Humor | O barman é um robot

Um sujeito entra num bar novo, hi-tech, e pede uma bebida. O barman é um robot que pergunta:

– Qual o seu QI?

O homem responde:

– 150.

Então o robot serve um cocktail perfeito e inicia uma conversa sobre aquecimento global, espiritualidade, física quântica, interdependência ambiental, teoria das cordas, nanotecnologia e por aí.

O tipo ficou impressionado, e resolveu testar o robot. Saiu, deu uma volta e retornou ao balcão. Novamente o robot pergunta:

– Qual o seu QI?

O homem responde:

– Deve ser uns 100.

Imediatamente o robot serve-lhe um whisky e começa a falar, agora

sobre futebol, Fórmula 1, super-modelos, comidas favoritas, armas,

corpo da mulher e outros assuntos semelhantes.

O sujeito ficou abismado. Sai do bar, pára, pensa e resolve voltar e fazer mais um teste.

Novamente o robot lhe pergunta:

– Qual o seu QI?

O homem disfarça e responde:

– Uns 20, eu acho!

Então o robot serve-lhe uma pinga de tinto, inclina-se no balcão, mete um palito na boca e

diz, bem pausadamente:

– Então e o nosso Benfica?

Ana Catarina Mendes | Flashback | por Paulo Querido

Hoje foi um domingo tranquilo, calmo, pacífico. As polémicas que por aí andam são indignas, coisa de tablóides e folhas panfletárias, e estamos no Mês da Grande Alienação. De modos que escrevo sobre o lançamento de Ana Catarina Mendes no Flashback (ou lá como aquilo se chama atualmente).

Seja qual for o nome que tem atualmente — não vou gastar neurónios a atualizar o nome cada vez que se lembram de o mudar, o que sucede com inusitada frequência e mau gosto —, o Flashback está numa boa fase. A entrada de Ana Catarina Mendes, a primeira mulher no programa em cerca de 40 anos, trouxe uma novidade refrescante: levou José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier a um mais elevado nível de aprumo discursivo.

Por outro lado, JPP tem vindo a melhorar num aspeto que considero fundamental: abandonou o tudologismo em que caiu durante anos. E parece que prepara melhor a generalidade dos temas (nem todos, mas a grande maioria). E ALB tem feito maravilhas para se distanciar do CDS e da IL, ao mesmo tempo que mantém bem fechada a fronteira com o selvagem da extrema-direita, ganhando assertividade no processo.

Mas esta menção tem outro fundamento. Repara nos dois fotogramas seguintes, que são do programa de há duas semanas:

No primeiro, Pacheco Pereira aplaude Ana Catarina Mendes. Discretamente, mas notoriamente. No segundo, Lobo Xavier tira o chapéu a Ana Catarina Mendes e não é um mero salamaleque de queque. Há um intervalo de menos de um minuto entre os dois fotogramas.

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‘Bocage, o perfil perdido’ ganha edição brasileira | por Adelto Gonçalves

SÃO PAULO – O poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), ícone da poesia em Língua Portuguesa, não nasceu na rua de São Domingos, atual rua de Edmond Bartissol, em Setúbal, como mostra uma placa ali instalada há mais de um século, mas ao Largo de Santa Maria com a rua de Antônio Joaquim Granjo, antiga rua das Canas Verdes, na mesma cidade. Esse e outros pormenores desconhecidos do poeta, como o tempo real de sua prisão e detalhes de sua obra e de seus últimos dias, constam do livro Bocage, o perfil perdido, do pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, que acaba de ser publicad o pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 18 anos depois da edição portuguesa que saiu pela Editorial Caminho, de Lisboa.
            Como a editora observa na contracapa, Bocage, o perfil perdido é biografia exaustiva e rigorosamente documentada. Já em si controversa, a história de vida do poeta é contextualizada pelos tempos tormentosos nos quais viveu, em que ocorreram a queda do marquês de Pombal, a ação do intendente de Polícia Pina Manique e a campanha do Rossilhão, entre outros fatos importantes. A biografia recua ao avô do poeta, apresenta sua árvore genealógica desde os bisavôs, abrangendo toda a sua vida, a passagem pelo Rio de Janeiro, Ilha de Moçambique e Índia, e sua participação e expulsão da Nova Arcádia.

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Anda a sentir falhas acentuadas de memória? António Damásio explica porquê.

O neurobiologista esteve na Fundação José Neves para explicar a importância dos sentimentos na nossa vida e na saúde mental. E dizer-nos como a consciência é o princípio para a regulação e equilíbrio do nosso corpo

Se depois deste confinamento pandémico começou a ter falta de memória, não é de admirar. Este pode ser um quadro generalizado ao ser humano depois da crise pandémica. Esquecemo-nos dos nomes (até dos colegas), dos sítios, do que deveríamos fazer… A que se deve? Ao “retiro do treino individual”, na opinião do neurobiologista António Damásio, que esteve à conversa com José Neves no evento anual da Fundação.

“A falta de treino acarreta falta de memória”, porque o nosso cérebro “precisa de uma reativação constante para que se mantenha no nosso mundo”, explica o neurobiologista atualmente a viver em Los Angeles, Estados Unidos. “Há coisas que as pessoas só agora se vão aperceber”, avisa, alegando ainda que “há toda uma série de fenómenos que terão de ser estudados” decorrentes desta disrupção causada no mundo pela pandemia. “E que podem abrir novos caminhos no campo da Ciência”, projetou o cientista, mostrando-se esperançoso e otimista.

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Cathédrale du Sacré-Cœur d’Alger

La cathédrale du Sacré-Cœur d’Alger, construite à partir de 1956, est devenue la nouvelle cathédrale d’Alger après que la cathédrale Saint-Philippe d’Alger eut été réhabilitée à sa vocation d’origine comme mosquée après l’indépendance puisqu’une mosquée se fut effondrée sur une petite partie de la parcelle sur laquelle la cathédrale avait été édifiée. Elle eLa cathédrale du Sacré-Cœur d’Alger, construite à partir de 1956, est devenue la nouvelle cathédrale d’Alger après que la cathédrale Saint-Philippe d’Alger eut été réhabilitée à sa vocation d’origine comme mosquée après l’indépendance puisqu’une mosquée se fut effondrée sur une petite partie de la parcelle sur laquelle la cathédrale avait été édifiée. Elle est l’église cathédrale de l’archidiocèse d’Alger.

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Caso Angoche, mistério por decifrar | Carlos Vale Ferraz | por Eduardo Pitta

Cinquenta anos passados sobre o Caso Angoche, mistério por decifrar, Carlos Vale Ferraz (n. 1946) deu à estampa «Angoche — Os Fantasmas do Império». Vale Ferraz, pseudónimo literário do coronel Carlos Matos Gomes, na dupla qualidade de oficial do Exército e de investigador de História contemporânea, sabe do que fala.

Oficialmente, os factos são estes: no dia 24 de Abril de 1971, entre as cidades de Quelimane e da Beira, na costa de Moçambique, foi avistado à deriva, com fogo na ponte de comando e na casa das máquinas, o navio de cabotagem Angoche, que transportava material de guerra, treze tripulantes negros, dez tripulantes brancos, um passageiro e um cão. O alerta foi dado no dia 27 pelo petroleiro Esso Port Dickson, com pavilhão do Panamá, continuando por esclarecer o hiato de três dias. Nunca foram encontrados corpos, desconhecendo-se o destino de quem ia a bordo. O Angoche foi rebocado para a baía de Lourenço Marques, onde chegou a 6 de Maio. Mais vírgula menos vírgula, dependendo do jornal ou das fontes “autorizadas”, é aquilo a que a opinião pública tem direito desde 1971.

