Poema | Maria Isabel Fidalgo

Nesta manhã de sol rasgado
domingo triunfante de preguiça
a nitidez da luz esmorece os sobressaltos.
Resplandecem cores quase estrangeiras ao longe
ocorrem-me primaveras intensas na rosa encarnada da jarra
que me consente a breve graça da alegria.
Hoje exalto o dia e o mistério efervescente de claridade
este sagrado brilho onde o coração dos pássaros se ergue alto na ara dos olhos.
Hoje exalto esta matina clara
a planar numa colina onde se erguem voos
rendidos à destreza dos sentidos.
Depois cantamos.
és-me tão sempre quando te fazes cântico depois da noite.

«O caminho de Cristo é a única coisa que torna possível a nossa sobrevivência» | Martin Scorsese | Andrea Monda In L’Osservatore Romano

Quando a 21 de outubro passado se voltaram a encontrar, Martin Scorsese e o papa Francisco retomaram uma conversa como a que podem ter dois velhos amigos que se entendem sem esforço, ainda que a última vez que se tinham encontrado ocorreu praticamente um ano antes, a 23 de outunro de 2018, em Roma, por ocasião do encontro de jovens e idosos com o papa da apresentação do livro “A sabedoria do tempo”. O papa, depois de lhe ter perguntado pela esposa, quis saber informações sobre o seu novo filme, “The irishman”, e o realizador italo-americano explicou que se trata de uma película sobre o tempo e a mortalidade, a amizade e a traição, o remorso e o arrependimento pelo passado.

Entre os dois começou um diálogo tão simples quanto profundo, que depressa aportou ao nome de Dostoiévski, comum paixão de ambos, que com os seus romances faz de pano de fundo à obra do cineasta de “Os cavaleiros do asfalto” e “Silêncio”. E é precisamente do grande escritor russo que pretendo partir para retomar aquela conversa, ligando-me a “The irishman” e ao protagonista, Frank Sheeran (interpretado magistralmente por Robert De Niro), que surge como o único sobrevivente que, por isso, pode e deve falar, o único vivo que manda «notícias de uma casa de mortos». Não por acaso para todos os outros personagens, que fugazmente comparecem em cena, uma referência detém a imagem e indica-nos a data e a maneira, sempre violenta, da morte. Frank está vivo e fala, melhor, confessa-se, olhando fixamente para a câmara, nosolhos do espetador.

Este é outro filme profundamente espiritual da carreira de Scorsese. De resto, na longa entrevista dada ao P. Antonio Spadaro, aquando do filme anterior, “Silêncio”; o realizador de Nova Iorque revelou ser «obcecado pela espiritualidade», ou seja, pela pergunta sobre o que somos nós, seres humanos. Questão que, segundo ele, obriga cada um de nós olhar-se de frente, próximo, a olhar o bem e o mal que há dentro de nós.

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La femme philosophe rayée de l’Histoire | Hypatie d’Alexandrie in http://compediart.com

Connue comme la plus illustre des savantes antiques, Hypatie d’Alexandrie doit sa renommée à son sordide assassinat commis en public par des moines fanatiques. Pourtant, ce personnage fait encore l’objet aujourd’hui de nombreuses distorsions bien éloignées de la réalité historique. Retour aujourd’hui sur la véritable histoire d’une femme fascinante à plus d’un titre…

Née aux environs de 360 après Jésus-Christ dans une Alexandrie alors sous domination romaine, Hypatie suit l’enseignement de son père, le mathématicien Théon d’Alexandrie, avant de partir parfaire sa formation à Athènes où elle étudie notamment la philosophie. Quand elle revient dans sa ville natale, elle s’installe en tant que professeur, donnant des conférences publiques mais proposant aussi des cours privés aux jeunes gens de l’élite alexandrine. Son enseignement mêle mathématiques, sciences naturelle et philosophie néo-platonicienne et l’amène à devenir l’une des savantes les plus en vue d’Alexandrie à son époque. Bien qu’elle ne soit à l’origine d’aucune invention, Hypatie est reconnue pour ses brillantes qualités intellectuelles qui lui permettent d’étudier, synthétiser et commenter aussi bien des textes mathématiques que des traités astronomiques comme ceux du savant Ptolémée, un scientifique ayant vécu au début du IIème siècle à Alexandrie et étant notamment avec Aristote à l’origine de la théorie géocentrique du cosmos.

Les documents historiques au sujet d’Hypatie sont rares, et nous la connaissons surtout à travers sa correspondance avec l’un de ses disciples, Synésios, qui deviendra par la suite évêque de Ptolémaïs mais ne cessera de recourir à ses conseils intellectuels éclairés. A travers ces documents, Hypatie est présentée comme une femme très admirée tant pour sa grande intelligence que pour sa beauté et sa tempérance, restant vierge jusqu’à la fin de sa vie pour préserver sa liberté.

Pourtant, nous ne saurions sans doute rien d’Hypatie si elle n’était pas entrée dans la légende avec le sordide assassinat dont elle fut l’objet. En 415, alors qu’elle rentre chez elle, la philosophe est arrêtée par un groupe de moines fanatiques qui l’amènent dans une église où ils l’écorchent vivante avec des coquillages et des tessons de verre, avant de démembrer son corps et de le brûler sur une colline proche.

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Essa Gente | Chico Buarque

SINOPSE

Um escritor decadente enfrenta uma crise financeira e emocional enquanto o Rio de Janeiro colapsa à sua volta. Tragicomédia urgente, o novo romance de Chico Buarque, o primeiro depois da atribuição do Prémio Camões, encara de frente o Brasil do agora.

Autor de um romance histórico que fez furor nos anos 1990, o escritor Manuel Duarte passa por um deserto criativo e sentimental. Dividido entre várias ex-mulheres, espartilhado por pesadas dívidas, surpreendido por um filho de quem vai aprendendo a ser pai, Manuel Duarte bate perna nas ruas do Leblon no intervalo das horas em frente ao teclado, desesperando por um novo livro.
O pano de fundo é um Rio de Janeiro que sangra e estrebucha sob o flagelo de feridas sociais a cada dia mais ostensivas; cenário maior onde se desenrolam as feridas individuais das personagens, que juntas compõem um diário em que se procura fazer sentido do tumulto do presente.
Ao seu melhor estilo, Chico Buarque esfuma as fronteiras entre vida, imaginação, sonho e delírio, e constrói uma narrativa engenhosa, tão divertida quanto trágica, em cujas entrelinhas se descortinam as contradições de um país ameaçando despedaçar-se, assim como as deliciosas incoerências e ilusões da gente como nós.

