De Roma | João Soares

“Quatro homens e uma mulher, católicos, estão num café, em Roma.

Diz o primeiro homem:

O meu filho é Padre e quando ele chega a um local público tratam-no por «Padre».

Diz o segundo homem:

O meu filho é Bispo e quando ele chega a um local  público tratam-no por «Sua Graça».

Diz o terceiro homem:

O meu filho é Cardeal. Quando ele chega a um local público todos inclinam a cabeça e tratam-no por «Sua Eminência».

Diz o quarto homem, orgulhosamente:

O meu filho é o Papa. Quando ele chega a um local público tratam-no por «Sua Santidade».

Como a única mulher continua a saborear o café em silêncio, os quatro homens dirigem-se a ela com um subtil:

– Então…?

E ela, orgulhosamente, responde:

Eu tenho uma filha, alta e elegante, 85 de busto, 65 de cintura, 82 de ancas, e … quando ela chega a um local público todos exclamam: ”Meu Deus!”

Retirado do Facebook | Mural de João Soares

Duelo | o jogo viciado | Carlos Matos Gomes

Miyamoto Musashi e Sasaki Kojiro eram dois espadachins japoneses que se encontraram para um duelo final. Musashi fora escolhido para ganhar. Quando chegou foi rapidamente atacado por Kojiro, num movimento chamado Corte de Andorinha. No entanto, alguém de fora, antes de Kojiro atingir Musashi, desferiu-lhe um golpe sorrateiro que o matou. Os apoiantes de Kojiro indignaram-se, mas Musashi regressou ao seu barco e os organizadores recolheram o dinheiro das apostas. (História de um duelo no Japão sec XVII)

Os duelos são tão antigos como a humanidade e a nossa cultura, grega, assenta em duelos de deuses. Cada fação escolhia um deus/campeão e eles lutavam entre si. O vencedor matava o adversário e subjugava os seus apoiantes. Já existia a política espetáculo. O povo divertia-se, aplaudia o campeão, o imperador colocava-lhe uma coroa de louros e ia sentar-se, fortalecido, no trono! Ninguém lhe perguntava pelos atos do seu governo.

O que estamos a viver aqui em Portugal, como nos Estados Unidos, ou em França, ou no Brasil são adaptações viciadas do duelo e da política espetáculo. Agora, em vez da vitória ser a morte do adversário, (KO), foi criado o conceito de vitória por pontos. Esta tem várias vantagens, a menor é que os contendores derrotados podem ser reutilizados noutros espetáculos, a maior é que o organizador do duelo pode determinar o resultado, escolher o vencedor. Entretanto: o pagode entretém-se a discutir quem foi o vencedor e não vencedor de quê, ou porquê. 

É esta a principal caraterística dos atuais duelos espetáculo: o empresário escolhe o vencedor e leva o povo a esquecer-se do que lhes propõem com a vitória! Os empresários são os patrões das televisões e as empresas clientes para a publicidade.

O resultado de qualquer debate é decidido por eles à partida e segundo as conveniências dos organizadores. O povo discute os vencedores nas tabernas, nos templos, nos barbeiros e até na rua!

Num duelo televisivo (político, de talentos, ou de orgias) o segredo está em dar uma aparência de seriedade à “coisa”. É o papel dos jurados, no momento do duelo e dos comentadores e dos figurantes que fazem o pretenso contraditório nos tempos a seguir, do off side.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

O verdadeiro papel da educação | Edgar Morin

“A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.”

O filósofo francês Edgar Morin fala sobre um dos temas que o tornou uma influência mundial, a educação. Morin fala sobre a necessidade de estimular o questionamento das crianças, sobre reforma no ensino e sobre a importância da reflexão filosófica não tanto para que respostas sejam encontradas, mas para fomentar a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos. Leia abaixo:

O senhor costuma comparar o nosso planeta a uma nave espacial, em que a economia, a ciência, a tecnologia e a política seriam os motores, que atualmente estão danificados. Qual o papel da educação nessa espaçonave?
Ela teria a função de trazer a compreensão e fazer as ligações necessárias para esse sistema funcionar bem. Uso o verbo no condicional porque acho que ela ainda não desempenha esse papel. O problema é que nessa nave os relacionamentos são muito ruins. Desde o convívio entre pais e filhos, cheio de brigas, até as relações internacionais — basta ver o número de guerras que temos. Por isso é preciso lutar para a melhoria dessas relações.

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DEBATE ANTÓNIO COSTA – RUI RIO | 5 ASPECTOS | por António Carlos Cortez

1. Costa esteve melhor, pois conhece os dossiers e tem experiência governativa desde 1995. Em três ocasiões foi incisivo: quando confrontou Rio com declarações suas sobre o salário mínimo, que Rio disse ser erro gravíssimo; quando desmentiu Rui Rio mostrando a manchete do Expresso de Setembro de 2015, por ocasião do que o PS faria caso nas eleições a direita fosse minoritária; quando desmascarou Rio relativamente ao que, no programa do PSD, é o ataque à classe média a respeito do fim do serviço tendencialmente gratuito do SNS e que Rio quer ver mais nas mãos dos privados;

2. Costa mostrou-se sereno e Rio sempre um pouco mais histérico. Com certa ironia, Costa desmontou falácias do líder do PSD, como por exemplo a que diz respeito à TAP. A TAP não foi nacionalizada, como disse Rio, a TAP foi (e bem) salva pelo Estado e a empresa Barraqueiro, uma vez que 50% da TAP ficou nas mais desses dois accionistas;

3. Costa foi claro a respeito do que será o seu futuro político caso não tenha maioria. Vincou por 4 vezes a ideia: “Eu não viro as costas a Portugal”.

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Expresso | Assange | Rui Pinto | Os resultados da ausência de princípios | por Carlos Matos Gomes

Comprei ontem, dia 7 de Janeiro, o Expresso. Sou um leitor pouco frequente do Expresso, que se tornou um jornal de fação partidária em termos políticos nacionais, alinhado e acrítico em termos internacionais e culturalmente baloiçando entre o conservadorismo popular e o experimentalismo radical. Reconheço, no entanto, o papel importante do Expresso na formação de uma opinião pública e na liberdade de imprensa ao longo da nossa história recente.

Como considero essencial a existência de liberdade de imprensa e de informação entendi que devia ter esse pequeno gesto individual de solidariedade com o Expresso e o grupo Impresa no momento em que sofreram um ataque informático que colocou e coloca em causa a liberdade de informação. Compraria o Correio da Manhã se o ataque tivesse sido ao grupo Cofina.

É aqui que entram os princípios. Muitos órgãos de comunicação social, para não dizer todos, embarcaram numa euforia lucrativa com o acesso ao resultado da pirataria informática — um ataque cibernético — cometida pelo «Hacker» Rui Pinto — ataque que foi dirigido contra clubes de futebol, órgãos da administração pública, incluindo a justiça.

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O Doutor comenta os debates | Jovem Conservador de Direita

O primeiro debate de hoje foi entre o partido conhecido por defender os direitos dos animais e o partido que defende os direitos dos investidores bolsistas, que também são animais, mas com a diferença de que criam riqueza. Enquanto uma hiena não for capaz de investir em criptomoedas, é óbvio que vou estar do lado da IL.

O ambiente foi um dos principais temas do debate. O PAN apresentou a posição irracional de fazer alguma coisa para reverter as alterações climáticas. Teria maior apoio se fosse mais moderado. Ser totalmente contra as alterações climáticas é muito radical. Tem de ser mais centrista nesse assunto.

Felizmente estava lá o Dr. Cotrim Figueiredo, com a sua racionalidade, a afirmar que não se pode salvar o ambiente à custa da actividade económica. Há que ter noção das prioridades. Uma coisa é haver alterações climáticas, outra coisa é o Estado intervir para tratar desse problema. A IL não abdica dos seus princípios, intervenção estatal nunca. Se foi a mão humana a destruir o ambiente não deverá ser a mão humana a salvar o planeta. É só ver os índices de mercado e fazer uma análise SWOT do impacto da sobrevivência da Humanidade na economia.

Segundo o Dr. Cotrim Figueiredo, “enriquecer Portugal é uma boa política ambiental”. É verdade, sem tantos pobres a cheirar mal o ambiente fica melhor. O enriquecimento é o febreze da sociedade e não há melhor política ambiental do que baixar os impostos às pessoas para que elas possam investir em desodorizantes.

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2022 | António Carlos Cortez

– ameaça de guerra na Ucrânia

– conflito entre China e EUA por causa de Taiwan

– desastre humanitário no Iémen

– multiplicação dos eventos climáticos extremos

– Índia e China não cumprem na íntegra o protocolo de Quioto

– continuação de ataques terroristas

– continuação de crimes com armas de fogo em estabelecimentos de ensino, seja nos EUA, na Rússia ou em França

– ameaça da extrema-direita vir a ser poder em França

– ameaça de guerra no médio-oriente devido às tensões sobre o nuclear no irão e a questão israelo-palestiniana

– em África o perigo de fome de proporções bíblicas, da Etiópia à Eritreia, do Níger à Somália milhões poderão morrer

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A decadência do SNS é uma estratégia económica | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

O acidente do Hospital de S. João é um acidente. Terrível, um morto e vários feridos, mas nada sugere que houvesse como evitar algum comportamento problemático que tenha provocado o incêndio. Saber-se-à se o serviço tinha um atendimento adequado para acompanhar os doentes internados, em particular os que possam não seguir regras de proteção, e como é que o serviço reagiu à emergência, no que parece ter sido rápido. Em qualquer circunstância, o conselho de administração do hospital, merecidamente elogiado pelo bom desempenho durante a pandemia e pela inauguração da ala pediátrica, decidiu demitir-se, numa atitude digna, é sua a responsabilidade última pelo hospital. Fê-lo no tempo próprio, contrastando com o exemplo recente de um ministro, coisas do governo.

 O que não é acidente é o tormento que vivem os serviços de saúde. É o resultado de uma incapacidade reforçada por uma estratégia. O governo desistiu de um SNS que garante a universalidade e a qualidade do acesso à saúde e dá por certo que o setor privado determinará a nossa vida.

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FELIZ NATAL | 24.12.2021

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
– Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa… em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

FLORBELA ESPANCA

Se lhe oferecem uma magia antissistema, desconfie | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

A frase trumpista de Rui Rio pode resultar simplesmente de uma sobre-representação num mundo em que não há coincidências mas sobram poses, ou pode até constituir uma revelação da sua metade obscura, o indizível de uma apetência radical, ambas as interpretações correram ontem pela tinta das gazetas e das redes sociais. Tudo ligeiramente ridículo: a “América grande” era o discurso imperial na maior potência militar e financeira do mundo, ao passo que a promessa de “Portugal grande” é assim um arremedo de coisa pouca, sem projeto económico que não seja a obediência a Bruxelas e, quando muito, a Frankfurt. Em qualquer caso, foi o suficiente para Ventura se entusiasmar: “Rui Rio aproximou-se mais do discurso antissistema – aliás ele próprio usou a expressão antissistema – do que fez durante todo o seu mandato”, disse o chefe da extrema direita, para depois concluir que “já temos um caminho para andar. Agora, vamos ver se andamos ou se não andamos”. Andando por aí fora, “Rui Rio pode ter dado o primeiro passo para conseguirmos um governo de direita em Portugal”, concluiu ele, com um brilhozinho nos olhos.

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Para o centro, direita volver | Francisco Louçã in Jornal Expresso

E, pronto, Rui Rio arrasou as previsões, o aparelho e as conveniências do seu principal opositor externo, o primeiro-ministro. Fica assim definido o quadro das eleições de janeiro, com um PSD a procurar somar votos do centro por via da polarização à direita, com o PS a procurar votos de centro usando a guerra contra as esquerdas, que procuram impedir aquele salto para o bloco central, com o PAN a oferecer-se tanto ao PS quanto ao PSD e com o CDS a lutar pela sobrevivência face ao Chega, que insinua um convite a Telmo Correia. Tudo no seu lugar, mas ainda sobram algumas incógnitas.

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O homem Massa | Günther Anders | ′′ A obsolescência do homem ′′ 1956 | via Manuel Tavares

Foi em 1956 que o filósofo judeu alemão Günther Anders escreveu essa reflexão premonitória:

′′ Para sufocar antecipadamente qualquer revolta, não deve ser feito de forma violenta. Métodos arcaicos como os de Hitler estão claramente ultrapassados. Basta criar um condicionamento coletivo tão poderoso que a própria ideia de revolta já nem virá à mente dos homens. O ideal seria formatar os indivíduos desde o nascimento limitando suas habilidades biológicas inatas…

Em seguida, o acondicionamento continuará reduzindo drásticamente o nível e a qualidade da educação, reduzindo-a para uma forma de inserção profissional. Um indivíduo inculto tem apenas um horizonte de pensamento limitado e quanto mais seu pensamento está limitado a preocupações materiais, medíocres, menos ele pode se revoltar.

