Esta palavra “Descobrimentos”…! | LUÍS REIS TORGAL | in Jornal Público

É bom discutir conceitos, mas é necessário, fundamentalmente, ir muito além das palavras.

Uma discussão efémera e sem consequências?

Não sei porque acabei por vencer o meu comodismo de aposentado para vir discutir a questão do uso do nome “Museu dos Descobrimentos”.

O certo é que não acredito muito nestas discussões, em geral supérfluas e efémeras, por mais interesse que tenha a sua temática. Não levam geralmente a nada, pois os responsáveis pelas decisões finais são, normalmente, os poderes instituídos. Vejam o que se passou com os feriados: houve em 2012 argumentos sérios de historiadores e cidadãos contra a sua abolição ou suspensão. Nenhum argumento significativo se esboçou a favor dessa eliminação, a não ser o do puro pragmatismo. E, todavia, quatro feriados foram “suspensos” ou “extintos”, até que outro governo, com outra ideologia, decidiu trazê-los de volta.

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Da nau encalhada à Descoberta discreta, um museu aos tropeções | João Pedro Pincha | in Jornal Público

19 de Maio de 2018

Um museu para os Descobrimentos não é ideia nova. Já se quis uma nau à beira-rio, já se quis um pólo interactivo que contasse a História a partir da língua. As Descobertas incendiaram o debate, mas agora é de Descoberta que se fala. Faz diferença? E sobretudo: será que é desta?

Dia 22 de Maio de 2015. Um dia depois de ser finalmente inaugurado o novo Museu Nacional dos Coches, em Belém, Fernando Medina chamava os jornalistas aos Paços do Concelho para testemunharem a assinatura de um “protocolo de formalização de interesse” na construção de um núcleo museológico dedicado aos Descobrimentos. Com o nome provisório de Pólo Descobrir, o projecto tinha a particularidade de incluir a instalação de uma nau, com cerca de 40 metros de comprimento, na Ribeira das Naus.

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A propósito da polémica sobre o Museu das Descobertas. Equívoco, teimosias e hipersensibilidades | João Paulo Oliveira e Costa | in Diário de Notícias

12 Maio 2018

O equívoco

Seis meses depois das eleições autárquicas surgiu uma reacção a um dos pontos do programa eleitoral de Fernando Medina que propunha a criação de um Museu das Descobertas, o que suscitou uma carta, que também assinei, em que se criticava o nome do museu. No meu caso fi-lo por entender que o processo de expansão ultramarina portuguesa que deve ser musealizado é muito mais amplo, no tempo, no espaço e nas suas dinâmicas, do que a simples sequência de navegações e explorações dos séculos XV e XVI. Confundir a conquista de Ceuta ou de Goa bem como a colonização do Brasil, por exemplo, com os Descobrimentos é uma generalização errada que, no fundo, criou um mito. A carta saída no Expresso tinha como pretexto um hipotético museu, mas logo a polémica ficou centrada na palavra e nas suas leituras sem que ninguém tentasse discutir conteúdos. Estava criado o equívoco, se é que não foi um embuste.

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Por um Museu dos Descobrimentos | Luís Filipe Thomaz | in Jornal Observador

Os Descobrimentos portugueses não inauguraram o Paraíso na Terra, mas deram origem ao mundo moderno tal como o temos, com os defeitos e virtudes inerentes a toda a construção humana.

A intenção de organizar um “Museu das Descobertas” anunciada pelo presidente da Câmara de Lisboa suscitou uma reacção histérica. Se me perguntam se concordo com a ideia, respondo: plenamente. Se me perguntam pelo nome, não. Prefiro “Museu dos Descobrimentos”.

A nossa língua é rica em subtis cambiantes semânticos, pelo que, ao contrário do francês ou do italiano, faz uma diferença entre descoberta descobrimentoDescoberta usa-se sobretudo para coisas materiais e pode ser meramente fortuita: a descoberta do fogo na Pré-História, a do magnetismo terrestre pelos chineses da época Sung (960-1279), a da radioactividade pelo casal Curie, ou do ouro na Austrália, no século XIX.

Ao invés descobrimento denota um processo activo e voluntário de exploração geográfica, como em 1972 mostrou Armando Cortesão no seu artigo “Descobrimento” e Descobrimentos na revista Garcia de Orta. Eu dediquei-lhe um artigo relativamente extenso que enviei para publicação na revista Brotéria, onde, espero, sairá logo que haja paginação disponível. Aqui, não pretendo senão deixar um breve apontamento.

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Os Donos do Mundo | Pedro Baños

Pedro Baños revela-nos as táticas e os segredos dos países para dominar e influenciar à escala mundial, incluindo através da religião. Recorrendo a vários exemplos reveladores, o autor mostra-nos ainda as estratégias clássicas – todas com uma base de hipocrisia e aproveitamento das fragilidades alheias – e aponta os erros do passado que continuam a repetir-se e que são inerentes à condição humana. As regras do jogo podem ter mudado, mas há princípios imutáveis.

Uma análise reveladora sobre as principais estratégias de manipulação implementadas pelos países para manter e reforçar o seu poder ao longo dos séculos.

Pedro Baños é coronel do Exército na reserva. Diplomado pelo Estado-Maior de Espanha, é um dos maiores especialistas em Geopolítica, Estratégia, Defesa, Segurança, Terrorismo, Inteligência e Relações Internacionais. Casado e pai de três filhos, é atualmente analista e conferencista.

Europa marítima e Europa continental - novos papéis | Carlos Matos Gomes

Substituir a Inglaterra como a potência marítima da Europa

A Europa, pelo menos desde as cruzadas, dividiu-se e articulou-se segundo dois polos: um polo atlântico, que fez dela uma potência marítima, e que incluiu as Ilhas Britânicas, a Holanda e Portugal, e um polo continental constituído com base no império de Carlos Magno, com a França, a Alemanha e o Norte de Itália, ao qual se associou a Espanha, que construiu um império nas Américas e no Pacífico (Filipinas), absorvido pelos ingleses.

Estes dois eixos mantiveram-se até à II Guerra Mundial. Nós, portugueses, pertencemos desde sempre ao “círculo” marítimo — a Batalha de Aljubarrota e o casamento do novo rei com Felipa de Lencastre são um exemplo, o apoio à restauração da soberania através de um rei português e a expulsão da rei espanhol é outro, assim como o decisivo apoio inglês contra as invasões napoleónicas. Até o ultimato inglês a propósito da presença portuguesa numa área de África é, no fundo, uma imposição da pertença de Portugal no “círculo” da potência marítima contra a tentação de se aliar à potência continental, na altura a Alemanha de Bismark.

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Não, Portugal não foi a maior potência esclavagista | João Pedro Marques | in Jornal “Diário de Notícias”

O historiador Miguel Cardina afirmou, em recente entrevista ao DN, que Portugal foi “a maior potência esclavagista da modernidade” e que isso não tem sido devidamente considerado no país. Devo dizer ao meu colega que está enganado. Eu não sei em que fonte ou fontes Miguel Cardina se apoiou para afirmar o que afirmou. Admito que tenha recorrido ao site The Trans-Atlantic Slave Trade Database. Se foi esse o caso, não terá visto com suficiente rigor. As tabelas do referido site, referem-se exclusivamente ao tráfico transatlântico de escravos, e para além de deixarem de fora, claro está, a parte africana do negócio escravista, reportam os números de Portugal e Brasil, em conjunto. Já chamei a atenção para isso em artigo anterior, que terá passado despercebido a Miguel Cardina.

Mas há um segundo aspecto do seu engano que é muito mais importante. É que para além de não ter visto com suficiente rigor ao perto, Miguel Cardina também não terá visto bem ao longe. Deixou-se encadear, imagino eu, pelos números das tabelas e encadeou-nos inadvertidamente a nós. É que a história do tráfico de escravos e da escravidão não se resume ao tráfico transatlântico nem é ele que por si só cria uma “potência esclavagista”. Não estou a pôr em causa, de modo algum, as tabelas do Trans-Atlantic Slave Trade Database, que são muito úteis, e que conheço desde a década de 80, época em que David Eltis, o seu criador, mas enviava pelo correio, pois ainda não estavam online. Mas as tabelas estão longe de dizer tudo. Referem-se apenas ao tráfico transatlântico e não nos falam, por exemplo, do que se passava em terra. Na verdade, no Ocidente, a maior potência esclavagista, se essa expressão tem algum sentido ou algum interesse, não foi Portugal, mas sim os Estados Unidos. É verdade que os Estados Unidos proibiram o tráfico transatlântico de escravos em 1807 e que, nos estados do norte, começaram a abolir a escravidão ainda antes disso, logo em 1777. Os estados do sul, porém, mantiveram-na até à derrota na guerra civil, em 1865, e, se bem que já não importassem escravos por mar a não ser de forma residual e ilícita, produziam-nos e comerciavam-nos internamente, através daquilo a que se chama breeding, isto é, a reprodução biológica.

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O capitalismo em estado de guerra civil | José Goulão in Blog “abrilabril.pt”

POR JOSÉ GOULÃO 

A guerra civil capitalista está lançada. Quanto aos resultados a proporcionar pela vitória de qualquer dos campos em confronto, por indefinidos que ainda sejam, que venha o diabo e escolha.

A ordem mundial – chamemos-lhe assim, por comodidade – monolítica e unipolar, nascida nos escombros do muro de Berlim, e consolidada através do cada vez mais misterioso atentado de 11 de Setembro de 2001, está à beira do fim.

Atribuir o funesto desenlace de um sistema que fica como espelho da ortodoxia neoliberal aos maus humores de Donald Trump, à sua embirração com a senhora Merkel, à falta de polimento congénita e à mais do que comprovada tendência autoritária é uma explicação apenas ao alcance de indigentes mentais. Só as cabeças que se deixaram formatar pela quadratura neoliberal, a arte de transformar a ausência de reflexão e de ideias em pensamento único, podem alinhar numa tese tão desfasada da realidade.

Observar o presidente dos Estados Unidos da América passar um atestado de óbito à União Europeia, vê-lo desqualificar a elite governante da NATO, sentar-se ao lado do presidente da Rússia com o desejo declarado de iniciar uma nova relação entre Washington e Moscovo não pode ser uma questão humoral; nem subjectiva; nem um delírio. Tem que haver causas objectivas.

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Há um défice de reflexão crítica à Esquerda e à Direita sobre o passado | Miguel Cardina, historiador | in Jornal “Diário de Notícias”

O presidente do Conselho Científico do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra falava à agência Lusa, sobre a memória que a sociedade portuguesa tem do período colonial e dos 500 anos da presença portuguesa noutras latitudes, uma temática, advertiu, “complexa”, pois a “memória nunca é total nem pura” e há “memórias desencontradas”.

Para o investigador, “há uma leitura, em setores dominantes da sociedade e em alguns setores do Estado, que tende a ser amnésica, preferindo expressões que acentuam uma dimensão positiva daquilo que foi a experiência colonial, e tendem a esquecer o reverso, que foi justamente a dimensão profundamente desigual, violenta e hierárquica imposta pelo colonizador, aos povos colonizados”.

E, a este nível, afirma, “nem sempre a Esquerda e a Direita se distinguem”.

A questão colonial é “um dado que está ausente do espaço público em Portugal, apesar de haver trabalho académico”, realçou o investigador à Lusa, segundo o qual “há uma consciência crítica desse passado, quer através da academia, com a produção de vários trabalhos, quer da parte de movimentos e associações de afrodescendentes, e de movimentos sociais”.

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A estátua da rainha Njinga | uma nova frente na luta de memórias | João Pedro Marques | in Jornal “Público”

Estamos perante novos preconceitos de matriz ideológica e cultural que inverteram os preconceitos racistas dos séculos XIX e XX.

A investigadora Cláudia Silva escreveu um novo artigo sobre escravatura. O artigo diz várias coisas acertadas, não faz afirmações panfletárias e tem pelo menos três méritos. O primeiro é o de nos relembrar algo que raramente é dito, isto é, que os africanos já tinham escravos e que os árabes já os adquiriam, na África subsariana, muito antes da chegada dos portugueses. O segundo é o de procurar ser equilibrado, esclarecedor e justo, ainda que em três ou quatro pontos Cláudia Silva não o consiga inteiramente. De todo o modo, esforça-se por isso e recomenda, e muito bem, que não se olhe para a história da escravatura com olhos maniqueístas. Porém, e a pretexto de ir contra o maniqueísmo, a articulista sugere que se erga, em Lisboa, uma estátua à rainha Njinga, apesar de reconhecer que a dita rainha “possuiu escravos e também os vendeu, tendo assim participado no tráfico de escravos”. Esta sugestão é, ainda que involuntariamente, o terceiro mérito do seu artigo, não pela proposta em si mesma, que é inadequada para não dizer absurda, mas porque nos ajuda a perceber melhor os propósitos que movem, e as contradições de que enfermam, muitos dos intervenientes neste debate sobre escravatura.

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O legado da escravatura e as narrativas de Lisboa | Cláudia Silva | in Jornal “Público”

O comércio Atlântico criou uma demanda sem precedentes que extrapolou o tráfico interno africano.

