“Somos índios, resistimos há 500 anos. Fico preocupado é se os brancos vão resistir” | Ailton Krenak in Jornal Expresso

Há 30 anos, em plena Assembleia Constituinte, pintou o rosto de negro, declarou guerra aos políticos brasileiros e venceu. Ailton Krenak tem agora 65 anos, já viu muito e o que não viu, recorda-se, numa memória que lhe foi legada pelos antepassados. Líder indígena, assume-se e ao seu povo como sobreviventes de um genocídio. Mas teme pelo futuro dos brancos, aqueles que nunca aprenderam a pisar com leveza a “Mãe Terra” e que por isso poderão acabar “enterrados no próprio vómito”.

Quando uma criança krenak nasce, não vai para a creche, fica com a mãe, as avós e as tias. Partilham um quotidiano e um modo de estar na vida. As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedores, porque, para uns vencerem, outros têm de perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida onde o indivíduo conta menos do que o coletivo. Este é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. Ailton carrega no apelido a pertença à sua gente, o povo krenak. E a sua memória mais antiga é muito simples: “Eu não sei viver sozinho.”

Esteve esta semana em Portugal para participar no Fórum Internacional de Festivais de Cinema de Ambiente, em Seia, onde realizadores de mais de 30 países estiveram reunidos e demonstraram preocupação com o rumo político do Brasil e as consequências das eleições presidenciais na preservação da floresta amazónica. Antes de regressar a casa, Ailton Krenak conversou com o Expresso.

Que povo é o seu?
Krenak.

Continuar a ler

Os 4 (+1) inimigos das pontes | Engº Fernando Branco com Virgílio Azevedo in Jornal Expresso

Fernando Branco, professor catedrático do Instituto Superior Técnico, explica ao Expresso quais são os fenómenos que ameaçam as pontes. E diz que o mais recente ainda não tem solução.

odas as pontes são vulneráveis e podem cair se não tiverem inspeções e obras de manutenção regulares e adequadas. A falta de manutenção é, assim, o primeiro grande inimigo global das pontes, mesmo das que foram concebidas com base nas tecnologias mais avançadas, e não apenas as construídas nos anos 60 do século passado, como a Ponte Morandi (1969), que caiu em Génova provocando a morte a 43 pessoas.

Mas há mais quatro inimigos muito concretos (e um outro mais genérico), quatro fenómenos físicos e químicos que podem levar à sua degradação progressiva e, nos casos mais extremos de incúria e de falta de manutenção, ao seu colapso fulminante: a carbonatação, os cloretos, a fadiga e a reação alcali-sílica. Fernando Branco, especialista em engenharia de estruturas e professor catedrático do Departamento de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico (IST), onde dirige a secção de construção, explica ao Expresso como atuam estes inimigos que ameaçam a segurança de passageiros, automóveis, motos, autocarros, camiões e comboios.

O professor é também presidente da IABSE (Zurique), a mais antiga associação científica mundial desta área (100 países membros), e ainda autor com Jorge de Brito, outro catedrático do IST, do livro “Handbook of Concrete Bridge Management”, editado em 2004 pela associação de engenheiros civis dos EUA (ASCE). O livro foi durante anos um dos manuais de referência na construção de pontes neste país e ainda hoje continua a ser vendido, apesar da evolução tecnológica dos últimos 14 anos.

Continuar a ler

Revista “Outros Ares” | Entrevista a Liudmila Petruchévskaia | por Ernane Catroli

A ideia de entrevistar Liudmila Petruchévskaia veio naturalmente, logo após terminar de ler “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha”, primeiro livro da autora publicado no Brasil (pela editora Companhia das Letras e traduzido direto do russo por Cecília Rosas).

Como afirmo em uma das perguntas, os contos de “Era uma vez…” mais parecem misturar fantasia com realidade, em vez do contrário. Nesse caso, a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Há uma grande diferença entre ler uma história cujo cenário é real, verossímil, e de repente deparar com um elemento fantástico, e ler um conto cuja atmosfera, desde seu início, é soturna, misteriosa, às vezes beirando o místico, e de repente a realidade vir à tona, puxando o nosso tapete. Assim são os contos de Liudmila.