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O 25 de Novembro e a sua novembreza | Carlos Matos Gomes

Escrevi há poucos dias um texto sobre o evento de apresentação do franchising português da CNN, realizado no edifício dos Jerónimos, na parte ocupada pelo Museu Arqueológico. Considero que os monumentos nacionais, evocadores do passado, podem e devem ser utilizados para eventos marcantes do presente. E o que se comemorava a 22 de Novembro é marcante em termos de apresentação e representação de um novo poder, da novembreza.

Não tive uma palavra de expetativa sobre o produto que vai entrar no mercado. Portugal é um pequeno país, não produz acontecimentos de relevo mundial, vive uma cómoda paz, felizmente. As notícias sobre Portugal serão sempre casos menores. A primeira página do tabloide Correio da Manhã, ou do site do Sapo explicam a nossa insignificância. Sem ovos não se fazem omeletas e a estação CNN Portugal não fará o milagre de nos colocar no centro de um universo de manipulação informativa, a não ser em caso de grande catástrofe. Espremerá até à última gota os pequenos frutos locais (ia a escrever furtos e também se adequava). A notícia importante no happening dos Jerónimos foram os seus convidados, que se entrevistaram uns aos outros, mesmos os exilados por terem cometido excessos ao trepar.

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Terras da Beira | Jornal do Fundão, 21-09-2006 e Pedras Soltas (Ed. 2006) | Carlos Esperança

São cada vez mais os mortos que povoam os cemitérios e menos os vivos que restam. Os jovens saíram pelas estradas que invadiram o seu habitat. Fugiram das courelas que irmãos disputavam à sacholada e à facada, dos regatos que secaram a caminho das hortas, da humidade que penetrava as casas e os ossos, e da pobreza que os consumia.

Não há estímulo para permanecer. Não se percebe que as penedias tivessem custado vidas na disputa da fronteira, que homens se tivessem agarrado aos sítios e enchido de filhos as mulheres que lhes suportavam o vinho, a rudeza e os maus tratos.

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SEM PALAVRAS NÃO HÁ PENSAMENTO | Título de Carlos Fino

“La disparition progressive des temps (subjonctif, passé simple, imparfait, formes composées du futur, participe passé…) donne lieu à une pensée au présent, limitée à l’instant, incapable de projections dans le temps.

La généralisation du tutoiement, la disparition des majuscules et de la ponctuation sont autant de coups mortels portés à la subtilité de l’expression.

Supprimer le mot «mademoiselle» est non seulement renoncer à l’esthétique d’un mot, mais également promouvoir l’idée qu’entre une petite fille et une femme il n’y a rien.

Moins de mots et moins de verbes conjugués c’est moins de capacités à exprimer les émotions et moins de possibilité d’élaborer une pensée.

Des études ont montré qu’une partie de la violence dans la sphère publique et privée provient directement de l’incapacité à mettre des mots sur les émotions.

Sans mot pour construire un raisonnement, la pensée complexe chère à Edgar Morin est entravée, rendue impossible.

Plus le langage est pauvre, moins la pensée existe.

L’histoire est riche d’exemples et les écrits sont nombreux de Georges Orwell dans 1984 à Ray Bradbury dans Fahrenheit 451 qui ont relaté comment les dictatures de toutes obédiences entravaient la pensée en réduisant et tordant le nombre et le sens des mots.

Il n’y a pas de pensée critique sans pensée. Et il n’y a pas de pensée sans mots.

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Epístola sobre o que celebramos hoje | Todos os Santos. Há festa no Olimpo.

A ideia de a Igreja Católica Romana, através do Papa Bonifácio IV, no século sétimo, de dedicar o Panteão dos deuses romanos a todos os santos do cristianismo, de promover um festival de santos, o que na neolinguagem poderia ser uma Rave de santidade, foi e é, porventura, bem intencionada, mas não deixa de ser desanimadora.

Olhando a história da humanidade, e não só o seu presente, desde há quinze séculos que em vez de esperança, apesar dos esforços e sacrifícios de todos os santos, mártires, virgens, doutores, o que temos é um percurso do homem lobo do homem e predador da natureza. Os santos não conseguiram que o homem ganhasse, se não bondade e virtude, pelo menos juízo.

Este dia de Todos os Santos de 2021 não é diferente dos anteriores e não será, presume-se, diferente dos do futuro. No caso, todos os grandes santos do momento estiveram reunidos na cimeira do G-20 e partiram em voo de Roma para Glasgow, a fim de tratarem das ameaças das alterações climáticas que os santos que estiveram nas anteriores celebrações causaram com a sua ganância e perversidade, explorando recursos até os humanos comuns, os que não obtiveram reconhecimento de santidade, terem decidir se querem desaparecer afogados ou gaseados.

Entretanto, os atuais santos e os seus arcanjos, os que à volta deles surgem nos ecrãs de televisão e nas páginas de jornais gordinhos, a tocar trombetas, já fizeram desaparecer das preocupações as tristes figuras que lhes poderiam entortar a auréola dourada que paira sobre as suas cabeças e borrar as asinhas que os fazem flutuar.

De repente, os santos do momento, através dos seus mágicos manipuladores da realidade, fizeram desparecer as vergonhosas imagens do Afeganistão, por exemplo. Como estarão os homens e mulheres do Afeganistão a celebrar o dia de Todos os Santos? E os migrantes do Mediterrâneo? E os sírios? E os palestinianos? E os hondurenhos e haitianos? Não há, como parece evidente, santos que lhes valham. Nem todos juntos.

Sendo os santos tão historicamente inúteis o que celebramos hoje nos vários templos e púlpitos? Que som sai dos sinos?

Born 1946; retired military, historian Carlos Matos Gomes

Notas sobre a situação política | por Paulo Querido | Título de Vítor Coelho da Silva

O Governo cometeu algum erro gravíssimo? Não. Um conjunto de desastres? Não.

A pandemia foi mal gerida? Não.

Algum ministro foi julgado num escândalo de corrupção? Não.

Casos, houve. Há sempre casos. Mas houve algum caso grave, tipo terramoto político, capaz de abanar as intenções de voto? Capaz de alterar o rumo? Não se vislumbrou nem vislumbra. É de tal forma que as alminhas andam a agitar a sombra do acidente de Eduardo Cabrita há meses, em loop, um disco riscado, uma cassete triste — o ponto é: uma cassete única e um casinho lamentável, lamentavelzinho, inho. Grau 2 na escala de Richter política.

As finanças, como estão? As contas públicas estão bem e recomendam-se.

A economia está mal? Nem na cabeça do mais empedernido ayatollah da direita, o que inclui o Sol e i, quase toda a SIC, Observador, grande parte da TVI, metade do Expresso, pelo menos. A realidade é que Portugal está a crescer.

A crescer mais do que a previsão. A crescer acima da média europeia.

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Edgar Morin: “Estamos caminhando como sonâmbulos em direção à catástrofe”

Traduzido do site TerraEco

O que fazer neste período de crise aguda? Indignar-se, certamente. Mas, acima
de tudo, aja. Aos 98 anos, o filósofo e sociólogo nos convida a resistir ao
ditame da urgência. Para ele, a esperança está próxima.

Por que a velocidade está tão arraigada no funcionamento de nossa
sociedade?

A velocidade faz parte do grande mito do progresso que anima a civilização
ocidental desde os séculos 18 e 19. A idéia subjacente é que agradecemos a
ela por um futuro cada vez melhor. Quanto mais rápido formos em direção a
esse futuro, melhor, é claro.

É neste contexto que as comunicações, econômicas e sociais, e todos os tipos
de técnicas que possibilitaram a criação de transporte rápido se multiplicaram.
Penso em particular no motor a vapor, que não foi inventado por razões de
velocidade, mas em servir a indústria ferroviária, que se tornou cada vez mais
rápida.

Tudo isso é correlativo por causa da multiplicação de atividades e torna as
pessoas cada vez mais com pressa. Estamos numa época em que a
cronologia se impõe.

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A revolução pelo orçamento | Entre a tomada da Bastilha e o teatro no canal Memória | por Carlos Matos Gomes

A saga da discussão da proposta de orçamento geral do estado para 2021 é idêntica à dos anos passados. Os políticos são mais previsíveis que cantores de karaoke e os partidos são mais repetitivos que uma formatura da tropa a evoluir em ordem unida às ordens dos mesmos comandantes.

A discussão do orçamento é fácil para a direita, porque o regime vigente de capitalismo e democracia liberal corresponde à sua matriz de interesses. São contra os orçamentos dos partidos sociais-democratas porque estes atribuem sempre, e na sua visão, demasiados recursos a serviços públicos que podiam ser entregues ao lucro privado. A direita vota contra os orçamentos sociais-democratas porque transforma em despesa pública uma parcela significativa dos seus possíveis lucros. Une-se, por isso, com facilidade quer para votar contra, quer para encontrar fórmulas coligadas de governo. Simples.

O drama — se é que viver em contramão é drama — encontra-se na esquerda. A esquerda, por definição quer mudar o sistema e o mundo. Quer a revolução na posse dos meios de produção e no modo de produzir, visa a tomada do poder. Os sociais-democratas são seus inimigos. É histórico e há mais de cem anos.

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Vivemos no Inferno? | Carlos Matos Gomes

Mas tu quem és, que, em tribunal sentado, julgas, de léguas em milhões distante, se mal vês o que a um palmo é colocado? Dante, Divina Comédia, Canto XIX

A acreditar nos jornais e nas televisões vivemos no Inferno. Embora apenas os seus celebrantes e comentadores saibam o que é o Inferno. A nós, multidão e rebanho, resta acreditar neles, ter fé nos que nos garantem que vivemos no Inferno!

Nada de novo. Por volta de 1300, há sete séculos, já Dante Alighieri, na Divina Comédia se dera a esse mesmo trabalho de descrever o Inferno em pormenor e em círculos dedicados a cada pecado ou crime. A verdadeira intenção dele não terá sido, tal como não é a dos seus atuais seguidores, alertar os homens para as consequências das práticas dos crimes e pecados, amedrontando-os com os sofrimentos eternos dos exemplares ali caídos, mas sim uma outra bem mais prosaica: Dante, como os arautos da desgraça do nosso tempo e senhores dos novos meios de comunicação, pretendia, isso sim, diminuir a concorrência, para assim ser mais fácil aos poderosos em atividade terrena realizar os seus pecados e crimes, matéria-prima indispensável ao prazer, à obtenção de poder e riqueza.

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Katharine Hepburn, en sus propias palabras. O Humanismo, essa atitude bela!

“Una vez, cuando era adolescente, mi padre y yo estábamos haciendo fila para comprar entradas para el circo. Finalmente, solo había otra familia entre nosotros y el mostrador de entradas.

Esta familia me causó una gran impresión.

Había ocho niños, todos ellos menores de 12 años. De la forma en que estaban vestidos se podía decir que no tenían mucho dinero, pero su ropa era limpia, muy limpia. Los niños eran muy bien educados, todos ellos parados en la fila, de dos en dos detrás de sus padres, tomados de las manos.

Estaban emocionados por los payasos, los animales y todos los actos que verían esa noche.

Por su emoción, podías percibir que nunca antes habían estado en un circo. Sería un punto culminante en sus vidas.

El padre y la madre estaban a la cabeza de la manada de pie, orgullosos como podría ser. La madre estaba sosteniendo la mano de su marido, mirándolo como si dijera: ‘Eres mi caballero en armadura brillante’.

El estaba sonriendo y disfrutando viendo a su familia feliz.

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Cette expérience valide la théorie de la relativité d’Einstein

En 2019, l’observation du trou noir supermassif situé au centre de notre galaxie permet de tester une nouvelle fois la théorie de la relativité générale publiée en 1915.

Que se passe-t-il lorsqu’une étoile passe près d’un trou noir supermassif ? Elle offre aux astronomes l’opportunité de tester les théories d’Einstein.

En observant le comportement d’une étoile tournant autour du trou noir situé au centre de notre galaxie, les scientifiques ont confirmé que le champ gravitationnel intense de ce mystérieux objet cosmique avait un effet sur la lumière stellaire, retardant considérablement le voyage dans l’espace de ses visiteurs. Cette observation est le meilleur moyen de tester une prédiction clef de la théorie de la relativité générale d’Einstein, qui suggère que la lumière perd de l’énergie lorsqu’elle a du mal à se déplacer à travers un champ gravitationnel extrême.

https://www.nationalgeographic.fr/espace/2019/07/une-nouvelle-experience-valide-la-theorie-de-la-relativite-deinstein?fbclid=IwAR2TFJfnqynJTl41SW2g5ZZoxvnxNgGnJRsMba4BeHa5wo-B3N5xaHWuO3w

O que vestir na escola? E no trabalho? | Carlos Matos Gomes

A escola do Agrupamento de Escolas Cardoso Lopes, na Amadora, tinha afixado à sua porta um cartaz a mostrar o que os alunos podiam ou não vestir, um código de vestuário para frequentar um estabelecimento de ensino público.