É impossível alterar o passado. Mas podemos alterar o presente. Mas para alterar o presente precisamos compreender e reconhecer o passado. Deve-se reconhecer um legado histórico deixado pela escravatura atlântica, que é facilmente identifi cado nas coisas mais fundamentais, desde uma determinada linguagem quotidiana de cunho racista que usamos na língua portuguesa — talvez por herança — à toponímia de Lisboa. Há hipóteses, por exemplo, de que o nome da Rua do Poço dos Negros talvez faça referência a uma vala onde os cadáveres de escravos não batizados eram depositados. E a Rua da Preta Constança, na Ajuda? Diz-se que Preta Constança era uma “escrava trazida dos confi ns de África” e “viveu a fortuna, a desilusão e a desgraça neste bairro lisboeta”. Mas o que é que os nomes de ruas lisboetas têm a ver com esta discussão? Estas exemplifi cam um legado impregnado no espaço urbano que mal vemos, compreendemos ou sequer reconhecemos. No meio científico, há quem chame a isto de desenterrar histórias da arquitetura ou do espaço urbano “narrativa arqueológica”. Poderemos, portanto, reconhecer a história de certos espaços urbanos se escavarmos e trouxermos à tona estas narrativas. O mesmo se passa com a história em geral. Daí a relevância de um memorial de escravos ou de um museu que exponha o tema através de documentos históricos, narrativas e imagens. Mas, antes, é preciso uma compreensão do passado (e do que se quer), que passa também por reconhecer certos legados. A respeito dos legados, há quem levante o seguinte questionamento: os portugueses foram os primeiros a levarem pessoas escravizadas de África para as Américas? Isto é um facto histórico partilhado nas publicações de historiadores portugueses (Arlindo Manuel Caldeira, no livro Escravos e Traficantes no Império Português) bem como de não-portugueses (Linda Heywood, Anthony T. Browder, John Thornton, James A. Rawley e Stephen D. Behrendt).

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Centenário do nascimento de Nelson Mandela | Carlos Esperança

Em 18 de julho de 1918 nasceu o maior vulto do continente africano dos últimos cem anos.

O prisioneiro 46 664, foi o símbolo dos que não desistem de transformar o Mundo e deixar um país livre e multirracial. O primeiro presidente da África do Sul, condenado a prisão perpétua, resistiu ao cativeiro 27 anos, e ao ódio e à vingança o resto da sua vida. 
Distinguido com o Prémio Nobel da Paz, foi maior o prestígio que conferiu ao Prémio do que este ao premiado. Paladino da liberdade e o grande obreiro da transição pacífica de um regime racista e colonialista para um país multicultural e multirracial – a África do Sul –, permanece a maior referência de África e uma das maiores figuras da Humanidade.

Faleceu aos 95 anos esse gigante da História cuja grandeza ética, inteligência e sensibilidade o distanciaram dos dirigentes políticos do seu tempo, deixando-nos a esperança de um mundo onde não seja possível a discriminação por razões de raça, religião, sexo ou convicções políticas.

A grandeza moral levou-o a perdoar aos países que, em 1987, votaram contra a sua libertação incondicional, proposta pela Assembleia Geral das Nações Unidas, – EUA, Inglaterra e Portugal –, onde governavam Reagan, Thatcher e Cavaco, anões morais que se tornaram ainda mais vis perante a grandeza do homem que pretendiam preso.

Nelson Mandela é um daqueles homens que será sempre maior do que a lenda.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

In vino veritas | Carlos Matos Gomes

In vino veritas. Isto é, o futebol destapa complexos. 

A alegria que vejo pela derrota da Inglaterra não resulta apenas de uma vulgar manifestação do velho complexo de inferioridade. É mais triste. É uma manifestação de masoquismo. Gostamos de ser pequeninos. Somos uns Calimeros.
Muitos portugueses exultaram com a derrota da Inglaterra e identificaram-se com a Croácia. Para esses, nós somos a Croácia, nação que, como se sabe, tal como nós e a Inglaterra, deu mundos ao mundo, navegou por todos os mares do planeta, levou a civilização europeia e a Europa a todos os continentes. Goste-se ou não do resultado, foi um feito histórico mundial, que nos devia fazer olhar os ingleses como iguais, e não os historicamente irrelevantes croatas (com o devido respeito, as coisas foram e são assim).
Os croatas têm, tal como nós temos uma língua falada nos 5 continentes? O inglês está ao nível do servo-croata, do catalão e do provençal! Não é? Parece que sim. 

Também foram os cruzados croatas que vieram auxiliar o rei Afonso Henriques a tomar Lisboa, e Silves, para constituir o território do que é hoje Portugal. E foram croatas que combateram ao lado das tropas daquele que seria o rei João I em Aljubarrota, claro. E a rainha Felipa de Lencastre, uma das mais importantes figuras da nossa história, mãe de Henrique o Navegador, e do que designamos por ínclita geração, por exemplo, era croata e não inglesa?

E também foram croatas os que vieram com Wellington, um general croata, lutar contra as tropas de Napoleão? Claro. E foram croatas que desembarcaram no Mindelo com os liberais do rei Pedro. E foi para a Croácia que se dirigiram os exilados portugueses anti-absolutistas no século XIX e, no século XX os antifascistas? E é aos engenheiros croatas que devemos a caldeira a vapor e o que se seguiu na revolução industrial. 

Deixemos a história. Cada um escolhe os seus referentes. Os croatas são o que são e desempenharam nela o papel que desempenharam. Merecem-me respeito, mas não identificação. Resta o prazer.
Que diabo, o barão de Forrester, tido como o inventor do vinho do Porto, não era croata, era inglês! E o uísque também não é croata. Há excelentes uísques ingleses! Nem os Beatles, nem os Monty Phyton! 

Quanto à final: sou adepto do champanhe, com ou sem ostras. De Cognac e Armagnac. E da trilogia da liberdade, igualdade e fraternidade. Também me merecem muito respeito os portugueses que morreram na França na Grande Guerra, os que lá se exilaram, os que para lá emigraram, lá vivem e trabalham.

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

A Besta | Maria João Cantinho

De que tempo somos, agora
que a tempestade sopra de novo
e ao céu sobe este monte de ruínas
devastação anoitecendo o mundo

tenta lembrar-te de que lado
veio um dia o alerta, de que armário
saiu este cortejo de sombras
onde se gravou o que a história
deixou escapar, nas malhas do mito

para de novo retornar
a besta silenciosa, a que vigia
sem que as pálpebras lhe desçam
uma única vez. Silente

talvez estivéssemos nós, os do Sul,
embriagados pela torpeza do metal
e por isso ela moveu-se devagar
como se fosse cinza na minha memória

MJC, «Do Ínfimo», Editado pela editora Penalux, Brasil, 2018.

Portugal ainda resiste a olhar para o passado de forma crítica | Miguel Cardina e Bruno Sena Martins | Entrevista de Camilo Soldado in Jornal Público

09-07-2018 | Jornal “Público” | Entrevista Camilo Soldado

Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, os investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra organizaram o livro “As Voltas do Passado”. Um conjunto de textos sobre o último fôlego do passado colonial português.

O pretexto para a publicação do livro As Voltas do Passado é o CROME, o projecto do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação, que procura compreender como se foram reconfigurando as memória das guerras, desde a independência dos vários países até à actualidade. O subtítulo da publicação, A Guerra Colonial e as Lutas de Libertação, traduz essa tentativa de tratar “diferentes processos de memorialização”, tanto provenientes de Portugal como das ex-colónias. O resultado acaba por ser um mosaico de vozes, de geografi as e de gerações, com o colonialismo português como pano de fundo. No livro, lançado recentemente pela Tinta da China, cabem os momentos cuja importância é mais frequentemente reconhecida na história, como o discurso de Salazar que marcou o início da guerra, em 1961, o 25 de Abril de 1974 ou as independências após a revolução. Mas cabem também episódios menos conhecidos: desde a vida a bordo Vera Cruz, o paquete que transportava tropas a partir da metrópole, às páginas mais negras do domínio português em África, ilustradas pelos massacres de Batepá (São Tomé e Príncipe), Pidjiguiti (Guiné), Mueda e Wiriamu (Moçambique).

O cruzamento de memórias, afirmam os coordenadores da obra que reúne textos de mais de 40 autores, Bruno Sena Martins, doutorado em sociologia, e Miguel Cardina, doutorado em história e coordenador do CROME, “dá-nos um outro olhar sobre esse passado”. Defendem também que essa polifonia ajuda a explicar parte da organização social do país actual.

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Portugal e a escravatura: dois mal-entendidos | João Pedro Marques | in Jornal “Observador”

6/7/2018

Se o fito de Fernanda Câncio for esclarecer a opinião pública, então deve parar um pouco para se informar melhor. Mas se a sua intenção for flagelar Portugal, então não precisa de se informar.

A jornalista Fernanda Câncio, que, em Abril de 2017, na sequência da ida de Marcelo Rebelo de Sousa à ilha de Gorée, no Senegal, foi uma das iniciadoras do debate em torno da questão da antiga escravatura, esteve longos meses alheada desse tema, mas regressou agora a ele num artigo publicado no DN, no qual fez duas afirmações enganadoras. Disse, nomeadamente,“que Portugal sozinho (…) foi responsável por quase metade dos 12,5 milhões de negros escravizados e traficados de África para as Américas entre 1501 e 1875”; e acrescentou que “o grosso desse recorde mundial decorreu entre 1826 e 1850, ou seja, já após a mítica abolição da escravatura por Pombal (1761)”.

Comecemos pelo fim. Há, da parte de Fernanda Câncio, um mal-entendido quanto ao alvará abolicionista de Pombal. O dito alvará nada tinha a ver com tráfico transatlântico, aplicava-se apenas a Portugal metropolitano. Mas não é mítico. Existiu e produziu efeito. Deixaram de se importar escravos para o território metropolitano e um alvará posterior (1773) extinguiu gradualmente o estado de escravidão em Portugal continental. Foram os primeiros passos no sentido da abolição que, no âmbito do império português, só décadas depois seriam continuados. Mas esses passos deram-se e não foram revertidos. Fernanda Câncio parece ignorar que as leis abolicionistas foram muitas vezes graduais e sucessivas, abolindo parcela a parcela. A própria Inglaterra, a incontestável campeã do abolicionismo, aboliu o seu tráfico de escravos em anos sucessivos e não de uma só vez. Fernanda Câncio parece ignorar, também, que na terminologia do século XVIII, a palavra escravatura significava geralmente tráfico de escravos (e não escravidão, como significa para nós). Daí, talvez, alguma da sua confusão.

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A PROPÓSITO DA MADONNA | Hélder Bértolo

(…)  não há nada de ilegal, nem nenhum favorecimento, por parte do  (…)  Presidente da Câmara de Lisboa.


Escrevo este texto porque penso que aquilo que se verifica a propósito desta situação se observa igualmente em muitas outras situações nas redes sociais e, até, nos meios de comunicação social.

Como ponto prévio, eu pecador me confesso: não sou fã de Madonna.
Gosto de algumas músicas, penso que teve comportamentos relevantes na defesa dos direitos de minorias, que quebrou estereótipos, etc… mas nunca fiz uma viagem ao estrangeiro para ver um concerto, nem conheçoa discografia de cor, nem tenho uma colecção de CDs e DVDs.

As pessoas são TODAS livres de ter a sua opinião e, inclusivamente, porque vivemos em democracia, de dizer os maiores disparates. Mas não gosto de «achismos» (como agora se costuma dizer).
Seja por preguiça, por falta de tempo, por incapacidade de análise, a maior parte das vezes essas opiniões não são minimamente fundamentadas. Nem há argumentos sólidos que as defendam.

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UM EQUÍVOCO QUE TARDA EM DESFAZER-SE | Rodrigo Sousa e Castro

Após a queda do muro de Berlim e a pulverização da URSS o pacto de Varsóvia colapsou e a ameaça para a qual a NATO foi instituída desapareceu.
Quer do ponto de vista ideológico, – a Rússia e todas as ex repúblicas soviéticas são hoje países capitalistas – , alguns no pior sentido, quer do ponto de vista militar com os exércitos desses países em confrangedor estado, juntamente com os inevitáveis ajustes de contas que ainda correm entre eles, deixaram de ser uma ameaça credível para as potências regionais europeias.
O que restou então ?
Apenas e só os interesses inconfessados de uma camarilha de privilegiados que mantêm a ficção que o inimigo está no Leste.
No auge da guerra fria , o grande De Gaulle, manteve as forças armadas francesas fora do comando NATO, porque sabia, tal como os britânicos que a sua força de dissuasão nuclear era mais que suficiente para manter em respeito qualquer veleidade soviética.
Hoje é mais que evidente que a NATO, mercê da ambígua politica alemã, mantem a ficção do inimigo a Leste estando em vias de cair definitivamente no ridículo.
Esta situação , ausência de inimigo credível, coloca a NATO num vazio estratégico e permite que Trump e a sua administração diga:
– querem brinquedos caros , paguem-nos.
O próximo encontro Putin Trump, dirá muito sobre a sorte dos apaniguados da nova guerra fria artificialmente criada e mantida para sustento de escassas elites e orgasmo intelectual de comentadores e jornalistas da treta.

