Silly Season 3: Os combates nevróticos contra o burquini | Francisco Louçã in “Público”

burkini foi proibido por várias câmaras municipais francesas, o tribunal interditou a proibição, os presidentes das câmaras insistem. Esta tragicomédia lembra o que Sartre escreveu no seu prefácio aos Damnés de la Terre: “A França, outrora, foi um grande país, tenhamos em atenção que não se torne em 1961 o nome de uma nevrose”. Foi há mais de cinquenta anos. Mas, mesmo agora, será só uma nevrose?

Parece que não, é também uma política. Valls, primeiro-ministro socialista, bem como Sarkozy, ex-presidente e candidato presidencial, precipitaram-se no apoio à extrema-direita francesa nesta proibição. Parece que, para esta gente, o fato de banho em causa lembra que aquelas mulheres são muçulmanas, e esta religião suscita comoção pública e ameaça à ordem – pelo menos no caso pessoal desses políticos.

burk-1Alguns jornais e revistas lembraram que um fato de banho deste tipo é usado por funcionários públicos na Austrália, que as mulheres judias ortodoxas usam um parecido (na imagem ao lado), ou que há uns anos em Portugal era imposto por lei que os homens cobrissem grande parte do corpo e as mulheres mais ainda, ou que as convenções e roupas mudaram ao longo dos tempos de acordo com costumes e histórias. A moda pode aliás recuperar o que tinha sido abandonado, como se verifica no anúncio que reproduzo ao lado: seria esta mulher acusada de ser uma muçulmana perigosa e obrigada pela polícia a despir-se numa praia de França? Alegar que há um padrão de roupa que é ilegalizável parece portanto um absurdo.

burk-2O argumento sobre a religião muçulmana é ainda mais grotesco porque se resume a isto: incomoda que aquelas mulheres pareçam ser o que são, muçulmanas. Um jornal francês lembrava que, em setembro de 1933, houve um jornalista que criticou os judeus a propósito da tomada do poder por Hitler na Alemanha: “É evidente que faltou prudência aos Judeus. Fizeram-se notar demasiado”. Alguns usavam kippahs na cabeça e, no caso dos judeus ortodoxos, um padrão de roupas que era identificável nas ruas (e o dos funcionários da City de Londres não é identificável nas ruas, e podem ser bem perigosos?). Fizeram-se notar e veio o nazismo obrigá-los a usarem uma estrela amarela, por via das dúvidas.

Nevrose, então? Uma política enlouquecida, correndo atrás de pretextos, ansiosa por marcar novas discriminações? Uma sociedade angustiada por fronteiras, por demarcar objectos e pessoas que possam ser detestados? Talvez seja simplesmente e somente mais um desses episódios das pequenas lutas de luz e sombra em que se testa a nossa cultura e em que se dão passos em frente ou para trás no respeito pelos outros e na conformação das nossas comunidades.

O debate sobre a legalidade do burkini é simplesmente um sintoma da profunda desorientação em França. A bússola avariou-se e isso terá sempre consequências mais surpreendentes e porventura chocantes.

Francisco Louçã in Jornal Público

Leonard Cohen | Joan of Arc

Now the flames they followed Joan of Arc
as she came riding through the dark;
no moon to keep her armour bright,
no man to get her through this very smoky night.
She said, “I’m tired of the war,
I want the kind of work I had before,
a wedding dress or something white
to wear upon my swollen appetite.”

Well, I’m glad to hear you talk this way,
you know I’ve watched you riding every day
and something in me yearns to win
such a cold and lonesome heroine.
“And who are you?” she sternly spoke
to the one beneath the smoke.
“Why, I’m fire,” he replied,
“And I love your solitude, I love your pride.”

“Then fire, make your body cold,
I’m going to give you mine to hold,”
saying this she climbed inside
to be his one, to be his only bride.
And deep into his fiery heart
he took the dust of Joan of Arc,
and high above the wedding guests
he hung the ashes of her wedding dress.

It was deep into his fiery heart
he took the dust of Joan of Arc,
and then she clearly understood
if he was fire, oh then she must be wood.
I saw her wince, I saw her cry,
I saw the glory in her eye.
Myself I long for love and light,
but must it come so cruel, and oh so bright?

Leonard Cohen | Suzanne

Suzanne takes you down to her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that she’s half crazy
But that’s why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from China
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you’ve always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you’ve touched her perfect body with your mind.
And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said “All men will be sailors then
Until the sea shall free them”
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you’ll trust him
For he’s touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While Suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that you can trust her
For she’s touched your perfect body with her mind.

Discurso da Presidenta Dilma no Senado Federal

dilmaExcelentíssimo Senhor Presidente do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski

Excelentíssimo Senhor Presidente do Senado Federal Renan Calheiros,

Excelentíssimas Senhoras Senadoras e Excelentíssimos Senhores Senadores,

Cidadãs e Cidadãos de meu amado Brasil,

No dia 1o de janeiro de 2015 assumi meu segundo mandato à Presidência da República Federativa do Brasil. Fui eleita por mais 54 milhões de votos.

Na minha posse, assumi o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição, bem como o de observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil.

Ao exercer a Presidência da República respeitei fielmente o compromisso que assumi perante a nação e aos que me elegeram. E me orgulho disso. Sempre acreditei na democracia e no Estado de direito, e sempre vi na Constituição de 1988 uma das grandes conquistas do nosso povo.