O ensino público inclui dois pontos nucleares que a sociedade, através do Estado, entende serem essenciais para a vida em comum e, por isso, decidiu afetar-lhe vastos recursos públicos: saber de humanidades e ciências que se possam traduzir em criação de riqueza e bem estar e uma integração social que proporcione uma harmoniosa vida em comum, isto dentro do princípio de que uma sociedade é mais que um agregado caótico de individualidades. Eram proibidas tops cai-cai — uma peça de pano usada por mulheres que circunda as mamas e deixa o umbigo à vista — calções curtos, calças largas ou descaídas, segundo a moda originária das prisões americanas para os presidiários anunciarem a disposição para relações sexuais (segundo informação da internet).

No regulamento interno da escola existia também uma regra que determinava que o vestuário não podia “expor partes do corpo, que possam atentar contra o pudor público”.

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AUKUS: UM ACORDO PARA ACORDAR A UNIÃO EUROPEIA | Paulo Sande

Não podia vir mais a propósito.

Três países – EUA, Reino Unido e Austrália, aliados antigos, um dia depois de Ursula von der Leyen ter feito o seu discurso da União e apelado à Europa da Defesa, anunciaram um acordo de segurança que é, na opinião de muitos especialistas de segurança, o maior desde a 2ª guerra mundial.

O AU – (u)K – US (AUKUS) formaliza a cooperação de defesa entre estes países na região do Indo-Pacífico e foca-se na capacidade militar, com dimensões como a cibernética, tecnologias quânticas, inteligência artificial. E depois (ou antes) há os submarinos.

1. SUBMARINO AO FUNDO

A compra de submarinos nucleares pela Austrália, o investimento mais caro de todo o acordo, criou um incidente diplomático com a França. Não admira, pois fica em causa o contrato (de 2016) de venda de 12 submarinos convencionais por parte da França à Austrália que, com este acordo, compra submarinos nucleares aos EUA (que pela 2ª vez apenas partilham a sua tecnologia submarina), tornando-se o 7º país do mundo a tê-los.

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O Alentejo, por Miguel Torga

Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora. Os espasmos irreprimíveis da outra, demasiado instintivos e afirmativos, não lhe permitem uma meditação construtiva e harmoniosa. E compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascesse a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo. Só daquelas ondas de barro, que se sucedem sem naufrágios e sem abismos, se poderia partir com confiança para as verdadeiras. Enquanto a nação andava esquiva pelas serras, ninguém se atreveu a visionar horizontes para lá da primeira encosta. Mas, passado o Tejo, a grei foi afeiçoando os olhos à grande luz das distâncias, e D. Manuel pôde receber ali a notícia da chegada de Vasco da Gama à Índia.

Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.

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A ORIGEM DO MEDO | Pedro Adão e Silva

Porventura, se optasse por examinar, por exemplo, o que é que permitiu a Marcelo Rebelo de Sousa, sendo de direita, vencer eleições com amplas maiorias, perceberia que as vitórias sustentáveis não se constroem a partir do ressentimento social, de polarizações artificiais ou de batalhas culturais fictícias. Tudo fatores que, enquanto descentram o debate público da discussão de alternativas, promovem um entrincheiramento que degrada a capacidade de compromisso.

Pedro Adão e Silva  | Jornal Expresso 03-09-2021

SINAIS DE BARBÁRIE | Massacre do Triunvirato | Pintura de Antoine Caron | por Vítor Serrão

A História da Humanidade poderia ser contada seguindo o rol sangrento das atrocidades cometidas contra os «outros». É um ciclo ininterrupto e, hoje, com crescente refinamento na maldade: os homens, sejam alienados, incultos, insensíveis, tomados pela cobiça pessoal ou seguindo a febre das massas, enfrentam aquilo que desconhecem e temem como legitimação para as suas intolerâncias e preconceitos e, no extremo, justificação dos massacres que praticam ou toleram…

Sempre me impressionou a crueldade descrita numa pintura de Antoine Caron (1521-1599), maneirista francês ligado à Escola de Fontainebleau que viveu a sinistra noite de St Barthélemy, no seu ‘Massacre do Triunvirato’ (1566), exposto no Musée du Louvre.

Também a História da Arte poderia ser contada através da miséria das guerras e da refinada crueldade contra os indefesos: será esse, afinal, o seu maior papel ? Como perguntava em 1547 o atormentado pintor florentino Jacopo Pontormo (na célebre parangona de Benedetto Varchi sobre a superioridade das artes: seria a Pintura superior à Escultura, ou vice-versa ?), que Deus inepto é este que criou de tão vil barro estas criaturas que somos ?

Só os artistas (e só por vezes) superam essa inépcia ao tocarem as asas do sublime: na música, na poesia, na literatura, na pintura — no humanismo… Por isso também, o poeta Sidónio Muralha (1920-1982), em ‘A Viagem dos Argonautas’, escalpelizava estes «selvagens gnomos que nós fomos — e somos», que querem ir a Marte buscar a sobrevivência da espécie não cuidando antes da paz e da harmonia na Terra.

Retirado do Facebook | Mural de Vitor Serrão

Savez-vous à quoi ressemble la mort ?

« Savez-vous à quoi ressemble la mort ? La personne jette le dernier souffle, c’est l’esprit qui quitte le corps. Le corps meurt complètement, c’est un déchet, mais l’esprit sort de la bouche et se mélange à l’esprit universel. C’est comme les fleuves, qui perdent leur caractère lorsqu’ils atteignent la mer. Mais ils en font partie, et la mer est la même partout. »

Explication de Manoel de Oliveira, quelques jours avant sa mort, à Luís Miguel Cintra.

Photographie | Embouchure de la Rivière Tejo à Lisbonne, Portugal.

Afeganistão | Carlos Matos Gomes

Os Javalis do Afeganistão

Sobre o que acontece no Afeganistão se poderá dizer que se cumpriu a lei de Murphy: “tudo o que puder correr mal, vai correr mal”, que poderia ter sido inspirada na Batalha de Alcácer Quibir. O que hoje correu ainda pior do que o mal começou aí por volta de 1983, com a presciência de dois vultos que o conservadorismo elevou às glórias dos seus panteões, o antigo ator americano Ronald Reagan e uma senhora inglesa de classe média baixa ressabiada com as upper class e os intelectuais, chamada Margaret Tatcher

A propósito do Afeganistão foi agora recuperada uma fotografia de 1983 em que Reagan recebe na Casa Branca uma delegação de mujahedeens, que lutavam contra a presença da URSS e o governo que esta apoiava no Afeganistão.

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OTELO E A MEMÓRIA DO PREC Público, 16.08.2021 | Elísio Estanque

Vivi esse período de forma intensa como grande parte dos portugueses da minha geração. Assim, e porque a historia dos acontecimentos é conhecida, talvez se possa agora acrescentar conhecimento sobre o PREC e Otelo Saraiva de Carvalho recorrendo a uma perspetiva subjetiva, vinda do seio da multidão, mas enquadrada pelo exercício de reflexão e autocritica à distância de quatro décadas.

Foi Otelo e o MFA que abriram as portas da liberdade. Mas foi ao longo daqueles meses de brasa que se seguiram ao 25 de Abril, que a revolução se desencadeou. Os sonhos libertários irromperam das esquinas mais recônditas dos bairros operários, das fábricas industriais, dos amontoados de barracas onde os esgotos eram ainda a céu aberto, etc. Foi para aí que convergiram os mais diversos grupos de ativistas espontâneos, os setores sociais mais inquietos, em especial os jovens, alguns ainda sob a influência do Maio de 68 e dos movimentos estudantis da década anterior. Por detrás da linguagem polarizada da “classe contra classe” (democracia contra fascismo, ricos contra pobres ou operários contra a burguesia) ocorreu uma autêntica “fusão de classes”, quando o radicalismo de classe média rompeu com os valores pequeno-burgueses para abraçar a causa operária e popular. Uma força imparável de invenção criativa brotou dessa comunhão interclassista capaz de vislumbrar o paraíso debaixo das ruas insalubres dos bairros da periferia. Uma torrente de gente feliz, igualitária, unida em torno de projetos verdadeiramente emancipatórios como o dos “índios da Meia-Praia” (em Lagos) celebrizado pela conhecida canção do Zeca Afonso. Apesar da incipiente cultura democrática, a democracia nunca foi tão efetiva, não apenas pela mobilização coletiva mas até pelo envolvimento direto das Forças Armadas (MFA) numa dinâmica de «bottom-up», de que é exemplo o projeto SAAL.

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Afeganistão – um mono | Carlos Matos Gomes

Tht’s all folks — é tudo, malta. Não há mais pipocas

Uma das definições de mono é a de “mercadoria sem venda no comércio”, de “qualquer coisa que deixou de interessar”. Desde o 11 de Setembro de 2001, o Afeganistão foi um falso alvo, uma fancaria. Um tigre de papel, na linguagem maoista dos anos 60 e 70. Transformou-se definitivamente num nono para os Estados Unidos com o anúncio da captura e morte no Paquistão, de Bin Laden, o saudita chefe da Alqaeda, em 2011, com direito a filme de rambos.

A Alqaeda e Bin Laden foram o produto desenvolvido a partir de um dos muitos bandos da região e de fanáticos locais, inchado, armado e subcontratado pela administração Reagan para fazer a guerrilha contra a URSS, que ocupara o Afeganistão para evitar a islamização das repúblicas soviéticas do sul. A teoria de que a URSS pretendia avançar para as “águas quentes” do Índico foi uma narrativa para vender armas e justificar ações, que muitos “estrategistas”, incluindo militares, pregaram sem correspondência com qualquer racionalidade. Na realidade, a administração Reagan pretendeu apenas negar a um inimigo (a URSS) a posse de um território que lhe era relativamente importante. Um objetivo clássico nas manobras militares. A administração dos EUA conseguiu a vitória de Pirro: a URSS abandonou o Afeganistão e os EUA “ganharam” a Alqaeda bem treinada e equipada, com um louco como chefe carismático e um imbróglio com os aliados sauditas, os maiores compradores da quinquilharia produzida pelo complexo militar americano e comparsas de Israel na desestabilização do Médio Oriente.

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Algumas notas a propósito da derrota do Ocidente no Afeganistão | Nuno Pereira da Silva Coronel (R)

Participámos como nação aliada da NATO, muito ativamente na guerra do Afeganistão, e na sua Reconstrução, muito em especial na Capacitação das suas Forças Armadas, onde inclusive tivemos dois mortos, um graduado do RI1, e uma praça paraquedista.

Não estive no Afeganistão, mas participei na Reconstrução do Iraque, na Reforma do seu Setor de Segurança, ou seja na Capacitação duma Forças Armadas modernas. Pelo que sei no Afeganistão foi seguido o mesmo modelo Americano, Chapa4, ou seja uma imposição dum modelo ocidental expúreo à sociedade, à cultura, e às Forças Armadas  e de Segurança  Afegãs, que  não são nacionais mas tribais, pertencem aos Senhores da Guerra.

Os militares americanos e da NATO trabalhando dia e noite, esforçando-se, por vezes zangando-se com a contra-parte Iraquiana que não queria, ou não tem capacidade para compreender o que se lhes pede, era o denominador comum.

Formar Comandantes de Divisões, a partir de guerrilheiros sem formação, é um esforço inútil.

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Da política internacional | José Maltez

O problema das análises de política internacional do nosso tempo é perdermos a noção de tempo, ao dizermos que os talibãs são medievais. Não são. São dos finais do século XX. As palas da visão ocidental da história como uma linha de caminho de ferro, como passagem do medieval para o moderno e deste para o contemporâneo é pura treta. Felizmente, a humanidade viveu fora das balizas de 476, queda de Roma, e de 1453, queda de Bizâncio. Maomé é mais moderno do que Cristo e o meu povo ibérico foi o primeiro a provar que a terra era redonda. Armilámos.

Retirado do Facebook | Mural de José Maltez

Reflexão do Presidente da Associação 25 Abril | VASCO LOURENÇO

O falecimento do Otelo, as diversas reacções ao mesmo, um debate que tive com o Mário Tomé, levam-me a algumas reflexões, sobre o posicionamento do MFA, nomeadamente no que diz respeito à sua intervenção na vida política no pós 25 de Abril. 

Muitos me aconselham a que “não vale a pena”, “não ganhamos nada com isso”, as ideias estão formatadas e formadas”, “a História nos dará razão e fará justiça”. 

Tudo bem, mas sou dos que consideram que, se nos calarmos, outros farão a História. Por isso, insisto em recordar alguns factos, mesmo que acompanhados de desabafos pessoais. Confio que me compreendam.