Rodrigo Sousa e Castro

Retirado do Facebook | Mural de Rodrigo Sousa e Castro

Pourquoi les femmes kabyles portent elle Amendil ?(foulard kabyle) | Fadette Aiache

Selon la légende, l’histoire débute dans les montagnes de Tiggoura au nord de la ville de Bejaïa , des cavaliers faisaient le tour de la région à cheval , malheureusement ils se sont piégés dans un torrent terrible celui de Bousallem ou une avalanche d’eau surpuissante s’abattait sur eux . Pour essayer de s’en sortir ils decidèrent de s’accrocher les uns aux autres. Pris de panique ils crièrent “À l’aide ! À l’aide”. Par chance un groupe de femmes aux longues tresses étaient en train de ceuillir des olives non loins de là. En kabylie durant cette période avoir de long cheveux étaient un signe de beauté . Elles accoururent et les vies ensanglantés , écorchés , elles décidèrent donc de couper leur grandes et magnifique tresses et d’en faire une longue corde afin que les cavaliers puissent s’échapper du torrent. En kabylie les cheveux de la Femme sont sublimés , on leur donne encore aujourdhui beaucoup d’admiration. Depuis cette histoire les femmes kabyles se couvrent La tête ( ce n’est donc pas un signes religieux ) pour protéger du froid , des cassures ou de la chaleur du soleil en été. Le foulard est admirablement porté avec un noeud sur le côté , un pan derrière qui laisse apparaître la longue tresse de la femme.

Fadette Aiache

Retirado do Facebook | Mural de Fadette Aiache

Migrações e refugiados | Carlos Matos Gomes

No futuro todos nós, europeus e americanos vamos vaguear em busca de uma terra prometida

Quanto a fechar fronteiras e erguer muros para impedir migrantes, em especial africanos, de entrar nos nossos espaços com casas climatizadas, água, eletricidade, hospitais, escolas, horários, salários, mercados, imagens de felicidade e abundância em cartazes de publicidade, quer a Europa quer os Estados Unidos têm razão: eles não são bem vindos. Nãos os queremos a pedir às nossas portas, a estragar a nossa paisagem, a ameaçar a nossa ideia de tranquilidade!

A partir da segunda metade do século XX, a Europa e a América construíram o mais parecido com uma Terra Prometida que existiu na História da humanidade. É certo que alcançaram esse feito universal em boa parte à custa das riquezas das terras que colonizaram e ocuparam no planeta desde o século XVI, mas esse foi — assumem — já um mérito seu, da sua capacidade de inovação e de determinação, da sua superioridade. Trataram de si.

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AINDA A DEGRADAÇÃO DO NOSSO ENSINO | António Galopim de Carvalho

Na minha capacidade de análise, que vale o que vale, o problema da degradação dos nossos ensinos básico e secundário reside, sobretudo, na classe política, onde, a par de gente capaz e honesta, se instalaram arranjistas e corruptos, como em todo o lado.

Mas tendo em conta que a chamada Esquerda só esteve no poder dois anos e dois meses, com os governos provisórios, e que tendo sido o Centro e a Direita a governarem-nos há mais de quarenta e dois anos, há que imputar a estes, os do chamado “arco do poder”, o grosso da responsabilidade de uma tal degradação.

Como já escrevi, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 44 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada” entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos cultura civilizacional e humanística. Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à democracia está a educação. E, aqui, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.

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O descobrimento de Portugal | Fernanda Câncio | in Diário de Notícias

25 Junho 2018

O debate sobre o nome do museu “Das Descobertas” descobre-nos um país obstinado no negacionismo.

Em memória dos milhares de judeus vítimas da intolerância e do fanatismo religioso assassinados no massacre iniciado a 19 de abril de 1506 neste largo”. A frase lê-se numa estrela de David recortada em pedra, monumento inaugurado a 23 de abril de 2008, no Largo de São Domingos, Lisboa. O erigir deste memorial era uma antiga aspiração da Comunidade Israelita Lisboeta, cuja presidente, Esther Mucznik, dois anos antes, no mesmo largo e na celebração do quinto centenário do pogrom que matou entre dois mil e quatro mil “cristãos novos”, lamentava a inexistência, na cidade, de “um único marco público relacionado com a perseguição dos judeus”. Políticos identificáveis, nesse assinalar de um acontecimento terrível de que a maioria dos portugueses nunca teria ouvido falar, só três deputados do BE, incluindo Francisco Louçã, que disse ao DN ter ido “fazer um encontro com a história” e o ex Provedor e ex ministro da Justiça, Menéres Pimentel. Também referida nas notícias foi a comparência do então diretor do Público, hoje “publisher” do Observador, José Manuel Fernandes, e da filósofa Maria Filomena Molder, que, questionada pelo DN sobre a razão pela qual estaria ali tão pouca gente, falou da “supressão da memória como um problema muito português.”

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Parábola | A Verdade e a Mentira

Diz uma parábola judaica que certo dia a mentira e a verdade se encontraram.

A mentira disse para a verdade:
– Bom dia, dona Verdade.
E a verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva, vários pássaros cantavam e vendo que realmente era um bom dia, respondeu para a mentira:
– Bom dia, dona mentira.
– Está muito calor hoje, disse a mentira.
E a verdade vendo que a mentira falava a verdade, relaxou.
A mentira então convidou a verdade para se banhar no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:
-Venha dona Verdade, a água está uma delícia.
E assim que a verdade sem duvidar da mentira tirou suas vestes e mergulhou, a mentira saiu da água e vestiu-se com as roupas da verdade e foi embora.
A verdade por sua vez recusou-se a vestir-se com as vestes da mentira e por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar na rua.
E aos olhos de outras pessoas era mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade, do que a verdade nua e crua.

Retirado do Facebook | Mural de Marialva Almeida

Frases e expressões do povo no Brasil | Marcia Lailin Mesquita

NAS COXAS
As primeiras telhas dos telhados nas Casas aqui no Brasil eram feitas de Argila, que eram moldadas nas coxas dos escravos que vieram da Africa. Como os escravos variavam de tamanho e porte físico, as telhas ficavam todas desiguais devido as diferentes tipos de coxas.
Daí a expressão fazendo nas coxas, ou seja, de qualquer jeito.

VOTO DE MINERVA.
Orestes, filho de Clitemnestra, foi acusado pelo assassinato da mãe. No julgamento, houve empate entre os acusados. Coube a deusa Minerva o voto decisivo, que foi em favor do réu. Voto de Minerva é, portanto, o voto decisivo.

CASA DA MÃE JOANA
Na época do Brasil Império, mais especificamente durante a
menoridade do Dom Pedro II, os homens que realmente mandavam no país costumavam se encontrar num prostíbulo do Rio de Janeiro, cuja proprietária se chamava Joana. Como esses homens mandavam e desmandavam no país, a frase casa da mãe Joana ficou conhecida como sinônimo de lugar em que ninguém manda.

CONTO DO VIGÁRIO
Duas igrejas de Ouro Preto receberam uma imagem de santa como presente. Para decidir qual das duas ficaria com a escultura, os vigários contariam com a ajuda de Deus, ou melhor, de um burro. O negócio era o seguinte:
Colocaram o burro entre as duas paróquias e o animalzinho teria que caminhar até uma delas. A escolhida pelo quadrúpede ficaria com a santa. E foi isso que aconteceu, só que, mais tarde, descobriram que um dos vigários havia treinado o burro. Desse modo, conto do vigário passou a ser sinônimo de falcatrua e malandragem.

FICAR A VER NAVIOS
Dom Sebastião, rei de Portugal, havia morrido na batalha de Alcácer-Quibir, mas seu corpo nunca foi encontrado.
Por esse motivo, o povo português se recusava a acreditar na morte do monarca. Era comum as pessoas visitarem o Alto de Santa Catarina, em Lisboa, para esperar pelo rei.
Como ele não voltou, o povo ficava a ver navios.

NÃO ENTENDO PATAVINAS
Os portugueses encontravam uma enorme dificuldade de entender o que falavam os frades italianos patavinos, originários de Pádua, ou Padova, sendo assim, não entender patavina significa não entender nada.

DOURAR A PILULA
Antigamente as farmácias embrulhavam as pílulas em papel dourado, para melhorar o aspecto do remedinho amargo.
A expressão dourar apílula,significa melhorar a aparência de algo.

SEM EIRA NEM BEIRA
Os telhados de antigamente possuíam eira e beira, detalhes que conferiam status ao dono do imóvel. Possuir eira e beira era sinal de riqueza e de cultura. Não ter “eira nem beira” significa que a pessoa é pobre, está sem grana.

O CANTO DO CISNE
Dizia-se que o cisne emitia um belíssimo canto pouco antes de morrer. A expressão canto do cisne representa as últimas realizações de alguém.

  O facebook também é cultura 

Marcia Lailin Mesquita 

António dos Santos Ramalho Eanes | primeiro Presidente da República democraticamente eleito após o 25 de Abril | por Gaspar Macedo

Caro General Ramalho Eanes, ultimamente o Portugal que serviu enquanto Presidente da República tem-se chocado com o aproveitamento que muitos membros da nossa classe política interpretam. Somos o país que consegue sentir o choque do ridículo mas que normaliza tais comportamento porque, como sabemos, “todos os políticos são iguais”.

Ficamos surpreendidos quando soubemos que em média, entre 2006 e 2013, os nossos governantes gastaram 295 euros por refeição. Ficamos admirados com a notícia de José Conde Rodrigues , ex-secretário de Estado da Justiça, que gastou 13.657 euros dos fundos públicos na compra de 729 livros para beneficio próprio.
Ficamos pasmados com o caso da ex-ministra da Saúde Ana Jorge, ao ter usado um cartão de crédito em nome do Estado (para despesas urgentes de trabalho) em lojas de roupa, ourivesarias ou no El Corte Inglés.
Ficamos boquiabertos com o ex-ministro da economia, Manuel Pinho, que recebeu 1 milhão de euros na sua Offshore depois de beneficiar a EDP em vários contratos de parceria.
Ficamos espantados, mais recentemente, com o ministro-adjunto deste executivo que embora advogado de elite disse desconhecer a lei que o impedia de acumular cargos públicos com outros cargos em empresas privadas.

Enquanto grande parte da nação ajoelha-se boquiaberta e volta a esquecer estes abusos, como se um anulasse o anterior, não consigo esquecer o Presidente da República que num período de grandes dificuldades financeiras, consta que vendeu a sua própria casa de férias para pagar os custos que a presidência não conseguia suportar. Não consigo deixar de relembrar o individuo que tinha apenas dois fatos e que recebia as visitas ao Palácio de Belém com um chá depois da hora de jantar, para evitar custos desnecessários. Esse foi o senhor.

Em julho de 2017 o país ficou a conhecer o caso dos três secretários de Estado que beneficiaram de viagens pagas pela empresa Galp, antes de ser aprovado um benefício fiscal em dezenas de milhões de euros à mesma empresa. José Sócrates defendeu que as críticas se tratavam de “um excesso de patriotismo”, considerando que as suspeitas sobre os governantes eram “estapafúrdias” e António Costa não hesitou em reforçar a “relevante e dedicada colaboração dos três Secretários de Estado nas funções desempenhadas no XXI Governo Constitucional”.

Em abril de 2018 chegou a público os milhares de euros de que vários deputados beneficiaram ao receber em duplicado o valor das viagens que faziam em “nome do interesse nacional”. Carlos César, líder parlamentar do partido socialista e parte desse grupo, logo declarou não se sentir culpado por não ter feito “nada de errado”, sendo que o “atual modelo vigora há décadas e foi utilizado por altos cargos do Estado”. Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da Republica, declarou a inocência dos parlamentares que nas suas palavras não tinham “cometido nenhuma e ilegalidade.

Não esqueço o homem que RECUSOU receber 1 milhão de euros do erário publico, com o acumular de dezenas de anos sem receber a subvenção que tinha direito, após o parecer do Provedor de Justiça em 2008 ter defendido que todos os Presidentes deviam ser tratados de igual forma

Deparamo-nos com um ex-primeiro ministro que fez da acção política o benefício dos seus interesses pessoais, onde até históricos como Arons de Carvalho defendeu não achar “reprovável uma pessoa viver com dinheiro emprestado”
Vivemos na realidade de vários governantes e parlamentares que acumulam os vencimentos com ajudas de custo e subvenções vitalícias, de dezenas de nomes da política que acabaram nas administrações de grandes Bancos e Grupos Económicos, uma Assembleia da Republica onde se misturam os escritórios de advogados e as grandes empresas com as leis que se aprovam e propostas, como a do grupo parlamentar do partido socialista a janeiro deste ano, para tornar o lobby, a representação dos interesses de particulares nos corredores do poder, numa profissão reconhecida pela lei.

Aqueles que fazem da desaprovação o consentimento, esquecem-se que Portugal já teve como líder máximo um individuo que promulgou a lei que o impediria de acumular o salário presidencial com as restantes pensões a que teria direito, abrindo mão da pensão choruda de General. Só serviu os interesses de quem o elegeu e não de quem o tentou financiar.