CRÍTICAS DE IMPRENSA
«O livro de Chico é uma vertigem. Você é sugado pela primeira linha e levado ao estilo falso leve, a prosa depurada e a construção engenhosa até sair no fim lamentando que não haja mais, assombrado pelo sortilégio deste mestre de juntar palavras. Literalmente assombrado.»
Luis Fernando Verísssimo, O Globo

O novo livro de Chico Buarque confirma (mesmo não sendo necessário) a qualidade da obra já conhecida. Para quem ainda não conhece, é um excelente ponto de partida. Para quem já é apreciador, é mais uma oportunidade de deslumbramento.
Ana Magalhães | 23-12-2019

À PROPOS D’ALBERT CAMUS | Yacine Bouzaher

Dans un échange avec une amie, j’ai émis un avis concernant l’œuvre de Camus, que je reproduis ci-dessous:
-“J’ai une lecture de l’œuvre et une interprétation de Camus, que je n’ai jamais vue par ailleurs, ou alors ça m’a échappé. Pour moi, Camus, c’est celui qui a ma connaissance, à le mieux donné à voir, à ressentir, la solitude profonde de l’être. Nous sommes cadenassés dans notre être ontologique, seuls face à nous-mêmes, cerné par le monde qui nous entoure. Et nous aurons beau faire, nous ne sortirons jamais de nous-mêmes pour fusionner avec le monde.

Paradoxalement, la prise de conscience d’exister, nous condamne à cet enfermement en soi. Et le fameux, je pense donc je suis, se transforme en je pense donc je suis seul en moi.

Il y a deux moments dans la vie, ou cette réalité de la condition humaine ( l’humain en tant qu’être pensant) font exception. Mais de manière fugace et peut-être illusoire. C’est, quand, bébé, on n’a pas vraiment ( encore que) conscience d’exister, la fusion avec la mère, Camus a un peu évoqué cela. Et quelquefois, dans la fusion de l’amour ( qui ne dure qu’un instant comme dit la chanson), surtout au moment ( c’est hélas pas toujours le cas) de l’orgasme sexuel, une infra seconde, le temps s’arrête et nous sortons de nous-mêmes, pour une extase partagée. À cet infinitésimal instant nous ne sommes pas seuls, sinon … 

Cette solitude pour fondement, je l’ai particulièrement ressenti à la lecture de “L’étranger”. Mais, on retrouve cette épaisseur, qui avec le temps se transforme en pavois, dans toute son œuvre, Sisyphe ( le mythe de Sisyphe), “Caligula”. Dans la pièce ” Le malentendu”, il aborde explicitement ce thème avec l’amour ( celui de la mère ou celui d’une femme) comme possibilité d’y échapper, mais encore une fois ce sera raté. Il ne restera que la solitude. Dans “La peste” ( œuvre à plusieurs tiroirs) nous retrouvons également cette dimension.”

Yacine Bouzaher 

Retirado do Facebook | Mural de Yacine Bouzaher

Nos 60 anos da morte de Albert Camus | Rui Bebiano in “A Terceira Noite”

O escritor húngaro Imre Kartész, antigo deportado de Auschwitz-Birkenau, resumiu numa frase curta a afeição imediata e duradoura por Albert Camus: «Amei imediatamente a sua liberdade, mas também a sua insolência». A par do impacto da voz literária, as marcas de independência e de insubmissão do autor de Os Justos têm sido determinantes para manter um poder de atração, uma irradiação de heroísmo e resistência, que têm cruzado diferentes épocas e circunstâncias. Eclipsadas as grandes narrativas do tempo histórico, muitos dos que foram perdendo as certezas acolheram com agrado aquela que foi, como escreveu nas memórias Maria Casarès, o amor de muitos anos, «a sua paixão pela justiça e pela verdade». A dilatação desta influência tem sido, no entanto, diretamente proporcional às incompreensões mantidas dentro do território político ao qual pertenceu.

Alguns dos seus personagens são modelos de egotismo e desapego pelos outros, mas o mesmo não se passou com o seu criador. Um Camus solidário apoiou os republicanos contra Franco e opôs-se à ocupação alemã («comecei a guerra como pacifista, terminei-a como resistente», anotará um dia). Em 1935 tornou-se militante do PCF, de onde sairia dois anos depois por rejeitar as posições moderadas sobre o fascismo e o colonialismo impostas por Estaline. Desta passagem guardará a desconfiança face ao doutrinamento, a certeza de que a ética individual não pode ceder ao transitório, e a convicção de que a esquerda não tem dono ou procurador. O afastamento aumentará em 1946 com os artigos aparecidos no Combat, sob o título genérico «Ni victimes, ni bourreaux», nos quais denunciou os campos de trabalho soviéticos. E depois com O Homem Revoltado, de 1952, onde exaltou a revolta como instante crítico da emancipação do indivíduo. O caráter libertador desse momento parecia-lhe, porém, ameaçado pela opção revolucionária. Ao instituir a violência e a supremacia do coletivo como uma necessidade, esta arriscar-se-á sempre a subverter e a arruinar o princípio último em nome do qual funda a sua insubmissão.

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Passeport pour «l´aventure révolutionnaire comme castration» | Fernando Couto e Santos | Chronique de janvier 2020

«C´était au temps où, chassé de ce Parti auquel j´avais donné ma vie, je me trouvais désert et comme déraciné…». Cette phrase, que l´on peut lire dans le roman- ou recueil de nouvelles ?-Faux passeports, traduit ce que fut le désarroi, l´angoisse et le désespoir des déçus du communisme. Il n´est jamais d´ailleurs inutile de rappeler qu´en français on a le même mot pour le participe passé du verbe «partir» et pour le nom exprimant l´association de personnes possédant des idées politiques communes. Or, le verbe partir a toujours fait bon ménage avec le parti communiste, en France, en Belgique, ou ailleurs.

Le roman Faux passeports –dont la collection Espace Nord (Impressions Nouvelles, Fédération Wallonie-Bruxelles) vient de faire paraître une nouvelle édition- a remporté le prix Goncourt en 1937, au moment où en Union Soviétique les procès de Moscou battaient leur plein. Il était signé Charles Plisnier, un Belge, le premier écrivain ne possédant pas la nationalité française à obtenir le prix le plus prestigieux des lettres françaises.

Continue ici:  https://laplumedissidente.blogspot.com/2019/12/chronique-de-janvier-2020.html?fbclid=IwAR3Qd2yi77BkK4rUOMXITQm6iBEHqA4AJDduT58RDtkHeztejlgCE8zDkSc 

Amar | Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade – no livro Claro Enigma de 1951

La religion de l’en-deçà : entre n’être pas et Naître | Kamel Daoud in Le Monde des Religions

C’est une curiosité intellectuelle de rappeler qu’il existe mille religions pour consacrer l’idée de « l’au-delà », la résurrection ou le corps et sa mort, mais aucune pour l’en-deçà, la gravidité négligée du vide qui précède celle du ventre de la mère. On conclut très vite que cet abîme de l’amont attire peu la spéculation ou la curiosité, et qu’il n’a ni temples ni prêtres, ni livres sacrés autre que le livret de famille. On peut le comprendre : ce néant ancêtre a été résolu par la naissance, alors que c’est la mort qui angoisse, avec le terrible spectre de la fin ou celui de l’éternité des actes commis.

