Poema de Aguardente em Casca de Noz | Telmo Barreira | Prefácio de Sónia Lavaredas

Poema de Aguardente em Casca de Noz…

Quando lemos os poemas de Telmo Barreira, o que se experiencia é tal e qual o estalido frenético que provocaria um shot. Sim, um shot de aguardente. Uma espécie de choque a percorrer o corpo, num compasso de êxtase, primeiramente quente e consolador, em seguida desconfortável, quase doloroso, espraiando-se, por fim, numa sensação dormente e apaziguadora. Depois da casca de noz aberta e do preciso elixir bebido, verifica-se que esta aguardente só poderia estar contida neste invólucro orgânico e natural, como orgânica e natural é a jornada da própria existência.

A viagem começa na infância, com a aguardente ainda a descer-nos pela garganta, tranquila e reconfortante, numa recordação entrelaçada de sonho, identidade e ninho. E por aí nos deixamos guiar, pausadamente, como se a nossa própria infância recordássemos, num ambiente confortável de colo e amor. Os momentos da feliz inconsciência das coisas, onde tudo tem o tempo certo, onde podemos, entre palavras, fazer as pausas prolongadas dos pontos finais…

Mas a aguardente vai descendo e um ardor, desconcertante primeiro e insuportável depois, apodera-se do nosso peito… É o bulício, a experiência, a vida. Nesta ardência provocada pelo líquido, quer-se cortar com o passado e percorrer caminhos imaginados originais. Este calor que sentimos, no peito e na mente, transforma-se em febre que queremos apaziguar com o arrebatamento das descobertas, das experiências. Queremos respostas! Porém, as respostas tardam. Das sucessivas tentativas, ficam as desilusões, a solidão… Quem somos? Quem queremos descobrir nesta viagem vertiginosa? E a aguardente arde cada vez mais cortando, por breves segundos, a respiração. Um grito desesperado solta-se da garganta. Ficamos quietos e ainda exaustos arriscamos inspirar de novo. Depois, já com o peito cheio de ar, aventuramos a compreensão da pessoa em quem nos transformámos, quem emergiu destes pântanos por onde andámos. Talvez o amor, os amores, nos possam dar algumas respostas.

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‘Atlas do impossível’: contos surrealistas | Edmar Monteiro Filho, por Adelto Gonçalves

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            Um livro de contos, geralmente, é o resultado da reunião de textos literários dispersos e autônomos que o autor produz ao longo dos anos, quase sempre sem um fio narrativo que os una. São também textos que escapam a qualquer critério quantitativo, ou seja, não podem ser definidos com base em sua extensão. Mas, ao contrário da novela e do romance, o conto exige, antes de tudo, a atenção concentrada do leitor para produzir nele um “efeito preconcebido, único, intenso, definido”, com observou o professor, ensaísta e investigador venezuelano Carlos Pacheco (1948-2015) em Del cuento e sus alrededores. Aproximaciones a una teoria del cuento (Caracas, Monte Ávila Latinoamericana, 1997, p. 20), com base no que dizia o poeta norte-ame ricano Edgar Allan Poe (1809-1849), para quem o “conto devia ser lido de uma assentada”.

             Atlas do impossível (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2017), de Edmar Monteiro Filho, quinto livro de contos do autor, não preenche todos esses critérios. Mas, entre os 15 relatos que o compõem, há dois que provam que a extensão em número de páginas ou palavras não é mesmo critério seguro para definir um conto. Por exemplo, o texto de abertura, “Autorretrato em espelho esférico”, tem apenas 18 linhas, enquanto aquele que encerra o volume, “Galeria”, ocupa 49 páginas, dividido em dez capítulos ou trechos, aproximando-se do que se poderia chamar de novela.

            O livro, porém, vai além. São relatos caudatários do movimento surrealista da década de 1920, liderado pelo poeta e crítico francês André Breton (1896-1966), que, tanto na pintura ou na gravura como na poesia ou na prosa, procurava incorporar elementos desconexos, formas abstratas e ideias irreais, com o objetivo declarado de escapar da lógica e da razão. Em outras palavras: levar o poder da subversão à criação.