Jamais atentaria contra o que acredito ou praticaria atos contrários aos interesses daqueles que me elegeram.

Nesta jornada para me defender do impeachment me aproximei mais do povo, tive oportunidade de ouvir seu reconhecimento, de receber seu carinho. Ouvi também críticas duras ao meu governo, a erros que foram cometidos e a medidas e políticas que não foram adotadas. Acolho essas críticas com humildade.

Até porque, como todos, tenho defeitos e cometo erros.

Entre os meus defeitos não está a deslealdade e a covardia. Não traio os compromissos que assumo, os princípios que defendo ou os que lutam ao meu lado. Na luta contra a ditadura, recebi no meu corpo as marcas da tortura. Amarguei por anos o sofrimento da prisão. Vi companheiros e companheiras sendo violentados, e até assassinados.

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Lettre d’Albert Einstein au philosophe Eric Gutkind, 1954 | in “The Dissident”

alberteinstein-620x400Régulièrement, Pollens vous propose la lecture d’un extrait d’œuvre d’un philosophe, d’un intellectuel, d’un poète, d’un écrivain, d’un artiste ou d’un citoyen engagé dont la portée nous parait essentielle à (re)découvrir. Ici, une lettre d’Albert Einstein dans laquelle il expose ses réflexions relative à l’existence de Dieu et l’interprétation des textes sacrés.

Janvier 1954

Cher Mr Gutkind,

Poussé par les suggestions répétées de Brouwer, j’ai bien lu votre livre et je vous remercie beaucoup de me l’avoir prêté. J’ai été frappé par ceci : nous avons beaucoup en commun dans notre approche factuelle de l’existence et de la communauté humaine. Notamment, votre idéal personnel selon laquelle les désirs égoïstes luttent pour la liberté et rendre la vie « belle et noble, avec une emphase sur l’élément purement humain ». C’est ceci qui nous unit dans une « attitude non-américaine ».

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Tanita Tikaram | Twist in my Sobriety

All God’s children need traveling shoes
Drive your problems from here
All good people read good books
Now your conscience is clear
I hear you talk girl
Now your conscience is clear

In the morning I wipe my brow
Wipe the miles away
I like to think I can be so willed
And never do what you say
I’ll never hear you
And never do what you say

Look my eyes are just holograms
Look your love has drawn red from my hands
From my hands you know you’ll never be
More than twist in my sobriety
More than twist in my sobriety
More than twist in my sobriety

We just poked a little pie
For the fun people had at night
Late at night don’t need hostility
The timid smile and pause to free

I don’t care about their different thoughts
Different thoughts are good for me
Up in arms and chaste and whole
All God’s children took their toll

Look my eyes are just holograms
Look your love has drawn red from my hands
From my hands you know you’ll never be
More than twist in my sobriety
More than twist in my sobriety
More than twist in my sobriety

Cup of tea, take time to think, yea
Time to risk a life, a life, a life
Sweet and handsome
Soft and porky
You pig out ‘til you’ve seen the light
Pig out ‘til you’ve seen the light

Half the people read the papers
Read them good and well
Pretty people, nervous people
People have got to sell
News you have to sell

Look my eyes are just holograms
Look your love has drawn red from my hands
From my hands you know you’ll never be
More than twist in my sobriety
More than twist in my sobriety
More than twist in my sobriety

What’s up | Aleksandra Josic & Nemanja

Twenty-five years and my life is still
Trying to get up that great big hill of hope
For a destination
I realized quickly when I knew I should
That the world was made up of this brotherhood of man
For whatever that means

And so I cry sometimes
When I’m lying in bed
Just to get it all out
What’s in my head
And I, I am feeling a little peculiar
And so I wake in the morning
And I step outside
And I take a deep breath and I get real high
And I scream from the top of my lungs
What’s going on?

[2x]
And I say, hey hey hey hey
I said hey, what’s going on?

Ooh, ooh ooh

And I try, oh my god do I try
I try all the time
In this institution
And I pray, oh my god do I pray
I pray every single day
For a revolution

And so I wake in the morning
And I step outside
And I take a deep breath and I get real high
And I scream from the top of my lungs
What’s going on?

[2x]
And I say, hey hey hey hey
I said hey, what’s going on?

Ooh, ooh ooh

Cosmopolitismo das diferenças | André Barata

andre_barata_200Cada vitória da integração e da convivialidade é uma derrota da exclusão e uma derrota do ódio do excluído. Integração e convivialidade sob um pressuposto claro: o do direito igual a ser como se prefere ser conjugado com o reconhecimento da reciprocidade universal a esse direito no espaço comum partilhado. Cosmopolitismo das diferenças — é disto que precisamos para desarmadilhar a tentação da radicalização e deixar a pregar para as paredes os fundamentalistas. Conviver com burkinis livremente vestidos não é uma cedência. É uma vitória contra dois obscurantismos: o dos fundamentalistas e o do laicismo persecutório que, sem ceder a comparações, também se obceca com mulheres e com o que elas vestem.

Retirado do Facebook | Mural de André Barata

Is there life out there? | Arlindo L. Oliveira in “Digital Minds”

As reported in an article in the journal Nature, Proxima Centauri (pictured), the star nearest to our sun, has an Earth sized planet, orbiting the “Goldilocks” zone (not too hot, not too cold).

