Uma bastonária irresponsável? | José Gameiro in Jornal Expresso 

O psiquiatra José Gameiro critica a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, por uma declaração “falsa e demagógica” que, diz, o deixou “envergonhado”.

Já critiquei publicamente o meu bastonário, quando abandonou o Conselho Nacional de Saúde só porque o seu então presidente propôs discutir o eventual novo perfil funcional dos enfermeiros.

Mas não queria acreditar quando ouvi a bastonária da Ordem dos Enfermeiros comentar a greve dos enfermeiros dos Blocos Cirúrgicos de cinco hospitais públicos.

Começou por afirmar que há muito tempo que já morrem doentes por falta de enfermeiros. Tem toda a razão quando diz que há falta de enfermeiros nos hospitais e no Serviço Nacional de Saúde, que são mal pagos, que fazem um enorme esforço por manter as boas práticas, que sem a sua dedicação nada seria possível.

Mas dizer que morrem doentes por falta de enfermeiros é uma declaração falsa, vazia de provas, demagógica. Morrem doentes porque não há solução para eles, morrem por erro médico ou de enfermagem, morrem também, felizmente poucos, por negligência das duas classes. E também porque o nível de infeção hospitalar, apesar de estar a baixar, ainda é elevado nalguns hospitais.

Esta segunda-feira, ao comentar a longa greve prevista às cirurgias, disse que iriam morrer doentes devido a esta paralisação. Uma bastonária dizer isto é de uma enorme gravidade. Se pensa que vão morrer doentes só tem uma solução decente e humana: declarar-se abertamente contra a greve, porque jurou, tal como nós, médicos, defender em primeiro lugar os doentes.

Não vou aqui repetir o blá blá dos políticos, a greve é um direito, etc., mas há limites para a irresponsabilidade. A bastonária dos enfermeiros não pertence à minha classe profissional, mas mesmo assim tenho o direito de me sentir envergonhado, tal como me senti quando o meu bastonário foi leviano.

Que raio de Portugal é este em que, perante declarações como esta, ninguém “abre a boca”?

Se eu fosse partidário da teoria da conspiração diria que, assim, quem ganha cada vez mais são os hospitais privados, onde, estranhamente, nunca há greves e para onde, “fogem” os doentes que podem que estão à espera de cirurgias.

Este artigo foi escrito no dia 10 à noite

José Gameiro in Jornal Expresso

https://leitor.expresso.pt/diario/terca-7/html/caderno1/primeira-pagina/O-dia-em-que-o-mundo-girou-ao-contrario-no-Parlamento.-PSD-propoe-delacao-premiada-contra-opiniao-de-vice-presidente-e-de-porta-voz-do-partido.-Marcelo-faz-70-anos.-Agora-so-falo-de-anos-aos-100

Imperialismo chinês | Luís Fazenda in “Esquerda.net”

Agora que a vasta corte do presidente vitalício Xi Jinping abandonou Portugal, será porventura útil aclarar algumas referências chave sobre a potência oriental.

A China é uma potência capitalista que se aproxima de ser a líder mundial em termos económicos, dispondo de recursos militares e tecnológicos muito significativos.

O seu traço capitalista não pode ser iludido a pretexto da existência de empresas públicas. O capitalismo privado convive bem com setores ligados ao capitalismo de Estado. Aliás, a orientação estatal tem sido,de há muitas décadas, a da extensão do mercado, da intensificação da exploração laboral, muito para além das chamadas zonas económicas especiais (estas declaradamente capitalistas).

A orientação estatal tem sido também a aposta acelerada do produtivismo antiambiental. A constatação deste processo, e respetivos factos, poderia parecer óbvia, à vista desarmada, mas torna-se necessária sublinhá-la quando ainda há quem ache que a República Popular da China é um país socialista pelo simples facto de ser dirigida pelo Partido Comunista. A caricatura desse partido político-militar é a acusação de repressão dura das massas operárias para quem o direito à greve é inexistente.

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NÓS E A CHINA | Mário Machaqueiro in Facebook

É muito provável que, nos tempos que correm, estejamos de facto a assistir à transferência de hegemonia sobre o sistema mundial capitalista das mãos dos Estados Unidos para as da China. A América do Norte não é, de todo, uma potência moribunda ou sequer à beira do estertor, continua a dispor de músculo económico-financeiro e do maior potencial militar à escala do planeta, suficiente para provocar uma persistente e estratégica desestabilização na região do planeta onde se concentram as maiores riquezas petrolíferas. Contudo, a sua crescente desorientação e as sucessivas derrotas que, mesmo nessa zona, tem vindo a registar mostram que o brutalismo bélico não é, por si só, um argumento de poder suficiente. Por outro lado, a desindustrialização e as perdas competitivas que os Estados Unidos têm conhecido nas últimas décadas são sinais de um declínio do qual a eleição de Donald Trump é mais do que um sintoma.

O isolacionismo que Trump reclama e o apelo ao “slogan” da “América novamente grande” reflectem uma consciência de que os ventos estão longe de correr de feição para a “Terra dos Bravos”. Gostamos de encarar o actual presidente da América como uma besta quadrada. E ele é-o realmente. Mas só até certo ponto. Porque, naquilo que é fundamental (entenda-se: para os interesses hegemónicos norte-americanos), Trump não se engana: ele já percebeu muito bem que a China é o grande rival (ainda por cima detentor da maior parte da dívida externa dos Estados Unidos), que a Rússia continua a ser uma potência com que será preciso contar no futuro e que a Europa da União Europeia é uma coisa desprezível que pode ser tratada com os pés.

A China, em contrapartida, cavalgando a sua estratégia da “Nova Rota da Seda”, parece apostada em ilustrar como a hegemonização do sistema capitalista pode ser obtida por meios “pacíficos”, essencialmente comerciais, num plano que não deixa de ser expansionista mas que se afirma estranho a desígnios de dominação imperial global – bem distinto, pois, daquilo que sempre inspirou os Estados Unidos. O que, convenhamos, não é propriamente uma notícia má para o mundo, mesmo descontando o facto de o regime político chinês ser bastante hediondo (mas quantos crimes de escala mundial não resultaram dessa florescente “democracia” que a América do Norte tanto gosta de ostentar?).

É neste contexto geopolítico – sobre o qual muito fica por dizer – que interessa ler a recente jogada de aproximação da política externa portuguesa relativamente à China. Vejo por aí muitas almas escandalizadas por António Costa ter estendido a passadeira vermelha a Xi Jinping – as mesmas almas que nunca se indignaram com décadas e décadas de sabujice dos governos portugueses perante os ditames imperiais norte-americanos. Mas o que António Costa está a preparar – a meu ver, com inteligência – é o cenário de inserção da economia lusa num contexto pós-União Europeia. Pois importa não nos iludirmos: a União Europeia tem os dias contados. Poderá arrastar a agonia por mais uns anos, mas o austeritarismo que constitui o seu núcleo celular, o seu código genético, só poderá conduzir à implosão e ao retorno a uma política das nações – com todo o seu cortejo de coisas medonhas – de que a erupção generalizada de movimentos e partidos nacionalistas xenófobos e fascitóides, com crescente expressão eleitoral, representa um anúncio eloquente.

A União Europeia vai fragmentar-se, o que vem aí não vai ser bonito, e António Costa está a ver se coloca Portugal em posição de não soçobrar completamente à tempestade que se avizinha e de procurar um resguardo capaz de lhe proporcionar alguma viabilidade no plano económico e financeiro. Para um país dependente como o nosso, que perdeu nos últimos trinta anos boa parte das condições da sua soberania efectiva, o projecto de diversificar os seus laços de dependência não constitui, por si só, uma solução milagrosa para as nossas insuficiências estruturais, mas permanece, mesmo assim, uma boa ideia. Porque nos permite encontrar uma almofada no quadro da gigantesca crise económico-político-social que, não tenhamos dúvida, nos irá bater à porta num futuro breve.

Seria preferível que os nossos parceiros tivessem um rosto mais simpático e não arrastassem consigo um sinistro lastro ditatorial e totalitário. Infelizmente, porém, o realismo estratégico desaconselha, neste particular, quixotismos idealistas que, apaziguando as boas-consciências, se revelam depois impotentes para responder aos desafios que temos pela frente. Pode ser que, entretanto, as transformações internas que a China não deixará de atravessar consigam trazer ganhos em direitos sociais e laborais que acabarão por se repercutir no resto do mundo capitalista.

Mário Machaqueiro

Retirado do Facebook | Mural de Mário Machaqueiro

JOSÉ PACHECO PEREIRA | OPINIÃO | Aprender com a crise da Fundação Mário Soares | in Jornal Público

A crise na FMS tem outro efeito perverso que é a desconfiança de que a entrega de espólios e acervos a instituições que pareciam sólidas se revele instável com o tempo.

Este artigo pode ser entendido como manifestando um conflito de interesses. Fica já isto dito à cabeça, embora pense que na verdade não o seja, visto que o que me move é uma questão de interesse público que está muito para além de também eu “andar aos papéis” para o Arquivo Ephemera.

O assunto é, como é óbvio, a crise da Fundação Mário Soares (FMS), uma instituição com enorme mérito, que muito estimo e que acompanho praticamente desde a sua criação. Aproveito, aliás, para dizer que o que se diz pelas redes sociais e nos comentários, mesmo de leitores do PÚBLICO, sobre essa crise me merece a maior repulsa e um sentimento de vergonha pelos meus semelhantes capazes de se regozijarem com o que se está a passar em nome do ódio a Mário Soares. Esse ódio justifica para eles uma política de terra queimada, o equivalente a queimar livros numa pira como se fazia nos tempos do nacional-socialismo. A crise da FMS empobrece-nos a todos e torna Portugal pior.

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CADA PESSOA QUE INSULTAVA UM GILET JAUNE INSULTAVA O MEU PAI | Edouard Louis | Tradução de Ana Cristina Pereira Leonardo

“Modesta tradução do corajoso texto de Edouard Louis publicado na revista Les Inrockuptibles, para aqueles que não sabem francês. E sim, ele sabe do que fala. Salvo pela escola pública, como o próprio disse, tem pelo menos um extraordinário livro traduzido em Portugal: «Para Acabar com Eddy Bellegueule».” (Ana Cristina Pereira Leonardo)

Há já alguns dias que tento escrever um texto sobre e para os gilets jeunes, mas não consigo. Porque, de certo modo, me sinto pessoalmente visado, algo na extrema violência e no desprezo de classe que se abatem sobre esse movimento me paralisa.
Tenho dificuldade em descrever a sensação de choque quando vi aparecerem as primeiras imagens dos gilets jeunes. Nas fotografias que acompanhavam os artigos via corpos que raramente aparecem no espaço público e mediático, corpos em sofrimento, arruinados pelo trabalho, pelo cansaço, pela fome, pela humilhação permanente dos dominadores em relação aos dominados, pela exclusão social e geográfica, via corpos cansados, mãos cansadas, costas alquebradas, olhares exaustos.