REFLEXÃO

Antes de mais, realço o posicionamento global que, constituindo o objectivo que nos uniu, seria também o que faria com que os que a ele se mantiveram fiéis fossem os que conseguiram sair vencedores das divisões em que nos envolvemos: falo da firme determinação em criar condições para que fossem os portugueses a decidir sobre o seu futuro. 

Posicionamento que, como sabemos mas vale a pena relembrar, estava plasmado –  de forma clara, precisa e concisa, como é timbre dos militares – no Programa do MFA (mesmo depois de alterado pela pressão de António de Spínola).

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Em defesa do ano 1975 e desmontando o ataque miserável e cobarde a Otelo | Liquidar Abril e a esquerda militar revolucionária | Manuel Duran Clemente

«Apenas – Otelo,e não só – evitou uma possível guerra civil. O falecido camarada Diniz Almeida, nunca compreendeu o papel de Otelo, nesse dia, e ficou desde sempre agastado com ele e com Vasco Lourenço. Nunca mais pôs os pés na Associação 25 de Abril, ficou muito chocado com o acontecimento e proferiu palavras amargas debaixo duma pressão inicial e mágoa por ter sido preso injustamente. Este estado de espirito ao longo dos anos e para sempre. Não perdoou aos que fabricaram o inventado golpe de 25 de Nov.  Nunca quis discutir o caso.Retirou-se do meio militar de forma radical. Respeita-se. Paz aos dois falecidos. Honra ao que fizeram e participaram na conquista da Liberdade. Os acontecimentos são bastante mais complexos e este aproveitamento é pouco sério. Ainda hoje e aqui tentarei explicar o que se passou,evitando uma provável guerra civil, e como foi decisiva a intervenção de Rosa Coutinho,Martins Guerreiro,Carlos Contreiras,José Emilio,Costa Martins, Comandante dos Fuzileiros …e outros . Otelo recusou um banho de sangue que seria provável se os Fuzileiros (como se propuseram) atacassem os Comandos. Como sabemos não houve nenhum golpe de esquerda nem de direita. Sim um aproveitamento da saída dos paraquedistas em litígio com o seu CEMFA.

 Leiam o livro “A Resistência” de Gomes Mota/1976. Ele explica as acções do grupo dos nove. Otelo não era desse grupo.» 

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Mas … dos que atiram a pedra e escondem a mão | Carlos Matos Gomes

Além dos putativos herdeiros dos movimentos mais violentos e totalitários da história moderna e contemporânea de Portugal, desde a Vilafrancada miguelista de 1823, até aos bombistas e saqueadores reunidos na sé de Braga e nas escritórios do franquismo em Madrid, do cónego Melo ao comandante Alpoim Calvão que colocaram “Portugal a arder” com o ELP e o movimento Maria da Fonte, dos que ainda choram o fim da ditadura e da guerra colonial, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho proporcionou o ressurgimento de um outro grupo, o do “mas”. O grupo dos falsos “cândidos”, dos que argumentam candidamente que a operação militar foi boa, “mas” a revolução não foi democrática e o seu desenrolar até foi atribulado.

Os do “mas” não perdoam a Otelo a responsabilidade de ter transformado um putsh militar numa revolução, incentivado os portugueses a agir e a organizar-se espontaneamente para decidir o que fazer após o derrube da ditadura, o fim da polícia política, dos tribunais plenários, da censura, do poder patronal absoluto! Ora, esta liberdade tomada por necessidade e impulsionada por Otelo, constituiu e constitui uma ofensa imperdoável aos “mas” sobre o que “devia ser uma democracia”, trazida já talhada, pronta-a-vestir do Posto de Comando da Pontinha, ou, ainda melhor, de casa do general Spínola.

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Portugal Ressabiado | Carlos Matos Gomes

Em 1972, Mário Soares publicou em França um livro sobre Portugal a que deu o título de «Portugal Amordaçado». Havia, então, um Portugal amordaçado pelo Estado Novo e a sua polícia política, um Portugal amordaçado pela falta de direitos elementares de cidadania, direito à palavra, à representação, direito de reunião, de organização, havia um Portugal amordaçado que não podia falar do colonialismo, nem da guerra colonial, nem na busca de soluções que não fossem a continuação da guerra, havia um Portugal amordaçado pelos grandes patrões da indústria e da banca, um Portugal amordaçado pela Igreja Católica e pelo partido único, a União Nacional.

Havia, de facto, um Portugal amordaçado, mas havia e há um Portugal que gostava e gosta da segurança da mordaça, da tortura, da violência dos Pides, dos assassínios dos opositores, da censura, da União Nacional, dos regedores e autarcas nomeados, dos deputados escolhidos entre os fiéis e os compadres, um Portugal que gostava e gosta das cargas da Polícia de Choque e da GNR, das arruaças dos legionários, havia e há um Portugal herdeiro do ultramontanismo absolutista do século xix, um Portugal miguelista, satisfeito com as ordenações do trono de Salazar e as bênçãos do altar do Cardeal Cerejeira, confortado com as denúncias dos informadores. Havia e há um Portugal agradecido por pertencer a um rebanho, por ter pastor e cão de guarda.

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D’abord fuir la peste de cette tristesse gluante | Ariane Mnouchkine

[…]  D’abord fuir la peste de cette tristesse gluante, que par tombereaux entiers, tous les jours, on déverse sur nous, cette vase venimeuse, faite de haine de soi, de haine de l’autre, de méfiance de tout le monde, de ressentiments passifs et contagieux, d’amertumes stériles, de hargnes persécutoires.

Fuir l’incrédulité ricanante, enflée de sa propre importance, fuir les triomphants prophètes de l’échec inévitable, fuir les pleureurs et vestales d’un passé avorté à jamais et barrant tout futur.

Une fois réussie cette difficile évasion, […]

Expérimentons, nous-mêmes, expérimentons, humblement, joyeusement et sans arrogance. Que l’échec soit notre professeur, pas notre censeur. Cent fois sur le métier remettons notre ouvrage. Scrutons nos éprouvettes minuscules ou nos alambics énormes afin de progresser concrètement dans notre recherche d’une meilleure société humaine. Car c’est du minuscule au cosmique que ce travail nous entrainera et entraine déjà ceux qui s’y confrontent. Comme les poètes qui savent qu’il faut, tantôt écrire une ode à la tomate ou à la soupe de congre, tantôt écrire Les Châtiments. Sauver une herbe médicinale en Amazonie, garantir aux femmes la liberté, l’égalité, la vie souvent.

Et surtout, surtout, disons à nos enfants qu’ils arrivent sur terre quasiment au début d’une histoire et non pas à sa fin désenchantée. Ils en sont encore aux tout premiers chapitres d’une longue et fabuleuse épopée dont ils seront, non pas les rouages muets, mais au contraire, les inévitables auteurs.

Il faut qu’ils sachent que, ô merveille, ils ont une œuvre, faite de mille œuvres, à accomplir, ensemble, avec leurs enfants et les enfants de leurs enfants.

Disons-le, haut et fort, car, beaucoup d’entre eux ont entendu le contraire, et je crois, moi, que cela les désespère.

Quel plus riche héritage pouvons-nous léguer à nos enfants que la joie de savoir que la genèse n’est pas encore terminée et qu’elle leur appartient.

Ariane Mnouchkine, metteuse en scène de théâtre.

Extrait de facebook | Mur de Souâd Kedri

Atrapalhações cubanas | Francisco Louçã

Não sei se gosta de romances policiais e se leu o “Quarteto de Havana”. Vale a pena, esses livros são alguns dos raros mas saborosos casos em que a história foge do pitoresco e escapa ao padrão que define aquele estilo literário. São, simplesmente, grandes romances. Mas, como não podia deixar de ser, há um fio condutor, que no caso é a vida difícil, quem sabe se a decadência, ou devemos chamar-lhe a persistência?, de um personagem que nos conduz pelo dia a dia de Cuba: Mário Conde foi polícia, tornou-se detetive privado, é um desenrascador, vagamente justiceiro, além de ser um gastrónomo militante, sobrevivendo encostado aos milagres da cozinha da mãe de um antigo camarada de aventuras. Navegando pelas ruas de Havana, Conde chega onde os seus antigos colegas não vão, descobre o crime de um membro do Comité Central, investiga traficâncias de diplomatas, roubos de arte, negócios de emigrados, polícias corruptos e que fecham os olhos, contorna burocratas implacáveis. Há nos livros alguma tristeza, bastante nostalgia e um gigantesca afirmação de amor pela sua terra. E perdemo-nos em intrigas sem concessões, chegamos a finais amargos, o escritor não nos facilita a vida, a rotina continua em Havana.

Leonardo Padura, o autor, é mais conhecido por outros escritos ousados, “O Homem que Gostava de Cães” ou “Os Hereges”. Mas foi com Mário Conde que começou e foi assim que foi descoberto pelos seus compatriotas. Porventura por isso, Conde regressou em “A Transparência do Tempo” para novas rodadas. Graças ao “Quarteto”, a Conde e a toda a sua obra, Padura será o escritor mais popular no seu país, onde ninguém ignora que se trata de uma voz crítica. Por isso, quando a direita festeja os protestos populares nas ruas de várias cidades, fantasiando triunfantemente a vingança de Batista, e enquanto nas esquerdas as opiniões se dividem entre defensores do regime, incluindo alguns dos seus conversos mais recentes que, ao tempo do choque entre Krutchov e Castro estavam indefetivelmente do lado soviético, e aqueles que sentem o protesto popular sobre dificuldades reais de gente real, quando tantas palavras são esgrimidas sem candura, ficamos a saber mais sobre Cuba se o ouvirmos.

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A direita em Portugal | Ana Spínola

A direita na Europa ocidental teve como antecedentes a experiência do nazismo e da resistência ao seu belicismo e atrocidades, por isso a democracia cristã e a social-democracia foram capazes de se coligarem para importantes projectos europeus no pós-guerra, inclusivé a, hoje, UE.

A direita portuguesa não passou por essa dura e útil aprendizagem, dava-se bem com a ditadura. Convivia bem com a repressão das liberdades, a violação dos direitos humanos, a perseguição das pessoas que se lhe opunham, com a arbitrariedade e o autoritarismo quotidianos.

A direita portuguesa não recebeu o 25 de Abril com júbilo nem o viveu como uma libertação, pelo contrário, viveu-o com medo (também pela má-consciência), com ressabiamento e com ódio, por isso quando tem poder não resiste a medidas de retaliação e a tiques revanchistas.

A direita em Portugal ainda não integrou nem valoriza a cultura democrática, serve-se da democracia para alcançar o poder e para atacar as fragilidades próprias de um regime aberto como é o regime democrático.

Não admira, pois, que aproveite todos os pretextos para recalcitrar e todas as oportunidades para atacar o 25 de Abril e os seus símbolos. E, claro, dizer barbaridades todos os dias com a desfaçatez própria da sua ignorância.

Retirado do facebook | 29-07-2021 | Mural de Ana Spínola

Ubuntu | William Poutu

An anthropologist showed a game to the children of an African tribe …

He placed a basket of delicious fruits near a tree trunk and told them: The first child to reach the tree will get the basket.

When he gave them the start signal, he was surprised that they were walking together, holding hands until they reached the tree and shared the fruit!

When he asked them why you did that when every one of you could get the basket only for him!

They answered with astonishment: Ubuntu.

“That is, how can one of us be happy while the rest are miserable?”

Ubuntu in their civilization means: (I am because we are).

That tribe knows the secret of happiness that has been lost in all societies that transcend them and which consider themselves civilized societies ……. !!!

Acção transnacional do DiEM25 para o 50º aniversário de Julian Assange a 3 de Julho

Há quase 10 anos que Julian Assange expia com a sua liberdade os seus actos como jornalista. O dia 3 de Julho marca o seu 50º aniversário e o DiEM25 não quer deixar passar a data em branco.

Numa acção coordenada com diferentes cidades europeias, membros do DiEM25 reúnem-se em frente à embaixada do Reino Unido com cartazes que exibem obras de arte (pinturas, imagens gráficas, etc) criadas por artistas de toda a Europa e do mundo! 

Nós levamos os cartazes! 

Convidamos-te a participar nesta iniciativa, mostrando ao mundo que Julian Assange e o seu sacrifício pessoal pela nossa liberdade de expressão, não foram esquecidos.  

Esta acção observará todas as regras impostas pela pandemia, pelo que não te esqueças de levar máscara, cumprir com o distanciamento social e seguir as indicações da organização.

Data e hora: 3 de Julho, 11:00h

Local:   em frente à embaixada do Reino Unido 
             (R. de São Bernardo 33, 1249-082 Lisboa)

Contamos contigo!
DiEM25 Portugal

30 de Junho de 1934: “Noite das facas longas” na Alemanha nazi.

30 de Junho de 1934: “Noite das facas longas”, na Alemanha nazi. Adolf Hitler, Goering e Himmler ordenam a morte dos dirigentes da tropa de choque SA.