The recently discovered planet orbits the mother star in 11 days, an orbit much smaller and much closer to its sun than the orbit of the Earth. However, since Proxima Centauri is a red dwarf, it is much cooler than our sun, which makes this orbit to be just the right size. The planet, named Proxima Centauri b, weights between 1.3 and 3 times the Earth, which makes it likely that it may be a rocky planet. The distance to the star makes it possible that it may exhibit liquid water.

life

This combination of factors makes it the planet most likely to help us obtain additional information about the possible existence of life outside of Earth. Earth based instruments, such as the European Southern Observatory, ESO, an array of telescopes in the Atacama desert, in Chile, will be able to obtain additional information.

ESO was involved in the discovery of Proxima Centauri b, and likely to play an important role in the discovery of further information about this planet that, in astronomical terms, lies tantalising close to Earth, at “only” 4.2 light-years. Sending a spacecraft out to that planet may also be a possibility, albeit a very challenging one.

The challenges involved in obtaining further information about this planet are significant, but not unsurmountable, as the Economist reports. In a few years, we may have some better answers to Fermi’s famous question, “Where are they?”, referring to the possibility of extra-terrestrial life.

Arlindo L. Oliveira

https://digitalminds2016.wordpress.com/2016/08/26/is-there-life-out-there/

SISMOS | Competências e conhecimentos dos Engenheiros Civis | Engº Carlos Mineiro Aires, Bastonário da Ordem dos Engenheiros

Mineiro Aires - 200Face às declarações que ontem foram prestadas pela Coordenadora do Grupo Sísmica da Ordem dos Arquitetos, a Ordem dos Engenheiros (OE) entende, por razões de confiança pública, clarificar o seguinte:

1.    O cálculo e o conhecimento do comportamento estrutural e resistente dos edifícios é exclusivo dos engenheiros civis que detêm conhecimentos adequados para o efeito;

2.    Outros profissionais, salvo exceções que desconheçamos, não possuem por norma conhecimentos suficientes e habilitantes para esse efeito;

3.    Isso mesmo foi reconhecido pela Sra. Arquiteta Alice Tavares, quando, em duas ocasiões, se refere certamente aos engenheiros (sublinhado nosso):

“Temos uma boa legislação em relação à construção nova, mas em termos do processo de reabilitação as situações estão omissas e, portanto, fica muito dependente da competência do técnico”,
“uma falta de técnicos também sensibilizados que devem procurar especialistas nesta área para determinadas situações, principalmente no edificado mais antigo”

4.    A posição da OE que ontem também foi ouvida, divulgada sobretudo pela Antena 1, TSF e RTP on-line ficou clara no título de uma das notícias: A Ordem dos Engenheiros lança o alerta: em todo o país, os edifícios antigos que estão a ser reabilitados não precisam de ter regras de construção anti-sísmica. A Ordem reclama urgência na alteração da situação, que é permitida pela própria lei.

Nestes termos, a Ordem dos Engenheiros que representa uma profissão indissociável da profissão de arquiteto, entende prestar este esclarecimento e, simultaneamente, manifestar a sua permanente disponibilidade para contribuir para as soluções dos problemas.

Nesta oportunidade também manifestamos o nosso voto de pesar e a nossa solidariedade para com as famílias das vítimas e todos os cidadãos que foram afetados pelo violento sismo de Amatrice e manifestamos o nosso apoio a todos os engenheiros italianos, cujo conhecimento e experiência neste domínio enaltecemos.

Lisboa, 25 de agosto de 2016

O Bastonário
Carlos Mineiro Aires

Devaneios e veraneios | Ana Cristina Pereira Leonardo

anacristinaleonardo-cvConhecido pelos seus aforismos, o inclassificável Karl Kraus deixou obra literalmente de peso. Na última (publicada parcialmente em 1934 como resposta à vitória do nazismo na Alemanha), “A Terceira Noite de Walpurgis”, escreveu, deixando logo claro ao que vinha: “Sobre Hitler não me vem nada à cabeça”. Com uma escrita e pensamento cáusticos de primeira água, capazes de emparelhar com os maiores satíricos da história da literatura, Kraus continua hoje um recurso inesgotável para quem, podendo embora encarar o mundo como uma piada de Deus, não deixa de o encarar como uma piada de mau gosto.
Num dos números da revista “Die Fackel” (“A Tocha” ou “O Archote”, como se preferir), que manteve praticamente sozinho durante várias décadas, pode ler-se: “Posso provar que continua a ser uma terra de poetas e pensadores. Possuo um rolo de papel higiénico publicado por um editor, e cada folha contém uma citação de um clássico apropriada à situação”. Se Kraus se referia aqui aos clássicos da grande cultura alemã, que dizer desta citação que roubo a Passos Coelho, proferida recentemente no Pontal: “Nós levamos a sério a política.

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Engenharia Civil | António Silva Cardoso, Rui Faria, Abel Henriques e Bárbara Rangel | Professores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto | In “Público”

mestrado-engenharia-civilA renovação geracional dos Engenheiros Civis tem que ser garantida, pelo que pode ser preocupante a quebra a que se assistiu no número de candidatos a cursar Engenharia Civil.

