A Liberdade do Herman | por Carlos Matos Gomes

Escrevi sobre a genialidade de Herman José e referi um extraordinário sketch em que ele desmonta a farsa dos comentadores de televisão e da manipulação que está a ser produzida sobre a guerra da Ucrânia. Esses “nacos informativos” são atentados reais à liberdade dos cidadãos, na medida em que foi instaurada a censura e sobre duas formas, uma, direta, proibindo a informação de uma das partes envolvidas, e outra, mais perversa, através da imposição do pensamento único, do silêncio, da intimidação dos que não seguem a verdade oficial.

O texto provocou, felizmente, vários comentários, alguns deles sobre a curta lista de génios que eu estabeleci para mim, acrescentando outros, casos de Almada Negreiros, Paredes, Siza Vieira, Saramago, Eça. Tenho por todos os nomeados admiração, mas Herman é, para mim, diferente, não só porque ele abriu novos caminhos, deu novas expressões à arte de representar, mas fundamentalmente porque penetrou em camadas da sociedade mais resistentes à mudança, aos de muita baixa literacia, de pouca instrução escolar, aos integristas religiosos, tanto quanto no grupo dos mais privilegiados e convencidos. Ele rompeu a muralha construída ao longo de séculos de obscurantismo religioso, cultural, de violência política, de hierarquias sociais, de ideias feitas sobre a epopeia portuguesa. Ele, sozinho e com a sua equipa, foi o Monty Python da sociedade portuguesa, sendo certo que esta não é dotada do sentido de humor e de autocrítica da inglesa e os ingleses têm uma longa tradição de produção teatral que não se resume a Shakespeare.

Herman conseguiu com o seu génio e com o seu prestígio abrir uma fenda nas muralhas do conservadorismo de antigo regime em que Portugal vivia (e em parte vive) e abrir a sociedade à liberdade de questionar os tabus. Reveja-se o Herman Enciclopédia.

Essa subversão que Herman promoveu é hoje inaceitável pelos poderes instituídos. Essa subversão é e está a ser sufocada pela mediocridade acrítica e até quase pornográfica de programas do tipo Big Brother, de telenovelas de enredo de cordel e de muita bola, de informação formatada pelas agências de comunicação e pelos lóbis dos negócios e das corporações.

Dirão os crentes e adeptos do pensamento único: existe pluralidade de informação, pois em Portugal estão no ar três estações de TV, cada uma com vários canais e todos os portugueses podem escolher. É um sofisma primário. Como dizer que uma centopeia pelo facto de ter cem patas tem uma maior opção de escolha do que uma galinha, que só tem dois. Na realidade o que se verifica é que estamos caídos na velha expressão de democracia de Henry Ford quando lançou o Ford T: os clientes são livres de escolher a cor, desde que seja preto. Os mesmos fornecedores de doutrina, como os antigos caixeiros viajantes, circulam com a mesma mercadoria entre jornais, rádios e televisões.

Um pouco de história. A SIC, a primeira estação privada, começou a emitir em 1992, pertencia e pertence ao grupo Impresa, do milionário Francisco Balsemão, proprietário do Expresso, o semanário mais influente na sociedade portuguesa. O seu primeiro diretor foi Emídio Rangel, um jornalista da liberdade e da responsabilidade. A TVI começou em 1993, propriedade da Igreja Católica através da União das Misericórdias e de outros acionistas a ela ligados.

Os grandes momentos de Herman José na televisão, de pluralidade e crítica politica e social, decorreram até ao ano de 1997, na RTP, com a «Herman Enciclopédia». Pelo meio decorreu uma polémica de tentativa de imposição de censura a propósito de episódio sobre a Última Ceia, que Joaquim Furtado repeliu.

Talvez seja coincidência, mas em 1997 a Media Capital, do milionário Pais do Amaral, torna-se acionista de referência da TVI, que passara da Igreja para um grupo colombiano e mais tarde para a Prisa, o grupo espanhol que entra no capital. A TVI passa a ser uma estação populista — isto é, defensora de um regime de lucros e poderes oligárquicos nacionais e internacionais, sob a capa de uma grande liberalidade de costumes e de cultura de massas. O típico truque de colocar uma pin-up na capa e defender os lucros dos grandes grupos e a hierarquia de classes dos tabloides ingleses. Emídio Rangel saiu da SIC em 2001, em conflito com Balsemão, que queria transformar a estação num instrumento de domínio político com audiências populares através do pograma de intimidades Big Brother, que foi transformado em santo milagreiro da TVI.

Na atualidade, no novo espetro de aparente diversidade da oferta, as televisões venderam e vendem todas o mesmo produto ideológico — de que as longas temporadas de cometário político conservador a cargo de Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes, ou de Paulo Portas e a avassaladora presença do futebol são prova. A política reduzida aos golpes baixos, ao boato e à calhandrice e muita bola!

Desta “ordem unida”, e desta barreira contra a critica e a verdadeira pluralidade, escapava o programa Contra-Informação, um formato derivado dos Spitting Image da ITV britânica e no Guignols de l’info do Canal+ francês, mas que não resistiram à uniformização e ao respeitinho que é muito bonito do cavaquismo e terminou em 2010.

Herman foi deixado à sua sorte, isto é, os poderes empurraram-no subtilmente para as margens, negando os meios para os programas que ele poderia fazer e substituindo-os por “coisas” de baixo custo e baixa qualidade, até quase desaparecer, remetido ao circuito de festas e romarias pela província. A versão neoliberal da democracia não o tolera. Ao Herman José, os patrões das televisões preferem uns animadores esforçados que esbracejam e gritam em cima de palcos improvisados acompanhados por umas moças de carnes exuberantes.

Esta escolha das Tvs e dos seus espetadores não é a bem do povo, não é dar ao povo o que o povo quer ver e ouvir (quis ver e ouvir Herman), mas é sim um revelador da decadência da nossa exigência democrática, da aceitação passiva do apodrecimento cultural em que vivemos resignadamente. Revela que estamos como o burro da frase de velha sabedoria: comemos palha, basta que no-la saibam dar. E «eles» sabem! E sabem que programas como os de Herman lhes dificultavam a tarefa.

Carlos Matos Gomes | 31-10-2022

AS (IN)DEPENDÊNCIAS DA EUROPA | por Carlos Branco, Major-general e Investigador do IPRI-NOVA

26 Outubro 2022

Ao contrário do que afirmam os dirigentes europeus, a transição energética, tecnológica e industrial que a Europa pretende trilhar não vai conduzir à sua autonomia ou independência, mas sim aumentar as suas dependências, agora da China, em vez da Rússia.

Tanto Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, como Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, têm-se pronunciado repetidas vezes sobre a autonomia estratégica e a independência energética da União Europeia.

Temos dúvidas como conseguirá a União atingir esses objetivos tão ambiciosos, perante a série de dependências que as tensas relações entre a China e os EUA, a crise da Covid-19 e a guerra na Ucrânia trouxeram à tona de água, não só em matéria de comércio, investimento e cadeias de abastecimentos, como das matérias-primas necessárias à transição energética e tecnológica, que a União pretende implementar.

Um dos aspetos que os oito meses de guerra tornaram evidente é o facto do modelo de desenvolvimento económico europeu assente em matérias-primas baratas, que lhe permitiam obter vantagens competitivas no mercado global, se encontrar esgotado.

Um relatório efetuado no âmbito da Comissão Europeia identificava 137 dependências da União. Dessas, 52% tinham origem na China, e apenas 3% na Rússia. Sem se estabelecer uma relação com a natureza do impacto de cada uma delas, a sua contabilização é um instrumento de análise insuficiente.

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Herman José | Quantos génios produziu Portugal? | por Carlos Matos Gomes

Pergunta-me o agora Meta o que estou a pensar. Na hora que ganhei pensei no génio. Quantos génios produziu Portugal? Concluí que Herman José é um dos génios portugueses ao rever programas de TV que tinha deixado para melhor ocasião.

Não existe um consenso mínimo para definir o génio. Existe a ideia que cada um de nós faz do que é génio. O génio é alguém com uma aptidão fora da norma para uma qualquer atividade, conjugar notas de música, sons, cores, movimentos, dados abstratos. Alguém que vê o mundo de um ponto de vista único, que, em vez de “captar” conceitos corriqueiros troca as perguntas para encontrar respostas que são evidentes apenas depois de eles as apresentarem.

Karl Jaspers, um dos grande filósofos do século XX, realizou um estudo comparativo das trajetórias de vida e artísticas de vários artistas geniais, entre eles Strindberg e Van Gogh e descobriu em todos eles um caráter visionário acompanhado de interrogações sobre a realidade. O génio artístico seria, assim, associado a uma «tipología esquizofrénica», que faz dele um percursor de acontecimentos, alguém que desempenha o papel dos antigos oráculos, ou dos animais míticos como os corvos, as corujas. Portugal tem os seus génios, adequados à interpretação da realidade em cada tempo e circunstância.

Eu elaborei a minha lista particular: Gil Vicente, o Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Amália Rodrigues e Herman José. Não são muitos. Não há génios na pintura – talvez Amadeo de Souza Cardozo -, nem na música, nem na arquitetura, nem na ciência – talvez Pedro Nunes.

Talvez cause surpresa a inclusão de Herman José num tão restrito número de “génios portugueses”. Julgo que Herman José, fruto, se quisermos encontrar explicações para o que é inexplicável, do cruzamento de culturas em que nasceu e viveu, da sua educação, viu desde muito cedo a sociedade portuguesa por dentro e por fora. Adquiriu uma visão 3 D. Depois foi dotado com as aptidões excecionais para expressar essas visões, inteligência, capacidade para conjugar conhecimento com realidade, dotes físicos, coordenação motora, voz, ouvido, coragem para se exibir, arrogância quanto baste para se impor e ser o centro das atenções e a estrela do espaço em que se move. E, finalmente, o instinto do matador de mediocridades. Um pícaro aristocrata como não houve em Portugal e haverá muito poucos no mundo.

Os seus programas na TV são um retrato do Portugal do seu tempo, do nosso tempo. Ele é o grande historiador contemporâneo. Os seus programas são os autos vicentinos do Portugal pós 25 de Abril. São as farsas dos autos da Índia (adultério, dissolução de costumes e falsa moral como consequência dos Descobrimentos) e de Inês Pereira (o oportunismo e a ausência de princípios: “mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube”) que descobriram os podres do que era apresentado como uma epopeia e uma luta pelo Bem. As suas personagens são as personagens de Gil Vicente, e, nalguns casos, as de Eça de Queiroz. São as figuras refinadas do subversivo Vilhena e do pícaro Luiz Pacheco. Herman José reúne todas essas personagens e constrói com elas um painel genial, o que o tríptico de Nuno Gonçalves não consegue ser, porque a Gonçalves lhe faltava o humor, a inteligência e a perversidade de Herman.