A partir de 24 de março de 1933, o “Reichstag” (Parlamento alemão) aprova a chamada “lei dos plenos poderes”, dando a Adolph Hitler uma autoridade ditatorial. Estes primeiros anos no poder serão cruciais para o ditador estabelecer a sua autoridade e rodear-se de colaboradores leais. Em todas as províncias são instalados governadores do Reich e são drasticamente limitadas as liberdades democráticas. A nível social, a influência nazi começa igualmente a estender-se; não há, a partir de então, associação, profissão, emprego oficial, jornal ou empresa que não estejam integrados na linha omnipotente do partido. Ocorrem, também, os célebres pogroms contra os judeus.

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A VELHICE | por António Lobo Antunes

Devo estar a ficar velho: as Paulas Cristinas têm mais de 20 anos, os Brunos Miguéis já vão nos 15, as Kátias e as Sónias deram lugar a Martas, Catarinas, Marianas. A maior parte dos polícias são mais velhos do que eu. Comecei a gostar de sopa de Nabiças. A apetecer-me voltar mais cedo para casa. A observar, no espelho matinal, desabamentos, rugas imprevistas, a boca entre parêntesis cada vez mais fundos. A ver os meus retratos de criança como se fosse um estranho. A deixar de me preocupar com o futebol, eu que sabia de cor os nomes de todos os jogadores do Benfica (…). A desinteressar-me dos gelados do Santini que o Dinis Machado, de cigarrilha nas gengivas achava peitorais.

Se calhar, daqui a pouco, uso um sapato num pé e uma pantufa de xadrez no outro e vou, de bengala, contar os pombos do Príncipe Real que circulam, de mãos atrás das costas como os chefes de repartição, em torno do cedro. Ou jogar sueca, com colegas de boina, na Alameda Afonso Henriques de manilha suspensa no ar, numa atitude de Estátua de Liberdade. Quando der por mim, encontro o meu sorriso na mesinha de cabeceira, a troçar-me, num copo de água, com 32 dentes de plástico. Reconhecerei o meu lugar à mesa pelos frasquinhos dos medicamentos sobre a toalha, que me farão lembrar as bandeiras que os exploradores antigos, vestidos de urso como os automobilistas dos tempos heróicos, cravavam nos gelos polares.

Devo estar a ficar velho. E no entanto, sem que me dê conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga. Ainda gostava de ter um canivete de madrepérola com sete lâminas, saca-rolhas, tesoura, abre-latas e chave de parafusos. Ainda queria que o meu pai me comprasse na feira de Nelas, um espelhinho com a fotografia da Yvonne de Carlo, em fato de banho, do outro lado. Ainda tenho vontade de escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito.

Pensando bem (e digo isto ao espelho), não sou um senhor de idade que conservou o coração de menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

António Lobo Antunes

RELAXAMENTO | jornal expresso “curto”

João Pedro Barros
Coordenador Online
O dia mais longo, a variante mais perigosa, a vacinação que acelera
21 JUNHO 2021

Bom dia,

Vários epidemiologistas já tinham avançado com a teoria, mas ontem passou a ser oficial: a variante Delta (também conhecida como indiana) já é dominante em Lisboa e Vale do Tejo, onde tem uma prevalência superior a 60%. Como qualquer variante mais transmissível, dizem os especialistas, será uma questão de tempo até alastrar a todo o país e engolir a variante Alfa (dita também inglesa ou de Kent).

Os dados são do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e ainda preliminares, mas tornam claro que há um problema a resolver, para já centrado na capital – no Norte a prevalência da variante ainda é inferior a 15%. Esta estirpe é até 60% mais transmissível do que a inglesa, que por sua vez já era mais transmissível do que o SARS-CoV-2 original. Pode encontrar aqui respostas às principais dúvidas sobre a variante Delta.

Esta será apenas parte da explicação para a região de Lisboa apresentar um crescimento exponencial de infeções: há oito dias consecutivos que representa, mais coisa menos coisa, dois terços dos novos casos em Portugal. Será difícil saber exatamente qual o grau de importância de outros fatores, mas presumo que eles possam ser resumidos numa palavra: relaxamento.

É certo que temos de ler agora os números com outros olhos: em janeiro o país teve uma média de 179,9 mortes diárias devido à covid-19, nos últimos 30 dias a média foi de 1,6. Porém, já há especialistas sem medo de usar o termo “quarta vaga” e que avisam que há outro fator crítico a preservar: a operacionalidade do Serviço Nacional de Saúde, que pode estar novamente em causa, ainda para mais num momento em que há um esforço para recuperar os atos médicos em atraso após dois confinamentos. A lotação covid-19 já aperta na região de Lisboa.

Se há um fator de consenso entre os epidemiologistas é que há sérios riscos quando se deixa a situação pandémica fugir de controlo – e há países que já são casos de estudo, como o Chile, em que se registaram fortes surtos mesmo com elevadas taxas de vacinação. Face a isto esperam-se respostas políticas, com a população já claramente cansada de confinamentos e seus sucedâneos – como bem ajudou Marcelo Rebelo de Sousa a frisar.

Há algumas medidas possíveis, sendo a mais benigna acelerar ainda mais uma vacinação que já vai de prego a fundo: este sábado foi um dos dias com mais inoculações da campanha (138.477), cumprindo-se a promessa do vice-almirante Gouveia e Melo de ultrapassar as 100.000 doses por dia em junho. Se olharmos para a média móvel a sete dias verificamos uma curva bastante ascendente, que se quer agora prolongar: no seu espaço de comentário na SIC, Marques Mendes revelou que vai abrir um novo centro de vacinação no Estádio Universitário de Lisboa, assim como confirmou que o processo será alargado à faixa etária dos 20 aos 29 anos a meio de julho.

Hoje é precisamente o dia mais longo do ano, que marca o início do verão no hemisfério norte: o solstício de verão ocorreu há poucas horas, precisamente às 3h32, e como era bom que pudéssemos ter um dia soalheiro em que, como por magia, pelo menos dez milhões e tal de pessoas ficassem protegidas num ápice.

Isto não vai acontecer e até o verão, fresco e chuvoso, parece deprimido. A resposta da vacinação não se afigura suficiente para resolver o problema, pelo que se exigem pelo menos duas medidas quase tão velhas como a pandemia em si: testagem em massa e rastreamento rápido e rigoroso. A testagem, após um pico em abril, nunca disparou como chegou a ser prometido, revela o último relatório de monitorização das linhas vermelhas da DGS; o mesmo documento aponta ainda para uma diminuição da eficácia no isolamento e rastreamento. O “Público” noticia esta manhã que as Forças Armadas têm 252 militares prontos para apoiar o combate à pandemia, especialmente em Lisboa e Vale do Tejo e em grande parte para ajudar na realização de inquéritos epidemiológicos. No terreno já estão 444 militares.

Esperam-se novidades do próximo Conselho de Ministros, esta quinta-feira, e, de acordo com Marques Mendes, uma delas será o alargamento da utilização do certificado digital covid para o acesso a eventos desportivos, culturais e casamentos. Por outro lado, terminou há pouco a proibição de circulação de fora para dentro da Área Metropolitana de Lisboa, que esteve em vigor durante o fim de semana e que foi criticada em vários quadrantes. Irá manter-se esta semana?

O número de novas infeções desceu ontem ligeiramente abaixo de 1000, mas o pior foi ver o número de internados voltar a passar a fasquia dos 400, algo que já não acontecia há dois meses. Como costuma dizer António Costa: “esperemos o melhor e preparemo-nos para o pior”. Ou como também disse o primeiro-ministro, estamos todos de acordo com Marcelo e “ninguém deseja que não haja desconfinamento”. Que tudo isto não passe de uma nuvem fugaz, antes do dia inteiro e limpo que todos queremos ver.

É chegada a hora de mostrardes ao mundo o quanto sabeis | Fernando Gomes

Pronto, a criança apareceu sã e salva, já podeis parar de ostentar tantos conhecimentos de pedopsicologia, puericultura e educação parento-filial.

É chegada a hora de mostrardes ao mundo o quanto sabeis de inconstitucionalidades, estados de emergência inexistentes, quase-cercas que parecem sanitárias e presidentes que não recuam.

Mas, atenção, tendes apenas até às 17 horas de amanhã, o exacto momento para começardes a fazer alarde de um perfeito domínio das melhores técnicas e tácticas futebolísticas quando se joga com a selecção que tem fama de ganhar no fim.

Só então podeis voltar à vida regular de epidemiologistas e virologistas dos últimos meses. Bem sei que são actividades que já vos enfadonham, mas talvez a sorte traga em breve uma sentença judicial controversa que vos obrigue a expor os vossos brilhantes conhecimentos penais.

Retirado do Facebook | Mural de Fernando Gomes

Humor | O barman é um robot

Um sujeito entra num bar novo, hi-tech, e pede uma bebida. O barman é um robot que pergunta:

– Qual o seu QI?

O homem responde:

– 150.

Então o robot serve um cocktail perfeito e inicia uma conversa sobre aquecimento global, espiritualidade, física quântica, interdependência ambiental, teoria das cordas, nanotecnologia e por aí.

O tipo ficou impressionado, e resolveu testar o robot. Saiu, deu uma volta e retornou ao balcão. Novamente o robot pergunta:

– Qual o seu QI?

O homem responde:

– Deve ser uns 100.

Imediatamente o robot serve-lhe um whisky e começa a falar, agora

sobre futebol, Fórmula 1, super-modelos, comidas favoritas, armas,

corpo da mulher e outros assuntos semelhantes.

O sujeito ficou abismado. Sai do bar, pára, pensa e resolve voltar e fazer mais um teste.

Novamente o robot lhe pergunta:

– Qual o seu QI?

O homem disfarça e responde:

– Uns 20, eu acho!

Então o robot serve-lhe uma pinga de tinto, inclina-se no balcão, mete um palito na boca e

diz, bem pausadamente:

– Então e o nosso Benfica?

Ana Catarina Mendes | Flashback | por Paulo Querido

Hoje foi um domingo tranquilo, calmo, pacífico. As polémicas que por aí andam são indignas, coisa de tablóides e folhas panfletárias, e estamos no Mês da Grande Alienação. De modos que escrevo sobre o lançamento de Ana Catarina Mendes no Flashback (ou lá como aquilo se chama atualmente).

Seja qual for o nome que tem atualmente — não vou gastar neurónios a atualizar o nome cada vez que se lembram de o mudar, o que sucede com inusitada frequência e mau gosto —, o Flashback está numa boa fase. A entrada de Ana Catarina Mendes, a primeira mulher no programa em cerca de 40 anos, trouxe uma novidade refrescante: levou José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier a um mais elevado nível de aprumo discursivo.

Por outro lado, JPP tem vindo a melhorar num aspeto que considero fundamental: abandonou o tudologismo em que caiu durante anos. E parece que prepara melhor a generalidade dos temas (nem todos, mas a grande maioria). E ALB tem feito maravilhas para se distanciar do CDS e da IL, ao mesmo tempo que mantém bem fechada a fronteira com o selvagem da extrema-direita, ganhando assertividade no processo.

Mas esta menção tem outro fundamento. Repara nos dois fotogramas seguintes, que são do programa de há duas semanas:

No primeiro, Pacheco Pereira aplaude Ana Catarina Mendes. Discretamente, mas notoriamente. No segundo, Lobo Xavier tira o chapéu a Ana Catarina Mendes e não é um mero salamaleque de queque. Há um intervalo de menos de um minuto entre os dois fotogramas.

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Anda a sentir falhas acentuadas de memória? António Damásio explica porquê.

O neurobiologista esteve na Fundação José Neves para explicar a importância dos sentimentos na nossa vida e na saúde mental. E dizer-nos como a consciência é o princípio para a regulação e equilíbrio do nosso corpo

Se depois deste confinamento pandémico começou a ter falta de memória, não é de admirar. Este pode ser um quadro generalizado ao ser humano depois da crise pandémica. Esquecemo-nos dos nomes (até dos colegas), dos sítios, do que deveríamos fazer… A que se deve? Ao “retiro do treino individual”, na opinião do neurobiologista António Damásio, que esteve à conversa com José Neves no evento anual da Fundação.

“A falta de treino acarreta falta de memória”, porque o nosso cérebro “precisa de uma reativação constante para que se mantenha no nosso mundo”, explica o neurobiologista atualmente a viver em Los Angeles, Estados Unidos. “Há coisas que as pessoas só agora se vão aperceber”, avisa, alegando ainda que “há toda uma série de fenómenos que terão de ser estudados” decorrentes desta disrupção causada no mundo pela pandemia. “E que podem abrir novos caminhos no campo da Ciência”, projetou o cientista, mostrando-se esperançoso e otimista.