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José Saramago e suas personagens | Adelto Gonçalves

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Um levantamento de 354 protagonistas e figurantes – praticamente, todos – que perpassam os romances e peças teatrais do Prêmio Nobel de Literatura de 1998 é o que o leitor vai encontrar em Dicionário de Personagens da Obra de José Saramago (Blumenau-SC: Editora da Fundação Universidade Regional de Blumenau – EdiFurb, 2012), da professora Salma Ferraz, resultado de uma pesquisa que durou mais de 15 anos e contou com a colaboração de mais de oito dezenas de seus alunos.

Obra aberta, sem a pretensão de se tornar definitiva ou completa, o livro, além de homenagear Saramago, segundo a autora, tem o objetivo de não só catalogar a imensa galeria de personagens saramaguianos como abrir um debate e até mesmo aceitar novos verbetes para uma futura segunda edição. Mas, desde já, constitui, sem dúvida, leitura indispensável aos amantes da boa literatura de Saramago.

Da pesquisa, ficaram de fora os contos e crônicas da primeira fase de Saramago, ainda que o romance Terra do Pecado (1947), também da época inicial da trajetória do autor, tenha sido igualmente analisado. Exceção foi aberta para O Conto da Ilha desconhecida (1997), que faz parte da fase madura do escritor. Já o romance Claraboia, embora escrito em 1953, e, portanto, da primeira fase, mas publicado em 2011 pela editora Companhia das Letras, de São Paulo, não foi incluído na pesquisa por se tratar de publicação post mortem.

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Ambição | Lurdes Feio

O romance que lhe mostra o governo por dentro: nos gabinetes, nos negócios, na cama. Francisco Mortágua finalmente é ministro. Quer marcar a diferença e ser um político sério. Mas, entre o calor da cama e as luvas passadas debaixo da secretária, afinal nada é simples e limpo num país de impunidade e compadrio. O ministro Francisco Mortágua é confrontado com a verdadeira face da alta política e descobrir do que é capaz esse enorme monstro chamado corrupção.

Para lá da «Geringonça» | André Freire | Lançamento terça-feira, dia 07/03, às 18h30m

Lançamento do livro Freire, André (2017), Para lá da «Geringonça»: O Governo de Esquerdas em Portugal e na Europa, Lisboa, Contraponto. Prefácio do primeiro-ministro, António Costa.
Por Ana Catarina Mendes, Secretária-geral Adjunta do PS e Vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS, & Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do BE (*).
Terça-feira, dia 07/03, às 18h30m, na livraria Bertrand do shopping Picoas Plaza.

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Escritor Valdeck Almeida faz palestra na ONU

valdeckO jornalista Valdeck Almeida de Jesus é um dos convidados de encontro que acontece na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, de 29 de novembro a 04 de dezembro, promovido pela Associação Internacional dos Poetas.
Poeta e escritor, Valdeck Almeida fará uma palestra sobre ‘A resiliência das minorias no Brasil’,  leitura de poemas e lançamento do livro ‘Poesias ao Vento: vinte poemas de amor e uma crônica desesperada’, com texto em português e espanhol, tradução da venezuelana Gladys Medía e revisão do poeta colombiano Júlio Bustos. A coletânea foi ilustrada pelo grafiteiro baiano Zezé Olukemi e relata uma paixão iniciada através de cartas que evoluiu para redes sociais e telefone, mas jamais se concretizou. “Este livro foi baseado em minha memórias afetivas, e atravessa mais de trinta anos de inspiração e desejo e, na verdade, a personagem principal é a fusão de duas pessoas. Uma morava em Uberlândia-MG e trocamos correspondências. A outra, mora em Salvador-BA, é natural de Uberlândia também, mas eu nunca a encontrei pessoalmente”, esclarece o poeta. Os textos refletem esse amor não concretizado, agora tornado público, mas a identidade das musas o poeta guarda em segredo.