O campo de atuação da Engenharia Civil é muito amplo e diversificado. Quando, caminhando pela rua de uma qualquer cidade, olhamos à nossa volta muito do que observamos tem a ver diretamente com a Engenharia Civil (os edifícios, os arruamentos, as infraestruturas de abastecimento de água e de recolha das águas residuais e pluviais, etc.) ou facilmente intuímos que tem a ver (o planeamento das cidades, a organização da circulação de veículos e o seu controlo, etc.). São também resultado da atividade dos engenheiros civis as redes de transportes terrestres (estradas e vias férreas, onde se inclui uma parte importante das pontes e dos túneis), os portos e aeroportos, as obras hidráulicas (barragens, obras de irrigação, navegabilidade de rios, regularização de cursos fluviais, proteção costeira), etc. Por outro lado, a atividade da Engenharia Civil está intimamente ligada ao ambiente e à sustentabilidade (eficiência energética, novos materiais mais duráveis e com menor pegada de carbono, gestão e valorização de resíduos, economia circular, etc.). Enfim, a complexidade dos processos de conceção e de concretização de estruturas físicas em regra exige uma visão tendencialmente global e integrada, que os engenheiros civis vão desenvolvendo no desempenho das suas atividades, o que os torna, muitas vezes, capazes de assumir cargos de gestão e de direção de elevada responsabilidade.

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Peter Gabriel & Youssou N’Dour | Shaking The Tree

Souma Yergon, Sou Nou Yergon, We are shakin’ the tree
Souma Yergon, Sou Nou Yergon, We are shakin’ the tree

Waiting your time, dreaming of a better life
Waiting your time, you’re more than just a wife
You don’t want to do what your mother has done
She has done
This is your life, this new life has begun
It’s your day – a woman’s day
It’s your day – a woman’s day

Turning the tide, you are on the incoming wave
Turning the tide, you know you are nobody’s slave
[ 1989 version – Find your Brothers and sisters ]
[ 1990 version – Find your sisters and brothers ]
Who can hear all the truth in what you say
They can support you when you’re on your way
It’s your day – a woman’s day
It’s your day – a woman’s day

Souma Yergon, Sou Nou Yergon, We are shakin’ the tree
Souma Yergon, Sou Nou Yergon, We are shakin’ the tree
Souma Yergon, Sou Nou Yergon, We are shakin’ the tree

There’s nothing to gain when there’s nothing to be lost
There’s nothing to gain if you stay behind and count the cost
Make the decision that you can be who you can be
You can be
Tasting the fruit come to the Liberty Tree
It’s your day – a woman’s day
It’s your day – a woman’s day

Changing your ways, changing those surrounding you
Changing your ways, more than any man can do
Open your heart, show him the anger and pain, so you heal
Maybe he’s looking for his womanly side, let him feel

You had to be so strong
And you do nothing wrong
Nothing wrong at all
We’re gonna to break it down
We have to shake it down
Shake it all around

Souma Yergon, Sou Nou Yergon, We are shakin’ the tree
Souma Yergon, Sou Nou Yergon, We are shakin’ the tree
Souma Yergon, Sou Nou Yergon, We are shakin’ the tree

The Beatles | Come Together (Morgan James cover)

Here come old flattop, he come grooving up slowly
He got joo-joo eyeball, he one holy roller
He got hair down to his knee
Got to be a joker he just do what he please

He wear no shoeshine, he got toe-jam football
He got monkey finger, he shoot Coca-Cola
He say, “I know you, you know me.”
One thing I can tell you is you got to be free

Come together right now over me

He bag production, he got walrus gumboot
He got Ono sideboard, he one spinal cracker
He got feet down below his knee
Hold you in his armchair you can feel his disease

Come together right now over me

(Right!
Come, oh, come, come, come.)

He roller-coaster, he got early warning
He got muddy water, he one mojo filter
He say, “One and one, and one is three.”
Got to be good-looking ‘cause he’s so hard to see

Come together right now over me

Oh
Come together
Yeah, come together
Yeah, come together
Yeah, come together
Yeah, come together
Yeah, come together
Yeah, come together
Yeah, oh
Come together
Yeah, come together

Sledgehammer | Peter Gabriel (Morgan James cover)

You could have a steam train
If you’d just lay down your tracks
You could have an aeroplane flying
If you bring your blue sky back

All you do is call me
I’ll be anything you need

You could have a big dipper
Going up and down, all around the bends
You could have a bumper car, bumping
This amusement never ends

I want to be your sledgehammer
Why don’t you call my name
Oh, let me be your sledgehammer
This will be my testimony

Show me round your fruitcage
‘Cause I will be your honey bee
Open up your fruitcage
Where the fruit is as sweet as can be

I want to be your sledgehammer
Why don’t you call my name
You’d better call the sledgehammer
Put your mind at rest
I’m going to be the sledgehammer
This can be my testimony
I’m your sledgehammer
Let there be no doubt about it

Sledge, sledge, sledgehammer

I get it right
I’ve kicked the habit
Shed my skin
This is the new stuff
I go dancing in (We go dancing in)
Oh, won’t you show for me (Show for me)
And I will show for you (Show for you)
Show for me (Show for me), I will show for you
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, I do mean you (Show for me)
Only you
You’ve been coming through (Show for you)
I gonna build that power
Build, build up that power, hey (Show for me)
I’ve been feeding the rhythm
I’ve been feeding the rhythm (Show for you)
Going to feel that power, build in you (Show for me)
Come on, come on, help me do, come on, come on, help me do
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, you (Show for me)
I’ve been feeding the rhythm
I’ve been feeding the rhythm

(…) não estive à altura da Revolução | Ana Cristina Pereira Leonardo

anacristinaleonardo-cvEu estou aqui a compor umas coisas para a B Hierro Lopes e dei comigo a rir de mim própria pela segunda vez…

De como fui confundida com uma puta no 28 de Setembro.

