L’ÉTERNITÉ DES ÂMES DANS LA PHILOSOPHIE DE SPINOZA | Victor Brochard

[371] Les historiens ne sont pas d’accord sur le sens et la portée qu’il

convient d’attribuer à la doctrine de l’éternité des âmes exposée dans la seconde

moitié de la cinquième partie de l’Éthique. Qu’il ne s’agisse pas de l’immortalité

au sens vulgaire du mot, c’est ce qui est attesté expressément dans le texte même

de la Proposition XXI, où la mémoire et l’imagination sont considérées comme

liées à la vie présente. D’ailleurs il est indubitable que l’existence de l’âme dans

son rapport à la durée cesse avec celle du corps. L’éternité de l’âme affirmée par

Spinoza est attribuée uniquement à l’essence, et, dans toute cette dernière partie

de l’Éthique, c’est uniquement de l’essence opposée à l’existence qu’il est

question. Mais cette éternité de l’essence, comment faut-il l’entendre ? On peut

être à première vue tenté de croire qu’il s’agit d’une éternité tout impersonnelle,

plus ou moins analogue à celle qu’Aristote attribue à l’intellect actif qui vient

éclairer quelque temps l’âme humaine sans cesser d’appartenir à la divinité, ou

encore comme l’étincelle de feu divin qui, selon les Stoïciens, éclaire un instant

l’âme humaine, et, à la mort du corps, se réunit au feu universel.

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An Atheist’s God | The Paradox of Spinoza

Beth Lord discusses Spinoza with Alan Saunders in an episode of the Philosopher’s Zone from a few years back. Baruch Spinoza, one of the greatest philosophers of his day, was expelled from the Amsterdam synagogue in 1656 because of his unorthodox religious views. Ever since, he has been regarded as the great atheist of the Western tradition. Yet he mentions God very often throughout his writings.


Beth Lord discute Spinoza com Alan Saunders em um episódio da Zona dos Filósofos de alguns anos atrás. Baruch Spinoza, um dos maiores filósofos de sua época, foi expulso da sinagoga de Amsterdão em 1656 por causa de suas opiniões religiosas pouco ortodoxas. Desde então, ele é considerado o grande ateu da tradição ocidental. No entanto, ele menciona Deus com muita freqüência em seus escritos.

Desvalorização de todas as paixões tristes Claudio de Souza Rocha

A última das teses práticas de Spinoza, aqui apresentada pelo viés da
compreensão de Deleuze, é a da desvalorização de todas as paixões tristes em proveito da
alegria.

Aqui a denúncia de Spinoza é, segundo Deleuze, a três espécies de personagens,
a saber; o homem das paixões tristes; o homem que explora essas paixões tristes, que
precisa delas para estabelecer o seu poder e o homem que se entristece com a condição
humana.

Ou seja, a trindade moralista, o escravo, o tirano e o padre.

São os envergonhados da vida, homens da autodestruição, do culto à morte. O que os une é o
ódio à vida, o ressentimento contra a vida.

Nas palavras de Spinoza, “o ódio e o remorso, eis os dois inimigos fundadores do gênero humano”.

Ou seja, todas as maneiras de humilhar a vida, tem suas origens no ressentimento e na má consciência, no
ódio e na culpabilidade.

Portanto, antes mesmo de Nietzsche, Spinoza denuncia todas as
falsificações da vida, todos os valores em nome dos quais depreciamos a vida. Tanto na
maneira de viver como na de pensar, o que Spinoza oferece é uma filosofia afirmativa.
Para ele a vida não é uma ideia ou “uma questão de teoria”, mas uma maneira de ser.
Mesmo em um mundo em que o culto à morte predomina, ele tem bastante confiança na
potência de vida. Sua “filosofia da vida” consiste em denunciar tudo o que nos separa da
vida, ou seja, todos os valores transcendentes, que vinculados às ilusões da consciência,
se orientam contra a vida.

Para Deleuze, A Ética de Spinoza traça o retrato do homem do ressentimento, para quem
qualquer tipo de felicidade é uma ofensa, e faz da miséria ou da impotência sua única
paixão.

Artigo_As teses praticas.pdf (revistalampejo.org)

Espinosa, uma subversão filosófica | Espinosa, une subversion philosophique Marilena Chauí | TRADUIT POUR LE FRANÇAIS

I. Maledictus

A 27 de julho de 1656, a assembleia dos anciãos que dirige a comunidade judaica de Amsterdã promulga um herem (excomunhão, em hebraico), excluindo e banindo Espinosa, que, nessa época, tem 24 anos.

Em 1670, aos 37 anos, Espinosa publica o Tratado Teológico-Político, impresso sem o nome do autor. A obra se destina à defesa da liberdade de pensamento e de expressão. A 19 de julho de 1674, trazendo o brasão e as armas de Guilherme de Orange III, os Estados Gerais da Holanda, sob orientação e exigência do Sínodo calvinista, promulgam um édito em que declaram o livro pernicioso, venenoso e abominável para a verdadeira religião e para a paz da república, proibindo sua impressão e divulgação.

Em 1678, um ano após a morte de Espinosa, um novo édito do governo da Holanda proíbe a divulgação do conjunto de sua obra, publicada postumamente por seus amigos.

Afinal, o que dissera o jovem Espinosa – em 1656 –, o que escrevera o filósofo – em 1670 – e o que deixara escrito – em 1678 –, para que fosse expulso da comunidade judaica e condenado pelas autoridades cristãs? Por que alguns leitores, seus contemporâneos, afirmam estar diante de “nova encarnação de Satã” e que seu nome, Benedictus em latim, deveria ser mudado para Maledictus?

A filosofia espinosana é a demolição do edifício filosófico-político erguido sobre o fundamento da transcendência de Deus, da Natureza e da Razão, voltando-se também contra o voluntarismo finalista que sustenta o imaginário da contingência nas ações divinas, naturais e humanas. A filosofia de Espinosa demonstra que a imagem de Deus, como intelecto e vontade livre, e a do homem, como animal racional e dotado de livre-arbítrio, agindo segundo fins, são imagens nascidas do desconhecimento das verdadeiras causas e ações de todas as coisas. Essas noções formam um sistema de crenças e de preconceitos gerado pelo medo e pela esperança, sentimentos que dão origem à superstição, alimentando-a com a religião e conservando-a com a teologia, de um lado, e o moralismo normativo dos filósofos, de outro.

II. Deus, ou seja, a Natureza: a filosofia da imanência

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Eternidade e esquecimento: memória,identidade pessoal e ética segundo Espinosa | Ulysses Pinheiro

Resumo
Espinosa dispensa um tratamento elusivo ao papel da memória na determinação da identidade pessoal, reservando para ele uma breve passagem em um Escólio da Parte IV da Ética.
Apesar de sua brevidade, a análise desse trecho mostrará que ele tem várias repercussões
importantes na teoria ética desenvolvida no resto do livro.

Palavras-chave: Espinosa, identidade pessoal, memória, morte, eternidade, ética.

http://oquenosfazpensar.fil.puc-rio.br/import/pdf_articles/OQNFP_25_03_ulysses_pinheiro.pdf

A GRANDE AVENTURA DO PENSAMENTO António Galopim de Carvalho

Com boa vontade, podemos admitir que a filosofia interessa a todos. Tanto podem falar dela os académicos, numa linguagem elitista, só a eles acessível, mas hermética para o cidadão comum, como nós, numa exigência mais modesta, ao nível da chamada divulgação.

Todos somos filósofos sempre que procuramos saber ou investigar algo, seja o que for. Tudo é sabedoria, pelo que tudo é filosofia. Mas o conceito académico de filosofia é algo mais profundo, a tratar por quem ganhou estatuto para tal. É uma sabedoria vasta e complexa, com uma longa história, que abarca a universalidade do conhecimento, que o questiona, explora e, tantas vezes, vai à frente dele.

Como filósofo que sou, no estrito sentido de gostar de saber coisas, não resisto a “meter o nariz e espreitar” este maravilhoso domínio do génio humano. Que perdoem os muitos que tratam por tu o discurso filosófico. Não é para eles que escrevo. A eles peço, sim, que me corrijam onde eventualmente possa errar ou ser menos claro ou incompleto. Escrevo para os que não tiveram oportunidade de contactar com os temas que habitualmente divulgo e que, todos os dias esperam estes meus despretensiosos escritos.

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PERMANÊNCIAS | Vítor Serrão

Na entrevista de Luís Miguel Cintra saída ontem no Expresso, o actor narra uma conversa com Manoel de Oliveira onde o cineasta lhe disse: «Sabe como é a morte ? A pessoa deita fora o último suspiro, é o espírito que abandona o corpo.

O corpo morre completamente, é lixo, mas o espírito sai e mistura-se com o espírito universal.

É como os rios, que perdem o seu carácter quando chegam ao mar. Mas fazem parte dele, e ele é igual em toda a parte». Conclui Cintra (que é crente): «Esta explicação é aquela que, usando conceitos nossos, humanos, me pareceu a melhor».

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ADAM ET ÈVE | Quelle faute ont-ils commise ? | Le Précepteur – Charles Robin

📏 Selon le christianisme, l’être humain est marqué, dès l’origine, par le sceau du péché. En succombant à la tentation du fruit défendu, Adam et Ève auraient plongé l’humanité dans la souffrance et la corruption. Mais au-delà de la dimension religieuse, que nous enseigne cette épisode biblique sur notre condition ?

👨🏻‍🏫 QUI EST LE PRÉCEPTEUR ? Charles Robin est précepteur et enseignant en philosophie, français et mathématiques. Depuis plusieurs années, il accompagne des élèves de tous niveaux dans leur parcours scolaire. Ses élèves l’apprécient pour son franc parler, son sens de l’écoute et sa capacité à rendre claires des notions parfois complexes. Son projet, à terme, est de créer une école populaire autonome dans laquelle seraient valorisés les savoirs fondamentaux, les arts et l’initiative collective.


MARX | L’aliénation | Le Précepteur – Charles Robin

📏 Marx est surtout connu pour sa critique radicale du système capitaliste et son engagement politique en faveur des travailleurs. Mais on connaît beaucoup moins ses analyses sur un concept pourtant fondamental de la philosophie politique, à savoir l’aliénation.

