Gente Lusitana | Paulo Fonseca

 

 

 

 

 

 

 

Cornucópia rosada
de carne palpitante…
com neurónios, comandada
puro arbítrio, caminhante…
Permeável,
errante…
de louca, saudável…
humana,
impura,
insaciável…
A sina de vegetar
no plástico colorido…
sonho
de fermentar,
coração desabrido…
existência singela
tic-tac, tic-tac
imaginação
arrepio
frustração,
solslaio trôpego
de brio…
espiral,
depressão…
Canto mudo,
epopeia vertiginosa,
papel representado,
entrudo assolapado,
efémero carnaval
que se replica…
movediço
ritual
passeio de triste
que ri,
que resiste,…
falsete
de glória refinada,
faísca que levita
folclore cosmopolita,
conto de fada,…
festa ensombrada
sob a nuvem
de uma história que emociona…
vida traçada,
remela empoeirada,
susto,
calhandro
que fervilha,
robusto…
dança destemperada,
silêncio,
batucada,
ritmo que saliva
na estrada
ofegante…
Povo que lavas no Rio,
com a cabeça entre as orelhas,
Sangue vivo, sempre em desafio,
Obediente Balhelhas…

José Afonso | Canção Longe

Ó meu bem se tu te fores
Como dizem que te vais
Deixa-me o teu nome escrito
Numa pedrinha do cais

Quando o mê mano se foi
Sete lenços encharquei
mai la manga da camisa
e dizem que não chorei

Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar
Ai quem me dera morrer
Nas águas do teu olhar

La lettre de rupture la plus expéditive de l’histoire | Lettre de Gustave Flaubert à Louise Colet

Madame,                                                                                                                                                     6 mars 1855

J’ai appris que vous vous étiez donné la peine de venir, hier, dans la soirée, trois fois, chez moi.

Je n’y étais pas. Et dans la crainte des avanies qu’une telle persistance de votre part pourrait vous attirer de la mienne, le savoir-vivre m’engage à vous prévenir : que je n’y serai jamais.

J’ai l’honneur de vous saluer.


Gustave Flaubert (12 décembre 1821 – 8 mai 1880), maître du style, connu pour ne produire des phrases qu’au prix de longs efforts et d’un immense travail (« Une bonne phrase de prose doit être comme un bon vers, inchangeable, aussi rythmée, aussi sonore » écrit-il), savait aussi être expéditif. Sentant son amour pour la belle poétesse Louise Colet s’épuiser, alors qu’elle abandonne Paris pour lui rendre visite dans son Croisset natal et qu’elle supplie le maître des lieux de la recevoir, il lui envoie un dernier billet d’une concision lapidaire et diablement efficace. Un Flaubert méconnu !

Arthur Rimbaud | Sensation

Par
les soirs bleus d’été, j’irai dans les sentiers,
Picoté
par les blés, fouler l’herbe menue :
Rêveur,
j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je
laisserai le vent baigner ma tête nue.
Je
ne parlerai pas, je ne penserai pas :
Mais
l’amour infini me montera dans l’âme,
Et
j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par
la Nature, – heureux comme avec une femme.

Sensação

Pelas tardes azuis do Verão, irei pelas
sendas,
Guarnecidas pelo trigal,
pisando a erva miúda:
Sonhador, sentirei a
frescura em meus pés.
Deixarei o vento banhar
minha cabeça nua.
Não falarei mais, não
pensarei mais:
Mas um amor infinito me
invadirá a alma.
E irei longe, bem longe,
como um boêmio,
Pela natureza, – feliz
como com uma mulher.

Regulamento interno do Colégio La Salle de Abrantes

1º) O espírito lassalista deverá estar presente em tudo o que fazemos. Nunca nos devemos esquecer da nossa identidade própria.

2º) Em tudo o que fazemos, devemos cultivar a justiça, a oração e o serviço aos outros.

3º) Todas as pessoas da nossa comunidade educativa, devem respeitar-se mutuamente tornando a nossa escola um lugar ideal para trabalhar.

4º) Todos devem ajudar a criar um ambiente de inter-ajuda, propiciando uma boa aprendizagem.

5º) Todos têm direito à diferença. Os dons especiais de cada um devem ser encorajados e valorizados para o bem de todos. Devemos trabalhar e partilhar juntos.

6º) Todos têm direito à segurança. Ninguém deve ter medo de ser ameaçado ou importunado. Ninguém deve ter receio de correr riscos, de ser diferente ou de ser sincero.

7º) O auto e hetero encorajamento para a rentabilização das nossas capacidades são essenciais. A existência de uma variedade de temas e de actividades é necessária à realização pessoal.

8º) A atenção vigilante é importante para que nos momentos de crise nos sintamos confiantes a partilhar as angústias ou problemas com uma pessoa de confiança.

9º) Todos devemos saber perdoar e esquecer. Todos merecemos uma segunda oportunidade.

10º) Na nossa escola, as pessoas deverão aprender tanto com os seus êxitos como com os fracassos. Isto permite o crescimento pessoal.