Como toda a gente sabe, houve o 5 de Outubro, o 28 de Maio, o 25 de Abril, o 28 de Setembro, o 11 de Março e o 25 de Novembro. Nas duas primeiras datas ainda não era nascida e tudo o que sei foi de ouvir dizer. O 25 de Abril já está ultra-batido… quanto às duas últimas, despindo a coisa de atavios, foi mais ou menos assim: no 11 de Março, os cabrões do PCP não tomaram o poder por pouco; no 25 de Novembro, os cabrões dos reaças tomaram o poder e pronto. As eventuais divergências quanto a este apanhado histórico agora não interessam nada porque vou contar uma história. A história passa-se a 28 de Setembro (dia em que a maioria silenciosa perdeu o pio..) e é uma história verídica
O nosso quartel-general, que o tínhamos, ficava nas instalações da Faculdade de Ciências de Lisboa, ali à rua da Escola Politécnica, onde muitos anos depois se vieram a expor restos de dinossauros e cadáveres chineses completos. Era um bom quartel-general. Tinha música (na «sonora»), uma cantina – que apesar das baratas e dos ratos podia ser tardiamente assaltada –, e era muito central. A mim dava-me bastante jeito porque vinha de Cascais e saía no Cais-do-Sodré.

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O mar dos meus olhos | Sophia de Mello Breyner Andresen

sophiaHá mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

 

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

in Obra Poética

A CULTURA E A REINVENÇÃO DA EUROPA | Fernando Paulouro Neves in “Notícias do Bloqueio”

palouroNa contingência das grandes crises, quando o horizonte de esperança parece diluir-se na descrença e no cepticismo, pouca coisa resta à “matéria dos sonhos” que a humanidade tece, para a humana respiração dos povos, a não ser voltar-se para aqueles valores (onde a cultura tem peso decisivo) que, por serem comuns à intemporalidade, não se perdem na efemeridade dos dias.

Na restrita janela onde estamos e se pode olhar o rumor do mundo, surge então a cultura como um fogo primordial, na sua dimensão libertadora das consciências, pão elementar do pensamento, força de um imaginário capaz de desfazer mitos, que acontecem sempre que o homem já não cabe na realidade e fica preso a atavismos. A projeção da cultura sobre as palavras e as coisas é a fonte de um pensamento com tal grau de racionalidade que até é capaz, como alguém disse, de tornar Sísifo feliz.

Não poucas vezes, foi a olhar para dentro desta ideia que se abriram caminhos de dignidade humana, conquistas irreversíveis de marca social, na obstinada recusa da negação do homem, que é a soma daqueles crimes contra a humanidade com a sua nomenclatura de valas comuns, com os seus cemitérios ao luar de gente que foi tratada como gado, com os holocaustos que foram muitas mortes de Deus (e da própria poesia!) ou com os gulagues, tudo infernos domesticados, inscritos na vida colectiva como fatalidades cirúrgicas — como agora se diz dos bombardeamentos! — organizadas pela História.

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Abraços | André Barata

Agora que os abraços se tornaram assunto de comentário político, eis dois abraços, dos amantes Rivera e Frida Khalo, mas que não são abraços de amantes. Um de campesinos e fraternidade, outro cósmico e que tudo teria assim de ligar. Dá que pensar esta figura da ternura. Damos e recebemos abraços. Alguns são cumprimento, como os beijos, códigos de aceitação e convívio leais que importa cumprir, precisamente. E há abraços e beijos que não estão para nada como signo, que não cumprimentam, não cumprem, não meneiam código nenhum. Acontece com o beijo dos amantes, que não admite representantes e representados. Mas o mesmo abraço sem representação não é apenas de amantes. É também de pais para filhos, e entre grandes amigos, que nos falta tantas vezes abraçar, de vítimas e salvadores que precisamos de abraçar. Talvez nenhuma outra cumplicidade corporal exprima o amor para lá de todas as suas figurações, o dos amantes, dos pais, dos amigos, dos irmãos. Em todos, há um abraço que cinge e acolhe a fragilidade, até a respiração, amparo de tudo o resto.

De Diego Rivera (pormenor de “El abrazo y campesinos), outro de Frida Khalo (“El abrazo de amor de El universo, la tierra (México), Yo, Diego y el señor Xólotl”)

Retirado do Facebook | Mural de André Barata

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Explaining (away) consciousness? | Arlindo L. Oliveira in “Digital Minds”

arlindo oliveiraConsciousness is one of the hardest to explain phenomena created by the human brain. We are familiar with the concept of what it means to be conscious. I am conscious and I admit that every other human being is also conscious. We become conscious when we wake up in the morning and remain conscious during waking hours, until we lose consciousness again when we go to sleep at night. There is an uninterrupted flow of consciousness that, with the exception of sleeping periods, connects who you are now with who you were many years ago.