A mais recente obra da genialidade de Herman José consistiu na transformação em esfregões de limpar o chão dos típicos comentadores arregimentados pelas TVs para fazer a propaganda da guerra na Ucrânia.

É como capachos que ele reencarna o comentador da bola José Esteves, agora de barba e cabelo branco a perorar, a babar-se e asneirar num lar da terceira idade, com um olhar desconfiado, a dar as deixas para o excelente Manuel Marques recuperar a personagem de Zé Manel, o taxista que sabe tudo e fala pelos cotovelos, agora com ar de polidor de esquinas a quem saiu a raspadinha, ou que coloca a Maria Rueff no trono da pivôa Beleza de Sousa.

Herman José conseguiu em menos de um quarto de hora esfrangalhar a manipulação que tem sido a informação das TVs sobre a guerra da Ucrânia. Tudo ficou a nu, reduzido à farsa que se esconde sob o nome de informação. E, por último, para quem não tenha querido entender o que ele disse ao apresentar aquele genial sketch explicou no programa “Primeira Pessoa”, de Fátima Campos Ferreira, que a informação é hoje um negócio e que para dar lucro e pagar os salários aos pivôs vedetas há que vender as notícias que as audiências querem. Deu como exemplo da degradação a Fox News.

Foi delicado com os seus colegas das Tvs, um ato de misericórdia.

Carlos Matos Gomes | 30/10/2022

Gravitas Plus: The untold story of Rishi Sunak

Banker, Lawmaker, Chancellor & now the Prime Minister of Britain. Rishi Sunak has done the unthinkable, but how true are the reports around his achievements? Is he really UK’S youngest PM? Is he really richer than King Charles & does he really belong to India? On Gravitas Plus, Priyanka Sharma separates facts from fiction.

15% x 10% = 0,015 | 0,015 = 1,5% | total = 1,5% | um prémio a quem entender

Dizem os jornais e “media” em geral que a Rússia ocupou, ao longo da sua “intervenção militar especial” na Ucrânia, a área total de 15% de todo o País.  

Consideremos que é aceite que a ocupação actual é de 15%.

Consideremos ainda que “esta área” está ocupada, toda ela, por edificações de todo o tipo, o que não corresponde à realidade. Mas vamos considerar que sim.

Assim sendo, vamos admitir que 10% de todo o edificado numa área de 15% do total do País Ucrânia foi destruído e/ou danificado.

Logo, teríamos uma destruição de 1,5% de toda a Ucrânia.

Dizer-se então, que a Ucrânia é um País que está quase completamente destruído é uma falácia.

Repare-se mesmo que a Rússia nem sequer “passeou” pelos restantes 85% do País, salvo zonas pontuais e por muito pouco tempo, como logo no início na sua Capital, Kiev.  

Os especialistas credíveis consideram mesmo que as tropas russas seguriam quase à risca as Ordens Superiores recebidas, que foi a de procurarem o mais possível não destruirem edificações e muito menos atacar a população civil. O que tem lógica na perspectiva de que a intenção não era destruir, mas sim impedir que a Ucrânia aderisse à NATO e viesse a autorizar a instalação de armamento nuclear apontado à sua Capital, Moscovo e, também, de libertar o País de influências nazis que, entre outras decisões, proibiram o uso da língua russa e o seu ensino nas Escolas.

Os povos russos e ucranianos, e agora explicito aqui abertamente a minha opinião, não mereciam nem merecem esta guerra, provocada sob fortes influências externas, vindas mesmo de outro Continente  que combate a longa distância, como é seu costume.  

Até porque são povos irmanados há séculos, primos, irmãos e amigos uns dos outros.

Esta guerra tem de acabar já, um compromisso tem de ser encontrado, ambos os Países devem integrar plenamente um Continente que deve ser de Paz – do Atlântico aos Urais, como dizia De Gaulle.

A manipulada Comunicação Social, tem prestado um apoio assumido às “ordens de manipulação” que recebe.

It’s disgusting. Shame on you !

Shame on you too, political gentlemen !

——

Vítor Manuel Coelho da Silva, português, minderico, acérrimo defensor da Europa visionada por De Gaulle.

Do Atlântico aos Urais, e em paz com todos os outros Continentes.

O MUNDO é de TODOS | HUMANISMO e PAZ

O discurso de Putin e Napoleão | por Carlos Matos Gomes

Através de dois camaradas que muito prezo recebi entre ontem e hoje dois textos importantes, “Napoleão Bonaparte, Sobre a Guerra — A arte da batalha e da estratégia” Apontamentos e notas de Bruno Colson, enviado pelo major-general Carlos Chaves Gonçalves e do major-general Raúl Cunha a tradução de elementos significativos do discurso de Vladimir Putin, no dia 27 de Outubro, no Clube Vaidal, um think tank russo que se reúne nos arredores de Moscovo.

Os dois textos têm um elemento comum: a guerra. As causas da guerra, os objetivos da guerra e as consequências da guerra. A mim interessa-me, sempre me interessou, saber como terminam as guerras. Saber como se faz a guerra levou-me à Academia Militar e saber como se faz uma dada guerra, a guerra de guerrilha levou-me aos «comandos». Saber como terminam as guerras levou-me ao 25 de Abril de 1974, ao estudo, à investigação, à literatura.

Não sou um admirador de Napoleão, que perdeu a sua guerra, não atingindo o objetivo que se propôs e pelo qual combateu por toda a Europa, de Lisboa a Moscovo. (No tempo de Napoleão Moscovo era Europa. Agora, segundo a doutrina do secretário-geral da NATO, de que poucos saberão o nome e das afirmações da senhora Ursula Van Der Leyen, que surgiu do anonimato submisso de onde vêm geralmente os presidentes da Comissão Europeia já não é, transformou-se numa jangada, uma jangada de pedra, como a que Saramago ficcionou para a Península Ibérica.) O pensamento único Ocidental impôs que a Rússia deixasse de ser Europa, que se cindisse pelos montes Urais! Este corte ideológico e ditado por interesses alheios à Europa terá consequências. O discurso de Putin anuncia-as. É prudente conhecê-las.

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Deus ou seja a natureza | Spinoza e os novos paradigmas da Física | Roberto Leon Ponczek

PREFÁCIO | PUBLICIDADE PARCIAL AO LIVRO

No âmbito da literatura espinosana o presente livro é um contributo singular, abrindo caminhos até agora inexplorados, que certamente agradariam ao autor da Ética. Outra coisa não se esperaria de Roberto Ponczek, um homem de interesses variados e de múltiplas paixões. Físico por formação é
também filósofo, músico e pedagogo, estabelecendo habilmente pontes nestes
diversos domínios. O olhar com que contempla o real constrói sínteses e
concilia divergências. É o olhar de um mestre, de alguém que entende o
ensino/aprendizagem como caminho para descobertas deslumbrantes e não
como atividade mecânica de quem recebe informação e é obrigado a devolvê-
la. Há um enfoque pedagógico que constitui o fio de Ariadne orientador do
percurso desta obra, perspectiva explicitamente assumida e anunciada no
próprio título: Deus ou seja a Natureza: Spinoza e os novos paradigmas da Física.
A tónica dominante é diálógica, estabelecendo-se um inter-câmbio entre
a Filosofia e a Ciência, nomeadamente entre a Filosofia e a Física. Logo na
introdução, Ponczek lamenta o equívoco que leva ao divórcio entre físicos e
filósofos, geralmente de costas voltadas uns para os outros, dizendo os
primeiros que a Filosofia é pura perda de tempo e queixando-se os segundos
da linguagem hermética da Física. Na seqüência de Kuhn, que já se insurgira
com o modo an-histórico (ou mesmo anti-histórico) como habitualmente
se ensinam as diferentes ciências, o autor propõe uma pedagogia e uma
dialéctica das mesmas que não as considera como “algo fechado, neutro, prático,
linear, objectivo e desprovido de historicidade” (ver Introdução). É seu objectivo
mostrar como o pensamento científico se desenvolve em espiral, inserido
num contexto histórico, metafísico, ideológico e mesmo religioso e artístico,
do qual seria artificial descolá-lo.
Numa clara oposição ao positivismo comteano, Ponczek defende a
proximidade da Ciência e da Filosofia, provando que certas questões científicas
só serão compreendidas pelo recurso à metafísica.

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É bonito » Medida Humanista de Alcance Extraordinário | Governo vai “aprovar legislação que protege famílias com crédito à habitação”.

A garantia foi dada pelo primeiro-ministro. Outros deixariam o neo-liberalismo actuar contra as famílias.

O primeiro-ministro afirmou esta quarta-feira que já foram investidos 5,6 mil milhões de euros em apoio às famílias e controlo dos custos da energia, estando para breve legislação para proteção face à alta dos créditos à habitação.

Estas posições sobre a atual conjuntura económica e financeira do país foram transmitidas por António Costa na abertura do debate parlamentar na generalidade da proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2023.

“Já investimos 5,6 mil milhões de euros entre medidas de apoio ao rendimento das famílias e medidas de controlo do custo da energia. Por isso, atualizamos o indexante de apoio sociais, o salário mínimo nacional acima da inflação. Por isso, prosseguimos o aumento do complemento solidário para idosos para convergir com o limiar de pobreza”, declarou.

Perante os deputados, o líder do executivo referiu que o seu Governo respondeu à atual trajetória de aumento da inflação com o congelamento do preço dos transportes públicos e limitou em 2% o aumento das rendas de casa.

“Vamos aprovar legislação que protege as famílias com crédito à habitação. Sim, cuidamos de responder às necessidades do presente, do mesmo passo que mantemos, com toda a determinação, o rumo que traçámos para a legislatura”, sustentou.

Em relação à presente proposta orçamental, António Costa disse que as verbas para o Serviço Nacional de Saúde serão reforçadas em 7,8%.

“Vamos instalar os primeiros 108 dos 365 centros tecnológicos especializados que vão modernizar o ensino profissional até 2025; aumentamos o apoio sustentado às artes em 114%; o investimento da lei de programação nas forças de serviços de segurança cresce 33%; a PJ tem o maior reforço de sempre em meios humanos e capacidade pericial para dar combate à criminalidade económica e financeira, em especial à corrupção”, apontou.

Também de acordo com o primeiro-ministro, o orçamento da Defesa é “robustecido, fortalecendo as Forças Armadas e honrando os nossos compromissos internacionais, num contexto marcado pela guerra da Rússia contra a Ucrânia”.

Depois, referiu-se ao acordo de médio prazo, assinado em sede de concertação social pelo seu executivo com os parceiros sociais, salientando que assume como meta para 2026 acelerar para 2% o crescimento da produtividade.

“Esta é uma condição necessária para garantirmos melhores empregos, com melhores salários. Para produzirmos mais e com mais valor acrescentado, estabelecemos como prioridades o investimento nas qualificações e na inovação”, sustentou.