Argel 01 Dezembro de 2017

Só há um absoluto: não há absolutos | ELÍSIO MACAMO in jornal “Público”

Acho curioso que o pavor que alguns europeus têm por um pedido de desculpas faça de mim, um desgraçado lá da periferia, defensor do que é universal.

(…) Tzvetan Todorov, o crítico literário, faz uma distinção interessante num dos seus livros, Les morales de l’histoire, entre causas e razões tomando como exemplo o colonialismo. Pergunta como os europeus conseguiram justificar a si próprios não só a colonização como também a escravização de outros povos tendo em conta que a moral cristã dominante antes do século XVI e a moral humanista dominante a partir do século XVII torciam o nariz perante esse tipo de práticas. (…)

(…) É preciso um grande desprezo por toda a história da filosofia ocidental para achar que a escravatura, quando foi praticada, não violava preceitos morais. (…)

Continuar a ler

RÓMULO DE CARVALHO / ANTÓNIO GEDEÃO nasceu a 24 de Novembro de 1906

Também se comemora hoje, 24 de Novembro, o DIA NACIONAL DA CULTURA CIENTÍFICA instituído em 1996 em sua homenagem, pelo Ministério da Ciência e da Educação.

AMOSTRA SEM VALOR

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém. 
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.


Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.


Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

Retirado do Facebook | Mural de Maria Isabel Fidalgo

A Igreja Católica e o ambiente: doutrina e testemunhos | JORNAL DE LETRAS | Viriato Soromenho-Marques

JORNAL DE LETRAS Viriato Soromenho-Marques comenta a crise global do ambiente e o (não) envolvimento da Igreja Católica.

O Cristianismo não encontrou uma resposta idêntica ao lento processo de formação do que hoje se pode designar como crise ecológica, ou crise global do ambiente. Católicos, Ortodoxos e Protestantes responderam em tempos e modos diversos, como bem notou Lynn White, Jr., há quase meio século. No caso português, talvez uma das primeiras manifestações de preocupação com a salvaguarda do ambiente, onde a Igreja Católica assumiu uma posição de destaque, se encontre na fundação do Corpo Nacional de Escutas – Escutismo Católico Português, cujas raízes remontam a maio de 1923. Ao longo de quase um século de atividades, este movimento tem desempenhado um notável e pioneiro papel no desenvolvimento da consciência ecológica de muitas gerações de jovens, traduzida numa atitude de respeito pela integridade da paisagem natural, e um respeito pela diversidade biológica.
Pessoalmente, registo dois testemunhos que considero relevantes para serem partilhados por ocasião da visita a Portugal do Papa Francisco. No Outono de 1986, num período em que presidi a uma organização ambientalista na cidade de Setúbal – o Projecto Setúbal Verde – tive ensejo de travar uma longa e fascinante conversa sobre as implicações filosóficas e teológicas da proteção das espécies em perigo com o então bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. Na altura, essa notável figura do clero estava no centro das atenções públicas pelo modo corajoso e frontal com que denunciara o aumento exponencial da pobreza e da degradação das condições sociais na Península de Setúbal. A sua palavra muito contribuiu para a realização de um importante Plano de Emergência, que canalizaria fundos e recursos que em muito contribuíram para minimizar os sofrimento e as carências de muitas centenas de famílias.
Mas nesse dia de Outono, a conversa que mantivemos a sós – num diálogo entre um jovem professor e ecologista e um dos mais respeitados pastores da Igreja Católica em Portugal – tinha como objeto criaturas ainda mais desprotegidas, e completamente destituídas de voz: as cegonhas brancas, que, nessa altura, se encontravam em acelerado recuo populacional em Portugal. Dom Manuel Martins mostrou ter um coração suficientemente amplo para dinamizar o papel que os membros do clero poderiam desempenhar na proteção dos ninhos, e na educação dos crentes para o respeito por essas criaturas tão profundamente instaladas no nosso imaginário cultural. Pouco anos depois, a população de cegonhas recuperava, em zonas críticas como o distrito de Setúbal, encontrando-se hoje completamente fora de perigo no nosso país.

Continuar a ler

Poema de Aguardente em Casca de Noz | Telmo Barreira | Prefácio de Sónia Lavaredas

Poema de Aguardente em Casca de Noz…

Quando lemos os poemas de Telmo Barreira, o que se experiencia é tal e qual o estalido frenético que provocaria um shot. Sim, um shot de aguardente. Uma espécie de choque a percorrer o corpo, num compasso de êxtase, primeiramente quente e consolador, em seguida desconfortável, quase doloroso, espraiando-se, por fim, numa sensação dormente e apaziguadora. Depois da casca de noz aberta e do preciso elixir bebido, verifica-se que esta aguardente só poderia estar contida neste invólucro orgânico e natural, como orgânica e natural é a jornada da própria existência.

