As Inseparáveis | Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir tinha nove anos quando conheceu Zaza, Élisabeth Lacoin. Da intensa amizade que nasceu desse encontro, e que apenas a morte trágica de Zaza, aos 21 anos, terminou, nasce o livro As Inseparáveis, uma pequena preciosidade literária que a Quetzal publica pela primeira em Portugal, com tradução de Sandra Silva e posfácio de Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha adotiva da autora, Simone de Beauvoir.

Esta é a história de duas amigas inseparáveis, da infância à idade adulta, um livro de grande valor literário e documental e uma peça importante no conhecimento da vida e obra da autora. Zaza foi uma personalidade extraordinária em vida, e a sua memória perdurou através das personagens em vários livros de Beauvoir, como Memórias de uma Menina Bem-Comportada Os Mandarins.

Escrito em 1954, As Inseparáveis narra, em registo ficcional, a história das duas raparigas rebeldes, ao longo da sua educação sexual e intelectual, personificadas em Andrée e Sylvie. Quando Andrée começa a frequentar a escola de Sylvie, esta fica imediatamente fascinada com a nova colega: tão inteligente, elegante, sensível e autoconfiante como uma adulta. Ficaram logo amigas, conversavam e faziam planos durante horas a fio. Mas Andrée escondia algumas feridas e sofria uma educação demasiado exigente e repressora. Andrée é Zaza; e Sylvie, a pequena Simone.

Nesta edição, Sylvie Le Bon de Beauvoir faz um relato factual e cronológico desta amizade da sua mãe, da vida e do contexto familiar de Zaza, e inclui um conjunto de cartas e de fotografias que ajudam a documentar a história que as une. Disponível a partir de hoje.  

Quetzal | Grupo Bertrand Círculo

Simone de Beauvoir | O Segundo Sexo | volume I

É por ela (mulher), através do que nela há de pior e de melhor, que o homem faz a aprendizagem da felicidade, do sofrimento, do vício, da virtude, do desejo, da renúncia, do devotamento, da tiranias, que faz a aprendizagem de si mesmo; ela é o jogo e a aventura, mas também a provação; é o triunfo da vitória e o mais áspero, do malogro superado; é a vertigem da perda, o fascínio da danação, da morte. Há todo um mundo de significações que só existem pela mulher; ela é a substância das acções e dos sentimentos dos homens, a encarnação de todos os valores que solicitam libertação. Compreende-se que, embora condenado aos mais cruéis desmentidos, o homem não deseje renunciar a um sonho no qual todos os seus sonhos estão envolvidos.

Eis, portanto, por que a mulher tem um duplo e decepcionante aspecto: ela é tudo a que o homem aspira e tudo o que não alcança. Ela é a sábia mediadora entre a Natureza propícia e o homem: é a tentação da Natureza indomada contra toda a sabedoria. Do bem ao mal, ela encarna carnalmente todos os valores morais e os seus contrários; é a substância da acção e o que se lhe opõe, o domínio do homem sobre o mundo e o seu malogro; como tal, é a fonte de toda a reflexão do homem sobre a própria existência e de toda a expressão que possa dar-lhe;  entretanto, ela esforça-se por desviá-lo de si mesmo, por fazê-lo soçobrar no silêncio e na morte. Serva e companheira, ele espera que ela seja também seu público e juiz, que o confirme no seu ser; mas ela contesta-o com a sua indiferença, e até com os seus sarcasmos e risos. Ele projecta nela o que deseja e o que teme, o que ama e o que detesta. E se é tão difícil dizer algo a seu respeito é porque o homem se procura inteiramente nela e ela é tudo. Só que é tudo à maneira do não-essencial: é todo o Outro. Enquanto Outro, ela é também outra e não ela mesma, outra e não o que dela é esperado. Sendo tudo, nunca é isso justamente que deveria ser; é perpétua decepção, a pópria decepção da existência que nunca consegue atingir-se nem reconciliar-se com a totalidade dos existentes.

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir | Pensamento

Não mais me deitar no feno perfumado ou deslizar na neve deserta.
Onde eu exatamente me encontro?
O que me surpreende é a impressão de não ter envelhecido, embora eu esteja instalada na velhice.
O tempo é irrealizável.
Provisoriamente o tempo parou para mim.
Provisoriamente.
Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro.
O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar.
Portanto, ao meu passado, eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minha necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo.
Hoje, que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade hoje? Não sou escrava dele.
O que eu sempre quis foi comunicar unicamente da maneira mais direta o sabor da minha vida. Unicamente o sabor da minha vida.
Acredito que eu consegui fazê-lo.
Vivi num mundo de homens, guardando em mim o melhor da minha feminilidade.
Não desejei e nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.

Simone de Beauvoir 

Citação | Simone de Beauvoir

Não se apaixone por uma mulher que goste de ler, uma mulher que sente muito, uma mulher que escreve…
Não se apaixone por uma mulher culta, bruxa, delirante, louca.
Não se apaixone por uma mulher que pensa, que sabe o que sabe e também sabe voar, uma mulher segura de si mesma.
Não se apaixone por uma mulher que ri ou chora ao fazer amor, que sabe fazer da sua carne, espírito, muito menos uma que ama poesia (estas são as mais perigosas), ou que possa ficar meia hora contemplando uma pintura e não é capaz de viver sem música .
Não se apaixone por uma mulher que se interesse por política e que é rebelde e manifeste horror pelas injustiças. Por uma que goste de jogos de futebol e beisebol e que não goste de assistir TV. Ou por uma mulher que seja bonita, não importam as características de seu rosto e corpo.
Não se apaixone por uma mulher intensa, por uma mulher divertida e lúcida e irreverente .
Não queira se apaixonar por uma mulher assim. Porque quando você se apaixonar por uma mulher assim, ela pode ficar com você ou não, ela pode amar você ou não, mas de uma mulher como essa, nunca se regressa.

Simone de Beauvoir

Retirado do Facebook | Mural de Célia Moura