São contos fantásticos, apesar de a realidade estar lá, muito presente, viva. E o estranhamento que essa mistura em ordem e dosagens diferentes causa no leitor é muito marcante. Os contos de Liudmila são encantadores, mas num sentido quase perverso. Mas faço questão de frisar: eu escrevi “quase”, porque os contos de Liudmila também são maravilhosos, de extrema qualidade literária. E, como diz a autora numa das respostas abaixo, são muito simples.

Na entrevista que você lerá a seguir, Liudmila fala sobre sua passagem por sanatórios quando criança, por causa de uma tuberculose; sobre a censura que sofreu, e ainda sofre, na Rússia; sobre de onde vêm suas histórias; dá uma alfinetada em Nabokov e outras coisas mais.

Continuar a ler

António Barahona | “Acredito que não se morre, muda-se de estado” | Entrevista de Diogo Vaz Pinto in Jornal “i”

Os 80 anos não foram o suficiente para enxotar o seu ânimo mais desavergonhado mas, para Barahona, a beleza não sobrevive sem algum pudor

Foto de Hugo Alves

Beco dos Birbantes, velha cicatriz de quantos golpes, é um desses traços a que só se chega sendo muito íntimo de uma cidade. Já aparecia referido antes do terramoto de 1755, e aí, no que ficou de uma antiga vila operária, vive um grande poeta português. Na rua estreitíssima, sem saída, o sol só passa a língua, brevemente, a sombra pouco aquece e Lisboa sente-se encostada a uma escrupulosa saudade. À volta, há uns anos, as muralhas dissimuladas dos condomínios de luxo. E ele tem rejeitado propostas para abandonar a casa que explica em termos modestos a riqueza de viver na capital como numa aldeia. Vive ali há anos, com os filhos adolescentes e a mulher, bem perto do Jardim do Torel, que se debruça sobre uma vista agreste da selva de betão. Fizemos as fotografias e ele posou com toda a paciência, desinteressado de como pudesse ficar. Um homem que a morte há-de descobrir ainda muito belo, “contraditório, puro, sábio”, alguém que, a um ano dos 80, sente a vida envolta em beleza, ainda que avance sobre o caos e as trevas. Num trabalho que o vem ocupando nos últimos anos e que o terá até ao último fôlego, este colega de Camões, Cesário e Camilo Pessanha tem reescrito toda a obra e acaba de publicar o sexto tomo da sua suma poética – “Aos Pés do Mestre” (ed. Averno). Confessou-nos a tristeza de ficar sozinho cada verão, quando os filhos fazem férias na praia. Um homem que não se cansa de amar não chega a ver a velhice. António Barahona, o benjamim do grupo do Café Gelo, foi pai aos 26 – o mais novo dos nove filhos tem hoje 14 anos. Viajou muito, converteu-se ao islão quando tinha 30, entrou em inúmeras polémicas, perdeu alguns amigos, mas tem feito mais. É desses cujo talento começa na sua capacidade de admiração. Fala dos amigos como “jardins suspensos do meu repouso, árvores com folhas todo o ano”. Tem–se batido contra o acordo ortográfico, medida que o fez adoptar uma ortografia pessoal. Esta é hoje o mais eloquente libelo contra a “burrocracia” que, em nome de uma imbecil uniformização da língua, tem desfigurado a sua beleza. Continuar a ler

Portugal ainda resiste a olhar para o passado de forma crítica | Miguel Cardina e Bruno Sena Martins | Entrevista de Camilo Soldado in Jornal Público

09-07-2018 | Jornal “Público” | Entrevista Camilo Soldado

Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, os investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra organizaram o livro “As Voltas do Passado”. Um conjunto de textos sobre o último fôlego do passado colonial português.