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“A leitura feita sobre os gilets jaunes” | Sofia Amaro

Constato que a leitura feita sobre os gilets jaunes, nestes dias, é de tal forma enviesada que até o establishment avança amiúde com acusações excessivas, como sendo a extrema-direita ou o Steve Bannon que estão por detrás dos últimos tumultos protagonizados pelo movimento. E ninguém omite o facto de existir um aproveitamento político por parte da oposição, inclusive do FN, ou por parte de grupúsculos da ultradireita, no caso de Yvan Benedetti, ex-presidente do grupo ultranacionalista “L’œuvre française”. Seria simples se fosse apenas assim, mas basta andar nas ruas e estradas e constatar in loco o mar de descontentamento que se organiza horizontalmente e avançaria, com o que me foi dito, por vários quadrantes partidários e abstencionistas. Se por um lado, Macron esticou a corda liberal, a forja da espada de Dâmocles que pesa sobretudo sobre a classe média, é o resultado de uma política levada a cabo pelos sucessivos governantes, desde Chirac a Hollande, e não posso deixar de fazer aqui uma alusão às consecutivas políticas europeias. Todos encontraram fundamento e escola no TINA, na convergência dos tratados que reduziram implacavelmente o poder económico e social das pessoas nestes últimos anos, essas mesmas que se viram com as vidas esvaziadas de sentido, empurradas para a periferia, não só territorial, mas também longe dos centros de decisão, como meros joguetes para alimentar estratégias orçamentais. Os gilets jaunes representam o descontentamento de uma população que tem sido constantemente espoliada e esmagada por estados cada vez mais repressivos, impondo garrotes fiscais que se têm revelado iníquos e asfixiantes, sendo acompanhados de forma dolosa pela depauperação dos serviços públicos. As desigualdades têm sido ao longo da história o rastilho de insurreições, e aqui vislumbramos o presságio de “sous les pavés, la plage”, com a quase idêntica ordem dos soixante-huitards ou a violência entre os manifestantes GJ e os CRS. Palavras subversivas para uma população que se encontra melindrada e sob a premissa até agora da alienação, no início utilizada para embrandecer o espírito, basta analisar o papel dos OCS na marginalização educativa nos últimos decénios, como referiu Todd, acabando por ser descartada e descartável no injusto ascensor social.

Falando agora nas taxas sobre os combustíveis, é de facto uma medida punitiva pois parte do princípio que só o consumidor final será penalizado, excluindo os principais actores como a indústria automóvel, a indústria da aviação ou do transporte marítimo. E se mencionamos as medidas ecológicas, e aqui até a demissão de Hulot nos deu uma achega, não basta taxar novamente com medidas avulsas, remediar com o saco de plástico, mas por outro lado liberalizar ainda mais a caça ou avançar com moratórias sobre o glifosato. São estas as incongruências que entram em casa de cada francês, já agora de cada um de nós. Porque, vamos lá, temos o diesel, mas depois temos por exemplo a aviação civil ou a marítima. O avião emite entre 134 e 148 gramas de CO2 por passageiro ao quilómetro, contra 2,6 gramas para o comboio, segundo a consoglobe, e cada quilómetro adicional de voo resulta em querosene adicional queimado na atmosfera. Para cada quilo de querosene usado, 3 quilos de CO2 são emitidos. Segundo dados da ACNUSA, o avião é a principal fonte de emissões locais em plataformas para a maioria dos poluentes com níveis de emissão significativos como os óxidos de nitrogénio NOx, dióxido de carbono CO2, dióxido de enxofre SO2, monóxido de carbono CO. Segundo a FNE, a ONG alemã NABU, e outras instituições, a proliferação de cargueiros e indústria marítima, que usam principalmente um subproduto do petróleo e combustível pesado, é responsável pela emissão de grandes quantidades de partículas finas, óxidos de enxofre e óxidos de nitrogénio. Este poluente é uma das principais causas do problema de acidificação das chuvas, sendo extremamente tóxica para a saúde. Depois temos o consumo excessivo de carne, responsável pela duplicação das emissões de dióxido de carbono, quando sabemos que as grandes explorações agropecuárias​ são responsáveis não só pela deflorestação mas também pela emissão de gás metano; o consumo desmedido de peixe, que fez com que os oceanos tenham entrado em falência, sendo que a pesca massiva altera o equilíbrio dos fundos marinhos, e para além do processo de acidificação, algumas espécies já pouco proliferam, nomeadamente o bacalhau no Mar do Norte.

Os alertas avançados pelas várias instâncias internacionais são vários, os estudos são públicos, mas continua o frenesi que serve apenas o expurgar da dívida, quando se legitimam as sucessivas artimanhas financeiras, deslocalizando o tesouro público amealhado para fins pouco legítimos, deixando impunes os sucessivos culposos, e desfalcando a nossa única salvaguarda social.

Quem aponta o dedo aos homens e mulheres que se têm erguido nas ruas, não compreendeu ainda o desafio com que nos deparamos, sendo que a violência tem-nos sido revelada pela epidemiologia do suicídio, que vai para além dessas figuras antitéticas de Catão e Ofélia, e das divagações plumitivas, conduzindo à abertura de associações que resguardam a pouca dignidade que resta às pessoas. E elas não são contra a mudança de paradigma, mas não à custa dos últimos euros que lhes sobram a meio do mês, esses poucos euros que não lhes permite comer bio, local… Os que os acusam de “beaufs” são os mesmos que escrevem no telemóvel último modelo, com o coltan selvaticamente explorado e responsável pela disputa do “ouro azul”, ou fazem a lista de viagens turísticas com destinos intercontinentais, lendo artigos no Le Monde sobre esse fascinante mundo do lúmpen. Somos todos muito moralistas e pífios quando se trata de apontar o dedo ao mais fraco, já quanto ao nosso comportamento somos cinicamente indulgentes. Se é para mudar, teremos de mudar radicalmente começando pelas instâncias de poder, não só as políticas mas também as económicas, e mudarmos implica um esforço que terá de se ser exponencial ou nem sequer valerá o saco de amido de milho biodegradável ou mesmo a pedalada nessa ciclovia cosmopolita, que se pode transformar neste aparato mundial, e como todas as medidas avulsas, num estafado calcanhar de Aquiles.

Sofia Amaro 

Retirado do Facebook | Mural de Sofia Amaro

L’oiseau et la rose blanche | Malika Bouazza

Il était une fois un oiseau qui est tombé amoureux d’une rose blanche. Il a décidé de lui déclarer son amour, mais elle l’a refusé. Elle lui a dit qu’elle ne l’aimait pas. Il continuait à lui déclarer son amour de façon quotidienne.
Enfin, la rose blanche a dit : «Lorsque ma couleur deviendra rouge, je vous aimerai.”
Un jour, l’oiseau est venu et a coupé ses ailes et a propagé son sang sur la rose blanche, alors sa couleur est devenue rouge.
La rose a réalisé combien l’oiseau l’aimait mais c’était trop tard parce que l’oiseau est “mort”.
Parfois l’amour on le voit, mais on ne le reconnaît pas …

Retirado do Facebook | Mural de Malika Bouazza

TOURADAS SEM SANGUE, RACISMO, VIOLÊNCIA AMERICANA E PEQUENAS PROVOCAÇÕES LOCAIS | José Gabriel Pereira Bastos

Alguém me convoca céptica e provocatoriamente para que eu “explique” porque é que as touradas causam tanta indignação a tanta gente e a mim não.

Respondi.

Transfiro para aqui a resposta porque abarca muito mais variáveis, identitárias, históricas, sociais, políticas, e até a minha experiência Californiana directa sobre a Universidade, a tourada sem sangue e a interdição de realizar investigações sobre processos identitários, indiciadores de racismo, em Berkeley e San José. Aí vai a minha resposta, que pode interessar a muitos mais interlocutores não meramente provocatórios, egocêntricos e surdos:

“Talvez seja, J., porque muitíssimas pessoas têm vistas curtas e vivem desinformadas e sem terem qualquer pesquisa pessoal sobre o que de tão grave se passa no mundo – com tropas americanas a invadir o Afeganistão, a destruir o Iraque e a tentar destruir a Síria, a assassinar Presidentes do Iraque e da Líbia, tornando este país ingovernável e entregue a senhores da Guerra, como está a acontecer no Iemen, e se prepara que venha a acontecer no Irão, com centenas de milhar de mortos e muitos milhões de deslocados.

E com a promoção de crises financistas que criam o caos económico, social e político na Venezuela e no Brasil, deixando pessoas à fome, na tentativa de mudar para a direita capitalista governos populares de países que são grandes produtores de petróleo, como os do Médio Oriente islâmico e, não por acaso, a Venezuela e o Brasil, os maiores produtores de petróleo para além dos Estados Unidos e da Arábia Saudita e Emiratos, (aliados dos Americanos), e dos Russos, fortemente atingidos pela crise financista manipulada a partir de Wall Street, da City e de Frankfurt.

“Jogos” geo-estratégicos capitalistas do “Ocidente” que destroem países e famílias – dramas imorais que passam fora do olhar, da indignação e do pensamento dos adeptos da Natureza, com uma enorme iliteracia histórica, económica e política mas com enormes cuidados com os seus animaisinhos de sala.

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Depressão | Tiago Salazar

Andrés Iniesta, um dos meus jogadores de eleição, assumiu ter sofrido de depressão, e de como a dita intrusa se instalou e lhe tirou o gosto e as sensações. “Só pensava em tomar o comprimido e dormir”. A depressão instala-se quando o sonho deixa de comandar a vida. É uma dor que desatina sem doer. É uma doença curável, mas incapacitante. Um comprimido serve de rede e um deprimido não é um atrasado mental. Pode bem ser um inadaptado à frente do seu tempo. Os deprimidos são por regras sensíveis e hiper sensíveis. Alguns são reactivos e são deprimidos ansiosos. Outros, afundam-se e estiolam. O pior para um deprimido é a indiferença e a frieza dos que o rodeiam e o tratam como um empecilho à sua felicidade parasitária. A mais premente necessidade de um deprimido (e de qualquer ser humano) é ser olhado como um ser humano, falível e vulnerável.

Tiago Salazar

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

Mulhererengos, femeeiros e outros | Tiago Salazar

Consta, na mais recente biografia de José Saramago, escrita por Joaquim Vieira, haver uma faceta menos conhecida de Saramago, a de um machista. Cresci a ouvir histórias de escritores galifões, casados e pais de filhos, mas dados a conquistas e investidas a eito, mais ou menos consentidas. Por exemplo, só para nomear alguns, José Cardoso Pires, António Lobo Antunes, David Mourão Ferreira, Baptista Bastos, ou, o mais exortado, o pintor de vulvas Henry Miller.
A propensão para o excesso deu cabo de alguns matrimónios e relações, embora muitos se mantivessem casados e as suas mulheres no silêncio. Outras, como Paula Rego ou Frida Kahlo, apesar do muito amor e da felicidade conjugal, seguiram o mesmo instinto. Por ajuste de contas ou paridade. A questão é bicuda: talvez se o ponto de partida fosse cordato não houvesse dominadores e dominados, ou vinganças ao retardador sobre o pressuposto de que ele (ou ela) não eram assim. Talvez o amor exclusivo seja raro, e a arte nascida de grandes amores um mero narcisismo.

Tiago Salazar

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

Para não cair na armadilha: A tourada que ensina a esquerda | Francisco Louçã

A excitação com a magna questão do IVA das touradas é reveladora de uma atitude, de um clima e de um risco.

A atitude é a que se poderia esperar, uma espécie de deslumbramento hiperbólico com a faena, numa espécie de competição entre toureiros que querem ganhar uma volta à praça. O touro foi “adotado pelo homem ibérico, e criado como o mais nobre dos adversários, digno de sobreviver para enfrentar o Homem até ao fim dos tempos, simulando e celebrando, com o cavalo de combate, a tradição milenar do guerreiro ibérico”, escreve Sousa Pinto, em modo de delírio poético. “Até ao fim dos tempos” é muito otimismo, mas o nosso “guerreiro ibérico” tem destas coisas. O mesmo diria da afirmação ousada, e algo constrangedora, de que não percebe poesia quem não festeja a bandarilha ou que namora o totalitarismo quem não comemora rabo e orelha.

