A bala | Geraldo Alckmin

O desemprego, as filas na saúde, a fome e outros problemas que atingem principalmente os grupos mais vulneráveis da nossa população não serão resolvidos na bala. Tem que ter experiência, responsabilidade e determinação para unir o Brasil e fazer as mudanças que o nosso país precisa. Assista ao vídeo da campanha de Geraldo Alckmin 45!

(O comercial é uma adaptação da premiada campanha inglesa “kill the gun”.)

Por Francisco | Carlos Zorrinho

Com as “guerras santas” a serem travadas um pouco por todo o globo e os escândalos mundanos dilacerando as diferentes igrejas, é importante refletir sobre a condição humana na sua complexidade espiritual e racional, face aos novos contextos da vida moderna.

A vida é antes de mais uma experiência que permite formar a consciência de que se existe e partir daí para todas as interrogações sobre o seu sentido. A experimentação do sagrado é uma forma de consciencialização que tem vindo a perder terreno face a tudo aquilo que a modernidade oferece ao Homem como experiências múltiplas, científicas, desportivas, artísticas, profissionais, sensoriais, relacionais ou outras. Experiências devidamente certificadas, embaladas, com folheto de instruções e prazos de validade.

O vazio da experiência, quando existe, tende a ser preenchido pela norma ou pelo estabelecido, naquilo a que podemos chamar fé nas suas diversas demonstrações e aplicações. Neste contexto, o espaço para o inesperado, para o deslumbramento puro, para a sensação forte, para a descoberta encantadora é cada vez menor.

É neste quadro de exaltação extrema da experiência organizada para ser consumida até ao limite do vazio e do acantonamento da fé, reservada para compor, quando é caso disso, os buracos negros da consciência, que emerge a força da tentação mesmo onde ela seria menos expectável.

Os recentes escândalos de práticas pecaminosas por dignitários da igreja católica, designadamente de práticas de pedofilia, são um alerta e um apelo ao retorno à simplicidade e ao reencontro dos indivíduos consigo mesmos e com a sua natureza, seja qual for a missão específica que desempenham na comunidade em que vivem.

O conservadorismo ultramontano que agora critica abertamente Francisco, ao impor no passado medidas não naturais como o celibato obrigatório dos Padres, ajudou a construir a teia onde agora quer prender os que demonstram uma mente mais aberta aos desafios dos novos tempos.

Uma das razões pelas quais Francisco é um Papa respeitado muito para além dos fieis da igreja que chefia é o seu sentido forte de relação com o que é natural, com a perservação do planeta, com o respeito pelas culturas e pelas diferenças e com a dignidade como direito matricial do ser humano.

Que Francisco continue a ser iluminado e a iluminar-nos, para que o sagrado e a fé, combinados à medida da consciência de cada um, nos afastem das tentações destrutivas e degradantes que corroem partes importantes da nossa sociedade.

Carlos Zorrinho

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Zorrinho

The Ignorant Do Not Have a Right to an Audience | By Bryan W. Van Norden, professor of philosophy | in New York Times

On June 17, the political commentator Ann Coulter, appearing as a guest on Fox News, asserted that crying migrant children separated from their parents are “child actors.” Does this groundless claim deserve as much airtime as, for example, a historically informed argument from Ta-Nehisi Coates that structural racism makes the American dream possible?

Jordan Peterson, a professor of psychology at the University of Toronto, has complained that men can’t “control crazy women” because men “have absolutely no respect” for someone they cannot physically fight. Does this adolescent opinion deserve as much of an audience as the nuanced thoughts of Kate Manne, a professor of philosophy at Cornell University, about the role of “himpathy” in supporting misogyny?

We may feel certain that Coulter and Peterson are wrong, but some people feel the same way about Coates and Manne. And everyone once felt certain that the Earth was the center of the solar system. Even if Coulter and Peterson are wrong, won’t we have a deeper understanding of why racism and sexism are mistaken if we have to think for ourselves about their claims? And “who’s to say” that there isn’t some small fragment of truth in what they say?

If this specious line of thought seems at all plausible to you, it is because of the influence of “On Liberty,” published in 1859 by the English philosopher John Stuart Mill. Mill’s argument for near-absolute freedom of speech is seductively simple. Any given opinion that someone expresses is either wholly true, partly true or false.

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O Lado Oculto – Antídoto para a propaganda global | José Goulão

“O LADO OCULTO” COMEÇA A GANHAR VIDA

O semanário electrónico por assinaturas “O Lado Oculto – Antídoto para a propaganda global” começa a ganhar vida e espaço.
Hoje apresenta-se o logótipo da newsletter e do site e no dia 24 de Agosto enviaremos o Número Zero para todos os endereços de e-mail que temos continuado a receber em número apreciável. Nesse número experimental de apresentação serão fornecidas todas as informações para concretização das assinaturas. 

A partir de 7 de Setembro começarão as edições regulares, todas as sextas-feiras. Os assinantes receberão uma newsletter com links que os remeterão para os artigos a publicar no site – www.oladooculto.com

Recorda-se que as modalidades de assinaturas serão 16 euros/ano, 10,50 euros/semestre, 3,20 euros/6 números, valores incluindo IVA. Quem estiver interessado e ainda não formalizou o interesse em receber o Número Zero no seu e-mail pode fazê-lo agora para o endereço definitivo de assinaturas:  assinantes@oladooculto.com

De volta à Universidade | 9 a 13 de Julho | José Gabriel Pereira Bastos

De volta à Universidade, vou, pela primeira vez, poder testar em público, com quem quiser vir, a minha concepção pós-freudiana da psicanálise, como (única) Teoria Geral da Acção Humana (disponível), equivalente epistemológico, pela sua abrangência, da Teoria do Tudo cósmico, de Hawking e da Teoria Evolucionista de Darwin – uma Grande Teoria do Tudo Humano, preocupada com a Análise das Produções Culturais, com a análise dos Processos Narcísicos e com o Mal-Estar na Civilização – uma Ciência de tipo novo, transversal e integrativa, totalmente irredutível às disciplinas gestionárias e à ‘clínica das neuroses’ em que os ‘profissionais’ gostam de a encerrar, longe das vistas do ‘público’.

A Grande Inteligência é Sobreviver | Gonçalo M. Tavares

A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

Gonçalo M. Tavares, in “Investigações”

Parábola | A Verdade e a Mentira

Diz uma parábola judaica que certo dia a mentira e a verdade se encontraram.

A mentira disse para a verdade:
– Bom dia, dona Verdade.
E a verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva, vários pássaros cantavam e vendo que realmente era um bom dia, respondeu para a mentira:
– Bom dia, dona mentira.
– Está muito calor hoje, disse a mentira.
E a verdade vendo que a mentira falava a verdade, relaxou.
A mentira então convidou a verdade para se banhar no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:
-Venha dona Verdade, a água está uma delícia.
E assim que a verdade sem duvidar da mentira tirou suas vestes e mergulhou, a mentira saiu da água e vestiu-se com as roupas da verdade e foi embora.
A verdade por sua vez recusou-se a vestir-se com as vestes da mentira e por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar na rua.
E aos olhos de outras pessoas era mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade, do que a verdade nua e crua.

Retirado do Facebook | Mural de Marialva Almeida

A lição de Saramago sobre a eutanásia | por Francisco Louçã in Jornal “Expresso”

José Saramago, entrevistado em televisão por Ana Sousa Dias como só ela sabia fazer, contava a história de um velho camponês que, à beira da morte, pediu aos familiares que o ajudassem a antecipar o fim porque não suportava mais o sofrimento irremediável. Ele sabia o que queria e eles, os familiares, ajudaram-no por amizade, explicava Saramago, porque respeitaram a sua decisão, mesmo se a choravam. Acrescenta Saramago: é isso que explica a escolha de Ramon Sampedro, o marinheiro tetraplégico que, em Espanha, lutou pelo direito a terminar a sua vida. As suas “Cartas do Inferno” mostravam como, não se podendo mover, achava que estava condenado a uma sobrevivência degradante e por isso pedia ajuda para morrer. Mais Saramago: “ninguém tem o direito de dizer a uma pessoa, você vai ficar aí, ligado a esses tubos e, por isso, devemos aceitar-lhe a morte se é isso que a pessoa quer”. “Não matamos”, continua, mas respeitamos quem nos diz “por favor ajudem-me”.