O pretexto para a publicação do livro As Voltas do Passado é o CROME, o projecto do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação, que procura compreender como se foram reconfigurando as memória das guerras, desde a independência dos vários países até à actualidade. O subtítulo da publicação, A Guerra Colonial e as Lutas de Libertação, traduz essa tentativa de tratar “diferentes processos de memorialização”, tanto provenientes de Portugal como das ex-colónias. O resultado acaba por ser um mosaico de vozes, de geografi as e de gerações, com o colonialismo português como pano de fundo. No livro, lançado recentemente pela Tinta da China, cabem os momentos cuja importância é mais frequentemente reconhecida na história, como o discurso de Salazar que marcou o início da guerra, em 1961, o 25 de Abril de 1974 ou as independências após a revolução. Mas cabem também episódios menos conhecidos: desde a vida a bordo Vera Cruz, o paquete que transportava tropas a partir da metrópole, às páginas mais negras do domínio português em África, ilustradas pelos massacres de Batepá (São Tomé e Príncipe), Pidjiguiti (Guiné), Mueda e Wiriamu (Moçambique).

O cruzamento de memórias, afirmam os coordenadores da obra que reúne textos de mais de 40 autores, Bruno Sena Martins, doutorado em sociologia, e Miguel Cardina, doutorado em história e coordenador do CROME, “dá-nos um outro olhar sobre esse passado”. Defendem também que essa polifonia ajuda a explicar parte da organização social do país actual.

Continuar a ler

Revista Outros Ares | Carlos Eduardo Pereira

Apesar de a prioridade da Outros Ares ser o conto, a revista sempre esteve aberta à submissão de crônicas e de trechos de romances. Sim, a Outros Ares nasceu com a ideia de ser mais um canal de divulgação e incentivo a esse gênero muitas vezes menosprezado por leitores e, consequentemente, pelas editoras, mas, num país de tão poucos leitores, infelizmente podemos dizer que todo gênero literário é menosprezado pelos leitores – à exceção dos best-sellers, é claro.

Mas se, por um lado, a Outros Ares sempre esteve aberta a outros gêneros, por outro nunca havia entrevistado um autor cujo gancho para a conversa não fosse o conto – ou a crônica. E é por isso que esta edição da revista tem uma “aura” especial: é a primeira vez que um autor é entrevistado não por seus contos ou crônicas, mas pelo seu romance.

Carlos Eduardo Pereira, carioca da safra de 1973, estreou na literatura em 2017 com o romance “Enquanto os dentes”, publicado pela então recém-criada editora Todavia, que em pouco tempo de existência vem colocando nas livrarias obras que vêm dando o que falar – assim como “Enquanto os dentes” deu. O livro foi exaltado tanto pela crítica especializada quanto por leitores que comentam suas leituras em blogs e sites literários.

Ler mais aqui: https://outrosares.wordpress.com

Germano Almeida: “Não me peçam desculpa pelos meus antepassados, tratem-me a mim como gente” | por Joana Emídio Marques in Jornal “Observador”

Germano de Almeida, 73 anos, escritor cabo-verdiano, recebeu este ano o prémio Camões. É publicado em Portugal há 30 anos mas os seus livros vendem pouco mais de 100 exemplares. Este ano o prémio Camões veio dizer que há África para lá de Agualusa e Mia Couto.

Chama a si mesmo “contador de histórias”, herdeiro daqueles homens que nas noites infinitas da ilha da Boavista, Cabo Verde, sem luz elétrica, sem televisão, sem telefones, sem Internet, se sentavam à porta das casas para contar histórias. Eram noites de lua cheia, as crianças pagavam-lhes em cigarros e eles tiravam da memória essas histórias onde se fundia a ancestralidade de Europa e África, de colonos e escravos, de romances de cavalaria e mitos, de gente que na sua passagem pelas Ilhas deixava para trás peripécias, tragicomédias ou tragédias, morte e vida. Mas sobretudo onde o crioulo e o português se misturavam para que todos, contador e ouvintes, se transmudassem em heróis de mundos por achar. É este tempo mágico onde a palavra tinha a força da magia e da honra que Germano Almeida, prémio Camões 2018, reclama para si.