Do outro lado, está o clima que dá por certo que, se a violência contra uma cadela é punida com pena de prisão, ou se os combates de cães são proibidos, se os sacrifícios de animais já são interditos e se a tradição nunca mais foi o que era, um dia a exibição do massacre do touro deixará de existir. 

Mas a lição para a esquerda não está nem na radicalização espetacular dos toureiros, nem na certeza tranquila de que o tempo concluirá esta querela. Está na demonstração atual do risco e da vulnerabilidade comunicacional das agendas de entretenimento. Há gente para tudo, como se viu, e sobretudo para a agitação de emoções apopléticas. Com tanta arrebatamento, o efeito de contaminação constrói um artifício de alheamento. Esse é o caldo de cultura em que tudo se confunde, pois se definem linhas de fractura apoiadas na distração. E, como 2019 é um ano de todos os perigos, a lição deste episódio taurino é de grande valia: pois saiba-se na esquerda que só ganhará quem nunca se desviar do que interessa e perderá quem deixar afirmar-se o interesse pelo desinteresse. É a vida das pessoas, mesmo a vida, o salário, a segurança no emprego, a segurança na saúde, o cuidado dos filhos, a pensão, o acompanhamento das pessoas dependentes, que tem que determinar as escolhas. Não será nunca uma bandarilha a definir os campos e os resultados.

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Franciso Louçã

PORTUGAL, AS TOURADAS E A ‘CIVILIZAÇÃO’ | José Gabriel Pereira Bastos

O facto de a nova Ministra da Cultura afirmar que prejudicar a tourada à portuguesa é um acto de ‘civilização’ permite constatar o óbvio – há quem ache que a civilização é norte-europeia ou, como dizem os Americanos, é WASP (white, anglo-sexon protestant) e que o Mundo Mediterrânico, polarizadamente católico, não é ‘civilizado’ por ser católico – um mundo de virgens, de santos e procissões, que os protestantes consideram semi-pagão, supersticioso e ‘atrasado’, a necessitar do seu colonialismo civilizacional. Há, por isso, em Portugal, portugueses ‘avançados’, que têm vergonha de serem portugueses e tencionam aproveitar lugares no Aparelho de Estado e no Governo para corrigir o ‘atraso’ civilizacional dos portugueses e nos tornar ‘mais europeus’, isto é, menos diferenciados culturalmente e mais absorvidos pela cultura protestante.
As touradas existem na península ibérica e no sul de França, associadas à pastorícia do gado bovino em liberdade. vigiados por campinos, sobretudo nas margens do Tejo (Ribatejo e Alentejo), originando esse facto cultural que é a tourada à portuguesa.

Têm contra si os que se auto-consideram os mais ‘civilizados’ dos portugueses, um agregado ideológico que forma uma minoria elitista activista, que se sente ‘superior’ aos outros portugueses – os vegan e vegetarianos, que não comem carne, os ecologistas, que são contra o gado bovino, por ser poluente, os ‘protetores dos animais’, que consideram a tourada um ‘divertimento’ marcado pela violência e pela tortura dos touros, algumas feministas, que associam a tourada ao Machismo (como se proibir as touradas acabasse com o machismo) e alguns católicos fanáticos que acham que a tourada é um resíduo dos cultos pagãos que ainda não conseguiram destruir. Uma ‘elite’ sub-cultural, com muito pouca gente, alinhada com a Cultura WASP.

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Juramento de Hipócrates

” Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higeia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.
Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.
Conservarei imaculada minha vida e minha arte.
Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.
Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.
Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.
Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça.”

Hipócrates

Onésimo Teotónio Almeida: “Haja um pouco de senso. O papel do historiador não é condenar a História, é narrar os factos, e explicar. ” in Jornal Público com JOSÉ RIÇO DIREITINHO

O livro O Século dos Prodígios — uma colecção de ensaios sobre a história da ciência no período da Expansão — acaba de ser publicado e distinguido com um prémio pela Fundação Calouste Gulbenkian. Onésimo Teotónio Almeida, o autor, falou com o PÚBLICO da nova mentalidade científica que surgiu em Lisboa no século XV.

Onésimo Teotónio Almeida (São Miguel, 1946) é professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros na Universidade de Brown, em Providence, nos Estados Unidos da América. O Século dos Prodígios (edição Quetzal) é o seu mais recente livro — que acaba de ser distinguido com o Prémio de História da Presença de Portugal no Mundo, da Fundação Calouste Gulbenkian — uma colecção de ensaios sobre a história da ciência no período da Expansão europeia, o dos Descobrimentos portugueses dos séculos XV e XVI.

Numa altura em que a palavra “Descobrimentos’” dá origem a algumas discussões acesas, e que, para alguns, será politicamente incorrecto usar, Onésimo Teotónio Almeida, em conversa com o PÚBLICO, disse que “descobrir não significa criar, inventar. Quando a Polícia descobre o criminoso, não o inventa. Os portugueses descobriram ilhas que não tinham ninguém nem estavam sequer mapeadas. Descobriram o caminho marítimo para a Índia, ninguém diz que os portugueses descobriram a Índia. Do resto são ‘Descobrimentos’ do ponto de vista europeu. Haja um pouco de senso. O papel do historiador não é condenar a História, é narrar os factos, e explicar. Na narrativa, lidamos com factos e com argumentos, não cabe absolver nem condenar a História.”

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” Eu, pecadora, me confesso a Deus” | Maria Isabel Fidalgo

Lémen podia ser uma criança
perdida nos seus sonhos
uma folhagem deslumbrada
com um acontecer de primavera
uma ave
uma alba
uma nuvem
um céu musical aberto em rosa
uma cerejeira bicada de pássaros
uma erva macia onde o corpo caísse leve.
Lémen podia ser um outro olhar
uma casa horizontal
cuja voz acordasse os regatos
e meninos descalços enfeitassem de risos
as águas maculadas.
Lémen podia ser o coração do homem
antes do inferno
chamas de ódio
em corpos descarnados.
Lémen podia ser um um rosto
e não um esqueleto vivo
uma côdea de osso
sem força para chorar
a nossa culpa.

Maria isabel fidalgo

PENSAR A QUESTÃO POLÍTICA DO BRASIL | José Gabriel Pereira Bastos

Transcrevo dados que me parecem fundamentais:

(1) o saldo civilizacional dos governos PT é brilhante – 13 anos de avanço intenso em numerosas variáveis 
Seguem as pesquisas com dados oficiais dos principais indicadores sócio-econômicos do Brasil antes e depois dos 13 anos de PT. 
:
1. SALÁRIO MÍNIMO:
Em 2003: R$240,00
Em 2016: R$880,00
Um aumento de 266% no período enquanto a inflação acumulada foi de 123%. Ou seja, um aumento real de 2003 pra 2016 de incríveis 64%.
Fontes: Min. Fazenda, IBGE e FGV.

2. IDH – ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO
Em 2003: 0,695
Em 2016: 0,755
Fonte: PNUD – ONU

3. EXTREMA POBREZA
Em 2003: 10,5% (Banco Mundial) 17,5% (IBGE)
Em 2016: 4,2% (Banco Mundial) 9,2% (IBGE)
O Banco Mundial e o IBGE. Em ambos percebemos uma queda acentuada (60% e 47,4% respectivamente) no percentual da população que vive em extrema pobreza.
Fontes: Banco Mundial e IBGE

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Para vinho novo, odres novos | FREI BENTO DOMINGUES O.P. in Jornal Público

Bergoglio retomou a verdade do axioma sobre o ecumenismo: Ecclesia semper reformanda.

1. Como diz o físico Carlo Rovelli, a natureza do tempo talvez seja o maior mistério. Estranhos fios o ligam aos grandes mistérios não resolvidos: a natureza da mente, a origem do Universo, o destino dos buracos negros, o funcionamento da vida. A dança a três gigantes do pensamento – Aristóteles, Newton e Einstein – levou-nos a uma mais profunda compreensão do tempo e do espaço: existe uma estrutura da realidade que é o campo gravitacional; esta não é separada do resto da física, não é o palco em que o mundo flui: é uma componente dinâmica da grande dança do mundo, semelhante a todas as outras; interagindo com as outras, determina o ritmo das coisas a que chamamos fitas métricas, relógios e o ritmo de todos os fenómenos físicos. Pouco depois, o próprio Einstein verificou que esta não era a última palavra sobre a natureza do espaço e do tempo [1]

Há mais de dois mil anos, depois de João Baptista ter sido preso, Jesus foi para a Galileia proclamar: “completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos – mudai de vida – e acreditai no Evangelho”, se quereis que o mundo encontre a perfeita alegria [2].

Quando S. Marcos escreve isto, já o Espirito de Cristo tinha assumido outro ritmo do tempo: o dos jovens com visões novas e dos velhos renascidos, cheios de sonhos de um mundo outro [3]. Cedo, porém, se deram conta de que o tempo e o espaço das Igrejas não eram um palco em que elas se pudessem desenvolver, puras e santas, sem estranhas interacções religiosas, sociais, económicas ou políticas, desde o Pentecostes até hoje. A necessidade de reformas faz parte da sua história.

Em Novembro de 1950, Yves Congar, O.P. publicou uma obra famosa, Vraies et fausses réformes dans l´Église, que lhe causou muitos e graves sofrimentos romanos. Angelo Roncalli, futuro João XXIII, era, nessa altura, núncio em Paris. Este livro, sublinhado página a página, fazia parte da sua biblioteca. Eleito Papa, recupera o maldito Congar e as suas perspectivas de reforma. É inspirado nele que concebe o Vaticano II, como um concílio de aggiornamento da Igreja no mundo contemporâneo.

O Vaticano I (1869-1870) tinha concentrado tudo no primado do Papa e na sua infabilidade, quando se pronunciava ex-cathedra, em assuntos de fé e de moral. Era tudo resolvido por ele e pela cúria. Pio XII foi o último da famosa série os Pios.

Na preparação do Vaticano II, a herança da Cúria e do chamado “Santo Ofício” tentaram controlar os desvarios de João XXIII. Não conseguiram.

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É tão chique, a indiferença perante o fascismo | Francisco Louçã

Explica Assunção Cristas que, no Brasil, não votaria em Haddad, que detesta, mas também não em Bolsonaro, pois, “apesar de ser do espaço político de centro direita, não me revejo nos extremismos de Bolsonaro e não seria capaz de votar nele”. Ele é da família (é ela ou é ele que é de “centro-direita”?) mas cheira mal.

O argumento é interessante, já foi repetido por Nuno Melo e até, para surpresa de muita gente, por Adolfo Mesquida Nunes, que costuma ser civilizado. Contrasta nitidamente com a atitude de Freitas do Amaral, fundador do CDS, que não só tomou atitude contra Bolsonaro como se empenhou em mobilizar opiniões para a derrota do fascista. No CDS, toda a gente acha que a atitude certa é calar e andar.

Francisco Assis, um homem da direita do PS, diz desassombradamente o que é evidente: o PT é comparável ao PS e à social-democracia europeia, com a qual aliás faz parte da Internacional Socialista, tratá-lo como de esquerda radical é ridículo, a sua experiência de governo diz tudo. A desculpa da direita, alegando dois “extermismos” é somente um voz de ódio e uma forma de justificar o silêncio perante Bolsonaro. A realidade é que Haddad defende a democracia e respeita a liberdade, e essa diferença faz toda a diferença.