Há especulações e perguntas para todos os gostos. O Angoche foi atacado? Por quem? Foi vítima de golpe da ARA ou da FRELIMO? Submarino russo ou chinês? Que papel tiveram os serviços secretos sul-africanos? O que aconteceu aos 24 homens? Foram para a Tanzânia? Por que razão o radiotelegrafista se “esqueceu” de embarcar, ficando em Nacala? Que papel tinha na história a mulher de alterne “suicidada” na Beira?

Sobre o assunto existe bibliografia documental, mas «Angoche — Os Fantasmas do Império» é um romance. A fórmula permite a Carlos Vale Ferraz inserir a intriga ficcional nos interstícios dos factos. E faz isso muito bem.

«Angoche — Os Fantasmas do Império» é dedicado «a quem morreu por saber de mais sobre o caso. Mortos por uma causa que ninguém teve a coragem de assumir.»

Para desenvolver o plot, o narrador apoia-se nos conhecimentos do “tio Dionísio”, oficial da Marinha portuguesa com ligações aos serviços secretos sul-africanos. Narrativa aliciante, faz o retrato dos últimos anos da colonização, vistos a partir de Moçambique. Por exemplo, é muito curiosa a caricatura a traço grosso de alguma burguesia de Lourenço Marques (Eduardo de Arantes e Oliveira, governador-geral de Moçambique à data do caso Angoche, surge mais de uma vez), os atritos entre a PIDE e os militares, etc. A sombra da operação Alcora — aliança militar secreta entre Portugal, a África do Sul e a Rodésia — perpassa no relato. Em suma, 170 páginas de boa ficção sobre factos obscuros da guerra colonial.

Lembrar que da obra ficcional de Carlos Vale Ferraz faz parte «Nó Cego» (1982, reeditado em 2018), título incontornável da bibliografia sobre a guerra em Moçambique.

Retirado do facebook | Mural de Eduardo Pitta

CAMÕES TEM DE SER LIDO – NÃO INVENTADO | Helder Macedo

Poeta, ensaísta, romancista, Helder Macedo é professor catedrático emérito da Universidade de Londres King’s College, onde foi titular da Cátedra Camões até 2004. Iam já longe os tempos do Café Gelo, grupo de que foi um dos poetas fundadores. Nasceu – na África do Sul, em 1935 – não para secretariar a musa pomposa, pedante. O autor de “Tão Longo Amor Tão Curta a Vida” (2013) passa ao largo do convencionalismo, do estereótipo e das “mitificações rectrospectivas”. Tem provado que o discurso académico pode ser claro sem perder a densidade nem tropeçar no comum lugar tradicional.

Com Camões, que tem sabido desalojar do pedestal mítico, tem mantido um trato próximo, íntimo. Se no campo do ensaio essa presença é manifesta, quase avassaladora, já na sua ficção o vate surge de modo mais discreto, ora em títulos e epígrafes onde marca o seu lugar tutelar, ora em fugazes aparições textuais sempre significativas.

As contas nem sempre são redondas como seixos e há as que nem se deixam fazer: incontáveis anos de leituras continuadas; mais de três dezenas de estudos sobre Camões, de fôlego variável e a mesma fluência, publicados em várias línguas; 23 anos a dirigir a Cátedra Camões no King’s College; mais de 50 anos de vida literária; viagens infindas à roda da literatura portuguesa, com paragens meditadas em D. Dinis, Camões, Bernardim Ribeiro, Camilo, Cesário, Pessoa. Para Helder Macedo todos os dias são dias de Camões. Sabe, no entanto, que o 10 de junho é o dia mais propenso à canibalização de Camões pelos discursos.

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O feriado do 10 de junho faz hoje 110 anos. Esta é a sua história | Maria Isabel João, historiadora | in Jornal Expresso 2017

As celebrações do 10 de Junho sobreviveram a três regimes políticos. Quase que poderemos dizer quatro, já que esta data — muito acarinhada pelos republicanos — foi evocada pela primeira vez em 1880, no reinado de D.Luís. Se quiser saber a história até aos nossos dias leia a entrevista com a investigadora Maria Isabel João

Um ano antes do golpe que instituiu a ditadura militar em 1926, a I República declarou que a “Festa de Portugal se celebrará no dia 10 de Junho de cada ano”. O Estado Novo manteve a data como Festa de Portugal, elevando-a à condição de feriado nacional em 1929.

O título de Dia de Portugal só surgiria décadas depois. E, apesar de ninguém saber se o poeta Luís Vaz de Camões morreu mesmo neste dia, a democracia continuou a celebrar o 10 de Junho como data da identidade nacional. Uma originalidade portuguesa que é praticamente “caso único” no mundo, segundo a professora Maria Isabel João, autora do livro “Memória e Império — Comemorações em Portugal (1880–1960)”. A historiadora lembra que a “maioria esmagadora dos países do mundo escolhe uma data que se relaciona com a fundação do Estado ou do regime político vigente”.

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10 DE JUNHO – DIA DE CAMÕES | Deixem ir o amador à coisa amada | Manuel S. Fonseca

Este texto foi uma encomenda. Escrevi-o com muito gosto e com um descaramento que se baseia numa ideia simples: os poetas, os pintores, os romancistas devem ser falados, interpretados e comentados pelos seus leitores, mesmo por aqueles que, como eu, só como amadores os comentem. Recupero-o neste 10 de Junho de 2021.

Os amadores, na sua exaltada e infantil incompetência, nunca dispensarão os especialistas. Os amadores são como as criancinhas que um tolerante Cristo deixa vir a si. Mas mal do especialista que não deixe, magnânimo, sentarem-se os amadores aos pés da coisa amada.

saiba o mundo de Amor o desconcerto,

que já coa Razão se fez amigo,

só por não deixar culpa sem castigo.

O Século de Camões | Manuel S. Fonseca

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Dia 10 de Junho de 2021 | Dia de Portugal | Le verdict que le juge a rendu au voleur

Un garçon de 15 ans a été surpris en train de voler dans un magasin en Amérique.

Pour tenter de s’échapper, le garçon a également détruit une étagère.

Après que le juge ait entendu l’affaire, il a demandé au garçon :

“- Tu as vraiment volé quelque chose ? Tu as volé du pain et du fromage et détruit l’étagère ?”

Le garçon, honteux, la tête baissée, répondit :

“- Oui “.

Juge : « Pourquoi tu as volé ? ′

Enfant : « c’était nécessaire ».

Juge : « Tu ne pouvait pas les acheter au lieu de les voler ?

Garçon : “Je n’avais pas d’argent”

Juge : “Tu aurais pu demander de l’argent à tes parents”

Garçon : ′ ′ Je n’ai que ma mère qui est alitée et malade et qui n’a pas de travail. Pour elle j’ai volé du pain et du fromage ′ ′

Juge : « Tu ne fais rien, tu n’as pas de travail ? ′

Enfant : ′ ′ j’ai travaillé dans un lavage d’auto. J’ai pris un jour de congé pour aider ma mère et c’est pourquoi j’ai été licencié. ′

Juge : « Tu n’as pas cherché autre chose pour travailler ailleurs ?