“O financiamento às empresas aumenta 90% do Portugal 2020 para o conjunto das verbas que lhes são destinadas no PRR (Plano de Recuperação e Resiliência e no Portugal 2030, para apoiar a sua modernização e internacionalização, para as apoiar na dupla transição energética e digital. E no acordo firmado com os parceiros sociais reforçámos as medidas de redução seletiva do IRC, que no seu conjunto representam uma descida de impostos sobre as empresas superior à descida transversal de 2 pontos percentuais na taxa de IRC”, assinalou.

Na presente proposta de Orçamento, segundo o líder do executivo, são “melhorados os incentivos fiscais à inovação, ao investimento, à localização no interior e à capitalização do nosso tecido empresarial; é reduzida a carga fiscal das pequenas e médias empresas (PME); e reforçam-se os incentivos aos ganhos de escala, alargando a taxa reduzida das PME a todas as empresas até 500 trabalhadores e assegurando que as empresas que resultem da fusão de PME mantêm a taxa reduzida de IRC”.

“Estes são os incentivos certos para as empresas melhorarem a sua produtividade”, vincou António Costa, referindo-se indiretamente às diferenças entre a via fiscal do Governo e a dos partidos à direita do PS.

“Mas é essencial acompanhar o esforço das empresas com o reforço do investimento público, para melhorar a competitividade e, assim, elevar o peso das exportações no PIB para 53% até 2030”, acrescentou.

SIC Notícias, Lusa 26-10-2022

O inverno vem aí | E vai ser duro | in Expresso Curto de 26/10/2022 | por Raquel Moleiro

Tão felizes que eles estão!

Wall Street Journal
Joe Biden, Nancy Pelosi

E que tal um apelo para acabar com a guerra? O Expresso deveria dirigir-se ao Mentor Principal desta tragédia, o Sr. Joe Biden e seu CMI, que continuam a pensar que os USA são os donos do Mundo. E não são. [vcs]


Quão duro deve ser dizer a um povo, ao seu povo, para não regressar a casa? Quão difícil deve ser para um povo ouvir que um país, o seu país, não tem condições para lhe assegurar a sobrevivência? Iryna Vereshchuk, vice-primeira-ministra ucraniana e chefe de reintegração dos territórios ocupados deixou ontem um pedido aos conterrâneos para se manterem nos países de acolhimento devido à situação energética. “Peço que não voltem, por enquanto. Precisamos de sobreviver ao Inverno. Infelizmente as redes não vão aguentar. Conseguem ver o que a Rússia está a fazer?

A Rússia está a fazer do frio um aliado na guerra. Mísseis russos e drones iranianos destruíram nas últimas semanas um terço do setor energético do país. E por ali energia não significa apenas ter gás ou eletricidade para iluminar as casas ou cozinhar, significa aquecimento. O frio de dois dígitos negativos prepara-se para matar quem não morre nos bombardeamentos (siga aqui todos os desenvolvimentos da guerra).

Só “um plano Marshall” poderá reerguer o país, defende o chanceler Olaf Scholz. Mas isso é a longo prazo, para quando o conflito acabar. Para já, para os ucranianos que se mantêm no país ou que regressaram a casa, confiantes nas vitórias recentes das forças de Zelensky, pediu-se ontem em Berlim, durante a conferência para a reconstrução da Ucrânia, um apoio urgente, financeiro e material, dos estados-membros e empresas europeias ao setor energético. “O que está em jogo é a proteção e o bem-estar de dezenas de milhares de lares, pessoas vulneráveis, crianças e idosos antes deste inverno”, urgiu o comissário da UE para a energia. É verão e as noites já se vivem perto dos zero graus.

Mas nos países de acolhimento – há 5 milhões de refugiados da Ucrânia na UE, 54 mil em Portugal – também é de energia que se fala por estes dias. Não há guerra, há a crise que a guerra provocou. Os ministros europeus que detêm a pasta reuniram-se ontem para debater as melhores formas de enfrentar os preços elevados. Em cima da mesa está o alargamento a toda a UE do mecanismo temporário ibérico que coloca limites ao preço médio do gás na produção da eletricidade.

E como se não bastasse o conflito ucraniano, e as críticas da oposição ao corredor de energia verde entre Portugal, Espanha e França, o ministro do ambiente, Duarte Cordeiro, tem agora também de lidar com as cheias da Nigéria que ameaçam afetar irremediavelmente o fornecimento de gás ao país. A próxima remessa, esperada esta semana em Sines, não vai chegar e a Galp já veio admitir a subida dos preços no início do próximo ano para quem está no mercado regulado.

O Governo desvaloriza o impacto, mas numa realidade nacional tomada pelo aumento generalizado do custo de vida – combustíveis, alimentos, prestações, rendas, casas – qualquer areia pode pesar toneladas no orçamento familiar e afetar ainda mais o (des)controlo financeiro.

Kremlin disposto a negociar guerra na Ucrânia com Papa, o Patriarca da Igreja Ortodoxa e EUA | Enfim, com a Europa e USA aflitos, Vladimir Putin, sorrindo como bom estratega, estende a mão.

A posição de Moscovo surge após o presidente francês, Emmanuel Macron, ter apelado a uma negociação entre os seus homólogos russo, Vladimir Putin, e norte-americano, Joe Biden, o Patriarca da Igreja Ortodoxa e o Papa Francisco.

“Estamos prontos a discutir tudo [a situação na Ucrânia] com os americanos, com os franceses e com o pontífice”, disse Peskov aos jornalistas, citado pela agência de notícias russas TASS.

O responsável russo acrescentou que, se as negociações forem “na direção dos esforços para encontrar possíveis soluções, podem ser vistas de uma forma positiva”. “Repito: a Rússia está aberta a todos os contactos. Mas temos de partir da premissa de que a Ucrânia proibiu a continuação das negociações”, frisou.

O conflito entre a Ucrânia e a Rússia começou com o objetivo, segundo Vladimir Putin, de “desnazificar” e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia.


ENTRETANTO:

O Presidente norte-americano, Joe Biden, viu a sua estratégia em relação à guerra na Ucrânia ser hoje questionada numa carta na qual 30 congressistas democratas solicitaram uma abordagem direta à Rússia para buscar um cessar-fogo.

Acarta enviada ao chefe de Estado argumenta que a “destruição” causada por esse conflito desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro, deixou a Ucrânia, os Estados Unidos e o resto do mundo “interessados” em impedir que se prolongue.

“Por essa razão, instamos a que acrescente ao apoio militar e económico que os Estados Unidos têm dado à Ucrânia um impulso diplomático proativo e que redobre os esforços para alcançar um marco realista para um cessar-fogo”, enfatiza a missiva encabeçada pela congressista Pramila Jayapal.

Esta é a primeira vez que líderes do seu próprio partido instam publicamente Joe Biden a mudar a sua abordagem.

O grupo quer que o Presidente leve a cabo esforços diplomáticos “intensos” em apoio a um acordo de cessar-fogo negociado, que entre em conversações “diretas” com a Rússia e que explore as possibilidades de um novo pacto de segurança europeu aceitável para todas as partes e que permita uma Ucrânia “independente e soberana”.

Se existir uma maneira de acabar com esse conflito preservando a independência daquele país, “é responsabilidade dos Estados Unidos seguir esse caminho diplomático para apoiar uma solução que seja aceitável para os ucranianos”, dizem os signatários, entre os quais Alexandria Ocasio-Cortez.

A estrutura desejada, segundo os democratas, poderia incluir “incentivos para acabar com as hostilidades, incluindo alguma forma de alívio de sanções, e reunir a comunidade internacional para estabelecer garantias para uma Ucrânia livre e independente que sejam aceitáveis para todas as partes, em particular os ucranianos”.

“A alternativa à diplomacia é uma guerra prolongada”, alertam os congressistas, que lembram que o atual conflito já impulsionou o aumento dos preços da gasolina e dos alimentos no país.

A carta concorda com o Governo de Biden, de que não cabe a Washington pressionar o Executivo ucraniano sobre decisões soberanas.

“Mas, como legisladores responsáveis por gastar dezenas de milhares de milhões de dólares dos contribuintes em assistência militar no conflito, acreditamos que o envolvimento nesta guerra também cria uma responsabilidade para os Estados Unidos explorarem seriamente todas as vias possíveis, incluindo a reaproximação direta com a Rússia”, concluíram.

O ‘Caucus Progressista do Congresso’, presidido por Japayal, lembrou hoje que, de acordo com uma sondagem do final de setembro, 57% dos norte-americanos são a favor de iniciar negociações diplomáticas para acabar com a guerra, mesmo que isso implique que a Ucrânia faça certas concessões.


PERGUNTA INGÉNUA : mas quem é que se atreve a pensar que a Rússia perderá esta guerra e que irá ser extinta? Tanto sábio no mundo inteiro, meu Deus ! A “beberem” as mentiras e baboseiras dos Nojeiros e Milhafres !!!

UCRÂNIA | Emb. Seixas da Costa, in Observador, 15 de Junho de 2022

«A Ucrânia está ainda muito longe de poder vir a ser um membro da UE e, mais do que isso, não é ainda claro que tenha condições para o poder vir a ser um dia. É impopular dizer isto? Talvez, mas eu digo.» – Emb. Seixas da Costa, in Observador, 15 de Junho de 2022.

Há uns tempos, no início deste conflito, chamámos a atenção para a pobreza e atraso extremos da Ucrânia – o país mais pobre da Europa – e para o facto de os indicadores económicos e de desenvolvimento social do país só encontrarem termo de comparação em países africanos. O estranho, ou nem tanto, é que na Ucrânia – outrora o centro da indústria aeroespacial, das tecnologias de computação, da investigação médica de ponta, da indústria de construção naval e metalurgia da era soviética – o tempo tenha parado em 1991 e que aquele país imenso que foi até 1980 a 5ª economia europeia em termos brutos, estar hoje 40 anos atrasado em relação à Europa ocidental. Desde a independência, o país perdeu 6 milhões de habitantes para a emigração, metade dos quais procuraram refúgio na Rússia.

Para lá das três dezenas de capítulos e das 88.000 páginas de cerradas exigências para o cumprimento das condições, o país é o inferno do trabalho infantil, da indústria da pedofilia, das barrigas de aluguer, do tráfico de carne branca, da desistência escolar e das 200.000 crianças deficientes reduzidas a esconsos pútridos ali chamados orfanatos; o Estado mais negligente da Europa, o mais pobre e violento apontado até 2020 por todos os relatórios da UNICEF, da Human Rights Watch, da Organização Internacional do Trabalho e outros centos de agências internacionais e ONG’s.

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“UCRÂNIA – É IMPERIOSO SAIR DA CAIXA” | por Francisco Seixas da Costa

Os trinta democratas liberais no Congresso dos EUA leram Francisco Seixas da Costa


É nos Estados Unidos que reside a chave de um eventual novo tempo neste processo, pelo que compete aos europeus lembrar-lhes que é só deste lado do Atlântico que, por agora, continua a guerra.

