Leão XIV alerta para ideologias que levam a generalizações injustas, in LUSA

Madrid, 06 jun 2026 (Lusa) – O Papa alertou hoje para “ideologias mundanas ou posicionamentos políticos e económicos” que levam a “generalizações injustas”, num encontro com pessoas em situação de exclusão social, como imigrantes e sem-abrigo.

Leão XIV iniciou hoje uma visita de sete dias a Espanha e no primeiro dia da viagem visitou um centro da Cáritas que acolhe pessoas em situação de exclusão social, tendo ouvido testemunhos como o de um imigrante senegalês, Khadri, que lhe entregou uma cópia da autorização de residência no país.

“Obrigada por se aproximar das pessoas migrantes”, disse Khadri ao Papa, antes de lhe entregar uma cópia do documento de autorização de residência em Espanha, que disse significar “esforço e esperança”.

Khadri contou ao Papa que após ter chegado a Espanha sozinho, em 2020, em plena pandemia, teve o apoio da Caritas, onde foi “olhado com respeito”, e tem hoje emprego.

“A autorização de residência conta uma história de esforço, mas sobretudo de compromisso, honestidade e acolhimento”, disse Leão XIV sobre Khadri.

Leão XIV sublinhou que o lema desta viagem a Espanha é “levantai o olhar”, “um apelo a olhar os que sofrem nos olhos” e que lembra que “a caridade não pode esperar”.

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PS passa a AD em nova sondagem. Chega fica em terceiro, in Notícias ao Minuto

Uma sondagem coloca o PS na liderança das intenções de voto, à frente da AD, pela primeira vez desde que a coligação liderada por Luís Montenegro assumiu o Governo. O Chega mantém-se como terceira força política.

Já com os votos dos indecisos, os resultados seriam: PS (31%), AD (27%), Chega (20%), CDU (5%), Livre (3%), Iniciativa Liberal (3%), PAN (2%) e Bloco de Esquerda (2%).

A sondagem revelou também que há 12% de indecisos e 11% de abstencionistas. 

Os inquéritos foram realizados entre os dias 15 e 24 de maio e contaram com 803 entrevistas válidas. 

A religião e os valores humanistas na obra de José Saramago. Intervenção de Edgar Silva, mestre em Teologia e membro do Comité Central do PCP, Conferência «Uma visão universal e progressista da História – A actualidade da Obra de José Saramago», 22 Outubro 2022, Lisboa

Nota introdutória

É de grande atualidade o “Evangelho Segundo Jesus Cristo” quando, mais uma vez, tantos cristãos estão a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus, nestes dias em que o absurdo da guerra, entre outros profundos nexos causais, na Europa, também é justificada por alguns hierarcas por motivos da religião.

O “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, publicado em 1991, tem 24 capítulos, não numerados que totalizam 445 páginas. É o romance mais longo de José Saramago. Naquele texto, mais do que versar sobre a história de Jesus desde a sua conceção até à sua crucificação, na companhia de Jesus, Maria, José, Maria Madalena, dos discípulos de Cristo e do diabo, Saramago é o “evangelista” que faz uma releitura de tragédias da humanidade, da tragédia de todo o humano, designadamente, da vida dos «crucificados menores». O autor português constrói a história dos «crucificados menores» em confronto com o divino e o demoníaco, no fundo, a história da humanidade em prolongada busca de si mesma.

  1. Uma arquitetura do sagrado

Ao longo da sua obra, José Saramago constrói cenários socias, políticos e religiosos imersos numa iconografia judaico cristã, projetados segundo um profundo imaginário religioso.

Revelando exaustivo estudo de textos bíblicos, como é raro na história da literatura portuguesa, na liberdade da palavra, explorando um discurso conotativo, com um fluxo semântico torrencial, por vezes vertiginoso, Saramago desenha uma arquitetura do sagrado. Materializa a crítica do sagrado enquanto religião institucionalizada, como parte da ideologia de domínio social, enquanto componente dos mecanismos repressivos das sociedades. Na sua conceção do sagrado a religião institucionalizada mantém tanta gente num estado de adormecimento, de aceitação de sacrifícios, em resignação, impedindo que os humanos vivam plenamente a sua humanidade. Essa religião como que suga a vontade humana.

Quer seja através de monólogos intimistas ou reflexões sentenciais, quer seja por ditos proféticos, apartes e antevisões ou personagens e histórias trágico-maravilhosas, o autor do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” constrói narrativas de rituais religiosos, de quadros bíblicos, de tradições e relatos do judaísmo e do cristianismo. E naquela arquitetura do sagrado, Saramago inaugura uma nova linguagem sobre o fator religioso, relê a linguagem antiga, desnudando a ideologia ou desvelando as camadas de ideologia transportadas por determinadas interpretações dadas aos textos bíblicos, às instrumentalizações retóricas, políticas, sociais das figurações de Deus.

Na sua arquitetura do sagrado, no “Evangelho”, Saramago dessacraliza a palavra tida por sagrada pelos crentes. O narrador é o agente dessa dessacralização. Reproduz histórias da Bíblia para apresentar Deus tal como é mencionado em diferentes contextos no Antigo Testamento. Saramago utiliza as citações bíblicas, reapresenta-as, multiplica as citações ipsis verbis do Antigo e do Novo Testamento, para expor o que considera iniquidades de Deus.

Da história de Deus, conclui Saramago no seu “Evangelho”: é «uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas».1 Do relato acerca de Deus sentencia Saramago: «É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue».2

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