A viagem começa na infância, com a aguardente ainda a descer-nos pela garganta, tranquila e reconfortante, numa recordação entrelaçada de sonho, identidade e ninho. E por aí nos deixamos guiar, pausadamente, como se a nossa própria infância recordássemos, num ambiente confortável de colo e amor. Os momentos da feliz inconsciência das coisas, onde tudo tem o tempo certo, onde podemos, entre palavras, fazer as pausas prolongadas dos pontos finais…

Mas a aguardente vai descendo e um ardor, desconcertante primeiro e insuportável depois, apodera-se do nosso peito… É o bulício, a experiência, a vida. Nesta ardência provocada pelo líquido, quer-se cortar com o passado e percorrer caminhos imaginados originais. Este calor que sentimos, no peito e na mente, transforma-se em febre que queremos apaziguar com o arrebatamento das descobertas, das experiências. Queremos respostas! Porém, as respostas tardam. Das sucessivas tentativas, ficam as desilusões, a solidão… Quem somos? Quem queremos descobrir nesta viagem vertiginosa? E a aguardente arde cada vez mais cortando, por breves segundos, a respiração. Um grito desesperado solta-se da garganta. Ficamos quietos e ainda exaustos arriscamos inspirar de novo. Depois, já com o peito cheio de ar, aventuramos a compreensão da pessoa em quem nos transformámos, quem emergiu destes pântanos por onde andámos. Talvez o amor, os amores, nos possam dar algumas respostas.

Continuar a ler

PRE-APOCALIPSE NOW | Sousa Dias em diálogo com Maria João Cantinho

«Vivemos numa época de amálgamas espúrias, que confunde pensamento e comunicação, crítica e marketing, teoria e opinião de especialista, pensador e intelectual mediático ou jornalista cultural. Época de sobre-informação mas, paradoxalmente, época antipensamento, de extravio generalizado do sentido do pensamento, de refluxo do pensamento sob todas as suas formas. E, não por acaso ou por coincidência, época de uma extrema desumanização do humano, da dessubstancialização da subjectividade humana, como diz Žižek, do mais dócil e cobarde corpo social, como diz Agamben.

Uma catástrofe do pensamento, de que o fim das ideologias é uma reverberação, e com ela um desastre do humano, desastre absoluto no qual estaremos talvez só a entrar, um pré-apocalipse espiritual para o qual não se vislumbra saída. Escreve noutro texto Agamben que, enquanto o animal pode a sua potência, variável de espécie para espécie mas definida de uma vez por todas pela sua natureza ou vocação biológica, o homem, desprovido de natureza, é aquele ser que pode a sua própria impotência. A grandeza do seu poder mede-se pelo abismo da sua impotência. A saída da presente situação do humano, a existir, passará necessariamente pelo pensamento, quer dizer, pelo poder ilimitado, desmedido, dessa impotência do homem.» (Sousa Dias)

Esculturas | Santos Carvalho

Santos Carvalho escultor  trabalha em diversos materiais (como distintos tipos de pedra, ferro, madeira, acrílico entre outros). Ao longo do seu percurso artístico realizou várias esculturas públicas (em espaços ao ar livre e instituições públicas e privadas). Participou em inúmeras exposições Individuais , coletivas e em  simpósios nacionais e internacionais.

Está representado em Coleções  : Espanha ; Brasil ; Inglaterra ; Alemanha ; USA ; Noruega

www.santoscarvalho.com

Os 4 avisos de D. Pedro: 600 anos de atualidade | António Valdemar in Jornal Público

Volvidos 600 anos, após a Carta de Bruges, perduram as lacunas, os defeitos, os vícios que inviabilizam perspetivas para impedir os desgastes da rotina e estagnação.

A vocação da política do Atlântico e da política da Europa voltam a estar na ordem do dia e constituem tema de debates nacionais e internacionais. A descolonização (inevitável mas tardia) e a entrada (necessária e urgente) na União Europeia recolocaram, uma controvérsia que tem percorrido os séculos, que dividiu e continua a dividir henriquistas e pedristas.

Todas as homenagens foram prestadas ao infante D. Henrique mas está por fazer a reparação devida à memória de D. Pedro, traído e assassinado, às portas de Lisboa, o cadáver, entregue à voracidade dos cães e dos milhafres, a apodrecer dias e dias seguidos, nos campos de Alfarrobeira. Só muito depois teve sepultura, ao lado dos pais e dos irmãos, na Capela do Fundador, no mosteiro da Batalha.

Ínclita geração de altos infantes assim celebraram Os Lusíadas, os filhos legítimos masculinos de D João Iº e de Filipa de Lencastre. Além deste verso emblemático, Camões tem outras referências ao Infante D. Henrique e ao Infante D. Pedro, ambos classificados de «generosos», na aceção peculiar atribuída a esta palavra, entendida como genuína estirpe e elevada linhagem. Mas Fernando Pessoa, na Mensagem, já definiu particularidades que singularizaram cada um dos infantes. D. Henrique, surge n’A Cabeça do Grifo «entre o brilho das esferas/ tem aos pés o mar novo e as mortas eras,/ o globo mundo em sua mão». D. Pedro, o infante das «sete partidas», destaca-se «fiel à palavra dada e à ideia tida,/ claro no pensar e claro no sentir/e claro no querer/indiferente ao que há em conseguir/que seja só obter».

Continuar a ler