Hanôver — a cerimónia da despedida | por Carlos Matos Gomes

Wrap up — as reuniões (os meetings) da Europa terminam habitualmente com uma cerimónia de despedida — uns copos, umas tapas e umas palavras de circunstância — que se designa wrap up.

António Costa vai à Hannover Messe a maior feira de tecnologia industrial do mundo, em que que Portugal será, pela primeira vez, país parceiro. Não é difícil ser suficientemente realista para considerar que vai a uma wrap up pelo papel que a Alemanha desempenhou na Europa e no mundo após o final da Segunda Guerra.

A Feira de Hanôver realiza-se desde o fim da II Guerra Mundial e a sua importância acompanhou o papel da Alemanha como locomotiva europeia e grande potência industrial. Este papel deve-se a condições de organização interna da Alemanha (RFA e depois unificada), à opção pela indústria pesada e pelos produtos de alto valor acrescentado, mas também à sua localização geográfica, no centro da Europa, fazendo de placa giratória entre a Europa Ocidental e a Oriental.

A Europa do pós-guerra assentou numa parceria franco-alemã. Em que, de forma muito simples, a Alemanha fazia de formiga e a França de cigarra. Após o fim da Guerra Fria a Alemanha também tomou os novos países “democráticos” do Leste a seu cargo, em particular a Polónia. Em parte o sucesso e o vigor da Alemanha deve-se a uma relação de mútuas vantagens com a Rússia, que fornecia a energia para a Alemanha a baixo custo e também matérias-primas essenciais, materiais ferrosos e cereais. A Alemanha é (era) o maior parceiro da UE com a Rússia (o maior investidor), a Rússia fornecia 41% do gás e 34% do petróleo. O novo gasoduto Nordstream permitiria a Alemanha importar gás da Rússia sem passar pela Ucrânia, nem pela Polónia, nem pelos Estados Bálticos (curiosamente os mais agressivos contra a Rússia).

A guerra da Ucrânia destruiu esta estratégia alemã e russa de criar um novo espaço económico e político no centro da Europa, entre a China e os Estados Unidos. Só motivos exteriores muito fortes podem justificar a intervenção — a invasão — da Rússia na Ucrânia e a morte no ovo desta nova entidade. Esta guerra só aproveita aos Estados Unidos e, por tabela, à China. Cherchez la femme.

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A revolução pelo orçamento | Entre a tomada da Bastilha e o teatro no canal Memória | por Carlos Matos Gomes

A saga da discussão da proposta de orçamento geral do estado para 2021 é idêntica à dos anos passados. Os políticos são mais previsíveis que cantores de karaoke e os partidos são mais repetitivos que uma formatura da tropa a evoluir em ordem unida às ordens dos mesmos comandantes.

A discussão do orçamento é fácil para a direita, porque o regime vigente de capitalismo e democracia liberal corresponde à sua matriz de interesses. São contra os orçamentos dos partidos sociais-democratas porque estes atribuem sempre, e na sua visão, demasiados recursos a serviços públicos que podiam ser entregues ao lucro privado. A direita vota contra os orçamentos sociais-democratas porque transforma em despesa pública uma parcela significativa dos seus possíveis lucros. Une-se, por isso, com facilidade quer para votar contra, quer para encontrar fórmulas coligadas de governo. Simples.

O drama — se é que viver em contramão é drama — encontra-se na esquerda. A esquerda, por definição quer mudar o sistema e o mundo. Quer a revolução na posse dos meios de produção e no modo de produzir, visa a tomada do poder. Os sociais-democratas são seus inimigos. É histórico e há mais de cem anos.

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