Continuar a ler

Vasco Santos | Editor da Fenda | “O racismo contra os pobres é um dos trunfos do actual regime” (versão integral) | in Jornal “i”

Se passar na Rua Garrett e perguntar aos rapazes que estão ali a pedir moedas… Já o fiz. Uma vez a um que estava perto da Bertrand: “Epá, diga-me lá: porque é que tem aqui três cães?” E ele – que era húngaro – disse-me: “Se não tiver cães não me dão esmola.” É interessante, não é? Portanto, a quem damos a moeda é ao cão. Não damos a moeda ao sem-abrigo, ao mendigo.

——

Toda a gente fala mal do meio literário e editorial. Das costureirinhas, do muito que se corta na casaca. Mas, afinal, quantos podem encher a boca e, com autoridade, dizer o pior desse meio, pois deram a vida e tudo o que tinham pelo amor aos livros? Vasco Santos pode. E hoje está praticamente sozinho

Desta vez, não percamos tempo com preâmbulos nem grandes apresentações. Iríamos roubar espaço a Vasco Santos, editor da Fenda que depois de ter estourado uma fortuna para pôr de pé uma verdadeira quinta-coluna, com um catálogo de exigência fenomenal, teve de pôr fim à actividade pouco antes de esta fazer 40 anos. Regressa agora com a VS o também psicanalista que nos recebeu no consultório, convidando-nos a escolher entre o outro cadeirão ou o divã, enquanto preparava chá, que aceitámos.

Continuar a ler

Se eu soubesse o que sei hoje… | Carlos Matos Gomes

No Notícias Magazine de hoje perguntaram a vários “capitães de Abril” o que teríamos feito de diferente se soubessemos o que sabemos hoje.

Eis aqui a minha resposta:

“Se eu soubesse o que sei hoje…

Teria feito o que fiz para acabar com a guerra colonial e derrubar a ditadura.
Teria tentado impor a mediação internacional, através da ONU, para conduzir o processo de transição para as independências das colónias.
Teria lutado com maior veemência pela instauração de um sistema político mais directamente ligado às pessoas e menos, muito menos, capturado pelos partidos. Com a criação, por exemplo, de uma segunda câmara.
Teria, no chamado PREC, empenhado-me mais numa aliança entre o grupo de militares ditos na altura e na classificação do tempo “do COPCON”, com o “Grupo dos Nove”, de modo a evitar o 25 de novembro, que esteve prestes a ser putchista e acabou por ser a imposição de um modelo padronizado de sistema democrático, de que a triste situação que hoje vivemos é fruto.
Ter-me-ia batido, mais do que fiz, para manter no domínio público empresas estratégicas fundamentais na área da energia, dos transportes, nas comunicações e no sector financeiro, nomeadamente com o reforço da Caixa Geral de Depósitos e de um Banco de Fomento de capitais públicos.
Teria dedicado maiores esforços na área da Justiça, impondo uma rigorosa seleção e avaliação dos magistrados e promovendo uma justiça orientada para as vítimas e não para os criminosos.
Teria estado mais atento aos fenómenos de corrupção e de nepotismo, com atenção especial às autarquias e ao que diz respeito ao ordenamento do território, para evitar fenómenos de “algarvisação”, de” litoralização “ e de desertificação do interior.
Teria tido uma especial às leis de imprensa, obrigando a clarificar a sua posse dos meios de comunicação social e favorecendo empresas constituídas por jornalistas.
Teria furado os pneus do carro que Cavaco Silva levou ao congresso do PSD da Figueira da Foz para fazer a rodagem.

Teria, por fim, promovido, a leitura de “A Arte de Furtar”, incluindo-o nos curriculas escolares, como de estudo obrigatório. 