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10 DE JUNHO – DIA DE CAMÕES | Deixem ir o amador à coisa amada | Manuel S. Fonseca

Este texto foi uma encomenda. Escrevi-o com muito gosto e com um descaramento que se baseia numa ideia simples: os poetas, os pintores, os romancistas devem ser falados, interpretados e comentados pelos seus leitores, mesmo por aqueles que, como eu, só como amadores os comentem. Recupero-o neste 10 de Junho de 2021.

Os amadores, na sua exaltada e infantil incompetência, nunca dispensarão os especialistas. Os amadores são como as criancinhas que um tolerante Cristo deixa vir a si. Mas mal do especialista que não deixe, magnânimo, sentarem-se os amadores aos pés da coisa amada.

saiba o mundo de Amor o desconcerto,

que já coa Razão se fez amigo,

só por não deixar culpa sem castigo.

O Século de Camões | Manuel S. Fonseca

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Dia 10 de Junho de 2021 | Dia de Portugal | Le verdict que le juge a rendu au voleur

Un garçon de 15 ans a été surpris en train de voler dans un magasin en Amérique.

Pour tenter de s’échapper, le garçon a également détruit une étagère.

Après que le juge ait entendu l’affaire, il a demandé au garçon :

“- Tu as vraiment volé quelque chose ? Tu as volé du pain et du fromage et détruit l’étagère ?”

Le garçon, honteux, la tête baissée, répondit :

“- Oui “.

Juge : « Pourquoi tu as volé ? ′

Enfant : « c’était nécessaire ».

Juge : « Tu ne pouvait pas les acheter au lieu de les voler ?

Garçon : “Je n’avais pas d’argent”

Juge : “Tu aurais pu demander de l’argent à tes parents”

Garçon : ′ ′ Je n’ai que ma mère qui est alitée et malade et qui n’a pas de travail. Pour elle j’ai volé du pain et du fromage ′ ′

Juge : « Tu ne fais rien, tu n’as pas de travail ? ′

Enfant : ′ ′ j’ai travaillé dans un lavage d’auto. J’ai pris un jour de congé pour aider ma mère et c’est pourquoi j’ai été licencié. ′

Juge : « Tu n’as pas cherché autre chose pour travailler ailleurs ?

Après la fin de la conversation avec le garçon, le juge a annoncé le verdict :

Voler, surtout voler du pain, est un crime très honteux. Et nous voilà tous responsables de ce crime . Toutes les personnes présentes dans cette salle d’audience aujourd’hui, y compris moi, sommes responsables de ce crime . De cette façon, toutes les personnes présentes seront condamnées à une amende de 10 dollars, personne ne sortira d’ici sans qu’il ne donne 10 dollars

Le juge a sorti un billet de 10 $ de sa poche, a pris un stylo et a commencé à écrire :

De plus, j’ai imposé une amende de 10000 dollars au propriétaire du magasin pour avoir remis l’enfant affamé à la police. Si l’amende n’est pas payée dans l’heure, le magasin restera fermé.”

Toutes les personnes présentes se sont excusées auprès du garçon et lui ont remis tous 10$ . Le juge a quitté la salle d’audience en cachant ses larmes.

Après avoir entendu le verdict, les personnes présentes dans la salle d’audience avaient les larmes aux yeux.

Je me demande si notre société, notre système, nos tribunaux auraient pu rendre un tel verdict ?

Le juge a ajouté : « Si une personne est surprise en train de voler du pain, tous les membres de cette communauté, de la société et du pays devraient avoir honte !

Retirado do facebook | Mural de Chekini Kamel

Moderados, uma espécie em extinção? Paulo Sande

1 Os partidos políticos em Portugal vivem sob o signo da inquietude, com dúvidas existenciais sobre o que fazer para assegurar aquilo para que existem, isto é, para conquistar o poder e, depois, mantê-lo. A todo o custo. Custe o que custar, mesmo que isso implique coligarem-se com partidos cuja ideologia execram ou renegarem os eleitores que os elegeram, para satisfazer os mecenas ou sublimar a mais recente, embora efémera, agenda da moda. Temem, se falharem, pela razão de ser da sua existência enquanto partidos políticos. A qual é, como escrevi, conquistar o poder e mantê-lo, a todo o custo.

2 Só que não é. Não que o não seja vezes demais, mas porque não deve ser assim. Não pode ser. Os partidos e os políticos que abandonam os seus eleitores – prometem, sabendo que não cumprirão, traem, escolhendo o poder em detrimento do bem público – não cabem na democracia do século XXI. Que não pode ser igual à do século XX.

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Golfinhos | Enzo Maiorca, mergulhador italiano

O famoso mergulhador italiano, Enzo Maiorca,  nadava nas águas quentes do mar de Siracusa e conversava com sua filha Rossana que ficara no barco.

Pronto para submergir, sentiu algo bater ligeiramente nas costas. Virou-se e viu um golfinho. Percebeu então que ele não queria brincar, mas expressar alguma coisa.

O animal mergulhou e Enzo o seguiu.

A cerca de 12 metros de profundidade, preso em uma rede abandonada, havia outro golfinho.

Maiorca rapidamente pediu à filha que apanhasse suas facas de mergulho. Em poucos minutos os dois conseguiram libertar o golfinho que, no limite das forças conseguiu emergir, emitindo um “grito quase humano” (assim descreveu Maiorca).

Um golfinho pode resistir debaixo d’água até 10 minutos, depois afoga-se.

O golfinho liberto, ainda atordoado, foi controlado por Enzo, Rossana e o outro golfinho. Depois veio a surpresa: Era uma delfina, que logo deu à luz um filhote.

O macho circulou-os e, parando à frente de Enzo, lhe tocou na bochecha (como se fosse um beijo), num gesto de gratidão… e se afastaram.

Enzo Maiorca terminou sua intervenção dizendo: “até que o homem aprenda a respeitar e a dialogar com o mundo animal, nunca poderá conhecer o seu verdadeiro papel nesta Terra.”

Retirado do Facebook | Mural de José Silva Pinto

Quando os senhores são genocidas | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

O que aqui havia de novo não era a destruição, a escravatura ou sequer a desumanização das vítimas, era simplesmente a aceleração da ganância.

Há um triângulo entre o filme Apocalypse Now (1979), de Francis Coppola, o livro em que se inspira, O Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad, e outro que volta ao mesmo cenário de barbárie, O Sonho do Celta (2010), de Vargas Llosa, que conta a história da história. Coppola filmou a expedição que sobe o rio vietnamita para matar Kurz, um oficial escondido na selva; Conrad, a partir da sua própria experiência como capitão de navio de transporte de marfim no Rio Congo, tinha contado a busca por Kurz, um dos responsáveis pela empresa exploradora e que se perdera algures a montante. Ao entrar “na boca do grande rio”, o capitão Charles Marlow abandona a comodidade das aparências, em que se vive sem remorso a riqueza colonial. “Antes do Congo eu era só um animal”, diz o escritor, que depois descobriu a imensidão do território do horror (o seu livro foi décadas depois criticado por despersonalizar a população africana, a vítima que fica silenciosa). Não há guerra, não há deus, não há humanidade nessa selva, só há crueldade sem limite. A industrialização da morte foi um êxito da modernidade, quando os cavalheiros enriqueceram sobre pilhas de escravos.

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As envergonhadas e os desenvergonhados Carlos Matos Gomes

Um dos livros mais duros que li sobre vergonhas e ações vergonhosas tinha e tem por título “As Benevolentes”. Foi escrito por Jonathan Littel e relata as memórias de um ex oficial nazi que participou nos momentos mais sombrios da recente história mundial. Uma confissão das desumanidades cometidas por seres que elevaram o mal e a maldade aos extremos. O título remete para as deusas Eríneas, perseguidoras e vingadores, também conhecidas por Eumênides, ou Benevolentes, o oposto do que era a sua essência.

Vem esta introdução a propósito do clamor que se levantou a propósito dos habituais desacatos dos adeptos do futebol feito por um coro que tem arrepelado os cabelos e coberto a cara de lama e cinzas gritando: «Que vergonha!» e: «O que dirão de Portugal lá fora?»

Os envergonhados da final da Champions League no Porto são o correspondente das “benevolentes” do romance. Nem eles estão envergonhados, nem os nazis foram benevolentes. Ou então os” envergonhados” não sabem o que é vergonha e começam por ser descarados fiteiros (uma especialidade futebolística).

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Do MDLP ao MEL e do ELP ao Chega: sempre o mesmo fel | Carlos Matos Gomes

Do MDLP ao MEL e do ELP ao Chega: sempre o mesmo fel.

Do que li, vi e ouvi a propósito de presença de Rui Rio e Passos Coelho numa sessão organizada por uma nova empresa de marketing político que adotou para o efeito o pseudónimo de MEL — Movimento Europa e Liberdade — conclui que eles não sabem de quem são filhos, ou quem são os pais. Em sentido político, é evidente. São dois seres sem raízes, sem passado, sem história, sem leituras, sem referências, sem credibilidade. Os frangos de aviário são assim fabricados, como os hambúrgueres ou as salsichas em lata. Já quanto à participação de políticos até agora aderentes ao Partido Socialista, a questão não é a de desconhecerem a paternidade, mas sim a de, segundo o Princípio de Peter, terem atingido o seu patamar de incompetência e de ali terem ido para adoção e uma segunda vida. Foram seguir os passos da atriz em decadência Maria Vieira, que representa o papel de madrinha do Chega.

Quanto ao convívio do MEL, na realidade uma ação de relações públicas do Chega, as presenças significativas são as de Rio e de Passos Coelho. Eles são ou foram dirigentes de um partido político que em 1974 começou por se designar PPD e mais tarde, para aproveitar as aragens da história, assumiu a social-democracia!

Um pouco de passado:

Após o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 realizado pelo Movimento das Forças Armadas, quer o PS quer o PPD fizeram parte de todos os acontecimentos marcantes e ocuparam todos os degraus do poder que construiu o regime em que hoje vivemos. Um regime de democracia política, económica e social com variantes mais ou menos avançadas. O PS e o PPD/PSD fizeram parte do consenso político que definiu a Constituição de 1976, aceite e aprovada pelos dois partidos mais o PCP, o MDP/CDE e a UDP.

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A EUROPA EM NEGAÇÃO – UMA CEGUEIRA VOLUNTÁRIA | por Viriato Soromenho Marques

Uma união em negação

por Viriato Soromenho Marques

DN/Opinião

Apolítica europeia parece cada vez mais embarcada na construção de efeitos especiais, apresentados como se fossem realidades objetivas, sendo isso servido por uma enfática apologia de “valores europeus” que, depois de retirada a espuma retórica, se verifica não passar de um exercício narcisista de autocomprazimento.

A conduta política europeia constitui uma penosa recusa de enfrentar os riscos do futuro. Não se percebe como poderá surgir a lucidez e a coragem para os diagnosticar e combater, ou para os assumir como uma consequência inevitável da deliberada manutenção da UE nesta instável encruzilhada.

Estagnámos entre o completar das reformas indispensáveis para democratizar e salvar a UE ou o assumir resignado do falhanço da integração europeia, com o turbulento e devastador regresso à balança do poder dos Estados nacionais.

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União Europeia (UE) | O dia da Europa Carlos Esperança

Quem tem memória da ditadura e do atraso do Portugal salazarista não esquece o que deve à UE que hoje celebrou auspiciosamente a data durante a cimeira portuguesa, com o discurso notável de António Costa a abrir, na qualidade de Presidente da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, a Conferência sobre o Futuro da Europa, com Ursula von der Leyen e o Presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli.

Após a parceria estratégica com a Índia, de enorme relevância, e da colocação do pilar social no centro das políticas europeias, seria injusto ignorar o mérito português para o futuro comum da Europa.

A UE é um projeto singular, nascido no rescaldo da última Guerra Mundial, após 60 ou 70 milhões de mortes, o maior desastre de origem humana de toda a História. O Dia da Europa, instituído em 1985, celebra a proposta do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês Robert Schuman, que, a 9 de maio de 1950, cinco anos depois do fim da II Guerra Mundial propôs a criação de uma Comunidade do Carvão e do Aço Europeia, precursora da União Europeia.

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N.Y.TIMES | JOE BIDEN APOIA QUEBRA DAS PATENTES | por Carlos Fino

PARA ACELERAR PRODUÇÃO DE VACINAS NO MUNDO INTEIRO

The Biden administration on Wednesday came out in support of waiving intellectual property protections for Covid-19 vaccines, a breakthrough for international efforts to suspend patent rules as the pandemic rages in India and South America.

The United States had been a major holdout at the World Trade Organization over a proposal to suspend intellectual property protections in an effort to ramp up vaccine production. But President Biden had come under increasing pressure to throw his support behind the proposal, including from many congressional Democrats.

Katherine Tai, the United States trade representative, announced the administration’s position in a statement on Wednesday afternoon.

“This is a global health crisis, and the extraordinary circumstances of the Covid-19 pandemic call for extraordinary measures,” she said. “The administration believes strongly in intellectual property protections, but in service of ending this pandemic, supports the waiver of those protections for Covid-19 vaccines.”