Por isso, tenho orgulho em afirmar que por muito chocante que possa parecer, António dos Santos Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República democraticamente eleito após o 25 de abril, é o anormal no meio de um panorama político podre que para muitos é a norma controladora.

Sei que o senhor não é perfeito e podemos até ter as nossas divergências ideológicas, mas pelo menos tenho a certeza de que nunca fez parte do grupo que se aproveita do poder para se apoderar dos recursos que pertencem apenas aos portugueses. É para mim uma honra recordar uma Nação inteira que se deprime com os muitos que a serve, de que nem “todos os políticos são iguais” e de que enquanto houver quem no senhor se inspire haverá sempre esperança. Ao contrário do alguns dirão, recordá-lo não é “estar preso ao passado” senão querer um futuro onde o mais simples português não tenha de voltar a justificar a miséria do país com os políticos que são “sempre iguais” e que insistem em “não mudar”.

Por muito mau que o presente possa parecer eu não o esqueço, senhor presidente.

Tenho dito.

Gaspar Macedo

Retirado do Facebook | Mural de Gaspar Macedo

Daniel Ribeiro | (Mas, quem disse que um dia houve uma Revolução em Portugal?)

Há uma notícia muito estranha (ou inquietante) no Expresso de hoje. Uma pessoa vai receber 167 mil euros de reforma/mês, além de mais uns milhares/mês com outras benesses. Conheço montes de portugueses, só na minha aldeia, a receberem menos de 300 euros/mês. É um banqueiro da nossa banca arruinada pelos negócios dos banqueiros e financiada, à força, pelos portugueses! INACREDITÁVEL? De facto, há algo de louco (e pouca vergonha) no país do eldorado à beira mar plantado! (Mas, quem disse que um dia houve uma Revolução em Portugal?)

Daniel Ribeiro

Retirado do Facebook | Mural de Daniel Ribeiro

A FLOR | ALMADA NEGREIROS

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase nâo resistiu.
Outras eram tâo delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar estas linhas às pessoas:
Uma flor !

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor.
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Almada Negreiros

A lição de Saramago sobre a eutanásia | por Francisco Louçã in Jornal “Expresso”

José Saramago, entrevistado em televisão por Ana Sousa Dias como só ela sabia fazer, contava a história de um velho camponês que, à beira da morte, pediu aos familiares que o ajudassem a antecipar o fim porque não suportava mais o sofrimento irremediável. Ele sabia o que queria e eles, os familiares, ajudaram-no por amizade, explicava Saramago, porque respeitaram a sua decisão, mesmo se a choravam. Acrescenta Saramago: é isso que explica a escolha de Ramon Sampedro, o marinheiro tetraplégico que, em Espanha, lutou pelo direito a terminar a sua vida. As suas “Cartas do Inferno” mostravam como, não se podendo mover, achava que estava condenado a uma sobrevivência degradante e por isso pedia ajuda para morrer. Mais Saramago: “ninguém tem o direito de dizer a uma pessoa, você vai ficar aí, ligado a esses tubos e, por isso, devemos aceitar-lhe a morte se é isso que a pessoa quer”. “Não matamos”, continua, mas respeitamos quem nos diz “por favor ajudem-me”.

Saramago fala de bondade e de um direito que entende irrecusável. Percebo que a sua visão não seja aceite pelo Cardeal, por Cavaco Silva, por Assunção Cristas, por Jerónimo de Sousa, uns porque acreditam que a vida é um dom divino e outro porque pensa que a medicina vai a caminho de garantir a perpetuidade. São consciências e portanto respeitáveis. Ninguém deve questionar os seus motivos. Mas é bastante esta razão íntima que os leva a recusarem o pedido de alguém que não quer prolongar uma vida condenada e em sofrimento? Não deveria ela valer para si mesmos e não ser imposta a outros? Saramago respondia que cada pessoa sabe de si e esse é o princípio único da liberdade. A lição de Saramago é esta: respeita a liberdade das outras pessoas.

Tudo o resto, o ajuste de contas dentro do PSD contra Rui Rio e Balsemão, as homilias inflamadas em igrejas, as manifestações do PNR, a política que promete a vida eterna, isso não vale nada. Nada disso vale hoje, não existirá amanhã. Mas a lição de Saramago ficará sempre.

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

“A Chegada das Trevas” | Catherine Nixey in Jornal “Expresso”

O livro “A Chegada das Trevas”, agora publicado, começa com um relato da bárbara destruição de Palmira, em tudo semelhante à que foi feita pelos fundamentalistas do Daesh em 2015. Só que o livro da investigadora e jornalista Catherine Nixey descreve a conquista da cidade síria por guerreiros cristãos há 1700 anos. Essa página negra dos primeiros séculos do cristianismo inclui a queima de livros, perseguição de filósofos e destruição de templos. Um livro polémico em defesa da cultura grega e romana.

ENTREVISTA MANUELA GOUCHA SOARES

É jornalista de profissão mas a sua formação universitária é na área de Clássicas. Há quantos anos começou a reunir material para este livro?

Sou filha de um ex-monge e de uma ex-freira, o que faz com que em certo sentido esteja a preparar-me para escrever este livro desde que nasci. Cresci numa família católica, e a minha mãe ensinou-me que as obras [património] do mundo grego e romano chegaram até nós porque foram preservadas por monges católicos. Quando fui para a Universidade, escolhi a área de Estudos Clássicos; ao ler uma cópia de [um livro] Aristóteles na biblioteca da universidade, comecei a pensar que a mescla entre esses dois mundos não poderia ter sido tão perfeita [e pacífica], como aquela que minha mãe me transmitira. No fundo estou a trabalhar nesta pesquisa desde os tempos da universidade − e tenho 37 anos.

Ficou desapontada com essa descoberta?

Comecei a ler [mais], e descobri que os cristãos tinham destruído obras da filosofia [que chamaram] “pagã”, proibindo assim a leitura de muitas obras e atacando a aprendizagem sobre esse mundo “pagão”, que passou a ser considerado maligno e pecaminoso.

Também aprendi que, longe de proteger o mundo clássico, muitos cristãos desprezaram o ensino clássico. Nos séculos que se seguiram à cristianização, assistiu-se à destruição de cerca de 90% das obras da chamada literatura “pagã”.

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OS APARELHOS DA MORTE REIVINDICAM O SEU CONTROLO SOBRE AS NOSSAS MORTES | por José Gabriel Pereira Bastos in “Facebook”

OS APARELHOS DA MORTE REIVINDICAM O SEU CONTROLO SOBRE AS NOSSAS MORTES

O Aparelho Religioso e o Aparelho Médico têm uma longa tradição de contrôlo e de parasitação do CICLO VITAL, de antes do nascimento a depois da morte. Em vez de nos servirem, a pedido, pretendem decidir orientações gerais que ninguém lhes pediu, assumindo-se como APARELHOS DESPÓTICOS, GERADORES DE LEIS RESTRITIVAS. e ter direitos para permitir ou não permitir as decisões pessoais sobre a morte de cada um, que só a ele cabem

Com a sua velha VOCAÇÃO DESPÓTICA, a que chama “Colectiva” (embora nada exista de colectivo, algo que não passa de um conceito) ou “Comunista”, também o PCP se chega à frente para nos retirar Liberdade e para querer decidir sobre a morte de cada pessoa, reforçando os restantes APARELHOS DESPÓTICOS.

Medicina, Religião e PCP finalmente juntos para nos controlar, usar e tirar Liberdade pessoal, em vez de nos servir, visto que os pagamos para que nos oiçam e nos sirvam, a pedido nosso, e não que nos silenciem ou nos descartem humanamente, retirando-nos o poder de decisão sobre o que nos é mais íntimo – a Vida e a Morte.

Falam com um ar pomposo de ´Ética”, como se eles fossem Iluminados, soubessem pensar e nós não – e apenas produzem Jogos de Palavras, manejando “Princípios”, como se isso existisse no mundo do pensamento.

Não existem Princípios, existem Objectivos Orientadores, entre os quais A MAXIMIZAÇÃO DO BEM-ESTAR decorrente do Respeito pela Diversidade e pela Liberdade de Decisão pessoal, quando ela não afecta terceiros – isto é, a redução do Mal-Estar na Civilização, o mal-estar decorrente da acção dos APARELHOS DESPÓTICOS QUE ALIENAM A SUA FUNÇÃO DE SERVIÇO.

José Gabriel Pereira Bastos

Retirado do Facebook | Mural de José Gabriel Pereira Bastos

OUVIDOS E ESQUECIDOS | Artur Jorge, por José Gabriel in “Facebook”

(aviso: isto parece, mas não é sobre futebol)

Passa hoje o 30º aniversário da vitória do F C Porto na Taça dos Campeões Europeus. As televisões e os meus amigos portistas narram de muitos modos esta efeméride. Reportagens, memórias, festejos, palavras de exaltação clubista e portista. Tudo isto se compreende. Mas, mais uma vez – com excepção das vozes dos jogadores do tempo ouvidos – a figura de Artur Jorge parece esfumar-se. Era interessante percebermos porquê. É que há muito penso que, a dar um exemplo de desportista profissional, escolheria, entre muito poucos, Artur Jorge. Então por que razão este país que tão depressa incensa gente da bola como se fossem exemplos de excelência nacional e vértice da magnificência humana, esquece tal figura? É que os atributos do Artur Jorge estão nos antípodas do perfil que a imprensa e a opinião publicada “desportivas” sacralizam. Quer dizer: as qualidades de um dos maiores jogadores e treinadores da história do desporto português são exactamente o que o desqualifica para ser ídolo nacional-futebolista.

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10 frases de D. António Marto, o próximo cardeal português

“Fátima é um oásis de misericórdia. Refere-se ao amor apaixonado, o amor de entranhas de Deus pela humanidade que aqui nos foi dado a conhecer pelo rosto materno de Maria”. Entrevista à Renascença, 5 dezembro 2015

“Quando acabei o curso, era um racionalista, éramos muito racionalistas. (…) Às vezes olhávamos até com desdém, com desprezo, para as expressões de piedade popular. (…) Depois, um dia, o meu pai deu-me uma lição grande. Disse-me: “Ó meu filho, eu queria-me confessar, tenho um padre em casa, porque é que hei de andar a procurar outro?” (…) Vi a delicadeza de consciência daquele homem. (…) Isso foi como cair as escamas dos olhos.” Entrevista ao Observador, 7 maio 2017

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Antes é que era bom? | Michel Serres

Este é um livro delicioso. Não há ninguém que não se tenha interrogado, uma vez que seja, sobre a relação entre o presente e o passado. Quem é que, num arroubo de nostalgia, não tropeçou já na mais emotiva das declarações: «Ah, antes é que era bom!» Mas era? O passado seria mesmo tão dourado como às vezes o pintamos?

Permitam-me, caros leitores, que vos ponha a falar com Michel Serres. Apresento-o, primeiro: Michel Serres é filósofo e historiador das ciências. E atreve-se: membro da Academia francesa, Serres intervém publicamente arriscando oferecer uma visão do mundo em que a filosofia, as  ciências e a cultura se combinam. Neste seu pequeno livro, repleto de fina ironia, Michel Serres, dos seus 87 anos de idade, afirma com toda a clareza: não, o passado não era bom! O presente é bem melhor.

Cito algumas saborosas passagens do livro:

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Alcochete | Ferreira Fernandes in “Diário de Notícias”

Quando as estações televisivas fazem longos diretos com os borra-botas em coluna fascista atravessando a cidade à ida e vinda de um jogo de futebol. Quando se mandam polícias pastorear borra-botas pela cidade. Quando os líderes dos clubes são boquirrotos. Quando as capas de jornais desportivos privilegiam as palavras dos boquirrotos em vez do rasgo corrido de Gelson. Quando colunistas de jornais aceitam mostrar-se indigentes, já que o assunto é, julgam eles, só de camisola e emblema. Quando essa arte e ciência que encanta miúdos e velhos é comentada em prime time por tipos talvez de meia-idade e certamente com um terço de inteligência. Quando, com muito share, insultos recíprocos são trocados por gente paga, cara e cara separadas por um palmo mas nunca havendo um gesto honrado que desagrave os desaforos lançados nos perdigotos. Quando as assembleias gerais presididas por bombeiros incendiários têm mais destaque do que o ato luminoso do Perdigão, do Desportivo de Chaves, a cuidar de uma bola. Quando os talentosos Paulinho, do Braga, e o Rafa, do Portimonense, são menos conhecidos do que o Pedro Guerra e o Francisco J. Marques, cujas conversetas têm o dom de tornar a alma dos adeptos mais pequena. Quando se vandaliza em grupo uma estação de serviço e já nem se noticia porque o autocarro dos gatunos e brutos vai a caminho de um estádio… Então, quando tantos miseráveis quandos se acumulam, arriscamo-nos a ver um admirável, forte e grande Bas Dost ferido e com uma lágrima por nós todos.

Ferreira Fernandes in DN

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/alcochete-9345151.html

Gonçalo M. Tavares na Jornada Nacional da Pastoral da Cultura | Fátima | 2 de Junho de 2018

CAR7799 SÃO PAULO 22/06/2017 ALIAS GONÇALO M. TAVARES Gonçalo M. Tavares , escritor portugues durante palestra realizada na UNIBEs, rua Oscar Freire 2500 . FOTO: JF DIORIO/ESTADÃO

O escritor e professor universitário Gonçalo M. Tavares é um dos participantes na 14.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, que a 2 de junho debate, em Fátima, o tema “Desporto – Virtudes e riscos”.