Carlos Matos Gomes

“Deus é um problema também para os crentes” | ENTREVISTA JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA | ANTÓNIO MARUJO (texto) e NUNO FERREIRA SANTOS (fotografia) 15 de Abril de 2018 in Jornal “Público”

Vivemos numa sociedade de satisfação permanente, diz Tolentino Mendonça. Por isso, precisamos de reaprender a ter sede. O novo livro que reúne os textos das meditações feitas perante o Papa e a Cúria Romana foi anteontem posto à venda. A propósito dele, o autor de A Noite Abre os Meus Olhos diz que a espiritualidade não se pode “confundir com um conjunto de abstracções”. Crer não é “ter as soluções”, mas é “habitar o caminho, habitar a tensão, viver dentro da procura”. Por isso, Deus é um problema também para os crentes. Um Deus que, na configuração cristã, é sobretudo um Deus frágil.


“A fé tem de ser também uma escola do desejo, onde se aprende a desejar, a desejar mais, a desejar melhor, a desejar maior…”


“Quando temos o privilégio de servir, de forma desmedida, também recebemos o tamanho da nossa vida.”


“Deus é um problema para todos, não é só uma questão para os não-crentes, Deus também é uma questão para os crentes. Deus é uma questão que nos une, não é uma questão que nos separa: Deus está em todos, crentes e não-crentes”


“Mais do que estar saciados de Deus, os crentes aprendem os benefícios da sede, a importância de viverem no desejo de Deus, na espera de Deus. Um crente não possui Deus, não o domestica com os seus rituais e as suas crenças”


“Crer não é satisfazer-se, não é ter as soluções nem ter encontrado as respostas. Crer é habitar o caminho, habitar a tensão, viver dentro da procura”


Continuar a ler

É urgente voltar a Marx para entender nova fase da economia, diz professor | Nick Nesbitt entrevistado por Luís Costa para a Folha de S. Paulo

Karl Marx antecipou o que ele chama de “capitalismo pós-humano”, isto é, uma dupla tendência à eliminação gradual do trabalho humano das cadeias produtivas e à precarização da força de trabalho. 

Para compartilhar todo o conteúdo, por favor utilize o link

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/09/1918777-nos-150-anos-do-capital-professor-defende-que-voltar-a-marx-e-essencial.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=compfb

Emmanuel Terray : être de droite c’est avoir peur | Emmanuel Terray avec Mathieu Deslandes

L’anthropologue Emmanuel Terray, qui signe « Penser à droite », a enquêté sur la tribu dont les valeurs triomphent depuis plus de trente ans.

Emmanuel Terray est un grand nom de l’anthropologie française. C’est aussi un citoyen engagé, comme on dit, franchement à gauche. Il vient de publier un livre,« Penser à droite » (éd. Galilée), dont on a envie de souligner toutes les phrases.

En étudiant les écrits des grands penseurs de droite depuis la Révolution française, il a dégagé ce qui constitue leur socle commun, quelles que soient les époques, et quels que soient les « courants » et les traditions dans lesquels ils s’inscrivent.

Il nous aide à comprendre pourquoi l’immigration et l’islam sont des obsessions des hommes politiques de droite. Et pourquoi on peut être pauvre mais voter pour un candidat qui n’aide pas les pauvres.

Au terme de son enquête, il estime que la vision du monde « de droite » est aujourd’hui hégémonique – et que « François Hollande est un bon reflet » de cette domination.

Continuar a ler

“África tem pujança criativa na ciência, nas artes, na política. Há uma ideia de futuro” | GUSTAVO BOM entrevistado por Ana Sousa Dias em jornal Diário de Notícias

Acaba de publicar África, os quatro rios, onde percorre a maior bacia hidrográfica do mundo – Nilo, Níger, Congo e Zambeze – através da literatura de viagens. Um ponto de partida para falar sobre a criatividade de um continente diversificado e jovem.

Já foi um território desconhecido, a estimular as mais exóticas efabulações. Já foi dado como perdido em guerras, fome e doenças. O ensaísta, investigador e programador cultural António Pinto Ribeiro, viajante por natureza e por escolha, conta-nos uma outra África, virada para o futuro e com uma criatividade fecunda. Um percurso que a América Latina fez há algumas décadas.