Mais naître est-il si futile face à l’expiration ? Et réfléchir à l’en-deçà ne mène-t-il pas à mieux surseoir à la peur de la mort, puisqu’elle ne vaut pas plus que celle de n’avoir pas été pendant si longtemps ? Plus encore, l’en-deçà ne donne-t-il pas plus d’espérance puisque la naissance serait la preuve, par l’absurde, qu’il y a une vie après le vide ?

Plus évident, naître est déjà le signe que l’au-delà est un néant plus certain qu’un paradis ou un enfer puisqu’on en a la preuve. N’avoir pas été ne donne-t-il pas plus de modestie en ramenant à une juste mesure l’idée de ne pas être un jour ? Enfin, une véritable question : si je n’ai pas été pendant si longtemps, des millions d’années, mon existence est-elle la preuve d’une nécessité enfin aboutie, ou d’un hasard qui me dispense de trop m’appesantir sur la raison pour mieux jouir de l’accident ? Le « ou bien, ou bien » du philosophe Kierkegaard prend alors un curieux sens, si on le réécrit dans cette perspective.

C’est Michel Tournier qui, dans son roman Le Roi des Aulnes, s’attarde brièvement sur ce mystère magnifique et négligé du vide avant la vie. « J’ai toujours été scandalisé de la légèreté des hommes qui s’inquiètent passionnément de ce qui les attend après leur mort, et se soucient comme d’une guigne de ce qu’il en était d’eux avant leur naissance. L’en-deçà vaut bien l’au-delà, d’autant plus qu’il en détient probablement la clé. » Cette idée de clé est curieuse, mais très juste. C’est là qu’on devrait méditer, à titre individuel, sur ce trou de serrure que l’on comble par des langes, à défaut d’y être incité par une religion entière. Car les textes sacrés s’arrêtent si peu sur notre néant individuel, avant de venir au monde. La question est même expédiée par une pirouette qui explique la « Chute », la naissance ou la création d’un seul couple. Six jours sont consacrés pour la Création et on attend la fin du monde depuis des millénaires. Des millions de cimetières se bousculent sur la rampe des croyances. Ce que chacun n’est pas, avant d’être, intéresse en effet si peu la fausse science des fins dernières, et c’est bien dommage.

Il faut s’imaginer une religion de l’en-deçà, peut-être. C’est une source plus solide pour une éthique, ainsi qu’une incitation plus vigoureuse pour la jouissance, pour fonder une morale ou un engagement. Nés de rien, le monde qui nous est offert prend subitement, à la lumière de ce vide précédent, toute sa valeur unique. Y respirer devient une fortune, aimer y est un défi aux jeux du hasard. Ainsi enserrés entre le vide de l’avant et celui possible de l’après, nous ferons des choix meilleurs et plus raisonnables. La preuve par le vide qui nous précède devrait alléger nos doutes, nous délivrer de la peur, peut-être, et ramener la mort à l’humble image d’une porte secondaire.

Rien n’est éternel ? En effet, le vide qui nous a précédés le prouve mieux que celui qui va suivre. J’aime cette idée qui me permet de tenir tête aux dogmes si voraces. C’est ainsi que je déchiffre l’idée de « clé » de Tournier.

Kamel Daoud in Le Monde des Religions | publié le 24/12/2019

http://www.lemondedesreligions.fr/chroniques/regard-poetique/la-religion-de-l-en-deca-entre-n-etre-pas-et-naitre-24-12-2019-8470_164.php?fbclid=IwAR01ILHYGxXv2ehdHpC33LPRrM7Xu1ZvsbMFNjwnDBGK0uD8DZWcqeJmMsg

O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo | Adelto Gonçalves

Uma nova interpretação da história de São Paulo

SÃO PAULO – Quem quiser conhecer uma nova interpretação da história do Brasil e especialmente da terra paulista não pode deixar de ler O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo, do professor, jornalista e historiador Adelto Gonçalves, que revisa o século XVIII e corrige equívocos publicados em outros livros por falta de pesquisa em arquivos. O trabalho desenvolvido por Adelto Gonçalves consiste em uma análise dos anos de 1788 a 1797, período de governo de d. Bernardo José Maria da Silveira e Lorena (1756-1818), mostrando como a capitania de São Paulo sempre teve um papel de grande importância na construção do Brasil, especialmente em razão de sua localização estrategicamente favorável.

“Adelto Gonçalves substancialmente enriquece a nossa compreensão da história e do desenvolvimento de São Paulo durante o fim do século XVIII. Este trabalho, de sólida base em documentos históricos e pesquisas de arquivo, reflete a formidável jornada de Adelto como historiador de Portugal e Brasil”, escreve no prefácio o historiador britânico e ex-diretor do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockfeller da Universidade Harvard, de Massachussetts (EUA), Kenneth Maxwell, doutor em História pela Universidade Princeton (EUA). E acrescenta: “Esta obra é, em sua totalidade, não só uma rica análise do governo de Bernardo Lorena, mas um estudo que abre muitas linhas de investigação e formula muitos problemas novos, o que deveria ser a tarefa de todo bom historiador. Para a história de São Paulo no século XVIII tardio não há guia melhor”, garante.

Já o historiador Carlos Guilherme Mota, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), diz, no texto de apresentação (“orelhas), que este livro “se distancia de abordagens mais recentes beneficiadas por publicidade apressada e aplaudida pela imprensa”. E observa: “Em patamar mais alto, Adelto Gonçalves aprofunda sua análise da vida paulistana no período colonial com inusual rigor, alargando, porém, suas balizas cronológicas, sem os modismos e generalizações muito comuns em certa historiografia que trafega na superfície dos acontecimentos, marcada pela busca do pitoresco”. Para Mota, trata-se de “um estudo bem estruturado e inovador, baseado em fontes documentais sólidas e, vale registrar, bem escrito”.

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Peter Gabriel | Heroes (Live in Verona 2010)

Heroes
I, I will be king
And you, you will be queen
Though nothing will drive them away
We can beat them, just for one day
We can be heroes, just for one day
And you, you can be mean
And I, I’ll drink all the time
‘Cause we’re lovers, and that is a fact
Yes we’re lovers, and that is that
Though nothing will keep us together
We could steal time just for one day
We can be heroes for ever and ever
What d’you say?
I, I wish you could swim
Like the dolphins, like dolphins can swim
Though nothing, nothing will keep us together
We can beat them, for ever and ever
Oh we can be Heroes, just for one day
I, I will be king
And you, you will be queen
Though nothing will drive them away
We can be Heroes, just for one day
We can be us, just for one day
I, I can remember (I remember)

A NOVA POTÊNCIA REGIONAL | Francisco Seixas da Costa in Jornal Negócios.pt

Barack Obama chamou um dia “potência regional” à Rússia, uma expressão cujo impacto deve ter medido bem, porque, ao contrário do seu sucessor, ele conhece o peso das palavras. O antigo presidente queria significar que, não obstante se tratar de um poder nuclear, com forças convencionais nada desprezíveis, a potência sucessora da União Soviética sofre, nos tempos que correm, de fortes constrangimentos económicos e tecnológicos, que a colocam muito longe dos anos áureos em que se afirmava como um poder geopolítico global, concorrencial com os Estados Unidos, com uma forte capacidade de proselitismo, atração e influência. Acresce ainda, no caso da Rússia, ser atravessada por uma tendência demográfica trágica, que não parece facilmente reversível e pode ter consequências muito sérias no futuro do país.