Après la fin de la conversation avec le garçon, le juge a annoncé le verdict :

Voler, surtout voler du pain, est un crime très honteux. Et nous voilà tous responsables de ce crime . Toutes les personnes présentes dans cette salle d’audience aujourd’hui, y compris moi, sommes responsables de ce crime . De cette façon, toutes les personnes présentes seront condamnées à une amende de 10 dollars, personne ne sortira d’ici sans qu’il ne donne 10 dollars

Le juge a sorti un billet de 10 $ de sa poche, a pris un stylo et a commencé à écrire :

De plus, j’ai imposé une amende de 10000 dollars au propriétaire du magasin pour avoir remis l’enfant affamé à la police. Si l’amende n’est pas payée dans l’heure, le magasin restera fermé.”

Toutes les personnes présentes se sont excusées auprès du garçon et lui ont remis tous 10$ . Le juge a quitté la salle d’audience en cachant ses larmes.

Après avoir entendu le verdict, les personnes présentes dans la salle d’audience avaient les larmes aux yeux.

Je me demande si notre société, notre système, nos tribunaux auraient pu rendre un tel verdict ?

Le juge a ajouté : « Si une personne est surprise en train de voler du pain, tous les membres de cette communauté, de la société et du pays devraient avoir honte !

Retirado do facebook | Mural de Chekini Kamel

Moderados, uma espécie em extinção? Paulo Sande

1 Os partidos políticos em Portugal vivem sob o signo da inquietude, com dúvidas existenciais sobre o que fazer para assegurar aquilo para que existem, isto é, para conquistar o poder e, depois, mantê-lo. A todo o custo. Custe o que custar, mesmo que isso implique coligarem-se com partidos cuja ideologia execram ou renegarem os eleitores que os elegeram, para satisfazer os mecenas ou sublimar a mais recente, embora efémera, agenda da moda. Temem, se falharem, pela razão de ser da sua existência enquanto partidos políticos. A qual é, como escrevi, conquistar o poder e mantê-lo, a todo o custo.

2 Só que não é. Não que o não seja vezes demais, mas porque não deve ser assim. Não pode ser. Os partidos e os políticos que abandonam os seus eleitores – prometem, sabendo que não cumprirão, traem, escolhendo o poder em detrimento do bem público – não cabem na democracia do século XXI. Que não pode ser igual à do século XX.

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Guardador de Rebanhos | Poesia Portuguesa II

Mário Viegas ironiza sobre a “popularidade” de Fernando Pessoa, escritor e poeta da primeira metade do século XX; Mário Viegas conversa com “Fernando Pessoa” (personagem interpretada por Mário Viegas) sobre a sua personalidade e obra; 41m50: Mário Viegas declama 10 poemas do livro “Guardador de Rebanhos ” de Alberto Caeiro, acompanhado por António Marques à flauta e a interpretação de Rui Miguel, ator; reconstituição do quadro “Retrato de Fernando Pessoa” de José Almada Negreiros.

A Base de Toda Metafísica | Walt Whitman

E agora, senhores,
Uma palavra eu lhes dou para permanecer em suas memórias e mentes,
Como base, e fim também, de toda metafísica.
(Também, para os alunos, o velho professor,
No final de seu curso apinhado.)

Tendo estudado o novo e o antigo, os sistemas grego e alemão,
Kant tendo estudado e exposto – Fichte e Schelling e Hegel,
Exposto o saber de Platão – e Sócrates, maior que Platão,
E maior que Sócrates buscado e exposto – Cristo divino tenho muito estudado,
Eu vejo reminiscentes hoje aqueles sistemas grego e alemão,
Vejo as filosofias todas – igrejas cristãs e princípios, vejo,
Sob Sócrates claramente vejo – e sob Cristo o divino eu vejo,
O caro amor do homem pelo seu camarada – a atração de amigo por amigo,
Do marido bem-casado e a esposa mãe de crianças e os pais,
De cidade por cidade, e terra por terra.

Golfinhos | Enzo Maiorca, mergulhador italiano

O famoso mergulhador italiano, Enzo Maiorca,  nadava nas águas quentes do mar de Siracusa e conversava com sua filha Rossana que ficara no barco.

Pronto para submergir, sentiu algo bater ligeiramente nas costas. Virou-se e viu um golfinho. Percebeu então que ele não queria brincar, mas expressar alguma coisa.

O animal mergulhou e Enzo o seguiu.

A cerca de 12 metros de profundidade, preso em uma rede abandonada, havia outro golfinho.

Maiorca rapidamente pediu à filha que apanhasse suas facas de mergulho. Em poucos minutos os dois conseguiram libertar o golfinho que, no limite das forças conseguiu emergir, emitindo um “grito quase humano” (assim descreveu Maiorca).

Um golfinho pode resistir debaixo d’água até 10 minutos, depois afoga-se.

O golfinho liberto, ainda atordoado, foi controlado por Enzo, Rossana e o outro golfinho. Depois veio a surpresa: Era uma delfina, que logo deu à luz um filhote.

O macho circulou-os e, parando à frente de Enzo, lhe tocou na bochecha (como se fosse um beijo), num gesto de gratidão… e se afastaram.

Enzo Maiorca terminou sua intervenção dizendo: “até que o homem aprenda a respeitar e a dialogar com o mundo animal, nunca poderá conhecer o seu verdadeiro papel nesta Terra.”

Retirado do Facebook | Mural de José Silva Pinto

Quando os senhores são genocidas | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

O que aqui havia de novo não era a destruição, a escravatura ou sequer a desumanização das vítimas, era simplesmente a aceleração da ganância.

Há um triângulo entre o filme Apocalypse Now (1979), de Francis Coppola, o livro em que se inspira, O Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad, e outro que volta ao mesmo cenário de barbárie, O Sonho do Celta (2010), de Vargas Llosa, que conta a história da história. Coppola filmou a expedição que sobe o rio vietnamita para matar Kurz, um oficial escondido na selva; Conrad, a partir da sua própria experiência como capitão de navio de transporte de marfim no Rio Congo, tinha contado a busca por Kurz, um dos responsáveis pela empresa exploradora e que se perdera algures a montante. Ao entrar “na boca do grande rio”, o capitão Charles Marlow abandona a comodidade das aparências, em que se vive sem remorso a riqueza colonial. “Antes do Congo eu era só um animal”, diz o escritor, que depois descobriu a imensidão do território do horror (o seu livro foi décadas depois criticado por despersonalizar a população africana, a vítima que fica silenciosa). Não há guerra, não há deus, não há humanidade nessa selva, só há crueldade sem limite. A industrialização da morte foi um êxito da modernidade, quando os cavalheiros enriqueceram sobre pilhas de escravos.

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Rique Ferrári e a palavra metamorfoseada em tempo | Adelto Gonçalves

Poucos poetas brasileiros talvez tenham sido tão incensados já na segunda idade quanto o gaúcho Rique Ferrári (1985), elogiado que foi por nomes representativos da literatura contemporânea, como Fabrício Carpinejar, Ronaldo Cagiano, Waldemar José Solha, Martha Medeiros e Alexandra Vieira de Almeida, que o apontam como um novo ícone da poesia brasileira. Isso tudo é confirmado pelos versos que constam de Roda-gigante (Guaratinguetá-SP; Editora Penalux, 2020), seu quinto livro, obra que se mostra renovadora na linguagem.             

