A LIBERDADE SEGUNDO BARUCH SPINOZA

As pessoas acreditam ser livres. Acreditam que a sua vontade é livre e pensam que possuem livre-arbítrio. Para Baruch Spinoza, esta aparência de liberdade é uma ilusão. Na Ética a Nicómaco (1677), afirma claramente: “As pessoas julgam-se livres porque têm consciência das suas vontades e desejos, e nem sequer consideram as causas que as dispõem a desejar e a querer, pois não têm conhecimento delas”.

Não somos senhores absolutos das nossas escolhas e ações, pois muitas vezes desconhecemos as causas subjacentes que nos levam a elas. As nossas ações são precedidas por uma complexa cadeia de causas e efeitos de que raramente temos consciência.

Por exemplo, está a ver televisão e, de repente, um desejo domina-o. Você age de acordo com ele. À primeira vista, parece livre para fazer essa escolha. No entanto, foi influenciado por uma imagem percebida alguns instantes antes.

Espinosa compara esta ilusão à de uma pedra atirada ao ar que, se tivesse consciência do seu movimento, acreditaria ser livre e mover-se apenas por vontade própria. É precisamente esta a nossa condição: acreditamos ser a origem das nossas ações, quando na verdade somos apenas a sua extensão.

Espinosa explica que somos determinados por uma longa cadeia de causas e efeitos inconscientes. Estes determinantes podem ser externos (acontecimentos, ambiente social, educação, encontros) ou internos (paixões, desejos, constituição biológica).

Na Ética, chama a esta força fundamental que impele cada ser a perseverar na sua existência conatus; e é esta força, muito mais do que a nossa razão, que orienta as nossas escolhas diárias. Um homem que compra um carro de luxo acredita muitas vezes estar a agir livremente. No entanto, é provável que esteja a procurar impressionar, existir aos olhos dos outros. A sua decisão é influenciada por desejos dos quais não tem plena consciência.

Contudo, não devemos sucumbir ao fatalismo. Para Espinosa, a liberdade continua a ser possível; Mas não é algo dado, precisa de ser conquistado. Não consiste em escapar às leis da natureza, o que é impossível, mas em agir de acordo com a nossa própria natureza mais profunda, em vez de sob o domínio das paixões externas.

Assim, define a liberdade não como a ausência de causa, mas como autodeterminação: “Uma coisa é livre quando existe unicamente pela necessidade da sua natureza e está determinada a agir apenas por si mesma.”

A servidão, por outro lado, é ser governado por causas externas que não compreendemos.

Por isso, é essencial ter um conhecimento preciso da nossa biologia, da nossa psicologia e das nossas paixões para melhor as influenciar. Espinosa dedica grande parte da Ética a esta análise das emoções — alegria, tristeza, desejo, amor, ódio — para mostrar como elas nos aprisionam ou, inversamente, podem ser transformadas pelo conhecimento. Porque compreender uma paixão é já um passo para sermos menos escravizados por ela: “Uma emoção que é uma paixão deixa de o ser assim que formamos dela uma ideia clara e distinta.” Ética