Diz muito do estado da direita tradicional que, por puro gosto do desastre, esteja disposta a fechar os olhos e desse modo a favorecer a vitória de um fascista como Bolsonaro, cuja última intervenção pública é garantir que os seus adversários políticos vão “apodrecer na cadeia”. Nem uma palavra de Cristas sobre as ameaças, nem um comentário. É indiferente. A liberdade é para ela uma coisa tão relativa, não é?

Francisco Louçã

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

“Somos índios, resistimos há 500 anos. Fico preocupado é se os brancos vão resistir” | Ailton Krenak in Jornal Expresso

Há 30 anos, em plena Assembleia Constituinte, pintou o rosto de negro, declarou guerra aos políticos brasileiros e venceu. Ailton Krenak tem agora 65 anos, já viu muito e o que não viu, recorda-se, numa memória que lhe foi legada pelos antepassados. Líder indígena, assume-se e ao seu povo como sobreviventes de um genocídio. Mas teme pelo futuro dos brancos, aqueles que nunca aprenderam a pisar com leveza a “Mãe Terra” e que por isso poderão acabar “enterrados no próprio vómito”.

Quando uma criança krenak nasce, não vai para a creche, fica com a mãe, as avós e as tias. Partilham um quotidiano e um modo de estar na vida. As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedores, porque, para uns vencerem, outros têm de perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida onde o indivíduo conta menos do que o coletivo. Este é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. Ailton carrega no apelido a pertença à sua gente, o povo krenak. E a sua memória mais antiga é muito simples: “Eu não sei viver sozinho.”

Esteve esta semana em Portugal para participar no Fórum Internacional de Festivais de Cinema de Ambiente, em Seia, onde realizadores de mais de 30 países estiveram reunidos e demonstraram preocupação com o rumo político do Brasil e as consequências das eleições presidenciais na preservação da floresta amazónica. Antes de regressar a casa, Ailton Krenak conversou com o Expresso.

Que povo é o seu?
Krenak.

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Nunca conheci um patrão de casa de putas! | Carlos Vale Ferraz e Carlos Matos Gomes | in Jornal Tornado

(Capitulo para um futuro romance) – Eu também não.

Este é um texto que descobri nos rascunhos do marginal escritor Carlos Vale Ferraz, autor de um primeiro romance a que deu o título de Nó Cego, onde enreda as aventuras da geração que arriou as velas do fim de império africano.

Uma anti-epopeia que não merece sequer um registo nos planos nacionais de leitura, porque os juízos literários são isentos de boas vírgulas e prenhos de frases amendoadas. Dele disse ele no intróito do Nó Cego: “o autor  é pacato e gordo, cai-lhe o cabelo e escreve de noite com os óculos na ponta do nariz…” e, mais adiante: “Por si, garante, a Pátria não verá aumentada a galeria dos ilustres e não ganhará feriado em dia de morte ou de centenário.”

Não será tanto assim. Ou não foi. Descobri que esse tal Carlos Vale Ferraz pode ser agora gordo e careca, mas já foi, recolhido de fontes seguras, um belo valdevinos. Belo é autopromoção. Vaidade. Valdevinos é uma boa legenda para a foto antiga.

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A Idade das Trevas Chegou por Las Vegas ou Todos os Homens são culpados até provas em contrário | Raquel Varela

Não sei se todos compreenderam a gravidade do que se passou esta semana em Portugal. O caso Ronaldo não é caso Ronaldo, é o mote para a defesa do fim da presunção de inocência. É isso que os acusadores de Ronaldo querem introduzir no ordenamento jurídico português. Várias pessoas vieram a público esta semana, entre elas o ex-ministro Rui Pereira no Correio da Manhã, ou mulheres e homens nos jornais de referência, afirmar com base em «estudos» que as vitimas de abusos sexuais não mentem, deve-se presumir que os homens são culpados até prova em contrário. Bom, sobre as “mulheres não mentem” deixarei para outro artigo – merece um à parte. Quero agora ir ao central.

Não escrevi que o Metoo era conservador e reaccionário sem reflectir bem sobre isso – conheço o tema por dentro há anos. Embora pareça de esquerda, porque é «amigo das vítimas», trata-se de uma reacção mundial conservadora em curso em vários países que defende que em nome da segurança deve-se diminuir a liberdade. Este é todo o centro da questão. Tudo o resto que se tem debatido é colateral.

O que está em causa não é a defesa das mulheres com quem poucos se preocupam, desde logo com a defesa de segurança no emprego, creches públicas, diminuição de horários de trabalho, salários, etc, o que está em causa no caso Ronaldo é a defesa da restrição das liberdades – tema caro a muitos.

Está em curso uma proposta global de alteração dos ordenamentos jurídicos democráticos, feita a partir da desigualdade de género para ter verniz de progressista. É aliás por isso que além de esquerdistas desesperados o maior palco da defesa deste valor medieval do fim da irreversibilidade do ónus da prova e o fim da presunção de inocência sejam os jornais da direita liberal norte-americanos, onde todos os dias há uma denúncia de uma mulher e se enxovalha o nome de qualquer homem porque à partida ele é culpado. É isso que faz com que seja permitido publicar tais artigos sem provas, ou investigação, apenas com o testemunho da mulher. Ora isto é nada mais nada menos do que colocar todos os homens sob suspeição e na arbitrariedade total na mão das mulheres.

O argumento é que em nome da vítima podem-se inverter os princípios jurídicos democráticos. A segurança exige suspensão parcial da democracia – numa palavra é isto o Metoo. Uma forma de totalitarismo.

Que nenhum homem e mulher se cale nesta hora. Não é só a liberdade sexual que está em causa com a mercantilização e o puritanismo do Metoo, nem a banalização do crime gravíssimo de violação. É algo ainda mais grave porque é uma politica de Estado. Hoje são os homens, amanhã são os grevistas, depois os dirigentes “subversivos”, os trabalhadores e os imigrantes, e por aí fora. Consonante a relação de forças de quem comanda o Estado e tem força nos media. É altura de gritarmos alto que esta barbárie jurídica representa um atentado à liberdade, são as trevas da reacção neoliberal, apesar de chegar da cidade mais iluminada do mundo, de um casino cintilante. Sim, o Metoo são as trevas anti iluministas e anti socialistas que chegaram cheias de luz e ideias de igualdade.

Às mulheres, vitimas de abuso sexual, devem ser dadas medidas públicas onde não se pode poupar um euro de protecção jurídica imediata (não é com julgamentos morosos), deve ser dada ajuda psicológica de alta qualidade, os melhores psiquiatras devem ser contratados pelo Estado para estar ali a ajudar nas denúncias, nos traumas, e em todas as consequências, temos que ter casas de abrigo, toda a protecção. Mas jamais acabar com a presunção de inocência.

Não, o mais odioso dos crimes – e para mim a violação é moralmente equiparada a homicídio ou lá perto, é destruir a vida de alguém, por isso não é compatível com penas ridículas – não justifica a suspensão de uma única liberdade democrática. Quem na esquerda progressista não compreender isto e não tiver coragem de se opor sem medo ficará com o ónus de dar poderes discricionários ao Estado, poderes que cairão como uma pedra na cabeça de toda a esquerda, homens e mulheres, em poucos anos. Basta uma pequena alteração na relação de forças para que todos os grevistas sejam culpados de subversão da economia e bem estar nacional ou coação e ameaça ao patrão, chantagem ao gestor, ataque à integridade física do encarregado na fábrica, chantagem ao director – culpados todos, até prova em contrário. E muitos dos grevistas serão naturalmente mulheres e serão destruídas publicamente, e na sequência, juridicamente, porque à partida serão “culpadas”.

A liberdade não é uma palavra. É a essência de toda a vida civilizada. Defendê-la é defender a humanidade.

Raquel Varela

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

Auto de Fé |

“Na manhã outonal de 18 de outubro de 1739, o majestoso cortejo do Auto de Fé sai ordenadamente do Palácio da Inquisição e serpenteia pelo Rossio, até entrar na Igreja do Convento de S.Domingos, do outro lado da praça. Atrás do flamejante estandarte do Santo Ofício vêm dezenas de guardas e inquisidores conferindo a necessária pompa ao cortejo dos 56 penitenciados. O povo, que há já quinze dias ouve apregoar o Auto, enche a praça e exubera: “Grande misericórdia, bendito o Santo Ofício”, esperando que o grande espetáculo da morte lhe expie os pecados. António José é o número sete da lista dos hereges. Tem 34 anos. Vem desfigurado da tortura e com dificuldade encara a luz do dia, após dois anos e treze dias de cárcere escuro. Veste uma aviltante túnica branca com a sua cara toscamente pintada no meio de labaredas e diabinhos a mordê-lo. No rol dos penitenciados vêm também a sua mãe Lourença, o irmão André e a mulher Leonor. Já dentro da igreja, os réus ouvem penosamente a leitura das culpas e longos sermões que invocam a implacável ira divina para com os hereges.

Ó infelizes despojos de Israel, desgraçadas relíquias do hebraísmo […] na estimação de Deus sois a gente mais abominável do mundo.

O ritual termina já noite dentro e o cortejo dos relaxados (condenados à morte) sai da igreja dirigindo-se, pelas ruas estreitas da velha Lisboa, ao tribunal da Relação, lá para os lados da Sé. Aí, o Inquisidor-mor lava as mãos do pecado e remete para a justiça secular a execução da pena, que o tribunal se limita a confirmar.

Declaram o réu António José da Silva por convicto, negativo, pertinaz e relapso… e como herege apóstata de nossa Santa Fé Católica o condenam e relaxam em carne…

Nova viagem descendo a encosta até ao queimadeiro, no Campo da Lã, junto ao Tejo, onde se encontra montada a improvisada cenografia da morte: tablados de madeira, para que o público tenha boa visibilidade, espessos mastros equipados de garrotes para que se proceda à morte sem efusão de sangue e monumentais pilhas de lenha.

Adverti que os Deuses não permitem, nem as leis ordenam, que sem culpa morra um inocente.
(Anfitrião ou Júpiter e Alcmena)

O sol já brilha nas águas do Tejo quando o corpo de António José é lançado nas chamas da fogueira.

Morrer como valorosos, que maior afronta é cair nas mãos do vencedor.
(Os Encantos de Medeia)”

João Paulo Seara Cardoso

Retirado do Facebook | Mural de José Maltez

Reza uma lenda do Séc. XIX que um dia a Verdade e a Mentira encontraram-se | Autor desconhecido

Reza uma lenda do Séc. XIX que um dia a Verdade e a Mentira encontraram-se. Diz a Mentira à Verdade: “Está um dia tão bonito”. E estava de facto um dia muito bonito. Passam algum tempo juntas até que chegam junto de um poço. ” A água está tão agradável, porque não tomamos um banho as duas?” sugere a Mentira. A Verdade, embora reticente, lá toca na água e a água estava realmente agradável. Despem-se então e banham-se. De repente a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge. A Verdade salta do poço e corre todos os lugares para encontrar a Mentira e recuperar as suas vestes. O Mundo, vendo-se confrontado com a nudez da Verdade, revira os olhos, entre o desprezo e a raiva. A Verdade volta então ao poço onde desaparece para sempre, escondendo a sua vergonha.
Desde então a Mentira tem percorrido o Mundo com as roupas da Verdade, satisfazendo os caprichos das pessoas e das sociedades, e o Mundo, esse, continua a recusar-se a encarar a Verdade nua.

(A Verdade a sair do poço, Jean-Léon Gérôme, 1896)​

A carta de Galileo Galilei | Francisco Louçã

Foi descoberta num arquivo de Londres a carta original de Galileo ao seu colega Benedetto Castelli, um matemático da universidade de Pisa, que defendia em 1613 que a Igreja Católica estava errada, que o Sol não anda à volta da Terra, e ainda que a investigação científica deve ser livre de teologia. Pensava-se que a carta estava perdida.