Saramago fala de bondade e de um direito que entende irrecusável. Percebo que a sua visão não seja aceite pelo Cardeal, por Cavaco Silva, por Assunção Cristas, por Jerónimo de Sousa, uns porque acreditam que a vida é um dom divino e outro porque pensa que a medicina vai a caminho de garantir a perpetuidade. São consciências e portanto respeitáveis. Ninguém deve questionar os seus motivos. Mas é bastante esta razão íntima que os leva a recusarem o pedido de alguém que não quer prolongar uma vida condenada e em sofrimento? Não deveria ela valer para si mesmos e não ser imposta a outros? Saramago respondia que cada pessoa sabe de si e esse é o princípio único da liberdade. A lição de Saramago é esta: respeita a liberdade das outras pessoas.

Tudo o resto, o ajuste de contas dentro do PSD contra Rui Rio e Balsemão, as homilias inflamadas em igrejas, as manifestações do PNR, a política que promete a vida eterna, isso não vale nada. Nada disso vale hoje, não existirá amanhã. Mas a lição de Saramago ficará sempre.

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

OS APARELHOS DA MORTE REIVINDICAM O SEU CONTROLO SOBRE AS NOSSAS MORTES | por José Gabriel Pereira Bastos in “Facebook”

OS APARELHOS DA MORTE REIVINDICAM O SEU CONTROLO SOBRE AS NOSSAS MORTES

O Aparelho Religioso e o Aparelho Médico têm uma longa tradição de contrôlo e de parasitação do CICLO VITAL, de antes do nascimento a depois da morte. Em vez de nos servirem, a pedido, pretendem decidir orientações gerais que ninguém lhes pediu, assumindo-se como APARELHOS DESPÓTICOS, GERADORES DE LEIS RESTRITIVAS. e ter direitos para permitir ou não permitir as decisões pessoais sobre a morte de cada um, que só a ele cabem

Com a sua velha VOCAÇÃO DESPÓTICA, a que chama “Colectiva” (embora nada exista de colectivo, algo que não passa de um conceito) ou “Comunista”, também o PCP se chega à frente para nos retirar Liberdade e para querer decidir sobre a morte de cada pessoa, reforçando os restantes APARELHOS DESPÓTICOS.

Medicina, Religião e PCP finalmente juntos para nos controlar, usar e tirar Liberdade pessoal, em vez de nos servir, visto que os pagamos para que nos oiçam e nos sirvam, a pedido nosso, e não que nos silenciem ou nos descartem humanamente, retirando-nos o poder de decisão sobre o que nos é mais íntimo – a Vida e a Morte.

Falam com um ar pomposo de ´Ética”, como se eles fossem Iluminados, soubessem pensar e nós não – e apenas produzem Jogos de Palavras, manejando “Princípios”, como se isso existisse no mundo do pensamento.

Não existem Princípios, existem Objectivos Orientadores, entre os quais A MAXIMIZAÇÃO DO BEM-ESTAR decorrente do Respeito pela Diversidade e pela Liberdade de Decisão pessoal, quando ela não afecta terceiros – isto é, a redução do Mal-Estar na Civilização, o mal-estar decorrente da acção dos APARELHOS DESPÓTICOS QUE ALIENAM A SUA FUNÇÃO DE SERVIÇO.

José Gabriel Pereira Bastos

Retirado do Facebook | Mural de José Gabriel Pereira Bastos

José Gabriel Pereira Bastos | HOJE É DIA DA MÃE, um dia que é todos os dias.

Eis o que eu escrevi, até agora, sobre as Mães, no meu Livro em construção, A POLÍTICA DOS CORPOS.

Aceito sugestões sobre como ir mais longe. Posso apagar asserções, modificar asserções ou intercalar novas asserções. Estou ainda no início, com cerca de 200 asserções, da Idade da Pedra à actualidade.

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ENTRE OS CORPOS E O MUNDO

1. As Mães e as Mentes situam-se entre o Desejo Cego dos Corpos e o Mundo.

2. Os Corpos buscam na Acção o Prazer e a Satisfação, aprendem a Dependência e a Manipulação, e buscam no Sono e nas drogas tanto a Imortalidade como o Eterno Descanso, culturalmente garantido.

3. Os corpos, nas fases iniciais e terminais, dependem das Mães. A passagem do desprazer ao prazer, a Satisfação, a Felicidade, o Sono e a Imortalidade dos Corpos dependem real e imaginariamente das Mães.

4. Os corpos buscam a expansão vital e a imortalidade, a saudade das Mães busca, como um Sonho, a Proteção e o Cuidado, o Retorno Uterino e o Eterno Descanso.

A GUERRA DOS CORPOS COM O MUNDO

5. A Guerra dos Corpos com o Mundo depende da Organização do Mundo.

6. A diversidade dos Corpos fundamenta a forma básica de Transformação, Diversificação e Organização do Mundo.

6 (a) – A Mãe é um corpo diversificado, um corpo mediador no cruzamento da confrontação dos sexos, das gerações e da confrontação interétnica.

6 (b) – O Corpo das Mães pede Paz, Segurança, Fecundidade e Amor. A Guerra Eternizada não vem do Corpo das Mães mas dos que invejam a Fecundidade Materna e se especializam na produção da devastação e da Morte.

6 (c) – Uns Filhos aderem à Filosofia Familialista do Corpo das Mães, outros não, constroem-se contra o Corpo das Mães e contra as Famílias Reprodutivas e chamam a isso Globalização.

7. A Guerra dos Corpos com o Mundo começa numa Guerra dos Corpos com os Corpos, uma Guerra dos Sexos, Intergeracional e Interétnica.

9. A gratidão amorosa, a idealização pacifista fundada na amamentação lúdica inicial, e as artes atenuam a Guerra dos Corpos com os Corpos, criando os Jogos que sublimam a Guerra dos Corpos.

O TRABALHO DA MENTE

10. A Guerra dos Corpos com o Mundo é mediada pela Mente.

11. A Mente codifica a Mãe e o Mundo em termos de Prazer, Desprazer e Dependência (Freud 1895).

12. A Mente estilhaça a Mãe em Fada Boa (objecto de prazer), Bruxa má (objecto de desprazer) e Objecto Auxiliar (Freud 1895).

13. A Fome leva o bébé a manifestar o mal-estar mental, através da descarga da tensão associada à insatisfação e à frustração primária.

14. A primeira aprendizagem associa a satisfação da fome à aparição do Seio, um acontecimento mágico.

15. A Mente aprende a obter a cooperação da Mãe e a manipular a Mãe para a forçar a desempenhar o papel de Objecto auxiliar, na satisfação da Fome, na redução do Desprazer e na passagem ao Prazer. (Freud 1895)

180. A Mente vai aprender a usar a Figura Fálica para criar uma Triangulação com a Mãe e dar um primeiro passo para distanciar-se da Mãe.

181. Distanciar-se da Mãe e das Origens é uma condição essencial para construir Futuros.

182, A Mente vai aprender a distanciar-se da Mãe tornando-se Mãe ou tornando desconhecidas em Mães dos seus Filhos.

183. Os Filhos representam a Mãe, o futuro da Mãe e a Mãe no Futuro.

184. O processo de distanciação das Mães e da projeção das Mães no futuro, sob a forma de tornar-se Mãe ou de dar Filhos a Mães, é um processo inconsciente.

185. As Mães eternizam-se através dos Filhos e dos Filhos dos Filhos.

186. O Mundo é uma enorme Matrioska.

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Como pensei nas Mães, escrevi mais uma dezena de asserções.

José Gabriel Pereira Bastos | 06-05/2018

Retirado do Facebook | Mural de José Gabriel Pereira Bastos

A NOVA CULTURA GESTIONÁRIA | José Gabriel Pereira Bastos

Noto grande decepção sintomática e irreflectida, depressiva, entre gente da educação e das artes, confrontados com a Morte da Cultura e das relações Humanísticas, movidas pela dedicação.