👨🏻‍🏫 QUI EST LE PRÉCEPTEUR ? Charles Robin est précepteur et enseignant en philosophie, français et mathématiques. Depuis plusieurs années, il accompagne des élèves de tous niveaux dans leur parcours scolaire. Ses élèves l’apprécient pour son franc parler, son sens de l’écoute et sa capacité à rendre claires des notions parfois complexes. Son projet, à terme, est de créer une école populaire autonome dans laquelle seraient valorisés les savoirs fondamentaux, les arts et l’initiative collective.

Frédéric LENOIR, conférence “Le miracle Spinoza”, 14.01.2018

Conférence de Frédéric LENOIR le 14 janvier 2018

“Plus conscient, plus libre, plus heureux avec Spinoza !”

à Crans-Montana (Valais, Suisse).

“A bien des égards, Spinoza est non seulement très en avance sur son temps, mais aussi sur le nôtre. C’est ce que j’appelle le “miracle Spinoza”. F. Lenoir

(www.fredericlenoir.com)

Thèmes abordés :  La sagesse en général. La fondation SEVE (Savoir Vivre et Etre Ensemble) et les ateliers philo et méditation pour les enfants et adolescents. La vie de Baruch Spinoza, son intransigeance avec la vérité, la cohérence de sa vie avec son oeuvre. Changement de regard (politique, religieux, l’être humain. l’anthropologie, l’éthique, la laïcité…). Le désir est l’essence de l’homme, les affects et les pensées adéquates et non adéquates, apprendre à réorienter son désir. Dualité joie/tristesse . Passions tristes et vie personnelle. Passions tristes et vie politique. La morale. L’ union de l’âme et du corps, et joie active.  La psychologie des profondeurs.  Jésus, Dieu, la métaphysique selon Spinoza.

SPINOZA | Dieu n’attend rien de nous | Charles Robin, LE PRÉCEPTEUR

📏 Spinoza est surtout connu pour sa vision déterministe du monde. Mais il est également l’un des rares philosophes à s’être opposé frontalement à la tradition religieuse de son époque. Pour lui, Dieu n’est pas un être séparé du monde et juge de nos actions. Coup de projecteur sur une philosophie aussi originale que captivante.

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SPINOZA | Le déterminisme | Charles Robin, LE PRÉCEPTEUR

📏 Théoricien du déterminisme, Spinoza n’en reste pas moins convaincu qu’une forme de liberté est accessible à l’homme. Pour lui, notre liberté réside dans notre “puissance d’agir” et dans la joie que procure la compréhension des causes de ce qui nous affecte. Analyse de cette conception.

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SPINOZA | Le libre-arbitre n’est-il qu’une illusion ? | Charles Robin, LE PRÉCEPTEUR

Esta iniciativa de descodificar o pensamento complexo de Espinoza para ser entendido por alunos de vários graus de ensino, é fantástica. Não é qualquer um que pode adentrar-se pela matéria da ÉTICA, por exemplo, ou mergulhar na controversa (no seu tempo considerada um sacrilégio) questão de Deus e Natureza, ou questionar se o livre arbítrio está ao alcance de todos ou tem que transpor obstáculos. Entrar nestas questões pela mão de alguém como Charles Robin é um exemplo a seguir. Até, ou sobretudo, em Portugal, onde os alunos podiam ser estimulados pelo facto de Baruch Espinoza, nascido em Amsterdão, ser filho de portugueses de cultura judaica.

Helena Ventura Pereira

👨🏻‍🏫 QUI EST LE PRÉCEPTEUR? Charles Robin est précepteur et enseignant en philosophie, français et mathématiques. Depuis plusieurs années, il accompagne des élèves de tous niveaux dans leur parcours scolaire. Ses élèves l’apprécient pour son franc parler, son sens de l’écoute et sa capacité à rendre claires des notions parfois complexes. Son projet, à terme, est de créer une école populaire autonome dans laquelle seraient valorisés les savoirs fondamentaux, les arts et l’initiative collective.

📏 Spinoza est souvent cité comme le philosophe ayant le mieux démontré que le libre-arbitre n’est qu’une illusion. Et pourtant, une lecture plus approfondie de son oeuvre montre que les choses sont loin d’être aussi simples. C’est ce que nous allons voir dans cette vidéo.

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O comunismo Agostiniano do Espírito Santo | Gabriel Leite Mota | in Jornal Económico

Agostinho da Silva previa que chegaria o tempo da gratuidade da vida, em que as máquinas já produziriam tudo o que o ser humano precisava para viver, tornando-o livre para ser o poema que estava destinado a ser.

Um dos grandes pensadores portugueses do século XX foi Agostinho da Silva.

Nos anos 90 desse século, regressado a Portugal depois de longa estadia no Brasil, onde teve grande impacto académico e público, Agostinho da Silva surpreendeu os portugueses com a sua filosofia na ponta da língua, particularmente durante uma série de entrevistas que deu para a RTP com o título de “Conversas vadias”, em que diferentes entrevistadores iam tentar decifrar e explorar o pensamento do filósofo. Estas entrevistas (disponíveis para visualização na internet) são um testemunho brilhante do seu pensamento, ao mesmo tempo profundo e provocador.

À época, muitos criticavam-no por entenderem que ele se contradizia, por ter o hábito de não ser absolutamente definitivo ou categórico nas suas respostas e, muitas vezes, responder com perguntas às perguntas (aí, o que Agostinho da Silva estava a fazer era, tão-só, querer ser preciso e clarificar o que realmente estava a ser perguntado). Na prática, notou-se nestas entrevistas, muitas vezes, uma décalage de profundidade filosófica entre os perguntadores e o respondente, e a perplexidade dos entrevistadores tinha muito a ver com isso.

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Baruch Spinoza | Um convite à alegria do pensamento

Apontado como um dos grandes racionalistas na assim chamada Filosofia Moderna, Baruch Spinoza (1632-1677) é considerado o “pai” do criticismo bíblico moderno e um dos primeiros pensadores a formular uma potente crítica contra as ideologias estabelecidas.

Filósofo de poucas obras publicadas em vida, em função da excomunhão e censura que lhe foram infligidas pela comunidade hebraica de Amsterdã, o holandês inspira a discussão de capa da IHU On-Line desta semana.

Consideradas fantasias, as leituras místicas e alegóricas da Bíblia são criticadas por Spinoza, aponta Maria Luísa Ribeiro Ferreira, da Universidade de Lisboa. Apesar de Deus ser central na sua Ética, não se trata daquele judaico-cristão, pondera.

No pensamento político de Spinoza, o exercício da democracia como potência e virtude caminha ao lado de uma compreensão das causas da obediência, que não deve ser “insensata”, argumenta Diego Tatian, da Universidade Nacional de Córdoba, Argentina.

http://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao397.pdf

Did Einstein believe in God? | MARCELO GLEISER | com tradução para português e francês

Here’s what Einstein meant when he spoke of cosmic dice and the “secrets of the Ancient One”.

MARCELO GLEISER

  • To celebrate Einstein’s birthday this past Sunday, we examine his take on religion and spirituality.
  • Einstein’s disapproval of quantum physics revealed his discontent with a world without causal harmony at its deepest levels: The famous “God does not play dice.”
  • He embraced a “Spinozan God,” a deity that was one with nature, within all that is, from cosmic dust to humans. Science, to Einstein, was a conduit to reveal at least part of this mysterious connection, whose deeper secrets were to remain elusive.

Given that March 14th is Einstein’s birthday and, in an uncanny coincidence, also Pi Day, I think it’s appropriate that we celebrate it here at 13.8 by revisiting his relationship with religion and spirituality. Much has been written about Einstein and God. Was the great scientist religious? What did he believe in? What was God to Einstein? In what is perhaps his most famous remark involving God, Einstein expressed his dissatisfaction with the randomness in quantum physics: he “God doesn’t play dice” quote. The actual phrasing, from a letter Einstein wrote to his friend and colleague Max Born, dated December 4, 1926, is very revealing of his worldview:

Quantum mechanics is very worthy of regard. But an inner voice tells me that this is not the true Jacob. The theory yields much, but it hardly brings us close to the secrets of the Ancient One. In any case, I am convinced that He does not play dice.

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Spinoza, Einstein e liberdade | MARCELO GLEISER

Minhas idéias estão próximas das de Spinoza: admiração pela beleza e crença na simplicidade lógica da ordem e da harmonia que percebemos, humilde e imperfeitamente. Devemos aceitar que nosso conhecimento é imperfeito e tratar questões morais e valores como problemas humanos.”

Assim escreveu Albert Einstein, referindo-se a Bento (ou, em seu nome judaico, Baruch) Spinoza, o grande filósofo de origem portuguesa que viveu em meados do século 17 na Holanda. Os dois tinham um espírito rebelde e iconoclasta, pondo-se contra a ordem vigente: Einstein repensando como compreendemos e representamos o espaço, o tempo e a matéria, e Spinoza abolindo Deus como guia necessário para a moral humana.

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O HOMEM LIVRE EM DEUS | POR BENTO ESPINOSA | Wiltonn William Leite

UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA
DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA
CURSO DE MESTRADO

(…)

Bento Espinosa apresenta um único método para conhecer o processo do
pensamento humano, pois é pelo intelecto que a verdade é conhecida. Pierre-François
Moreau afirma que seu método faz com que não seja possível anexá-lo a nenhuma outra
corrente filosófica: “temos de pensá-lo num espaço teórico do qual talvez ele seja o único representante.

Seu método intelectual para conhecer a verdade da expressão do
fenômeno pelo intelecto é o que realmente importa ser estudado, entendido,
compreendido, apreendido e repetido. Conhecido pela razão e intuição, por suas leis
matemáticas e geométricas, portanto, por suas leis divinas eternas. Chaui afirma que,
Espinosa,

revolucionariamente, demonstra que a verdade é imanente ao próprio
conhecimento, não precisa de qualquer garantia externa: conhecer
adequadamente uma coisa é conhecer seu modo de produção. A verdade
é índice de si mesma e do falso, não reside na adequação da ideia à coisa.
Pelo contrário, é porque a ideia revela a produção da coisa que ela mesma
dá a garantia de adequação. Com Espinosa, o racionalismo ocidental
descobriu a imanência da verdade ao objeto, graças à demonstração da
gênese do objeto. Não são necessários critérios para a verdade; é ela que
julga o falso, e não o contrário.

