/poemas/esta-e-a-forma-femea-walt-whitman

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As mulheres | Quadro de Pablo Picasso | 8 de Março, Dia Internacional da Mulher | Paulo Fonseca

Pensamento do dia : Com << As mulheres>> de Picasso e com os números de mortas como punhais que envergonham, declamo sangrando às mulheres do mundo, em celebração do seu (nosso) dia …


Voo de pássaro rasante,
epopeia heróica
hino de glória
canto de boa memória
seiva de vida
estóica.
Louca acendalha de fogo
és a ópera da boa esperança…
Bojadora,
que enfrenta as tormentas
e todas as horas de pranto….
fogueira que aquece os famintos….
Graça que abraça…
os enfermos
instintos….
Esperteza que desperta os amados…
musa que inspira os fados
diferentes….
Mulher,
dia como outro qualquer…
canto-te devoto
À mãe, à filha, à mulher….
a outra mãe qualquer,
em respeito….
pra alavancar o efeito
tão leve…
tão breve….
Saúdo as Mulheres,
em gratidão,
Sou um homem que olha de igual…
para cima,
para a dimensão….
para dentro,
para o coração…
para a mulher,
a revolução…..
Sempre desperta,
sempre em alerta….
almofada
humanidade
fada
humidade
desejo
alvor de caridade….
colo que encanta
de vida….
Mulher,
a quem devo quem sou,
altar
da eternidade…
bombom….
Deusa do amor
coragem,….
intrépida ternura
Esplendor !….

Paulo Fonseca

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Fonseca

UM FRAGMENTO DO MEU “LIVRO DE EROS” E UMA IMAGEM DE EDGAR DEGAS | Casimiro de Brito

Uma das mulheres que melhor me amou nunca a vi à luz do dia. Nem à luz de velas. Entrava no quarto (de um pequeno hotel) à noite, com a luz apagada, com todas as persianas cerradas, e com a luz apagada saía. Assim tínhamos combinado. Costumava dizer-me, como no mito, Nunca deverás olhar-me, se precisares de luz para me ver é porque és cego ou não tenho em mim luz bastante. Tinha. Um corpo perfeito, uma voz alcalina, uma arte indizível ou talvez só essa cantada pelos poetas do amor. “Não podes saber quem sou, nem sequer se te amo.” Amava-me, isso sim, amava-me porque fazia o que fazia com arte e entusiasmo, fundidos com fervor crescente um no outro. Nunca acendi a luz. Aceitei a desigualdade, e penso que só com ela a aceitei: sentindo que, ela, conhecendo-me embora o rosto e o percurso, também desejava desvendar os meus mistérios. Um dia senti que me estava a apaixonar por ela, e disse-lhe. Foi o fim. Disse-me apenas, “Isso seria a nossa desgraça. Vou partir.” E partiu, essa que devia ser a mulher de algum dos meus amigos. Nunca quis saber, nunca procurei saber nada, e talvez agora me leias. Mas conheci de ti fontes que outros não poderão conhecer — porque nesses momentos tu eras uma-comigo, a tua humidade derramava-se em mim, numa dor única e feliz e sei que nunca ninguém te amará como eu te amei. Nem imaginas o que eu daria, não para ver o teu rosto, não para saber quem és, mas para me sentir novamente afogado nas tuas fontes loucas, que nunca mais esquecerei. Onde estarás? O que sentirás quando passas por mim e não te vejo? O que sentirás quando leres isto? Talvez me telefones de novo.

Casimiro de Brito

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito

Poème | Zoubida Belkacem

Toujours prompt à s’immiscer
Entre le bon grain et l’ivraie
Cherchant à s’incruster
Faisant fi de toute civilité.

Toujours prompt à crier et vociférer
Haussant la voix, élevant le ton
Le doigt accusateur, les yeux exorbitants
N’admettant aucune contradiction
La colère gronde faute d’arguments.

Toujours prompt à eructer
La coupe pleine de sombres vérités
Le verre de vin au goût âpre et amer.
Les raisons de la colère éclatent
Chargés de doutes mortifères

Toujours prompt à s’indigner
Aussi fort que les mots qui résonnent
Aussi violent que les coups qui assomment
Un volcan sans cesse en ébullition
Crache sa lave d’extermination.