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Uma gota de ternura em meio à miséria | Ivete Carneiro | Adelto Gonçalves

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gota-capa-docxOs jornalistas começam sempre como repórteres, mas são poucos aqueles que se mantém na função até o fim da carreira porque a maioria acaba como editor ou até mesmo editor-chefe, sem contar aqueles que, atraídos pelo mundo dos negócios e da política partidária, aceitam participar do tráfico de influência e passam a ocupar cargos públicos ou assessorar canastrões ligados ao poder. De fato, raros são aqueles que continuam a viver o dia-a-dia das ruas ou a participar do cotidiano das populações marginalizadas e a escrever sobre suas esperanças e desilusões.

Ivete Carneiro, nascida em Versalhes, na França, mas portuguesa de quatro costados, jornalista do Jornal de Notícias, de Lisboa, desde outubro de 1993, constitui um desses raros exemplos, pois se mantém incólume nesse caminho há mais de duas décadas. Licenciada em Comunicação Social na Escola Superior de Jornalismo do Porto em 1994, desde logo fez a sua opção pelos pobres e desvalidos da terra. Em 2004, frequentou o curso de Jornalismo em ambientes hostis e técnicas de primeiros socorros da Centurion Risk Assesment Services, na Inglaterra.

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“Iracema” | Resumo e análise do livro de José Alencar | in “Guia do Estudante”

alencar-250Escrito em prosa poética, esse romance é um dos principais representantes da vertente indianista do movimento romântico e traça uma espécie de mito de fundação da identidade brasileira

A narrativa de Iracema estrutura-se em torno da história do amor de Martim por Iracema.

Diferentemente do que ocorre em outros romances de José de Alencar, como O Guarani, o enredo de Iracema é aberto a interpretações. A relação entre Martim e Iracema significa a união entre o branco colonizador e o índio, entre a cultura européia, civilizada, e os valores indígenas, apresentados como naturalmente bons. É uma espécie de mito de fundação da identidade brasileira.

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Tapada de Mafra | Cristina Carvalho

tapada-200Este livro divide-se em cinco partes distintas,

O Sagrado

O Dia Intervalo

A Noite

O Fogo e o Renascer

Existe um rapaz que um dia conheceu, num passeio de fim de semana, a Tapada de Mafra. Desde então nunca mais deixou de lá ir. Conheceu todas as aves, conversou com muitos animais, trepou às árvores mais altas, viajou na noite acompanhado de um dos seus maiores amigos, o bufo real Elvis; enfrentou os mistérios da floresta nocturna e diurna, percorreu caminhos, cercados, colinas e vales, decifrou e aprendeu a conhecer e a distinguir plantas e flores, os sons dos ribeiros, as vozes da mata. Percebeu as quatro estações, distinguiu o dia da noite, os sinais da noite, as movimentações dos astros, as manhas dos bichos maiores. Compreendeu a complexidade da vida e aproximou-se da morte no dia em que a Tapada de Mafra ardeu quase completamente, no ano de 2003, num dos maiores incêndios jamais vistos até então. Uma sucessão de histórias todas relacionadas com a floresta e seus habitantes, desde o brilho fantástico de uma nuvem de pirilampos à majestade do mais secreto lobo; desde a suave canção do riacho à força do trovão absoluto. O rapaz aprendeu a conhecer e a estimar o planeta Terra, esse ponto de luz que vibra e estremece entre outros milhares de pontos de luz no firmamento visível. Aquele onde nasceu e onde vai morrer.

As fotografias são de Nanã Sousa Dias

Capa e ilustrações de Teodora Boneva

Dia de lançamento a anunciar.