A expressão de Obama, que encerrava uma inegável verdade, esconde, contudo, uma ironia: para “potência regional”, a nova Rússia de Vladimir Putin mostra uma vitalidade muito apreciável, uma capacidade de ser estrategicamente relevante no seu “near abroad” e mesmo, por vezes, de ir um pouco mais além, como se tem visto em alguns arroubos na Venezuela.

Não cabe aqui analisar o poder do “czar” desta nova Rússia, que dirige com mão forte e evidente apoio popular um país que continua a sentir-se muito maltratado pela História recente, que considera que os seus imediatos antecessores foram incapazes de negociar um final mais honroso para a clamorosa derrota sofrida na Guerra Fria.

O alargamento das fronteiras da NATO até uma escassa distância de Moscovo, bem como de uma União Europeia que integra hoje países que olham para a Rússia quase como um Estado inimigo, deu a Putin um argumento para testar as “linhas vermelhas” do mundo ocidental. A travagem da deriva ocidentalizante na Geórgia, a resposta firme ao “golpe de Estado” que a Europa e os EUA estimularam em Kiev, garantindo a retomada da Crimeia e o hábil “congelamento” do conflito no Donbass, suscitam hoje em alguns a dúvida sobre se o líder russo pode ser tentado a ir mais longe. Em particular nos Estados bálticos, essa questão está bem viva.

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Os tempos sujos, segundo Vargas Llosa | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

Vargas Llosa é alguém que, nos seus meneios sociais e serôdia ambição de carreira política, se sabe fazer detestar. É também um gigante da literatura, que merece ser lido sempre pelo que escreve. Deu-nos, aos seus leitores devotos, algumas das grandes obras do nosso tempo. Está bem, nem sempre é assim: no meu caso, uma vez desiludido, achei o seu recente “Cinco Esquinas” pretensioso, sem chama, até triste na forma. Mas quem escreveu “A Guerra do Fim do Mundo”, mesmo que depois de trabalho com Ruy Guerra, ou antes “A Casa Verde” ou “Conversa na Catedral”, e mais haveria a citar, é um escritor monumental. O seu recente “Tiempos Recios” (imagino que se traduza por “Tempos Difíceis” ou “Tempos Sombrios”) restitui-nos à escrita de fôlego.

Num livro anterior, “A Festa do Chibo”, Vargas Llosa tinha descrito o sangrento regime de Trujillo na República Dominicana. Este “Tempos Difíceis” regressa a um tema próximo, investigando o golpe na Guatemala contra o Presidente Jacobo Arbenz, em 1954, e o que se seguiu. Em modo de reportagem, recupera personagens reais, como Sam Zemurray, o dono da United Fruit, Edward Bernays, o responsável da empresa pela campanha na opinião pública contra um governo que se limitara a exigir-lhe que pagasse imposto, o embaixador John Peurifoy, que coordenou a operação de derrube do regime, o Generalíssimo Trujillo e Somoza, os seus aliados, ou ainda Johnny Abbes Garcia, o chefe dos serviços da informação militar dominicana que vai assassinar o ditador que substituiu Arbenz, ou ainda Marta Borrero Parra, chamada Miss Guatemala, que perpassa pela vida de vários dos personagens desta história verdadeira. Acrescenta-lhes um agente da CIA a quem chama Mike, esse nome serve, como outro qualquer, para contar o que se passou antes e depois do golpe e como estes personagens se envolvem no turbilhão de uma história sangrenta e sem remissão. São páginas notáveis de um grande escritor.

Vargas Llosa também regista aqui uma mensagem política. Como explica numa entrevista, o golpe da United Fruit, da CIA e do Departamento de Estado contra Arbenz “levou muitos jovens latino-americanos, eu entre eles, a desacreditar da democracia e a pensar no socialismo”. “Se os Estados Unidos, em vez de derrubar Árbenz, tivessem apoiado as suas reformas, provavelmente a história da América Latina seria outra, provavelmente Fidel Castro não teria se radicalizado e tornado comunista, nem Che Guevara, que estava na Guatemala nesse momento”, lamenta. O golpe “atrasou dezenas de anos a democratização do continente e custou milhares de mortos, mas contribuiu para popularizar o mito da revolução armada e do socialismo em toda a América Latina”, escreve na última página do livro. Há neste drama uma história de vida e ela é irremediável, o golpe foi o que foi e a lição foi sentida em todo o continente. Mas o que o livro nos traz de novo é um imponente retrato das pessoas que foram atropeladas pela história.

Francisco Louçã

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Centro Ciência Viva do Alviela – CARSOSCÓPIO | Comemoração dos 12 anos | 15 de dezembro 2019

O Centro Ciência Viva do Alviela faz 12 anos e comemora o seu aniversário em ambiente natalício.

Dia 15 de dezembro, é dia de festa no Centro Ciência Viva do Alviela. Comemoramos 12 anos e oferecemos entrada gratuita nas nossas exposições, das 10h00 às 18h00.
Às 15h30, há Café de Ciência: A árvore e a estrela de Natal. O astrónomo Máximo Ferreira, Diretor do Centro Ciência Viva de Constância, explica-nos que fenómeno poderá ter ocorrido no céu e que foi interpretado pelos “Reis Magos” como a “estrela” que os guiaria ao local onde havia nascido o “filho de Deus”. Seria um cometa? Um meteoro? Com recurso a modernos meios de simulação do céu, demonstrar-se-ão alguns dos fenómenos astronómicos que têm sido considerados nas pesquisas levadas a cabo ao longo dos tempos. Jorge Canhoto, investigador do Centro de Ecologia Funcional do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC, fala-nos da árvore de Natal e qual o grupo de plantas ou espécies usualmente utilizadas como árvore de Natal em Portugal e em outros países do Mundo. Sabe como se iniciou a tradição da árvore de Natal em Portugal? Donde virá a associação da cor vermelha ao Natal: da imagem do Pai Natal ou da planta utilizada pelos povos celtas na comemoração do solstício de i! nverno?
Às 17h00 sopramos as velas do nosso bolo de aniversário e brindamos aos 12 anos de promoção da cultura científica, em Alcanena.
A Floresta – Centro Ciência Viva de Proença a Nova, também está presente no nosso aniversário! Desde o dia 1 de dezembro que estamos a oferecer pinheiros-bravos, provenientes da limpeza das florestas, para quem quiser fazer a sua árvore de natal recorrendo a um produto natural. Limpamos a floresta e reflorestamos: juntamente com o pinheiro-bravo é oferecido um pinheiro-manso para plantar. Já veio buscar a sua árvore de Natal?