Parece que não se aperceberam (e por isso não sabem lutar contra) a entrada da CULTURA PRAGMÁTICA ANGLO-AMERICANA na Europa (um espaço de desorientação, desistência, submissão e inexistência).

Quando gentes das “Ciências da Educação” foram ‘aprender’ em Boston a CULTURA GESTIONÁRIA, a dimensão da dedicação ao ensino (e às Artes) foi esterilizada – há que gastar formamente o tempo ‘de forma racional’ em reuniões, no preenchimento de formulários e a cumprir ‘programas’,a ‘ser útil’ e a ‘acabar com ‘devaneios humanístas’, de raiz familialista, dizem eles, que estudaram em Boston (são uma bosta).

Nesta Nova Cultura, quem não souber submeter-se aos Jogos Burocráticos, é eliminado por ‘Concursos’ formalizantes.

Da Política como Burocracia, à Educação e às Artes como Acções orientadas por Objectivos (que alguém decidiu que eram) ‘Pragmáticos’, isto é, Importados da América, vai um passo de Anão, estamos a caminho da perda da estatura humana, humanizada e humanística, e há muitos que estão a amuar, em vez de reagir.

Não se lembram dos “Tempos Modernos” e do Taylorismo Chaplinesco? Fomos avisados quase há um século. É a América Nazi (isto é, ‘Republicana’), o Positivismo, o Racionalismo, o Pragmatismo, o Machismo Mental Frio, e outras Ideologias Suprematistas de “Espíritos Racionais” (que comem rações, como as Bestas), isto é, de Almas Insensíveis.

Há muita dificuldade em perceber que os Burocratas da Intelectualidade “Racional” são doentes mentais de uma patologia até hoje não-diagnosticada, que vivem em Estado de Exibição, não buscam ajuda clínica e projectam à sua volta a Desumanidade das suas Almas Vazias, mas Suprematistas e, portanto, de um Imperialismo Globalizante. Paranóides, dizem os Psiquiatras, em livros que ninguém pensa. Freud definiu-os como “Homens Narcísicos” ou Homens de Acção (1930, 1931), que podem fazer perigar Civilizações.

Kant definiu-os como Gerontes Altivos (viris), deu-lhes o cognome de “Sublimes” e contrapôs os Sublimes (ele, como exemplo exemplar, estéril e sem família) aos “Belos” (as Mães brincando com filhos na relva, muito abaixo deles) e aos “geridos por Interesses”, que são hoje os que puxam os cordéis das Marionetas Sublimes e destroem o Belo, isto é, a Fecundidade feminina e materna.

José Gabriel Pereira Bastos

Retirado do Facebook | Mural de José Gabriel Pereira Bastos

Os Óscares e as orgias romanas do império | Carlos Matos Gomes in blog “Media”

Tenho muita dificuldade em compreender a subserviência dos europeus aos Óscares.

É certo que é a sagração dos deuses do Olimpo do Império.

É certo que é a marcha triunfal dos vendedores do Império!

É certo que é o anúncio feito pelos senadores do Império do que nos vão dar a comer nos próximos tempos!

É certo que são aqueles os falsos heróis do Império da Marvel que nos vão salvar e aqueles os bandidos de cartão da Disney de que nos vamos vingar.

É certo que são aqueles corpos das vestais apenas translucidamente cobertos que nos vão povoar os sonhos, embora este ano a moda seja a de cheira mas não comas.

É certo que são aqueles os ditos de inteligência que nos farão rir do Trump que nos impingiram.

É certo que são aquelas luzes que nos vão encadear!

É certo que são aquelas as verdades dos filmes que nos vão moldar.

É certo que serão aqueles os sons que nos entrarão pelos ouvidos e as certezas que nos cegarão os olhos.

É certo que será aquela a droga que nos entrará pelas veias e nos levará para outros mundos.

É certo que serão aqueles sorrisos brilhantes de dentaduras postiças dos patrícios que nos levarão a empenhar-nos para pagar as coroas dentárias sobre as nossas cáries.

É certo que será aquele o silicone que dará forma às ancas e aos seios das deusas e matronas do não me toques que te tramo e também aos implantes capilares das carecas dos patrícios obesos que pagam às “gajas” que este ano os vão acusar de as apalparem.

É certo que é aquela a orgia e o bacanal em que os que vivem à custa das nossas tristezas se riem de nós e nós gostamos de pagar para se rirem de nós.

É certo que nós, os europeus em particular, já tínhamos a experiência dos romanos se apropriarem das obras dos gregos, do pensamento dos gregos, da arquitetura dos gregos, das tragédias dos gregos, mas os atenienses não celebravam com os romanos as suas próprias derrotas, o seu aviltamento.

Sendo tudo isso certo, resta durante a madrugada europeia, o espetáculo de subserviência, de reconhecimento de servidão, de menoridade, de aplauso da boçalidade, de exaltação do plástico sob diversas formas, das ideias às fatiotas, ao botox, das causas do ano aos gritinhos do Oh my God dos chamados ao palco.

Nas primeiras páginas surgem — chocantes — as fotografias das saturnais dos Óscares que nos vendem armas e Trumps, guerras e pastores bíblicos.

Não seria possível a nós, como aos atenienses da antiguidade, manifestar algum recatado desprezo, ou indiferença, já que temos de servir de público e de mercado no espectáculo emitido a partir do coliseu de Hollywood?

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

«Há muita sede no coração humano»: Tolentino Mendonça escreve sobre cultura e retiro do papa

Por vocação e missão dei por mim, nos meus 25 anos de vida sacerdotal, a trabalhar pastoralmente no âmbito do pensamento e da cultura. Se há lugar em que a Igreja se assemelha a um hospital de campo – para retomar a imagem mais do que oportuna do papa Francisco –, é precisamente este, onde as perguntas são exigentes e contínuas, as procuras de sentido são intensas, por vezes extremas, na sua vulnerabilidade, e a fome de Deus é, sim, latente, mas também se oculta sob uma dor humana nem sempre confessada, um grande vazio, muito sofrimento, em conflito e em solidão no modo de se confrontar com a vida ou com a fé. Por isso, quem trabalha no sector da cultura não pode ser uma simples pessoa de gabinete ou gestor de sacristia. Apesar de trabalhar há muitos anos numa universidade, vejo-me, com efeito, como um padre de estrada, dado que a cultura, na sua fantástica e dramática vitalidade, é isto: é estar no meio da estrada, é o desarmante espaço aberto da vida. A cultura é um extraordinário motor de procura, no qual a complexa ansiedade do viver está sempre presente. Um território que não é fácil, mas é apaixonante. E este campo pastoral ensinou-me o valor da escuta.

A escuta é já, por si, um modo de cuidar, uma maneira de se ocupar das feridas do coração humano. Um sacerdote não deve ser necessariamente um megafone. Muitas vezes aquilo que Deus lhe pede é ser uma humilde antena. Não tem de seguir diretamente para Jerusalém sem olhar nem para a direita nem para a esquerda, indiferente aos dramas dos outros. Muitas vezes, o que Deus lhe pede é que seja o Bom Samaritano de plantão. O amor de Cristo pelos humanos é um amor sem reservas, é uma misericórdia que nos abre à vastidão, baseando-se nos pontos de partida já existentes, ainda que frágeis e insuficientes no turbilhão da vida. A pastoral deve tentar ser uma arte da hospitalidade. Só quem está disposto a escutar as perguntas até ao fim pode dar respostas. Se há coisa que eu aprendi ao trabalhar no campo da cultura é o significado espiritual da sede. Agradeço a Deus todos os dias por isso. Há muita sede no coração humano. O coração, podemos dizer, é um interminável reservatório de sede. Sede de amor. Sede de verdade. Sede de reconhecimento. Sede de razões de viver. Sede de um refúgio. Sede de novas palavras e de novas formas. Sede de justiça. Sede de humanidade autêntica. Sede de infinito. E Jesus identificou-se com os sedentos. Uma das suas últimas palavras na cruz foi «tenho sede» (João 19, 28). A sede torna-se assim uma interpretação necessária não só para chegar ao coração humano, mas também para compreender o mistério de Deus.