Bento Espinosa apresenta um método para conhecer de forma adequada
(intrinsecamente verdadeira), por aperfeiçoamento do intelecto, os modos finitos por
aquilo que eles realmente são (por sua causa próxima e genética), por sua essência atual
(conatus), na ordem natural e necessária das coisas na natureza. Bento Espinosa parte de
uma ideia que considera verdadeira, a existência de um Ser Perfeitíssimo, a quem ele
denomina Deus ou Natureza, causa de si e causa de todas as coisas, para explicar com
rigor matemático por síntese a essência ou natureza das coisas existentes nessa Natureza
ou Deus, em particular, explicar e compreender a natureza do homem. (…)

CLICAR NESTE ENDEREÇO

https://repositorio.ucs.br/xmlui/bitstream/handle/11338/1260/ Dissertacao%20Wiltonn%20William%20Leite.pdf?sequence=1&isAllowed=y

O QI médio da população mundial diminuiu nos últimos vinte anos | Christophe Clavé

Nunca vi esta problemática tão bem explanada desde a monumental obra “A era do vazio” do Gilles Lipovetsky (Manuel Tavares).

“O QI médio da população mundial, que sempre aumentou desde o pós-guerra até o final dos anos 90, diminuiu nos últimos vinte anos …É a inversão do efeito Flynn.

Parece que o nível de inteligência medido pelos testes diminui nos países mais desenvolvidos.Pode haver muitas causas para esse fenômeno.

Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem. Na verdade, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não é apenas a redução do vocabulário utilizado, mas também as sutilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos. O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento: incapaz de projeções no tempo.

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Baruch Espinosa | Carta sobre o Infinito

CARTA N.° 12 – (OU CARTA SOBRE O INFINITO)

(RIJNSBURG, 20 DE ABRIL DE 1663)

Ao mui sábio e experiente Lodewijik Meijer, doutor em Medicina

Meu excelente amigo,

Recebi duas cartas tuas, uma de 11 de janeiro (que me foi entregue por nosso amigo N.N.) e outra de 20 de março (enviada de Leyden por um amigo desconhecido). Ambas me encheram de alegria, sobretudo porque compreendi que tudo vai muito bem para ti e que te lembras de mim. Agradeço-te pela bondade e pela consideração com que me honras; peço-te para creres que também te sou muito devotado e que me esforçarei para mostrá-lo sempre que a ocasião e minhas fracas forças o permitirem. Para começar, tentarei responder ao que me perguntas nas cartas. Pedes também que te comunique o que penso sobre o infinito. Fá-lo-ei de bom grado.

A questão do infinito sempre pareceu dificílima para todos, até mesmo inextricável, porque não distinguiram entre aquilo que é infinito por sua natureza, ou pela força de sua definição, e aquilo que não tem fim, não pela força de sua essência, mas pela sua causa. E também porque não distinguiram entre aquilo que é dito infinito porque não tem fim, e aquilo cujas partes, embora conheçamos o máximo e o mínimo, não podem ser explicadas ou representadas apenas por um número. Enfim, porque não distinguiram entre aquilo que só pode ser inteligido, mas não imaginado, e aquilo que também podemos imaginar. Se tivessem prestado atenção nisso, jamais teriam sido esmagados sob o peso de tantas dificuldades. Com efeito, teriam claramente compreendido qual infinito não se divide em partes (ou que não tem partes) e qual, ao contrário, pode ser dividido em partes sem contradição.

As cartas de Nise da Silveira a Spinoza

CARTA I

Meu caro Spinoza,

Você é mesmo singular. Através dos séculos continua despertando admirações fervorosas, oposições, leituras diferentes de seus livros, não só no mundo dos filósofos, mas, curiosamente, atraindo pensadores das mais diversas áreas do saber, até despretensiosos leitores que insistem, embora sem formação filosófica (e este é o meu caso), no difícil e fascinante estudo da filosofia.

Mais surpreendente ainda é que, à atração intelectual, muitas vezes venham juntar-se sentimentos profundos de afeição. Assim, Einstein refere-se a você como se, entre ambos, houvesse “familiaridade cotidiana”. Dedica-lhe poemas. O poema para A Ética de Spinoza transborda de afeto: “Como eu amo este homem nobre / mais do que posso dizer por palavras”.

O Milagre Espinosa | Uma Filosofia para Iluminar a Nossa Vida | Frédéric Lenoir

Numa linguagem clara, atraente, nada académica, este livro mostra-nos o que podemos aprender com Espinosa, o filósofo cuja família teve de fugir de Portugal para escapar às malhas da Inquisição.

Espinosa dedicou a sua vida à filosofia. Com que objetivo? Descobrir «o gozo de uma alegria suprema e incessante». Construiu uma obra inovadora: em meados do século xvii, foi o precursor do Iluminismo e das nossas democracias modernas, bem como da aliança entre liberdade e razão. Espinosa não esteve apenas muito à frente do seu tempo – mas também do nosso: foi o pioneiro de uma leitura histórica e crítica da Bíblia, o fundador de uma «psicologia das profundezas», o grande mestre da filologia, o criador da sociologia e da etologia – e, acima de tudo, o inventor de uma filosofia baseada no desejo e na alegria, que alterou radicalmente a nossa conceção de Deus, da moralidade e da ideia de destino.

O livro é um relato dos ensinamentos do filósofo, aplicados à nossa vida e à nossa busca da felicidade. É esse o milagre de Espinosa.

RACIONALISMO, HUMANISMO, ILUMINISMO E DESPOTISMO ILUMINADO | António Galopim de Carvalho

Os avanços da ciência levados a cabo por Da Vinci (1452-1519) e Galileu (1564-1542), em Itália, no Renascimento, e por Nicolau Steno (1638-1686), na Dinamarca, e Isaac Newton (1643-1722), em Inglaterra, na chamada Revolução Científica de século XVII, e o espírito de abertura ao conhecimento fomentado pela exploração do mundo desconhecido pelos navegadores portugueses e espanhóis, foram importantes para a eclosão de uma corrente intelectual a que foi dado o nome de Iluminismo. Entre os seus precursores destacam-se os grandes defensores do Racionalismo, entendido como uma atitude mental, ou linha de pensamento que aponta a razão, ou seja, o raciocínio lógico como o caminho para se alcançar a verdade. Entre eles sobressaem o francês René Descartes (1596-1650), o alemão Gottfried Leibniz (1632-1677), o holandês de origem portuguesa Bento Spinoza (1632-1677) e os ingleses Thomas Hobbes (1588-1679) e John Locke (1632-1704), estes dois últimos focalizados no pensamento social e político.

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Edgar Morin | As certezas são uma ilusão | in Fronteiras do Pensamento

Ao conferir uma leitura sobre a pandemia do coronavírus e o isolamento social em entrevista ao jornal francês CNRS, o filósofo Edgar Morin explicita que o cenário nos impõe desconstruções: a desconstrução da crença em verdades absolutas na ciência, da obstinação por garantias e certezas, e da pesquisa sem controvérsias.

O momento em que vivemos tende a convencer cidadãos e pesquisadores de que as teorias científicas são biodegradáveis e que “a ciência é uma realidade humana que, como a democracia, se baseia em debates de ideias, embora seus métodos de verificação sejam mais rigorosos”.

Aos 98 anos, Morin acredita que somos obrigados a encarar as incertezas, mas que podemos abraçar a certeza dos fatos que acompanhamos diariamente: o despertar da solidariedade e a oportunidade de reforçar a consciência das verdades humanas que fazem a qualidade de vida: amor, amizade, comunhão e solidariedade. Leia a entrevista completa abaixo.

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Os grandes homens morreram porquê? | Carlos Matos Gomes | in Medium

Por homem, neste contexto, entenda-se um ser humano, masculino ou feminino. Neste sentido tanto serve para o 3º Conde de Castelo Melhor, reorganizador das tropas portuguesas para expulsar os espanhóis após 1640, como para a rainha Filipa de Lencastre, inspiradora (no mínimo) da expansão marítima portuguesa. Parece que sim, que os “grandes homens” morreram sem descendência. Pelo menos não os encontramos nesta crise, nem na anterior, a de 2008, a do sistema financeiro, nem na guerra da Sérvia, nem na Invasão do Iraque, nem no ataque ao Afeganistão, nem na implosão da União Soviética… nem… nem…

No entanto deviam ter surgido, se fosse cumprida a definição de loucura erradamente atribuída a Einstein e a Benjamim Franklin: “ loucura é fazer a mesma coisa uma vez e outra e esperar obter resultados diferentes”. Podíamos dizer que circunstâncias idênticas produzem resultados idênticos e concluir que as grandes crises produzem grandes homens. Ora, não produziram.

A explicação da História a partir da ação e do impacto dos indivíduos determinantes por carisma, génio ou impacto político foi muito popular na Europa no final do século XIX e no início do XX. Em Portugal manteve-se dominante durante o Estado Novo, com uma historiografia assente na epopeia e na figura do “herói”, de Viriato a Salazar, passando por Vasco da Gama. Thomas Carlyle, um historiador, ensaísta e professor escocês durante a era vitoriana considerou que “A história do mundo é apenas a biografia de grandes homens”, mas teve a presciência de definir a economia como uma “ciência sombria”.

Então porque não produziram “grandes homens” as crises das últimas décadas, desde o desaparecimento dos que dividiram o mundo em Ialta, no pós-Segunda Guerra (Roosevelt, Estaline e Churchill) e dos que se reuniram em Bandung, na Indonésia, em 1955 para lançarem o conceito de Terceiro Mundo e o Movimento Descolonizador (Nheru, Sukarno, Nasser) e do emergir da China como ator mundial com Mao Tse Tung? Porque desapareceram os “grandes homens” da paisagem da história?

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A espiritualidade é palpável | MARIA ANTÓNIA JARDIM

Uma leitura hermenêutica e simbólica

É preciso ir além da superficialidade e fazer uma leitura hermenêutica / simbólica do conceito “espiritualidade” para perceber que a espiritualidade, tal como o sonho, é algo concreto e definido como outra coisa qualquer ( António Gedeão: Pedra Filosofal). Vejamos.

Em primeiro lugar é urgente compreender que “Somos um Corpo”. O corpo é o templo da alma e do espírito que o habitam e portanto o bem ou o mal fazer passam pela acção, pela sua voz, pelas suas mãos…A espiritualidade do Ser Humano exprime-se em actos, actos de fala, gestuais, afectivos, artísticos.

Materializa-se cada vez que o Mundo “pula e avança”, com a imaginação, com a Nona Sinfonia de Beethoven ou com a Última Ceia de Da Vinci; com revoluções de consciência, com “batalhas” que se travam dentro do nosso corpo, corpo afectivo, erótico (note-se que o corpo faz-se a beijar…), com todos os nossos Eus, pois Somos Seres plurais, já nos ensinou o grande psicólogo / escritor Fernando Pessoa!