A extraordinária cartografia do humano de Gonçalo M. Tavares, o “Atlas do Corpo e da Imaginação” de 2013 – tributário da formação académica do autor nas Ciências da Motricidade e do Desporto –, assinala um entendimento fulgurante da saudade como «nostalgia de uma possibilidade» que pode valer esteticamente por todo um programa de resgate ético e metafísico.

O encontro, aberto a crentes e não crentes, centra-se no significado antropológico e nas atuais conexões socioculturais do Desporto – poética e ética do corpo e do espírito, poderes e desvios da irradiação social (negócio, corrupção, alienação, etc.).

Na Jornada os conferencistas, que continuarão a ser divulgados nos próximos dias, refletirão também sobre a possibilidade de atualização da perspetiva cristã do ideal humanista de “mens sana in corpore sano” (mente sã em corpo são).

O tema foi escolhido na sequência das múltiplas intervenções do papa Francisco e dos seus antecessores sobre o Desporto, área que suscitou a criação de um departamento exclusivo por parte do Conselho Pontifício da Cultura.

Entre as numerosas iniciativas do Vaticano contam-se a primeira conferência global sobre fé e desporto, a organização de competições internacionais no campo do atletismo, futebol de salão e críquete, a participação de delegações da Santa Sé nos Jogos Olímpicos e a criação de equipas desportivas.

Durante a Jornada Nacional da Pastoral da Cultura será concedido o prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes ao ator Ruy de Carvalho.

Gonçalo M. Tavares

Entre prosa e verso, a figura que partilha com o poeta Tolentino Mendonça o topo do cânone literário português do século XXI é Gonçalo M. Tavares (n. 1970), com sua obra a um tempo construtivista e vertiginosa, com seu próprio mapa estrutural “in progress”, num persistente gesto de afirmação autoral: a delimitação de um território textual, a cartografia da sua constituição por programas de géneros e subgéneros e a distribuição de sinais de sua ligação a uma “enciclopédia” pessoal.

Num estilo inconfundível, de aparente normalidade vocabular e sintática a recobrir uma explosiva carga de antinomia semântica, lavra um jogo de ideias com fundo filosófico; e lavra sobretudo a ambiguidade de paradoxos morais a que conduz, com a emergência em humor surreal no quotidiano das grandes intuições suscitadas pelas pequenas coisas (por exemplo, o absinto em “O Senhor Henri”), o entrechoque dessas ideias com a experiência existencial.

Em Gonçalo M. Tavares imperam o paradoxo e a violência lógica nas personagens, no enredo e na imagística das prolíficas criações deste escritor, onde aliás tudo passa por uma espécie de fisiologia cognitiva, imaginativa e volitiva, mediada pelos recursos e ditames do corpo (a força e a compaixão, o desejo e a saciedade, a violência e a ternura, por exemplo).

SNPC 
Imagem: D.R. 
Publicado em 13.05.2018

«CARTA ABERTA PARA SAIR DA CRISE NO SECTOR DO LIVRO E DA LEITURA» | José Antunes Ribeiro, Assírio Bacelar e Daniel Melo in blog “A Vaca Voadora”

1. Diagnóstico da crise que afecta o sector do livro e da leitura

É hoje notório que a Cultura foi desvalorizada pelos últimos governos de Portugal. Investe-se pouco na área cultural e noutras afins, como a Ciência, para as quais o orçamento de Estado é sempre diminuto, não passando do zero vírgula qualquer coisa.
Tratada como um parente pobre, a Cultura tem vindo a ser subestimada como se nenhum valor pudesse trazer ao país, o que é falso. A Cultura tem um papel crucial no desenvolvimento e progresso de qualquer país, merecendo por isso maior investimento da parte do Estado e da sociedade civil, como em tempos já aconteceu e tem lugar na maioria dos nossos parceiros na União Europeia.
Não se trata de defender a tutela paternalista da Cultura pelo Estado. Trata-se, isso sim, de defender que ao Estado cabe um papel relevante na salvaguarda de condições mínimas para a actividade das pequenas e médias empresas independentes do ramo editorial (editoras, livrarias e distribuidoras) que, por serem tratadas do mesmo modo do que as grandes (ou seja, com a mesma carga de fiscalidade, impostos e imposições burocráticas, e rendas elevadas), vêm o seu impacto e o seu futuro sob ameaça permanente, perdendo espaço para os grandes grupos e os grandes centros comerciais onde a relação de proximidade leitor/livreiro se tornou inexistente e a principal preocupação é o lucro.

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A social-democracia para além da “terceira via” | Pedro Nuno Santos in Jornal “Público”

I

Num momento em que social-democracia está em forte retrocesso político em toda a Europa, o Partido Socialista em Portugal é uma exceção. Sem pretender dar lições a outros partidos da família social-democrata – cada partido opera num contexto nacional com oportunidades e constrangimentos específicos –, precisamos compreender o que nos permite ter hoje níveis de apoio popular elevados.

Como venho defendendo, a decisão tomada em 2015 de procurarmos construir com a esquerda parlamentar uma solução de governo maioritária, alternativa à viabilização de um governo de direita, pode ter salvo o PS do destino de outros partidos europeus da mesma família política.

A solução traduziu-se num programa político que restituiu a esperança de uma vida melhor a muitos portugueses. A configuração inédita da nova maioria enriqueceu a democracia, trazendo para a esfera governativa partidos que representam cerca de um milhão de portugueses. Mas foi o seu programa, que promoveu a recuperação de rendimentos e direitos, o crescimento económico e a criação de emprego, por um lado, e o respeito por quem trabalha ou trabalhou uma vida inteira, por outro, que gerou o nível de apoio de que o PS dispõe atualmente.

Teria sido bem diferente se tivéssemos feito o que alguns, mesmo dentro do PS, consideravam natural: a viabilização de um governo minoritário do PSD/CDS. Nesse caso, estaríamos hoje, certamente, na posição de outros partidos social-democratas europeus e incapacitados de disputar a liderança governativa em Portugal. Sobretudo, nunca teria sido possível construir com o PSD e o CDS o programa de mudança económica e social e de comprometimento com o Estado social público e universal, base de uma comunidade decente, que foi possível – apesar das diferenças com estes partidos – com o apoio do PCP, BE e PEV.

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Da Síria à Coreia, o mesmo princípio: em Washington a paz é péssima para os negócios! | Carlos Matos Gomes in MOVER A MONTANHA

A intervenção na II Guerra Mundial deu origem a um regime de oligarquia nos Estados Unidos, ou foi fruto dela. Uma oligarquia que o presidente Eisenhower designou como “complexo-militar industrial”, que integra também o complexo financeiro de Wall Street. A partir daí o slogan “o que é bom para a General Motors é bom para a América” passou a ser o que é bom para o complexo militar-industrial é bom para a América e todas as ações gizadas em Washington devem ser analisadas à luz dos interesses da oligarquia que o controla.

A oligarquia americana instituiu-se como ”perturbador mundial” e desde o final da IIGM desenvolveu a sua manobra de domínio planetário através da criação de pontos quentes e situações de conflito permanente em zonas chave. Um pouco a estratégia de domínio de estreitos que Afonso de Albuquerque utilizou para dominar o Índico com forças reduzidas, em que os EUA criam os estreitos para depois induzirem a necessidade de os defender.

São os interesses desta oligarquia que estão em jogo na atual fase de aproximação das duas Coreias e de desestabilização da Síria e do Médio Oriente, em geral.

A estratégia do regime de Washington de aumentar as tensões nos pontos quentes que são a península da Coreia e o Médio Oriente sofreu recentemente dois sérios contratempos, um com o encontro dos presidentes das duas Coreias, o outro com a derrota na Síria dos exércitos islâmicos que os EUA apoiaram.

Na Síria, a desestabilização provocada pelos Estados Unidos trouxe a Rússia para zonas no Médio Oriente e nas margens do Mediterrâneo que a esta lhe interessava ocupar, deixaram desamparados e na expetativa os seus peões na região, Israel e a Arábia Saudita, e fê-los perder a Turquia como aliado incondicional. O tiro saiu pela culatra.

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O Bem, o Mal e o Ponto Final | Santana-Maia Leonardo in “Rede Regional”

(…) os portugueses não criticam os outros porque discordam dos seus métodos. Pelo contrário, criticam-nos por inveja porque, se tiverem a oportunidade, fazem precisamente o mesmo (ou pior). E não só fazem o mesmo como não concebem sequer que alguém pense ou aja de outra forma. (…) 

Desde 1972 que escrevo ininterruptamente e militantemente em jornais locais, regionais e nacionais, acreditando que é possível contribuir para mudar Portugal através da palavra e do exemplo. Eça de Queirós, Antero de Quental e a Geração de 70, “a primeira em Portugal que saiu decididamente e conscientemente da velha estrada da tradição”, como a definiu Antero de Quental, sempre foram as minhas referências, desde a adolescência, neste meu militante combate político pela mudança das mentalidades.

Mas bastaria constatar como, cem anos depois, Portugal mantinha os mesmos vícios criticados por Eça, Antero e a Geração de 70 para ter chegado à conclusão da inutilidade da minha luta. Não é impossível corrigir defeitos. Só que o problema português não é uma questão de defeito, mas de feitio.

Fernando Pessoa, no último poema da Mensagem, retrata Portugal de forma esclarecedora: “Ninguém sabe que coisa quer. / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem. / (…) Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro…/” E, noventa anos depois, quando olhamos para Portugal, o nevoeiro não só não há meio de levantar como se adensa cada vez mais…

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Régis Debray, le monde expliqué à mon fils | in France Culture

Régis Debray, philosophe et écrivain, inventeur de la médiologie, revient avec nous sur les mutations de notre histoire politique qu’il a observées ces 50 dernières années à l’occasion de la sortie de son “Bilan de faillite” (Gallimard, mai 2018).

Il y a une bascule qui s’est faite de l’intellectuel vers l’émotif, du projet vers l’optique, de la réflexion aux images. L’heure est aux publicitaires, aux spin doctors, aux photographes et aux cinéastes, plus aux écrivains ou aux philosophes.” Régis Debray

La faillite dont il fait le bilan est à la fois collective et personnelle. Après un demi-siècle de combats révolutionnaires pour changer le monde, que reste-t-il de sa génération et ses espoirs? Croire en qui et en quoi? Croire encore?

Appelons-le « figure de la vie intellectuelle française », un pedigree dont il se moque avec humour…  Dans cette lettre à son fils, celle d’un homme de 76 ans à un garçon de 16 ans, il dit renoncer « à toute ambition d’influence». «Entre le tout-économie et le tout-image, les gens de mon espèce ne peuvent plus faire, avec leurs gribouillis, que des ronds de fumée.»

Dans Civilisation, Comment nous sommes devenus américains, (Gallimard, 2017) qui reparaît ce mois-ci en Folio,  il avait décrit le « changement de civilisation » qu’a connu la France sous l’influence de l’hégémonie culturelle américaine. Dans Le nouveau Pouvoir (Cerf, Septembre 2017) il montrait comment l’apparent changement politique que constitue l’arrivée au pouvoir de Macron marque une profonde mutation culturelle inscrivant la France, pourtant catholique et républicaine, dans l’avènement planétaire de la civilisation issue du néo-protestantisme. Des réflexions qui ont aussi produit une série d’émission l’été dernier sur France Culture devenue livre avec les éditions Autrement : «France-Amérique : un échange de bons procédés» est paru en février dernier.

La disparition de l’avenir est une chose notable. Il n’y a plus de parti idéologiquement structuré avec une vision de l’avenir, avec une vision de ce qui est à accomplir. Nous vivons dans le marketing de l’instant, dans le ‘présentisme’ du chiffre. »

Régis Debray, in France Culture

Quem manda na sombra | Mariana Mortágua in “Jornal de Notícias”

É uma pedra no sapato do Banco de Portugal. A empresa de investimentos BlackRock faz parte de um consórcio da mais alta finança mundial que ameaça boicotar o país por conta da transferência de 2000 milhões de euros de dívida que vinha do antigo BES e que passou do Novo Banco para o “banco mau”. Mas, como relata o jornalista Paulo Pena em dois artigos recentes no “Público”, esta não é a única ligação do BlackRock ao banco de Ricardo Salgado e à economia portuguesa.

A BlackRock comprou quase 5% do BES apenas seis meses antes da sua resolução. Essas ações foram depois misteriosamente vendidas quando já não tinham qualquer valor. Porquê e a quem? Ninguém sabe, nem mesmo o Governo da altura ou os supervisores.

Para além do BES, a BlackRock é ainda acionista de 14 outras empresas, da EDP ao BCP, passando pela Jerónimo Martins, detendo quase 2000 milhões de euros de ações de empresas cotadas em Portugal.