Em 1615 foi denunciado e depois julgado pela Inquisição.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Dez anos mal contados e que contam muito | Francisco Louçã

É o décimo aniversário da crise do subprime? Não, está mal contado. É certo que a bancarrota do Lehman Brothers, em setembro de 2008, com a sua dívida de 613 mil milhões de dólares, foi, à época, a maior na história dos EUA. Mas já em 2007 vários fundos da finança-sombra tinham entrado em incumprimento e desde março de 2008 as grandes falências multiplicaram-se nos EUA. Quando o Lehman caiu já a procissão saíra do adro e no fim desse mês já ia em mais sete falências: o venerável Bear Stearns (em Março); o gigante de seguros AIG; start-ups como o IndyMac, o Washington Mutual e o Wachovia; e entidades parapúblicas como o Fannie Mae e o Freddie Mac. A resposta foi mais liquidez, nacionalizar os ativos tóxicos e concentrar a banca. Dez anos depois, estamos pior em quatro domínios.

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DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA | Mário de Carvalho

Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura.

Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família».

Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar».

Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai.

Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal.

Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua.

Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio.

Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão.

Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina.

Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde.

Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro.

Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer;

Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche.

Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.

MdC

04-09-2012

Diez años bastan | En este decenio se ha producido la mayor intervención pública para salvar el capitalismo y la democracia tal y como los conocíamos | EL PAÍS | Introdução de Carlos Matos Gomes

Passam por agora 10 anos sobre a chamada crise do subprime e da falência do banco Lehman Brothers (18 Setembro)

O jornal EL PAÍS recolhe elementos de 10 livros sobre a crise que ajudam a perceber a tempestade que se levantou e as consequências que ela provocou e que ainda vivemos.

A crise de 2008: “Não foi um acidente pontual, mas uma mudança global: trouxe populismo, autoritarismo e Brexit.”

“Nesta década houve a maior intervenção pública para salvar o capitalismo e a democracia como os conhecíamos” – quanto a princípios e competências dos economistas neoconservadores e neoliberais (o diabo que os distinga), estamos conversados.

“A recessão foi muito pior do que teria sido sem a intervenção de economistas ortodoxos”

Após o colapso do banco de investimento Lehman Brothers, após fracassarem todas as tentativas por parte das autoridades dos EUA para vendê-lo a alguém, o Tesouro Americano (FED) injetou cerca de 105 bilhões de dólares no sistema, mas logo percebeu que não poderia deter a maré de retirada de dinheiro. As autoridades financeiras americanas (FED presidido por Alan Greenspan, um radical neoliberal) decidiram suspender a operação, fechar as contas monetárias e anunciar garantias de US $ 250.000 por conta, para que não houvesse mais pânico. Se não o tivessem feito, estimaram que 5,5 bilhões de dólares do sistema de mercado monetário dos EUA teriam sido retirados às duas horas daquela tarde, e isso teria destruído a economia mundial.
Teria sido o fim do nosso sistema económico e do nosso sistema político, como o conhecemos.

No dia seguinte à queda do Lehman, os mercados financeiros ficaram paralisados, o governo republicano de Bush nacionalizou a AIG, uma das maiores seguradoras do mundo, e começaram as primeiras injeções de centenas de bilhões de dólares (capitais públicos) para salvar Wall Street!
Alguns textos (10 anos de crise, Rumo ao controle cidadão das finanças, publicados pelo ATTAC) defendem que a Grande Recessão ainda não acabou, embora o mundo tenha retornado a um estágio de crescimento económico e redução das taxas de desemprego, mas houve uma mutação silenciosa e uma metástase de seus efeitos negativos mais estruturais, como a precariedade da vida, dos mercados de trabalho e o aumento da desigualdade.
Durante as três décadas anteriores, a revolução conservadora havia ensinado ao mundo que “o mercado resolveria tudo”. Mas Wall Street caiu e a solução foi renegar todos os princípios e sacar dinheiro público para a maior intervenção com dinheiro público de que havia memória.
O famoso “consenso de Washington” (disciplina fiscal e monetária) foi nada mais e nada menos que uma ejaculação piedosa dos teóricos necons sem contato com a realidade. O problema não era, como eles haviam dito, dos grandes governos, dos ogros filantrópicos, mas dos executivos fracos, de menos Estado, que haviam destruído, ou enfraquecido os instrumentos regulatórios adequados para enfrentar os desafios do mercado entregue à lei da selva.

O texto introdutório foi feito a partir de uma tradução automática do espanhol para o português do Brasil.

LER TEXTO DO EL PAÍS AQUI: 

https://elpais.com/cultura/2018/09/07/babelia/1536338430_931760.html?id_externo_rsoc=FB_CC

The Ancient Origins of Consciousness | How the Brain Created Experience | by Todd E. Feinberg and Jon M. Mallatt

How consciousness appeared much earlier in evolutionary history than is commonly assumed, and why all vertebrates and perhaps even some invertebrates are conscious.

Summary

How consciousness appeared much earlier in evolutionary history than is commonly assumed, and why all vertebrates and perhaps even some invertebrates are conscious.

How is consciousness created? When did it first appear on Earth, and how did it evolve? What constitutes consciousness, and which animals can be said to be sentient? In this book, Todd Feinberg and Jon Mallatt draw on recent scientific findings to answer these questions—and to tackle the most fundamental question about the nature of consciousness: how does the material brain create subjective experience?

After assembling a list of the biological and neurobiological features that seem responsible for consciousness, and considering the fossil record of evolution, Feinberg and Mallatt argue that consciousness appeared much earlier in evolutionary history than is commonly assumed. About 520 to 560 million years ago, they explain, the great “Cambrian explosion” of animal diversity produced the first complex brains, which were accompanied by the first appearance of consciousness; simple reflexive behaviors evolved into a unified inner world of subjective experiences. From this they deduce that all vertebrates are and have always been conscious—not just humans and other mammals, but also every fish, reptile, amphibian, and bird. Considering invertebrates, they find that arthropods (including insects and probably crustaceans) and cephalopods (including the octopus) meet many of the criteria for consciousness. The obvious and conventional wisdom–shattering implication is that consciousness evolved simultaneously but independently in the first vertebrates and possibly arthropods more than half a billion years ago. Combining evolutionary, neurobiological, and philosophical approaches allows Feinberg and Mallatt to offer an original solution to the “hard problem” of consciousness.

A bala | Geraldo Alckmin

O desemprego, as filas na saúde, a fome e outros problemas que atingem principalmente os grupos mais vulneráveis da nossa população não serão resolvidos na bala. Tem que ter experiência, responsabilidade e determinação para unir o Brasil e fazer as mudanças que o nosso país precisa. Assista ao vídeo da campanha de Geraldo Alckmin 45!

(O comercial é uma adaptação da premiada campanha inglesa “kill the gun”.)

Por Francisco | Carlos Zorrinho

Com as “guerras santas” a serem travadas um pouco por todo o globo e os escândalos mundanos dilacerando as diferentes igrejas, é importante refletir sobre a condição humana na sua complexidade espiritual e racional, face aos novos contextos da vida moderna.

A vida é antes de mais uma experiência que permite formar a consciência de que se existe e partir daí para todas as interrogações sobre o seu sentido. A experimentação do sagrado é uma forma de consciencialização que tem vindo a perder terreno face a tudo aquilo que a modernidade oferece ao Homem como experiências múltiplas, científicas, desportivas, artísticas, profissionais, sensoriais, relacionais ou outras. Experiências devidamente certificadas, embaladas, com folheto de instruções e prazos de validade.

O vazio da experiência, quando existe, tende a ser preenchido pela norma ou pelo estabelecido, naquilo a que podemos chamar fé nas suas diversas demonstrações e aplicações. Neste contexto, o espaço para o inesperado, para o deslumbramento puro, para a sensação forte, para a descoberta encantadora é cada vez menor.

É neste quadro de exaltação extrema da experiência organizada para ser consumida até ao limite do vazio e do acantonamento da fé, reservada para compor, quando é caso disso, os buracos negros da consciência, que emerge a força da tentação mesmo onde ela seria menos expectável.

Os recentes escândalos de práticas pecaminosas por dignitários da igreja católica, designadamente de práticas de pedofilia, são um alerta e um apelo ao retorno à simplicidade e ao reencontro dos indivíduos consigo mesmos e com a sua natureza, seja qual for a missão específica que desempenham na comunidade em que vivem.

O conservadorismo ultramontano que agora critica abertamente Francisco, ao impor no passado medidas não naturais como o celibato obrigatório dos Padres, ajudou a construir a teia onde agora quer prender os que demonstram uma mente mais aberta aos desafios dos novos tempos.

Uma das razões pelas quais Francisco é um Papa respeitado muito para além dos fieis da igreja que chefia é o seu sentido forte de relação com o que é natural, com a perservação do planeta, com o respeito pelas culturas e pelas diferenças e com a dignidade como direito matricial do ser humano.

Que Francisco continue a ser iluminado e a iluminar-nos, para que o sagrado e a fé, combinados à medida da consciência de cada um, nos afastem das tentações destrutivas e degradantes que corroem partes importantes da nossa sociedade.

Carlos Zorrinho

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Zorrinho

Em 1990 a direita recusava a vinda de Le Pen a Portugal | Francisco Louçã in Jornal Expresso

Em 1990 a direita recusava a vinda de Le Pen a Portugal. Em 2018 indigna-se porque Marine Le Pen foi desconvidada. O que fez virar a direita?

No dia 5 de julho de 1990, algumas centenas de personalidades protestaram por escrito contra a vinda de Le Pen a Portugal. Apelidaram os que com ele se reuniam em Sesimbra como “pessoas não gratas” e o Presidente da República denunciou a iniciativa. Entre quem então recusou a vinda de Le Pen estava gente grada do CDS (Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires, Basílio Horta, António Lobo Xavier, Abel Pinheiro, Narana Coisssoró) e do PSD, então no governo (Emídio Guerreiro, Manuela Aguiar, Pedro Roseta, Montalvão Machado, Rui Carp, Guilherme Silva).
Em 2018, em contrapartida, a direita levantou-se indignada por Marine Le Pen não vir à Web Summit. Nuno Melo, no seu estilo leve, gritou contra a má educação do desconvite. Os jovens turcos do PSD multiplicaram-se em explicações atabalhoadas sobre como estariam na primeira fila a ouvir Le Pen e a detestá-la mesmo muito. O Observador explodiu em amargura, anunciando que vivemos em “fascismo obrigatório” (Helena Matos, secundada pelo inimitável Alberto Gonçalves) ou que Le Pen foi alvo de um “ataque fascista” (Sebastião Bagulho), mais uns salamaleques de Rui Ramos e por aí adiante, há sempre um concurso de Constanças naquele panfleto quando há festa ou festança. 

O que é que então mudou na direita portuguesa para que em 1990 protestasse contra Le Pen e em 2018 acarinhasse a vinda da sua herdeira? E para que em 1990 achasse que a democracia é uma barreira e em 2018 defenda que Le Pen deve ser normalizada? Vale a pena reparar nesta transformação porque é um sinal. Há a razão pretextual: se a esquerda critica o convite a Le Pen, a direita quer Le Pen. Mas isso é só pavloviano. Há ainda a razão ideológica, relançar o refrão da Guerra Fria: a esquerda combate os fascistas por ser igual. Mas isso também é grotesco. Há outro motivo, esse mais importante, e é que a direita está encantada com Steve Bannon e Trump, achando que, como só tem a propor o sofrimento ao povo, a forma de ganhar eleições é espalhar ódio.
O episódio do convite a Le Pen, em si, não vale nada, é só uma tontice de Cosgrave. Mas a fúria convidativa da direita revela algo muito importante: a partir de agora, toda a sua política será suja. Vale tudo. Vamos ter salada ideológica, campanhas de calúnias, blogs falsos, imprensa escandalosa. Bannon é o mestre.

