Os caridosos nunca deixarão os pobres sair da pobreza | Inês Salvador

Cilinha sabia que de tudo que sabia o que mais lhe valia era a beleza da juventude. Foi no tempo da revolução, era eu ainda muito miúda. Muito miúda era o disfarce do tempo com que rematava a existência. Nunca poderia ter muita idade, se tudo o que sabia lhe vinha de ter de sido muito miúda a todo o tempo de todas as datas. Mas muito miúda já não lhe servia. Sempre que dizia muito miúda sentia os olhos interlocutores percorrerem-lhe o socalco das rugas. Os caridosos nunca deixarão os pobres sair da pobreza, diz-me a minha intuição. Cilinha passou a fazer da longevidade da própria vida um oráculo, uma bola de cristal que consultava por intuição. Cilinha nunca envelheceu. Morreu bela e jovem, como um vampiro da vida.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

In memoriam of Raymond Smullyan: An unfortunate dualist | Arlindo L. Oliveira in “Digital Minds”

arlindo oliveiraMind-body Dualists believe there are two different realms that define us. One is the physical realm, well studied and understood by the laws of physics, while the other one is the non-physical realm, where our selves exist. Our essence, our soul, if you want, exists in this non-physical realm, and it interacts and controls our physical body through some as yet unexplained mechanism. Most religions are based on a dualist theory, including Christianity, Islam, and Hinduism.

On the other side of the discussion are Monists, who do not believe in the existence of dual realities.  The term monism is used to designate the position that everything is either mental (idealism) or that everything is physical (materialism).

Raymond Smullyan, deceased two days ago (February 10th, 2017),

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had a clear view on dualism, which he makes clear in this history, published in his book This book needs no title.

An Unfortunate Dualist

Once upon a time there was a dualist. He believed that mind and matter are separate substances. Just how they interacted he did not pretend to know-this was one of the “mysteries” of life. But he was sure they were quite separate substances.
This dualist, unfortunately, led an unbearably painful life-not because of his philosophical beliefs, but for quite different reasons. And he had excellent empirical evidence that no respite was in sight for the rest of his life. He longed for nothing more than to die. But he was deterred from suicide by such reasons as: (1) he did not want to hurt other people by his death; (2) he was afraid suicide might be morally wrong; (3) he was afraid there might be an afterlife, and he did not want to risk the possibility of eternal punishment. So our poor dualist was quite desperate.

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A ascensão da nova ignorância | José Pacheco Pereira in “Público”

jpp-200Nada é mais significativo e deprimente do que ver pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel.

Entre os temas tabu dos nossos dias está a ignorância. Parece que falar da ignorância coloca logo quem o faz numa situação de arrogância intelectual, o que inibe muita gente de a nomear. Mas não há muita razão para se enfiar essa carapuça, tanto mais que o problema é enorme e está agravar-se e a assumir novas formas, socialmente agressivas. Acompanha outro tipo de fenómenos como o populismo, a chamada “pós-verdade”, a circulação indiferenciada de notícias falsas, e, o que é mais grave, a indiferença sobre a sua verificação. Não explica, nem é a causa de nenhum destes fenómenos, mas é sua parente próxima e faz parte da mesma família. É, repetindo uma fórmula que já usei, como se de repente se deixasse de ir ao médico, e se passasse a ir ao curandeiro.

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Fazer amigos ao estilo FACEBOOK | António Serra

nua02-200Actualmente, estou a tentar fazer amigos fora do Facebook… mas usando os mesmos princípios.
Todos os dias saio à rua e durante alguns metros acompanho as pessoas que passam e explico-lhes o que comi, como me sinto, o que fiz ontem, o que vou fazer mais tarde, o que vou comer esta noite e mais coisas.
Entrego-lhes fotos da minha mulher, da minha filha, do meu cão, minhas no jardim, na piscina, e fotos do que fizemos no fim de semana.
Também caminho atrás das pessoas, a curta distância, ouço as suas conversas e depois aproximo-me e digo-lhes que “gosto” do que ouvi, peço-lhes que a partir de agora sejamos amigos e também faço algum comentário sobre o que ouvi. Mais tarde, partilho tudo quando falo com outras pessoas.


