Devaneios e veraneios | Ana Cristina Pereira Leonardo

anacristinaleonardo-cvConhecido pelos seus aforismos, o inclassificável Karl Kraus deixou obra literalmente de peso. Na última (publicada parcialmente em 1934 como resposta à vitória do nazismo na Alemanha), “A Terceira Noite de Walpurgis”, escreveu, deixando logo claro ao que vinha: “Sobre Hitler não me vem nada à cabeça”. Com uma escrita e pensamento cáusticos de primeira água, capazes de emparelhar com os maiores satíricos da história da literatura, Kraus continua hoje um recurso inesgotável para quem, podendo embora encarar o mundo como uma piada de Deus, não deixa de o encarar como uma piada de mau gosto.
Num dos números da revista “Die Fackel” (“A Tocha” ou “O Archote”, como se preferir), que manteve praticamente sozinho durante várias décadas, pode ler-se: “Posso provar que continua a ser uma terra de poetas e pensadores. Possuo um rolo de papel higiénico publicado por um editor, e cada folha contém uma citação de um clássico apropriada à situação”. Se Kraus se referia aqui aos clássicos da grande cultura alemã, que dizer desta citação que roubo a Passos Coelho, proferida recentemente no Pontal: “Nós levamos a sério a política.

Nós levamos a sério o país. Nós levamos a sério as pessoas. E é porque nos preocupamos com elas e com o seu futuro que faremos o que é difícil, que faremos o que é preciso, e esperamos que o que seja preciso e o que é difícil seja menos do que aquilo que nós podemos fazer, porque podemos fazer mais do que aquilo que é difícil, podemos também fazer aquilo que é necessário…”. Se isto não é um clássico!
Além destas palavras incendiárias, também tivemos há pouco a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, a dizer ir equacionar a possibilidade de processar civilmente os pirómanos, ou seja, fazê-los pagar os custos decorrentes dos incêndios que provocam. A ideia não é tão radical como a de muitos portugueses que têm vindo a propor que a solução para os incêndios passa por mandar os seus ateadores para a fogueira, mas deixa-nos dúvidas sobre a sua exequibilidade. Atendendo a que a paixão pelas chamas é um transtorno do foro psiquiátrico e muitos pirómanos não conseguiriam sequer chegar aos calcanhares de Benjy Compson, o atrasado mental imaginado por William Faulkner, protagonista e narrador da primeira parte de “O Som e a Fúria”, parece-nos que a ideia da ministra possui todos os pergaminhos para se transformar também ela num clássico.
Para resumir, que o espaço é curto e voltando a Karl Kraus, sobre Portugal não me vem nada à cabeça.

Retirado do Facebook | Mural de Ana Cristina Pereira Leonardo

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