Junte-se a nós na comemoração dos 12 anos do Centro Ciência Viva do Alviela!

Agradecemos inscrição para o Café de Ciência através do 249 881 805 ou info@alviela.cienciaviva.pt

A Restauração da Independência de Portugal | 1 de Dezembro de 1640 | Vítor Aguiar e Silva in Diário do Minho

Há trezentos e setenta e nove anos, no dia 1 de Dezembro de 1640, Portugal recuperou a independência nacional, após sessenta anos de integração no império espanhol. Felipe II, filho de uma princesa portuguesa e neto de D. Manuel, fora reconhecido como rei de Portugal pelas Cortes de Tomar, em 1581, comprometendo-se a respeitar a autonomia do seu novo reino patrimonial. Após o falecimento do cardeal-rei D. Henrique, os exércitos do Duque de Alba tinham ocupado militarmente Portugal e Cristóvão de Moura conseguira, com a sua astúcia e a corrupção dos dinheiros de Castela, vencer a resistência de grande parte da nobreza, do clero e da alta burguesia.

O regime liberal oitocentista, a 1.ª República e o Estado Novo celebraram com fervor patriótico a Restauração da Independência. A inauguração, no dia 28 de Abril de 1886, do obelisco dos Restauradores, na praça do mesmo nome, no centro de Lisboa, foi a expressão do sentimento geral do povo português. A Comissão Central do 1.º de Dezembro de 1640 materializava no obelisco dos Restauradores o simbolismo da ressurreição de uma nação submetida durante seis séculos ao jugo estrangeiro. Após o restabelecimento da democracia em Portugal e em Espanha e a adesão dos dois países ibéricos à Comunidade europeia, a comemoração em Portugal do evento histórico do 1.º de Dezembro de 1640 tornou-se compreensivelmente mais discreta.

Naquela manhã do dia 1 de Dezembro de 1640 – um dia que amanheceu claro, sem rigores invernais –, um pequeno número de conjurados, pertencentes à nobreza mas com ligações importantes ao clero e à burguesia, alterou radicalmente a situação política em Portugal, modificou significativamente os factores geopolíticos da Espanha e contribuiu decisivamente, como hoje, séculos volvidos, podemos entender, para o futuro histórico do Brasil e de Angola, que conheceriam futuros bem diferentes se tivessem caído sob o domínio duradouro de outras potências colonizadoras europeias.

Após a morte, em 1598, de Filipe II, tornara-se cada vez mais grave a decadência multiforme de Espanha: as guerras europeias em que esteve envolvida durante o século XVI, em particular na Flandres e na Itália, tinham arruinado as finanças do reino, obrigando o poder político a aumentos sucessivos dos impostos; a recessão económica e a crise demográfica provocaram o despovoamento de grandes áreas do território; a criminalidade e o banditismo aumentaram dramaticamente; as epidemias assolaram as populações desesperadas e famintas.

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Quero Dizer-Te… | Sónia Soares Coelho

Procuro-Te algures, …, no Espaço, certamente, como combinado…
Não estás…
Ou não Te vejo por cá…

De Ti, não sei nada de nada.
Logo, é de mim que Te falo.
Só assim poderia ser e assim é.

Quero dizer-Te tanto que vou dizer muito pouco: é sempre assim!
E digo-o escrevendo, visto que alternativa não resta.

Quero dizer-Te que gosto de Ti,
Que o sinto do fundo do meu ser, por isso sei que é verdade: é o que é!

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Passam hoje 44 anos sobre o 25 de Novembro | Jorge Alves

Bom dia, amigos.

Passam hoje 44 anos sobre o 25 de Novembro. Para mim, é uma data a comemorar. O 25 de Abril permitiu a Revolução, o 25 de Novembro trouxe-nos a Democracia. Pena é que esta data não tenha, para muitos, a dignidade que deveria ter. Não fosse a acção firme de homens corajosos, capitaneados pelo general Eanes, devidamente escudado, é bom dizê-lo, por Mário Soares, Francisco de Sá Carneiro, Freitas do Amaral e a própria Igreja Católica, Portugal seria hoje a Cuba da Europa.

Da minha parte, uma palavra de apreço, porque merecida, para o Regimento de Comandos, então comandado pelo coronel Jaime Neves, quantas vezes vilipendiado mas verdadeiro ponta-de-lança para travar de vez os radicais que pretendiam transformar este País numa bandalheira, sob a batuta de Otelo.

Uma palavra de homenagem aos comandos caídos no Regimento da Polícia Militar, na Ajuda, vítimas das balas assassinas que dali foram disparadas. Na sequência dessa acção cobarde, só a voz firme do general Eanes, secundado por Jaime Neves, que se viu obrigado a distribuir bofetadas a alguns dos seus homens, impediu que os comandos fizessem ali uma chacina, na pretensão de vingar os camaradas mortos.

Uma última palavra de apreço para Álvaro Cunhal, que a pedido do general Costa Gomes recusou pegar em armas e deu provas de elevado sentido de patriotismo, evitando assim que este País caísse numa guerra civil que seria trágica.

Pessoalmente, em especial ao meu querido general Eanes, o meu muito obrigado por ter evitado que o meu País caísse numa nova ditadura.

Bem-haja! Uma boa segunda-feira para todos.

Jorge Alves

Retirado do Facebook | Mural de Jorge Alves

El poeta catalán Joan Margarit gana el Premio Cervantes 2019

La 44ª edición del Premio Cervantes, el más relevante de las letras en español que concede el Ministerio de Cultura y dotado con 125.000 euros, ha alzado este año a Joan Margarit (Lleida, 1938). El poeta catalán toma el relevo a la uruguaya Ida Vitale, la quinta mujer ganadora desde que se inauguró el Cervantes en 1976.

El ministro de Cultura y Deporte en funciones, José Guirao, ha sido el encargado de revelar el nombre del galardonado en esta edición, cuyos candidatos son propuestos por la Real Academia de la Lengua Española (RAE). La lectura ha tenido lugar como cada año en el Paraninfo de la Universidad de Alcalá de Henares, cuna del autor del Quijote.

Guirao, como ya hizo el año pasado con Vitale, ha adelantado el fallo del Cervantes leyendo el poema No tires las cartas de amor, del libro El primer frío (1975-1995). El jurado ha destacado su “obra poética de honda trascendencia y lúcido lenguaje siempre innovador. Ha enriquecido tanto la lengua española como la lengua catalana y representa la pluralidad de la cultura peninsular en una dimensión universal de gran maestría”.

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Fernando Rosas premiado pela Academia Portuguesa de História | in Esquerda.net

A Academia Portuguesa de História anunciou esta quarta-feira que Fernando Rosas estava entre os nove autores que decidiu galardoar. O livro “Salazar e os Fascismos. Ensaio breve de história comparada” venceu o prémio da Fundação Calouste Gulbenkian na categoria “História da Europa”.