E funciona…

Já tenho 3 pessoas que me seguem…
São dois polícias e um psicólogo.


P.S: Boas Festas e que 2017 seja um ano com muita saúde , repleto das maiores realizações pessoais e profissionais de todos os amigos ou não , que lerem ou não, este texto.

Retirado do Facebook | Mural de Antóno Serra

Nota: Foto selecionada pelo Coordenador do Blog

“Vivemos um tempo de secreta angústia: o amor é mais falado que vivido” | in “Revista Pazes” | Texto de Luciana Chardelli

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”.

Zygmunt Bauman

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.

O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.

Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.

Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”. Zygmunt Bauman

bauman

Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês. Serviu na Segunda Guerra Mundial pelo exército da União Soviética e conheceu sua esposa, Janine Bauman, nos acampamentos de refugiados polacos. Wikipédia
Nascimento: 19 de novembro de 1925 (90 anos), Poznań, Polônia
Nacionalidades: Britânico, Polonês
Ver: http://www.revistapazes.com/amor/

Adonis [Ali Ahmad Said Esber] | Poeta Sírio | in revista do jornal “Expresso”

adonisTambém escreveu muita poesia das ruínas. Poemas sobre Beirute, sobre a cidade como inferno. Cidades onde a guerra e a violência são uma constante.

Isso está ligado também ao monoteísmo. A visão monoteísta do mundo deformou as relações do homem com o homem, do homem com a natureza, do homem com o além da natureza. Deformou tudo. O monoteísmo colonizou o nosso cérebri e não podemos ver a realidade do universo se não nos libertarmos desse fechamento do mono teísmo. É esse actualmente o nosso grande problema, não apenas no mundo árabe mas também no mundo ocidental.

A certa altura diz que o nosso tempo “não sabe ler senão o livro do assassínio”.

Não posso imaginar que o ser humano, que foi criado à imagem de Deus, seja selvagem, e mais selvagem do que os animais selvagens. Mesmo o animal selvagem só mata os outros animais para se alimentar, mas um ser humano mata outro ser humano por maldade.

Essa desumanidade não o desencorajou?

Não, eu acredito no ser humano, acredito no Homem. Mas as culturas monoteístas tornaram-se prisões contra a alegria, contra o corpo, contra a criatividade, contra tudo. O grande combate intelectual do mundo é saber como ultrapassar o monoteísmo e a sua cultura. É esse o nosso problema comum.

http://expresso.sapo.pt

Conferência “O regresso dos intelectuais em tempo de crise”

intelectuais

Conferência “O regresso dos intelectuais em tempo de crise”
Dia 27 de Setembro, às 18h30, no Restaurante, no Piso 7 do El Corte Inglés.

A conferência de abertura, dirigida pelo Professor Mário Mesquita, contará com o Professor Eduardo Lourenço como principal orador.

Será razoável dizer que, após o tempo do “declínio (ou desaparecimento) dos intelectuais”, estamos na fase do “regresso dos intelectuais”? A admitirmos esse “regresso” do início do século XXI, retomar-se-ão as sucessivas configurações do “intelectual liberal”, do “intelectual orgânico”, do “intelectual comprometido” e do “intelectual específico”? Ou a figura dominante será a dos coletivos – centros de investigação, “think tanks”, organizações não governamentais e outras ? Que lugar desempenha a nova configuração do “intelectual mediático” (ou apenas do “intelectual nos media”)? Qual a sua relação (ou sobreposição) com outros “intermediários culturais”, em especial com os jornalistas? Qual a fronteira, se existe, entre intelectuais e especialistas? Esta sucessão de perguntas estará presente neste ciclo de conferências, num tempo em que o desenvolvimento da sociedade em rede significa, paradoxalmente, multiplicação de atores no espaço público e falta de referências.