A História mostra que, para pôr termo a um conflito, ou se derrota totalmente o inimigo (e a Rússia não é derrotável, enquanto potência, como sabe quem sabe destas coisas) ou se fala com ele para ir aferindo das hipóteses de um acordo. Pensar que o tempo corre sempre a nosso favor é uma ingenuidade perigosa.”


Fez ontem cinco meses, publiquei este artigo no “Expresso”. Algumas coisas estão datadas e ocorreu a alteração de certas circunstâncias, mas, mesmo assim, hoje apetece-me relembrá-lo, porque o essencial não mudou e continuo a pensar exatamente o mesmo: :

”Esta guerra já não é apenas entre a Rússia e a Ucrânia. É cada vez maior o envolvimento, através de ajuda militar e de sanções, de muitos países que passaram a ser parte, embora por ora não beligerante, no conflito. Em moldes todavia nunca comparáveis ao sofrimento da população da Ucrânia, as respetivas sociedades estão a começar a sentir as consequências do prolongamento da guerra.

Parece não ter sentido que os países envolvidos no apoio à Ucrânia fiquem a aguardar o resultado, cada vez mais duvidoso, de um processo negocial, aparentemente suspenso, entre Kiev e Moscovo. Há dimensões do conflito, como fica evidente na questão das armas nucleares, que vão muito para além da situação concreta da Ucrânia, embora com ela interligada.

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GRUPO DE DEMOCRATAS DO CONGRESSO INSTA BIDEN A NEGOCIAR FIM DA GUERRA NA UCRÂNIA | in Reuters

FRASE EM DESTAQUE, AH POIS!

“redobrando os esforços para buscar uma estrutura realista para um cessar-fogo”

Trinta democratas liberais no Congresso dos EUA pediram ao presidente Joe Biden na segunda-feira que mude sua estratégia para a guerra Rússia-Ucrânia, buscando um acordo negociado junto com sua atual provisão de apoio militar e económico a Kyiv.

“Dada a destruição criada por esta guerra para a Ucrânia e o mundo, bem como o risco de escalada catastrófica, também acreditamos que é do interesse da Ucrânia, dos Estados Unidos e do mundo evitar um conflito prolongado”, disseram os 30 membros democratas da Câmara dos Deputados numa carta dirigida a Joe Biden.

“Por esta razão, nós pedimos que você junte ao apoio militar e apoio económico que os Estados Unidos forneceram à Ucrânia um impulso diplomático proativo, redobrando os esforços para buscar uma estrutura realista para um cessar-fogo”, disse a carta dos democratas.

Alguns republicanos também já alertaram que pode haver um controle mais rígido do financiamento para a Ucrânia se o seu partido ganhar o controle do Congresso.

A carta foi liderada pela deputada Pramila Jayapal, que preside ao Congressional Progressive Caucus.

https://www.reuters.com/world/us-liberal-democrats-urge-biden-seek-negotiated-ukraine-settlement-2022-10-24/?fbclid=IwAR33JYENWy8I15-vMyxKvH84nJy7n4wV7F5Rad7B-xLu2wNJ3Os7k4Zd5Hw

SIMONE DE BEAUVOIR | O Segundo Sexo – vol 1

Mais de 50 anos volvidos sobre a sua primeira publicação, os temas que Simone de Beauvoir discute neste célebre tratado sobre a condição da mulher continuam a ser pertinentes e a manter aceso um debate clássico. Entretecendo argumentos da Biologia, da Antropologia, da Psicanálise e Filosofia, e outras áreas de saber, O Segundo Sexo revela os desequilíbrios de poder entre os sexos e a posição do «Outro» que as mulheres ocupam no mundo.
O Segundo Sexo é uma obra essencial do feminismo, e as suas considerações acerca dos condicionamentos sociais que levam à construção de categorias como «mulher» ou «feminino» – e que estão na base da opressão das mulheres – são hoje amplamente aceites.


Simone de Beauvoir (1908-1986) nasceu em Paris, no seio de uma família burguesa, e era a mais velha de duas irmãs. Estudou Filosofia na Sorbonne, onde conheceu Sartre, companheiro de toda a vida e com quem viveu uma relação célebre pelos seus padrões de abertura e honestidade. No final da Segunda Guerra Mundial, editou a revista política Les Temps Modernes, fundada por Sartre e por Merleau-Ponty, entre outros. Foi ativista no movimento francês de emancipação das mulheres, nos anos de 1970, e serviu de modelo e de influência aos movimentos feministas posteriores. Simone de Beauvoir ganhou o Prémio Goncourt em 1954 com Os Mandarins, cujo herói se inspira na figura de Nelson Algren, com quem manteve um longo e intenso romance.
Autora de uma vasta obra literária, filosófica e autobiográfica, Simone de Beauvoir publicou, em 1949, O Segundo Sexo, texto basilar do feminismo contemporâneo.

As estrelas do Estado Novo | Carlos Matos Gomes

Este texto é uma peça extraordinária sobre a “história portuguesa do século XX”, de uma clarividência incomum, um ensaio brilhante de como analisar factos políticos, sociais, económicos e estratégicos. Os meus respeitos para Carlos Matos Gomes [vcs].

Extinguiu-se no dia 23 de Outubro de 2022 a última estrela política do Estado Novo, Adriano Moreira. Ele fez parte da constelação de pensadores e atores que dotaram o Estado Novo com um pensamento para além do corporativismo de matriz fascista, do integrismo de raízes miguelistas, do beatismo. Adriano Moreira pertenceu a um grupo de políticos talentosos e ambiciosos que subiram a pulso em termos sociais, seguindo o percurso de Salazar, que utilizaram a aderência aos meios e estruturas do corporativismo para ascender individualmente e que retribuíram essa escalada dotando o regime de iluminações que ultrapassassem os cirios das igrejas e as sombras dos mortos vivos que se sentavam na Assembleia Nacional e na Câmara Corporativa.

O grupo inorgânico a que Adriano Moreira pertenceu conseguiu apresentar o Estado Novo e Portugal como atores internacionais de relevo em três grandes momentos da História da primeira metade do século vinte: a Guerra Civil de Espanha, a Segunda Guerra Mundial e o Movimento Descolonizador.

A Guerra Civil de Espanha teve como personagem de primeiro plano o embaixador Pedro Teotónio Pereira, o homem enviado por Salazar para junto do governo de Franco, em Burgos, o segundo embaixador a apresentar credenciais, após o Núncio Apostólico da Igreja Católica e o primeiro embaixador em Madrid após a vitória franquista. Teotónio Pereira iria conseguir alcançar o objetivo que o Portugal de Salazar recebera dos ingleses, o de evitar e a entrada da Espanha na Segunda Guerra Mundial aliada da Alemanha nazi. Seria embaixador no Brasil, nos Estados Unidos e em Londres no período de antes da guerra, durante e no pós-guerra. Contribuiu para manter Portugal na órbita dos Aliados e para a entrada no clube da NATO. Não foi tarefa fácil fazer o Portugal rural, beato e antiliberal de Salazar ser admitido neste grupo. Os Aliados (em particular os americanos) entenderam através de Pedro Teotónio Pereira que Portugal não era Salazar (os ingleses, esses sabiam que Salazar negociaria tudo, incluindo os princípios (além do volfrâmio) para se manter no poder).

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A estratégia da “meia guerra” | Carlos Matos Gomes

As desarrumações permitem descobrir fósseis que explicam o presente. Este é um recorte de “O Jornal”, um excelente semanário que desapareceu com o mercado da manipulação, do Verão de 1979. Reproduz um artigo do Nouvel Observateur, de George Buis, e anuncia a estratégia dos Estados Unidos após a retirada do Vietname. Um excerto:

“Harold Brown, secretário americano da defesa, retornou à sua doutrina de 1969 de que a América deve poder conduzir simultaneamente «uma guerra e meia», ou seja, uma guerra na Europa e outra meia num ponto qualquer do globo.”

O controlo do golfo Pérsico e da produção de petróleo era então vital (como o é hoje) para o domínio dos EUA do fornecimento de energia ao resto do planeta e para impedir a URSS de ter ali alguma influência. A “guerra do Golfo” de 1991 começou a ser prepara nos anos 80, com a constituição de uma força de reação rápida (Quick Alert Force), “capaz de alcançar qualquer ponto do globo antes dos soviéticos”. Esse é o objetivo permanente dos EUA: impor o seu domínio em todo o globo. Não há acasos e a guerra da Ucrânia não é, no essencial, diferente das outras intervenções dos EUA na região do Golfo-Eurásia, a grande reserva de combustíveis fósseis do planeta.

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O The Guardian é uma excelente abertura para o mundo | por Carlos Matos Gomes

Um artigo de hoje, meio escondido pelas peripécias de Boris Johnson, refere os negócios dos oligarcas americanos escondidos na guerra na Ucrânia.

A propaganda que justificava a guerra do Ocidente contra A Rússia como uma ação não só legítima, como virtuosa e em defesa dos mais nobres princípios morais, da defesa do Bem contra o Mal está a esboroar-se a olhos vistos e a deixar a nu os grandes negócios e os interesses da oligarquia americana, e as suas lutas internas.

Elon Musk, o oligarca dono da rede de 3000 satélites da sua empresa Starlink que asseguram as comunicações de banda larga para uso civil e militar deu um pontapé na apregoada defesa dos princípios ocidentais, a cargo do arcanjo Zelenski e reclamou o seu pagamento.

Parece que a administração americana se adiantou e começou a pagar por conta dos biliões que já gastou na guerra indireta com a Rússia. As rotativas de imprimir dólares funcionam e nos EUA tudo é pago, não há auxílios desinteressados.

O alarme soou quando Musk se intrometeu na estratégia de poder de outras fações da oligarquia e se propôs comprar a rede Twiter, com capitais das monarquias petroleiras do Golfo.

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Ukraine : les Etats-Unis nous entraînent dans le piège de Thucydide – Le Zoom – Nikola Mirkovic

A armadilha de Tucídides, diz Allison, é a dinâmica perigosa que ocorre quando um poder em ascensão ameaça a posição de um poder já estabelecido – no passado, Atenas, e, hoje, os Estados Unidos. No antigo mundo grego, foi Atenas que ameaçou Esparta.

Iestyn Davies sings ‘O, where are you, dearest beloved?’ from Rodelinda

ENO’s 2014 production of Handel’s Rodelinda was directed by Richard Jones, conducted by Christian Curnyn and starring Rebecca Evans, Iestyn Davies, John Mark Ainsley and Susan Bickley. Rodelinda is an epic story of love, power and mistaken identity, widely considered one of Handel’s operatic masterpieces, and infused with compelling characters and ravishing music.