“Salazar e os Fascismos. Ensaio breve de história comparada”, livro editado pela Tinta-da-China, valeu a Fernando Rosas o prémio Fundação Calouste Gulbenkian, na categoria História da Europa, atribuído pela Academia Portuguesa da História Lisboa.

O anúncio da distinção aconteceu esta quarta-feira. No livro, Rosas aborda a comparação entre a ditadura que se instalou em Portugal a partir dos anos 20 do século passado e os outros regimes autoritários de direita que terão o seu auge na Europa nos anos 30.

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Uma sociedade moralista sem piedade | Henrique Monteiro | jornal Expresso Diário 13/11/2019

Henrique Monteiro

O caso da jovem de 22 anos que terá abandonado o filho recém-nascido num caixote de lixo é um horror? Claro que sim! Que se pode fazer? A nossa sociedade moralista e inquisitorial – em tudo o que não diga respeito às tradições e chamadas causas fraturantes – tem uma resposta: prender a mãe!

Sinceramente, não esperava que se chegasse a tamanha desumanidade. Recapitulemos: alguém com 17 anos, natural de Cabo Verde, tenta fugir da miséria vindo para Portugal (também li o seu nome, mas não o publico; haja recato). Cinco anos depois está a viver em condições desumanas numa tenda, ao pé de restaurantes, discotecas de luxo e cais de embarque de cruzeiros. Nestes cinco anos que esteve em Portugal quem lhe estendeu a mão? Quem se preocupou? Era uma miúda e nada lhe correu bem, o que se passou?

Quase ninguém se interroga e, quando chega o minuto de as autoridades se pronunciarem – depois de um outro sem abrigo ter alertado para o facto de estar um bebé num contentor –, é para lhe apontar o destino: a cadeia. A acusação é fácil: qualquer coisa como tentativa de homicídio qualificado na forma tentada. A prisão é preventiva, não houve julgamento. Mas as condições da prisão preventiva são mais do que duvidosas: não se prevê a continuação da atividade criminosa, nem prejuízo para o processo nem alarme social. Mesmo os mais alarves dos nossos concidadãos (e concidadãs), que também os há, além de felizmente não saberem exatamente quem é a rapariga de 22 anos, não me parece que a quisessem perseguir ou matar.

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A Formação de leitores como desafio do Brasil atual é o tema da quarta edição da Felisquié | Valdeck Almeida de Jesus

A campanha da Festa Literária “Eu giro para onde gira o sol” criada pela Publicar News prestigia o sertão de Jequié, seus escritores, personagens e poetas. O cineasta Glauber Rocha também será homenageado

Um dos mais esperados eventos literários do Sudoeste da Bahia, a Festa Literária Internacional do Sertão de Jequié, inicia a sua quarta edição no dia 28 de novembro de 2019, quinta-feira, na Câmara de Vereadores em Jequié e terá a “Leitura”, como tema principal. Os escritores Luís Cotrim, Pacífico Ribeiro, Wilson Novais, Heleusa Câmara e  o cineasta Glauber Rocha serão os principais homenageados. Com o tema “A formação de leitores como desafio do Brasil atual”, o evento vai reunir uma programação variada, conduzida por autores da literatura nacional e internacional, com conferências, mesas-redondas, palestras e lançamento de livros.

As cantoras Ana Vitória e Flaviane vão abrilhantar a primeira noite da Felisquié interpretando as canções mais belas da MPB. O jornalista, professor, escritor e curador da Festa Literária Internacional do Sertão de Jequié, Domingos Ailton fará o pronunciamento de abertura: “A Felisquié representa o universo encantador do sertão de Jequié, além de promover uma interface entre a literatura e outras linguagens artísticas”, define o autor do romance “Anésia Cauaçu”. Em seguida, a educadora jequieense e Embaixadora da Paz, Maribel Barreto dará início a primeira conferência intitulada “Leitura e consciência: um diálogo transformador”.

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Sei que tenho uma dívida | Francisco Louçã | texto de 2010

Escrevi em 2010 este resumo. Acho que ainda vale, mas falta tanta gente e tantas emoções.

Sei que tenho uma dívida. Estive uns breves dias preso em Caxias com alguns amigos, por causa de um protesto contra a guerra na passagem do ano de 1972. Desses camaradas, um deles, que já morreu, Francisco Pereira de Moura, só o voltei a encontrar muito mais tarde, quando regressei à faculdade. Tinha sido convicto católico conservador, membro da Câmara Corporativa, mas olhou para o seu país e fez frente à ditadura. Foi por isso o primeiro candidato da oposição, foi preso, voltou a ser preso. Foi demitido de professor universitário. Chegou ao 25 de Abril, foi libertado e foi ministro, e saiu quando achou que o seu tempo tinha chegado, para voltar a dedicar-se à sua paixão, o ensino. Ele sabia da dívida que tinha para com o país, o trabalhador explorado, o pobre, a mulher sem direitos, as pessoas sem dignidade. E sabia que essa dívida se paga sempre, de todas as formas. Eu sei que todos temos essa dívida.

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Eu, Elton John: a biografia de uma lenda viva do mundo da música

             Honesta, vibrante e com um extraordinário sentido de humor        

No dia 14 de novembro, a Porto Editora faz chegar às livrarias a primeira e única autobiografia de uma das grandes lendas vivas do mundo da música: Eu, Elton John.

Nada indicava que Reginald Dwight, um Tiny Dancer residente em Pinner, cinzento subúrbio de Londres, se transformaria em Elton John, nome incontornável da música pop e rock n’roll. Excêntrico, personagem maior do que os grandes palcos que pisou, resultado do seu carisma e de performances eletrizantes, Elton John é um verdadeiro Rocket Man: no ativo há quase 50 anos (o seu primeiro concerto em nome próprio foi aos 23 anos) é um dos artistas com maior número de álbuns vendidos, vencedor de múltiplos prémios (como um Oscar e 6 Grammy) e cantor-compositor de músicas intemporais.

Agora, a par com a sua tournée final, Sir Elton John decide contar a história da sua vida. Ao longo de 360 páginas, estão descritas sete décadas de altos e baixos. Da infância e da relação conturbada com os pais às mais recentes revelações sobre o seu estado de saúde, Eu, Elton John não deixa nenhum assunto de fora. Num registo polvilhado com um fino humor britânico, o cantor-compositor desvenda como nasceram canções que fazem parte da vida de milhões de fãs, as amizades com outras lendas da música (como John Lennon, George Michael ou Freddie Mercury), e revelações sobre as noites loucas e as festas espampanantes que o afundaram numa espiral de dependência. Brutalmente honesto, o autor não poupa palavras para descrever os seus maus momentos, tentativas de suicídio e a viagem emocional para a reabilitação. Nada ficou fora deste livro, nem a amizade com a Princesa Diana e Gianni Versace, nem o amor e a paternidade com David Furnish. É uma vida inteira, de luz e sombra, agora em livro.

Com 72 anos e a meio da sua última digressão (que durará três anos), este é um testemunho imperdível de um artista que não deixa de dizer I’m still standing.