Inscrições disponíveis, no Ponto de Informação no piso 0 do El Corte Inglés Lisboa ou através do e-mail relacoespublicas@elcorteingles.pt

a felicidade e a inocência | Luís Pedro Nunes

pode-se fotografar a felicidade e a inocência? sim. estava o Alfredo e eu a abrigar-nos de uma chuva quente na ilha de Bolama, Guiné, quando ele tirou esta foto. Das milhares de imagens que trouxe das nossas viagens há uma pureza encantada nesta coreografia que não me cansa e me atrai o olhar quase diariamente (tenho a foto numa parede em casa) . estes miúdos jogam à bola, à chuva, numa liberdade feliz. Riem com um riso tão solto e habituado a sair que sabemos que eles têm qualquer coisa que perdemos há muito. esta é a foto que capturou a felicidade a ser.

felicidade

Retirado do Facebook | Mural de Luís Pedro Nunes

Cosmopolitismo das diferenças | André Barata

andre_barata_200Cada vitória da integração e da convivialidade é uma derrota da exclusão e uma derrota do ódio do excluído. Integração e convivialidade sob um pressuposto claro: o do direito igual a ser como se prefere ser conjugado com o reconhecimento da reciprocidade universal a esse direito no espaço comum partilhado. Cosmopolitismo das diferenças — é disto que precisamos para desarmadilhar a tentação da radicalização e deixar a pregar para as paredes os fundamentalistas. Conviver com burkinis livremente vestidos não é uma cedência. É uma vitória contra dois obscurantismos: o dos fundamentalistas e o do laicismo persecutório que, sem ceder a comparações, também se obceca com mulheres e com o que elas vestem.

Retirado do Facebook | Mural de André Barata

Abraços | André Barata

Agora que os abraços se tornaram assunto de comentário político, eis dois abraços, dos amantes Rivera e Frida Khalo, mas que não são abraços de amantes. Um de campesinos e fraternidade, outro cósmico e que tudo teria assim de ligar. Dá que pensar esta figura da ternura. Damos e recebemos abraços. Alguns são cumprimento, como os beijos, códigos de aceitação e convívio leais que importa cumprir, precisamente. E há abraços e beijos que não estão para nada como signo, que não cumprimentam, não cumprem, não meneiam código nenhum. Acontece com o beijo dos amantes, que não admite representantes e representados. Mas o mesmo abraço sem representação não é apenas de amantes. É também de pais para filhos, e entre grandes amigos, que nos falta tantas vezes abraçar, de vítimas e salvadores que precisamos de abraçar. Talvez nenhuma outra cumplicidade corporal exprima o amor para lá de todas as suas figurações, o dos amantes, dos pais, dos amigos, dos irmãos. Em todos, há um abraço que cinge e acolhe a fragilidade, até a respiração, amparo de tudo o resto.

De Diego Rivera (pormenor de “El abrazo y campesinos), outro de Frida Khalo (“El abrazo de amor de El universo, la tierra (México), Yo, Diego y el señor Xólotl”)

Retirado do Facebook | Mural de André Barata

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KATEB YACINE | 929-1989 | Dictionnaire amoureux de l’Algérie | Malek Chebel

Kateb - 200Il est le seul algérien à s’être constitué un nom qui demeure indissociable de la culture de son pays, un patronyme que nul ne peut ignorer car, que l’on dise Kateb, ou Yacine, et à fortiori Kateb Yacine, chacun sait de qui on parle.