“Falar-se-á muito de Adriano Moreira, e é justo” | por Carlos Matos Gomes

Falar-se-á muito de Adriano Moreira, e é justo. Ele é uma das grandes personagens da história de Portugal do século XX e um dos grandes pensadores portugueses, além de ter sido político e interventor social. Uma personalidade marcante. Ouvi-o a primeira vez em 1964, havia deixado de ser Ministro do Ultramar e proferiu uma conferência para os cadetes da Academia Militar, que me marcou por ser uma “análise” e não apenas uma opinião, ou um sermão. Eu deixara de acreditar em sermões e em opiniões. Ou me convenciam com argumentos racionais, ou eu procurava-os. Deixara de ser religioso no sentido de acreditar em deuses e salvadores, até mesmo em heróis.

Hoje a homenagem que entendo prestar a Adriano Moreira é transcrever um seu pensamento expresso no livro Ciência Política, da Almedina, de 1993, que se adapta à situação atual, claramente a da violação do principio da existência de uma hierarquia nos Estados, como AM, definiu: Superpotências, grandes, médias e pequenas potências consoante o seu poder e o seu grau de dependência. De espaços de influência, reunidos em “Grandes Espaços” e, por fim o conceito de interdependência, ou de soberania limitada, ou partilhada.

” O conceito e a realidade do Estado soberano que dominou a vida internacional até ao fim da II Guerra Mundial tem vindo a ser substituído pelas interdependências e dependência mundiais que se vão consolidando e onde o mundialismo se firma como “modelo observante da realidade observada”.

Aos olhos do Estado, o cenário passou a ser considerado segundo a perspectiva de “aldeia global” entendida como mundialização dos comportamentos ecológicos, económicos, políticos naquilo que alguns quiseram chamar “fim da História” e que generalizadamente é considerada a democracia avançada, por mais incertos que sejam os pressupostos organizativos.

Além disso, a ideia de Estado-Nação, na acepção teórica de Silverman, nunca foi com frequência um paradigma da organização da vida humana. Parece-nos claro que a crise do Estado está essencialmente ligada a uma nova conjuntura que põe em causa as áreas de intervenção do “grande Leviatã” preconizado por Hobbes e que até aí, detinha total acção nos mais variados quadrantes”.

Adriano Moreira procurou um caminho de modernidade e de esperança. Viveu a sua época e ajudou-nos a viver.

Carlos Matos Gomes in Facebook 23-10-2022

Resposta de Matos Gomes a um comentário “provocador”, no seu texto colocado no Facebook :

Carlos Matos Gomes

“Apenas um pormenor, que nada altera as apreciações que cada um entenda fazer. Adriano Moreira também passou pelas masmorras do Estado Novo. Esteve uns meses preso no Aljube por ser defensor da mulher do general Godinho, implicado na abrilada de 1947.

Morreu Adriano Moreira, um transmontano sem ressentimentos | in DN 23/10/2022

Académico, político e mestre, Adriano Moreira sempre colocou “os interesses do país acima das discordâncias” pessoais e manteve as amizades antifascistas mesmo sendo ministro de Salazar, que o via como uma figura da esquerda moderada.

Adriano Moreira, um democrata-cristão que se tornou praticamente consensual como mestre de muitas gerações após passar de opositor do Estado Novo a ministro de Salazar e presidente de um partido democrático, morreu este domingo com 100 anos. Foi colunista do DN durante vários anos.

Professor catedrático e estudioso de política internacional, sobre a qual escreveu inúmeros artigos nos muitos anos como colunista do Diário de Notícias, era presidente honorário da Sociedade de Geografia e da Academia de Ciências (onde agora dirigia o Instituto de Altos Estudos). Vice-presidente da Assembleia da República (1991-95), doutor honoris causa por diversas universidades portuguesas e estrangeiras, escreveu numerosas obras nas áreas do Direito, da Ciência Política ou das Relações Internacionais, presidiu ao Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior (de 1998 a 2007) e ao Conselho Geral da Universidade Técnica de Lisboa, entre muitos outros cargos ligados à academia.

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A EUROPA SE PERDE EM UM MOMENTO EM QUE OS IMPÉRIOS ESTÃO SE REAGRUPANDO | por Antonio Cunha Justo

15 de outubro de 2022

Tempos de crise global favorecem grupos globais oportunistas

Antonio Cunha Justo
Para sobreviver, o homem precisa de um habitat natural, instituições e organizações sociais com ideologias ou doutrinas estáveis que lhe dêem uma coerência interior que lhe permita identidade e identificação…
Impérios e civilizações emergiram de famílias, tribos, povos/nações. Considerando que os impérios costumavam ser determinados pelos interesses internos das nações, hoje estão organizados em torno de núcleos econômicos e ideológicos regionais…
Enquanto as relações humanas empáticas prevaleceram nas primeiras organizações, as relações funcionais (não empáticas) dominam ao nível dos conglomerados (por exemplo, ONU, OTAN/EUA, Federação Russa, China e UE).
Os superpoderes são perigosos uns para os outros, os outros são forçados a segui-los e conversar com as informações que fornecem. Estamos em um tempo que requer atenção especial a tudo, um tempo de guerras híbridas em que a propaganda e a contra-propaganda, a desinformação e a corrupção dominam, o que dificulta a avaliação da situação, pois o cidadão é, acima de tudo, resultado de informações; de informações de uma realidade puramente virtual.

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UCRÂNIA | Pontos de vista racionais | Professor Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva

Talvez por andar a tentar esmiuçar Aristóteles (que para cada problema tem uma série de divisões que correspondem a outras tantas perspectivas) ocorreu-me, ao ler as várias contribuições a este comentário, que há várias posições a partir das quais ver o problema:

— O do direito internacional. É verdade que sem direito internacional a civilização desaparece e, nesse sentido, a invasão da Ucrânia é reprovável. Também é verdade, como foi apontado, que apenas invocamos o direito internacional neste caso particular, já que o Ocidente o violou várias vezes;

— O da justiça/ética. Sendo verdade que os russos invadiram, fizeram-no a um país em guerra civil contra uma parte da sua população e que, não tivesse a Ucrânia sido dominada por um grupo ferozmente nacionalista e até racista (este ponto não foi referido mas é um facto conhecido) e os acordos de Minsk sido respeitados não teria havido invasão;

— O ponto de vista histórico. Historicamente as fronteiras da Ucrânia são artificiais; historicamente a Crimeia é russa e o Donbass muito perto de o ser;

— O ponto de vista estratégico, isto é, o que está realmente em causa: a hegemonia dos EUA é condenável, indefensável porque substituiu a diplomacia pela guerra (este ponto não foi mencionado, mas está tacitamente presente em dois dos intervenientes);

o facto de a Ucrânia ser uma terra de passagem que a Rússia não pode admitir que seja tomada pela NATO (o que é compreensível porque real – a palavra Ucrânia vem do russo antigo e significa «fronteira»);

o facto de a Europa, por estar na dependência militar dos EUA se estar a prestar a um papel vergonhoso (mencionado e referido a um comentário meu noutro texto) e que, do ponto de vista dos cidadãos europeus e ucranianos, pode ser considerado criminoso;

— O ponto de vista do resultado: se se continuar a escalar a guerra qual será a consequência? Mesmo sem guerra nuclear (que desde há décadas nunca esteve tão próxima) são todas más.

Estes são os pontos de vista racionais. Depois, claro, há os clubismos e a formação da opinião pública pelos media que, diga-se, se estão a comportar sem qualquer ética.

Creio que, para se ser realmente racional, têm de se considerar todos estes pontos (e haverá mais). Não é fácil, mas, se quisermos compreender, é necessário tentá-lo.

BERLUSCONI ACUSA ZELENSKY DE PROVOCAR A INVASÃO RUSSA | in The Guardian

Silvio Berlusconi afirmou que o presidente Volodymyr Zelenskiy “provocou” a invasão da Ucrânia pela Rússia, desencadeando uma nova disputa política e ameaçando a estabilidade do novo governo da Itália poucos dias antes deste assumir o poder.

Berlusconi, três vezes ex-primeiro-ministro e líder do partido Forza Italia – um parceiro menor de uma coligação de extrema-direita que venceu as eleições gerais de setembro – está no centro da turbulência política após uma série de gravações de áudio vazadas nas quais ele diz que ele se reconectou com Vladimir Putin e culpa Zelenskiy por ter provocado a invasão de Moscovo.

No último clipe publicado pela agência La Presse na quarta-feira, Berlusconi pode ser ouvido defendendo seu “velho amigo” Putin e dizendo que Zelenskiy provocou a invasão de Moscovo ao “triplicar os ataques” contra os separatistas apoiados pela Rússia no Donbass.

“O PCP faz falta” e o momento político prova-o | Secretário-geral Jerónimo de Sousa

Lisboa, 22 out 2022 (Lusa) – O secretário-geral comunista rebateu a ideia de definhamento do partido e alertou que “o PCP faz falta”, sobretudo num momento de agravamento das condições de vida e de perda do poder de compra.

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El Greco y Picasso | un diálogo decisivo | FRANCISCO CALVO SERRALLER | El País

‘Mujer sentada en un sillón’, de Picasso (1910)

El malagueño fue una de las claves para la difusión internacional de la obra del cretense.

El último entre los grandes maestros antiguos españoles en ser reconocido, El Greco, fue también la influencia más determinante para animar el movimiento más decisivo para el desarrollo de la vanguardia del siglo XX: el cubismo; o sea: que, al final, el pintor cretense resultó ser demasiado moderno para los antiguos y, a la par, fuente de inspiración para el arte contemporáneo, aunque previamente estuviese a la sombra durante casi tres siglos. En todo caso, al mencionarlo antes en relación con el cubismo, ya se entiende que Pablo Picasso fue una de las claves para su difusión internacional. El artista malagueño tuvo oportunidad de descubrirlo casi en plena adolescencia, pues lo frecuentó en el Museo del Prado desde 1897-98, cuando cursaba estudios en la Escuela de Bellas Artes de San Fernando e, inmediatamente después, en la Barcelona modernista, donde se estaba fraguando un culto fervoroso en torno a El Greco.

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Biden critica republicanos por quererem cortar ajuda financeira à Ucrânia | Marta Moreira – in msn.com

“Eles não entendem. Isto é muito maior que a Ucrânia. É a Europa Oriental. É a NATO”, criticou Biden, avaliando que os republicanos “não entendem a política externa norte-americana”.

Filadélfia, Estados Unidos, 21 out 2022 (Lusa) – O Presidente norte-americano, Joe Biden, criticou na quinta-feira os republicanos por quererem reduzir o financiamento à Ucrânia em caso de vitória nas eleições intercalares de novembro.

“Eles [os republicanos] dizem que, se vencerem, provavelmente não continuarão a financiar a Ucrânia”, disse o chefe de Estado, durante um evento de arrecadação de fundos em Filadélfia, na Pensilvânia, um estado-chave para as eleições de meio de mandato.

“Eles não entendem. Isto é muito maior que a Ucrânia. É a Europa Oriental. É a NATO”, criticou Biden, avaliando que os republicanos “não entendem a política externa norte-americana”.

