O discurso de António José Seguro no Dia de Portugal, 10 Junho 2026, in SIC e LUSA

António José Seguro assinalou esta quarta-feira, pela primeira vez, o Dia de Portugal no papel de Presidente da República. No discurso, o chefe de Estado pediu diálogo “em tempos de trincheiras” e coragem para se fazer “escolhas difíceis”, defendendo mudanças no mercado de trabalho e na habitação que permitam fixar jovens no país. Porque, avisou, Portugal não pode “ficar à espera de milagres”.

O Presidente da República defendeu esta quarta-feira, a partir dos Açores, a paz, os direitos humanos e a Carta das Nações Unidas e uma “relação de equilíbrio” com os aliados, no seu discurso do 10 de Junho.

Nesta ocasião, António José Seguro insistiu na ideia de que a “autonomia estratégica europeia” é conciliável com a “defesa transatlântica”, acrescentando: “Autonomia não significa isolamento. Significa liberdade de decisão e responsabilidade, aperfeiçoando, atualizando e reforçando cooperações bilaterais com os nossos aliados”.

Na cerimónia militar comemorativa do Dia de Portugal, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, onde está situada a Base das Lajes, o chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas referiu que os Açores estão “num ponto estratégico da relação entre a Europa e o continente americano, entre o Atlântico Norte e as grandes rotas marítimas e aéreas que estruturam a ordem global”.

“Por todas estas razões, é um lugar que nos obriga a assumir especiais responsabilidades e deveres, no quadro da afirmação plena da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico. Sempre no respeito mútuo do que está assumido, seja com um país, seja com a comunidade internacional e com a Carta das Nações Unidas. E na minha perspetiva, uma situação não está dissociada das outras”, afirmou, na parte inicial do seu discurso.

António José Seguro enquadrou “o presente e o futuro da Europa e da América do Norte” como “dimensões de uma mesma comunidade de segurança, que tem na NATO o seu pilar fundamental” e o Atlântico como “parte da autonomia estratégica europeia, do ponto de vista político, económico, energético, tecnológico e de segurança e defesa”.

“A garantia da segurança dos países europeus só é possível em articulação com os nossos aliados, numa relação de equilíbrio e reciprocidade, de respeito pela soberania dos Estados, assente em valores que, apesar da incerteza dos tempos, não mudam: a paz, a liberdade, os direitos humanos e o multilateralismo – valores que norteiam a ação das nossas Forças Armadas em Portugal e destacadas em missão por todo o mundo”, sustentou.

Presidente da República salienta coragem e espírito de missão das Forças Armadas

O Presidente da República salientou hoje a “coragem, ideia de serviço e espírito de missão” das Forças Armadas ao longo de gerações e considerou que os militares compreendem com clareza que a defesa da paz exige resiliência.

Esta posição constou de uma mensagem de António José Seguro destinada ao XXIII Encontro Nacional de Homenagem aos Combatentes, que foi lida pelo presidente da comissão promotora da cerimónia, tenente-general António Menezes. Uma cerimónia que decorreu junto ao Monumento aos Combatentes do ultramar, em Belém, Lisboa.

“Esta homenagem tem um significado profundo. Não prestamos homenagem apenas ao passado militar de Portugal, prestamos homenagem a uma ideia de serviço, de coragem e de dever que continua a dar sentido à nossa identidade coletiva”, escreveu o chefe de Estado.

Na sua mensagem, o Presidente da República referiu-se à atual conjuntura mundial, “um tempo marcado pela incerteza, pela instabilidade internacional e pelo regresso da guerra ao espaço europeu“.

Neste contexto, segundo António José Seguro, “os portugueses compreendem hoje com maior clareza que a paz exige preparação, capacidade e resiliência, compreendem que a segurança de uma democracia depende também da solidez das suas instituições e da prontidão daqueles que a defendem”.

“As Forças Armadas continuam a desempenhar uma missão insubstituível ao serviço da República, na proteção dos portugueses, na defesa da soberania nacional, na resposta a emergências complexas, no cumprimento dos compromissos internacionais e na afirmação externa de Portugal como país credível, responsável e solidário”, sustentou.

Nesse sentido, na perspetiva do chefe de Estado, “honrar os combatentes significa também garantir que o reconhecimento nacional se traduz em dignidade, respeito e apoio efetivo”.