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Nem Descobrimentos nem Expansão | Pedro Lains | in Diário de Notícias

29 Abril 2018

Nem Descobrimentos nem Expansão: aquilo que é preciso é um museu da História de Portugal. E um museu em que primeiro se pensem os conteúdos e só depois o edifício.

Muitos países tiveram passados grandiosos. Apenas alguns exemplos próximos de nós servem. A Dinamarca já foi um império, a Turquia, o centro do Império Otomano e, claro, a Grã-Bretanha, que já foi o maior império que o mundo alguma vez conheceu. Portugal teve três impérios, cuja história é muito importante e o público sabe isso, porque sente o seu reflexo. Mas é preciso ir mais longe.

Quem estuda um aspecto específico da história da Expansão cedo reconhece que o mundo lá fora dá atenção a dois ou três aspectos e a pouco mais. Certo que Vasco da Gama e António Vieira são figuras de craveira mundial. Mas já muito poucos saberão quem foi Pedro Nunes ou o nónio. Dizer isto é reconhecer que o país é grande, mas à sua dimensão.

Então, será preciso um museu para mostrar quem foi Pedro Nunes? A pergunta pode ser respondida com uma outra: precisamos de um museu do Império Otomano ou da Expansão dinamarquesa? Precisamos de um museu do Império Britânico?

Pedir um museu da Expansão é pormo-nos exactamente ao nível dos que no passado tanto vangloriaram os Descobrimentos.

Os governos da monarquia liberal do século XIX, da República e do Estado Novo usaram os impérios como forma de se justificar perante os cidadãos. Seguramente foi o Estado Novo que mais o fez, com a Exposição do Mundo Português, em 1940, ou as comemorações henriquinas, em 1960. Queremos continuar nessa senda? A discussão do nome de um museu sobre este tema esconde esta questão. Faz o mesmo apenas mudando o nome.

O país precisa de um museu da História de Portugal. Um museu da presença no território que hoje é Portugal dos povos antigos, do Império Romano, das gentes muçulmanas, da reconquista cristã, da formação do Estado medieval e, claro, dos Descobrimentos e da Expansão. Precisa de um museu que mostre e explique a união dinástica com Espanha, a Restauração, o absolutismo, o liberalismo, a República, o Estado Novo, a democracia e o que somos hoje. Um museu que mostre as origens diversas de um país diverso num mundo diverso, de Viriato a Marco Paulo. Um museu de um período específico da história do país, escolhido por razões enraizadas num passado menos aberto, empobrece o país – e o próprio período que deveria enaltecer. E não seria alargando o âmbito do tema que o projecto melhoraria, pois do que não precisamos mesmo é de ver a história do país – e do mundo – através do binóculo da Expansão.

A teoria desta coisa tem uma tradução prática. Nunca haverá peças suficientes para um museu dos Descobrimentos ou da Expansão. Não há um número suficiente de objectos por aí espalhados à espera de serem reunidos. Não é uma triste realidade, é a realidade. Não há vestígios de uma única nau; o número de instrumentos de navegação é escasso; não há um espólio de Bartolomeu Dias, de Vasco da Gama ou de Pedro Nunes. Há cartas, documentos, pinturas e outras coisas, que faria sentido reunir. E há objectos que podem representar os mundos a que os navegadores e os comerciantes chegaram. Mas tudo isso não encherá um museu. Um museu da Expansão seria sempre um museu com mais ideias do que objectos, em que a ausência de materiais seria compensada por ideias, textos, conceitos. O mesmo não se aplica ao todo milenar que é a história de Portugal.

Todas as boas ideias já foram inventadas. Uma nação que já foi grande territorialmente, que já foi uma grande potência europeia, e que hoje é grande por aquilo que sabe fazer, a Dinamarca, tem o seu Museu de História Nacional. Exemplar, aliás. Com um museu da História de Portugal podíamos compreender os vários tempos históricos das pessoas e dos povos que viveram neste canto de Europa, e colocar os Descobrimentos e a Expansão no contexto nacional e internacional apropriado. Mas primeiro os conteúdos e depois o edifício, já que o país – sobretudo, Lisboa – já tem um número suficiente de obras de regime vazias, algumas feitas de propósito para serem “museus”.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Pedro Lains in Diário de Notícias

Se eu soubesse o que sei hoje… | Carlos Matos Gomes

No Notícias Magazine de hoje perguntaram a vários “capitães de Abril” o que teríamos feito de diferente se soubessemos o que sabemos hoje.

Eis aqui a minha resposta:

“Se eu soubesse o que sei hoje…

Teria feito o que fiz para acabar com a guerra colonial e derrubar a ditadura.
Teria tentado impor a mediação internacional, através da ONU, para conduzir o processo de transição para as independências das colónias.
Teria lutado com maior veemência pela instauração de um sistema político mais directamente ligado às pessoas e menos, muito menos, capturado pelos partidos. Com a criação, por exemplo, de uma segunda câmara.
Teria, no chamado PREC, empenhado-me mais numa aliança entre o grupo de militares ditos na altura e na classificação do tempo “do COPCON”, com o “Grupo dos Nove”, de modo a evitar o 25 de novembro, que esteve prestes a ser putchista e acabou por ser a imposição de um modelo padronizado de sistema democrático, de que a triste situação que hoje vivemos é fruto.
Ter-me-ia batido, mais do que fiz, para manter no domínio público empresas estratégicas fundamentais na área da energia, dos transportes, nas comunicações e no sector financeiro, nomeadamente com o reforço da Caixa Geral de Depósitos e de um Banco de Fomento de capitais públicos.
Teria dedicado maiores esforços na área da Justiça, impondo uma rigorosa seleção e avaliação dos magistrados e promovendo uma justiça orientada para as vítimas e não para os criminosos.
Teria estado mais atento aos fenómenos de corrupção e de nepotismo, com atenção especial às autarquias e ao que diz respeito ao ordenamento do território, para evitar fenómenos de “algarvisação”, de” litoralização “ e de desertificação do interior.
Teria tido uma especial às leis de imprensa, obrigando a clarificar a sua posse dos meios de comunicação social e favorecendo empresas constituídas por jornalistas.
Teria furado os pneus do carro que Cavaco Silva levou ao congresso do PSD da Figueira da Foz para fazer a rodagem.

Teria, por fim, promovido, a leitura de “A Arte de Furtar”, incluindo-o nos curriculas escolares, como de estudo obrigatório. 

Carlos Matos Gomes

Velas ou luz eléctrica? | Bárbara Reis in Jornal “Público”

Em vez de estar fechado à chave, o último relatório do Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios sobre o centro histórico do Porto devia ser debatido. Como é um documento interno, usa um tom directo e franco. E obriga-nos a pensar.

O debate sobre a descaracterização dos centros históricos faz lembrar George Orwell e o seu Politics and the English Language, um pequeno ensaio de 1946 sobre o “declínio da língua inglesa” e os “maus hábitos” da escrita. Num exemplo clássico de como começar um bom texto, o escritor diz-nos que “todo o combate contra o abuso da linguagem” é visto como um “arcaísmo sentimental, como preferir velas à luz eléctrica”.

Em Portugal estamos na mesma. Sempre que alguém diz que os centros históricos de Lisboa e do Porto correm o risco de se tornarem cenários artificiais para “turista ver”, os “progressistas” respondem uma destas três coisas: a transformação é inevitável, a Disneylândia é melhor do que o abandono e a nostalgia não pode travar o desenvolvimento.

Já foi assim com a política para os autocarros gigantes com que as agências de viagens entupiam a Baixa de Lisboa. Estava à vista de todos que os “muros com rodas” eram grandes de mais para as curvas do centro histórico e que prejudicavam o próprio objectivo do negócio: quando chegavam à Sé Catedral, os turistas viam o monumento nacional tapado pelo “muro” que os levara até lá. Durante anos, ouvimos que esse circuito turístico era “inevitável”, que sem isso a Sé ficaria vazia, que impedir o acesso dos autocarros era defender a Lisboa “do passado”. Na pior das hipóteses, éramos jurássicos; na melhor, pouco iluminados.

Em Agosto, o presidente da câmara, Fernando Medina, pôs um ponto final.

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Manuel Alegre | por Rodrigo Sousa e Castro

Durante anos a fio Manuel Alegre foi insultado e vilipendiado na praça pública com base numa falsidade que todos os saudosistas da ditadura propalaram.
O nosso Tribunal Supremo só agora repõe o seu bom nome e o desagrava.
É da mais elementar justiça divulgar este comunicado. [Rodrigo Sousa e Castro]

COMUNICADO

Negando o recurso interposto pelo Tenente Coronel Brandão Ferreira, o Tribunal Constitucional confirmou ontem, 12 de Abril, o Acórdão da Relação de Lisboa, que condenou aquele militar pela prática de crime de difamação e ao pagamento de indemnização a Manuel Alegre por ter imputado a este a prática de traição à Pátria.
O caso é paradigmático pois, de forma clara, fixa os limites da liberdade de expressão perante o direito à honra e ao bom nome, à luz da jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, no sentido de que é ilícita toda a imputação de factos falsos ainda que o visado seja uma figura pública.
Ao contrário do que foi afirmado por este saudosista militante do regime ditatorial do Estado Novo, Manuel Alegre cumpriu as suas obrigações militares, nomeadamente em Angola, como combatente, em zona de guerra.
Utilizou-se a mentira e a difamação para prejudicar a imagem de Manuel Alegre por altura da sua candidatura à Presidência da República.
Este tipo de calúnia lembra as práticas de perseguição e assassinato do carácter utilizadas pelo regime deposto em 25 de Abril de 1974 e demonstra uma total falta de respeito pelas regras da Democracia.
13 de abril de 2018

Manuel Alegre de Melo Duarte

Retirado do Facebook | Mural de Rodrigo Sousa e Castro

Migrant Mother in 1936

This image was taken by photographer Dorothy Lange during the Great Depression. She stumbled upon a camp in Hoboken where she searched through the crowds of starving workers until she found the lady in this image, Frances Owens. She took 6 images of Frances with her children, and you can really see from this image how a picture speaks a thousand words. You can see from her face the stress and worry that she faced. Dorothy Lange informed the authorities of the starving workers in the camp and they sent 20,000 pounds of food to them.

http://knowledgedish.com/rare-historical-photos-fb/3/ | Photo credit: Mashable

CREDO, elas são perigosas | Francisco Louçã in Jornal “Expresso”

Não é o único dos maiores escritores do nosso tempo que se comporta como um pateta, mas talvez Vargas Llosa seja particularmente exibido e insistente. Autor de livros magníficos como a “Conversa na Catedral” ou “A Guerra do Fim do Mundo” e tantos outros, Vargas Llosa teve sempre uma intervenção pública ativa: foi castrista, foi amigo e inimigo de Gabriel Garcia Marquez, redescobriu-se conservador. Mas foi recentemente que escolheu tornar-se protagonista: foi o candidato da direita à presidência do seu Peru natal, foi feito marquês por Juan Carlos I e as suas aventuras não terminaram aí, ainda há pouco andou pela Catalunha em prol do rei. Prémio Nobel da literatura em 2010, continuou a publicar e, já com os seus 80 anos, deu à estampa “Cinco Esquinas”, que deve ser o seu pior livro. A um grande escritor perdoa-se toda a escrita.

Talvez Llosa escusasse, no entanto, de perseguir fantasmas e ódios de estimação. Há duas semanas, levou para a sua coluna no El Pais um desses ódios, desta vez contra o feminismo. A acusação é tremenda: são as “Novas Inquisições”. Sentencia: “o feminismo é o inimigo mais feroz da literatura”, pior do que Trump e Putin, pior do que as religiões e ditaduras. Por causa do feminismo e nada menos do que o feminismo, a “literatura pode desaparecer”. Desaparecer? A literatura? O homem perdeu a cabeça, perguntará a leitora mais moderada? O feminismo vai terminar com a literatura? Acabam os livros, os poemas, o teatro, as conversas, a comunicação, a vida? Por força do feminismo, esse monstro tremendo cujas garras rasgam a Terra?

Sim, responde Vargas Llosa. Querem um exemplo? Ele tem um. É que a Gallimard tinha previsto publicar a obra completa de Céline e desistiu, porque incluiria textos antissemitas de um escritor monumental que foi partidário dos nazis. Só que esta recusa nada tem que ver o feminismo ou com as feministas, mas unicamente com o medo daquela editora de aparecer associada a um discurso de ódio. De passagem, Llosa cita outro caso, o de uma escritora que criticou o Lolita de Nabokov. Também é fraco exemplo pois, mesmo sendo uma narrativa sobre a pedofilia, pouco sentido fará sugerir-se a sua ocultação. A literatura, como toda a arte, deve ser livre de se exprimir em todas as facetas da vida e das opiniões humanas, porque não deveria estar sujeita a um critério de gosto, ou de preferência moral, ou de ensinamento público. A literatura é simplesmente o que os autores escrevem.

Só que nunca foi assim. O livro As Vinhas da Ira, de Steinbeck, foi proibido em alguns dos estados dos EUA ao mesmo tempo que John Ford fazia dele o filme que ganhou vários Óscares. Livros de Darwin e Sartre foram apreendidos sob Salazar, bem como Cardoso Pires, Ary dos Santos, Jorge de Sena ou Jorge Amado. Harry Potter foi proibido mais recentemente nos Emirados Árabes Unidos e Alice no País das Maravilhas já foi proibido na China. Lembra-se do CDS a manifestar-se na rua pela proibição do Je Vous Salue, Marie, de Godard? Culpa das mulheres e do feminismo? Olhe que não.