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DEUS OU SEJA A NATUREZA | Spinoza e os novos paradigmas da física | LIVRO de Roberto L. Ponczek

(21) DEUS OU SEJA A NATUREZA. Spinoza e os novos paradigmas da física. LIVRO de Roberto L. Ponczek | Luiz Carlos Montans Braga – Academia.edu

Depois de entrar clique na barra azul que diz:

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(351 páginas)

E depois em nova página, clique em :

Não obrigado, eu vou ficar no nível livre

Para Spinoza, a substância é o Ser em si, por si e para
si, o Ser do qual tudo depende e que não depende de nada; o Ser que não
tem causa ou que é causa de si mesmo; o Ser absoluto, o Ser absolutamente
ilimitado e infinito. Não será esta também a fonte de motivação de Einstein
para buscar a unidade intrínseca em todas as leis da Natureza?

25 Best Opera Arias – favourites from Puccini, Verdi, Mozart and more

Enjoy this selection of some of the best loved operatic arias in the repertoire. A selection of great tunes from the greats of the genre including Verdi, Puccini, Mozart, Donizetti and many others.

25 Best Opera Arias 00:00:00 Puccini: Gianni Schicchi – O mio babbino caro 00:02:36 Rossini: Il barbiere di Siviglia: Largo al factotum (Cavatina) 00:07:09 Mozart: Die Zauberflöte – Queen Of The Night 00:10:13 Puccini: La Bohème – Mi chiamano Mimì 00:14:58 Donizetti: L’Elisir d’Amore – Una furtiva lagrima 00:19:50 Verdi: Rigoletto – La donna é mobile 00:22:02 Puccini: Tosca – E lucevan le stelle 00:25:14 Mozart: Le nozze di Figaro – Non più andrai 00:29:06 Bellini: Norma – Casta diva 00:35:52 Verdi: Un ballo in maschera – Ma se m’e forza perderti 00:40:47 Puccini: Turandot – Nessun dorma 00:44:56 Leoncavallo: Pagliacci – Vesti la giubba 00:48:51 Verdi: La Traviata – Sempre libera 00:52:33 Saint-Saëns: Samson and Delilah – Mon coeur s’ouvre à ta voix 00:58:19 Puccini: Tosca – Vissi d’arte 01:01:37 Bizet: Les pêcheurs de perles – Au fond du temple saint 01:06:11 Mozart: Le nozze di Figaro – Cinque… dieci… Venti (No. 1 Duettino) 01:08:56 Verdi: Rigoletto – Ella mi fu rapita…Parmi veder le lagrime 01:13:51 Puccini: Manon Lescaut – Donna non vidi mai 01:16:30 Massenet: Werther – Pourquoi me réveiller 01:19:26 Offenbach: Tales of Hoffmann – Barcarolle 01:23:11 Verdi: Luisa Miller – Quando le sere al placido 01:28:45 Puccini: Gianni Schicchi – Firenze è come un albero fiorito 01:32:02 Verdi: Il Trovatore – Ah si’ ben mio coll’essere 01:35:05 Giordano: Andrea Chenier – La Mamma Morta

Estou cansado de lutar contra Telemóveis, WhatsApp e Facebook | Leonardo Haberkorn

O jornalista e académico uruguaio Leonardo Haberkorn, desistiu de continuar a dar aulas do curso de “Comunicação” na Universidade ORT de Montevideu, através desta carta que comoveu o mundo da Educação:

Depois de muitos anos como professor universitário, hoje dei aula na faculdade pela última vez. Estou cansado de lutar contra telemóveis, WhatsApp e Facebook. Eles venceram-me. Eu desisto. Eu atiro a toalha ao chão. Cansei-me de falar de assuntos pelos quais eu sou apaixonado, para rapazes e raparigas que não conseguem tirar os olhos de um telemóvel que não pára de receber selfies.

É verdade que nem todos são assim, mas há cada vez mais a ficar assim. Até há três ou quatro anos, o apelo para deixar o telemóvel de lado por 90 minutos – nem que fosse só para não ser desrespeitoso – ainda teve algum efeito. Já não o está a ter. Pode ser que seja eu que me tenha desgastado demais neste combate, ou que esteja a fazer algo de errado.

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A Starlink, a Space X e o filantropo Elon Musk | por Carlos Matos Gomes

Isto é a guerra das estrelas, mas não é ficção!

E se a nova fase da guerra dos Estados Unidos com a Rússia e a China se travar no espaço? E se o oligarca que arrecada os lucros se chamar Musk?

A ideia de que na Ucrânia se trava uma guerra entre os invadidos e pacíficos ucranianos liderados por um São Jorge de T-Shirt verde e os bárbaros russos com um Ivan meia leca é simpática e demonstra bons sentimentos, mas não corresponde à realidade. A realidade é a luta pelo poder e pela hegemonia mundial, também no espaço. Com negócios apresentados como cruzadas pelo Bem na base de todas as ações.

A realidade é que, na fundamental área das comunicações e do domínio do espaço, a ligação do complexo militar industrial dos Estados Unidos aos objetivos estratégicos americanos é um facto indesmentível, de que a intervenção do oligarca Elon Musk (SpaceX, Starlink, Tesla) é um exemplo. As agências governamentais dos Estados Unidos, os Departamentos (ministérios) do governo surgem aliadas ao oligarca e aos seus negócios de guerra no espaço, estes muito bem embrulhados em campanhas de publicidade, com laivos de filme de ficção!

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Heterónima e outras demonstrações | Amélia Vieira – 28 Jul 2016 (publicado em Macau Hoje)

VII-1

«A heterónima Pessoana não nasce apenas da multiplicidade do carácter ou de uma forma de fugir a uma Lisboa enfadonha no início do século vinte que, por acaso, até nem o era, dado o clima efervescente da Primeira República onde todas as viragens sociais e culturais se davam à velocidade do vapor. Essa tese cai por terra de tão inexacta que é. Em nós, não cabem, não -todos os sonhos do mundo – muito menos temos a elasticidade mimética de ser conforme a circunstância. Há, sem dúvida, componentes que fazem um homem mais vibrátil na multiplicação de si mesmo. Mas o que a uns parece do efeito da quimera e do desdobramento da personalidade, pode neste caso ter outras origens bem mais profundas.

Pessoa é originário da Covilhã e de um ramo bastante circunscrito. Sabendo-se da sua descendência familiar que partia de cristãos-novos referenciados, ora existe ainda um ramo remoto que vem das duas filhas de António José da Silva, judeu relapso: uma fugida para os Países Baixos de onde não mais regressaria e outra que vivera escondida dentro de casa para o resto da sua vida. É desta que o ramo é descendente. Para se viver, para se ter subsistido, foram precisas muito mais que análises vãs e, para se ter desembocado em Pessoa, foi preciso também muito mais que uma imaginação torrencial, inspiração, génio e “jeito”. Foi ainda preciso ter nas veias aquela plasticidade de saber que mudar de nome, ter vários nomes, até formas de expressão, fazia parte de uma camuflagem em prol da resistência e do salvar a vida. Aqui chegados, e caso os inimigos sejam só fantasmas, a memória nem por isso se torna um elo morto. E foi nesta imensa componente toldada de segredos que ele se deslinda, acrescentando à necessidade a arte de transformar o medo, a arte pura. Aliás, grandes obras nascem destes caminhos que, depois de aparentemente solucionados, libertam para outra área elevando os mesmos argumentos.

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SEIS PAÍSES DA UE JÁ RESTABELECERAM COMÉRCIO COM RÚSSIA AOS NÍVEIS DE FEVEREIRO | RIA Novosti

MOSCOVO, 16 de outubro – RIA Novosti.

Seis países da UE em junho restauraram simultaneamente as exportações e importações com a Rússia para pelo menos o nível de fevereiro, de acordo com análise de dados dos serviços nacionais de estatística realizada pela RIA Novosti.

Assim, as exportações de sete países europeus para a Rússia no início do verão superaram os valores de fevereiro: são eles: Letónia (em 67%), Eslovénia (37%), Croácia (28%), Bulgária (25%), Estónia (19%), Chipre (12%) e Luxemburgo (7%).

Ao mesmo tempo, as importações de mercadorias da Rússia superaram os níveis de final do inverno passado em dez estados: Eslovénia (4,4 vezes), Croácia (2,7 vezes), República Checa (duas vezes), Malta (88%), Espanha (46%), Bélgica (39%), Luxemburgo (22%), Chipre (13%), Estónia (11%) e Bulgária (10%).

Em geral, no primeiro semestre do ano, as exportações de bens da UE para a Rússia diminuíram 31% – para 28,4 bilhões de euros, de 41,1 bilhões um ano antes. Já as importações cresceram 83% para 121,7 bilhões de euros, contra 66,4 bilhões antes.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino


Carlos Fino

Alguns questionam aqui a autenticidade desta informação, já que a fonte é uma agência estatal russa.

A esses, digo: Como jornalista, habituei-me a consultar sempre diversas fontes, sejam privadas ou estatais, seja de que países forem. É essa diversidade de fontes que muitas vezes nos fornece pistas que de outra forma nos poderiam escapar. Neste, como noutros casos, a veracidade ou inverdade dos dados será demonstrada mais à frente.

De qualquer forma, se fosse mentira o que diz a RIA-Novosti, os países indicados já teriam desmentido – o que não aconteceu.

Aguardemos. Mas anátemas à priori, não. Já bastou o tempo da outra senhora em que havia um programa na velha Emissora Nacional intitulado – “A verdade é só uma – Rádio Moscovo não fala verdade!”

As palas são boas para as bestas.

HUNGRIA ABRE CONSULTA PÚBLICA NACIONAL SOBRE SANÇÕES CONTRA A RÚSSIA DECRETADAS POR BRUXELAS

1. Bruxelas decidiu introduzir sanções petrolíferas, embora após a eclosão da guerra ainda houvesse um acordo de que as sanções contra a Rússia não se estenderiam à energia. No entanto, Bruxelas decidiu em junho proibir a importação de petróleo e derivados da Rússia. A Hungria lutou por uma isenção porque levaria vários anos e centenas de bilhões de forints para substituir o petróleo bruto russo. No caso da Hungria, um embargo de petróleo levaria a sérios problemas de abastecimento e representaria um enorme fardo para a economia. A primeira pergunta da consulta nacional é: Você concorda com as sanções petrolíferas de Bruxelas?

2. Os líderes de Bruxelas também querem estender as sanções às entregas de gás. A economia europeia é significativamente dependente do gás russo (no caso da Hungria, o grau de dependência é de 85%). A flutuação das sanções de gás trouxe aumentos de preços de energia mais altos do que o facto de que a guerra eclodiu. As consequências já são graves. As contas de serviços públicos subiram para níveis recordes em toda a Europa. A Rússia ameaça cortar o fornecimento de gás em resposta às sanções. Isto põe em perigo o aquecimento dos apartamentos e o funcionamento da economia europeia. A segunda pergunta, portanto, é a seguinte: Você concorda com a sanção aos embarques de gás?