Francisco Louçã

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

CONDIÇÃO FEMININA NUMA SOCIEDADE MACHISTA | António Galopim de Carvalho

(In “Évora, anos 30 e 40”, em preparação)

Depois do jantar, os homens saíam a caminho dos seus interesses. Fossem ricos, remediados ou pobres, a regra era essa. As mulheres ficavam em casa. Prisioneiras das responsabilidades que, tradicionalmente, lhes eram atribuídas, continuavam no exercício das tarefas domésticas e, ao mesmo tempo, a cuidar dos filhos. Destes, os mais pequenos faziam os trabalhos da escola ou brincavam, muitas vezes na rua, à porta da casa, sempre aberta. Nas famílias sem posses para terem criadas, competia às mães e às filhas com idade para ajudar, levantar a mesa, lavar a loiça, arrumar a cozinha e, as mais das vezes, costurar.

Eram as mães que, contra elas próprias, educavam as filhas e os filhos a perpetuarem os hábitos da sociedade machista em que cresci e me fiz homem, numa vivência estimulada pela Igreja e pelo poder político da época. Jovem casadoira, qualquer que fosse a sua condição, já sabia que o seu lugar ia ser no lar ou no ninho como algumas e alguns gostavam de dizer. Ao contrário das mulheres do campo, eram poucas as da cidade com trabalho fora de casa. Grande número destas, uma vez casadas, abandonavam o emprego, para se dedicarem à casa e aos filhos.
No mundo rural não era assim. Pobres por condição e tradição, mães com ou sem filhos e raparigas adolescentes tinham mesmo de trabalhar sempre que as oportunidades surgissem e essas oportunidades eram, sobretudo, a monda, a ceifa e a apanha da azeitona.

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Santana Lopes e suicídio das velhas baratas | Carlos Matos Gomes

Santana Lopes e suicídio das velhas baratas.

O Partido Santana Lopes, os reis que vão nus. Desde logo: o rei que vai nu não é o Pedro Santana Lopes. Os reis que vão nus são o BE, que não é radical nem revolucionário, é o PC, que não é comunista, é o PSD, que não é social democrata, é o CDS que não é democrata cristão. Resta o PS, que se assumiu desde o comício da Fonte Luminosa, em 1975 como o “rassemblement” de sociais democratas e democratas sociais, no sentido que a social democracia e a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII tomaram no pós-guerra e na guerra fria.

Esses é que vão nus: não têm roupagem ideológica que lhes cubra o corpinho. Nem o BE nem o PC podem (nem querem, nem existem as tais condições objectivas) fazer qualquer mudança estrutural do regime demo capitalista, nem o PSD e o CDS podem fazer mais do que fazem: alterações pontuais na distribuição da riqueza entre assalariados e gestores, com o grosso a ser acumulado pelo sistema financeiro.

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João Paulo Oliveira e Costa | ‘Antes dos descobrimentos nenhum ser humano sabia como era o planeta’ | in Jornal “Sol”, com José Cabrita Saraiva

Foi um dos académicos que se pronunciaram contra a construção de um Museu dos Descobrimentos em Lisboa. Mas também não se identifica com aqueles que consideram os Descobrimentos uma tragédia. ‘Os portugueses agregaram o mundo’, resume. ‘Não fomos os maiores, mas fomos importantes – e somos’.

Catedrático do departamento de História da FCSH (Universidade Nova de Lisboa), João Paulo Oliveira e Costa recebe-nos no seu gabinete com vista para a igreja de N. Sr.ª de Fátima, de Porfírio Pardal Monteiro. Geralmente conotado com a direita, o historiador faz questão de nos mostrar uma fotografia tirada na Festa do Avante. Mostra uma pintura mural, como uma frase em grandes parangonas: ‘Os Lusíadas exaltam a maior contribuição coletiva do povo português para o progresso humano: os Descobrimentos, a abertura das relações através dos oceanos, num processo histórico ainda hoje não terminado. Processo que tem incluído (e continua a incluir), desumanidades colonialistas e imperialistas’. «Esta para mim é a visão mais equilibrada do processo dos Descobrimentos», comenta. Com uma vasta obra sobre o assunto (e perto de 40 anos de estudo), João Paulo Oliveira e Costa foi um dos signatários de uma carta publicada no semanário Expresso contra a criação de um Museu dos Descobrimentos na capital. Ao SOL, explica porquê, mas também por que não concorda com algumas das críticas que estavam implícitas nesse texto.

Temos a ideia de que os Descobrimentos são um tema tão estudado que se torna pouco estimulante para um historiador. Esta polémica vem desmentir essa ideia?

Se estamos a falar estritamente das viagens de exploração, há muito pouco a acrescentar. Ninguém consegue acrescentar muito às viagens de Vasco da Gama e de Bartolomeu Dias, às explorações que levaram os portugueses ao Japão ou mesmo às explorações no interior do Brasil.

Está tudo estabelecido?

Aí sim. Mas se falarmos de uma coisa muito mais vasta que é a Expansão desde o início do século XV, com a conquista de Ceuta, até à independência de Macau em 1999 e de Timor em 2002, esse processo tem pano para mangas e muitos temas que continuam completamente virgens. Portanto o tema da Expansão…

… é quase inesgotável.

E universal. Ainda na passada semana assinámos um acordo com uma fundação saudita que quer conhecer toda a documentação que há em Portugal acerca da Arábia.

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Esta palavra “Descobrimentos”…! | LUÍS REIS TORGAL | in Jornal Público

É bom discutir conceitos, mas é necessário, fundamentalmente, ir muito além das palavras.

Uma discussão efémera e sem consequências?

Não sei porque acabei por vencer o meu comodismo de aposentado para vir discutir a questão do uso do nome “Museu dos Descobrimentos”.

O certo é que não acredito muito nestas discussões, em geral supérfluas e efémeras, por mais interesse que tenha a sua temática. Não levam geralmente a nada, pois os responsáveis pelas decisões finais são, normalmente, os poderes instituídos. Vejam o que se passou com os feriados: houve em 2012 argumentos sérios de historiadores e cidadãos contra a sua abolição ou suspensão. Nenhum argumento significativo se esboçou a favor dessa eliminação, a não ser o do puro pragmatismo. E, todavia, quatro feriados foram “suspensos” ou “extintos”, até que outro governo, com outra ideologia, decidiu trazê-los de volta.

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Da nau encalhada à Descoberta discreta, um museu aos tropeções | João Pedro Pincha | in Jornal Público

19 de Maio de 2018

Um museu para os Descobrimentos não é ideia nova. Já se quis uma nau à beira-rio, já se quis um pólo interactivo que contasse a História a partir da língua. As Descobertas incendiaram o debate, mas agora é de Descoberta que se fala. Faz diferença? E sobretudo: será que é desta?

Dia 22 de Maio de 2015. Um dia depois de ser finalmente inaugurado o novo Museu Nacional dos Coches, em Belém, Fernando Medina chamava os jornalistas aos Paços do Concelho para testemunharem a assinatura de um “protocolo de formalização de interesse” na construção de um núcleo museológico dedicado aos Descobrimentos. Com o nome provisório de Pólo Descobrir, o projecto tinha a particularidade de incluir a instalação de uma nau, com cerca de 40 metros de comprimento, na Ribeira das Naus.

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A propósito da polémica sobre o Museu das Descobertas. Equívoco, teimosias e hipersensibilidades | João Paulo Oliveira e Costa | in Diário de Notícias

12 Maio 2018

O equívoco

Seis meses depois das eleições autárquicas surgiu uma reacção a um dos pontos do programa eleitoral de Fernando Medina que propunha a criação de um Museu das Descobertas, o que suscitou uma carta, que também assinei, em que se criticava o nome do museu. No meu caso fi-lo por entender que o processo de expansão ultramarina portuguesa que deve ser musealizado é muito mais amplo, no tempo, no espaço e nas suas dinâmicas, do que a simples sequência de navegações e explorações dos séculos XV e XVI. Confundir a conquista de Ceuta ou de Goa bem como a colonização do Brasil, por exemplo, com os Descobrimentos é uma generalização errada que, no fundo, criou um mito. A carta saída no Expresso tinha como pretexto um hipotético museu, mas logo a polémica ficou centrada na palavra e nas suas leituras sem que ninguém tentasse discutir conteúdos. Estava criado o equívoco, se é que não foi um embuste.

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Por um Museu dos Descobrimentos | Luís Filipe Thomaz | in Jornal Observador

Os Descobrimentos portugueses não inauguraram o Paraíso na Terra, mas deram origem ao mundo moderno tal como o temos, com os defeitos e virtudes inerentes a toda a construção humana.

A intenção de organizar um “Museu das Descobertas” anunciada pelo presidente da Câmara de Lisboa suscitou uma reacção histérica. Se me perguntam se concordo com a ideia, respondo: plenamente. Se me perguntam pelo nome, não. Prefiro “Museu dos Descobrimentos”.

A nossa língua é rica em subtis cambiantes semânticos, pelo que, ao contrário do francês ou do italiano, faz uma diferença entre descoberta descobrimentoDescoberta usa-se sobretudo para coisas materiais e pode ser meramente fortuita: a descoberta do fogo na Pré-História, a do magnetismo terrestre pelos chineses da época Sung (960-1279), a da radioactividade pelo casal Curie, ou do ouro na Austrália, no século XIX.

Ao invés descobrimento denota um processo activo e voluntário de exploração geográfica, como em 1972 mostrou Armando Cortesão no seu artigo “Descobrimento” e Descobrimentos na revista Garcia de Orta. Eu dediquei-lhe um artigo relativamente extenso que enviei para publicação na revista Brotéria, onde, espero, sairá logo que haja paginação disponível. Aqui, não pretendo senão deixar um breve apontamento.

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Os Donos do Mundo | Pedro Baños

Pedro Baños revela-nos as táticas e os segredos dos países para dominar e influenciar à escala mundial, incluindo através da religião. Recorrendo a vários exemplos reveladores, o autor mostra-nos ainda as estratégias clássicas – todas com uma base de hipocrisia e aproveitamento das fragilidades alheias – e aponta os erros do passado que continuam a repetir-se e que são inerentes à condição humana. As regras do jogo podem ter mudado, mas há princípios imutáveis.

Uma análise reveladora sobre as principais estratégias de manipulação implementadas pelos países para manter e reforçar o seu poder ao longo dos séculos.

Pedro Baños é coronel do Exército na reserva. Diplomado pelo Estado-Maior de Espanha, é um dos maiores especialistas em Geopolítica, Estratégia, Defesa, Segurança, Terrorismo, Inteligência e Relações Internacionais. Casado e pai de três filhos, é atualmente analista e conferencista.

Europa marítima e Europa continental - novos papéis | Carlos Matos Gomes

Substituir a Inglaterra como a potência marítima da Europa

A Europa, pelo menos desde as cruzadas, dividiu-se e articulou-se segundo dois polos: um polo atlântico, que fez dela uma potência marítima, e que incluiu as Ilhas Britânicas, a Holanda e Portugal, e um polo continental constituído com base no império de Carlos Magno, com a França, a Alemanha e o Norte de Itália, ao qual se associou a Espanha, que construiu um império nas Américas e no Pacífico (Filipinas), absorvido pelos ingleses.