Explaining exactly what consciousness is, however, is much more difficult. One of the best known, and popular, explanations was given by Descartes. Even though he was a materialistic, he balked when it came to consciousness, and proposed what is now known as Cartesian dualism, the idea that the mind and the brain are two different things. Descartes thought that the mind, the seat of conscience, has no physical substance while the body, controlled by the brain, is physical and follows the laws of physics

Descartes ideas imply a Cartesian theatre, a place where the brain exposes the input obtained by the senses, so that the mind (your inner I) can look at these inputs, make decisions, take actions, and feel emotions.

dennet

In what is probably one of the most comprehensive and convincing analyses of what consciousness is, Dennett pulls all the guns against the idea of the Cartesian Theather, and argues that consciousness can be explained by what he calls a “multiple drafts” model.

Instead of a Cartesian Theater, where conscious experience occurs, there are “various events of content-fixation occurring in various places at various times in the brain“. The brain is nothing more than a “bundle of semi-independent agencies“, created by evolution, that act mostly independently and in semi-automatic mode. Creating a consistent view, a serial history of the behaviors of these different agencies, is the role of consciousness. It misleads “us” into thinking that “we” are in charge while “we” are, mostly, reporters telling a story to ourselves and others.

His arguments, supported by extensive experimental and philosophical evidence, are convincing, well structured, and discussed at depth, with the help of Otto, a non-believer in the multiple drafts model. If Dennett does not fully explain the phenomenon of consciousness, he certainly does an excellent job at explaining it away. Definitely one book to read if you care about artificial intelligence, consciousness, and artificial minds.

Arlindo L. Oliveira

https://digitalminds2016.wordpress.com/2016/08/11/explaining-away-consciousness/

A história de Pedro e Inês em cordel por Francisco Maciel Silveira | Adelto Gonçalves

   pedro-ines - 200                                                       I

            Quem não conhece a secular história de Pedro e Inês? Provavelmente, as novas gerações não a conheçam muito bem, mas, com certeza, já ouviram a expressão “agora Inês é morta” que equivale a dizer “agora é tarde demais”. Por isso, não custa nada dizer que é possível encontrar essa história em várias obras literárias, desde Fernão Lopes (1385-1459), cronista e guarda-mor da Torre do Tombo de 1418 a 1454, passando pelo poeta Sá de Miranda (1481-1558), até chegar ao grande Luís de Camões (ca.1524-1580).

Trata-se da história da infeliz Inês de Castro (1325-1355), nobre galega que foi para Portugal como aia de dona Constança Manuel, futura esposa de dom Pedro I (1320-1367), de Portugal. Se há uma história de amor marcante na História de Portugal, como a de Romeu e Julieta, tragédia do poeta inglês William Shakespeare (1564-1616), essa é a do amor proibido entre o infante d. Pedro e Inês de Castro.

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So Long, Marianne | Leonard Cohen

Um hino ao Amor | Rest in Peace Marianne Ihlen
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Come over to the window, my little darling,
I’d like to try to read your palm.
I used to think I was some kind of Gypsy boy
before I let you take me home.
Now so long, Marianne, it’s time that we began
to laugh and cry and cry and laugh about it all again.

Well you know that I love to live with you,
but you make me forget so very much.
I forget to pray for the angels
and then the angels forget to pray for us.

Now so long, Marianne, it’s time that we began …

We met when we were almost young
deep in the green lilac park.
You held on to me like I was a crucifix,
as we went kneeling through the dark.

Oh so long, Marianne, it’s time that we began …

Your letters they all say that you’re beside me now.
Then why do I feel alone?
I’m standing on a ledge and your fine spider web
is fastening my ankle to a stone.

Now so long, Marianne, it’s time that we began …

For now I need your hidden love.
I’m cold as a new razor blade.
You left when I told you I was curious,
I never said that I was brave.

Oh so long, Marianne, it’s time that we began …

Oh, you are really such a pretty one.
I see you’ve gone and changed your name again.
And just when I climbed this whole mountainside,
to wash my eyelids in the rain!

Oh so long, Marianne, it’s time that we began …

 

Poeta de Jequié participa de encontro na Colômbia e lança livro | Valdeck Almeida de Jesus

val - 200O XIV Parlamento Nacional de Escritores da Colômbia e o II Parlamento Jovem acontecem de 24 a 27 de agosto de 2016, em Cartagena das Índias, organizados pela Associação de Escritores da Costa. A Bahia terá o poeta jequieense Valdeck Almeida de Jesus representando o Projeto Fala Escritor e a União Baiana de Escritores – UBESC. O jornalista fará lançamento internacional e leituras de seu livro “Ruta 66: Amores y Dolores de un poeta” (Editora Galinha Pulando, 2011), ilustrado por Daiane dos Santos, traduzido pela venezuelana Gladys Mendía e prefaciado pelo poeta angolano Walter “S”, que apontou nos textos da obra questões sociais, perplexidades da vida, sonhos e realidades cruas de amores, dores e sofrimentos. “Ruta 66” faz alusão ao ano de nascimento do poeta e à Rodovia 66 americana que tem importância histórica, turística e cultural. Amores e dores do poeta são retratadas em poemas e ilustrações, retratando uma verdadeira viagem ao mundo romântico e íntimo de Valdeck Almeida.

