Como a erosão social está a abrir caminho ao autoritarismo, Domingos Caeiro, in Expresso

Onde a insegurança se instala, o desejo de liberdade pode ser substituído pelo desejo de ordem; onde o futuro se fecha, a complexidade democrática passa a parecer fraqueza; onde o compromisso é visto como paralisia, a concentração de poder apresenta-se como solução

Quando as democracias começam a falhar, raramente colapsam de forma súbita. Antes disso, degradam-se por dentro: perdem autoridade moral, deixam de inspirar confiança, tornam-se incapazes de proteger os seus cidadãos e passam a administrar a insegurança em vez de a reduzir. O que se quebra primeiro não é o regime formal, mas o pacto invisível que o sustenta. É nesse ponto que a democracia deixa de ser vivida como promessa credível e começa a ser percebida como ritual esvaziado. A ascensão das autocracias não nasce, por isso, apenas da força dos seus líderes ou da eficácia dos seus aparelhos repressivos; alimenta-se, antes de mais, do enfraquecimento das democracias, da erosão do Estado Social e da sensação, cada vez mais disseminada, de que as instituições já não conseguem ordenar a vida coletiva com justiça, previsibilidade e sentido de futuro.

É esse o nervo do nosso tempo. O problema central não está apenas na existência de regimes autoritários robustos, mas na crescente dificuldade das democracias em justificarem a sua superioridade prática perante sociedades cansadas, desiguais e vulneráveis. Durante décadas, a legitimidade democrática assentou em dois pilares complementares: liberdade política e progresso material. Não bastava votar; era preciso que a democracia produzisse segurança, mobilidade social, serviços públicos eficazes, oportunidades de vida digna e a convicção de que cada geração viveria melhor do que a anterior. Ora, quando esse segundo pilar vacila, o primeiro deixa de bastar. Uma democracia que preserva procedimentos, mas falha na proteção social, abre espaço a uma pergunta perigosa: para que serve a liberdade política se ela já não consegue travar a precariedade, a desigualdade e o declínio?

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António Guterres exige “toda a verdade” sobre o custo climático da IA, in RTP

O secretário-geral da ONU avisou que o mundo precisa de agir com “muito mais urgência” para limitar o aquecimento global. O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou os líderes do setor da Inteligência Artificial a “dizerem toda a verdade” sobre o impacto ambiental dos centros de dados, apontando o dedo aos combustíveis fósseis.

“Chega de custos escondidos. Chega de impor este fardo aos mais vulneráveis. É tempo de dizer toda a verdade. Se a IA quer contribuir para a construção de um futuro melhor, precisa de ser honesta sobre o seu custo atual”, disse António Guterres esta terça-feira, durante o seu discurso na Semana de Ação Climática de Londres, um evento anual realizado na capital britânica.

O secretário-geral da ONU anunciou o lançamento da Iniciativa de Transparência Ambiental da IA, que exigirá que os gigantes globais da inteligência artificial calculem e divulguem a pegada ambiental das suas atividades — em termos de carbono, água e uso da terra, por exemplo. As empresas ficam comprometidas, então, a abastecer essas atividades com energia renovável até ao final da década.

“As comunidades desconhecem muitas vezes o impacto ambiental da infraestrutura que está a ser desenvolvida à sua volta”, sublinhou Guterres, reconhecendo que a IA é “exigente em termos de terra, água e energia”, embora possa contribuir para “acelerar as soluções climáticas”.

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