SOBRE O LIVRO 

Elton John é o cantor-compositor de sucesso com a carreira mais longa de todos os tempos. São sete décadas – até agora – de uma vida extraordinária pautada por constantes altos e baixos. Agora, na primeira pessoa e com a habitual frontalidade e bom humor, Elton John partilha a sua história – todos os momentos, dos mais hilariantes aos mais comoventes.
Reginald Dwight era um miúdo tímido, de Pinner, nos subúrbios de Londres, com uma relação conturbada com os pais, que adorava música e sonhava ser uma estrela pop. Tinha 23 anos quando deu o primeiro concerto nos EUA: com umas jardineiras amarelas, uma T-shirt às estrelas e botas com asas deixou uma imensa plateia absolutamente deslumbrada. Elton John tinha chegado e o mundo da música nunca mais seria o mesmo.
À imagem da vida de Elton, não falta drama nesta autobiografia: desde as rejeições iniciais das editoras a ser considerado o artista pop mais famoso do mundo; das amizades com Jonh Lennon, Freddie Mercury e George Michael às noites loucas no Studio 54; das tentativas de suicídio à dependência que escondeu até de si próprio durante anos e que quase o destruiu.
Elton descreve de forma emocionada o processo de reabilitação, a criação da Elton John AIDS Foundation, como encontrou o verdadeiro amor ao lado de David Furnish, as férias com Versace e a participação no funeral da princesa Diana. E ficamos também a saber como e quando percebeu que queria ser pai e como isso acabou por mudar novamente toda a sua vida.
Excentricamente divertido, mas também profundamente emocionante, Eu, Elton John levá-lo-á numa viagem inesquecível pela intimidade de uma lenda viva.

SOBRE O AUTOR

Elton John

Os êxitos alcançados por Sir Elton John ao longo da sua carreira são insuperáveis. É um dos artistas a solo mais vendidos de todos os tempos com 26 álbuns de ouro e 38 de platina ou multi-platina e um álbum de diamante. Elton John conta também no seu currículo com 6 Grammys, 13 Ivor Novellos e um BRITT Award. Em 2018 foi nomeado o artista masculino a solo de maior sucesso pela Billboard Hot 100. A sua Fundação já angariou mais de 450 milhões de dólares para a luta contra o VIH. É casado com David Furnish com quem tem dois filhos.

Romance Social O LIXEIRO E O PRESIDENTE de Silas Corrêa Leite

  • Se arte e criatividade são, entre outras coisas, a inteligência e a imaginação se divertindo, segundo Albert Einstein, e, como diz Nelson Oliveira (Prêmio casa de las Américas), o maior mérito de uma obra literária é ser, acima de tudo, uma festa para a inteligência, em O LIXEIRO E O PRESIDENTE, romance social, o escritor, poeta e ficcionista premiado, Silas Corrêa Leite, mostra nesse novo trabalho e de novo polêmico e diferenciado, a face da personagem principal do livro, o Presidente Fernando 2, o néscio, como rotula ele, bem a propósito do que preconiza Sigmund Freud, de que cada pessoa é um abismo, e dá vertigem olhar dentro delas. Bem isso.
  • O livro criativo, ousado, e ainda assim cativante, finca o palco nas narrativas todas em diálogos, entre causos, humores políticos, contações e abobrinhas afins, no Palácio do Planalto, as redondezas e quadradezas, entornos e antros, na Era D.c (Depois de Collor), em que um Fernando 2 – e de Fernando em Fernando o Brasil vai se ferrando – deita e rola no mesmo funesto modus operandi de maracutaias de carteis e propinas da anterior era civil e mesmo do militarismo incompetente e corrupto no processo histórico que o antecedeu, e que nasceu nas hediondas capitanias hereditárias até hoje nos podres poderes do planalto central.
  • A obra, entre uma comédia escondida e uma tragédia camuflada – corja blindada pela justiça e pela mídia abutre corruptas – resgata desvão de almas corrompidas nos flancos dos poderes executivo, legislativo e judiciário, mais o quarto poder, a imprensa blindando uma elite pústula em nome de neoescravistas neoliberais e agiotas do capital emboaba.
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Nova obra de Adelto Gonçalves refaz a história de São Paulo | Rivaldo Chinem

O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo

SÃO PAULO – Foram raros os livros de História do Brasil que chegaram às livrarias tão bem recomendados quanto O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, de Adelto Gonçalves, publicado ao final de 2019 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp). Afinal, o prefácio foi escrito pelo historiador britânico Kenneth Maxwell, professor (aposentado) da Universidade de Harvard e autor de A Devassa da Devassa: a Inconfidência Mineira: Brasil e Portugal – 1750-1808 (1977), enquanto o texto de apresentação coube ao historiad or Carlos Guilherme Mota, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP).
Adelto Gonçalves, 68 anos, é jornalista desde 1972, quando começou a trabalhar no extinto jornal Cidade de Santos, do grupo Folhas. Tem passagens pelos jornais A Tribuna, de Santos, O Estado de S. Paulo e Folha da Tarde e pelas editoras Abril e Globo.

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São José do Jacuípe-BA realiza primeira Festa Literária | 18 e 19 de novembro de 2019 |Valdeck Almeida de Jesus

A primeira Festa Literária de São José do Jacuípe – FLIZÉ, vai acontecer nos dias 18 e 19 de novembro de 2019, no plenário da Câmara Municipal de Vereadores. A FLIZÉ integra uma maratona de eventos do I Festival de Cultura, Arte e Cidadania, organizado pela Diretoria Municipal de Cultura em parceria com as secretarias do município. A Flizé tem curadoria do escritor jacuipense Pablo Rios.

As festas literárias estão se espalhando pela Bahia e Brasil. A FLICA (Cachoeira), FLIPELÔ (Salvador), FELISQUIÉ (Jequié), FLIJA (Jacobina), FLIPI (Piritiba), FLICAP (Capela do Alto Alegre) e FLIP (Parati-RJ), são exemplos das inúmeras que têm sido realizadas. A pequena cidade de São José do Jacuípe-BA não poderia ficar de fora.

A FLIZÉ será uma celebração à leitura e literatura e reunirá apresentações das culminâncias de projetos das escolas e colégios locais. Serão montadas mesas de debates com poetas, escritores e pesquisadores.

A mesa de abertura será sobre Clubes e Espaços de Leitura, com discussões sobre a importância e transformações resultantes da leitura, e tem presença confirmada da Professora Amanda Teixeira, representando a Ser Tão, Livraria e Café (Jacobina-BA). A mediação será do escritor, editor e pesquisador João Vanderlei de Moraes Filho, que também vai falar sobre Bibliodiversidade. A mesa 2, com o tema Memória: vivências da leitura e escrita, tem mediação do Professor Danilo Araújo Guimarães, será composta pela poeta Geovana Rios, natural de Várzea da Roça, que apresentará seu livro de estreia, “Madrugada Poética” e do renomado escritor, poeta e jornalista Valdeck Almeida de Jesus, autor de mais de 20 livros e com vasta atuação na militância e ativismo cultural.