Porquê o seu fascínio por África?

Há um lado biográfico, já que vivi em Angola e Moçambique e tenho voltado a África muitas vezes. É um continente onde existe, em diversas partes, uma pujança criativa a todos os níveis, nos domínios da ciência, da política, das artes, da economia. Nalguns casos há hoje a constituição de novos paradigmas de conhecimento determinantes que nos ajudam a compreender melhor o mundo.

Onde podemos encontrar essa África contemporânea de que fala?

Há uma enorme diversidade, o que é fascinante e torna tudo mais difícil. A África do norte, de influência árabe e islâmica, e a África subsaariana são completamente distintas. O lado oriental também é muito diferente do ocidental. Na África subsaariana há um movimento semelhante ao da América Latina nos anos 1960. Intelectuais, escritores, artistas, pensadores nos últimos anos começaram a refletir sobre qual é a possibilidade para a África de se distinguir do que foi no colonialismo. Alguns chamam-lhe a descolonização do espírito. São todos países muito recentes, a independência mais antiga é do Gana, de 1958. Foi preciso viver as independências, com o sonho do homem novo negro e das grandes nações africanas, um sonho que na maior parte dos casos se gorou e resultou numa enorme deceção. Passada a fase da deceção e da descrença, a questão é: qual a possibilidade de construirmos os nossos países de um modo diferente do que herdámos do colonialismo e que não seja completamente utópico e irrealista? E começaram por investigar a fase pré-colonial, o que penso que é inteligente.

Continuar a ler

“Eu nunca editaria o José Rodrigues dos Santos mesmo sabendo que é o português que mais vende” | Francisco Vale in jornal Diário de Notícias

Francisco Vale, editor da Relógio D’Água, garante que nunca edita um livro a pensar nas vendas.

O editor da Relógio D”Água garante que só criando uma relação de confiança entre os leitores mais exigentes e o seu catálogo é o único caminho para o sucesso editorial. Francisco Vale acredita que desse modo quando publica um livro que os leitores desconhecem, “partem do princípio que é bom e estão predispostos a adquiri-lo”. Uma situação que qualquer editor deseja mas que é uma conquista difícil, porque “implica que se tenha de abdicar de títulos muito vendáveis e seguir o critério do valor intrínseco e não o das vendas previstas”. Garante que nunca edita um livro a pensar nas vendas, ou iria deparar-se com “uma espécie de monstro ou de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, em que uma parte do catálogo é de qualidade e a outra parte não tem qualidade nenhuma”. Um percurso de 35 anos que começa após uma intervenção política na extrema-esquerda antes e depois do 25 de Abril de 1974, uma tentativa frustrada em ser escritor e o abandono do jornalismo.

O que diferencia a Relógio D”Água das outras editoras portuguesas?

Nem sempre é fácil fazer a diferença nos tempos que correm, em que é frequente os romancistas terem aulas de escrita criativa, e ser-se capaz de distinguir entre literatura e aquilo a que Umberto Eco chamava paraliteratura. A definição de literatura é uma discussão antiga, que vem desde a Poética, de Aristóteles. Como se trata de noções em que a intuição desempenha um certo papel, fica-se um pouco na situação de Santo Agostinho, que sabia muito bem o que era o tempo quando não lhe perguntavam o que era. Mas definir paraliteratura é mais simples. Dou um exemplo: ao ler A Fórmula de DeusO Codex 632 e A Mão do Diabo, de José Rodrigues dos Santos, ou os romances de Margarida Rebelo Pinto, sabe-se que não são literatura, porque é evidente que não absorveram o que de melhor até hoje ela produziu, antes buscam o divertimento por si e efeitos emocionais fáceis – para mostrar que uma personagem é sensível põem-na a tocar piano ou a contemplar o pôr do Sol. Os romancistas de que gosto são capazes de tocar no fogo sem medo de se queimarem, causam estranheza, abalam certezas e escrevem livros de que saímos diferentes do que éramos.