Homens Bons | Arturo Pérez-Reverte

arturoArturo Pérez-Reverte nasceu no ano de 1951 em Cartagena.
Licenciado em Ciências Políticas e Jornalismo, trabalhou durante doze anos no jornal Puebloe nove nos serviços informativos da Televisão Espanhola (TVE), sendo especialista em temas de terrorismo, tráficos ilegais e conflitos armados.
Foram muitos os prémios que ganhou na área da reportagem, nomeadamente o Prémio Astúrias de Jornalismo pela cobertura para a TVE da guerra da ex-Jugoslávia.
Há já alguns anos, este jornalista de profissão dedica-se exclusivamente à literatura.

SINOPSE

Na Europa do século XVIII, dois homens viajam em segredo. A sua missão? Levar para Espanha algo proibido: os 28 volumes da Enciclopédia Francesa de D’Alembert e Diderot. A delicada tarefa está nas mãos do bibliotecário don Hermógenes Molina e do almirante don Pedro Zárate, membros da Real Academia Espanhola. Mas estes dois académicos estão longe de imaginar as peripécias que os aguardam…

Da Madrid de Carlos III à Paris libertina e pré-revolucionária, com os seus cafés e tertúlias filosóficas, don Hermógenes e don Pedro embarcam numa intrépida aventura, repleta de heróis e vilãos, intrigas e incertezas. Com o rigor a que já nos habituou – e baseando-se em acontecimentos e personagens reais, Arturo Pérez-Reverte transporta-nos para a magnífica era do Iluminismo, quando a ânsia de liberdade derrubava a ordem estabelecida, e dá-nos a conhecer os heroicos homens que quiseram mudar o mundo com os livros.

Um romance sobre fé e razão, Teologia e Ciência, sombra e luz.

RODOLFO MIGUEZ GARCIA GARCIA | ONDE MORRE O QUARTO MARIDO?

rodolfo-200Ficou viúvo ainda novo, mas não por muito tempo. Tempo não lhe
faltava para procurar novo compromisso, já que outros não tinha. Tinha
debaixo de olho a antiga namorada que ficara viúva. Viúva já por três vezes,
murmurava-se em segredo. Em segredo o namoro foi rápido, que a paixão
fora forte. Forte suspeita pairava quanto ao destino do quarto marido. Marido
e mulher oficializam o acto e juntam os pertences. Pertences de três maridos
que fazem pequena fortuna. Fortuna maior é a do quarto que a agora não
viúva, agora ambiciona. Ambiciona ser de novo viúva, rica, poderosa e dispor
de tudo. Tudo por amor diz ela, tudo por dinheiro diz a vizinhança. Vizinhança que faz apostas sobre a duração do dito. Dito isto vão de viagem,
longa viagem que acaba sem regresso para ele. Ele, o quarto marido acaba
por morrer, e sem explicação, no quarto de núpcias.

Rodolfo Miguez Garcia  in “A Audiência Escreveu Um Crime”

AS FABULOSAS HISTÓRIAS DA TAPADA DE MAFRA | Cristina Carvalho

tapada-200Nas livrarias a partir de 22 de Setembro

(…) Sou a maior ave de rapina nocturna do mundo inteiro! E a mais bela! E a mais silenciosa no voo!
No dia em que nasci, nesse dia em que o ovo estalou e o céu se abriu num todo claro e imenso consegui, por fim, espreitar a medo, cá para fora. Eu vivia, por essa altura, num emaranhado de babas gelatinosas e mal podia ser distinguido. Era um bico, apenas. Um bico aberto à sede e à fome. Neste mesmo dia em que apareci no mundo, nasceu também o meu adorado amigo. Eu fui um pássaro. Ele foi um homem.