Quando o Santo Padre quis falar comigo para que colaborasse nos Exercícios da Quaresma, disse-lhe que eu sou apenas um pobre padre, e é a verdade. Ele encorajou-me a partilhar da minha pobreza. Veio então à minha mente propor um ciclo de meditações muito simples sobre a sede, intitulado “Elogio da sede”. A sede é um tema bíblico, elaborado muitas vezes pela tradição cristã, e ao mesmo tempo é um mapa real, muito concreto, que nos ajuda a ficarmos sintonizados com a vida de todos os dias. Interessa-me sobretudo uma espiritualidade do quotidiano.

José Tolentino Mendonça 
In Avvenire 
Trad.: SNPC
Imagem: amenic181/Bigstock.com
Publicado em 15.02.2018
——
Gosto deste Senhor; um homem de grande espiritualidade, filósofo, homem de extensíssima cultura. Humano, que entende os humanos. Um Cristão. (VCS)

Há metafísica bastante em não pensar em nada | Alberto Caeiro

O que penso eu do mundo? 
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados
das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro

Retirado do Facebook |  Mural de Sónia Soares Coelho 

«Un porc, tu nais ?» | Leïla Slimani, Ecrivaine, prix Goncourt 2016 in Libération

La romancière Leïla Slimani, Prix Goncourt 2016, affirme n’être ni «une petite chose fragile», ni «une victime». Et réclame «le droit de ne pas être importunée», sa liberté.

Marcher dans la rue. Prendre le métro le soir. Mettre une minijupe, un décolleté et de hauts talons. Danser seule au milieu de la piste. Me maquiller comme un camion volé. Prendre un taxi en étant un peu ivre. M’allonger dans l’herbe à moitié dénudée. Faire du stop. Monter dans un Noctambus. Voyager seule. Boire seule un verre en terrasse. Courir sur un chemin désert. Attendre sur un banc. Draguer un homme, changer d’avis et passer mon chemin. Me fondre dans la foule du RER. Travailler la nuit. Allaiter mon enfant en public. Réclamer une augmentation. Dans ces moments de la vie, quotidiens et banals, je réclame le droit de ne pas être importunée. Le droit de ne même pas y penser. Je revendique ma liberté à ce qu’on ne commente pas mon attitude, mes vêtements, ma démarche, la forme de mes fesses, la taille de mes seins. Je revendique mon droit à la tranquillité, à la solitude, le droit de m’avancer sans avoir peur. Je ne veux pas seulement d’une liberté intérieure. Je veux la liberté de vivre dehors, à l’air libre, dans un monde qui est aussi un peu à moi.

Je ne suis pas une petite chose fragile. Je ne réclame pas d’être protégée mais de faire valoir mes droits à la sécurité et au respect. Et les hommes ne sont pas, loin s’en faut, tous des porcs. Combien sont-ils, ces dernières semaines, à m’avoir éblouie, étonnée, ravie, par leur capacité à comprendre ce qui est en train de se jouer ? A m’avoir bouleversée par leur volonté de ne plus être complice, de changer le monde, de se libérer, eux aussi, de ces comportements ? Car au fond se cache, derrière cette soi-disant liberté d’importuner, une vision terriblement déterministe du masculin : «un porc, tu nais». Les hommes qui m’entourent rougissent et s’insurgent de ceux qui m’insultent. De ceux qui éjaculent sur mon manteau à huit heures du matin. Du patron qui me fait comprendre à quoi je devrais mon avancement. Du professeur qui échange une pipe contre un stage. Du passant qui me demande si «je baise» et finit par me traiter de «salope». Les hommes que je connais sont écœurés par cette vision rétrograde de la virilité. Mon fils sera, je l’espère, un homme libre. Libre, non pas d’importuner, mais libre de se définir autrement que comme un prédateur habité par des pulsions incontrôlables. Un homme qui sait séduire par les mille façons merveilleuses qu’ont les hommes de nous séduire.

Je ne suis pas une victime. Mais des millions de femmes le sont. C’est un fait et non un jugement moral ou une essentialisation des femmes. Et en moi, palpite la peur de toutes celles qui, dans les rues de milliers de villes du monde, marchent la tête baissée. Celles qu’on suit, qu’on harcèle, qu’on viole, qu’on insulte, qu’on traite comme des intruses dans les espaces publics. En moi résonne le cri de celles qui se terrent, qui ont honte, des parias qu’on jette à la rue parce qu’elles sont déshonorées. De celles qu’on cache sous de longs voiles noirs parce que leurs corps seraient une invitation à être importunée. Dans les rues du Caire, de New Delhi, de Lima, de Mossoul, de Kinshasa, de Casablanca, les femmes qui marchent s’inquiètent-elles de la disparition de la séduction et de la galanterie ? Ont-elles le droit, elles, de séduire, de choisir, d’importuner ?

J’espère qu’un jour ma fille marchera la nuit dans la rue, en minijupe et en décolleté, qu’elle fera seule le tour du monde, qu’elle prendra le métro à minuit sans avoir peur, sans même y penser. Le monde dans lequel elle vivra alors ne sera pas un monde puritain. Ce sera, j’en suis certaine, un monde plus juste, où l’espace de l’amour, de la jouissance, des jeux de la séduction ne seront que plus beaux et plus amples. A un point qu’on n’imagine même pas encore.

Leïla Slimani

Regulamento interno do Colégio La Salle de Abrantes

1º) O espírito lassalista deverá estar presente em tudo o que fazemos. Nunca nos devemos esquecer da nossa identidade própria.

2º) Em tudo o que fazemos, devemos cultivar a justiça, a oração e o serviço aos outros.

3º) Todas as pessoas da nossa comunidade educativa, devem respeitar-se mutuamente tornando a nossa escola um lugar ideal para trabalhar.

4º) Todos devem ajudar a criar um ambiente de inter-ajuda, propiciando uma boa aprendizagem.

5º) Todos têm direito à diferença. Os dons especiais de cada um devem ser encorajados e valorizados para o bem de todos. Devemos trabalhar e partilhar juntos.

6º) Todos têm direito à segurança. Ninguém deve ter medo de ser ameaçado ou importunado. Ninguém deve ter receio de correr riscos, de ser diferente ou de ser sincero.

7º) O auto e hetero encorajamento para a rentabilização das nossas capacidades são essenciais. A existência de uma variedade de temas e de actividades é necessária à realização pessoal.

8º) A atenção vigilante é importante para que nos momentos de crise nos sintamos confiantes a partilhar as angústias ou problemas com uma pessoa de confiança.

9º) Todos devemos saber perdoar e esquecer. Todos merecemos uma segunda oportunidade.

10º) Na nossa escola, as pessoas deverão aprender tanto com os seus êxitos como com os fracassos. Isto permite o crescimento pessoal.

Argel 01 Dezembro de 2017

A teoria das nações, segundo o Padre António Vieira

“a primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.”

Retirado do Facebook | Mural de José Maltez

Dernière lettre de Nietzsche à Jacob Burckhardt | in blog “Des Lettres”

Friedrich Wilhelm Nietzsche (15 octobre 1844 –  25 août 1900), l’un des philosophes les plus décapants et influents du XIXe siècle, critique acharné du christianisme, eut une fin de vie terrifiante. Le 3 janvier 1889, il est pris d’une crise de démence à Turin et il ne recouvrera dès lors jamais son esprit : partiellement paralysé, il ne reconnaît plus ni amis ni famille. Transporté dans une clinique à Bâle, il écrit sa dernière lettre attestant de la folie qui l’assiège : se prenant tour à tout pour Dieu puis pour le père d’une prostituée assassinée par un meurtrier. L’esprit de Nietzsche, l’un des plus grands, est définitivement à la dérive.