            Para o autor, seus poemas procuram apresentar “uma normalização das pequenas mortes de nossas vidas”, desmistificando a ideia de que há apenas um ciclo: “em que se nasce, cresce, reproduz e morre; como nos ensinaram quando crianças”. É um tipo de frases filosóficas que lembra a literatura de Clarice Lispector (1920-1977) ou mesmo a de José Saramago (1922-2010). Segundo Ferrári, seu livro “não tenta nem quer impressionar. Quer apenas ser o que é, trazendo seu próprio leque de percepções, despreocupado de que seja bom ou ruim”.

            Para Ronaldo Cagiano, autor do posfácio, o autor “utiliza seus artefatos para alcançar aquilo que de mais dinâmico e comunicador pode e deve deflagar numa obra literária, imbuída em seu compromisso estético e em sua dimensão ética”. Segundo o romancista e crítico literário, Roda-gigante mostra o poeta “em pleno domínio de sua arte”.

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Angoche | Os Fantasmas do Império Carlos Matos Gomes | Apresentação online

Tenho o prazer de vos convidar para a apresentação do romance Angoche – Os Fantasmas do Império, da Porto Editora. Esta apresentação será feita online, através dos links que constam deste email. Terá   lugar amanhã, dia 1 de Junho, das 21 às 22 horas.

Será moderada pelo editor Vasco David, desenrolar-se-á sob a forma de uma conversa, com interrogações e dúvidas, entre mim e o comandante Carlos de Almada Contreiras, que fez parte de um dos navios portugueses envolvidos no bloqueio do Porto da Beira, em 1966. Será possível a intervenção dos assistentes.

Trata-se de um romance cujo enredo procura desvendar os interesses que estiveram na origem do que aconteceu ao navio mercante Angoche e à sua desaparecida tripulação, e, a partir dos interesses, chegar aos seus autores. As personagens do romance são homens e mulheres envolvidos, como tantas vezes acontece, em situações que os ultrapassam. As respostas a que cheguei são apenas deduções e premonições do que poderia ter acontecido.  A Porto Editora e eu estamos a procurar a melhor oportunidade para uma apresentação ao vivo, sujeita aos condicionalismos do tempo presente.

Aqui vos deixo os links para a apresentação do dia 1 de Junho:

– https://youtu.be/qXJkFzqA7UsFacebook – https://www.facebook.com/PortoEditora/posts/4114022285301916Facebook (evento) – https://www.facebook.com/events/2668635700093451/

Carlos Matos Gomes

As envergonhadas e os desenvergonhados Carlos Matos Gomes

Um dos livros mais duros que li sobre vergonhas e ações vergonhosas tinha e tem por título “As Benevolentes”. Foi escrito por Jonathan Littel e relata as memórias de um ex oficial nazi que participou nos momentos mais sombrios da recente história mundial. Uma confissão das desumanidades cometidas por seres que elevaram o mal e a maldade aos extremos. O título remete para as deusas Eríneas, perseguidoras e vingadores, também conhecidas por Eumênides, ou Benevolentes, o oposto do que era a sua essência.

Vem esta introdução a propósito do clamor que se levantou a propósito dos habituais desacatos dos adeptos do futebol feito por um coro que tem arrepelado os cabelos e coberto a cara de lama e cinzas gritando: «Que vergonha!» e: «O que dirão de Portugal lá fora?»

Os envergonhados da final da Champions League no Porto são o correspondente das “benevolentes” do romance. Nem eles estão envergonhados, nem os nazis foram benevolentes. Ou então os” envergonhados” não sabem o que é vergonha e começam por ser descarados fiteiros (uma especialidade futebolística).

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Do MDLP ao MEL e do ELP ao Chega: sempre o mesmo fel | Carlos Matos Gomes

Do MDLP ao MEL e do ELP ao Chega: sempre o mesmo fel.

Do que li, vi e ouvi a propósito de presença de Rui Rio e Passos Coelho numa sessão organizada por uma nova empresa de marketing político que adotou para o efeito o pseudónimo de MEL — Movimento Europa e Liberdade — conclui que eles não sabem de quem são filhos, ou quem são os pais. Em sentido político, é evidente. São dois seres sem raízes, sem passado, sem história, sem leituras, sem referências, sem credibilidade. Os frangos de aviário são assim fabricados, como os hambúrgueres ou as salsichas em lata. Já quanto à participação de políticos até agora aderentes ao Partido Socialista, a questão não é a de desconhecerem a paternidade, mas sim a de, segundo o Princípio de Peter, terem atingido o seu patamar de incompetência e de ali terem ido para adoção e uma segunda vida. Foram seguir os passos da atriz em decadência Maria Vieira, que representa o papel de madrinha do Chega.

Quanto ao convívio do MEL, na realidade uma ação de relações públicas do Chega, as presenças significativas são as de Rio e de Passos Coelho. Eles são ou foram dirigentes de um partido político que em 1974 começou por se designar PPD e mais tarde, para aproveitar as aragens da história, assumiu a social-democracia!

Um pouco de passado:

Após o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 realizado pelo Movimento das Forças Armadas, quer o PS quer o PPD fizeram parte de todos os acontecimentos marcantes e ocuparam todos os degraus do poder que construiu o regime em que hoje vivemos. Um regime de democracia política, económica e social com variantes mais ou menos avançadas. O PS e o PPD/PSD fizeram parte do consenso político que definiu a Constituição de 1976, aceite e aprovada pelos dois partidos mais o PCP, o MDP/CDE e a UDP.

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Ademir Demarchi | textos escritos no calor da hora | por Adelto Gonçalves

I

            Siri na lata (Santos, Realejo Edições, 2015), livro premiado e selecionado em 2014 para publicação pelo Programa de Apoio Cultural da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Santos, reúne crônicas publicadas pelo poeta e crítico literário Ademir Demarchi, de 2008 a 2015, em revistas e jornais, principalmente no Diário do Norte do Paraná, de Maringá, além de resenhas e textos para orelhas e prefácios de outras obras e uma percuciente entrevista dada pelo autor à jornalista e pesquisadora Márcia Costa, publicada no Jornal da Orla, de Santos, em 17/11/2008.

            O título, expressão muito popular na região litorânea que tenta refletir a situação de desespero em que fica um siri ou um caranguejo preso numa lata antes de ir para a panela, procura refletir a tensão de um trabalho que foi escrito no “calor da hora” diante da obrigatoriedade de produzir semanalmente um texto de cultura que prendesse a atenção do leitor de jornais diários. Como se sabe, este tipo de leitor – cada vez mais raro nestes tempos digitais – geralmente está mais preocupado com as coisas do dia a dia e com aquilo que pode prejudicar a sua vida, em função da parlapatice que tem marcado a ação dos homens públicos. São textos em que autor experimenta a crônica, a ficção, a prosa poética, a resenha e até faz comentários de fundo político.

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L’ÉTERNITÉ DES ÂMES DANS LA PHILOSOPHIE DE SPINOZA | Victor Brochard

[371] Les historiens ne sont pas d’accord sur le sens et la portée qu’il

convient d’attribuer à la doctrine de l’éternité des âmes exposée dans la seconde

moitié de la cinquième partie de l’Éthique. Qu’il ne s’agisse pas de l’immortalité

au sens vulgaire du mot, c’est ce qui est attesté expressément dans le texte même

de la Proposition XXI, où la mémoire et l’imagination sont considérées comme

liées à la vie présente. D’ailleurs il est indubitable que l’existence de l’âme dans

son rapport à la durée cesse avec celle du corps. L’éternité de l’âme affirmée par

Spinoza est attribuée uniquement à l’essence, et, dans toute cette dernière partie

de l’Éthique, c’est uniquement de l’essence opposée à l’existence qu’il est

question. Mais cette éternité de l’essence, comment faut-il l’entendre ? On peut

être à première vue tenté de croire qu’il s’agit d’une éternité tout impersonnelle,

plus ou moins analogue à celle qu’Aristote attribue à l’intellect actif qui vient

éclairer quelque temps l’âme humaine sans cesser d’appartenir à la divinité, ou

encore comme l’étincelle de feu divin qui, selon les Stoïciens, éclaire un instant

l’âme humaine, et, à la mort du corps, se réunit au feu universel.