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Deus de Spinoza | ALBERT EINSTEIN

Sobre Deus, Einstein chegou a se definir como agnóstico em carta de 1950 a Morton Berkowitz. Ele já tinha afirmado anteriormente que acreditava no “Deus de Spinoza”, em referência ao filósofo holandês Baruch Spinoza:

“Acredito no Deus de Spinoza, que se revela num mundo regrado e harmonioso, não em um Deus que se preocupa com o destino e os afazeres da humanidade”, afirmou ele em um telegrama ao rabino Herbert S. Goldestein, publicado pelo jornal americano “New York Times” em 1929 (segundo o livro “The Ultimate Quotable Einstein”).

Com essa declaração, Einstein afirmava a visão que repetiu diversas vezes durante a vida: que tinha mais simpatia por um Deus presente em todos os lugares e que fosse responsável pelas leis do universo num sentido científico, que por uma entidade personificada e preocupada com problemas individuais:

“Não posso imaginar um Deus pessoal que influencia diretamente a ação das pessoas… Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração do espírito infinitamente superior que se revela no pouco que compreendemos de nosso próprio mundo. A profunda convicção na presença de um poder superior, que aparece no universo incompreensível, forma minha ideia de Deus”, disse Einstein em carta de 1927, publicada em seu obituário no “Times”, em 1955.

Normalmente utilizada incorretamente para afirmar uma suposta religiosidade de Einstein, a frase escrita para Born sobre Deus “não jogar dados com o universo” se insere melhor na perspectiva panteísta de religião do físico. Na ocasião, Einstein questionava o princípio da incerteza de Heisemberg, utilizada na física quântica, segundo o qual não é possível determinar a localização e a velocidade exata de partículas, destacando a aleatoriedade dos eventos. Einstein não concordava com esse nível de imprecisão e usou a frase para corroborar sua visão.

Em todo caso, Einstein considerava o assunto complexo demais para as mentes humanas, como disse em entrevista em 1929, ainda segundo o “The Ultimate Quotable Einstein”:

“Não sou ateu. Não sei se posso me definir como panteísta. O problema envolvido é muito vasto para nossas mentes”.

 NOTA: Pandeísmo é uma corrente filosófica que surgiu da mistura do panteísmo com o deísmo. Panteísmo é a crença de que tudo compõe um Deus abrangente e imanente, ou que o Universo (ou Natureza) é idêntica à divindade. Panteístas e pandeístas, assim, não acreditam em um deus pessoal ou antropomórfico.

A GAGUEZ EM FOCO NOS MEDIA | Pedro Mendonça | Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala

Desmistificar e compreender | uma perturbação da fluência partilhada por aproximadamente 1% da população

Nas últimas semanas, a gaguez ganhou uma rara exposição pública e mediática. Joacine Katar-Moreira surgiu aos microfones de rádios e em debates televisivos, como muito raramente uma pessoa que gagueja ousa fazer em Portugal. Entrevistadores e candidatos – dos mais distintos quadrantes políticos – concentraram-se nas suas ideias e não na forma como as transmitia. Souberam não interromper, nem completar palavras ou frases, demonstrando uma saudável cultura cívica.

Nas redes sociais, milhares de portugueses manifestam o seu apoio. Alguns, mais conhecedores do que consiste a gaguez, tentam combater os muitos estereótipos e mitos que lhe estão associados. Carlos Guimarães Pinto, candidato de outro partido, também ele uma pessoa que gagueja, assumiu esse papel, explicando, por exemplo, que a variabilidade dos momentos de gaguez é absolutamente normal. Afinal, o que qualquer pessoa que gagueja enfrenta diariamente são momentos em que a fala flui de forma natural, intercalados com outros, onde a gaguez se intromete, dificultando a comunicação.

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SPINOZA | COURT TRAITÉ sur DIEU L’HOMME ET LA BÉATITUDE | TRADUIT PAR PAUL JANET 

PREMIÈRE PARTIE 

CHAPITRE PREMIER 

QUE DIEU EXISTE. 

(1) L’existence de Dieu peut être démontrée : I. A priori. 1° Tout ce que nous concevons clairement et distinctement appartenir à la nature d’une chose 1 , peut être, avec vérité, affirmé de cette chose. Or l’existence appartient à la nature de Dieu. Donc – 

(2) 2° Les essences des choses sont de toute éternité et demeureront immuables pendant toute éternité. Or l’existence de Dieu est son essence. Donc – 

(3) II. A posteriori. Si l’homme a l’idée de Dieu, Dieu doit exister formellement. Or l’homme a l’idée de Dieu. Donc 2

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Livro I da Ética e no Tratado sobre a Religião e o Estado | Baruch Spinoza | POR ALEXANDRE FLORES ALKIMIM EM ENSAIOS

No “Livro I da Ética e no Tratado sobre a Religião e o Estado”, o filósofo holandês Baruch Spinoza delineia a sua concepção de um Deus despersonalizado e geométrico, contrária a todas as formas de se conceber Deus como uma espécie de entidade, oculta e transcendente, que age conforme os seus desígnios e a sua vontade suprema. De uma teoria que não compartilha da ideia de um Deus autocrático, que controla a tudo e a todos, e que se refugia em algum ponto distante da abóbada celeste — segundo a crença comumente aceita e bastante difundida, sobretudo entre os povos e as civilizações de origem indo-europeia. Motivo pelo qual, o filósofo Spinoza expôs, assim, em sua obra, a sua definição — considerada por ele a mais adequada —, de Deus, em contraposição a todas as doutrinas e dogmas religiosos até então existentes. E é Spinoza quem diz que as massas “supõem, mesmo, que Deus esteja inativo desde que a natureza aja em sua ordem costumeira; e vice-versa, que o poder da natureza, e as causas naturais, ficam inativas desde que Deus esteja agindo; assim, elas imaginam dois poderes distintos um do outro, o poder de Deus e o poder da natureza”. Spinoza ainda nos faz o alerta para o fato de que: “Deus fez todas as coisas em consideração do homem, e que criou o homem para que este lhe prestasse culto. (…) [Isto acontece porque toda] gente nasce ignorante das causas das coisas e que todos desejam alcançar o que lhes é útil e de que são cônscios”. Com efeito, a crença de Spinoza era em um Deus baseado no seguinte princípio: Deus e Natureza são a mesma coisa — Deus sive Natura (Deus ou Natureza).

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Je me souviens … | Malika Bouazza

 

Je me souviens que lorsque j’étais petit, ma mère m’a demandé si je savais quelle partie de mon corps était la plus importante.

Au fil des ans j’ai essayé de deviner et de trouver la bonne réponse.

Je me souviens de la première fois où je lui ai répondu ce qui me semblait à l’époque le membre le plus important : « mes oreilles, maman ? »

Elle me répondit « Beaucoup de gens sont sourds. Mais persévère, continue à y réfléchir. On en reparlera plus tard. »

Quelques années passèrent. Je n’avais pas oublié sa question, j’y avais réfléchi. Je pensais avoir une bonne réponse quand elle me reposa cette question. C’est alors qu’avec fierté je lui dis : « les yeux maman ! La vue est très importante ! »

Elle me regarda avec tendresse et me dit : « Je vois que tu as pris de la maturité. Mais ce n’est pas la bonne réponse. Il y a beaucoup de gens qui sont aveugles. »

J’étais déçu… Cependant, intrigué, j’ai continué à chercher. Je lui donnais mes réponses au fil des ans qui passèrent. Et à chaque fois sa réponse était la même : « Non…, tu progresses, mais ce n’est pas ça, continue à chercher. »

Puis, quelques années plus tard, mon grand-père nous a quittés. Nous étions tous très affectés par sa disparition. Tout le monde était en pleurs. Même mon père pleurait. C’était la deuxième fois de ma vie que je voyais mon père pleurer.

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Foule, masse, multitude ou peuple? | Masse & Multitude. À partir de Freud, Canetti & Spinoza | Leon Farhi Neto

Entre les « masses » sinistres observées par Freud ou Canetti et le « peuple » objet de revendications démocratiques de nos jours, la notion de « multitude » offre une précieuse ressource à la pensée. (Christian RUBY)

« Multitudes » est désormais le titre d’une revue qui, justement, ne confond pas masses et multitudes. Mais c’est aussi un terme évoqué par beaucoup pour parler des explosions d’individus en foules dans le contexte de la mondialisation. Encore une chose n’est-elle jamais claire dans l’usage de cette notion : parle-t-on simplement de multitudes empiriques (et comptabilisables) ou de multitude au sens de la philosophie politique, celle qui veut parler de révoltes, d’affirmations critiques au sein de la politique ? Et que fait-on du vocabulaire des « masses », hérité du XXesiècle dans un sens positif (par les partis de gauche) ou négatif (par la police) ? D’autant que la différence entre les termes n’est pas sans nous laisser devant une question décisive : comment les actions de la multitude (foule, masse ou peuple) deviennent-elles politiques ?

Il fallait donc bien s’attacher à préciser que « multitude » de nos jours peut encore s’opposer à d’autres usages et références notoirement classiques. Pourquoi ? Sans doute parce que, durant longtemps, foules et masses semblaient désirer le fascisme, si l’on se réfère à ces débats du XXe siècle et aux grandes théories qui en ont proposé l’étude (Freud, Canetti). Reste la question de la notion de « peuple », qui ne peut s’utiliser avec moins de difficultés. Entre ceux pour qui le peuple renvoie à une ethnicité ou à une opération identitaire et ceux pour qui le peuple se définit comme l’institution de base de la démocratie, voire ceux pour qui le peuple ne saurait être autre chose qu’une promesse d’avenir, les partisans de telle ou telle politique se distribuent assez bien.

Pourtant, l’intérêt du nom de « peuple » n’est-il pas tout autre ? C’est ce qu’il fallait aussi vérifier, tout en prenant soin de penser la relation potentielle entre multitude et peuple. Or, là encore, les positions sont délicates à cerner, sinon en saisissant les deux logiques suivantes : pour les uns, le « peuple » est supérieur à la « multitude » en ce qu’il est organisé dans le but de dégager des choix collectifs, alors que la « multitude » est amorphe et manipulée ; mais pour d’autres, le « peuple » est au contraire l’objet de fantasmes d’unité dangereux, qui justifient de valoriser plutôt la « multitude » dans son irréductible diversité. Les phobies des premiers et des seconds ne se recoupent pas.