Lettre de Nietzsche à Jacob Burckhardt: (voir ici)

http://www.deslettres.fr/derniere-lettre-nietzsche-jacobburckhardt-finalement-jaimerais-bien-mieux-etre-professeur-bale-dieu/

Há liberdade na democracia? | John Locke

Há liberdade na democracia? Locke esclarece. Esta semana na colecção Grandes Nomes do Pensamento, Dois Tratados do Governo Civil do inglês John Locke, fundador do liberalismo clássico com o escocês David Hume. Por mais 9,90€ com o jornal Público.

Tradução de Miguel Morgado seguindo a edição da Yale University Press ( Para encomendar este volume ou a colecção completa contacte-nos por esta página).

 #filosofia #locke#colecções #levoir #grandesnomesdopensamento#filósofos #democracia

Capítulo I
“1.-A escravatura é uma condição do homem tão vil e miserável, e tão directamente oposta ao temperamento generoso e à coragem da nossa nação, que dificilmente se concebe que um inglês, e muito menos um gentil-homem, possa advogá-la…” Início do livro Dois Tratados do Governo civil

“Os Dois Tratados do Governo civil, publicados de forma anónima em 1689, expõem as ideias de Locke, que inspirarriam os filósofos iluministas e as revoluções amercianas e francesa, sobre um Estado e uma sociedade legitimados num pacto entre homens e nos seus direitos naturais, pré-civis, iguais.” Sousa Dias, Filósofo.

Retirado do Facebook | Mural de Levoir

PSEUDO-COISO | Rui Bebiano

Percebo, mas não aceito. Refiro-me à tendência de muitas pessoas para se desculparem por ter ideias, por falar de livros ou de filósofos, por usar conceitos um pouco maios complexos: «não quero parecer intelectual, nem pretensioso». Um dos males do nosso tempo é justamente a tendência para simplificar o conhecimento, ou evitar certo tipo de prática ou de discurso sustentado pela leitura, pelo debate, pelo pensamento, pelo exercício da língua, só para não parecer «intelectual». Ou, como dizem alguns, «pseudo-intelectual». É a ditadura do pragmatismo e da eficiência, para os quais pensar, especular, é pura perda de tempo. Quem não desenvolve o intelecto – o instrumento mais básico do esforço intelectual – pensa e fala com os pés. Partilhar conhecimento, debater as coisas com substância, nada tem a ver com exibicionismo ou arrogância, que são matéria de outro departamento, matéria partilhada por sábios e por asnos. Mas mal vão os tempos em que é preciso escrever isto.

Rui Bebiano

Retirado do Facebook | Mural de Rui Bebiano

Omnisciencia e Confissão | José Filipe da Silva

Nunca percebi a necessidade de confissão a um deus omnisciente… (José Filipe da Silva)

La omnisciencia, es la capacidad de saberlo todo. Es un atributo propio de Dios en las religiones abrahámicas. En literatura, cuando el narrador conoce todos los pensamientos de los personajes y sucesos de la historia se le conoce como narrador omnisciente. 

… sendo a religião a base da ética / moral, pilares importantes da cultura que suporta uma sociedade, está obviamente sob o escrutínio permanente dos pensadores sociais, portanto em discussão aberta e continuada. Não podemos aceitar que cada um creia no que creia, sob risco de termos que aprovar fundamentalismos e suas consequências sociais (guerras santas, jihad’s, inquisições). Os Concílios provam que não há repouso à discussão.
Reconhecer os nossos pecados e verbalizá-los? A verbalização é uma das formas de comunicação menos usada pelos deuses de serviço. Quanto ao reconhecermos “pecados”, ou os fizemos de forma inconsciente e somos inimputáveis, ou os fizemos conscientemente e os reconhecemos no próprio acto de os cometer. Diz-se que pedir perdão ou desculpa é algo que não deve ser práxis, a práxis é evitar ter que o fazer. Aliás o perdão só dignifica o concessor e a má fé daquele a quem foi concedido perdão é patente na caminhada semanal para o confessionário… a reincidência tem que ter limites 😉  Enfim… confessar algo a um “ser omnisciente” é um atentado à lógica ou o reconhecimento prático de que a omnisciência inexiste…

Retirado do Facebook | Mural de José Filipe da Silva

Pós-verdade e Pós-democracia | André Barata, Filósofo | In “O Jornal Económico”

O que se verifica hoje é a condescendência com a mentira e, na medida inversa, a verdade em perda do seu valor facial. Aqui se joga, de forma preocupante, o valor da própria democracia.

Falamos de pós-verdade, mas, por detrás do que se diz, que significado tem uma palavra que se tornou tão ubíqua? Muitas vezes a palavra nova hegemónica em vez de responder, na verdade, cala a pergunta. A maneira como se nomeia é aqui já um ponto de vista, que mais depressa pode contribuir para um juízo de legitimação conformada do que para uma apresentação do problema.

A mudança tem sido notada entre aqueles que, de forma mais presente no espaço público, especialmente políticos, evocam factos mais pelo seu poder de persuasão do que pelo que possam ter de verdade. Depressa apontamos Trump, claro, a quem devemos, sem grande exagero, o mais impressionante processo de banalização da mentira na história da representação política democrática – ainda que  não faltem antecedentes em regimes políticos que tiveram como ponto comum, no mínimo, a rejeição da democracia.  A diferença é que a coisa já não se coloca, como no passado, em termos de manipulação e usurpação da verdade por quem detém o monopólio do poder. O que se verifica hoje é a condescendência com a mentira e, na medida inversa, a verdade em perda do seu valor facial. Aqui se joga, de forma preocupante, o valor da própria democracia.
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O homem é um ser perverso | Carlos Vale Ferraz

Texto- síntese da comunicação de Carlos Vale Ferraz para a Sessão “Palavra de Escritor” do Grupo 3 de Oeiras da Amnistia Internacional – Biblioteca Operária Oeirense, 30 Março 2017
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No dia 30 de Março falei na seção de Oeiras da Amnistia Internacional. Escolhi o tema da perversidade do homem, que estas dignas organizações tentam minimizar. Deixo aqui alguns tópicos, um pouco à laia de informação sobre o inimigo que enfrentam.
«O homem é um gorila lúbrico e feroz» escreveu Hipólito Taine, um positivista francês do século XIX, que tentava compreender o homem à luz de três fatores determinantes, o meio ambiente, raça e momento histórico. À luz destes factores não temos motivos para nos congratularmos com a evolução da nossa espécie. Utilizei esta citação no meu primeiro romance «Nó Cego». No romance que irá sair em Setembro/Outubro mantenho-me céptico quanto natureza do homem. Kant considerava os cépticos como nómadas, e como vigilantes da razão. Tenho sido nómada do espírito e procurado ser mais céptico que asséptico. Não ser asséptico é, para mim, não acreditar na bondade do homem, mas que o bem existe e que se opõe ao mal. Estou fora da moda que tudo relativiza. De que o mal é fruto do meio. Nos meus romances responsabilizo as minhas personagens. Não gosto de coitadinhos. Também recuso a leitura das grandes religiões sobre a bondade intrínseca do homem, por ele ter sido criado à semelhança de Deus e Deus não poder ser mau. Pode, como se verifica pelas suas criações. Não estou mal acompanhado. A má opinião sobre a humanidade é antiga. A natureza humana em Platão é degenerada, mas ele considerava que a degeneração podia ser travada através do uso da razão e pela contemplação do Sumo Bem pelo homem. Discordo desta parte. É a inteligência e a razão que tornam o homem um ser perverso.

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Os caridosos nunca deixarão os pobres sair da pobreza | Inês Salvador

Cilinha sabia que de tudo que sabia o que mais lhe valia era a beleza da juventude. Foi no tempo da revolução, era eu ainda muito miúda. Muito miúda era o disfarce do tempo com que rematava a existência. Nunca poderia ter muita idade, se tudo o que sabia lhe vinha de ter de sido muito miúda a todo o tempo de todas as datas. Mas muito miúda já não lhe servia. Sempre que dizia muito miúda sentia os olhos interlocutores percorrerem-lhe o socalco das rugas. Os caridosos nunca deixarão os pobres sair da pobreza, diz-me a minha intuição. Cilinha passou a fazer da longevidade da própria vida um oráculo, uma bola de cristal que consultava por intuição. Cilinha nunca envelheceu. Morreu bela e jovem, como um vampiro da vida.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

In memoriam of Raymond Smullyan: An unfortunate dualist | Arlindo L. Oliveira in “Digital Minds”

arlindo oliveiraMind-body Dualists believe there are two different realms that define us. One is the physical realm, well studied and understood by the laws of physics, while the other one is the non-physical realm, where our selves exist. Our essence, our soul, if you want, exists in this non-physical realm, and it interacts and controls our physical body through some as yet unexplained mechanism. Most religions are based on a dualist theory, including Christianity, Islam, and Hinduism.