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Para quem gosta de se manter bem informado | Uma boa aposta do Paulo Querido | CERTAMENTE

Hoje o Bloco dominou o noticiário com duas pressões: à direita e ao Governo. Amanhã o partido tem a sua Convenção, é provável que continue a atrair a atenção dos media. Oxalá. Para variar do enjoo de Ventura.

Grande cobertura mediática da coordenadora do Bloco de Esquerda hoje! Não é por acaso: vai correr este fim de semana a XII Convenção Nacional do partido. Mas é uma raridade: BE Catarina Martins dominaram a atenção dos media com 19 e 18 citações cada, com o PS na terceira posição com 15 e António Costa com 12 no quarto lugar (o PM é o primeiro desta lista 80% do tempo). Isto num dia em que as atenções deveriam estar centradas nos apoios do Estado ao turismo e aos setores mais afetados pela pandemia.

Patente no print-screen tirado à recolha do meu assistente Cecil, a ofensiva do Bloco (envolveu mais do que a sua coordenadora) consistiu em dois pontos:

  • pressão sobre a direita, com Catarina Martins a gritar para Rui Rio o que o país grita para o PSD, there’s nothing there in the ultra right wing, come on
  • sacudir o PS/Governo em matéria de Orçamento de Estado e políticas de futuro, posicionando-se desde já o Bloco como eventual parceiro.
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O equilíbrio político no Médio Oriente parece estar a mudar | Francisco Seixas da Costa in Jornal de Negócios

Não me refiro à recente eclosão de mais um tempo de incidentes de guerra entre Israel e a liderança militar que o Hamas tem na Faixa de Gaza – o que só uma visão ideologicamente distorcida ou ignorante pode confundir com a questão israelo-palestina em geral. Esse é um tema diferente daquilo que hoje aqui trago.

Foi a Guerra Fria que levou os Estados Unidos para o Médio Oriente, como forma de tentar evitar a influência da União Soviética, atento o crescente declínio regional dos dois aliados europeus – o Reino Unido e a França – naquele cenário estratégico, que teria a sua expressão evidente na humilhação de ambos no Suez.

Ao contrário do que décadas mais recentes podem fazer crer, na proteção internacional do Estado de Israel, a França começou por ser muito mais relevante do que os Estados Unidos. Não ouso datar o início do envolvimento mais intenso dos EUA na proteção de Israel, mas a “guerra dos seis dias” e, em especial, a “guerra do Yon Kippur” marcaram um tempo decisivo na fixação da influência do lóbi judaico junto das administrações em Washington, inicialmente mais no lado democrático, posteriormente abrangendo também as alas republicanas.

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Natalie Portman e Yuval Noah Harari em conversa

Natalie Portman – Atriz vencedor do Academy Award, produtora, diretora e ativista social entrevista Yuval Noah Harari ao vivo para o público em Londres. Em uma conversa que abrange uma ampla gama de questões contemporânes, eles discutem mitos X realidade, o papel da religião, a relação entre IA e Arte e muito mais.

An Atheist’s God | The Paradox of Spinoza

Beth Lord discusses Spinoza with Alan Saunders in an episode of the Philosopher’s Zone from a few years back. Baruch Spinoza, one of the greatest philosophers of his day, was expelled from the Amsterdam synagogue in 1656 because of his unorthodox religious views. Ever since, he has been regarded as the great atheist of the Western tradition. Yet he mentions God very often throughout his writings.


Beth Lord discute Spinoza com Alan Saunders em um episódio da Zona dos Filósofos de alguns anos atrás. Baruch Spinoza, um dos maiores filósofos de sua época, foi expulso da sinagoga de Amsterdão em 1656 por causa de suas opiniões religiosas pouco ortodoxas. Desde então, ele é considerado o grande ateu da tradição ocidental. No entanto, ele menciona Deus com muita freqüência em seus escritos.

Desvalorização de todas as paixões tristes Claudio de Souza Rocha

A última das teses práticas de Spinoza, aqui apresentada pelo viés da
compreensão de Deleuze, é a da desvalorização de todas as paixões tristes em proveito da
alegria.

Aqui a denúncia de Spinoza é, segundo Deleuze, a três espécies de personagens,
a saber; o homem das paixões tristes; o homem que explora essas paixões tristes, que
precisa delas para estabelecer o seu poder e o homem que se entristece com a condição
humana.

Ou seja, a trindade moralista, o escravo, o tirano e o padre.

São os envergonhados da vida, homens da autodestruição, do culto à morte. O que os une é o
ódio à vida, o ressentimento contra a vida.

Nas palavras de Spinoza, “o ódio e o remorso, eis os dois inimigos fundadores do gênero humano”.

Ou seja, todas as maneiras de humilhar a vida, tem suas origens no ressentimento e na má consciência, no
ódio e na culpabilidade.

Portanto, antes mesmo de Nietzsche, Spinoza denuncia todas as
falsificações da vida, todos os valores em nome dos quais depreciamos a vida. Tanto na
maneira de viver como na de pensar, o que Spinoza oferece é uma filosofia afirmativa.
Para ele a vida não é uma ideia ou “uma questão de teoria”, mas uma maneira de ser.
Mesmo em um mundo em que o culto à morte predomina, ele tem bastante confiança na
potência de vida. Sua “filosofia da vida” consiste em denunciar tudo o que nos separa da
vida, ou seja, todos os valores transcendentes, que vinculados às ilusões da consciência,
se orientam contra a vida.

Para Deleuze, A Ética de Spinoza traça o retrato do homem do ressentimento, para quem
qualquer tipo de felicidade é uma ofensa, e faz da miséria ou da impotência sua única
paixão.

Artigo_As teses praticas.pdf (revistalampejo.org)

A EUROPA EM NEGAÇÃO – UMA CEGUEIRA VOLUNTÁRIA | por Viriato Soromenho Marques

Uma união em negação

por Viriato Soromenho Marques

DN/Opinião

Apolítica europeia parece cada vez mais embarcada na construção de efeitos especiais, apresentados como se fossem realidades objetivas, sendo isso servido por uma enfática apologia de “valores europeus” que, depois de retirada a espuma retórica, se verifica não passar de um exercício narcisista de autocomprazimento.

A conduta política europeia constitui uma penosa recusa de enfrentar os riscos do futuro. Não se percebe como poderá surgir a lucidez e a coragem para os diagnosticar e combater, ou para os assumir como uma consequência inevitável da deliberada manutenção da UE nesta instável encruzilhada.

Estagnámos entre o completar das reformas indispensáveis para democratizar e salvar a UE ou o assumir resignado do falhanço da integração europeia, com o turbulento e devastador regresso à balança do poder dos Estados nacionais.