(…) Logo que nasci, fiquei ali, meio fora, meio dentro da casca do meu ovo branco a piar, a piar num alvoroço doido de penas e líquidos gelatinosos que bordavam todo o redondo do ninho. E ouvia muito bem o potente som que a minha mãe emitia, aquele Hooooo Hooooo prolongado, suave e, ao mesmo tempo, poderoso e quente. Conseguia ouvir o som da minha mãe ainda que ela estivesse bastante longe, a caçar para me alimentar. Depois, já muito de noite, ela chegava com pequenos ratos pendurados no bico que largava perto de mim. Quando eu ainda era muito pequeno e sem forças, ela segurava o ratico e ali ficávamos, eu a petiscar o bicho e ela a segurá-lo para que eu me alimentasse devidamente.
(…)

Cristina Carvalho – excerto de “AS FABULOSAS HISTÓRIAS DA TAPADA DE MAFRA” – publicado por Sextante / Porto Editora.

Num Estado Livre | V.S. Naipaul

naipaulUm dos romances maiores de Naipaul. Duro, mas cheio de compaixão. Este livro começa por contar a história de um criado indiano em Washington, que adquire a cidadania americana, mas que sente já não fazer parte do grande fluxo da vida. Segue-se a história do caribenho de origem asiática em Londres: está perturbado, preso por homicídio, mas nunca saberá onde se encontra. A terceira e principal narrativa desloca-se para África, para um país ficcional parecido com o Uganda ou o Ruanda. As personagens centrais são dois ingleses, que no passado sentiam África como um continente libertador, que entretanto o deixara de ser. Em tempo de conflitos tribais, no meio de uma grande insegurança, os dois terão de empreender uma longa viagem.

Tempo da Descoberta | Joaquim António Ramos

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Joaquim António Ramos tem 65 anos e vive em Azambuja, onde nasceu, e a cuja Câmara presidiu durante 12 anos.

Licenciado em Economia, foi professor universitário, responsável, durante mais de duas décadas, pelo sector de Ambiente do Município de Lisboa, consultor de diversas empresas de estudos ambientais e desenvolveu vários projectos, nacionais e internacionais, nessa mesma área.

Foi durante dois mandatos coordenador do Comité de Ambiente das Eurocities, sediado em Bruxelas.

Em 2005 publicou a sua primeira obra literária, “ Contos Semibreves”.

O Grande Chef Caseiro Na Mão de Deus | Miguel Calado Lopes

O grande chefe caseiro

«A história de um pobre desgraçado levado a tribunal pelas suas “ex” que o acusam de ser um engordador em série e exigem que ele lhes pague as curas de emagrecimento. Eis o “lead”: Sebastião dos Santos percebeu que estava em maus lençóis quando o seu psiquiatra se riu no momento em que lhe confessou sofrer de uma crise de masculinidade. “Não se preocupe, tenho o consultório cheio”. A sua vida a complicou-se ainda mais quando três antigas namoradas entraram na sala do tribunal a rebentarem pelas costuras e o acusaram de ser um serial fattner, um engordador em série. No entanto, o advogado de Defesa do réu puxou de uma arma secreta em pleno julgamento e acusou as três mulheres de conluio para uma muito bem orquestrada vingança de carácter sexual. Antes de proferir a sentença, a juíza Lourença, dotada de uma estranha beleza macilenta, toma conhecimento da infidelidade do seu marido, fica a saber que o réu é fortemente atraído por uniformes e recebe uma carta anónima que revela as desventuras amorosas do Sebastião. A atribulada e divertida história de um pobre desgraçado perdido num mundo cada vez mais feminino.»

Direito e Justiça | Adelto Gonçalves | por Anderson Braga Horta

adeltoO estudo da história pátria é válido, entre outras razões, pelas implícitas no imperativo do oráculo, que o vai buscar nas palavras do sábio: Nosce te ipsum. Encarar nossas mazelas, mergulhar em suas origens, traçar o seu perfil diacrônico – eis o caminho ideal para compreendê-las, lutar contra elas, transcendê-las.