Estes dois eixos mantiveram-se até à II Guerra Mundial. Nós, portugueses, pertencemos desde sempre ao “círculo” marítimo — a Batalha de Aljubarrota e o casamento do novo rei com Felipa de Lencastre são um exemplo, o apoio à restauração da soberania através de um rei português e a expulsão da rei espanhol é outro, assim como o decisivo apoio inglês contra as invasões napoleónicas. Até o ultimato inglês a propósito da presença portuguesa numa área de África é, no fundo, uma imposição da pertença de Portugal no “círculo” da potência marítima contra a tentação de se aliar à potência continental, na altura a Alemanha de Bismark.

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Não, Portugal não foi a maior potência esclavagista | João Pedro Marques | in Jornal “Diário de Notícias”

O historiador Miguel Cardina afirmou, em recente entrevista ao DN, que Portugal foi “a maior potência esclavagista da modernidade” e que isso não tem sido devidamente considerado no país. Devo dizer ao meu colega que está enganado. Eu não sei em que fonte ou fontes Miguel Cardina se apoiou para afirmar o que afirmou. Admito que tenha recorrido ao site The Trans-Atlantic Slave Trade Database. Se foi esse o caso, não terá visto com suficiente rigor. As tabelas do referido site, referem-se exclusivamente ao tráfico transatlântico de escravos, e para além de deixarem de fora, claro está, a parte africana do negócio escravista, reportam os números de Portugal e Brasil, em conjunto. Já chamei a atenção para isso em artigo anterior, que terá passado despercebido a Miguel Cardina.

Mas há um segundo aspecto do seu engano que é muito mais importante. É que para além de não ter visto com suficiente rigor ao perto, Miguel Cardina também não terá visto bem ao longe. Deixou-se encadear, imagino eu, pelos números das tabelas e encadeou-nos inadvertidamente a nós. É que a história do tráfico de escravos e da escravidão não se resume ao tráfico transatlântico nem é ele que por si só cria uma “potência esclavagista”. Não estou a pôr em causa, de modo algum, as tabelas do Trans-Atlantic Slave Trade Database, que são muito úteis, e que conheço desde a década de 80, época em que David Eltis, o seu criador, mas enviava pelo correio, pois ainda não estavam online. Mas as tabelas estão longe de dizer tudo. Referem-se apenas ao tráfico transatlântico e não nos falam, por exemplo, do que se passava em terra. Na verdade, no Ocidente, a maior potência esclavagista, se essa expressão tem algum sentido ou algum interesse, não foi Portugal, mas sim os Estados Unidos. É verdade que os Estados Unidos proibiram o tráfico transatlântico de escravos em 1807 e que, nos estados do norte, começaram a abolir a escravidão ainda antes disso, logo em 1777. Os estados do sul, porém, mantiveram-na até à derrota na guerra civil, em 1865, e, se bem que já não importassem escravos por mar a não ser de forma residual e ilícita, produziam-nos e comerciavam-nos internamente, através daquilo a que se chama breeding, isto é, a reprodução biológica.

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O capitalismo em estado de guerra civil | José Goulão in Blog “abrilabril.pt”

POR JOSÉ GOULÃO 

A guerra civil capitalista está lançada. Quanto aos resultados a proporcionar pela vitória de qualquer dos campos em confronto, por indefinidos que ainda sejam, que venha o diabo e escolha.

A ordem mundial – chamemos-lhe assim, por comodidade – monolítica e unipolar, nascida nos escombros do muro de Berlim, e consolidada através do cada vez mais misterioso atentado de 11 de Setembro de 2001, está à beira do fim.

Atribuir o funesto desenlace de um sistema que fica como espelho da ortodoxia neoliberal aos maus humores de Donald Trump, à sua embirração com a senhora Merkel, à falta de polimento congénita e à mais do que comprovada tendência autoritária é uma explicação apenas ao alcance de indigentes mentais. Só as cabeças que se deixaram formatar pela quadratura neoliberal, a arte de transformar a ausência de reflexão e de ideias em pensamento único, podem alinhar numa tese tão desfasada da realidade.

Observar o presidente dos Estados Unidos da América passar um atestado de óbito à União Europeia, vê-lo desqualificar a elite governante da NATO, sentar-se ao lado do presidente da Rússia com o desejo declarado de iniciar uma nova relação entre Washington e Moscovo não pode ser uma questão humoral; nem subjectiva; nem um delírio. Tem que haver causas objectivas.

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Há um défice de reflexão crítica à Esquerda e à Direita sobre o passado | Miguel Cardina, historiador | in Jornal “Diário de Notícias”

O presidente do Conselho Científico do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra falava à agência Lusa, sobre a memória que a sociedade portuguesa tem do período colonial e dos 500 anos da presença portuguesa noutras latitudes, uma temática, advertiu, “complexa”, pois a “memória nunca é total nem pura” e há “memórias desencontradas”.

Para o investigador, “há uma leitura, em setores dominantes da sociedade e em alguns setores do Estado, que tende a ser amnésica, preferindo expressões que acentuam uma dimensão positiva daquilo que foi a experiência colonial, e tendem a esquecer o reverso, que foi justamente a dimensão profundamente desigual, violenta e hierárquica imposta pelo colonizador, aos povos colonizados”.

E, a este nível, afirma, “nem sempre a Esquerda e a Direita se distinguem”.

A questão colonial é “um dado que está ausente do espaço público em Portugal, apesar de haver trabalho académico”, realçou o investigador à Lusa, segundo o qual “há uma consciência crítica desse passado, quer através da academia, com a produção de vários trabalhos, quer da parte de movimentos e associações de afrodescendentes, e de movimentos sociais”.

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A estátua da rainha Njinga | uma nova frente na luta de memórias | João Pedro Marques | in Jornal “Público”

Estamos perante novos preconceitos de matriz ideológica e cultural que inverteram os preconceitos racistas dos séculos XIX e XX.

A investigadora Cláudia Silva escreveu um novo artigo sobre escravatura. O artigo diz várias coisas acertadas, não faz afirmações panfletárias e tem pelo menos três méritos. O primeiro é o de nos relembrar algo que raramente é dito, isto é, que os africanos já tinham escravos e que os árabes já os adquiriam, na África subsariana, muito antes da chegada dos portugueses. O segundo é o de procurar ser equilibrado, esclarecedor e justo, ainda que em três ou quatro pontos Cláudia Silva não o consiga inteiramente. De todo o modo, esforça-se por isso e recomenda, e muito bem, que não se olhe para a história da escravatura com olhos maniqueístas. Porém, e a pretexto de ir contra o maniqueísmo, a articulista sugere que se erga, em Lisboa, uma estátua à rainha Njinga, apesar de reconhecer que a dita rainha “possuiu escravos e também os vendeu, tendo assim participado no tráfico de escravos”. Esta sugestão é, ainda que involuntariamente, o terceiro mérito do seu artigo, não pela proposta em si mesma, que é inadequada para não dizer absurda, mas porque nos ajuda a perceber melhor os propósitos que movem, e as contradições de que enfermam, muitos dos intervenientes neste debate sobre escravatura.

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O legado da escravatura e as narrativas de Lisboa | Cláudia Silva | in Jornal “Público”

O comércio Atlântico criou uma demanda sem precedentes que extrapolou o tráfico interno africano.

É impossível alterar o passado. Mas podemos alterar o presente. Mas para alterar o presente precisamos compreender e reconhecer o passado. Deve-se reconhecer um legado histórico deixado pela escravatura atlântica, que é facilmente identifi cado nas coisas mais fundamentais, desde uma determinada linguagem quotidiana de cunho racista que usamos na língua portuguesa — talvez por herança — à toponímia de Lisboa. Há hipóteses, por exemplo, de que o nome da Rua do Poço dos Negros talvez faça referência a uma vala onde os cadáveres de escravos não batizados eram depositados. E a Rua da Preta Constança, na Ajuda? Diz-se que Preta Constança era uma “escrava trazida dos confi ns de África” e “viveu a fortuna, a desilusão e a desgraça neste bairro lisboeta”. Mas o que é que os nomes de ruas lisboetas têm a ver com esta discussão? Estas exemplifi cam um legado impregnado no espaço urbano que mal vemos, compreendemos ou sequer reconhecemos. No meio científico, há quem chame a isto de desenterrar histórias da arquitetura ou do espaço urbano “narrativa arqueológica”. Poderemos, portanto, reconhecer a história de certos espaços urbanos se escavarmos e trouxermos à tona estas narrativas. O mesmo se passa com a história em geral. Daí a relevância de um memorial de escravos ou de um museu que exponha o tema através de documentos históricos, narrativas e imagens. Mas, antes, é preciso uma compreensão do passado (e do que se quer), que passa também por reconhecer certos legados. A respeito dos legados, há quem levante o seguinte questionamento: os portugueses foram os primeiros a levarem pessoas escravizadas de África para as Américas? Isto é um facto histórico partilhado nas publicações de historiadores portugueses (Arlindo Manuel Caldeira, no livro Escravos e Traficantes no Império Português) bem como de não-portugueses (Linda Heywood, Anthony T. Browder, John Thornton, James A. Rawley e Stephen D. Behrendt).

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Centenário do nascimento de Nelson Mandela | Carlos Esperança

Em 18 de julho de 1918 nasceu o maior vulto do continente africano dos últimos cem anos.

O prisioneiro 46 664, foi o símbolo dos que não desistem de transformar o Mundo e deixar um país livre e multirracial. O primeiro presidente da África do Sul, condenado a prisão perpétua, resistiu ao cativeiro 27 anos, e ao ódio e à vingança o resto da sua vida. 
Distinguido com o Prémio Nobel da Paz, foi maior o prestígio que conferiu ao Prémio do que este ao premiado. Paladino da liberdade e o grande obreiro da transição pacífica de um regime racista e colonialista para um país multicultural e multirracial – a África do Sul –, permanece a maior referência de África e uma das maiores figuras da Humanidade.

Faleceu aos 95 anos esse gigante da História cuja grandeza ética, inteligência e sensibilidade o distanciaram dos dirigentes políticos do seu tempo, deixando-nos a esperança de um mundo onde não seja possível a discriminação por razões de raça, religião, sexo ou convicções políticas.

A grandeza moral levou-o a perdoar aos países que, em 1987, votaram contra a sua libertação incondicional, proposta pela Assembleia Geral das Nações Unidas, – EUA, Inglaterra e Portugal –, onde governavam Reagan, Thatcher e Cavaco, anões morais que se tornaram ainda mais vis perante a grandeza do homem que pretendiam preso.

Nelson Mandela é um daqueles homens que será sempre maior do que a lenda.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

In vino veritas | Carlos Matos Gomes

In vino veritas. Isto é, o futebol destapa complexos. 

A alegria que vejo pela derrota da Inglaterra não resulta apenas de uma vulgar manifestação do velho complexo de inferioridade. É mais triste. É uma manifestação de masoquismo. Gostamos de ser pequeninos. Somos uns Calimeros.
Muitos portugueses exultaram com a derrota da Inglaterra e identificaram-se com a Croácia. Para esses, nós somos a Croácia, nação que, como se sabe, tal como nós e a Inglaterra, deu mundos ao mundo, navegou por todos os mares do planeta, levou a civilização europeia e a Europa a todos os continentes. Goste-se ou não do resultado, foi um feito histórico mundial, que nos devia fazer olhar os ingleses como iguais, e não os historicamente irrelevantes croatas (com o devido respeito, as coisas foram e são assim).
Os croatas têm, tal como nós temos uma língua falada nos 5 continentes? O inglês está ao nível do servo-croata, do catalão e do provençal! Não é? Parece que sim. 