Son livre le plus célèbre, est un livre testament, dont le titre emblématique est Nejma ,parut au seuil en 1956. C’est un livre différent de ses autres ouvrages, à la foi en raison de sa structure complexe, en miroir, de ses fulgurances et de sa progression décalée. Livre utérin par excellence, livre de pensées complexes et de projection collectives livre d’encre et de sang. Nejma, dont le nom renvoie à une éventuelle cousine, ne cessera d’interroger l’Algérie à laquelle il s’identifie par le genre et dont il transposera le projet existentiel au plan de l’esthétique romanesque.
Dans ce capharnaüm du lendemain de la seconde guerre mondial, là bas, dans la colonie encore docile, Kateb sera durement affecté par les émeutes du 8 mai 1945, à Sétif, là même où la révolution algérienne allait prendre son envol.
D’un côté, la joie des indigènes apprenant la libération de la France valait adhésion explicite : de l’autre les tirailleurs rentrés au Bled commirent un pêcher de lèse-majesté en réclamant avec véhémence que l’on tint au plus haut niveau de l’Etat, les promesses faites au moment où on les enrolait en vue de sauver la patrie menacée par les allemands.

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Joana Emídio Marques | As selfies são menos uma expressão da nossa vaidade do que do nosso desespero

joanaComo bem sabiam os mitos nunca resistimos ao fascínio de ver a nossa própria imagem duplicada. As novas tecnologias, actuando como sempre, no âmago dos nossos fantasmas e dos nossos medos, deram-nos o instrumento perfeito: o lago portátil, o espelho que se pode colocar no meio da praça publica. As selfies são menos uma expressão da nossa vaidade do que do nosso desespero. Como se, predados pela morte omnipresente, quiséssemos resgatar qualquer coisa da passagem do nosso corpo pelo mundo antes da dissolução, do esquecimento que seremos.

Retirado do Facebook | Mural de Joana Emídio Marques

O Amor é mais falado do que vivido e por isso vivemos um tempo de secreta angústia | Zygmunt Bauman

Bauman-200O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.

O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.

Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.

Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”.

Zygmunt Bauman | sociólogo polaco

 

a pior das discriminações | Inês Salvador

Ines Salvador -200Andam por aí a dizer que o Príncipe Carlos de Inglaterra é gay, como se isso fosse uma coisa má. Que tristeza de mundo este em que a orientação sexual serve de motivo de conversa, serve para vender revistas. Já agora, se ainda não repararam, o Príncipe Carlos é branco, de raça branca, não é de outra raça qualquer, e não, não é possível que se venha a descobrir outra raça ao Príncipe Carlos, porque se fosse, também se descobria, e também como se isso fosse uma coisa má, que não é, é indiferente. Nada disto devia ter importância nenhuma, a importância que tem é porque o Príncipe Carlos não é pobre. Se fosse pobre e gay já não tinha importância nenhuma, porque a pior das discriminações, a mais terrível, a mais segregadora, é a discriminação económica, a discriminação socioeconómica, a de estatuto social, de classe social, o que lhe queiram chamar. O Príncipe Carlos, se fosse pobre, não era gay, a ser, não passaria de um paneleiro qualquer.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Guardador de Rebanhos (Poemas Completos) | Alberto Caeiro

 

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I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

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Morgan Freeman Travels to Uncover the Mysteries of Creation in ‘Story of God’

Quem é Deus? De onde vimos? Por que é que o mal existe? O que acontece quando morremos? Estas são alguma das questões às quais anova série do National Geographic, A História de Deus, pretende responder. O primeiro episódio estreia este domingo em Portugal.

Produzida pelo ator Morgan Freeman e por Lori McCreary e James Younger, da Revelation Entertainment, a série A História de Deus, composta por seis episódios, é uma viagem à volta do mundo e uma exploração de diferentes culturas e religiões à procura do significado da vida e de Deus. Cada episódio, apresentado por Freeman, centra-se numa questão sobre o divino, que vai desde o mistério da Criação ao poder dos milagres e à ressurreição.

No primeiro episódio, “Depois da Morte”, que irá estrear este domingo no canal National Geographic, às 22h30, o ator norte-americano irá partir em busca de uma explicação para a obsessão humana com o que acontece depois da morte. No próximo domingo, dia 10 de abril, será a vez de “Apocalipse”, sobre as crenças populares que procuram descrever como será o fim do mundo.