Na trilha de investigações como as de Stuart B.Schwartz relativas à Bahia dos séculos XVII e XVIII, António Manuel Hespanha (Portugal dos seiscentos), Arno e Maria José Wehling (Rio de Janeiro, de 1751 a 1808), entre outras, Adelto Gonçalves lança uma obra de importância no campo dos estudos histórico-jurídicos entre nós: Direito e Justiça em Terras d’El-Rei na São Paulo Colonial – 1709-1822 (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), que enfoca especialmente “as atribuições e funções dos juízes ordinários, vereadores, juízes de fora, provedores, corregedores e ouvidores no período …. por meio da descrição dos casos mais significativos ocorridos à época, contribuindo assim para um diagnóstico (ainda que incompleto) da estrutura judiciária”.

O livro é fruto de pesquisas nos manuscritos da capitania de São Paulo, do Arquivo Histórico Ultramarino, de Lisboa, via microfilmes depositados no Arquivo do Estado, a par de outros documentos, como as Atas da Câmara Municipal de São Paulo. Mas o tema já pertencia ao âmbito de interesse do autor, que também o é do premiado Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (lembremos que o cantor de Marília era ouvidor em Vila Rica), bem como de Bocage: o Perfil Perdido (o pai do poeta foi juiz de fora e depois ouvidor na Metrópole).

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O Rio Com Regresso – Ensaios Camilianos | Maria Alzira Seixo

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Este conjunto de estudos é constituído por dez ensaios que analisam individualmente aspectos bastante diversos, mas todos eles importantes, da obra de um dos maiores prosadores da literatura portuguesa, Camilo Castelo Branco. Nele se encontram de igual modo tratados temas mais amplos, como o lugar da novela camiliana no panorama histórico-literário português ou a problemática do feminino na obra do escritor, e tópicos mais aprofundados que dizem respeito a um determinado texto, como a análise da personagem Maria Moisés da novela homónima do segundo volume das Novelas do Minho. Este é, pois, um livro que tanto pode interessar aos apreciadores da obra do escritor, como também a todos aqueles que se dedicam ao estudo da ficção no geral e de aspectos da teoria da narrativa e do romance em particular.

A Noite não é eterna | Ana Cristina Silva

acsilva - 200A Roménia, sob o jugo do ditador Nicolae Ceausescu, atravessa um dos piores períodos da sua história, com a sua população a enfrentar a fome e dominada pelo terror. Seguindo as orientações do Presidente para a criação de um exército do povo no qual os soldados seriam treinados desde crianças, Paul, um ambicioso funcionário do partido, decide levar de casa o filho de três anos e entregá-lo aos cuidados do Estado. Quando a mãe se apercebe do desaparecimento do pequeno Drago, o desespero já não a abandonará, bem como o firme desejo de acabar com a vida do marido.
Correndo riscos tremendos, Nadia não desistirá, porém, de procurar o menino, ainda que para isso tenha de forjar uma nova identidade, de fazer falsas denúncias, de correr os orfanatos cujas imagens terríveis chocaram o mundo e até de integrar uma rede que transporta clandestinamente crianças romenas seropositivas para o Ocidente. Mas será que o seu sofrimento pode ser apaziguado enquanto Paul for vivo? Enquanto o ditador for vivo?

“CONTOS IMPERFEITOS” | Cristina Carvalho

contos imperfeitos(…)
Os guilros são os donos deste mundo. Os guilros elevam-se até às gárgulas do Mosteiro, lá no alto, nos pináculos. As gárgulas riem-se às gargalhadas, assobiam, cantarolam e velam, velam sempre por detrás das suas carantonhas malévolas lembrando que o diabo existe, lembrando as pessoas que o diabo toma muitas formas. Gárgulas e guilros conhecem o mundo.
As gárgulas aparam a água que escorre dos céus; os guilros dessedentam-se nessas águas para poderem esvoaçar, sôfregos, à volta de outras raparigas que, por sua vez, dançam na praça e enlouquecem os homens, seja isto ontem ou hoje ou amanhã.
Depois, de repente, inesperadamente, começam a debandada na direcção da serra que existe por detrás das casas, por detrás das árvores, na direcção da serra presente ao longe. Abandonam o Mosteiro. A terra treme.
Sempre aos gritos desvairados, esvoaçando pelos céus agora escurecidos, os guilros desaparecem. Deixam um rasto de incompreensão, de susto, de trevas.
Cheira ao pó da eternidade. Depois, a porta pesadíssima, enorme do Mosteiro fecha-se sobre mim que ainda continuo sentada ali nas lajes em frente. Permaneço na mesma posição há centenas e centenas de anos. Tal como as vozes e os gestos dos pedreiros indiferentes ao desenrolar dos tempos.
Para eles é que vão os meus murmúrios. Para os construtores das gárgulas de todos os templos.