Continuar a ler

Sei tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois | Eduardo Lourenço in Jornal Público

O mundo apresenta-se como uma imensa tela em que cada indivíduo pode não passar de um espectador. O pensador alerta para o perigo de estarmos fixados na imagem sem interpelar a vida. Conversa que teve Portugal como partida. Aos 94 anos, Eduardo Lourenço persegue a reconciliação com o mundo.

A palavra mais presente nos títulos do PÚBLICO ao longo do último ano foi Portugal. Quando sabe disso, Eduardo Lourenço sorri. “Seria assim desde o Afonso Henriques, se nessa altura houvesse jornais”. Diz isto enquanto caminha, passos miúdos e olhos a brilhar de ironia face à fixação de um país consigo mesmo, a tudo o que isso lhe sugere no dia de uma celebração que ele mesmo lembra: “Todos os jornais hoje assinalam que faz um ano que Portugal foi campeão europeu. Coisa séria!” E aí já não há ironia no olhar. Em vez disso fixa os olhos de quem o ouve à procura de entendimento. “Estas coisas são importantes e podemos discuti-las, devemos.” E continua a caminhar em direcção ao terraço da Fundação Calouste Gulbenkian, num dia de muito sol e vento, à hora em que passam muitos aviões, imagem a remeter para a visão paradoxal que este pensador tem do seu país. Um país que foi vendo à distância, da aldeia onde nasceu há 94 anos, ou do Sul de França onde viveu muitas décadas. A literatura aproximou-o desta geografia e da tentativa de a entender. Isso e a sua invulgar tendência para não dizer “não” sempre que lhe pedem para conversar. É de Eduardo Lourenço a deixa para início de uma conversa que era para ser quase só sobre Portugal…

Não consigo dizer que não. É uma questão ontológica. Custa-me muito dizer não quando sou solicitado para uma conversa. Corresponde a um interesse dos outros por nós e a uma espécie de recusa tácita de ser objecto de um interesse que nunca me parece justificado.

Pensa que o interesse das pessoas por si não é justificado?
Cada vez mais.

Porquê?
Porque estou saindo. Eu nunca ocupei palco.

Mas foi sempre chamado.
Acontece. Neste país em que todos estamos próximos uns dos outros é fácil conhecer praticamente toda a gente. A minha mulher, que era francesa, dizia com certa ironia que era fácil perder aqui a cabeça. Felizmente eu tinha saído lá para fora.

Continuar a ler

Miguel Real, filósofo: “a nossa elite é canina na obediência e macacóide face ao estrangeiro” | In jornal de Leiria

Ensaísta, romancista e escritor preconiza teorias sobre as maleitas que nos afligem e o caminho para a lucidez. “Somos um povo que acredita que, sem a cunha, sem o Euromilhões e sem Fátima não consegue passar da mediania”, afirma

Costuma dizer que uma das coisas que o aborrecem é a falta de cuidado de alguns escritores ao escrever romances históricos. Por contraste, para os seus livros, admite fazer sempre trabalhos de preparação e pesquisa exaustivos…