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A culpa, o instrumento de controle das religiões | Martín Caparrós in jornal El País

Com o fim da cultura religiosa aprendemos a pensar que os erros não são nossos, que são dos grupos, das sociedades ou das estruturas. O inferno são os outros.

Foi um dos inventos mais extraordinários que os manuais não registram: isso costuma acontecer com os inventos mais extraordinários. Antes dele, aqueles homens e mulheres viviam mais ou menos felizes. Ou preocupados, irritados, apavorados, mas sem o peso da culpa. Naqueles dias as coisas aconteciam e ninguém sabia por quê: a vida era assim ou, no máximo, eram assim caprichosos esses deusinhos que pululavam na árvore, na água, na lua distante ou no poderoso sol.

E então aconteceu. Não se sabe quando, quem, como, mas em algum momento, há quatro ou cinco mil anos, alguns homens e mulheres no Iraque, no Irã ou na Síria começaram a acreditar que a culpa era deles. Que se a sua colheita estava ferrada ou o quinto filho morresse ou o jumento estivesse mancando, não era por causa desses acasos da vida, mas porque tinham feito algo para merecer isso. E tudo, então, começou a mudar: tinha surgido, escreveu Bottéro, a ideia do pecado.

(Jean Bottéro nasceu pobre e provençal em 1914, estudou com os padres, foi ordenado dominicano, se dedicou a ensinar e foi demitido por não querer dizer que o Gênesis era um fato histórico. Então, dedicou-se à Mesopotâmia, aprendeu seus idiomas, casou-se, traduziu o Código de Hamurabi, foi sábio e, ainda assim, publicou vários livros).

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Como os homens chegaram a deus | Miguel Ángel Criado in jornal El País

Os primeiros deuses morais aparecem no antigo Egito, na Mesopotâmia, na Anatólia e na China.

Os deuses de astecas, maias ou incas não intervêm na moral das relações humanas.

FOTOGRAFIA | Uma menina às portas do santuário de Chak Chak, no Irã, lugar de peregrinação para os zoroastristas.KAVEH KAZEMI GETTY IMAGES 

A ideia de um deus todo-poderoso que vigia os humanos a partir de cima e pune os que se desviam da norma surgiu depois que estes trocaram a tribo pela sociedade. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo que revê o surgimento das sociedades complexas e a ideia do deus moral. Dos antigos egípcios até o Império Romano, passando pelos hititas, os deuses morais só entram em cena quando as sociedades se tornam realmente grandes.

A crença no sobrenatural é tão antiga como os humanos. Mas a ideia de um ser onisciente vigilante da moral é mais recente. Antes das revoluções neolíticas, do surgimento da agricultura e das primeiras sociedades, os humanos viviam em grupos relativamente pequenos, baseados no parentesco. Na tribo, todos se conheciam e devia ser difícil ter uma conduta antissocial sem ser flagrado. O risco de ser apontado, castigado ou expulso do grupo bastava para controlar o indivíduo. Mas, à medida que as sociedades foram se tornando mais complexas, as relações com estranhos ao clã cresciam e, ao mesmo tempo, as possibilidades de escapar à sanção. Para muitos estudiosos das religiões, a aparição de um deus moral que tudo vê serviu como cola para a coesão social, facilitando a emergência de sociedades cada vez maiores.

“Mas o que vimos é que os deuses moralizantes não são nada necessários para que se estabeleçam sociedades em grande escala”, diz Harvey Whitehouse, diretor do Centro para o Estudo da Coesão Social da Universidade de Oxford (Reino Unido) e coautor do estudo. “De fato, só aparecem depois do forte aumento inicial da complexidade social, uma vez que as sociedades alcançam uma população de aproximadamente um milhão de pessoas”, acrescenta.

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CONTE POUR LE PETIT PEUPLE QUI REFUSE LA FATALITÉ | Yasmina khadra

Adawado était un enfant pygmée fasciné par les géants. Il disait à ses frères : « Un jour, je serai tellement grand qu’en levant la jambe je longerai les montagnes. Je vivrai la tête dans les nuages et je n’aurai qu’à tendre la main pour décrocher la lune. ». Lorsqu’il atteignit l’âge adulte, il constata qu’il était toujours petit et que la nature l’avait conçu ainsi. Parce qu’il refusa de vieillir sans grandir, Adawado grimpa au sommet du plus haut arbre de la forêt et n’en descendit plus. Sa vie durant, debout sur sa branche, les mains brassant l’air et le cœur vaillant, il tenta d’atteindre le ciel. Il passa ses nuits à contempler les étoiles et ses jours à les rêver, persuadé qu’à force d’y croire, il finirait par en cueillir quelques unes. Ce fut ainsi jusqu’à son dernier souffle. Adawado ne décrocha pas la lune, mais il ne la perdit à aucun moment de vue. Il était certain qu’elle était faite pour lui et que s’il lui était impossible de l’effleurer de ses doigts, alors qu’il en était le plus proche, c’était pour que personne d’autre ne puisse la lui ravir. Et cela suffisait à son bonheur. Le soir de sa mort, tandis qu’il s’apprêtait à fermer les yeux pour ne plus les rouvrir, il sourit une dernière fois aux étoiles qui avaient bercé son âme et toutes les étoiles vinrent à lui.

Yasmina khadra

Retirado do Facebook | Mural de Malika Bouazza

Rankings | Isabel Moreira

Já o escrevi antes. Quando o colégio privado que frequentei entre os 3 e os 13 anos de idade ficou no topo dos rankings. Não saí de lá no topo. Saí de lá com uma visão fechada do mundo, saí de lá tendo por normal a separação do ensino por sexos, saí de lá sem saber o que era a diversidade étnica e social de Lisboa , saí de lá com uma visão terrífica da moral católica. No topo? Não. Cá em baixo. Com notas boas, pois claro.
Na escola pública que não ficou no topo nos rankings saí de lá com uma visão mais aberta do mundo, saí de lá sabendo de quem tem e de quem menos tem, saí de lá sabendo da diversidade religiosa, saí de lá com um único colega negro, mas nele vi o que é o racismo vivido diariamente, saí de lá com a saudável convivência entre rapazes e raparigas, saí de lá sem dar grande importância aos dias em que chovia dentro da minha sala de aula de filosofia, porque era o espaço da minha felicidade. Não saí pequena. E as notas foram ainda melhores.

Isabel Moreira

Retirado do Facebook | Mural de Isabel Moreira

Citations de Socrate qui vous remettront en question sur la vie | 470 avant JC /-399 avant JC

Philosophe et poseur de questions, empêcheur de tourner en rond depuis -435 av. JC.

25 citations de Socrate qui vous remettront en question sur la vie.

Socrate était l’un des philosophes les plus influents de tous les temps. Ses pensées sont non seulement de grande inspiration, mais ils vont vous faire remettre en question sur la vie d’une façon tout à fait unique. Socrate n’ayant jamais rien écrit, sa vie et sa pensée sont connues principalement par des contemporains (Aristophane), qui ont parfois été ses disciples (Platon et Xénophon), ainsi que par des sources indirectes, au premier rang desquelles Aristote (né en 384).

La doctrine de Socrate est que la justice est la vertu principale de l’accomplissement personnel de l’homme. L’homme est composé d’une âme et d’un corps.
Le corps a-t-il plus de valeur que l’âme ou l’âme a-t-elle plus de valeur que le corps ?
Pour Socrate, l’âme est supérieure au corps. Selon lui, l’âme représente l’amour, la raison, la conscience et par conséquent, le bonheur. D’après Socrate, l’âme permet de vivre en accord avec soi-même et donc, par la force des choses, d’être heureux. Vivre en accord avec son âme et en prendre soin, c’est vivre selon la justice, vertu morale suprême selon Socrate.
« Philosopher, c’est apprendre à mourir ». Selon Socrate, mourir, c’est séparer le corps de l’âme. En se détachant du corps, l’âme débutera son parcours ascendant vers l’absolu qu’il contemple. Philosopher est donc une façon de se préparer à l’éternité.

Voici les 25 citations de Socrate qui vous feront remettre en question la vie:

1) « La vraie sagesse est de savoir que vous ne savez rien. »

2) « Un vie sans examen ne vaut pas la peine d’être vécue. »

3) « Le seul bien est la connaissance, le seul mal est l’ignorance. 

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Um matemático e um filósofo na Grécia antiga | Frederico Duarte Carvalho

Na Grécia antiga, estava um matemático sentado numa estrada, muito triste. Um filósofo que passava, abordou-o:
– O que se passa? – perguntou o filósofo.
– Estou triste – respondeu o matemático.
– Então porquê?
– Porque não tenho um problema para resolver…
– Mas, está triste por causa disso? – perguntou, espantado, o filósofo.
– Pois é – confirmou o matemático, que acrescentou: Sabe, eu gosto de resolver problemas. E agora não tenho nenhum…
– Mas, isso é um problema! – exclamou o filósofo!
– Então e como é o vamos resolver?
– Pois não sei – respondeu o filósofo que, sem saber o que poderia fazer, sentou-se ao lado do matemático e ficaram ambos tristes.
Um político ia a passar e viu ambos, matemático e filósofo, tristes. E perguntou o que passava.
– O matemático não tem um problema para resolver e eu não sei como resolver esse problema – explicou o filósofo.
O político sorriu e disse:
– Não há problema nenhum! Eu ajudo-vos!
– A sério? Como? – perguntaram filósofo e matemático quase em uníssono.
– Simples: o matemático vai pensar numa questão filosófica para colocar e, em troca, o filósofo pensa num problema matemático. Assim, cada um terá um problema para resolver!
– Mas, isso não faz parte das minhas competências! Eu não percebo de filosofia – respondeu o matemático.
– E eu não percebo de matemática – informou o filósofo, surpreendido com a proposta do político.
– Não quero saber. Isso agora é com cada um de vocês. Eu limitei-me a apresentar uma solução para os vossos problemas. Agora, vocês é que sabem o que podem – e, dito isto, o político continuou, triunfante, o seu caminho.
Conclusão: um político não precisa de entender de matemática ou de filosofia para apresentar soluções. Se depois os problemas não se resolvem, é porque nem matemáticos e filósofos os sabem resolver!