Cristina Carvalho – excerto de “OS GUILROS E AS GÁRGULAS DO MOSTEIRO”, conto incluído no livro “CONTOS IMPERFEITOS”, uma publicação de Arquivo – Bens Culturais em Fevereiro de 2016

O mundo dos homens sob o olhar feminino | Adelto Gonçalves

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A história da rivalidade entre dois irmãos é tão velha quanto a Humanidade. A Bíblia nos conta a história de Caim e Abel, os dois filhos de Adão, criados e educados da mesma maneira, mas com caráter e personalidades diferentes. E a de Esaú e Jacó, história dos filhos de Isaque e Rebeca, que inspirou Machado de Assis (1839-1908) a escrever um romance sobre a rivalidade entre irmãos gêmeos, tendo a mãe no centro da disputa. Recentemente, ainda na literatura brasileira, Milton Hatoum (1952) publicou Dois irmãos (2000), excepcional romance que relata um drama familiar em cujo centro estão dois filhos de imigrantes libaneses, os gêmeos Yaqub e Omar.

O tema serve agora para a escritora Eltânia André lançar o seu primeiro romance, Para fugir dos vivos (São Paulo, Editora Patuá, 2015). Mas, ao contrário dos romances citados, aqui se trata de um mundo exclusivamente masculino que é visto detidamente por um olhar feminino. E essa é a grande diferença.

Como se sabe, nos dias de hoje, é difícil encontrar um escritor que, por mais genial que seja, construa imagens insólitas, que não sejam conhecidas. Já as escritoras costumam escrever de maneira distinta, têm imagens completamente novas, constituem janelas para outro mundo, outra sensibilidade e outra forma de ver as coisas. E isso se constata exatamente quando uma autora compõe personagens masculinos. É exatamente o caso de Para fugir dos vivos.

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Uma visão polifônica do primeiro Saramago | Adelto Gonçalves

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No prólogo que escreveu para O jardim dos caminhos que se bifurcam (1941), Jorge Luis Borges (1899-1986) refere-se à “escrita de notas sobre livros imaginários”, a uma época em que já havia publicado o conto “A aproximação a Almotásim” (1935), que constitui um pseudo-ensaio ou uma resenha ou recensão de um suposto livro publicado em Bombaim três anos antes. Para “enganar” seus leitores e futuros estudiosos de sua obra, dotara o livro imaginário de um editor real e um prefácio que teria sido escrito por um escritor real, mas tanto o autor como o livro, seu enredo e detalhes de alguns capítulos eram de sua inteira invenção.

Mais de 70 anos depois, o professor Francisco Maciel Silveira, se não foi tão longe, lançou um livro, Exercícios de caligrafia literária: Saramago Quase (Curitiba, Editora CRV, 2012), que segue nessas pegadas, pelo menos em parte, ao reunir ensaios que parecem ficções e que seriam de diferentes autores, todos preocupados em desvendar a obra ficcional e o teatro da primeira fase de José Saramago (1922-2010) como autor. Em outras palavras: o ensaísta recorre ao conceito de polifonia utilizado por Mikhail Bakhtin (1895-1975) no estudo da obra de Fiodor Dostoievski (1821-1881) para reunir vozes e pontos de vistas conflitantes a respeito da obra saramaguiana.

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