Toujours prompt à diminuer et blesser
Le petit oiseau qui essaye de voler
Le cri qu’il veut amplifier
Lui brisant ses petites ailes
Pour l’empêcher de s’échapper.

Zoubida Belkacem
Nice le 15 février 2019
Oeuvres protégées

Retirado do Facebook | Mural de Zoubida Belkacem

VÍCIO | Licínia Quitério

Tenho o vício dos teus olhos
das tuas mãos em tremura
da tua boca de seda
escaldante como o carvão
na minha lareira acesa.
Da tua voz registada
no meu ouvido profundo.
Tenho o vício de te ver
em memórias de veludo
nas sementes espalhadas
pelas flores que não cuidei.
Tenho o vício de sentir
as dores que não rejeitei.
Tenho o vício de cheirar
campos que não cultivei.
Tenho o vício de voltar
a caminhos que não pisei.
Tenho o vício de me rir
do choro que já chorei
e o vício da solidão
que me envolva de lembranças
das andanças que vivi.
Tenho o vício de escutar
segredos que me contaram
e aqueles que não contei.
Mais do que toda a virtude
é água pura a correr
o vício de te querer
sabendo que te não tenho.

Licínia Quitério, 2006

Retirado do Facebook | Mural de Licínia Quitério

Rainer-Maria Rilke | Pour écrire un seul vers

Pour écrire un seul vers, il faut avoir vu beaucoup de villes, d’hommes et de choses, il faut connaître les animaux, il faut sentir comment volent les oiseaux et savoir quel mouvement font les petites fleurs en s’ouvrant le matin.

Il faut pouvoir repenser à des chemins dans des régions inconnues, à des rencontres inattendues, à des départs que l’on voyait longtemps approcher, à des jours d’enfance dont le mystère ne s’est pas encore éclairci, à ses parents qu’il fallait qu’on froissât lorsqu’ils vous apportaient une joie et qu’on ne la comprenait pas ( c’était une joie faite pour un autre ), à des maladies d’enfance qui commençaient si singulièrement, par tant de profondes et graves transformations, à des jours passés dans des chambres calmes et contenues, à des matins au bord de la mer, à la mer elle-même, à des mers, à des nuits de voyage qui frémissaient très haut et volaient avec toutes les étoiles — et il ne suffit même pas de savoir penser à tout cela.

Il faut avoir des souvenirs de beaucoup de nuits d’amour, dont aucune ne ressemblait à l’autre, de cris de femmes hurlant en mal d’enfant, et de légères, de blanches, de dormantes accouchées qui se refermaient.

Il faut encore avoir été auprès de mourants, être resté assis auprès de morts, dans la chambre, avec la fenêtre ouverte et les bruits qui venaient par à-coups.

Et il ne suffit même pas d’avoir des souvenirs.

Il faut savoir les oublier quand ils sont nombreux, et il faut avoir la grande patience d’attendre qu’ils reviennent.

Car les souvenirs ne sont pas encore cela.

Ce n’est que lorsqu’ils deviennent en nous sang, regard, geste, lorsqu’ils n’ont plus de nom et ne se distinguent plus de nous, ce n’est qu’alors qu’il peut arriver qu’en une heure très rare, du milieu d’eux, se lève le premier mot d’un vers.

Rainer-Maria Rilke ( 1875-1926 )

Les Cahiers de Malte

La solitude | Rainer-Maria Rilke

La solitude est pareille à ces pluies

Qui montant de la mer s’avancent vers les soirs

Des plaines, elle va lointaine et perdue

Au ciel qui la contient toujours

Et c’est du ciel qu’elle retombe sur la ville.

La solitude pleut aux heures indécises

Lorsque vers le matin se tourne vers une heure

Lorsque les corps épuisés de méprise

S’entre-écartent, tristes et inassouvis

Et que les hommes qui se haïssent doivent coucher ensemble dans un lit

La solitude alors dérive au fil des fleuves.