Frederico Duarte Carvalho

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Duarte Carvalho

O Natal de Jesus e a dignidade humana | Anselmo Borges in Diário de Notícias

Ernst Bloch, um dos maiores filósofos do século XX, ao mesmo tempo ateu (não acreditava no Deus pessoal) e religioso (estava religado à divina Natureza), quando era professor na Universidade de Leipzig, na antiga República Democrática Alemã, na última aula antes das férias de Natal desejava a todos os estudantes boas-festas, falando-lhes do significado do Natal e terminava, dizendo: “É sempre Advento”, querendo desse modo apelar para a esperança: o mundo e a humanidade continuam grávidos de ânsias e de possibilidades, e a esperança está viva e há razões objectivas para esperar. Apesar do Natal, ainda é Advento, porque a plenitude ainda não chegou.

Foi em Tubinga que o conheci, pois Ernst Bloch, embora se confessasse marxista e ateu, acabou por ter de deixar Leipzig e a República Democrática Alemã: as autoridades comunistas acusavam-no de misticismo religioso. Ele defendia-se, sublinhando o carácter único, na história das religiões, do judeo-cristianismo e do seu livro, a Bíblia. Para ele, “a Bíblia é o livro mais significativo da literatura mundial”, pois responde à pergunta decisiva do ser humano, que é a questão do fim, do sentido e da finalidade do mundo e da existência. Ir ao encontro da Bíblia “não pode prejudicar” nenhum ser humano que queira bem à humanidade e a si próprio. Concretamente, não é possível compreender o homem europeu e as suas obras literárias e artísticas, sem um conhecimento aprofundado da Bíblia. Os nazis, por exemplo, ao rejeitar a Bíblia como algo estranho que não devia ser estudado, não só não puderam compreender a cultura alemã como caíram na barbárie.

Sem a mitologia grega, não podemos entender a Antiguidade clássica. Assim também, sem o conhecimento da Bíblia, não podemos compreender as catedrais, o gótico, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Händel, Bach, Beethoven, os Requiem, “absolutamente nada”, escrevia Ernst Bloch. Impõe-se pôr termo ao desconhecimento da Bíblia, porque este desconhecimento constitui uma “situação insustentável”, pois produz bárbaros que, por exemplo, perante a “Paixão segundo São Mateus” ou o “Messias”, de Händel, ficam como bois a olhar para palácios.

Está aí o Natal. E o Natal, mesmo que alguns já não se lembrem disso – li há dias que um terço dos norte-americanos não sabem que o Natal se refere a Jesus – e haja até quem menospreze a data, é o aniversário natalício de Jesus Cristo. Sobre ele deixou escrito Ernst Bloch: Jesus agiu como um homem “pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido”. Anunciou o Deus próximo, de amor, o Deus da misericórdia, um Deus amoroso e amável, e o seu Reino: o Reino de Deus, reino da liberdade – “onde está o espírito de Cristo aí está a liberdade”, proclamou São Paulo -, reino da justiça, do amor, da fraternidade, da paz, da igualdade radical de todos perante Deus e perante os outros seres humanos, o reino da realização plena de toda a esperança.

Sobre Jesus, Mahatma Gandhi também deixou estas palavras: Jesus “foi um dos maiores mestres da humanidade”. “Não sei de ninguém que tenha feito mais pela humanidade do que Jesus. De facto, nada há de mau no cristianismo.” Mas acrescentou: “O problema está em vós, os cristãos, pois não viveis em conformidade com o que ensinais.” E tem razão.

Para quem está atento e não tem preconceitos é claro que um dos fundamentos da Europa é o cristianismo. É necessário confessar os erros, fragilidades e crimes do cristianismo histórico, mas é indubitável que da compreensão dos direitos humanos e da democracia, da tomada de consciência da dignidade inviolável do ser humano – de todo o ser humano -, da ideia de história e do progresso, da separação da Igreja e do Estado, portanto, da laicidade, de tal modo que crentes e ateus têm os mesmos direitos, faz parte inalienável a mensagem originária do cristianismo.

Lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A Figura Histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Ele conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas, continua, também sabemos que, “depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a “ressurreição””: aquele que tinha morrido realmente apareceu como “pessoa viva, mas transformada”. “Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso.” Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a história. Grande parte da humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta.

A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem que mudou a história.

Anselmo BorgesPadre e professor de Filosofia | in Diário de Notícias 22-12-2018 

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SOCIAL EUROPE

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Social Europe (SE) is an award-winning digital media publisher that combines thematic and technical expertise to produce and disseminate high value content. We use the values of ‘Social Europe’ as a viewpoint to examine issues in politics, economy and employment & labour and are committed to publishing cutting-edge thinking and new ideas from the most thought-provoking people.

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Frédéric LENOIR, conférence “Le miracle Spinoza”, 14.01.2018

Conférence de Frédéric LENOIR le 14 janvier 2018 “Plus conscient, plus libre, plus heureux avec Spinoza !” à Crans-Montana (Valais, Suisse).

“A bien des égards, Spinoza est non seulement très en avance sur son temps, mais aussi sur le nôtre. C’est ce que j’appelle le “miracle Spinoza”. F. Lenoir (www.fredericlenoir.com)

Thèmes abordés : La sagesse en général. La fondation SEVE (Savoir Vivre et Etre Ensemble) et les ateliers philo et méditation pour les enfants et adolescents. La vie de Baruch Spinoza, son intransigeance avec la vérité, la cohérence de sa vie avec son oeuvre. Changement de regard (politique, religieux, l’être humain. l’anthropologie, l’éthique, la laïcité…). Le désir est l’essence de l’homme, les affects et les pensées adéquates et non adéquates, apprendre à réorienter son désir. Dualité joie/tristesse . Passions tristes et vie personnelle. Passions tristes et vie politique. La morale. L’ union de l’âme et du corps, et joie active. La psychologie des profondeurs. Jésus, Dieu, la métaphysique selon Spinoza.

Conférence organisée par l’association Montagn’Arts (www.montagn-arts.ch) qui, propose des activités artistiques (ateliers, conférences et spectacles) comme nectar et ambroisie au meilleur de chacun pour vivre l’espace de l’instant en sourire, ouverture et confiance.

Musique : Aria. Variations Goldberg, Jean-Sébastien Bach. Kimiko Ishizaka.

Edgar Morin : “Qu’est-ce que l’amour ? C’est le comble de l’union de la folie et de la sagesse” | in France Culture

L’amour, la poésie, la sagesse, illuminent nos vies tout en cachant leur énigme et leur complexité… Dès lors se pose la question : que peut être une sagesse moderne ?

Le philosophe et sociologue Edgar Morin était l’invité de l’Université permanente de l’Université de Nantes, jeudi 12 décembre 2013, pour une conférence intitulée “Amour, poésie, sagesse”, titre éponyme de l’un de ses ouvrages. L’occasion pour l’un des plus grands penseurs contemporains de nous livrer sa vision de l’amour.

Edgar morin s’interroge sur l’amour, la poésie, la sagesse qui illuminent nos vies tout en cachant leur énigme et leur complexité… L’amour ne vit, soutient-il, que dans l’état d’un “innamoramento”, se régénérant sans cesse de lui-même. La poésie est cet “état second” qui nous envahit dans la ferveur, l’exaltation, et bien sûr l’amour : elle nous fait habiter, non seulement prosaïquement, mais aussi poétiquement la terre. Quant à la sagesse, elle était dans le monde antique synonyme de vie raisonnable. mais nous savons que l’homo sapiens est également un être d’affectivité, de passions et de délire, c’est-à-dire qu’il est à la fois sapiens et démens.

Quelles sont les sources de l’amour ? Dans tout individu, nous avons deux logiciels : le premier, c’est l’affirmation du “je”, le “moi je”. Je me mets au centre de mon monde, autrement dit, c’est l’égocentrisme. L’égocentrisme nous est vital puisque nous avons besoin de nous nourrir, de nous défendre, de nous protéger… Bien entendu, l’égocentrisme risque de dégénérer en égoïsme s’il n’y avait pas l’autre logiciel qui est complémentaire, en même temps qu’antagoniste, celui du “nous”. Nous avons donc en nous ces deux principes complémentaires.

Une conférence enregistrée en décembre 2013.

Edgar Morin, philosophe et sociologue | in FRANCE CULTURE

https://www.franceculture.fr/conferences/universite-de-nantes/edgar-morin-quest-ce-que-lamour-cest-le-comble-de-lunion-de-la?utm_medium=Social&utm_source=Facebook&fbclid=IwAR1dQhOWOLKS3jr-eqRxRwmito5G-PE31bTWYKg0jLmHxtsrLlca78wJ3jQ#Echobox=1544777070

LE DIEU DE “SPINOZA”

Spinoza consacra sa vie à la recherche de la vérité, du bien-être moral et de la liberté. Il s’efforça également de définir sa conception de la “vraie religion” et sa vision d’un État laïque et tolérant.

Si Dieu existe il ne peut être que le Dieu de Spinoza!

 

Quand Einstein donnait une conférence dans les nombreuses universités des Etats-Unis, la question récurrente que lui faisaient les étudiants était :

Vous, Monsieur Einstein. .. croyez-vous en Dieu ?
Ce à quoi il répondait toujours :
– Je crois au Dieu de Spinoza.

Seuls ceux qui avait lu Spinoza comprenaient …
J’espère que cette perle de l’histoire vous servira autant que moi. C’est grâce à elle que je suis parti lire sur Le Dieu selon Spinoza.
Spinoza avait passé sa vie a étudier les livres saints et la philosophie .
Un jour il écrivit : Je ne sais pas si Dieu a réellement parlé mais s’il le faisait , voici ce que je crois qu’il dirait au croyant :
Arrête de prier et de te frapper à la poitrine !

Ce que je veux que tu fasses, c’est que tu sortes dans le monde pour profiter de ta vie.
Je veux que tu t’amuses, que tu chantes, que tu t’instruises… que tu profites de tout ce que j’ai fait pour toi.
Arrête d’aller dans ces temples sombres et froids que tu as construit toi-même et dont tu dis que c’est ma maison !
Ma maison est dans les montagnes, dans les bois, les rivières, les lacs, les rivières. C’est là où je vis avec toi et que j’exprime mon amour pour toi.