On the other side of the discussion are Monists, who do not believe in the existence of dual realities.  The term monism is used to designate the position that everything is either mental (idealism) or that everything is physical (materialism).

Raymond Smullyan, deceased two days ago (February 10th, 2017),

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had a clear view on dualism, which he makes clear in this history, published in his book This book needs no title.

An Unfortunate Dualist

Once upon a time there was a dualist. He believed that mind and matter are separate substances. Just how they interacted he did not pretend to know-this was one of the “mysteries” of life. But he was sure they were quite separate substances.
This dualist, unfortunately, led an unbearably painful life-not because of his philosophical beliefs, but for quite different reasons. And he had excellent empirical evidence that no respite was in sight for the rest of his life. He longed for nothing more than to die. But he was deterred from suicide by such reasons as: (1) he did not want to hurt other people by his death; (2) he was afraid suicide might be morally wrong; (3) he was afraid there might be an afterlife, and he did not want to risk the possibility of eternal punishment. So our poor dualist was quite desperate.

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A ascensão da nova ignorância | José Pacheco Pereira in “Público”

jpp-200Nada é mais significativo e deprimente do que ver pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel.

Entre os temas tabu dos nossos dias está a ignorância. Parece que falar da ignorância coloca logo quem o faz numa situação de arrogância intelectual, o que inibe muita gente de a nomear. Mas não há muita razão para se enfiar essa carapuça, tanto mais que o problema é enorme e está agravar-se e a assumir novas formas, socialmente agressivas. Acompanha outro tipo de fenómenos como o populismo, a chamada “pós-verdade”, a circulação indiferenciada de notícias falsas, e, o que é mais grave, a indiferença sobre a sua verificação. Não explica, nem é a causa de nenhum destes fenómenos, mas é sua parente próxima e faz parte da mesma família. É, repetindo uma fórmula que já usei, como se de repente se deixasse de ir ao médico, e se passasse a ir ao curandeiro.

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Fazer amigos ao estilo FACEBOOK | António Serra

nua02-200Actualmente, estou a tentar fazer amigos fora do Facebook… mas usando os mesmos princípios.
Todos os dias saio à rua e durante alguns metros acompanho as pessoas que passam e explico-lhes o que comi, como me sinto, o que fiz ontem, o que vou fazer mais tarde, o que vou comer esta noite e mais coisas.
Entrego-lhes fotos da minha mulher, da minha filha, do meu cão, minhas no jardim, na piscina, e fotos do que fizemos no fim de semana.
Também caminho atrás das pessoas, a curta distância, ouço as suas conversas e depois aproximo-me e digo-lhes que “gosto” do que ouvi, peço-lhes que a partir de agora sejamos amigos e também faço algum comentário sobre o que ouvi. Mais tarde, partilho tudo quando falo com outras pessoas.


E funciona…

Já tenho 3 pessoas que me seguem…
São dois polícias e um psicólogo.


P.S: Boas Festas e que 2017 seja um ano com muita saúde , repleto das maiores realizações pessoais e profissionais de todos os amigos ou não , que lerem ou não, este texto.

Retirado do Facebook | Mural de Antóno Serra

Nota: Foto selecionada pelo Coordenador do Blog

“Vivemos um tempo de secreta angústia: o amor é mais falado que vivido” | in “Revista Pazes” | Texto de Luciana Chardelli

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”.

Zygmunt Bauman

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.

O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.

Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.

Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”. Zygmunt Bauman

bauman

Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês. Serviu na Segunda Guerra Mundial pelo exército da União Soviética e conheceu sua esposa, Janine Bauman, nos acampamentos de refugiados polacos. Wikipédia
Nascimento: 19 de novembro de 1925 (90 anos), Poznań, Polônia
Nacionalidades: Britânico, Polonês
Ver: http://www.revistapazes.com/amor/

Adonis [Ali Ahmad Said Esber] | Poeta Sírio | in revista do jornal “Expresso”

adonisTambém escreveu muita poesia das ruínas. Poemas sobre Beirute, sobre a cidade como inferno. Cidades onde a guerra e a violência são uma constante.

Isso está ligado também ao monoteísmo. A visão monoteísta do mundo deformou as relações do homem com o homem, do homem com a natureza, do homem com o além da natureza. Deformou tudo. O monoteísmo colonizou o nosso cérebri e não podemos ver a realidade do universo se não nos libertarmos desse fechamento do mono teísmo. É esse actualmente o nosso grande problema, não apenas no mundo árabe mas também no mundo ocidental.

A certa altura diz que o nosso tempo “não sabe ler senão o livro do assassínio”.

Não posso imaginar que o ser humano, que foi criado à imagem de Deus, seja selvagem, e mais selvagem do que os animais selvagens. Mesmo o animal selvagem só mata os outros animais para se alimentar, mas um ser humano mata outro ser humano por maldade.

Essa desumanidade não o desencorajou?

Não, eu acredito no ser humano, acredito no Homem. Mas as culturas monoteístas tornaram-se prisões contra a alegria, contra o corpo, contra a criatividade, contra tudo. O grande combate intelectual do mundo é saber como ultrapassar o monoteísmo e a sua cultura. É esse o nosso problema comum.

http://expresso.sapo.pt

Conferência “O regresso dos intelectuais em tempo de crise”

intelectuais

Conferência “O regresso dos intelectuais em tempo de crise”
Dia 27 de Setembro, às 18h30, no Restaurante, no Piso 7 do El Corte Inglés.

A conferência de abertura, dirigida pelo Professor Mário Mesquita, contará com o Professor Eduardo Lourenço como principal orador.

Será razoável dizer que, após o tempo do “declínio (ou desaparecimento) dos intelectuais”, estamos na fase do “regresso dos intelectuais”? A admitirmos esse “regresso” do início do século XXI, retomar-se-ão as sucessivas configurações do “intelectual liberal”, do “intelectual orgânico”, do “intelectual comprometido” e do “intelectual específico”? Ou a figura dominante será a dos coletivos – centros de investigação, “think tanks”, organizações não governamentais e outras ? Que lugar desempenha a nova configuração do “intelectual mediático” (ou apenas do “intelectual nos media”)? Qual a sua relação (ou sobreposição) com outros “intermediários culturais”, em especial com os jornalistas? Qual a fronteira, se existe, entre intelectuais e especialistas? Esta sucessão de perguntas estará presente neste ciclo de conferências, num tempo em que o desenvolvimento da sociedade em rede significa, paradoxalmente, multiplicação de atores no espaço público e falta de referências.

Inscrições disponíveis, no Ponto de Informação no piso 0 do El Corte Inglés Lisboa ou através do e-mail relacoespublicas@elcorteingles.pt

a felicidade e a inocência | Luís Pedro Nunes

pode-se fotografar a felicidade e a inocência? sim. estava o Alfredo e eu a abrigar-nos de uma chuva quente na ilha de Bolama, Guiné, quando ele tirou esta foto. Das milhares de imagens que trouxe das nossas viagens há uma pureza encantada nesta coreografia que não me cansa e me atrai o olhar quase diariamente (tenho a foto numa parede em casa) . estes miúdos jogam à bola, à chuva, numa liberdade feliz. Riem com um riso tão solto e habituado a sair que sabemos que eles têm qualquer coisa que perdemos há muito. esta é a foto que capturou a felicidade a ser.

felicidade

Retirado do Facebook | Mural de Luís Pedro Nunes

Cosmopolitismo das diferenças | André Barata

andre_barata_200Cada vitória da integração e da convivialidade é uma derrota da exclusão e uma derrota do ódio do excluído. Integração e convivialidade sob um pressuposto claro: o do direito igual a ser como se prefere ser conjugado com o reconhecimento da reciprocidade universal a esse direito no espaço comum partilhado. Cosmopolitismo das diferenças — é disto que precisamos para desarmadilhar a tentação da radicalização e deixar a pregar para as paredes os fundamentalistas. Conviver com burkinis livremente vestidos não é uma cedência. É uma vitória contra dois obscurantismos: o dos fundamentalistas e o do laicismo persecutório que, sem ceder a comparações, também se obceca com mulheres e com o que elas vestem.