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A Carta dos generais e Bizâncio Carlos Matos Gomes

Em Bizâncio, há séculos, discutiam-se extravagância teológicas. O sexo dos anjos, por exemplo. Os sumo sacerdotes que discutiam esses temas levavam-se a sério e levavam-nos a sério e a peito, mas os assuntos importantes ocorriam noutro âmbito, noutro universo onde os assuntos a sério originavam guerras a sério. Não foi a discussão sobre a hierarquia da trindade do cristianismo entre pai, filho e espirito santo que originou cismas e mortes, foram interesses.

Eu tenho o maior respeito e consideração por todos estes oficiais generais, e penso que as Forças Armadas são um elemento essencial para mantermos a nossa soberania (a que puder ser), o que para mim significa no mínimo garantir a liberdade de decidir sobre o nosso destino e manter o padrão civilizacional que desenvolvemos ao longo da nossa história.

Julgo que cada vez mais as ameaças são globais e exigem respostas centralizadas (unidade de comando) e em tempo oportuno, com meios tecnológicos comuns aos vários elementos da estrutura de defesa, operados por profissionais competentes.

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Angoche | Os fantasmas do império | de Carlos Vale Ferraz

SINOPSE

Nacala, 23 de abril de 1971. Um navio da Marinha mercante portuguesa parte desse porto moçambicano com destino a Porto Amélia (hoje, Pemba). A bordo leva a tripulação e um civil, num total de vinte e quatro almas, bem como um importante carregamento de material de guerra destinado ao Exército português no Ultramar. No dia seguinte, de madrugada, um petroleiro encontra esse mesmo navio, de seu nome Angoche, à deriva, incendiado e sem ninguém a bordo, como se de um navio-fantasma se tratasse.
De imediato, a PIDE/DGS abre um inquérito. Os relatórios iniciais mencionam duas explosões, e as teorias para o que aconteceu surgem em catadupa. Não faltam presumíveis culpados a quem apontar o dedo, mas não há provas. Para adensar o mistério, na noite do desaparecimento do Angoche, uma portuguesa, que trabalhava num cabaré da cidade da Beira e é tida como amante de um oficial da Marinha, cai de um edifício. Suicídio ou assassinato, as circunstâncias da sua morte nunca são verdadeiramente esclarecidas, e a dúvida paira…
Depois do 25 de Abril, os relatórios da PIDE/DGS desaparecem. A carcaça do navio, ancorado no porto de Lourenço Marques, acaba por ser afundada. Se testemunhas houve, não falam.
Estes são os factos. A partir deles, Carlos Vale Ferraz constrói um romance puramente ficcional, embora essencial e certeiro, sobre moralidade e heroísmo; e onde se demonstra como a imagem de um país se pode construir, não de verdade e justiça, mas da glorificação dos seus mais vergonhosos feitos.

Angoche – Livro – WOOK

Espinosa, uma subversão filosófica | Espinosa, une subversion philosophique Marilena Chauí | TRADUIT POUR LE FRANÇAIS

I. Maledictus

A 27 de julho de 1656, a assembleia dos anciãos que dirige a comunidade judaica de Amsterdã promulga um herem (excomunhão, em hebraico), excluindo e banindo Espinosa, que, nessa época, tem 24 anos.

Em 1670, aos 37 anos, Espinosa publica o Tratado Teológico-Político, impresso sem o nome do autor. A obra se destina à defesa da liberdade de pensamento e de expressão. A 19 de julho de 1674, trazendo o brasão e as armas de Guilherme de Orange III, os Estados Gerais da Holanda, sob orientação e exigência do Sínodo calvinista, promulgam um édito em que declaram o livro pernicioso, venenoso e abominável para a verdadeira religião e para a paz da república, proibindo sua impressão e divulgação.

Em 1678, um ano após a morte de Espinosa, um novo édito do governo da Holanda proíbe a divulgação do conjunto de sua obra, publicada postumamente por seus amigos.

Afinal, o que dissera o jovem Espinosa – em 1656 –, o que escrevera o filósofo – em 1670 – e o que deixara escrito – em 1678 –, para que fosse expulso da comunidade judaica e condenado pelas autoridades cristãs? Por que alguns leitores, seus contemporâneos, afirmam estar diante de “nova encarnação de Satã” e que seu nome, Benedictus em latim, deveria ser mudado para Maledictus?

A filosofia espinosana é a demolição do edifício filosófico-político erguido sobre o fundamento da transcendência de Deus, da Natureza e da Razão, voltando-se também contra o voluntarismo finalista que sustenta o imaginário da contingência nas ações divinas, naturais e humanas. A filosofia de Espinosa demonstra que a imagem de Deus, como intelecto e vontade livre, e a do homem, como animal racional e dotado de livre-arbítrio, agindo segundo fins, são imagens nascidas do desconhecimento das verdadeiras causas e ações de todas as coisas. Essas noções formam um sistema de crenças e de preconceitos gerado pelo medo e pela esperança, sentimentos que dão origem à superstição, alimentando-a com a religião e conservando-a com a teologia, de um lado, e o moralismo normativo dos filósofos, de outro.

II. Deus, ou seja, a Natureza: a filosofia da imanência

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TIAGO GUEDES | Diretor do Teatro Municipal do Porto distinguido pelo Governo Francês

Tiago Guedes recebeu esta tarde o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras pelos serviços prestados à cultura e ao intercâmbio entre Portugal e França. “Ao observar o percurso profissional de Tiago Guedes, conduzido num espírito de abertura ao mundo, fica-se impressionado com a sua fidelidade sem falhas aos artistas franceses”, afirmou Florence Mangin, embaixadora de França em Portugal. A cerimónia decorreu no Palácio de Santos, em Lisboa, onde está localizada a embaixada. Rui Moreira esteve entre os convidados.

Coreógrafo, programador cultural e atual diretor do Teatro Municipal do Porto, Tiago Guedes (Minde, 1978) recebeu hoje as insígnias de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras, uma das principais distinções atribuídas pelo governo francês, pelo seu percurso profissional e contributo à divulgação da cultura francesa.

A medalha de “Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres” foi entregue pela embaixadora de França em Portugal, que apresentou Tiago Guedes como “homem de cultura português que, há muitos anos, dedica toda a sua energia e paixão ao encontro entre os artistas e o seu público”. A restrita cerimónia teve, entre as testemunhas, o presidente da Câmara do Porto, mas também a ministra da Cultura, Graça Fonseca, o secretário de Estado da Presidência do Conselho dos Ministros, André Moz Caldas, e a deputada socialista Rosário Gamboa.

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𝐇𝐚𝐩𝐩𝐲 𝐚𝐧𝐝 𝐡𝐚𝐫𝐦𝐨𝐧𝐢𝐨𝐮𝐬 𝐛𝐢𝐫𝐭𝐡𝐝𝐚𝐲, 𝐌𝐨𝐳𝐚𝐫𝐭!

𝐇𝐚𝐩𝐩𝐲 𝐚𝐧𝐝 𝐡𝐚𝐫𝐦𝐨𝐧𝐢𝐨𝐮𝐬 𝐛𝐢𝐫𝐭𝐡𝐝𝐚𝐲, 𝐌𝐨𝐳𝐚𝐫𝐭! 🥳🎶 𝐇𝐚𝐩𝐩𝐲 𝐚𝐧𝐝 𝐡𝐚𝐫𝐦𝐨𝐧𝐢𝐨𝐮𝐬 𝐛𝐢𝐫𝐭𝐡𝐝𝐚𝐲, 𝐌𝐨𝐳𝐚𝐫𝐭! 🥳🎶 Wolfgang Amadeus Mozart: “Parto, parto”, de “La Clemenza di Tito” (KV 621) The Royal Concertgebouw Orchestraconductor: Mariss Jansons | Elina Garanca

QUINTA FEIRA DA ASCENSÃO (DIA DA ESPIGA) | António Galopim de Carvalho

Hoje 13 de maio, Quinta feira, é para os cristãos, o dia em que se comemora a ascenção de Jesus ao Céu. É também o popular Dia da Espiga.

