Uma Lágrima que Cega | Casimiro de Brito | Apresentação, sábado, 15-12-2018, 18 horas na Livraria Férin, Lisboa

Amanhã, sábado, será apresentado às 18 horas na Livraria Férin (junto da Fnac-Chiado) o meu novo romance “Uma Lágrima que Cega”. O prazer que vou ter em encontrar alguns dos meus amigos daqui… Venham. Ofereço-vos um fragmento do meu romance:

O que queres fazer? Onde queres jantar? Italiano, francês, cipriota? O que queres que eu faça? Saímos? Ficamos em casa? Na cama? Precisas de alguma coisa? Pouco de pouco me basta e ela, que tanto é, mais ainda me quer dar, destinar. Atenta aos meus desejos mais velados, a ler-me, a tocar piano, a escutar-me, a desejar conceder-me o que desejo, se desejo alguma coisa, que nada peço, que me deixo somente ir na onda, enfim, pouco mais que nada. O teu nada é quase tudo, dizia-me Tessa, há vinte anos. Pesa. Hoje, ainda na cama, perguntei-lhe se ainda tocava. Líamos, vagueavamos no corpo do outro. E logo se levantou, nua e fresca, levou-me pela mão para a sala de música, sentou-se ao piano, um Bösendorfer de 1975, exactamente da sua idade e perguntou-me, Queres escolher? e meteu- me nas mãos um caderno com partituras de Mozart.

Apontei com o dedo o Andante Grazioso da Sonata Köchel Nr. 331 e sentei-me a seu lado, eu também nu, sob a luz que nascia das altas janelas. Começou a tocar, como se estivesse equilibrada entre o seu corpo colado ao meu e uma melodia ditada por um olhar muito vivo sobre a partitura que eu segurava com os dedos. Mãos subtis, as suas, nessa prova máxima, em que também aí parecia fazer o que queria. Virtuosidade e emoção a que só faltava a perseverança, e para quê, perguntava-me ela noutra ocasião, se não sei o que será amanhã? Talvez faltasse apenas um pouco de silêncio na sua interpretação, essas pausas brevíssimas que fazem a diferença entre um legato excessivo e um legato na medida justa. Pouco a pouco fui ficando excitado, já não sei se pela inesperada execução da sonata, se pela sua pele, aquecida pelo sol da música, roçando-me os flancos. Outra peça? Caímos no tapete, um desses que a família trouxe das montanhas da Arménia e começámos a amar-nos no chão. Depois fomos de novo para a cama, uma palavra que sempre nos enche a boca e depois os nossos corpos de mel, especiarias, acenderam-se um pouco mais. A sua pele brilhava como se absorvesse a luz toda do lugar.

Sexo o que é? Amar o corpo todo, a polpa de um dedo como se fosse um seio, um seio como se fosse uma nádega, uma nádega como se fosse a polpa de um dedo; ser amado por todo o corpo de quem me ama, quando ela me olha nos olhos como se me despisse no chão, quando ela me beija as axilas como quem navega por rios interiores, quando me faz sentir na boca o rumor das íntimas raízes. O que é o sexo? Tudo o que fazes com o outro que tu amas. Ela dorme, pobre ceifeira, enrolada em mim; eu espero que o sol nasça. Meu jovem dinossauro, disse-me antes de adormecer — que coisa linda! Na minha mão o seu pé. E através do pé, de veias salientes, ouço-a palpitar, as veias visíveis de quem fez ballet. O mesmo correr da vida que vi nos seus olhos, fechando-se, a boca aberta e escura, caindo por fim sobre o meu peito. Mas não há fim de festa nesta entrega de corpos amantes, detenção apenas, sequer detenção porque estes rios são circulares e o desejo não tem fim. Há também uns momentos um pouco mais extremos em que perco o tão parco equilíbrio do mundo.

Casimiro de Brito

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito

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