“Portugal não pode esquecer aqueles que carregam ainda hoje as consequências físicas e emocionais do serviço prestado ao país. Os combatentes merecem não apenas gratidão, mas também justiça, proximidade e reconhecimento concreto. A memória nacional constrói-se através de símbolos, mas sustenta-se através de ações”, completou.

António José Seguro referiu-se, ainda, às gerações mais jovens, advogando que “servir Portugal, seja nas Forças Armadas, na proteção das populações, na defesa da liberdade e da soberania, continuará sempre a representar uma das formas mais elevadas de compromisso cívico e de serviço ao país”.

“A todos os que serviram Portugal, deixo uma palavra de gratidão em nome dos portugueses. O vosso exemplo pertence à História de Portugal, mas pertence também ao seu futuro. Ao honrarmos os nossos combatentes, reforçamos a consciência do que somos, da liberdade conquistada e da responsabilidade coletiva de preservar”, acrescentou.

Após a leitura da mensagem do Presidente da República, o vice-almirante Henrique da Silva Fonseca, presidente da comissão executiva da cerimónia, recordou o seu percurso na Armada, com operações em Angola, mas também em Moçambique, designadamente em Cabo Delgado, em Timor-Leste e na Guiné-Bissau antes do 25 de Abril de 1974.

“Os combatentes do ultramar deixaram sementes de evolução, progresso e integração. Deram tempo — deram mesmo muito tempo — para que o problema político fosse resolvido”, declarou.

Em relação à atual situação, o vice-almirante advertiu que “o grande aliado”, os Estados Unidos, estão a alterar as suas prioridades estratégicas, privilegiando o Pacífico, enquanto a Rússia, a leste, já invadiu a Geórgia e a Ucrânia e ameaça outros países.

“A melhor homenagem que se pode prestar aos antigos combatentes é provar que o seu esforço não foi em vão. E continuamos dispostos a pegar em armas se tal for necessário”, afirmou.

“Vivemos um tempo de trincheiras”

Alertando que “vivemos um tempo de trincheiras” em que “as ansiedades que sentimos na economia, na geopolítica, na segurança das cidades, na proteção dos mais desfavorecidos, nas questões muito concretas da vida das pessoas reais, criam esse impulso de fechar fileiras, de escolher um lado, de erguer muros“. E por isso, acrescentou, ”faltam-nos cada vez mais as palavras do meio”.

“Aquelas que não nascem entre muros, mas nos espaços abertos. As que não ficam sitiadas nem sitiam, mas que se abrem como convite ao diálogo e ao encontro”, vincou, esclarecendo que essas palavras do meio “são mais de tolerância do que de exclusão, mais de disponibilidade do que de afastamento”.

Mais, prosseguiu, “são elas que permitem a aproximação, a criação de pontes entre as pessoas, entre os portugueses, entre as instituições, entre as ideias. São o antídoto para o vírus da polarização que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação”.

A propósito de negociação, o chefe de Estado abordou ainda uma questão atual: o mercado laboral. E daí surgiu mais uma chamada de atenção: “Com honestidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação. Isso é inaceitável e temos de o alterar”.

“Ao contrário da ladainha habitual, Portugal não pode cair no fatalismo nem ficar à espera de milagres. O que precisamos é de decisões que dependem inteiramente de nós. Portugal precisa de si próprio na sua melhor versão. E isso está ao alcance de cada um de nós”

Como? O próprio respondeu:

“Precisamos de políticas que fixem talento em vez de o exportar. De salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores portugueses. De um mercado de habitação que permita aos jovens construir uma vida no país onde nasceram ou estudaram. De um Estado que simplifique em vez de complicar, que antecipe em vez de reagir, que planeie além do mandato em vez de gerir apenas a urgência do presente”.

Após os discursos, seguiu-se uma cerimónia inter-religiosa, católica e muçulmana, pelo tenente capelão Óscar Paiva e pelo sheik David Munir, uma homenagem aos mortos, a deposição de flores e o Hino Nacional pela Banda da GNR, com salva protocolar por um navio da Armada.

No encerramento, assistiu-se a uma passagem de aeronaves da Força Aérea, antes do tradicional almoço-convívio nos terrenos em frente ao Monumento aos Combatentes.

Com Lusa

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