3. Bruxelas também proibiu a importação de combustíveis sólidos (como carvão) da Rússia. A proibição também se aplica ao aço e à madeira, e eles querem estendê-la também a outras matérias-primas. A medida resultou em grandes aumentos de preços, aumentando ainda mais a carga sobre as famílias. Como resultado da crise energética, a Europa precisa de uma quantidade maior de combustível sólido do que antes e não pode cobrir suas necessidades com sua própria produção. A terceira pergunta: Você concorda com a sanção sobre matérias-primas?

4. O Parlamento Europeu e vários estados membros querem estender as sanções também aos elementos de aquecimento nuclear. As centrais nucleares desempenham um papel incontornável no abastecimento de eletricidade na Europa. Uma parte significativa deles trabalha com elementos de aquecimento russos, que não podem ser substituídos a curto prazo devido às condições técnicas. Portanto, se as sanções fossem estendidas aos elementos de aquecimento nuclear, isso ameaçaria o fornecimento estável de energia e aumentaria os preços. A quarta pergunta é, portanto, a seguinte: Você concorda com a sanção sobre elementos de combustível nuclear?

5. A Central Nuclear de Paks é a garantia de eletricidade mais barata na Hungria. Está sendo expandido com a ajuda de empresas russas. Muitas pessoas querem estender as sanções nucleares à expansão da Usina Nuclear de Paks. De acordo com o Parlamento Europeu e alguns partidos da oposição, a cooperação para o desenvolvimento com empresas russas deve ser encerrada. Suspender a expansão pode levar a novos aumentos de preços e interrupções no fornecimento. A quinta pergunta da consulta nacional: Você concorda que o investimento do Paks também deve ser coberto pelas medidas sancionatórias?

6. As sanções também prejudicam o turismo europeu, que de qualquer forma não está em uma situação fácil no período pós-pandemia. Devido às restrições de entrada, o número de turistas da Rússia caiu significativamente. A medida também afeta a Hungria, especialmente considerando que o número de pessoas que chegam do exterior ainda está abaixo do nível pré-epidémico. É um setor que dá trabalho a centenas de milhares de pessoas em nosso país. Por isso a sexta pergunta: Você concorda com as sanções que restringem o turismo?

7. As sanções também têm um sério impacto na oferta de alimentos. O aumento dos preços do gás aumenta muito os custos da produção agrícola, e as sanções também se estendem a determinados componentes do fertilizante. O aumento dos preços dos alimentos nos países em desenvolvimento aumenta o risco de fome. Isso levará a ondas ainda maiores de migração e aumentará a pressão nas fronteiras da Europa. A pergunta final da consulta: Você concorda com as sanções que fazem subir os preços dos alimentos?

(Fonte: Site oficial do governo húngaro – kormany.hu)

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino | 16-10-2022

De Película con Ennio Morricone | soprano Susanna Rigacci

El Maestro Ennio Morricone ha abandonado el plano material, no sin heredarnos aun en vida su inspiración, su obra, Gracias Maestro. Con El Malo y El Feo ahora cabalgas (RIP 06/julio/2020) Extraido de la producción audiovisual “El Maestro Morricone Dirige a Morricone” presentamos tan solo tres temas de dos clásicos del cine (de titulos inconfundibles), de la autoria de Ennio Morricone, prolifero autor que junto con John Williams (Star Wars, Tiburón…), Henry Mancini (Pantera Rosa, Romeo y Julieta) y VanGelis (Blade Runner (Cazador de Androides), Carros de Fuego…) entre otros, le han otorgado un sello musical a inumerables y memorables obras del celuloide y en mi opinión muy personal, Morricone se distingue por su exquisites en sus obras. En esta ocasión los Coros y la Orquesta Filarmónica de Munich, asi también la soprano Susanna Rigacci son conducidos por el mismo Morricone. Disfrutenlo.

Vu de l’étranger. La grève des raffineries s’est transformée en crise : “Macron a réagi trop tard” | in COURRIER INTERNATIONAL

Workers on strike gather in front of the French oil giant TotalEnergies refinery in Donges near Saint-Nazaire, France October 12, 2022. REUTERS/Stephane Mahe

D’un conflit sur les salaires, la grève dans les raffineries s’est muée en problème politique d’envergure nationale. La lenteur du gouvernement à réagir et le symbole que représente TotalEnergies ont attisé les colères, observe la presse étrangère.

https://www.courrierinternational.com/article/vu-de-l-etranger-la-greve-des-raffineries-s-est-transformee-en-crise-macron-a-reagi-trop-tard?xtor=EREC-20-20221014-0-nl_quotidienne

Did Einstein believe in God? Traduction to Portuguese and French | by MARCELO GLEISER

Here’s what Einstein meant when he spoke of cosmic dice and the “secrets of the Ancient One”.

MARCELO GLEISER

  • To celebrate Einstein’s birthday this past Sunday (14 de mars de 1879), we examine his take on religion and spirituality.
  • Einstein’s disapproval of quantum physics revealed his discontent with a world without causal harmony at its deepest levels: The famous “God does not play dice.”
  • He embraced a “Spinozan God,” a deity that was one with nature, within all that is, from cosmic dust to humans. Science, to Einstein, was a conduit to reveal at least part of this mysterious connection, whose deeper secrets were to remain elusive.

Given that March 14th is Einstein’s birthday and, in an uncanny coincidence, also Pi Day, I think it’s appropriate that we celebrate it here at 13.8 by revisiting his relationship with religion and spirituality. Much has been written about Einstein and God. Was the great scientist religious? What did he believe in? What was God to Einstein? In what is perhaps his most famous remark involving God, Einstein expressed his dissatisfaction with the randomness in quantum physics: he “God doesn’t play dice” quote. The actual phrasing, from a letter Einstein wrote to his friend and colleague Max Born, dated December 4, 1926, is very revealing of his worldview:

Quantum mechanics is very worthy of regard. But an inner voice tells me that this is not the true Jacob. The theory yields much, but it hardly brings us close to the secrets of the Ancient One. In any case, I am convinced that He does not play dice.

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Espuma dos dias — “A UE caminha sonâmbula para a anarquia”. Por Thomas Fazi

Enviado pelo blogue A Viagem dos Argonautas

Todos os olhos podem estar postos nos resultados das eleições italianas desta manhã, mas a Europa tem problemas muito maiores nas suas mãos do que a perspetiva de um governo de direita. O Inverno está a chegar, e as consequências catastróficas da crise energética europeia autoimposta já estão a ser sentidas em todo o continente.

À medida que os políticos continuam a elaborar planos irrealistas de racionamento energético, a realidade é que o aumento dos preços da energia e a queda da procura já fizeram com que dezenas de fábricas numa gama diversificada de indústrias intensivas em energia – vidro, aço, alumínio, zinco, fertilizantes, químicos – cortassem na produção ou encerrassem mesmo, provocando o despedimento de milhares de trabalhadores. Até mesmo o New York Times pró-guerra foi recentemente forçado a reconhecer o impacto “paralisante” que as sanções de Bruxelas estão a ter sobre a indústria e a classe trabalhadora na Europa. “Os elevados preços da energia estão a atacar a indústria europeia, forçando as fábricas a cortar rapidamente a produção e a colocar dezenas de milhares de trabalhadores em licença”, relatou o New York Times.

Os cortes na produção de zinco, alumínio e silício (que representam uns espantosos 50% da produção) já deixaram os consumidores das indústrias siderúrgica, automóvel e da construção europeia a enfrentar graves carências, que estão a ser compensadas por remessas da China e de outros países. Entretanto, as fábricas de aço em Espanha, Itália, França, Alemanha e outros países – mais de duas dúzias no total – estão a começar a abrandar ou a parar completamente a sua produção.

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Elegia das Águas Negras para Che Guevara | por Eugénio de Andrade

Atado ao silêncio, o coração ainda

pesado de amor, jazes de perfil,

escutando, por assim dizer, as águas

negras da nossa aflição.

Pálidas vozes procuram-te na bruma;

de prado em prado procuram

um potro mais libre, a palmeira mais alta

sobre o lago, um barco talvez

ou o mel entornado da nossa alegria.

Olhos apertados pelo medo

aguardam na noite o sol do meio-dia,

a face viva do sol onde cresces,

onde te confundes com os ramos

de sangue do verão ou o rumor

dos pés brancos da chuva nas areias.

A palavra, como tu dizias, chega

húmida dos bosques: temos que semeá-la;

chega húmida da terra: temos que defendê-la;

chega com as andorinhas

que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.

Cada palavra tua é um homem de pé,

cada palavra tua faz do orvalho uma faca,

faz do ódio um vinho inocente

para bebermos, contigo

no coração, em redor do fogo.

A guerra | A política SEM A MÁSCARA da Moral | por Carlos Matos Gomes

A guerra na Ucrânia decide a nova arquitetura do poder político mundial, não é uma luta do Bem contra o Mal.

Quando referimos a palavra política associamos o termo a pelo menos 3 realidades: em primeiro lugar associamo-lo à administração da polis — tarefas administrativas, gestão — o que hoje surge englobado sob o grande chapéu de administração pública e tarefas do Estado, em segundo lugar a disputas partidárias, negócios disfarçados de falsas alternativas eleitorais, má-língua onde surgem alhos e bugalho, comentários enviesados, em terceiro lugar, mas raramente, à política entendida como o processo de definição de modos de organizar uma dada sociedade para a integrar em espaços mais vasto, isto é, falar da política como uma forma de pensar e de construir uma realidade tão próximo quanto possível da harmonia, da virtú, de que falava Maquiavel em o Príncipe e que nunca deixou de estar presente. A política virtuosa seria aquela que não sucumbe ao “poderio da caprichosa e inconstante Fortuna do momento”, o oposto da que tem sido praticada pelos que temos tido ao comando dos nossos destinos. Político virtuoso seria o que consegue ser senhor da sorte, ser o que determina as circunstâncias e não o que se deixa ir na sua espuma. É esta terceira abordagem da política que me interessa para analisar a guerra na Ucrânia.

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Origem: África, de Howard W. French | Um novo enquadramento da história mundial, com África no centro das atenções.

Sinopse
A historiografia da criação do mundo moderno atribui um papel central à Europa, usando argumentos como a singularidade da Era das Descobertas e da exploração marítima, os avanços científicos e tecnológicos ou a expansão dos ideais judaico-cristãos.

Contudo, no centro de todas estas conquistas e superações está o continente africano, apesar de sobre este pouco se escrever. Que tipo de relato leríamos se tivéssemos África e os africanos como foco da nossa pesquisa e investigação?

É precisamente isso que Howard W. French faz nesta história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial, demonstrando como a ascensão económica da Europa, o seu desenvolvimento político e a concretização dos ideais do Iluminismo se construíram à custa da desumanização e da exploração do «continente negro» – numa busca incessante por ouro e mão de obra escravizada.