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

Medalha de Valor e Altruísmo do Município de Alcanena, atribuída ao Serviço Nacional de Saúde | 8 de Maio de 2021 | 107º aniversário da fundação do Concelho

Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, Receberá Medalha de Valor e Altruísmo do Município de Alcanena, atribuída ao Serviço Nacional de Saúde

O Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, estará amanhã, dia 8 de maio, em Alcanena, para participar na Sessão de Atribuição de Condecorações Honoríficas, no âmbito das comemorações do 107º aniversário da fundação do concelho, onde receberá, da Presidente da Câmara, Fernanda Asseiceira, a Medalha de Valor e Altruísmo do Município de Alcanena, atribuída ao Serviço Nacional de Saúde.

A atribuição desta condecoração foi aprovada em reunião extraordinária da Câmara Municipal, realizada no passado dia 4 de maio, em homenagem e reconhecimento pela entrega e dedicação de todos(as) os(as) profissionais de saúde, que dão corpo ao Serviço Nacional de Saúde Português.

Com o último ano marcado pela pandemia, o executivo municipal, neste importante momento para o Concelho de Alcanena, considerou relevante uma homenagem de reconhecimento a todos(as) os(as) “heróis” e «heroínas» das várias instituições e áreas do Serviço Nacional de Saúde, que, diariamente, têm apoiado a população do concelho de Alcanena e, de forma ainda mais complexa e exigente, vencendo a Pandemia e procurando, todos os dias, salvar as pessoas.

Retirado do facebook | Mural de Câmara Municipal de Alcanena

A Criança que Pensa em Fadas Fernando Pessoa / Alberto Caeiro

A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Napoleão: foi em Portugal que começou a queda

Cumprem-se hoje 200 anos sobre a morte de Napoleão Bonaparte, o homem que veio da obscuridade, subiu às culminâncias, fez-se Imperador dos Franceses e morreu degredado numa ilha semi-desértica do Atlântico Sul.

Há um culto popular em torno de Napoleão e do 1.º Império, adesão que não se confina ao hexágono. Há estátuas e bustos celebrativos de Napoleão um pouco por todo o mundo e na Bélgica, Holanda, Itália, Canadá, Estados Unidos e México, activas associações de estudos incensam, entre a lenda e a realidade, a personalidade de Napoleão. Este sobrevive ao tempo, os seus aforismos, a petite histoire das suas paixões e anedotário são património comum, até das pessoas que não lêem; a sua aventura, das escarpas escalvadas da Córsega aos campos de Waterloo, da sagração a Santa Helena, surgem como irresistíveis histórias quase tocadas pelo fabuloso. Napoleão não deixa ninguém indiferente. A passagem pela história europeia de um homem desses, que se afirmava expoente da razão e em quem outros viram a história montada sobre um cavalo, continua a ser uma bela história.

Em 1809 e 1810 em Portugal, em 1812 na Rússia e em 1815 em Waterloo, a estrela de Napoleão empalideceu, congelou e estilhaçou-se. A derrota do Ogre, do Anti-Cristo, do Crocodilo Corso, da Besta Monstruosa, Novo Átila ou simplesmente Bonny para os britânicos – então satirizado como tronco de couve decepada, bilha partida, boneco esventrado – também convidava a interpretações providencialistas e dos desígnios de Deus, mudo desde 1789, em vão confiante no arrependimento dos homens, até finalmente se pronunciar, castigando aqueles que Dele se haviam afastado.

Entre o mito e a lenda, a propaganda e a caricatura, importa fazer a pergunta fatal. Quem derrotou Napoleão? Ora, Portugal, a Rússia e a sempre teimosa Inglaterra. Portugal foi o primeiro grande fracasso político e militar do Imperador. Há que lembrá-lo, sempre, pois, a quantos pensam [erradamente] que aquela partida da Família real para o Brasil foi um acto de cobardia. Não, se a família real portuguesa tivesse caído nas mãos de Junot, não teria havido resistência popular, heróica e desesperada, assim como não teria havido o levantamento nacional espanhol e a invasão de França pelos exércitos coligados. Se portugueses e russos não o tivessem detido, Napoleão teria triunfado e o curso da história teria sido diferente.

MCB in Nova Portugalidade

PERMANÊNCIAS | Vítor Serrão

Na entrevista de Luís Miguel Cintra saída ontem no Expresso, o actor narra uma conversa com Manoel de Oliveira onde o cineasta lhe disse: «Sabe como é a morte ? A pessoa deita fora o último suspiro, é o espírito que abandona o corpo.

O corpo morre completamente, é lixo, mas o espírito sai e mistura-se com o espírito universal.

É como os rios, que perdem o seu carácter quando chegam ao mar. Mas fazem parte dele, e ele é igual em toda a parte». Conclui Cintra (que é crente): «Esta explicação é aquela que, usando conceitos nossos, humanos, me pareceu a melhor».

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Quando Rio, Santos, Ventura e Figueiredo se encontram num salão | Francisco Louçã in Jornal Expresso

É uma festa, que promete nada mais e nada menos do que abundar sobre a “reconfiguração social, política e económica para as próximas décadas”, nas vésperas da inauguração do congresso do Chega, que foi apontada para o faustoso dia 28 de maio. A caminho destas décadas tão prometedoras, a convenção do MEL junta os chefes dos quatro partidos da direita, os recentemente chegados encerram as manhãs, os que têm mais pedigree encerram os dias (Rio faltou no ano passado, vai este ano ser a estrela da companhia). Acrescenta-se a aristocracia do Observador, que veio em peso, José Manuel Fernandes, Rui Ramos e Helena Matos, mais alguns cronistas avulsos (e que injustiça esquecerem os do Sol), um painel dos notáveis do PS que são parceiros deste mundo, Luís Amado, Sérgio Sousa Pinto, Álvaro Beleza, mais um ex-governante PS que era do PSD e retornou ao PSD, Nogueira Leite, também Henrique Monteiro, não podia faltar, e mais algumas glórias laranjas, Joaquim Sarmento, Miguel Morgado e Poiares Maduro, desta vez Montenegro foi esquecido, e do CDS, Paulo Portas. Há ainda uma feira de extravagâncias: o representante dos hospitais privados, Óscar Gaspar, ou Camilo Lourenço, que escreve sobre a “deriva bloquista de Vítor Gaspar” e do FMI, lá se irão explicar ao Centro de Congressos. Numa palavra, está toda a gente que devia estar e, em vez de notarem com surpresa esta confraternização, os analistas deviam saudar o acontecimento, do qual resulta um interessante sinal convivial. Quanto mais juntos melhor, quanto mais falarem melhor.

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O que devíamos todos era olhar para a América de Joe Biden | Paulo Querido

A questão ficará sem resposta uma vez que não temos forma de a responder: foi a extraordinária reversão política levada a cabo em três meses pela administração Biden que apagou Donald Trump do espaço público americano (e mundial), ou foi o facto de ter sido banido do Twitter, Facebook, Instagram e Youtube?

Podemos sempre dizer: é uma mistura das duas coisas. Ou apostar numa delas. Com todo o respeito pelo papel dos megafones, eu relevo a primeira. Porque o que Joe Biden fez à America é notável. Um terramoto que ainda não terminou e que terá réplicas. E uma completa surpresa — primeiro julguei que era uma questão minha, por achar que era tarefa muitíssimo difícil retirar as aspas que Trump colocou em Estados “Unidos” da América, depois percebi que está toda a gente de cara à banda.

Esperava-se uma administração bem menos enérgica, centrista e apaziguadora, a garantia de que Biden não era Sanders, um “socialista”, ai, vade retro. Um velhinho a preparar a Casa Branca para a sua vice, essa sim um poço de energia, Kamala Harris. E esperava-se porque toda a campanha foi isso: o partido democrata a adormecer o eleitorado no embalo do centrismo, o próprio Biden repetiu “I’m not a socialist” bastas vezes.

Peeeemmp!, wrong. Saiu na rifa uma administração revolucionária, não encontro palavra mais adequada. A coragem de dez Obamas, a competência de cinco Clintons.

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Faltam 2 dias para o mais belo de todos os dias | Carlos Esperança

Faltam 2 dias para o mais belo de todos os dias (texto reeditado)

Há quem, antes, não tivesse precisado de partido, quem não sentisse a falta da liberdade, quem se desse bem a viver de joelhos e a andar de rastos.

Houve cúmplices da ditadura, bufos e torturadores, quem sentisse medo, quem estivesse desesperado, quem visse morrer na guerra os filhos e nas prisões os irmãos, e se calasse. Houve quem resistisse e gritasse. E quem foi calado a tiro ou nas prisões.

Uns pagaram com a liberdade e a vida a revolta que sentiram, outros governaram a vida com a vergonha que calaram.

Houve quem visse apodrecer o regime e quisesse a glória de exibir o cadáver e a glória da libertação. Viram-se frustrados por um punhado de capitães sem medo, por uma plêiade de heróis que arriscaram tudo para que todos pudéssemos agarrar o futuro.

Passada a euforia da vitória, ninguém lhes perdoou. Os heróis da mais bela revolução da História e agentes da maior transformação que Portugal viveu são hoje proscritos e humilhados por quem lhes deve o poder.

Uns esqueceram os cravos que lhes abriram a gamela onde refocilam, outros reabilitam os crápulas que nos oprimiram, outros, ainda, sem memória nem dignidade, afrontam o dia 25 de Abril com afloramentos fascistas e lúgubres evocações do tirano deposto.

Perante os ingratos e medíocres deixo aqui a TODOS os capitães de Abril o meu eterno obrigado.

Não quero saber o que fizeram depois, basta-me o que nesse dia fizeram.

Obrigado a todos. Aos que partiram e aos que estão vivos. Por cada ofensa que vos fazem é mais um pedaço de náusea que provocam.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

SONDAGEM EXPRESSO/SIC | 23-04-2021

SONDAGEM DO ICS/ISCTE PARA A SIC E O EXPRESSO


PS – 37%, PSD – 29%, BE – 9%, CDU – 7%, CH – 6%, PAN – 2%, CDS – 1%, IL – 1%


1) A Direita continua em minoria;


2) o PS continua longe da maioria absoluta;


3) o BE e a CDU sobem;


4) o CHEGA desce (e é ultrapassado pela CDU).

ESQUERDAS = 37 + 9 + 7 + 2 = 55%
DIREITAS | Sociais-democratas, Conservadores, Centristas, Liberais e Extrema-Direita = 29 + 6 + 1 + 1 = 37%

MIAU… | Helena Ventura Pereira

Nicolau Maria de Vasconcelos e Arronches de Meneses Nicólidas Chuchu Maria Zé Ponche. Era o nome do gato persa (julgavam eles) dos meus primos. O mais velho dera-lhe os de porte aristocrático. O mais novo não se lembrava de nenhum com pedigree e oferecia a possível colaboração.

O gato não se importava. Confortado pela vestimenta do mais puro cinza, vaidoso do amarelo esverdeado dos olhos grandes, não se sentia ofendido com a descida à ralé. Afinal eram apenas três detalhes, disfarçados pelo eco dos primeiros nomes com o remate do seu patronímico.

Não sei o que lhe achava de estranho naquela tarde… O Nicolau olhava-me fixamente como se eu fosse uma isca, arqueava o dorso inclinado para as patas da frente… E soltando das entranhas o mais profundo MIAUUU, saltava felino para o meu ombro esquerdo.

Já sei que não vão acreditar, mas desde então inclino-me para esse lado e não quero que me corrijam a postura. Já me habituei ao defeito.

Maria Helena Ventura – 22 de Abril de 2021

Pintura de GEORGY KURASOV

Retirado do Facebook | Mural de Helena Ventura Pereira

MOÇAMBIQUE A URGÊNCIA DE AGIR Paulo Sande

Há alguns meses escrevi e partilhei um texto sobre Moçambique, mais particularmente sobre o norte de Moçambique, a pedir ao governo – e a quem tem poder para isso, neste Mundo de poderes múltiplos em que o mais poderoso, quiçá, é o do dinheiro – que interviesse com urgência para proteger e mitigar o sofrimento dos nossos amigos. Dos nossos irmãos moçambicanos.

Desde então, piorou a situação e nada de intervenção (a cacofonia, para os menos sensíveis à sinestesia, é propositada). Só notícias, mais notícias, sobre crianças decapitadas e outras bonomias.

O horror é o horror é o horror. Claro que à distância e praticado sobre gente miserável que nada tinha e a quem, imagine-se, até esse nada foi tirado, é tudo mais confortável e choramos, com denodo e sinceridade, lágrimas de crocodilo. “Coitados”, e segue a dança.

Conheço bem os argumentos que se opõem a uma ação mais firme por parte de Portugal ou os dos que a consideram impossível ou inútil. Eis alguns deles e a resposta possível.