Arrête de m’accuser de ta vie misérable ; je ne t’ai jamais dit qu’il y avait quelque chose de mal en toi , que tu étais un pécheur, que ta sexualité ou ta joie étaient une mauvaise chose ! Alors ne me blâme pas pour tout ce qu’ils t’ont dit de croire.
Arrête de ressasser des lectures sacrées qui n’ont rien à voir avec moi. Si tu ne peux pas me lire à l’aube, dans un paysage, dans le regard de ton ami, de ta femme , de ton homme, dans les yeux de ton fils…Tu ne me trouveras pas dans un livre !
Arrête de te faire peur. Je ne te juge pas, je ne te critique pas, je ne rentre pas en colère et je ne punis pas. Je suis pur amour… je t’ai rempli de passions, de limitations, de plaisirs, de sentiments, de besoins, d’incohérences…et je t’ai donné le libre arbitre… Comment puis-je te blâmer si tu réponds à quelque chose que j’ai mis en toi ? Comment puis-je te punir d’être ce que tu es, si je suis celui qui t’ai fait ? Tu penses réellement que je pourrais créer un endroit pour brûler tous mes enfants qui se comportent mal, pour le reste de l’éternité ?
Quel genre de Dieu peut faire ça ? Si j’étais ainsi, je ne mériterais pas d’être respecté . Si je voulais juste être vénéré, je n’aurais peuplé la terre que de chiens… 

Respecte tes semblables et ne fais pas ce que tu ne veux pas pour toi. Tout ce que je te demande, c’est que tu fasses attention à ta vie, que ton libre arbitre soit ton guide. Toi et la nature vous constituez une seule entité ….alors ne crois pas que tu as un pouvoir sur elle. Tu fais partie d’elle. Prends-soin d’elle et elle prendra soin de toi. J’y ai mis et rendu accessible tout ce qu’il y a de bien pour toi et j’ai rendu difficile d’accès ce qui ne l’est pas. Ne mets pas ton génie à y chercher ce qui est mauvais pour cet équilibre. A toi de garder intact cet équilibre. La nature elle , sait très bien le garder, juste ne la trouble pas !
Je t’ai rendu absolument libre.
Tu es absolument libre de créer dans ta vie un paradis ou un enfer.

Je ne peux pas te dire s’il y a quelque chose après cette vie, mais je peux te donner un conseil : arrête de croire en moi de cette façon ; croire, c’est supposer, deviner, imaginer. Je ne veux pas que tu crois en moi, je veux que tu me sentes en toi. Que tu me sentes en toi quand tu t’occupes de tes moutons , quand tu abordes ta petite fille, quand tu caresses ton chien, quand tu te baignes dans la rivière…. Exprime ta joie et habitue-toi à prendre juste ce dont tu as besoin !
La seule chose sûre, c’est que tu es là, que tu es vivant, que ce monde est plein de merveilles…et que dans toutes ces merveilles tu es capable de savoir exactement ce dont tu as vraiment besoin.
Ne me cherche pas en dehors, tu ne me trouveras pas…. Je suis là …La nature, le cosmos…c’est moi.

Baruch SPINOZA

L’Éthique de Spinoza (1/4) : De Dieu

L’Éthique de Spinoza (2/4) : De l’esprit

L’Éthique de Spinoza (3/4) : Affects et servitude

L’Éthique de Spinoza (4/4) : De la liberté humaine

https://www.franceculture.fr/conferences/ecole-normale-superieure/lethique-de-spinoza-est-il-ethique?fbclid=IwAR0GYsAwvqvyLAoRtxXKU5adGEMHE56dUFwQH9wUtfwWbtYU7LVZxBUGRkw

TOURADAS SEM SANGUE, RACISMO, VIOLÊNCIA AMERICANA E PEQUENAS PROVOCAÇÕES LOCAIS | José Gabriel Pereira Bastos

Alguém me convoca céptica e provocatoriamente para que eu “explique” porque é que as touradas causam tanta indignação a tanta gente e a mim não.

Respondi.

Transfiro para aqui a resposta porque abarca muito mais variáveis, identitárias, históricas, sociais, políticas, e até a minha experiência Californiana directa sobre a Universidade, a tourada sem sangue e a interdição de realizar investigações sobre processos identitários, indiciadores de racismo, em Berkeley e San José. Aí vai a minha resposta, que pode interessar a muitos mais interlocutores não meramente provocatórios, egocêntricos e surdos:

“Talvez seja, J., porque muitíssimas pessoas têm vistas curtas e vivem desinformadas e sem terem qualquer pesquisa pessoal sobre o que de tão grave se passa no mundo – com tropas americanas a invadir o Afeganistão, a destruir o Iraque e a tentar destruir a Síria, a assassinar Presidentes do Iraque e da Líbia, tornando este país ingovernável e entregue a senhores da Guerra, como está a acontecer no Iemen, e se prepara que venha a acontecer no Irão, com centenas de milhar de mortos e muitos milhões de deslocados.

E com a promoção de crises financistas que criam o caos económico, social e político na Venezuela e no Brasil, deixando pessoas à fome, na tentativa de mudar para a direita capitalista governos populares de países que são grandes produtores de petróleo, como os do Médio Oriente islâmico e, não por acaso, a Venezuela e o Brasil, os maiores produtores de petróleo para além dos Estados Unidos e da Arábia Saudita e Emiratos, (aliados dos Americanos), e dos Russos, fortemente atingidos pela crise financista manipulada a partir de Wall Street, da City e de Frankfurt.

“Jogos” geo-estratégicos capitalistas do “Ocidente” que destroem países e famílias – dramas imorais que passam fora do olhar, da indignação e do pensamento dos adeptos da Natureza, com uma enorme iliteracia histórica, económica e política mas com enormes cuidados com os seus animaisinhos de sala.

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A Náusea | Jean Paul Sartre

Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea. Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante? Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta. Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca… E subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi. A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.

Jean-Paul Sartre

Mulhererengos, femeeiros e outros | Tiago Salazar

Consta, na mais recente biografia de José Saramago, escrita por Joaquim Vieira, haver uma faceta menos conhecida de Saramago, a de um machista. Cresci a ouvir histórias de escritores galifões, casados e pais de filhos, mas dados a conquistas e investidas a eito, mais ou menos consentidas. Por exemplo, só para nomear alguns, José Cardoso Pires, António Lobo Antunes, David Mourão Ferreira, Baptista Bastos, ou, o mais exortado, o pintor de vulvas Henry Miller.
A propensão para o excesso deu cabo de alguns matrimónios e relações, embora muitos se mantivessem casados e as suas mulheres no silêncio. Outras, como Paula Rego ou Frida Kahlo, apesar do muito amor e da felicidade conjugal, seguiram o mesmo instinto. Por ajuste de contas ou paridade. A questão é bicuda: talvez se o ponto de partida fosse cordato não houvesse dominadores e dominados, ou vinganças ao retardador sobre o pressuposto de que ele (ou ela) não eram assim. Talvez o amor exclusivo seja raro, e a arte nascida de grandes amores um mero narcisismo.

Tiago Salazar

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

Para vinho novo, odres novos | FREI BENTO DOMINGUES O.P. in Jornal Público

Bergoglio retomou a verdade do axioma sobre o ecumenismo: Ecclesia semper reformanda.

1. Como diz o físico Carlo Rovelli, a natureza do tempo talvez seja o maior mistério. Estranhos fios o ligam aos grandes mistérios não resolvidos: a natureza da mente, a origem do Universo, o destino dos buracos negros, o funcionamento da vida. A dança a três gigantes do pensamento – Aristóteles, Newton e Einstein – levou-nos a uma mais profunda compreensão do tempo e do espaço: existe uma estrutura da realidade que é o campo gravitacional; esta não é separada do resto da física, não é o palco em que o mundo flui: é uma componente dinâmica da grande dança do mundo, semelhante a todas as outras; interagindo com as outras, determina o ritmo das coisas a que chamamos fitas métricas, relógios e o ritmo de todos os fenómenos físicos. Pouco depois, o próprio Einstein verificou que esta não era a última palavra sobre a natureza do espaço e do tempo [1]

Há mais de dois mil anos, depois de João Baptista ter sido preso, Jesus foi para a Galileia proclamar: “completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos – mudai de vida – e acreditai no Evangelho”, se quereis que o mundo encontre a perfeita alegria [2].

Quando S. Marcos escreve isto, já o Espirito de Cristo tinha assumido outro ritmo do tempo: o dos jovens com visões novas e dos velhos renascidos, cheios de sonhos de um mundo outro [3]. Cedo, porém, se deram conta de que o tempo e o espaço das Igrejas não eram um palco em que elas se pudessem desenvolver, puras e santas, sem estranhas interacções religiosas, sociais, económicas ou políticas, desde o Pentecostes até hoje. A necessidade de reformas faz parte da sua história.

Em Novembro de 1950, Yves Congar, O.P. publicou uma obra famosa, Vraies et fausses réformes dans l´Église, que lhe causou muitos e graves sofrimentos romanos. Angelo Roncalli, futuro João XXIII, era, nessa altura, núncio em Paris. Este livro, sublinhado página a página, fazia parte da sua biblioteca. Eleito Papa, recupera o maldito Congar e as suas perspectivas de reforma. É inspirado nele que concebe o Vaticano II, como um concílio de aggiornamento da Igreja no mundo contemporâneo.

O Vaticano I (1869-1870) tinha concentrado tudo no primado do Papa e na sua infabilidade, quando se pronunciava ex-cathedra, em assuntos de fé e de moral. Era tudo resolvido por ele e pela cúria. Pio XII foi o último da famosa série os Pios.

Na preparação do Vaticano II, a herança da Cúria e do chamado “Santo Ofício” tentaram controlar os desvarios de João XXIII. Não conseguiram.

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A Idade das Trevas Chegou por Las Vegas ou Todos os Homens são culpados até provas em contrário | Raquel Varela

Não sei se todos compreenderam a gravidade do que se passou esta semana em Portugal. O caso Ronaldo não é caso Ronaldo, é o mote para a defesa do fim da presunção de inocência. É isso que os acusadores de Ronaldo querem introduzir no ordenamento jurídico português. Várias pessoas vieram a público esta semana, entre elas o ex-ministro Rui Pereira no Correio da Manhã, ou mulheres e homens nos jornais de referência, afirmar com base em «estudos» que as vitimas de abusos sexuais não mentem, deve-se presumir que os homens são culpados até prova em contrário. Bom, sobre as “mulheres não mentem” deixarei para outro artigo – merece um à parte. Quero agora ir ao central.

Não escrevi que o Metoo era conservador e reaccionário sem reflectir bem sobre isso – conheço o tema por dentro há anos. Embora pareça de esquerda, porque é «amigo das vítimas», trata-se de uma reacção mundial conservadora em curso em vários países que defende que em nome da segurança deve-se diminuir a liberdade. Este é todo o centro da questão. Tudo o resto que se tem debatido é colateral.

O que está em causa não é a defesa das mulheres com quem poucos se preocupam, desde logo com a defesa de segurança no emprego, creches públicas, diminuição de horários de trabalho, salários, etc, o que está em causa no caso Ronaldo é a defesa da restrição das liberdades – tema caro a muitos.