Também foram os cruzados croatas que vieram auxiliar o rei Afonso Henriques a tomar Lisboa, e Silves, para constituir o território do que é hoje Portugal. E foram croatas que combateram ao lado das tropas daquele que seria o rei João I em Aljubarrota, claro. E a rainha Felipa de Lencastre, uma das mais importantes figuras da nossa história, mãe de Henrique o Navegador, e do que designamos por ínclita geração, por exemplo, era croata e não inglesa?

E também foram croatas os que vieram com Wellington, um general croata, lutar contra as tropas de Napoleão? Claro. E foram croatas que desembarcaram no Mindelo com os liberais do rei Pedro. E foi para a Croácia que se dirigiram os exilados portugueses anti-absolutistas no século XIX e, no século XX os antifascistas? E é aos engenheiros croatas que devemos a caldeira a vapor e o que se seguiu na revolução industrial. 

Deixemos a história. Cada um escolhe os seus referentes. Os croatas são o que são e desempenharam nela o papel que desempenharam. Merecem-me respeito, mas não identificação. Resta o prazer.
Que diabo, o barão de Forrester, tido como o inventor do vinho do Porto, não era croata, era inglês! E o uísque também não é croata. Há excelentes uísques ingleses! Nem os Beatles, nem os Monty Phyton! 

Quanto à final: sou adepto do champanhe, com ou sem ostras. De Cognac e Armagnac. E da trilogia da liberdade, igualdade e fraternidade. Também me merecem muito respeito os portugueses que morreram na França na Grande Guerra, os que lá se exilaram, os que para lá emigraram, lá vivem e trabalham.

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

A Besta | Maria João Cantinho

De que tempo somos, agora
que a tempestade sopra de novo
e ao céu sobe este monte de ruínas
devastação anoitecendo o mundo

tenta lembrar-te de que lado
veio um dia o alerta, de que armário
saiu este cortejo de sombras
onde se gravou o que a história
deixou escapar, nas malhas do mito

para de novo retornar
a besta silenciosa, a que vigia
sem que as pálpebras lhe desçam
uma única vez. Silente

talvez estivéssemos nós, os do Sul,
embriagados pela torpeza do metal
e por isso ela moveu-se devagar
como se fosse cinza na minha memória

MJC, «Do Ínfimo», Editado pela editora Penalux, Brasil, 2018.

Portugal ainda resiste a olhar para o passado de forma crítica | Miguel Cardina e Bruno Sena Martins | Entrevista de Camilo Soldado in Jornal Público

09-07-2018 | Jornal “Público” | Entrevista Camilo Soldado

Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, os investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra organizaram o livro “As Voltas do Passado”. Um conjunto de textos sobre o último fôlego do passado colonial português.

O pretexto para a publicação do livro As Voltas do Passado é o CROME, o projecto do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação, que procura compreender como se foram reconfigurando as memória das guerras, desde a independência dos vários países até à actualidade. O subtítulo da publicação, A Guerra Colonial e as Lutas de Libertação, traduz essa tentativa de tratar “diferentes processos de memorialização”, tanto provenientes de Portugal como das ex-colónias. O resultado acaba por ser um mosaico de vozes, de geografi as e de gerações, com o colonialismo português como pano de fundo. No livro, lançado recentemente pela Tinta da China, cabem os momentos cuja importância é mais frequentemente reconhecida na história, como o discurso de Salazar que marcou o início da guerra, em 1961, o 25 de Abril de 1974 ou as independências após a revolução. Mas cabem também episódios menos conhecidos: desde a vida a bordo Vera Cruz, o paquete que transportava tropas a partir da metrópole, às páginas mais negras do domínio português em África, ilustradas pelos massacres de Batepá (São Tomé e Príncipe), Pidjiguiti (Guiné), Mueda e Wiriamu (Moçambique).

O cruzamento de memórias, afirmam os coordenadores da obra que reúne textos de mais de 40 autores, Bruno Sena Martins, doutorado em sociologia, e Miguel Cardina, doutorado em história e coordenador do CROME, “dá-nos um outro olhar sobre esse passado”. Defendem também que essa polifonia ajuda a explicar parte da organização social do país actual.

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Portugal e a escravatura: dois mal-entendidos | João Pedro Marques | in Jornal “Observador”

6/7/2018

Se o fito de Fernanda Câncio for esclarecer a opinião pública, então deve parar um pouco para se informar melhor. Mas se a sua intenção for flagelar Portugal, então não precisa de se informar.

A jornalista Fernanda Câncio, que, em Abril de 2017, na sequência da ida de Marcelo Rebelo de Sousa à ilha de Gorée, no Senegal, foi uma das iniciadoras do debate em torno da questão da antiga escravatura, esteve longos meses alheada desse tema, mas regressou agora a ele num artigo publicado no DN, no qual fez duas afirmações enganadoras. Disse, nomeadamente,“que Portugal sozinho (…) foi responsável por quase metade dos 12,5 milhões de negros escravizados e traficados de África para as Américas entre 1501 e 1875”; e acrescentou que “o grosso desse recorde mundial decorreu entre 1826 e 1850, ou seja, já após a mítica abolição da escravatura por Pombal (1761)”.

Comecemos pelo fim. Há, da parte de Fernanda Câncio, um mal-entendido quanto ao alvará abolicionista de Pombal. O dito alvará nada tinha a ver com tráfico transatlântico, aplicava-se apenas a Portugal metropolitano. Mas não é mítico. Existiu e produziu efeito. Deixaram de se importar escravos para o território metropolitano e um alvará posterior (1773) extinguiu gradualmente o estado de escravidão em Portugal continental. Foram os primeiros passos no sentido da abolição que, no âmbito do império português, só décadas depois seriam continuados. Mas esses passos deram-se e não foram revertidos. Fernanda Câncio parece ignorar que as leis abolicionistas foram muitas vezes graduais e sucessivas, abolindo parcela a parcela. A própria Inglaterra, a incontestável campeã do abolicionismo, aboliu o seu tráfico de escravos em anos sucessivos e não de uma só vez. Fernanda Câncio parece ignorar, também, que na terminologia do século XVIII, a palavra escravatura significava geralmente tráfico de escravos (e não escravidão, como significa para nós). Daí, talvez, alguma da sua confusão.

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A PROPÓSITO DA MADONNA | Hélder Bértolo

(…)  não há nada de ilegal, nem nenhum favorecimento, por parte do  (…)  Presidente da Câmara de Lisboa.


Escrevo este texto porque penso que aquilo que se verifica a propósito desta situação se observa igualmente em muitas outras situações nas redes sociais e, até, nos meios de comunicação social.

Como ponto prévio, eu pecador me confesso: não sou fã de Madonna.
Gosto de algumas músicas, penso que teve comportamentos relevantes na defesa dos direitos de minorias, que quebrou estereótipos, etc… mas nunca fiz uma viagem ao estrangeiro para ver um concerto, nem conheçoa discografia de cor, nem tenho uma colecção de CDs e DVDs.

As pessoas são TODAS livres de ter a sua opinião e, inclusivamente, porque vivemos em democracia, de dizer os maiores disparates. Mas não gosto de «achismos» (como agora se costuma dizer).
Seja por preguiça, por falta de tempo, por incapacidade de análise, a maior parte das vezes essas opiniões não são minimamente fundamentadas. Nem há argumentos sólidos que as defendam.

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UM EQUÍVOCO QUE TARDA EM DESFAZER-SE | Rodrigo Sousa e Castro

Após a queda do muro de Berlim e a pulverização da URSS o pacto de Varsóvia colapsou e a ameaça para a qual a NATO foi instituída desapareceu.
Quer do ponto de vista ideológico, – a Rússia e todas as ex repúblicas soviéticas são hoje países capitalistas – , alguns no pior sentido, quer do ponto de vista militar com os exércitos desses países em confrangedor estado, juntamente com os inevitáveis ajustes de contas que ainda correm entre eles, deixaram de ser uma ameaça credível para as potências regionais europeias.
O que restou então ?
Apenas e só os interesses inconfessados de uma camarilha de privilegiados que mantêm a ficção que o inimigo está no Leste.
No auge da guerra fria , o grande De Gaulle, manteve as forças armadas francesas fora do comando NATO, porque sabia, tal como os britânicos que a sua força de dissuasão nuclear era mais que suficiente para manter em respeito qualquer veleidade soviética.
Hoje é mais que evidente que a NATO, mercê da ambígua politica alemã, mantem a ficção do inimigo a Leste estando em vias de cair definitivamente no ridículo.
Esta situação , ausência de inimigo credível, coloca a NATO num vazio estratégico e permite que Trump e a sua administração diga:
– querem brinquedos caros , paguem-nos.
O próximo encontro Putin Trump, dirá muito sobre a sorte dos apaniguados da nova guerra fria artificialmente criada e mantida para sustento de escassas elites e orgasmo intelectual de comentadores e jornalistas da treta.

Rodrigo Sousa e Castro

Retirado do Facebook | Mural de Rodrigo Sousa e Castro

Pourquoi les femmes kabyles portent elle Amendil ?(foulard kabyle) | Fadette Aiache

Selon la légende, l’histoire débute dans les montagnes de Tiggoura au nord de la ville de Bejaïa , des cavaliers faisaient le tour de la région à cheval , malheureusement ils se sont piégés dans un torrent terrible celui de Bousallem ou une avalanche d’eau surpuissante s’abattait sur eux . Pour essayer de s’en sortir ils decidèrent de s’accrocher les uns aux autres. Pris de panique ils crièrent “À l’aide ! À l’aide”. Par chance un groupe de femmes aux longues tresses étaient en train de ceuillir des olives non loins de là. En kabylie durant cette période avoir de long cheveux étaient un signe de beauté . Elles accoururent et les vies ensanglantés , écorchés , elles décidèrent donc de couper leur grandes et magnifique tresses et d’en faire une longue corde afin que les cavaliers puissent s’échapper du torrent. En kabylie les cheveux de la Femme sont sublimés , on leur donne encore aujourdhui beaucoup d’admiration. Depuis cette histoire les femmes kabyles se couvrent La tête ( ce n’est donc pas un signes religieux ) pour protéger du froid , des cassures ou de la chaleur du soleil en été. Le foulard est admirablement porté avec un noeud sur le côté , un pan derrière qui laisse apparaître la longue tresse de la femme.

Fadette Aiache

Retirado do Facebook | Mural de Fadette Aiache

Migrações e refugiados | Carlos Matos Gomes

No futuro todos nós, europeus e americanos vamos vaguear em busca de uma terra prometida

Quanto a fechar fronteiras e erguer muros para impedir migrantes, em especial africanos, de entrar nos nossos espaços com casas climatizadas, água, eletricidade, hospitais, escolas, horários, salários, mercados, imagens de felicidade e abundância em cartazes de publicidade, quer a Europa quer os Estados Unidos têm razão: eles não são bem vindos. Nãos os queremos a pedir às nossas portas, a estragar a nossa paisagem, a ameaçar a nossa ideia de tranquilidade!

A partir da segunda metade do século XX, a Europa e a América construíram o mais parecido com uma Terra Prometida que existiu na História da humanidade. É certo que alcançaram esse feito universal em boa parte à custa das riquezas das terras que colonizaram e ocuparam no planeta desde o século XVI, mas esse foi — assumem — já um mérito seu, da sua capacidade de inovação e de determinação, da sua superioridade. Trataram de si.

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