Eis o texto do meu confrade Firmino Cacheirinha (da Confraria Gastronómica do Alentejo) sobre o este dia, que me foi enviado.

“A Festa da Ascensão, ou Quinta Feira da Ascensão, é uma festa marcadamente católica, sendo feriado municipal em muitos concelhos de Portugal. No entanto em simultâneo com ela, e provavelmente com maior adesão, celebra-se o Dia da Espiga, ou Quinta Feira da Espiga.

A Origem da Tradição

Os rituais pagãos, com especial enfoque nas culturas célticas e romanas, de celebração das primeiras colheitas, e pedido pela qualidade e quantidade destas, remontam à antiguidade.

Com a chegada do Cristianismo, tendo em conta a data das celebrações da Páscoa, em Portugal acabou por se colar à Festa da Ascensão, celebrada 39 dias depois da Páscoa. Até porque era um Feriado oficial em Portugal, até 1952.

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Frederico Varandas | Médico | Presidente do Sporting Clube de Portugal

Frederico Nuno Faro Varandas, é um médico militar português, presidente do Sporting Clube de Portugal desde 9 de Setembro de 2018, quando ganhou as eleições do clube após a destituição do anterior presidente, Bruno de Carvalho.

Nascimento: 19 de setembro de 1979 (idade 41 anos), Lisboa, Portugal

Nome completo: Frederico Nuno Faro Varandas

Formação: NOVA Medical School – Faculdade de Ciências Médicas (2005), Academia Militar – Lisboa

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Wikipédia

União Europeia (UE) | O dia da Europa Carlos Esperança

Quem tem memória da ditadura e do atraso do Portugal salazarista não esquece o que deve à UE que hoje celebrou auspiciosamente a data durante a cimeira portuguesa, com o discurso notável de António Costa a abrir, na qualidade de Presidente da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, a Conferência sobre o Futuro da Europa, com Ursula von der Leyen e o Presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli.

Após a parceria estratégica com a Índia, de enorme relevância, e da colocação do pilar social no centro das políticas europeias, seria injusto ignorar o mérito português para o futuro comum da Europa.

A UE é um projeto singular, nascido no rescaldo da última Guerra Mundial, após 60 ou 70 milhões de mortes, o maior desastre de origem humana de toda a História. O Dia da Europa, instituído em 1985, celebra a proposta do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês Robert Schuman, que, a 9 de maio de 1950, cinco anos depois do fim da II Guerra Mundial propôs a criação de uma Comunidade do Carvão e do Aço Europeia, precursora da União Europeia.

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Eternidade e esquecimento: memória,identidade pessoal e ética segundo Espinosa | Ulysses Pinheiro

Resumo
Espinosa dispensa um tratamento elusivo ao papel da memória na determinação da identidade pessoal, reservando para ele uma breve passagem em um Escólio da Parte IV da Ética.
Apesar de sua brevidade, a análise desse trecho mostrará que ele tem várias repercussões
importantes na teoria ética desenvolvida no resto do livro.

Palavras-chave: Espinosa, identidade pessoal, memória, morte, eternidade, ética.

http://oquenosfazpensar.fil.puc-rio.br/import/pdf_articles/OQNFP_25_03_ulysses_pinheiro.pdf

A GRANDE AVENTURA DO PENSAMENTO António Galopim de Carvalho

Com boa vontade, podemos admitir que a filosofia interessa a todos. Tanto podem falar dela os académicos, numa linguagem elitista, só a eles acessível, mas hermética para o cidadão comum, como nós, numa exigência mais modesta, ao nível da chamada divulgação.

Todos somos filósofos sempre que procuramos saber ou investigar algo, seja o que for. Tudo é sabedoria, pelo que tudo é filosofia. Mas o conceito académico de filosofia é algo mais profundo, a tratar por quem ganhou estatuto para tal. É uma sabedoria vasta e complexa, com uma longa história, que abarca a universalidade do conhecimento, que o questiona, explora e, tantas vezes, vai à frente dele.

Como filósofo que sou, no estrito sentido de gostar de saber coisas, não resisto a “meter o nariz e espreitar” este maravilhoso domínio do génio humano. Que perdoem os muitos que tratam por tu o discurso filosófico. Não é para eles que escrevo. A eles peço, sim, que me corrijam onde eventualmente possa errar ou ser menos claro ou incompleto. Escrevo para os que não tiveram oportunidade de contactar com os temas que habitualmente divulgo e que, todos os dias esperam estes meus despretensiosos escritos.

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N.Y.TIMES | JOE BIDEN APOIA QUEBRA DAS PATENTES | por Carlos Fino

PARA ACELERAR PRODUÇÃO DE VACINAS NO MUNDO INTEIRO

The Biden administration on Wednesday came out in support of waiving intellectual property protections for Covid-19 vaccines, a breakthrough for international efforts to suspend patent rules as the pandemic rages in India and South America.

The United States had been a major holdout at the World Trade Organization over a proposal to suspend intellectual property protections in an effort to ramp up vaccine production. But President Biden had come under increasing pressure to throw his support behind the proposal, including from many congressional Democrats.

Katherine Tai, the United States trade representative, announced the administration’s position in a statement on Wednesday afternoon.

“This is a global health crisis, and the extraordinary circumstances of the Covid-19 pandemic call for extraordinary measures,” she said. “The administration believes strongly in intellectual property protections, but in service of ending this pandemic, supports the waiver of those protections for Covid-19 vaccines.”

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

PPUE 2021 | Presidência Portuguesa da União Europeia | por Francisco Seixas da Costa

Lá para as dez e tal da noite de um dia do primeiro semestre de 2000, durante a presidência portuguesa da União Europeia, em que tínhamos passado o dia dentro do edifício Justus Lipsius, em Bruxelas, em sucessivas reuniões de trabalho, de janelas fechadas, respirando ar “artificial”, desde as oito e tal da manhã, imensamente cansado, voltei-me para Jaime Gama, no carro de regresso ao hotel, e comentei: “O dia hoje correu muito bem!“.

Gama respondeu-me com uma pergunta e uma resposta: ”Sabe por que correu bem? Porque já andamos por aqui há muito tempo! Olhe à volta daquela mesa: com as sucessivas mudanças de governos, nós somos dos mais antigos. Conhecemo-los a todos, desde o pessoal do secretariado do Conselho até à gente da Comissão, sabem bem quem somos e como somos. Torna tudo mais fácil!”.

Era bem verdade! Pensei nisto, há pouco, ao olhar a ”coreografia” da presidência portuguesa da União Europeia, no Palácio de Cristal, no Porto.

A nossa equipa “política” está mais do que rodada: António Costa, que já foi vice-presidente do Parlamento Europeu, é dos mais “seniores” de entre os primeiros-ministros, o que é muito importante para quem vem de um país da nossa dimensão.