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O Papa Francisco 
é cristão e isso é que espantou o mundo | Anselmo Borges | in Jornal i – 27/10/2019

Defende o fim do celibato obrigatório e a ordenação de mulheres e viu sinais de mudança no Sínodo da Amazónia. Se a Igreja não for por aí, vaticina, será um “suicídio”.

Assume que em miúdo já era um pouco rebelde, mas defende que a sua visão sobre uma Igreja onde os padres deveriam ter vidas “normais” – incluindo serem casados e as mulheres o mesmo lugar que os homens – não é heterodoxa. Seria um regresso à fundação do cristianismo, o caminho que diz estar a ser feito pelo Papa Francisco. Anselmo Borges publicou uma antologia de entrevistas dos últimos 12 anos, Conversas com Anselmo Borges (Gradiva), pretexto para uma nova conversa sobre a fé e os ventos de mudança do Sínodo para a Amazónia, que termina este fim de semana. Acredita que é uma questão de tempo até as mulheres poderem celebrar missas e os padres constituir família e não poupa nos termos: se isso não acontecer, será o suicídio.Reúne neste livro um conjunto de entrevistas. Foram os 75 anos a pedir uma síntese?É possível que inconscientemente seja uma espécie de balanço destes últimos 12 anos. Queria rever-me um pouco. São entrevistas em que falei da Igreja mas também dos problemas do mundo.Sempre quis que o seu lugar fosse numa Igreja sensível ao mundo, o que tem sido uma marca do pontificado de Francisco. Foi a grande mudança na vida da Igreja nos últimos 12 anos?
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É verdade que “os pobres” votam no PS? | Bárbara Reis in Jornal Público 1 de Novembro de 2019

Há duas formas de olhar para isto. Uma é analisar a linha de raciocínio (é uma ideia lógica?); a outra é olhar para os factos (o que sustenta a ideia?). Vamos por partes.

«Na sua estreia como deputado na Assembleia da República, João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, disse coisas extraordinárias.

Uma delas foi esta: “O PS sabe que mantendo um país amorfo e resignado tem um grupo de pobres, desesperados e dependentes do Estado que lhe irão dar o voto. A pobreza de muitos é o que segura o PS ao poder.”

A seguir, seguindo as boas práticas aristotélicas, apresentou a moral da história: como o PS só “existe para estar no poder, nunca irá resolver o problema da pobreza”, pois são os pobres que permitem ao PS “manter-se lá”.

Foi o tom de acinte com que a frase foi dita que despertou a minha curiosidade. Há duas formas de olhar para isto. Uma é analisar a linha de raciocínio (é uma ideia lógica?); a outra é olhar para os factos (o que sustenta a ideia?). Vamos por partes.

Cotrim de Figueiredo diz que “os pobres” votam no PS como se fosse um axioma, uma verdade tão óbvia e consensual que dispensa demonstração. Tão inquestionável como dizer “penso, logo existo”. Só um louco tem dúvidas sobre isso.

A seguir, o deputado apresenta as consequências da sua evidência: o PS produz pobres para se manter no poder e por isso que não os quer tirar da pobreza. Favorecer os pobres seria suicídio político. Levada a tese ao extremo, fiquei à espera que Cotrim de Figueiredo aconselhasse o PS a favorecer os ricos. Afinal, seria a melhor forma de manter os pobres na pobreza.

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“ELLOS ENTENDIERON QUE ERA MÁS SENCILLO CREAR CONSUMIDORES QUE SOMETER A ESCLAVOS” CHOMSKY | MARÍA HIDALGO | POLÍTICA Y ECONOMÍA

“Mientras la población general sea pasiva, apática y desviada hacia el consumismo o el odio de los vulnerables, los poderosos podrán hacer lo que quieran, y los que sobrevivan se quedarán a contemplar el resultado”.

Consumidores esclavos

Noam Chomsky es filósofo, escritor, controvertido activista y uno de los lingüistas más brillantes y reconocidos de la actualidad. Su trabajo es estudiado en las universidades de todo el mundo, desde facultades de psicología hasta titulaciones lingüísticas, pasando por muchas otras disciplinas. En este post os explicaremos brevemente lo que él considera la estrategia más común en la manipulación mediática. Os dejamos una de sus últimas reflexiones sobre un tema que nos afecta a todos: la industria de la publicidad.

“La industria de las relaciones públicas, la industria de la publicidad es la que se dedica a la creación de consumidores. Este es un fenómeno que se desarrolló en los países más libres, en Gran Bretaña y los Estados Unidos. Y la razón está muy clara. Se volvió clara hace aproximadamente un siglo, cuando esta industria se dió cuenta de que no iba a ser fácil controlar a una población con el uso de la fuerza. Habían ganado demasiada libertad: sindicatos, parlamentos con partidos para los trabajadores en muchos países, el derecho al voto de la mujer… Por lo tanto, tenían que encontrar otros medios para controlar a la gente.

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CATALUNHA, UMA CRISE SEM FIM À VISTA | Fernando Couto e Santos

Há uma canção do cantautor Lluis Llach, um dos expoentes máximos da música catalã e um confesso independentista, chamada «Corrandes d´exili» (que se poderia traduzir por «Estrofes do exílio»), que acaba assim: «Una esperança desfeta/ una recança infinita/ i una pàtria tan petita/que la somio completa (Uma esperança desfeita/um remorso imenso/e uma pátria tão pequena/que até a posso sonhar de uma só vez).
Lluis Llach, hoje com 71 anos, esteve exilado em França no início da idade adulta, numa época em que o catalão não era bem visto pelo franquismo e era uma língua falada sobretudo em casa. Durante o período franquista, os catalães, os bascos, os galegos e os espanhóis em geral que ousassem dissentir eram obviamente reprimidos. Muitos viam a independência como uma saída – data do estertor do franquismo o atentado mais espectacular perpetrado pelo movimento terrorista basco ETA, com o assassinato do almirante Luis Carrero Blanco, então presidente do governo de Espanha, no final de 1973 -, mas a transição pacífica para a democracia, apesar dos sobressaltos iniciais – e à custa, é um facto, da amnésia –, aplacou ou amainou esses ímpetos, com a excepção dos atentados do citado grupo terrorista basco, movimento que só há poucos anos abandonou a luta armada. A constituição de 1978, com a criação das regiões autónomas, deu a possibilidade à Catalunha, ao País Basco, à Galiza e a outras comunidades de se auto-governarem, com um parlamento próprio e ampla autonomia em vários domínios, nomeadamente na educação, com a possibilidade da aprendizagem sem entraves das outras línguas do país que não o castelhano (vulgo espanhol).

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POVO | Pedro Homem de Mello, in “Miserere”

Povo

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão…
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Pedro Homem de Mello, in “Miserere”

Chico Buarque de Hollanda | Prémio Camões | Poema “CONSTRUÇÃO”

CONSTRUÇÃO

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque de Hollanda | Prémio Camões