Um romance histórico exige uma grande investigação. Se for passado no Brasil, que é o caso do meu livro A Guerra dos Mascates [2011], implica uma ida lá e não basta “apanhar as frutas no Pão de Açúcar”, que é o que vejo que muitos fazem. Tem de se ir ao Pernambuco, à Bahia ou, no caso de se escrever sobre o padre António Vieira, a Belém do Pará, ou ao Maranhão. Tem de se investigar nos arquivos históricos de lá, porque há sempre uma série de circunstâncias que os livros de história dos investigadores não têm. Tem de se contactar com a população e apanhar o léxico da zona, com todos os lindíssimos aspectos semânticos do Pernambuco ou Maranhão. Aborrece-me imenso ler um romance histórico e ver erros clamorosos por, justamente, não ter sido feita a investigação. Um dos últimos que vi está num romance passado em São Tomé, onde um escravo negro diz ao seu senhor que “ficou gelado” quando viu a sua ama a fazer determinada coisa. Ficou… “gelado”. Isto passa-se no século XVI em São Tomé! Ficar “gelado” é absolutamente impossível. O leitor nem se apercebe porque o gelo é uma realidade dos século XX e XXI e tem gelo em casa todos os dias e não acha desconforme, mas quem é crítico literário e também autor, vê que há ali algo oco. Noutro romance que li há pouco, Vasco da Gama chega à Índia e o samorim de Calecute “oferece-lhe” uma cadeira para se sentar. Não havia cadeiras, na Índia do século XVI. Há tronos onde só o samorim se senta e as restantes pessoas sentam-se no chão, sentam-se em escanos – pequenos banquinhos -, sentam-se em almofadas, mas não há cadeiras. Ninguém vai dar cadeiras a Vasco da Gama para se sentar… ele teria, obrigatoriamente, de falar de pé, em frente ao samorim. Isto acontece não por falta de qualidade dos romancistas, mas por preguiça mental, falta de tempo e de dinheiro para ir aos locais. O autor tem de ser como um investigador da universidade. A ausência de investigação é, muitas vezes, compensada pela retórica. Muitas vezes, os autores são professores e escrevem bem, mas isso não chega para fazer um bom romance.

No seu livro o Último Europeu: 2284, faz uma série de previsões futuristas. Também fez um trabalho de pesquisa, mas virado para o futuro. Onde se inspirou para prever materiais e novos modos de interacção interpessoal?
Tinha escrito um romance sobre o terramoto de 1755 [A Voz da Terra] e constatei que tudo o que havia em Lisboa, nesse ano, hoje não existe, a não ser a pedra e restantes elementos da natureza. Não existia plástico, nem as formas de comunicação actuais – estradas e caminho- de-ferro -, electricidade, telefonia, televisão, etc. Daqui a 250 anos, no meu livro, não há carros, as estradas são uma espécie de tapetes rolantes e as pessoas já não comunicam oralmente, mas mentalmente, usando um cérebro novo, que se chama hipercórtex. Desenho uma sociedade com base em ciência que não existe hoje e que torna o Homem feliz. Mas isto acontece apenas numa parte da Europa onde vive apenas uma minoria de 100 milhões. No resto, onde vivem 400 milhões, vive-se o caos. É um cenário de utopia que vive, lado-a-lado, com a distopia.

Continuar a ler

J.L. Pio Abreu: “Elas não encontram homens que lhes despertem a líbido” | In Revista “Sábado”

quedaNeste livro (A Queda dos Machos), em forma de 20 cartas dirigidas às amigas, o psiquiatra de Coimbra diz que dá voz aos homens, enquanto escreve às mulheres, defendendo-os. No entanto, afirma que não promove o machismo – que, aliás, passou a ser uma “palavra proibida” – mas acha que vivemos tempos de um feminismo exacerbado, em que a tendência de acabar com os géneros é absurda. Em A Queda dos Machos, editado pela Dom Quixote, José Luís Pio Abreu convida a reflectir sobre a actual relação dos homens e das mulheres.

Porque é que decidiu escrever este livro assim, em cartas às suas amigas?
Foi talvez a forma mais directa de escrever e também para amenizar um pouco as constatações que faço. Amenizar no sentido de não dizer mal do feminismo. Este é o modo como eu me dirijo às mulheres e tem a ver com o facto de muitas vezes ter de lhes dizer “cuidado com os homens” porque elas não os entendem, não os conhecem e não os tratam bem.

As mulheres não tratam bem os homens?
Em geral, não. Há uma grande diferença de entendimento – é muito difícil para uma mulher compreender um homem, tal como para um homem compreender uma mulher. É um facto antigo. As relações humanas são muito paradoxais, não são simples e muito menos naturais. E posso dizer que quem está em maiores dificuldades são as gerações mais novas.

Continuar a ler