Os dois encontros de escritores contam com vasta programação que inclui lançamentos de livros, recitais poéticos, leituras de trabalhos literários, bate papos, debates, além de almoços regados a muita alegria, poesia e literatura. Escritores de 16 países vão render homenagens a Jack London (Estados Unidos), Rubén Darío (Nicarágua) e Alfonso Bonilla Naary (Colômbia), no centenário da morte dos dois primeiros e no centenário de nascimento do último. Como em anos anteriores, o Parlamento continua com sua política de reconhecer o importante e significativo aporte de escritores e escritoras do continente e do país para as letras universais.

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Can Prisma and DeepArt make everyone an artist? | Digital Minds | Arlindo L. Oliveira

The popularity of Prisma, one of the hot summer apps (together with Pokemon Go), has caught everyone by surprise, including its creators.

Prisma uses deep learning algorithms to derive image processing methods that change your pictures in accordance with the style of a given artist. Other sites, like DeepArt apply these methods based on machine learning techniques, such as the one described in this article, to process photos that you upload.

The following drawing of The Thinker was obtained applying Prisma to one of my travel pictures.

arlindo01

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

The following “painting” was obtained from one image of the tall ships in Lisbon, using DeepArt.

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Applying the methods takes significant computer time, and is done by Prisma remote servers. These servers have, for a while, been unable to fully cope with the demand. Other sites, like DeepArt, also take significant time to process your request.

The results are, in many cases, surprising, obscuring the line between artistic merit and computerized image processing. Recently, Google raised a significant amount of money selling computer generated art.

For more examples of computer generated art, using Prisma and DeepArt, take a look at my deep art flickr album.

arlindololiveira | August 4, 2016 at 11:54 am | Tags: Deep Art, Prisma | Categories: Art, Artificial Intelligence, Machine Learning | URL: http://wp.me/p7fp8X-47

 

Citação | Francisco Seixas da Costa

FranciscoSeixasdaCosta

A mim, preocupa-me apenas o futuro e, dentro deste, a triste constatação de que estamos perante um sistema bancário frágil, que reflete uma economia frágil, de um país muito frágil. O qual, sendo o nosso, merece que essa nossa preocupação e angústia nos levem à exigência máxima – de rigor, probidade e transparência – sobre aqueles que voluntariamente se oferecem para o gerir, no governo, parlamento e outras instituições do Estado.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa

Carta ao Ministro das Finanças | Joaquim António Ramos

quitoExmo Senhor Ministro das Finanças
Excelência:
Depois de ter percorrido várias Repartições de Finanças, de ter perdido grande parte dos meus ultimos dias em filas com senhas das mais diversas cores, sem conseguir resposta às minhas angústias fiscais,atrevo-me a vir junto de V. Excia para ser esclarecido sobre as novas regras que se anunciam para o IMI. Toda a gente diz que as vistas e a exposição solar vão agravar o IMI, mas ninguém sabe em que medida ou como minimizar o impacto. Por isso recorro a V. Excia. Passo a expôr:
1. Eu vivo numa casa que só tem vistas para um lado, e a paisagem que tenho à frente é o portal da igreja – bem bonito, por sinal…Se me pendurar na janela ainda consigo vislumbrar o pelourinho e a Câmara Municipal. Isto tudo virado a Nascente, logo com alguma exposição solar. De resto, a Sul dou logo de trombas com o muro do Padre, a Norte com uma casa que ardeu e a Poente com o muro dos Barretos, donde só saem pulgas, osgas e ratos, porque a casa está abandonada há uma porrada de anos. Consequentemente, em termos de vistas, dos quatro pontos cardeais, só o Oriente Próximo me aterroriza. Estou assim mais ou menos como a Europa.
2. Falando de vistas, pelo exposto em 1, e como a Igreja está isenta de IMI, pensei que esta isenção poderia alargar-se à minha fachada Nascente. Caso não seja este o entendimento do Fisco, posso fazer uma declaração com assinatura reconhecida e tudo, a jurar que fecho os olhos de cada vez que assomo a uma janela da fachada Nascente – arejo os quartos às apalpadelas – ou mesmo a trancar as janelas com protecções de madeira inamovíveis e a mandar demolir a varanda donde expio procissões e casamentos. Os senhores das Finanças poderão ir lá verificar. E de vistas estamos falados, pois não acredito que o muro do Senhor Prior, mais o dos Barretos e a casa ardida tenham atributos paisagísticos suficientes para me agravar o IMI.

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Em defesa da literatura | Ana Cristina Pereira Leonardo