Retirado do Facebook | Mural de André Barata

Abraços | André Barata

Agora que os abraços se tornaram assunto de comentário político, eis dois abraços, dos amantes Rivera e Frida Khalo, mas que não são abraços de amantes. Um de campesinos e fraternidade, outro cósmico e que tudo teria assim de ligar. Dá que pensar esta figura da ternura. Damos e recebemos abraços. Alguns são cumprimento, como os beijos, códigos de aceitação e convívio leais que importa cumprir, precisamente. E há abraços e beijos que não estão para nada como signo, que não cumprimentam, não cumprem, não meneiam código nenhum. Acontece com o beijo dos amantes, que não admite representantes e representados. Mas o mesmo abraço sem representação não é apenas de amantes. É também de pais para filhos, e entre grandes amigos, que nos falta tantas vezes abraçar, de vítimas e salvadores que precisamos de abraçar. Talvez nenhuma outra cumplicidade corporal exprima o amor para lá de todas as suas figurações, o dos amantes, dos pais, dos amigos, dos irmãos. Em todos, há um abraço que cinge e acolhe a fragilidade, até a respiração, amparo de tudo o resto.

De Diego Rivera (pormenor de “El abrazo y campesinos), outro de Frida Khalo (“El abrazo de amor de El universo, la tierra (México), Yo, Diego y el señor Xólotl”)

Retirado do Facebook | Mural de André Barata

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KATEB YACINE | 929-1989 | Dictionnaire amoureux de l’Algérie | Malek Chebel

Kateb - 200Il est le seul algérien à s’être constitué un nom qui demeure indissociable de la culture de son pays, un patronyme que nul ne peut ignorer car, que l’on dise Kateb, ou Yacine, et à fortiori Kateb Yacine, chacun sait de qui on parle.

Son livre le plus célèbre, est un livre testament, dont le titre emblématique est Nejma ,parut au seuil en 1956. C’est un livre différent de ses autres ouvrages, à la foi en raison de sa structure complexe, en miroir, de ses fulgurances et de sa progression décalée. Livre utérin par excellence, livre de pensées complexes et de projection collectives livre d’encre et de sang. Nejma, dont le nom renvoie à une éventuelle cousine, ne cessera d’interroger l’Algérie à laquelle il s’identifie par le genre et dont il transposera le projet existentiel au plan de l’esthétique romanesque.
Dans ce capharnaüm du lendemain de la seconde guerre mondial, là bas, dans la colonie encore docile, Kateb sera durement affecté par les émeutes du 8 mai 1945, à Sétif, là même où la révolution algérienne allait prendre son envol.
D’un côté, la joie des indigènes apprenant la libération de la France valait adhésion explicite : de l’autre les tirailleurs rentrés au Bled commirent un pêcher de lèse-majesté en réclamant avec véhémence que l’on tint au plus haut niveau de l’Etat, les promesses faites au moment où on les enrolait en vue de sauver la patrie menacée par les allemands.

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Joana Emídio Marques | As selfies são menos uma expressão da nossa vaidade do que do nosso desespero

joanaComo bem sabiam os mitos nunca resistimos ao fascínio de ver a nossa própria imagem duplicada. As novas tecnologias, actuando como sempre, no âmago dos nossos fantasmas e dos nossos medos, deram-nos o instrumento perfeito: o lago portátil, o espelho que se pode colocar no meio da praça publica. As selfies são menos uma expressão da nossa vaidade do que do nosso desespero. Como se, predados pela morte omnipresente, quiséssemos resgatar qualquer coisa da passagem do nosso corpo pelo mundo antes da dissolução, do esquecimento que seremos.

Retirado do Facebook | Mural de Joana Emídio Marques

O Amor é mais falado do que vivido e por isso vivemos um tempo de secreta angústia | Zygmunt Bauman

Bauman-200O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.

O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.

Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.

Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”.

Zygmunt Bauman | sociólogo polaco

 

a pior das discriminações | Inês Salvador

Ines Salvador -200Andam por aí a dizer que o Príncipe Carlos de Inglaterra é gay, como se isso fosse uma coisa má. Que tristeza de mundo este em que a orientação sexual serve de motivo de conversa, serve para vender revistas. Já agora, se ainda não repararam, o Príncipe Carlos é branco, de raça branca, não é de outra raça qualquer, e não, não é possível que se venha a descobrir outra raça ao Príncipe Carlos, porque se fosse, também se descobria, e também como se isso fosse uma coisa má, que não é, é indiferente. Nada disto devia ter importância nenhuma, a importância que tem é porque o Príncipe Carlos não é pobre. Se fosse pobre e gay já não tinha importância nenhuma, porque a pior das discriminações, a mais terrível, a mais segregadora, é a discriminação económica, a discriminação socioeconómica, a de estatuto social, de classe social, o que lhe queiram chamar. O Príncipe Carlos, se fosse pobre, não era gay, a ser, não passaria de um paneleiro qualquer.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Guardador de Rebanhos (Poemas Completos) | Alberto Caeiro

 

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I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

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Morgan Freeman Travels to Uncover the Mysteries of Creation in ‘Story of God’

Quem é Deus? De onde vimos? Por que é que o mal existe? O que acontece quando morremos? Estas são alguma das questões às quais anova série do National Geographic, A História de Deus, pretende responder. O primeiro episódio estreia este domingo em Portugal.

Produzida pelo ator Morgan Freeman e por Lori McCreary e James Younger, da Revelation Entertainment, a série A História de Deus, composta por seis episódios, é uma viagem à volta do mundo e uma exploração de diferentes culturas e religiões à procura do significado da vida e de Deus. Cada episódio, apresentado por Freeman, centra-se numa questão sobre o divino, que vai desde o mistério da Criação ao poder dos milagres e à ressurreição.

No primeiro episódio, “Depois da Morte”, que irá estrear este domingo no canal National Geographic, às 22h30, o ator norte-americano irá partir em busca de uma explicação para a obsessão humana com o que acontece depois da morte. No próximo domingo, dia 10 de abril, será a vez de “Apocalipse”, sobre as crenças populares que procuram descrever como será o fim do mundo.

VER AQUI: OBSERVADOR

a tolerância alavanca-se na intolerância de intolerâncias | José Filipe da Silva

jose filipeA Europa do pós-guerra cultivou a tolerância, em todos os azimutes comportamentais, como timbre da sua elevação civilizacional. Por estranho e cacofónico que possa soar, a tolerância alavanca-se na intolerância de intolerâncias e, se assim não for, é mera submissão, abdicação de liberdade. Não podemos compactuar com fundamentalismos bárbaros e assassinos, temos que ser actuantes. Por uma questão de premência, anular numa primeira fase os efeitos e, numa segunda fase, por mais complexo e moroso, tratar das causas. O islamismo radical (eventualmente um pretenso islamismo), põe em causa o islamismo moderado que partilha uma paz ecuménica. No fervor das soluções possíveis, arrisca-se fazer pagar o justo pelo pecador. Para combater o radicalismo islâmico é preciso estar-lhe próximo, sendo que é o islamismo moderado que usufrui dessa proximidade. As ovelhas negras não podem viver camufladas pelas ovelhas brancas, gostaríamos de ver o verdadeiro islamismo na primeira linha desta luta.