Está em curso uma proposta global de alteração dos ordenamentos jurídicos democráticos, feita a partir da desigualdade de género para ter verniz de progressista. É aliás por isso que além de esquerdistas desesperados o maior palco da defesa deste valor medieval do fim da irreversibilidade do ónus da prova e o fim da presunção de inocência sejam os jornais da direita liberal norte-americanos, onde todos os dias há uma denúncia de uma mulher e se enxovalha o nome de qualquer homem porque à partida ele é culpado. É isso que faz com que seja permitido publicar tais artigos sem provas, ou investigação, apenas com o testemunho da mulher. Ora isto é nada mais nada menos do que colocar todos os homens sob suspeição e na arbitrariedade total na mão das mulheres.

O argumento é que em nome da vítima podem-se inverter os princípios jurídicos democráticos. A segurança exige suspensão parcial da democracia – numa palavra é isto o Metoo. Uma forma de totalitarismo.

Que nenhum homem e mulher se cale nesta hora. Não é só a liberdade sexual que está em causa com a mercantilização e o puritanismo do Metoo, nem a banalização do crime gravíssimo de violação. É algo ainda mais grave porque é uma politica de Estado. Hoje são os homens, amanhã são os grevistas, depois os dirigentes “subversivos”, os trabalhadores e os imigrantes, e por aí fora. Consonante a relação de forças de quem comanda o Estado e tem força nos media. É altura de gritarmos alto que esta barbárie jurídica representa um atentado à liberdade, são as trevas da reacção neoliberal, apesar de chegar da cidade mais iluminada do mundo, de um casino cintilante. Sim, o Metoo são as trevas anti iluministas e anti socialistas que chegaram cheias de luz e ideias de igualdade.

Às mulheres, vitimas de abuso sexual, devem ser dadas medidas públicas onde não se pode poupar um euro de protecção jurídica imediata (não é com julgamentos morosos), deve ser dada ajuda psicológica de alta qualidade, os melhores psiquiatras devem ser contratados pelo Estado para estar ali a ajudar nas denúncias, nos traumas, e em todas as consequências, temos que ter casas de abrigo, toda a protecção. Mas jamais acabar com a presunção de inocência.

Não, o mais odioso dos crimes – e para mim a violação é moralmente equiparada a homicídio ou lá perto, é destruir a vida de alguém, por isso não é compatível com penas ridículas – não justifica a suspensão de uma única liberdade democrática. Quem na esquerda progressista não compreender isto e não tiver coragem de se opor sem medo ficará com o ónus de dar poderes discricionários ao Estado, poderes que cairão como uma pedra na cabeça de toda a esquerda, homens e mulheres, em poucos anos. Basta uma pequena alteração na relação de forças para que todos os grevistas sejam culpados de subversão da economia e bem estar nacional ou coação e ameaça ao patrão, chantagem ao gestor, ataque à integridade física do encarregado na fábrica, chantagem ao director – culpados todos, até prova em contrário. E muitos dos grevistas serão naturalmente mulheres e serão destruídas publicamente, e na sequência, juridicamente, porque à partida serão “culpadas”.

A liberdade não é uma palavra. É a essência de toda a vida civilizada. Defendê-la é defender a humanidade.

Raquel Varela

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

A bala | Geraldo Alckmin

O desemprego, as filas na saúde, a fome e outros problemas que atingem principalmente os grupos mais vulneráveis da nossa população não serão resolvidos na bala. Tem que ter experiência, responsabilidade e determinação para unir o Brasil e fazer as mudanças que o nosso país precisa. Assista ao vídeo da campanha de Geraldo Alckmin 45!

(O comercial é uma adaptação da premiada campanha inglesa “kill the gun”.)

Por Francisco | Carlos Zorrinho

Com as “guerras santas” a serem travadas um pouco por todo o globo e os escândalos mundanos dilacerando as diferentes igrejas, é importante refletir sobre a condição humana na sua complexidade espiritual e racional, face aos novos contextos da vida moderna.

A vida é antes de mais uma experiência que permite formar a consciência de que se existe e partir daí para todas as interrogações sobre o seu sentido. A experimentação do sagrado é uma forma de consciencialização que tem vindo a perder terreno face a tudo aquilo que a modernidade oferece ao Homem como experiências múltiplas, científicas, desportivas, artísticas, profissionais, sensoriais, relacionais ou outras. Experiências devidamente certificadas, embaladas, com folheto de instruções e prazos de validade.

O vazio da experiência, quando existe, tende a ser preenchido pela norma ou pelo estabelecido, naquilo a que podemos chamar fé nas suas diversas demonstrações e aplicações. Neste contexto, o espaço para o inesperado, para o deslumbramento puro, para a sensação forte, para a descoberta encantadora é cada vez menor.

É neste quadro de exaltação extrema da experiência organizada para ser consumida até ao limite do vazio e do acantonamento da fé, reservada para compor, quando é caso disso, os buracos negros da consciência, que emerge a força da tentação mesmo onde ela seria menos expectável.

Os recentes escândalos de práticas pecaminosas por dignitários da igreja católica, designadamente de práticas de pedofilia, são um alerta e um apelo ao retorno à simplicidade e ao reencontro dos indivíduos consigo mesmos e com a sua natureza, seja qual for a missão específica que desempenham na comunidade em que vivem.

O conservadorismo ultramontano que agora critica abertamente Francisco, ao impor no passado medidas não naturais como o celibato obrigatório dos Padres, ajudou a construir a teia onde agora quer prender os que demonstram uma mente mais aberta aos desafios dos novos tempos.

Uma das razões pelas quais Francisco é um Papa respeitado muito para além dos fieis da igreja que chefia é o seu sentido forte de relação com o que é natural, com a perservação do planeta, com o respeito pelas culturas e pelas diferenças e com a dignidade como direito matricial do ser humano.

Que Francisco continue a ser iluminado e a iluminar-nos, para que o sagrado e a fé, combinados à medida da consciência de cada um, nos afastem das tentações destrutivas e degradantes que corroem partes importantes da nossa sociedade.

Carlos Zorrinho

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Zorrinho

The Ignorant Do Not Have a Right to an Audience | By Bryan W. Van Norden, professor of philosophy | in New York Times

On June 17, the political commentator Ann Coulter, appearing as a guest on Fox News, asserted that crying migrant children separated from their parents are “child actors.” Does this groundless claim deserve as much airtime as, for example, a historically informed argument from Ta-Nehisi Coates that structural racism makes the American dream possible?

Jordan Peterson, a professor of psychology at the University of Toronto, has complained that men can’t “control crazy women” because men “have absolutely no respect” for someone they cannot physically fight. Does this adolescent opinion deserve as much of an audience as the nuanced thoughts of Kate Manne, a professor of philosophy at Cornell University, about the role of “himpathy” in supporting misogyny?

We may feel certain that Coulter and Peterson are wrong, but some people feel the same way about Coates and Manne. And everyone once felt certain that the Earth was the center of the solar system. Even if Coulter and Peterson are wrong, won’t we have a deeper understanding of why racism and sexism are mistaken if we have to think for ourselves about their claims? And “who’s to say” that there isn’t some small fragment of truth in what they say?

If this specious line of thought seems at all plausible to you, it is because of the influence of “On Liberty,” published in 1859 by the English philosopher John Stuart Mill. Mill’s argument for near-absolute freedom of speech is seductively simple. Any given opinion that someone expresses is either wholly true, partly true or false.

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O Lado Oculto – Antídoto para a propaganda global | José Goulão

“O LADO OCULTO” COMEÇA A GANHAR VIDA

O semanário electrónico por assinaturas “O Lado Oculto – Antídoto para a propaganda global” começa a ganhar vida e espaço.
Hoje apresenta-se o logótipo da newsletter e do site e no dia 24 de Agosto enviaremos o Número Zero para todos os endereços de e-mail que temos continuado a receber em número apreciável. Nesse número experimental de apresentação serão fornecidas todas as informações para concretização das assinaturas. 

A partir de 7 de Setembro começarão as edições regulares, todas as sextas-feiras. Os assinantes receberão uma newsletter com links que os remeterão para os artigos a publicar no site – www.oladooculto.com

Recorda-se que as modalidades de assinaturas serão 16 euros/ano, 10,50 euros/semestre, 3,20 euros/6 números, valores incluindo IVA. Quem estiver interessado e ainda não formalizou o interesse em receber o Número Zero no seu e-mail pode fazê-lo agora para o endereço definitivo de assinaturas:  assinantes@oladooculto.com

De volta à Universidade | 9 a 13 de Julho | José Gabriel Pereira Bastos

De volta à Universidade, vou, pela primeira vez, poder testar em público, com quem quiser vir, a minha concepção pós-freudiana da psicanálise, como (única) Teoria Geral da Acção Humana (disponível), equivalente epistemológico, pela sua abrangência, da Teoria do Tudo cósmico, de Hawking e da Teoria Evolucionista de Darwin – uma Grande Teoria do Tudo Humano, preocupada com a Análise das Produções Culturais, com a análise dos Processos Narcísicos e com o Mal-Estar na Civilização – uma Ciência de tipo novo, transversal e integrativa, totalmente irredutível às disciplinas gestionárias e à ‘clínica das neuroses’ em que os ‘profissionais’ gostam de a encerrar, longe das vistas do ‘público’.

A Grande Inteligência é Sobreviver | Gonçalo M. Tavares

A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

Gonçalo M. Tavares, in “Investigações”

Parábola | A Verdade e a Mentira

Diz uma parábola judaica que certo dia a mentira e a verdade se encontraram.

A mentira disse para a verdade:
– Bom dia, dona Verdade.
E a verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva, vários pássaros cantavam e vendo que realmente era um bom dia, respondeu para a mentira:
– Bom dia, dona mentira.
– Está muito calor hoje, disse a mentira.
E a verdade vendo que a mentira falava a verdade, relaxou.
A mentira então convidou a verdade para se banhar no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:
-Venha dona Verdade, a água está uma delícia.
E assim que a verdade sem duvidar da mentira tirou suas vestes e mergulhou, a mentira saiu da água e vestiu-se com as roupas da verdade e foi embora.
A verdade por sua vez recusou-se a vestir-se com as vestes da mentira e por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar na rua.
E aos olhos de outras pessoas era mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade, do que a verdade nua e crua.

Retirado do Facebook | Mural de Marialva Almeida