ÉTICA, de BARUCH SPINOZA | Espinosa demonstra com precisão cirúrgica o mecanismo pelo qual a mente humana, confrontada com a infinita complexidade das cadeias causais, capitula e invoca Deus como “explicação última”.

DEUS: O ASILO DA IGNORÂNCIA

“Um exemplo, suponhamos que uma pedra cai do telhado de uma casa sobre a cabeça de um homem e o mata. Dirão que a pedra caiu expressamente para o matar.

Como poderiam, de facto, tantas circunstâncias ter contribuído para isso se Deus não a tivesse feito cair com esse propósito (e é verdade que estas circunstâncias são frequentemente muito numerosas)?

Poderá responder que o acontecimento em questão se deve a estas duas causas: que o vento soprou e que um homem estava a passar por ali.

Mas imediatamente o bombardearão com perguntas: Porque é que o vento soprou naquele momento? Porque é que um homem passava por ali exatamente naquele mesmo momento?

Responderá também que o vento soprou porque o mar começou a agitar-se no dia anterior, embora o tempo ainda estivesse calmo, e que o homem estava a passar por ali porque ia a um convite de um amigo?” Bombardeá-lo-ão com mais perguntas: Mas porque é que o mar estava agitado? Por que razão foi este homem convidado naquele preciso momento? E assim continuarão a perguntar-te a causa da causa, até que recorras à vontade de Deus, isto é, ao refúgio da ignorância.

ÉTICA, SPINOZA

Espinosa demonstra com precisão cirúrgica o mecanismo pelo qual a mente humana, confrontada com a infinita complexidade das cadeias causais, capitula e invoca Deus como explicação última. Este recurso não é, para Espinosa, um ato de fé iluminista; é uma admissão de derrota intelectual, um refúgio conveniente pomposamente chamado de “vontade divina”, onde na realidade existe apenas a nossa própria ignorância das causas.

O exemplo da pedra é deliberadamente banal. Não é um milagre espetacular, nem uma aparição celestial; é um acidente comum, do tipo que pontua todas as vidas. E é precisamente esta banalidade que torna o argumento tão devastador: se projectamos uma intenção divina até nos acontecimentos mais banais, é porque essa projecção não é uma resposta ao extraordinário, mas um hábito da mente perante tudo o que não compreende.

O que Espinosa aqui destaca é a própria estrutura do raciocínio teológico, aquele que começa pelo fim para explicar os meios, que lê em cada acontecimento um propósito, um destino deliberado. A pedra matou este homem, portanto teve de o matar, portanto algo a quis.
Esta inversão lógica — tomar a consequência como prova de uma intenção — é, para Espinosa, uma ilusão fundamental, nascida do facto de os humanos terem consciência dos seus desejos, mas ignorarem as causas que os determinam. Transpõem a sua própria experiência da vontade para toda a natureza e transformam o universo num grande sujeito que age em direção a fins.

Ora, a regressão causal que Espinosa descreve; porquê o vento, porquê o mar, porquê o convite; estas questões não levam a lado nenhum a uma vontade: levam a uma profundidade cada vez maior de causas mecânicas e naturais interligadas. A natureza, no sistema espinozista, não tem intenção nem falta; esforça-se por nada porque já é, em si mesma, a totalidade de tudo o que é. Deus e a Natureza (Deus sive Natura) são um só; Não num Deus pessoal que decide e intervém, mas numa substância infinita da qual tudo flui necessariamente, tal como as propriedades de um triângulo decorrem da sua definição.

O refúgio da ignorância é, pois, uma expressão duplamente pungente: é um abrigo; protege-se aí da angústia provocada pelo inexplicável; mas é também uma prisão, pois, ao refugiar-se aí, renuncia-se ao entendimento. Nomear Deus onde termina o nosso conhecimento é santificar a ignorância, dar-lhe um nome e um altar e, sobretudo, proibir qualquer investigação posterior. Porquê procurar a causa natural da tempestade se Deus é o seu autor? Apelar ao divino não resolve a questão; elimina-a.

O que Espinosa inaugura aqui é, em certo sentido, o programa de todo o pensamento científico moderno: não o ateísmo enquanto postura, mas o imperativo de nunca se deter numa mera cortina de fumo, de nunca confundir um nome — mesmo um divino — com uma explicação.

O que Espinosa inaugura aqui é, em certo sentido, o programa de todo o pensamento científico moderno: não o ateísmo como posição, mas o imperativo de nunca se deter numa mera cortina de fumo, de nunca confundir um nome — mesmo um divino — com uma explicação. A cadeia de causas pode não ter um fim acessível à compreensão humana, mas cada elo apreendido é uma vitória sobre a obscuridade. É neste esforço ininterrupto, e não na capitulação perante uma vontade transcendente, que, para Espinosa, reside a verdadeira dignidade da razão.

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