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C E R T A M E N T E ! | FUTEBOL | Tanta indignação para quê? | PAULO QUERIDO

Hoje descrevo o início do próximo ciclo de 30 anos do que já foi um desporto de paixões: a atividade económica do espetáculo do futebol, maximizada numa Superliga europeia. Tanta indignação para quê? É apenas o capitalismo, estúpido.

A Superliga Europeia é o fim do futebol? São precisas apenas duas letras para a resposta curta: . Vamos à resposta média.

As empresas detentoras das 12 marcas futebolísticas mais proeminentes da Europa formalizaram a criação de uma prova em circuito fechado, a Superliga Europeia, pouco antes de a UEFA anunciar a nova Liga dos Campeões no domingo à noite. Adeptos, futebolistas e governantes reagiram com gruas diferentes de consternação e antagonismo. O fim do futebol— decretaram muitos.

Do que se queixam?

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Quadro de Honra de Abril | Carlos Esperança

Quadro de Honra de Abril – Instituições e pessoas de quem gosto

Num país onde um indivíduo cortado às rodelas por um herdeiro apressado merece mais protagonismo do que um cientista de topo, uma atleta de exceção e servidores públicos notáveis, é de elementar justiça mencionar quem apreciamos, enquanto lutas partidárias, mitómanos e fascistas procuram destruir os alicerces do Estado de direito democrático.

Militares de Abril – Sempre, grato até à morte;

SNS – Hoje e sempre;

Marta Temido – Ministra da Saúde;

Graça Freitas – Diretora-geral de Saúde;

Gouveia e Melo – Almirante, coordenador do bem-sucedido e exemplar plano de vacinação;

Médicos, enfermeiros e outro pessoal de Saúde;

Telma Monteiro – A judoca europeia mais medalhada de sempre;

Vítor Cardoso – Físico português (IST) a quem foi atribuída uma bolsa de 5,3 milhões de euros na Dinamarca para criar um grupo de investigação no Instituto Niels Bohr, da Universidade de Copenhaga, na Dinamarca, mantendo o seu grupo de investigação em Lisboa.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

A Abrilada de 1961 – Para Angola em força? Não: Para São Bento em Força! | Carlos Matos Gomes

A Abrilada de 1961 – Para Angola em força? Não: Para São Bento em Força!

Ontem, 13 de Abril, passaram 60 anos da Abrilada de 1961 – reduzida na historiografia oficial a um pronunciamento conduzido pelo general Botelho Moniz para afastar Salazar.

A RTP apresentou um apontamento sobre a efeméride, em que participei. Resultante de uma excelente entrevista de quase duas horas com a jornalista Ana Luísa Rodrigues, muito bem preparada e muito bem informada.

A efeméride bem merecia outro tratamento e a direção de informação da RTP tinha a obrigação de lho dar, porque é serviço público.

Tinha a obrigação porque em 13 de Abril de 1961 se jogou o futuro de Portugal: os 13 anos de guerra e a descolonização como ela ocorreu. Eu apresentei o meu entendimento de que Salazar poderia (e deveria) ter evitado guerra e poderia ter aberto Portugal ao exterior. Até a história de África poderia ter sido diferente se o desfecho do que aconteceu a 13 de Abril de 1961 tivesse sido outro, se a Abrilada tivesse vingado.

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NOBRE POVO? | Daniel Oliveira in Jornal Expresso

Abaixo-assinados para defenestrar juízes, a “perplexidade” que a PGR compreende quando não se dirige ao trabalho do Ministério Público, os discursos dos televangelistas da indignação… Tudo é atribuído a uma reforçada exigência cívica.

Vou arriscar: a desilusão da maio­ria das pessoas com a democracia não tem nada a ver com a corrupção, tão antiga como o poder.

Vem quase sempre das condições de vida que ela devolve. Entre muitas razões complexas e nenhuma delas moral, a crise da democracia resulta de vivermos num tempo em que sabemos que o futuro será pior do que o passado. A corrupção até é mais visível, porque a combatemos melhor. Nenhuma república das bananas julga um ex-primeiro-ministro do partido no poder. E desde que Sócrates terá cometido os crimes de que vem acusado evoluiu-se: os prazos de prescrição são mais dilatados e há novos crimes na lei. Há muito a fazer, e não é só na justiça e na política. Também é connosco.

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Hoje atiro-me a José Sócrates. Tinha de chegar a minha vez. | PAULO QUERIDO

Certamente! Qui, 15 abril 2021: Pois mas Isaltino não tinha um apartamento de luxo em Paris.

Hoje atiro-me a José Sócrates. Tinha de chegar a minha vez.

Desagrada-me em José Sócrates a atitude face ao Partido Socialista. As instituições são maiores que as pessoas. Todas as pessoas. Isto inclui fundadores históricos e grandes conquistadores (e criminosos, acumulem ou não com outras definições). Sócrates tem todos os direitos, incluindo o de criticar o seu antigo partido. Criticar não me desagrada. Desagrada-me o modo como o faz: pessoalizando o assunto. Como se ele fosse credor e o partido devedor. Não: o partido não o serve. Ele serviu o partido. Ele, above all people, devia saber o que é um partido político e quais as regras implícitas da vida política.

Para abordar o assunto Sócrates é comum ver declarações iniciais de auto-crítica. O típico “eu até votei nele mas”. Compreende-se, embora seja errado. E corrigir este erro é um dever de cidadania. Vivemos uma época intensa em que cada palavra é um punhal ou um carinho. Por exemplo: eu regressei ao voto no PS por causa de José Sócrates. Mas fui eleitor do PS, não de José Sócrates. A distinção é importante não por qualquer tipo de demarcação — estive em comícios, ouvi Sócrates e outros socialistas, gostei das propostas e achei que ele tinha a visão e a paixão necessárias para conduzir o país e não me arrependo de ter votado nem me envergonho desse momento nem do Sócrates dessa época — mas para ficar claro o ponto principal: em eleições legislativas, votamos em programas de ação e seus executores embainhados por partidos.

José Sócrates é um cadáver político que insiste em circular como se estivesse vivo. É um passivo tóxico desprovido de auto-consciência. Fernando Medina (para minha surpresa) disse o que havia para dizer para o despertar para a dura realidade. Sócrates preferiu continuar no sono a sonhar que tem capital político. Se realmente se vê como um Lula, como decorre de comportamentos e afirmações públicas, é lamentável. Não falo da matéria processual. Comparo somente as figuras políticas. Se tivéssemos uma escala de lulismo de 0 a 10, Sócrates não passava de um 2, correspondente às doses de carisma e importância histórica. E mesmo sobre Lula há dúvidas quanto à sua importância política atual e futura. Sobre Sócrates há a certeza de que passou a capital negativo.

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A justiça das multidões | Carlos Matos Gomes

A justiça das multidões. Baudelaire está a ser celebrado a propósito dos 200 anos do seu nascimento e como o poeta maldito que modernizou a poesia, com o célebre “As Flores do Mal”. É apresentado como um exemplo do conflito entre o comportamento do individuo, mesmo que marginal (como era o seu caso) e a multidão, que teve lugar no período revolucionário em França e de que vivemos hoje aqui em Portugal uma réplica à nossa escala.

Baudelaire utilizou expressões “goût de la vengeance” (gosto da vingança) e do “plaisir naturel de la demolition” (prazer natural da destruição), para classificar as atitudes das multidões.

Podemos utilizá-las hoje a propósito da multidão mediática. Há, segundo as notícias, mais de 150 mil peticionários disponíveis para um lugar de participantes num auto de fé, ou a uma execução com a guilhotina numa praça pública.

O historiador inglês Georges Rudé, em “A multidão na história”, cita as formas de tratamento da multidão de Gustave Le Bon, o criador da moderna psicologia de massas, como: “irracional, instável e destrutiva, intelectualmente inferior aos seus componentes, primitiva, ou com tendência a reverter a uma condição animal”. Le Bon admite também que as pessoas de instintos destrutivos tendem a sentir-se atraídos pela multidão.

Esta antiga qualificação das multidões pode aplicar-se aos movimentos populistas, justicialistas, que medram hoje em oposição a comportamentos geralmente classificados pela trilogia: humano/normal/racional.  Já recebi propostas para integrar esta nova multidão vindas pessoas que julgava normais!

Voltando a Baudelaire, em “Les Veuves”, o poeta que foi acusado de ausência de “mens sana”, de loucura, descreveu o que hoje vivemos, afirmando que multidões refletem “a alegria do rico no fundo dos olhos do pobre”.

 Isto é, há sempre um rico, um pastor, a promover a irracionalidade das multidões e estas não partem à desfilada espontaneamente. As flores do mal crescem e confundem-se com as de um jardim.

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

O que é insuportável em José Sócrates Luís Osório

1. O problema já nem são os processos, a inocência processual ou a culpa redentora para o sistema judiciário. O problema já não é o escandaloso arrastar do caso, as notícias e contra notícias, a quantidade de cofres, as explicações, as fugas de informação, os debates, as intermináveis discussões sobre Ministério Público, juízes, comunicação social. O problema já não é saber o que vai acontecer a seguir. Se o juiz Ivo Rosa é sério ou se está a soldo dos poderosos (seja isso o que for), se a mãe do ex-primeiro-ministro tinha uma herança, se guardava o dinheiro vivo ou se estava morto no banco, se a ex-mulher do ex-primeiro-ministro, mais o amigo milionário, mais Ricardo Salgado e o tipo do negócio do sangue e todos os personagens desta novela, têm ou não provas suficientes contra si.

2. O problema é todo este esgoto. Esta imundície moral. Este despudor. Não me interessa se José Sócrates é culpado ou inocente, o problema é que foi primeiro-ministro e teve o meu voto nas eleições em que teve maioria absoluta, o meu e o de milhões de portugueses. E voltou a ter o voto de milhares e milhares nas eleições seguintes (aí já não o meu).

3. O problema é que este senhor nos enganou. O problema é que tinha uma vida desbragada, uma vida de luxúria com dinheiro que ia buscar aqui e ali quando, no exercício das suas funções, pedia sacrifícios aos portugueses. O problema é todo o circo que montou. O poder que acumulou fazendo o que fosse preciso. O problema é tudo o que ouvimos dizer através da sua defesa, dos argumentos que utiliza, da vida que tinha, dos amigos que tinha, do dinheiro que circulava sem pudor, do modo como tratou a função de primeiro-ministro, da falta de dignidade que emprestou à sua função com a vida que decidiu ter.

4. Não, o problema não é o que o pode condenar. As alegações de corrupção prescrita ou não, os indícios ou a falta deles, os testas de ferro, as seis mil páginas do processo, o branqueamento de capitais ou as falsificações e a fraude fiscal.

Dou isso de barato.

O problema, o que verdadeiramente é insuportável, é o cheiro que isto tem a lama que nos foi atirada à cara por um homem em quem o país confiou e ofereceu uma maioria absoluta. Isso é simplesmente imperdoável.   

LO

Retirado do facebook | Mural de Luís Osório

FAZER PELA VIDA | Tiago Salazar

FAZER PELA VIDA I Abstenhamo-nos por instantes de julgar o juiz Rosa, os labregos, o tio Ricardo, o José.

Pensemos nisto: tenham ou não arrebanhado uns milhões, e porfiado no arrebanho de formas mais ou menos ínvias, todos os visados, esses malditos corruptos e corruptores, procuraram a sua felicidade e dos familiares e amigos.

Isto é digno de atenção.

Se um amigo nos acenasse com um milhãozito para lhe fazermos um obséquio digam lá que não hesitavam?!

Estamos furiosos porque isto é um regabofe, como se sentíssemos que o José e seus comparsas tivessem sido apanhados a lamber o nosso pote de mel.

Cambada de ursos gulosos é o que é.

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

SOFAGATE | A IMORAL MORALIDADE DA EUROPA | Paulo Sande

NÃO

Não aceitamos que o passado esclavagista da Europa, cujos epígonos são sobretudo portugueses, britânicos, espanhóis, franceses, permaneça vivo nos livros de História (e até nas histórias sussurradas de geração em geração). Em nome da moralidade e dos princípios, não o podemos aceitar, ainda que tenha sido essa mesma Europa a proclamar a imoralidade da escravatura e a decretar “urbi et orbi” a sua abolição.

MAS SIM

Toleramos o passado esclavagista de outros continentes, países e regiões, onde ainda hoje milhões de seres humanos vivem em condições que, quando não são de escravatura, são-no da mais abjeta servitude.

NÃO

Não aceitamos que as mulheres, a outra metade da Humanidade, sejam tratadas como seres de segunda categoria, sexualizadas para além da decência (um prolongamento da moral feita ética), maltratadas e abusadas. “Me too” e outros movimentos, todos de origem ocidental, o que é quase o mesmo que dizer europeia, decretaram respeito, consensualidade, tratamento igualitário. E se há abusos e excessos, o princípio é sagrado – homens e mulheres, iguais perante Deus, a sociedade, a lei.

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