O que o feminismo tem questionado é a violência e a discriminação. Esse seu pulsar universalista contra a exclusão e o desprezo tem sido um dos contributos mais fecundos para a democratização dos tempos modernos. Por isso mesmo, a literatura que regista todas essas razões e emoções, as dos sequestradores da liberdade, as dos abusadores, as das vítimas, as da dignidade, todo esse caldo de vida humana é uma voz essencial para nos conhecermos. Vargas Llosa, cada vez mais perdido nos seus pequenos ódios e no medo pela outra, dá-nos aqui um magnífico exemplo de como podemos aprender com a fronteira escorregadia entre a arte e a vida. Ele, que gosta pouco da liberdade para os outros (e outras), tem um medo do feminismo e da voz das mulheres que é uma esplêndida homenagem do vício à virtude.

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Christianity as default is gone | the rise of a non-Christian Europe

Figures show a majority of young adults in 12 countries have no faith, with Czechs least religious

Europe’s march towards a post-Christian society has been starkly illustrated by research showing a majority of young people in a dozen countries do not follow a religion.

The survey of 16- to 29-year-olds found the Czech Republic is the least religious country in Europe, with 91% of that age group saying they have no religious affiliation. Between 70% and 80% of young adults in Estonia, Sweden and the Netherlands also categorise themselves as non-religious.

The most religious country is Poland, where 17% of young adults define themselves as non-religious, followed by Lithuania with 25%.

70% of young people in the UK identify with no religion
How 16- to 29-year-olds self-identify, %

In the UK, only 7% of young adults identify as Anglican, fewer than the 10% who categorise themselves as Catholic. Young Muslims, at 6%, are on the brink of overtaking those who consider themselves part of the country’s established church.

The figures are published in a report, Europe’s Young Adults and Religion, by Stephen Bullivant, a professor of theology and the sociology of religion at St Mary’s University in London. They are based on data from the European social survey 2014-16.

Religion was “moribund”, he said. “With some notable exceptions, young adults increasingly are not identifying with or practising religion.”

The trajectory was likely to become more marked. “Christianity as a default, as a norm, is gone, and probably gone for good – or at least for the next 100 years,” Bullivant said.

But there were significant variations, he said. “Countries that are next door to one another, with similar cultural backgrounds and histories, have wildly different religious profiles.”

59% of young people in the UK never attend religious services
Frequency of attendance, outside of special occasions, 16- to 29-year-olds

The two most religious countries, Poland and Lithuania, and the two least religious, the Czech Republic and Estonia, are post-communist states.

The trend of religious affiliation was repeated when young people were asked about religious practice. Only in Poland, Portugal and Ireland did more than 10% of young people say they attend services at least once a week.

In the Czech Republic, 70% said they never went to church or any other place of worship, and 80% said they never pray. In the UK, France, Belgium, Spain and the Netherlands, between 56% and 60% said they never go to church, and between 63% and 66% said they never pray.

Among those identifying as Catholic, there was wide variation in levels of commitment. More than 80% of young Poles say they are Catholic, with about half going to mass at least once a week. In Lithuania, where 70% of young adults say they are Catholic, only 5% go to mass weekly.

Nearly two-thirds of young people in the UK never pray
Frequency of prayer, outside of religious services, 16- to 29-year-olds

According to Bullivant, many young Europeans “will have been baptised and then never darken the door of a church again. Cultural religious identities just aren’t being passed on from parents to children. It just washes straight off them.”

The figures for the UK were partly explained by high immigration, he added. “One in five Catholics in the UK were not born in the UK.

“And we know the Muslim birthrate is higher than the general population, and they have much higher [religious] retention rates.”

In Ireland, there has been a significant decline in religiosity over the past 30 years, “but compared to anywhere else in western Europe, it still looks pretty religious”, Bullivant said.

“The new default setting is ‘no religion’, and the few who are religious see themselves as swimming against the tide,” he said.

“In 20 or 30 years’ time, mainstream churches will be smaller, but the few people left will be highly committed.”

VER GRÁFICOS AQUI:

https://www.theguardian.com/world/2018/mar/21/christianity-non-christian-europe-young-people-survey-religion?CMP=share_btn_fb

Poema | INVICTUS | William Ernest Henley | Poema de Inspiração de Nelson Mandela in Revista Pazes

Willian Ernest Henley, ao escrever o poema abaixo, jamais sonharia que os seus versos poderiam inspirar um homem com grandeza de Nelson Mandela a suportar, por vinte e sete anos, o cativeiro, condenado por sua luta contra o apartheid.

INVICTUS

William Ernest Henley

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

——

INVICTO

William Ernest Henley

Da noite escura que me cobre,
Como uma cova de lado a lado,
Agradeço a todos os deuses
A minha alma invencível.

Nas garras ardis das circunstâncias,
Não titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortúnio
Minha cabeça sangra, ainda erguida.

Além deste vale de ira e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaçadores,
Encontram-me sempre destemido.

Não importa quão estreita a passagem,
Quantas punições ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.

Declamado por Alan Bates – 2 vídeos – em inglês sem e com tradução – ver ambos

https://www.revistapazes.com/invictus-o-poema-que-inspirou-nelson-mandela-em-seus-27-anos-de-de-prisao/

Afrin | para Hussein Habasch – Kurdish Poet | por Maria João Cantinho

Afrin

Para Hussein Habasch

Dizem que o pesadelo dos soldados do Estado Islâmico
é ser morto por uma mulher,
dizem que não terão as 72 virgens
nesse paraíso sonhado que os espera.

E elas, peshmerga, enfrentando a morte,
olhos de tigre, saltam-lhes ao caminho como demónios
livres e sem véus, implacáveis,
elas que, no amor e nos filhos, respiram a ternura
e a salvação.

Ceylan matou-se com a última bala de que dispunha,
talvez tivesse tido medo nessa hora,
mas o tempo não é para medos nem delongas
e Ceylan também não sabe ser heroína
que isso é para as ocidentais plasmadas
No tédio das suas vidas vazias,
entregues à contemplação de miragens,
criadas pelos que vendem a morte
em longínquas paragens.

Arin fez-se explodir, para não cair em mãos inimigas,
O seu corpo matou tantos quanto pôde,
em nome de um povo, que só na alma e no coração
conhece a sua pátria, ardendo
no olhar das suas crianças, quietas,
à espera do futuro, que silva entre as balas
e o sangue, as vísceras dos seus mortos.

Em Afrin, só a morte canta,
só ela floresce, petrificando,
diante da nossa indiferença gelada, muda.

Maria João Cantinho

Retirado do Facebook | Mural de Maria Cantinho

Onésimo Teotónio Almeida | designado pelo Presidente da República para presidir às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas | por Nuno Costa Santos

Ao saber que Onésimo Teotónio Almeida foi designado pelo Presidente da República para presidir às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, sinto de imediato tratar-se de um gesto naturalíssimo, da mais inteira justiça. Se há alguém que tem pensado Portugal de um modo original e persistente é o autor de “Rio Atlântico” e “Viagens na Minha Era”. Não é que, depois de uma vida académica intensa, com continuada produção intelectual e um reconhecimento crescente por cá (demorou mas chegou), precisasse disso. Mas é justo e faz sentido.

“A Obsessão da Portugalidade”, o seu último livro, ajuda-nos a perceber o que somos e como nos pensamos – em várias tradições. Faz críticas e elogios e um dos elogios maiores vai para Eduardo Lourenço, entretanto destratado por alguns elementos das ciências sociais, que vê como um pensador de síntese, de grande poder intuitivo, situado entre “o sentimento” de Pascoaes e “a razão” de António Sérgio.

Inspirado em Lourenço defende, nesse mesmo livro, algo elementar mas pouco formulado: a única coisa que une os portugueses é Portugal. E que cada português constrói Portugal à sua maneira, para além de quaisquer constrangimentos impostos – sem que isso apague um sentimento de pertença que de quando em quando emerge.

Sente-se que Onésimo, aos 71 anos, está mais apaziguado com um certo Portugal. E que, apesar de manter as críticas ao vícios nacionais, como o de se falar muito e se fazer pouco, como o de ser impossível debater aqui sem descambar no insulto, como o de nos mantermos deslumbrados com termos estrangeiros e modalidades fáceis de tratar o turismo, vê uma nova abertura no país, o fim de um longo período de oco e vaidoso ensimesmamento.

O país que valoriza também é o país dos pequenos territórios, das regiões, das localidades, das pequenas cidades e vilas. Os lugares onde se vive e os lugares de onde se veio. Disse, em entrevista: por muito que se queira ser global, “a ligação à terra em que se vive, mas sobretudo aquela em que se passam os anos formativos da vida, acaba por emoldurar um pano de fundo que afeta, mais ou menos intensamente, os seres humanos para toda a sua vida”. E isso em Onésimo acontece com Portugal, em geral, e com os Açores, em particular.
(Uma nota, por fim. Dado o sentido de humor de Marcelo e Onésimo, imagino que os serões pós-cerimónia merecerão ser depois consagrados em livro. Já deverá haver movimentações editoriais).

Nuno Costa Santos

Retirado do Facebook | Mural de Nuno Costa Santos

 

combien vous vendez les oeufs ?

Elle a demandé : ” combien vous vendez les oeufs ?”
Le vieux vendeur a répondu : 5 Da l’oeuf, madame “.
Elle a dit : “je vais prendre 6 oeufs pour 25 Da- ou je pars”.
Le vieux vendeur a répondu : ” venez les prendre au prix que vous souhaitez. Peut-être, c’est un bon début parce que je n’ai pas pu vendre un seul oeuf aujourd’hui “.

Elle a prit les oeufs et s’est écartée de la sensation qu’elle a gagné. Elle est entrée dans sa voiture élégante et est allée dans un restaurant élégant avec son amie. Elle et son amie ont demandé ce qu’elles voulaient. Elles ont mangé un peu et ont laissé beaucoup de ce qu’elles ont demandé. Alors elle a payé l’addition. Le compte coûtait 4000Da/ -. elle a donné 5000Da / – et a demandé au propriétaire du restaurant de garder la monnaie….

Cet incident pourrait avoir semblé assez normal au propriétaire, mais très douloureux pour le vendeur d’œufs pauvre..

Le but est,
Pourquoi avons-nous toujours montré que nous avons le pouvoir quand nous achetons des nécessiteux ? Et pourquoi sommes-nous généreux avec ceux qui n’ont même pas besoin de notre générosité ?

Une fois j’ai lu quelque part :

” mon père avait l’habitude d’acheter des biens simples de pauvres à des prix élevés, même s’il n’avait pas besoin d’eux. Parfois, il payait plus pour eux. J’étais inquiet pour cet acte et je lui ai demandé pourquoi il fait ça ? Alors mon père répondit : “C’ est une charité enveloppée dans la dignité, mon fils”

REPENSAR O SUPREMATISMO ARCAIZANTE E DESPÓTICO | José Gabriel Pereira Bastos

O ‘pensamento ocidental’ academizado é Imperialista (alinha como ‘sua história’ uma longa história de Impérios, do binómio Grécia-Roma aos Impérios Ibéricos, franceses (napoleónicos), russos e anglo-americanos, listando as tentativas falhadas do eixo italo-germano (herdeiro do Sacro Império), Otomano, Austro-húngaro,e Japonês.

No Ensino Academizado (oficioso), esta compulsão à repetição está associada ao ensino combinado da filosofia, da teologia, do direito e da história – e, mais recentemente, da ‘ciência política’, e das ‘Ciências da Gestão’, inventadas pelos Americanos, à saída da Primeira e da segunda Guerras Mundiais -, seis não-ciências, entre si articuladas (na verdade, são apenas uma, a Grande Não-Ciência Retórica do Suprematismo, da Dominação Exploradora e do Roubo Legalizado), ideologicamente orientadas para promover o Suprematismo arcaizante, com os seus valores sexistas, racistas, retoricamente intelectualistas,,coloniais, classistas e Imperialistas, ao serviço da acumulação militar de tesouros, territórios, recursos e escravos (ou trabalhadores precários), da putificação das mulheres excedentárias (as não-esposas) e da promoção dos empobrecimentos e dos genocídios convenientes.

O Suprematismo é Fálico, empola fantasmaticamente a Ìmago Paterna Divinizada (o Deus Único, Útero Infinito do qual tudoo que existe saíu, no Big Bang Genesíaco e Grande Phallus celeste, fecundador de Maria), colocada em perigo pelo Édipo e pelos Revolucionários, heróis dramáticos da Grande Luta Fálica entre “o Bem e o Mal” (quem é quem, o Diabo que escolha, porque “quem se lixa é o mexilhão”, a começar pelas mulheres, pelos trabalhadores precários, pelos ‘desempregados’ e pelos étnicos).