Portugal e Espanha figuram proeminentemente nos primeiros séculos desta história do continente africano, que recupera as biografias e os feitos de importantes figuras africanas, caracteriza as abastadas civilizações da África medieval e destaca a relevância histórica de movimentos extraordinários, como a Revolução Haitiana.

Sobre o autor Howard W. French é jornalista, escritor, fotógrafo e professor de Jornalismo na Universidade Columbia. Foi chefe de redação do New York Times para as Caraíbas e América Central, para a África Central e Oriental, para o Japão e as Coreias e para a China em diferentes períodos entre 1990 e 2008.

O seu trabalho foi múltiplas vezes premiado e esteve por duas vezes nomeado para o Pulitzer. French vive em Nova Iorque e é fluente em 5 línguas (inglês, mandarim, francês, espanhol e japonês). Escreve uma coluna semanal para a World Politics Review.

Para mais informações, p. f. contacte o Departamento de Comunicação da Bertrand Editora

Adalberto de Queiroz: vozes do passado em versos | por Adelto Gonçalves (*)

Poeta faz da evocação da mãe que não teve a música inominável de sua poesia

                                                         I
            Em poucos poetas antigos ou modernos brasileiros (para não se dizer nenhum), a evocação da mãe é tão presente e tão luminosa como em Adalberto de Queiroz (1955), que foi educado como órfão em abrigo de Anápolis, no interior de Goiás, de onde saiu só em 1973 para cursar Física na Universidade Federal de Goiás (UFG). Poeta, jornalista e ensaísta, Queiroz, em 2021, lançou a segunda edição, revista e repensada, de Cadernos de Sizenando, publicado em 2014, livro de poemas que “saem da angústia para o enfrentamento da realidade”, como definiu no pref&a acute;cio o escritor Iúri Rincon Godinho, membro da Academia Goiana de Letras.
            Godinho explica que, a pedido do autor, para a segunda edição da obra, retirou os textos em prosa poética da primeira, deixando apenas os poemas, garantindo que o material que ficou de fora “merece outro livro”. Tanto os textos em prosa poética quanto os poemas haviam sido publicados inicialmente em um blog (http://www.betoqueiroz.com) que Adalberto de Queiroz ainda mantém na internet. Como diz Godinho com percuciência, se ele, como editor do texto, tivesse tirado também todos os poemas e deixasse apenas aquele que tem por título “É a Mãe” o livro já valer ia a pena ser lido.

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O Que Há Em Mim É Sobretudo Cansaço | Poema de Fernando Pessoa com narração de Mundo Dos Poemas

Fernando António Nogueira Pessoa (1888 — 1935) foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Um dos maiores génios poéticos de toda a nossa Literatura e um dos poucos escritores portugueses mundialmente conhecidos. A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século XX. Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da Vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.

A PAZ | SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN | por Casimiro de Brito

AQUI HÁ UNS ANOS FOMOS CONVIDADOS, EU E A SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, PARA FAZER UM RECITAL NO KING’S COLLEGE (LONDRES). EIS UM DOS POEMAS QUE LI E A SUA TRADUÇÃO POR JONATHAN GRIFFIN, E QUE DEPOIS FOI INCLUÍDO NA BELÍSSIMA ANTOLOGIA “CONTEMPORARY PORTUGUESE POETRY”. VOU ILUSTRÁ-LO COM A GUERNICA, DE PICASSO.

A PAZ

Se eu te pedisse a paz, o que me darias

pequeno insecto da memória de quem sou

ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,

a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,

a voz limpa dos frutos, o que me darias

respiração pausada de outro corpo

sob o meu corpo?

Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda

do meu exílio. Perdoa-me se não te peço

a paz. Apenas pergunto: o que me darias

em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?

Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha

para nele gravar o teu nome junto ao meu?

Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,

no centro do coração?

Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,

o teu corpo de cinza. Falo de mim,

entrego-te o meu destino. E a morte vivo

só de perguntar-te: o que me darias

se te pedisses a paz

e soubesses de como a quero construída

com as matérias vivas da liberdade?

(in Jardins de Guerra, 1966)

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Crise financeira: até o FMI teme o pior | Yanis Varoufakis, in Outras Palavras, 07/10/2022

Subitamente — e contra todos os prognósticos — o FMI, o xerife da ordem económica capitalista condenou o novo favor do governo inglês aos super-ricos. Turbulências sugerem: um novo repique da crise global aberta em 2008 pode estar próximo.

Em 30 de setembro, o Fundo Monetário Internacional assustou os mercados e surpreendeu os comentaristas ao repreender o governo conservador do Reino Unido por irresponsabilidade fiscal. O choque foi evidente. A crítica do FMI ao governo de uma grande economia ocidental é como um zelador repreendendo o proprietário por colocar em risco o valor avaliado do prédio. Essa sensação de inversão da ordem usual das coisas foi ainda mais nítida porque, não esqueçamos, foram os conservadores britânicos, sob a rígida liderança de Margaret Thatcher, que ditaram a regra sobre a probidade fiscal como alicerce do neoliberalismo. O FMI passou mais de quatro décadas impondo essa ortodoxia a governos em todo o mundo.

Como numa tentativa de amplificar a agitação que certamente causaria, o comunicado do FMI chegou a censurar o governo britânico por introduzir grandes cortes de impostos (agora parcialmente cancelados após a intervenção do Fundo), porque eles iriam principalmente “beneficiar os que ganham mais” e “provavelmente aumentar a desigualdade”. Os conservadores leais à sitiada nova primeira-ministra da Grã-Bretanha, Liz Truss, os republicanos mais vigorosos dos EUA, analistas econômicos internacionais e até mesmo alguns de meus camaradas de esquerda ficaram brevemente unidos por uma perplexidade comum: desde quando o FMI se opõe a mais desigualdade? Seria difícil identificar um único “programa de ajuste estrutural” do FMI que não aumentou a desigualdade. Se duvidar, pergunte à Argentina, Coreia do Sul, Irlanda ou Grécia (onde fui ministro das Finanças e tive que negociar com o FMI) sobre as restrições associadas a seus empréstimos. Os burocratas intransigentes do Fundo teriam passado por um momento como o da “estrada de Damasco”?

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John Donne | Poema “O êxtase” | Tradução de Augusto de Campos

“The ecstasy”

Where, like a pillow on a bed,
A pregnant bank swell’d up, to rest
The violet’s reclining head,
Sat we two, one another’s best.

Our hands were firmly cemented
By a fast balm, which thence did spring ;
Our eye-beams twisted, and did thread
Our eyes upon one double string.

So to engraft our hands, as yet
Was all the means to make us one ;
And pictures in our eyes to get
Was all our propagation.

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DESPEDIDA | Cecília Meireles

Por mim, e por vós, e por mais aquilo

que está onde as outras coisas nunca estão,

deixo o mar bravo e o céu tranquilo:

quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.

E como o conheces? – me perguntarão.

– Por não ter palavras, por não ter imagens.

Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.

Viajo sozinha com o meu coração.

Não ando perdida, mas desencontrada.

Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.

Voou meu amor, minha imaginação…

Talvez eu morra antes do horizonte.

Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.

(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!

Estandarte triste de uma estranha guerra…)

Quero solidão.

As religiões na escola | Anselmo Borges, Padre e Professor de Filosofia | in DN

Quantos cristãos saberão que, se Adão e Eva fossem figuras reais e nossos contemporâneos, precisariam, para viajar para o estrangeiro, de um passaporte iraquiano? Quantos se lembram de que Abraão, que está na base das três religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo, islão -, possuiria igualmente nacionalidade iraquiana? Quantos se lembram de que os primeiros capítulos do Génesis, referentes ao mito da criação e da queda, se passam na Mesopotâmia, onde mergulham algumas das nossas raízes culturais? As religiões estão sempre presentes. Mas quem tem delas um conhecimento mínimo? Qual é a relação entre religião e violência, religião e política, religião e desenvolvimento económico, religião e saúde?

O grande Umberto Eco, agnóstico, lamentava-se: “Nas escolas italianas, Homero é obrigatório, César é obrigatório, Pitágoras é obrigatório, só Deus é facultativo. Se o ensino religioso se identificar com o do catecismo católico, no espírito da Constituição italiana deve ser facultativo. Só lamento que não exista um ensino da história das religiões. Um jovem termina os seus estudos e sabe quem era Poséidon e Vulcano, mas tem ideias confusas acerca do Espírito Santo, pensando que Maomé é o deus dos muçulmanos e que os quacres são personagens de Walt Disney…”

Ernst Bloch, o filósofo marxista heterodoxo e ateu religioso, com quem tive o privilégio de conversar, sublinhou que o desconhecimento da Bíblia constitui uma “situação insustentável”, pois produz “bárbaros”, que, por exemplo, perante a “Paixão segundo São Mateus”, de Bach, ficam como bois a olhar para palácios.

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A GUERRA NA UCRÂNIA E O POSICIONAMENTO SOBRE A MESMA | por Francisco Henriques da Silva

“Estamos a viver tempo conturbados e que nos podem conduzir ao abismo. A situação assume, neste momento, uma gravidade que dispensa, creio eu, grandes comentários. A eventualidade do conflito alastrar e entrar numa fase ainda mais perigosa, inclusive com recurso a armas nucleares, pode, a prazo, tornar-se inexorável. Quem ainda não se apercebeu disso, está – passe a expressão – a dormir na forma.

Estas questões são altamente preocupantes, pois está em risco o futuro da própria Humanidade. Haveria, de algum modo, forçar as partes a sentarem-se à mesa e entabularem negociações, obrigando os tambores de guerra ao silêncio. Esta tarefa é imperativa.

É preciso não nos esquecermos que no quadro actual existem culpas de parte a parte e resta determinar “quem atirou a primeira pedra”, se é que isso agora interessa. Quem invadiu o território da Ucrânia, sem declaração de guerra, contra a Carta da ONU e, portanto, à margem do direito internacional? Ou quem perseguiu a minoria russófona, violando continuamente os respectivos direitos humanos e, por outro lado, pretendeu integrar uma aliança militar (NATO) susceptível de ameaçar a segurança da própria Rússia? Todos nos podemos posicionar quanto ao bem fundado destas duas posições (muito sinteticamente apresentadas, diga-se de passagem) e é difícil optar por qualquer das partes em confronto (para mim, que pretendo pensar sobre o assunto em todas as suas múltiplas vertentes e em termos das respectivas consequências, é verdadeiramente impossível fazê-lo). Como diplomata que já fui, em suma, a meu ver, constatam-se violações do direito internacional, quer da Rússia, quer da Ucrânia. É mais do que óbvio.

Como referia um amigo que muito considero e que não vou citar “a racionalidade abandonou os decisores políticos.” É uma verdade de La Palice que não vale a pena escamotear nem comentar.

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