anacristinaleonardo-cvTema: as personagens. As personagens diferenciam-se das pessoas por serem ficcionais enquanto as pessoas são reais: Anna Karénina/ Tolstoi/, Macbeth/ Shakespeare, Quixote/ Cervantes, Madame Bovary/ Flaubert, Bartleby/ Melville, Sherlock Holmes/ Conan Doyle, Dâmaso Salcede/ Eça de Queirós, Quina/ Agustina Bessa-Luís, Palma Bravo/ Cardoso Pires, Rapaz/ Dinis Machado, Myra/ Maria Velho da Costa… e assim sucessivamente, como disse João César Monteiro que, sendo uma pessoa, ninguém poderá negar que seja uma personagem.
O que é, porém, mais real? Karénina ou Tolstoi? Shakespeare ou Macbeth? Holmes ou Doyle? Jorge Luis Borges, outro que tanto tem de pessoa como de personagem, escreveu uns versos maravilhosos (talvez os mais maravilhosos) sobre a condição humana: “Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca / aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach”. Quem foi Matilde Urbach? E Borges, saberemos mesmo quem foi Borges? “Na realidade não tenho a certeza que exista. Sou todos os autores que li, toda a gente que conheci, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados”, disse de si próprio o argentino.
Se o mundo, e não só o paraíso, for uma biblioteca a tender para o infinito, o que nos distinguirá de Medeia, Pierre Ménard ou Holden Caulfield? Alguém que tenha sido formado a ler livros tenderá a dizer que muito pouco (e a tentação de olhar, por exemplo, para os políticos da UE como personagens, no caso terciárias, torna-se tentadora, senão inevitável).
Avaliar as pessoas de acordo com a sua densidade enquanto personagens leva-nos a estabelecer hierarquias assentes em outros critérios que não os da mera simpatia: o que é, por exemplo, um Dijsselbloem tecnocrata ao lado de um Erdoğan ditador? Quem imagina um romance dedicado a Passos Coelho? A Maria de Belém? Uma novela sobre Cavaco Silva? Assunção Cristas ao lado de Catherine Earnshaw?! Isilda Pegado ao lado de D. Patrocínio das Neves?! Ou vice-versa: Felicidade de Noronha ao lado de Zita Seabra?! O tédio!
Não se trata, ter-se-á percebido, de simples escolhas políticas. Octogenário, Norman Mailer ficcionou os primeiros anos de Hitler no romance “The Castle in the Forest”. Foi criticado: “One can’t forbid artists from dealing with Hitler but art will never achieve an understanding of the phenomenon”. Mas se não chegarmos lá pela arte, como sobreviver ao fenómeno da realidade?

Retirado do Facebook | Mural de Ana Cristina Pereira Leonardo

PINCHA DE MINDE | António Galopim de Carvalho

agp - 200Texto que nos foi simpaticamente enviado pelo Sr. Prof. Dr. António Galopim de Carvalho. Muito obrigado Professor.

Um depósito que, pelas suas características muito particulares, tem merecido a atenção de geógrafos e geólogos é o localmente conhecido por “pincha”, em Minde, no Maciço Calcário Estremenho.
Trata-se de uma cascalheira muito bem sedimentada, contida na classe dimensional compreendida entre 64 e 8 milímetros, exclusivamente constituída por clastos (fragmentos) de calcário do Jurássico médio (175 a 154 milhões de anos), muito achatados e de aspecto subarredondado. A matriz, ou seja, o material entre os clastos é uma areia argilosa, vermelha e em muito pequena quantidade, deixando vazios grande parte dos espaços entre os ditos clastos. Esta matriz tem origem nas camadas sedimentares areno-argilosas do Cretácico inferior (136 a 96 milhões de anos) que ali existiu, cobrindo o Jurássico, e já em grande parte erodidas. O arredondamento das arestas destes clastos é, sobretudo, devido a dissolução pelas águas da chuva carregadas de dióxido de carbono que penetram no terreno, processo que também explica a terra rossa (argila de cor vermelha) integrada na matriz. Com imbricação acentuada, indicadora do sentido das correntes que os transportaram, estes clastos achatados resultaram de um processo de fracturação pelo frio (crioclastia) em regime de tipo periglaciário (periférico dos glaciares que se fizeram sentir em Portugal, nomeadamente nas serras do Gerês e da Estrela) durante o Würm (idade do Gelo, entre 115 000 e 12 000 anos). Primeiro, estes clastos atapetaram as vertentes, deslizaram depois para o fundo do polje, ou seja, a grande depressão que ainda hoje marca a paisagem local, e foram remobilizados pelas águas do lago que aí se formou no período pluvial que se seguiu em virtude da melhoria do clima pós-glaciário.
O termo “pincha” parece estar relacionado com o jogo da “pincha” (botão), talvez pelo aspecto achatado destes clastos.

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ARGÉLIA | Francisco Seixas da Costa

argel fsc - 250Tenho um “fraco” pela Argélia, devo confessar. Pela sua cultura – de Camus a Kateb Yacine, embora não conheça muito mais -, pelo percurso complexo desse território atípico, que chegou a fazer parte das Comunidades Europeias (com efeitos até 1968, é verdade!), atravessado por uma das mais sangrentas guerras de libertação de que há memória. Mantenho presente a heroicidade dessa luta pela independência, bem como o papel desempenhado pelo país no contexto internacional que se lhe seguiu e, muito em especial, a sua contribuição para a manutenção da esperança da liberdade em Portugal, nos anos 60 e 70.

Da mesma maneira que entendo muito lamentável que os países africanos saídos do colonialismo português nunca tenham feito uma homenagem a quantos, por cá, arriscaram a liberdade e a vida para apoiar a sua luta (e estranhamente nunca ouvi ninguém falar disto), acho muito triste que a democracia portuguesa nunca tenha feito uma homenagem pública ao país que acolheu a FPLN e Humberto Delgado, nesses tempos difíceis em que a instauração da ditadura militar retirou ao Brasil o estatuto de esteio principal para o acolhimento dos lutadores anti-salazaristas. Com Paris, e mais limitadamente com Roma e algumas capitais do “socialismo real” onde se refugiava o PCP, Argel foi, por anos, a principal “capital” da luta pela nossa liberdade.

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