VER AQUI: OBSERVADOR

a tolerância alavanca-se na intolerância de intolerâncias | José Filipe da Silva

jose filipeA Europa do pós-guerra cultivou a tolerância, em todos os azimutes comportamentais, como timbre da sua elevação civilizacional. Por estranho e cacofónico que possa soar, a tolerância alavanca-se na intolerância de intolerâncias e, se assim não for, é mera submissão, abdicação de liberdade. Não podemos compactuar com fundamentalismos bárbaros e assassinos, temos que ser actuantes. Por uma questão de premência, anular numa primeira fase os efeitos e, numa segunda fase, por mais complexo e moroso, tratar das causas. O islamismo radical (eventualmente um pretenso islamismo), põe em causa o islamismo moderado que partilha uma paz ecuménica. No fervor das soluções possíveis, arrisca-se fazer pagar o justo pelo pecador. Para combater o radicalismo islâmico é preciso estar-lhe próximo, sendo que é o islamismo moderado que usufrui dessa proximidade. As ovelhas negras não podem viver camufladas pelas ovelhas brancas, gostaríamos de ver o verdadeiro islamismo na primeira linha desta luta.

José Filipe da Silva

2016-03-24

O Amor está no virtual | Inês Salvador

Ines - 200A gosta da foto de perfil de B
A gosta de mais uma foto de perfil de B
A gosta de várias fotos de perfil de B
A gosta de posts B
A gosta da página da empresa onde trabalha B
A comenta fotos e posts de B com elogios superlativos e graçolas e (im)pertinências dispensáveis
A gosta da foto de perfil de C
A gosta de mais uma foto de perfil de C
A gosta de várias fotos de perfil de C
A gosta de posts C
A comenta fotos e posts de C com elogios superlativos e graçolas e (im)pertinências dispensáveis
A tornou-se amigo D, E, F, H…
A gosta da foto de perfil de D
A gosta de mais uma foto de perfil de D
A gosta de várias fotos de perfil de D
A gosta de posts D
A comenta fotos e posts de D com elogios superlativos e graçolas e (im)pertinências dispensáveis
A foi bloqueado por B
B é agora amigo de C
A repete a receita com E, F, G, H…
A falou no chat com B, C, D, E, F, G, H…
I, J L, M, N sabem quem é A
A arrasta-se no alfabeto virtual da sua não existência.
A morreu de amor virtual.

Retirado sem autorização do Facebook | Mural de Inês Salvador

Racismo é crime e devemos combatê-lo todo dia… | Valdeck Almeida de Jesus

Racismo_eh_Crime_valdeck (1)“Um dia um homem branco me falou, que no Brasil não tem branco… mas quando olho em todo canto, eu vejo o branco dominando…”

Giovane Sobrevivente
Poeta e Ativista Cultural

Posso começar este texto com as afirmações “sou racista, sexista, machista, homofóbico, gordofóbico, xenófobo, intolerante religioso…”, pois vivo em um país de desigualdades e de discriminações e aprendi na infância, na adolescência e juventude, através do discurso dominante, inconscientemente, a negar a existência dessas desigualdades e discriminações. Também posso começar o mesmo texto dizendo que estou em processo de educação ao participar de debates, mesmo quando fico somente ouvindo, calado; quando vou a eventos onde se discute a desconstrução de toda e qualquer forma de discriminação e dou, apenas, pequenas contribuições.
Nesse sentido convido a todos os brancos e brancas, meus conhecidos ou não, a se irmanarem num grande debate sobre a humanidade negra, pra fazer um exame de consciência sobre o assunto, expor suas ideias e pensamentos, participar da luta contra os privilégios. É hora de cada um dos privilegiados começar a abrir corações e espaços de poder para que o debate seja posto, incluindo, certamente, recortes de raça, gênero e expressão sexual. Cito aqui grupos que poderão se sentir incluídos nesse chamado: juízes, advogados, delegados, deputados, senadores, vereadores, gestores públicos, governantes, prefeitos, presidentes, comando das polícias, jornalistas, escritores, artistas, empresários etc.
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