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Projet de Biennale littéraire Algérie / Portugal | Carlos Matos Gomes ( Traduction française )

Nous avons informé Carlos Matos Gomes de l’idée, encore en cours de développement, d’une Biennale littéraire entre l’Algérie et le Portugal. En réponse, nous avons reçu un soutien enthousiaste qu’il avait l’intention de transmettre avec le texte que nous avons pris la liberté de publier. Dans une approche historique succincte, claire et brillante, elle justifie cette « rencontre » de deux peuples amis, réunissant des intellectuels algériens et portugais, des femmes et des hommes de culture des deux pays, des écrivains, des poètes et des historiens. Essayons !

(vítor coelho da silva)

——

Les relations séculaires entre le Portugal, la péninsule ouest et du Maghreb, sont connues historiquement. Ce sont de très fortes relations culturelles entre ces deux régions, les rives de la Méditerranée, la langue de la poésie et de la littérature en général, de la science aux arts et aux sciences. Mais comme ces relations sont si anciennes et si profondes, elles sont également présentes et essentielles pour les peuples de la Méditerranée occidentale, en l’occurrence les Portugais et les Algériens.

Nous partageons les préoccupations de nos peuples, avec leur développement dans le respect de leurs idiosyncrasies culturelles, avec la paix et la liberté, avec des équilibres régionaux, avec des mouvements démographiques et migratoires. Nous partageons les espoirs et les risques.

La culture, sous tous ses aspects, est peut-être le moyen le plus facile et le plus amical de promouvoir des relations harmonieuses entre les peuples. Grâce à la culture, nous pouvons aborder toutes les différences et trouver les meilleurs domaines de compréhension.

Ces derniers temps, les changements provoqués par l’issue de la Seconde Guerre mondiale ont eu un impact décisif sur l’histoire de l’Algérie et du Portugal. Dans son discours au Cap, les vents de changement prononcés par le Premier Ministre anglais, Harold Macmillan, ont apporté avec eux le mouvement décolonisant. Pour l’Algérie ces temps nouveaux signifiaient la lutte pour l’indépendance de la France, réalisée à travers une guerre de grande violence, d’un nouveau type, la guerre subversive. L’Algérie serait le tour confortable de la guérilla et les dirigeants politiques des mouvements d’indépendance des colonies portugaises, et la base de quelques dirigeants en Afrique qui, par le refus du gouvernement de la dictature portugaise de Salazar, ont dû se battre pour leur libération du colonialisme. Mais ce serait également le port de l’abri des opposants et des démocrates portugais qui, en Algérie, ont combattu la dictature coloniale.

Pour la littérature portugaise avec des références à la guerre coloniale, au colonialisme et à la décolonisation, le lien avec l’Algérie prend tout son sens. Après tout, c’était en Algérie que la guérilla des mouvements indépendantistes s’est formée – PAIGC, le FRELIMO, le MPLA, qui les ont servis de matière première pour leurs œuvres. C’était en Algérie que les théories de la guérilla et contre-guérilla ont été développées. C’était Algérie qu’en grande partie la politisation de l’armée portugaise est développée.  C’est ainsi que le 25 avril 1974, avec la Révolution des Œillets, a renversé la dictature et a promu la décolonisation. Également, l’Algérie a été la terre des exilés de l’opposition portugaise comme le général Humberto Delgado, la grande figure de l’opposition à la dictature, Manuel Alegre, ainsi que combattant de la liberté, journaliste à Radio Alger, Voix de la Liberté, un écrivain et poète du mérite, Fernando Piteira Santos, historien et journaliste, parmi tant d’autres. Mais encore celle des intellectuels des anciennes colonies et leaders politiques comme Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Viriato da Cruz  ou Aquino de Bragança.

C’est également en Algérie où se sont déroulés les échanges des prisonniers portugais remis par les mouvements à la Croix-Rouge internationale et les pourparlers de reconnaissance de l’indépendance de la Guinée-Bissau.

En bref, l’Algérie est le point nodal des combattants de la liberté, les intellectuels qui combinent la pensée, la culture et l’action pour atteindre les objectifs de la liberté et le respect de la dignité des peuples, écrivains de la littérature portugaise, de la fiction et de la recherche historique de la seconde moitié du XXème siècle.

Il est logique de réunir aujourd’hui des intellectuels portugais et algériens, des hommes et des femmes de la culture des deux pays, des écrivains, des poètes, des historiens pour relancer les relations entre ces deux peuples amis.

Il est donc possible de faire cette rencontre de bonne volonté pour le bien du Portugal et l’Algérie.

Cordialement

Carlos Matos Gomes

Não, o país não lhe deve nada | João Duarte Silva

“O país deve um agradecimento a Passos Coelho” | Jorge Moreira da Silva, ex-ministro do Ambiente e actual director-geral de Desenvolvimento e Cooperação da OCDE, militante do PPD/PSD.

Não, o país não lhe deve nada. 
E para ilustrar a minha opinião, volto a colocar um texto que escrevi, imediatamente a seguir à “ida” do governo Passos Coelho/Paulo Portas:

UM GOVERNO INDIGENTE

Chegou ao fim o mais indigente, indecente, miserável, cobarde e ignóbil governo alguma vez existente em Portugal, considerando mesmo os governos de antes de Abril de 1974, uma vez que nem Salazar nem Marcelo Caetano tomaram alguma vez, medidas tão lesivas, e atentatórias à dignidade do povo como Passos Coelho e Paulo Portas tomaram.

Tendo como alibi o memorando assinado com a Troika, o governo de Passos Coelho e Paulo Portas alimentou-se convenientemente das ideias neoliberalistas europeias ( de clara e evidente inspiração Alemã) que paulatinamente foi colocando em práctica, através de um senso comum conservador , implementando primeiro, um fascismo politico que meticulosamente e criteriosamente, foi substituindo depois por um fascismo social.
A dispensa e subversão de quaisquer ideais democráticos, foi total e completa. A ética politica, já de si muito debilitada, acabou por ser completamente aniquilada.
Fazendo da austeridade a regra de vivência principal, pior ainda, transformando a austeridade numa ideologia politica, o governo de Passos Coelho e Paulo Portas subverteu a sociabilidade humana, matou a noção de comunidade, destruiu o elo humano que ligava os cidadãos, e promoveu uma perfeita selvajaria social.

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Há metafísica bastante em não pensar em nada | Alberto Caeiro

O que penso eu do mundo? 
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados
das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro

Retirado do Facebook |  Mural de Sónia Soares Coelho 

«Un porc, tu nais ?» | Leïla Slimani, Ecrivaine, prix Goncourt 2016 in Libération

La romancière Leïla Slimani, Prix Goncourt 2016, affirme n’être ni «une petite chose fragile», ni «une victime». Et réclame «le droit de ne pas être importunée», sa liberté.

Marcher dans la rue. Prendre le métro le soir. Mettre une minijupe, un décolleté et de hauts talons. Danser seule au milieu de la piste. Me maquiller comme un camion volé. Prendre un taxi en étant un peu ivre. M’allonger dans l’herbe à moitié dénudée. Faire du stop. Monter dans un Noctambus. Voyager seule. Boire seule un verre en terrasse. Courir sur un chemin désert. Attendre sur un banc. Draguer un homme, changer d’avis et passer mon chemin. Me fondre dans la foule du RER. Travailler la nuit. Allaiter mon enfant en public. Réclamer une augmentation. Dans ces moments de la vie, quotidiens et banals, je réclame le droit de ne pas être importunée. Le droit de ne même pas y penser. Je revendique ma liberté à ce qu’on ne commente pas mon attitude, mes vêtements, ma démarche, la forme de mes fesses, la taille de mes seins. Je revendique mon droit à la tranquillité, à la solitude, le droit de m’avancer sans avoir peur. Je ne veux pas seulement d’une liberté intérieure. Je veux la liberté de vivre dehors, à l’air libre, dans un monde qui est aussi un peu à moi.

Je ne suis pas une petite chose fragile. Je ne réclame pas d’être protégée mais de faire valoir mes droits à la sécurité et au respect. Et les hommes ne sont pas, loin s’en faut, tous des porcs. Combien sont-ils, ces dernières semaines, à m’avoir éblouie, étonnée, ravie, par leur capacité à comprendre ce qui est en train de se jouer ? A m’avoir bouleversée par leur volonté de ne plus être complice, de changer le monde, de se libérer, eux aussi, de ces comportements ? Car au fond se cache, derrière cette soi-disant liberté d’importuner, une vision terriblement déterministe du masculin : «un porc, tu nais». Les hommes qui m’entourent rougissent et s’insurgent de ceux qui m’insultent. De ceux qui éjaculent sur mon manteau à huit heures du matin. Du patron qui me fait comprendre à quoi je devrais mon avancement. Du professeur qui échange une pipe contre un stage. Du passant qui me demande si «je baise» et finit par me traiter de «salope». Les hommes que je connais sont écœurés par cette vision rétrograde de la virilité. Mon fils sera, je l’espère, un homme libre. Libre, non pas d’importuner, mais libre de se définir autrement que comme un prédateur habité par des pulsions incontrôlables. Un homme qui sait séduire par les mille façons merveilleuses qu’ont les hommes de nous séduire.

Je ne suis pas une victime. Mais des millions de femmes le sont. C’est un fait et non un jugement moral ou une essentialisation des femmes. Et en moi, palpite la peur de toutes celles qui, dans les rues de milliers de villes du monde, marchent la tête baissée. Celles qu’on suit, qu’on harcèle, qu’on viole, qu’on insulte, qu’on traite comme des intruses dans les espaces publics. En moi résonne le cri de celles qui se terrent, qui ont honte, des parias qu’on jette à la rue parce qu’elles sont déshonorées. De celles qu’on cache sous de longs voiles noirs parce que leurs corps seraient une invitation à être importunée. Dans les rues du Caire, de New Delhi, de Lima, de Mossoul, de Kinshasa, de Casablanca, les femmes qui marchent s’inquiètent-elles de la disparition de la séduction et de la galanterie ? Ont-elles le droit, elles, de séduire, de choisir, d’importuner ?

J’espère qu’un jour ma fille marchera la nuit dans la rue, en minijupe et en décolleté, qu’elle fera seule le tour du monde, qu’elle prendra le métro à minuit sans avoir peur, sans même y penser. Le monde dans lequel elle vivra alors ne sera pas un monde puritain. Ce sera, j’en suis certaine, un monde plus juste, où l’espace de l’amour, de la jouissance, des jeux de la séduction ne seront que plus beaux et plus amples. A un point qu’on n’imagine même pas encore.

Leïla Slimani

Palestine | Malika Mellal

Palestine

Trois millénaires de confessions
Tu gardes le sceau des religions
Bénédiction de toutes les terres
De toutes patries tu es la mère
Chère Palestine bénie de Dieu
De toutes croyances tu es le lieu
Théâtre des miracles divins
Ton histoire enseigne le bien
Terre des livres et des prophètes
Terre convoitée et si parfaite
Chère Palestine bénie de Dieu
Sur ta terre les hommes ont mis le feu
Sans se soucier des Ecrits de Dieu
Des sacrilèges des plus odieux
Les enfants tués en sont de ceux
Il faudra bien rendre des comptes
Terre profanée par tant de honte
Du sang d’innocents qui coule sans fin
Un peuple exterminé pour ses biens
L’homme qui imagine n’y être pour rien
N’a jamais cru au sacre divin
Palestine terre de tous les liens
Sonnera un jour l’heure de la fin
Une terre sainte ne peut être souillée
Sans que Dieu ne le fasse payer
À tous ces enfants valeureux
Que l’on empêche d’être heureux
Bientôt viendra la fin du malheur
Et plus jamais vous n’aurez peur
Dieu est grand et omniscient
La libération est un divin serment.

Malika Mellal 25/12/2017

Retirado do Facebook | Mural de Malika Mellal 

 

Regulamento interno do Colégio La Salle de Abrantes

1º) O espírito lassalista deverá estar presente em tudo o que fazemos. Nunca nos devemos esquecer da nossa identidade própria.

2º) Em tudo o que fazemos, devemos cultivar a justiça, a oração e o serviço aos outros.

3º) Todas as pessoas da nossa comunidade educativa, devem respeitar-se mutuamente tornando a nossa escola um lugar ideal para trabalhar.

4º) Todos devem ajudar a criar um ambiente de inter-ajuda, propiciando uma boa aprendizagem.

5º) Todos têm direito à diferença. Os dons especiais de cada um devem ser encorajados e valorizados para o bem de todos. Devemos trabalhar e partilhar juntos.

6º) Todos têm direito à segurança. Ninguém deve ter medo de ser ameaçado ou importunado. Ninguém deve ter receio de correr riscos, de ser diferente ou de ser sincero.

7º) O auto e hetero encorajamento para a rentabilização das nossas capacidades são essenciais. A existência de uma variedade de temas e de actividades é necessária à realização pessoal.

8º) A atenção vigilante é importante para que nos momentos de crise nos sintamos confiantes a partilhar as angústias ou problemas com uma pessoa de confiança.

9º) Todos devemos saber perdoar e esquecer. Todos merecemos uma segunda oportunidade.

10º) Na nossa escola, as pessoas deverão aprender tanto com os seus êxitos como com os fracassos. Isto permite o crescimento pessoal.

Argel 01 Dezembro de 2017