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Medalha de Valor e Altruísmo do Município de Alcanena, atribuída ao Serviço Nacional de Saúde | 8 de Maio de 2021 | 107º aniversário da fundação do Concelho

Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, Receberá Medalha de Valor e Altruísmo do Município de Alcanena, atribuída ao Serviço Nacional de Saúde

O Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, estará amanhã, dia 8 de maio, em Alcanena, para participar na Sessão de Atribuição de Condecorações Honoríficas, no âmbito das comemorações do 107º aniversário da fundação do concelho, onde receberá, da Presidente da Câmara, Fernanda Asseiceira, a Medalha de Valor e Altruísmo do Município de Alcanena, atribuída ao Serviço Nacional de Saúde.

A atribuição desta condecoração foi aprovada em reunião extraordinária da Câmara Municipal, realizada no passado dia 4 de maio, em homenagem e reconhecimento pela entrega e dedicação de todos(as) os(as) profissionais de saúde, que dão corpo ao Serviço Nacional de Saúde Português.

Com o último ano marcado pela pandemia, o executivo municipal, neste importante momento para o Concelho de Alcanena, considerou relevante uma homenagem de reconhecimento a todos(as) os(as) “heróis” e «heroínas» das várias instituições e áreas do Serviço Nacional de Saúde, que, diariamente, têm apoiado a população do concelho de Alcanena e, de forma ainda mais complexa e exigente, vencendo a Pandemia e procurando, todos os dias, salvar as pessoas.

Retirado do facebook | Mural de Câmara Municipal de Alcanena

A Criança que Pensa em Fadas Fernando Pessoa / Alberto Caeiro

A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

REFLEXÕES EM TORNO DO G7 Inquietações: um G7 muito combativo Victor Ângelo | in Diário de Notícias

O G7 agrupa as maiores economias liberais, ou seja, por ordem decrescente de grandeza, os Estados Unidos, o Japão, a Alemanha, o Reino Unido, a França, a Itália e o Canadá. Representam, no seu conjunto, cerca de 50% da economia mundial. A liderança do G7 em 2021 cabe aos britânicos, que organizaram nesta semana uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, em preparação da cimeira prevista para junho.

Passaram dois anos sem se reunir.

A pandemia e o mal-estar causado pela presidência de Donald Trump explicam o longo hiato. Agora as realidades são outras. O controlo da pandemia parece possível, graças às campanhas de vacinação. E as políticas seguidas em Washington já não são imprevisíveis. Mesmo assim, foi preciso decidir entre uma reunião presencial ou não. Após um ano de conferências virtuais, concluiu-se que, em matéria de diplomacia, o contacto pessoal é, de longe, o mais produtivo. A maioria das videoconferências realizadas entre políticos ao longo da pandemia acabou por ser um mero exercício formal, em que cada um lia o texto que tinha à sua frente, sem se proceder a uma troca de ideias, a uma análise das opções ou a um comprometimento pessoal. Regressamos agora, a passo seguro, às discussões frente a frente.

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Architecte Bâtisseur | Présentation formation coupole | Une formation sur les voûtes sans coffrages.

“Nul n’entre ici, s’il n’est géomètre” | Platon

Cette phrase fut écrite sur l’entrée de l’académie de Platon en 387 av JC et montre à quel point la géométrie était la porte de toutes les sciences.

Dans ce qui nous concerne, la construction, elle nous permet d’ouvrir de nouvelles possibilités et de pouvoir jouer avec la physique.

Ce que je te propose de découvrir dans cette formation, c’est cette porte vers le savoir profond des bâtisseurs anciens.

Napoleão: foi em Portugal que começou a queda

Cumprem-se hoje 200 anos sobre a morte de Napoleão Bonaparte, o homem que veio da obscuridade, subiu às culminâncias, fez-se Imperador dos Franceses e morreu degredado numa ilha semi-desértica do Atlântico Sul.

Há um culto popular em torno de Napoleão e do 1.º Império, adesão que não se confina ao hexágono. Há estátuas e bustos celebrativos de Napoleão um pouco por todo o mundo e na Bélgica, Holanda, Itália, Canadá, Estados Unidos e México, activas associações de estudos incensam, entre a lenda e a realidade, a personalidade de Napoleão. Este sobrevive ao tempo, os seus aforismos, a petite histoire das suas paixões e anedotário são património comum, até das pessoas que não lêem; a sua aventura, das escarpas escalvadas da Córsega aos campos de Waterloo, da sagração a Santa Helena, surgem como irresistíveis histórias quase tocadas pelo fabuloso. Napoleão não deixa ninguém indiferente. A passagem pela história europeia de um homem desses, que se afirmava expoente da razão e em quem outros viram a história montada sobre um cavalo, continua a ser uma bela história.

Em 1809 e 1810 em Portugal, em 1812 na Rússia e em 1815 em Waterloo, a estrela de Napoleão empalideceu, congelou e estilhaçou-se. A derrota do Ogre, do Anti-Cristo, do Crocodilo Corso, da Besta Monstruosa, Novo Átila ou simplesmente Bonny para os britânicos – então satirizado como tronco de couve decepada, bilha partida, boneco esventrado – também convidava a interpretações providencialistas e dos desígnios de Deus, mudo desde 1789, em vão confiante no arrependimento dos homens, até finalmente se pronunciar, castigando aqueles que Dele se haviam afastado.

Entre o mito e a lenda, a propaganda e a caricatura, importa fazer a pergunta fatal. Quem derrotou Napoleão? Ora, Portugal, a Rússia e a sempre teimosa Inglaterra. Portugal foi o primeiro grande fracasso político e militar do Imperador. Há que lembrá-lo, sempre, pois, a quantos pensam [erradamente] que aquela partida da Família real para o Brasil foi um acto de cobardia. Não, se a família real portuguesa tivesse caído nas mãos de Junot, não teria havido resistência popular, heróica e desesperada, assim como não teria havido o levantamento nacional espanhol e a invasão de França pelos exércitos coligados. Se portugueses e russos não o tivessem detido, Napoleão teria triunfado e o curso da história teria sido diferente.

MCB in Nova Portugalidade

O esquecido papel de Napoleão na escravidão

No bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, celebrado por muitos na França como herói, discute-se um lado pouco lembrado de seu legado: em 1802, ele restabeleceu a escravidão, oito anos após ser abolida pelo país.

Como parte das comemorações do bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, que se completa nesta quarta-feira (05/05), o centro cultural Grande Halle de la Villete, em Paris, está apresentando uma grande exposição sobre o ex-imperador francês. Ela será aberta ao público assim que as restrições de covid-19 forem levantadas e poderá ser visitada até 19 de setembro de 2021.

Em meio a 150 objetos que incorporam a deslumbrante grandeza do ex-imperador francês – “uma figura que é, ao mesmo tempo, fascinante e controversa”, como diz o trailer da exposição –, uma seção da exibição foca, no entanto, um lado mais sombrio de seu legado.

Ela apresenta as cópias originais das leis assinadas por Napoleão em 1802, que reverteram a abolição da escravidão que havia sido anunciada oito anos antes, na esteira da Revolução Francesa. Essa legislação fez da França o único país a ter realmente reintroduzido a escravidão após torná-la ilegal.

“Quando se ouve falar sobre Napoleão, a maioria das pessoas pensa no grande império e nas muitas vitórias da França durante as guerras daquela época. Esta glória sobre Napoleão ofusca tudo mais o que ele fez”, diz Dominique Taffin, diretora da Fundação para a Memória da Escravidão, em entrevista à DW. “Decidimos que era necessário aumentar a conscientização sobre essa parte sombria de seus atos para um público mais amplo.”

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