José Filipe da Silva

2016-03-24

O Amor está no virtual | Inês Salvador

Ines - 200A gosta da foto de perfil de B
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A gosta de posts B
A gosta da página da empresa onde trabalha B
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A tornou-se amigo D, E, F, H…
A gosta da foto de perfil de D
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A gosta de posts D
A comenta fotos e posts de D com elogios superlativos e graçolas e (im)pertinências dispensáveis
A foi bloqueado por B
B é agora amigo de C
A repete a receita com E, F, G, H…
A falou no chat com B, C, D, E, F, G, H…
I, J L, M, N sabem quem é A
A arrasta-se no alfabeto virtual da sua não existência.
A morreu de amor virtual.

Retirado sem autorização do Facebook | Mural de Inês Salvador

Racismo é crime e devemos combatê-lo todo dia… | Valdeck Almeida de Jesus

Racismo_eh_Crime_valdeck (1)“Um dia um homem branco me falou, que no Brasil não tem branco… mas quando olho em todo canto, eu vejo o branco dominando…”

Giovane Sobrevivente
Poeta e Ativista Cultural

Posso começar este texto com as afirmações “sou racista, sexista, machista, homofóbico, gordofóbico, xenófobo, intolerante religioso…”, pois vivo em um país de desigualdades e de discriminações e aprendi na infância, na adolescência e juventude, através do discurso dominante, inconscientemente, a negar a existência dessas desigualdades e discriminações. Também posso começar o mesmo texto dizendo que estou em processo de educação ao participar de debates, mesmo quando fico somente ouvindo, calado; quando vou a eventos onde se discute a desconstrução de toda e qualquer forma de discriminação e dou, apenas, pequenas contribuições.
Nesse sentido convido a todos os brancos e brancas, meus conhecidos ou não, a se irmanarem num grande debate sobre a humanidade negra, pra fazer um exame de consciência sobre o assunto, expor suas ideias e pensamentos, participar da luta contra os privilégios. É hora de cada um dos privilegiados começar a abrir corações e espaços de poder para que o debate seja posto, incluindo, certamente, recortes de raça, gênero e expressão sexual. Cito aqui grupos que poderão se sentir incluídos nesse chamado: juízes, advogados, delegados, deputados, senadores, vereadores, gestores públicos, governantes, prefeitos, presidentes, comando das polícias, jornalistas, escritores, artistas, empresários etc.
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A biblioteca de Eco e os cinco minutos de jazz | Francisco Louçã in Blog “Tudo Menos Economia”

francisco louca02 - 200As evocações homenegeatórias a Umberto Eco destacaram o filósofo que devolveu a curiosidade à filosofia, o escritor que se divertiu com os seus romances (havia nele um Salgari que nunca escondeu e que norteou a sua busca das terras incógnitas) e o homem cívico que compreendeu que a força de Berlusconi era só a nossa fraqueza, nossa, dos cidadãos desprotegidos perante o tumulto comunicacional e a perda de identidades que a pós-moderna cosmologia impõe. A vertigem do efémero era o ódio de Eco, como se pode compreendê-lo. Eco, como, entre nós, Eduardo Lourenço ou João Martins Pereira, ou Augusto Abelaira, ou Urbano Tavares Rodrigues, era o Montaigne de um tempo novo que ainda brande a modernidade contra o culto do flash, da cosmética e do pronto-a-vestir que dá conforto às transumâncias ideológicas.

Por isso mesmo, a biblioteca era a sua vida. Mas não qualquer biblioteca. Sem labirintos, como a do Nome da Rosa, embora talvez com esconderijos, porque os há sempre, uma biblioteca pessoal não deve ter mais de trinta mil livros, dizia Eco para si mesmo. É muito livro, não sei se ele os pensava poder ler todos, mais os que lá não estão e passam por nós. Na verdade, ler esses livros não é a medida de um bibliotecário, é simplesmente viver com eles, com o gosto da novidade, com o espírito do coleccionador, com o fascínio das ideias escondidas: quando lemos um bom livro nunca terminamos de o ler.

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APELO AOS AMIGOS DO EPHEMERA | José Pacheco Pereira

ephemera02 - 200

Neste momento, o ritmo das ofertas e das aquisições semanais subiu muito, e tem havido um crescente número de voluntários para trabalhar no ARQUIVO / BIBLIOTECA. Torna-se necessário uma espécie de entreposto em Lisboa, onde se possa recolher material, dar-lhe um primeiro tratamento e organização e ter um posto de digitalização. Por isso, precisamos da cedência de um espaço que não precisa de ser muito grande, com condições mínimas para que se possa fazer estes trabalhos, ou pro bono, o que seria ideal para não agravar as despesas, ou com uma renda nominal. De nossa parte, podíamos fazer pequenas obras de manutenção, garantir os gastos de electricidade e água e cuidar da segurança do espaço. Há por toda a cidade espaços vazios, lojas e pequenos apartamentos vagos, que podem servir para este objectivo,. A acessibilidade é também importante. O período da cedência seria de cerca de dois anos.

Obrigado.

«SEXALESCENTES»

actriz

Se estivermos atentos, podemos notar que está a surgir uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno dos sessenta/setenta anos de idade, os sexalescentes – é a geração que rejeita a palavra “sexagenário”, porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.

Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica – parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.

Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória.

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«Primeiras Vontades – Da liberdade política para tempos árduos» | André Barata

foto andré barataComo queremos continuar a História?

Os ensaios do livro “Primeiras vontades – Da liberdade política para tempos árduos”, de André Barata, procuram defender «escolhas humanas que deem um futuro à História, através do pensamento sobre a liberdade política de Jean-Jacques Rousseau, Isaiah Berlin, Hannah Arendt, Jacques Rancière, Jean-Paul Sartre e Slavoj Žižek», explica o autor.

E também, acrescenta, «escolhas por uma continuação da ideia de tolerância, pelo prosseguimento de uma narrativa moderna, por apressada que tenha sido, para Portugal, e pela defesa de um conceito de espaço público, todas elas escolhas que são continuidades de uma modernidade a retomar».

«Em tempos em que se atropelam declarações de últimas vontades, há que escolher como se os tempos fossem imaginativos e nos movessem vontades de tempos novos. Estas são as primeiras vontades para uma vida humana digna.»

Como queremos continuar a História?
Excerto do prefácio

1.

Vivemos tempos árduos. Depois de todos os óbitos anunciados, da literatura e seus autores, de deus até; depois de todos os fins, da arte, da política, mesmo da história, restaria, talvez, antes do pó da terra, a resignação de umas vontades últimas, a capitular sobre o humano que fomos, às vezes até com grandeza.

Mas, será mesmo o fim dos tempos o que nos aguarda?

Desde que a crise se instalou no opulento Ocidente, em várias escalas da coexistência humana, vive-se sem projeto de comunidade. Administramo-nos e somos administrados pela racionalidade da eficácia, diminuídos à condição de meios a proporcionar o fim da eficiência. Um esquema societário da subtração hegemoniza-se sob o fundamento duplo de que, na ordem dos factos, o mundo não basta para todos e de que, na ordem dos valores, não devemos dar por garantido nenhum direito adquirido quanto à existência digna no mundo.

André Barata

Esta subtração é ainda a indicação precisa da ruína da condição de uma pós-modernidade que, ao engendrar o relativismo cultural, pelo menos tinha o mérito de subscrever um entendimento generoso e multiplicador da existência. Mas não, a mudança das condições que a sustentavam foi também a ocasião para um acerto de contas com os modos de vida pós-modernos. Numa rotação excessiva, esses mesmos modos de vida, com o seu ideário relativista, rapidamente passaram a responsáveis pelas dificuldades do Ocidente. Os tempos endureceram e, sem relatividade ou perspetiva, entre aqueles que teriam culpas no cartório estariam os pós-modernos. A História recente emudeceu-os.

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Jaula de Aço | Max Weber

Max_WeberEm 1920, Max Weber antecipou uma implacável racionalização da vida, amputada do seu lado afectivo. Isto seria o resultado de uma modernidade regida só pelo lucro.
Em vez de ser vivida como uma emancipação, esta mudança levaria a uma total submissão aos desejos e aos bens materiais, que o sociólogo alemão simbolizara pela imagem da “jaula de aço”.

 
Para Weber, “a preocupação com os bens exteriores não devia pesar sobre os nossos ombros (…) a não ser como um sobretudo ligeiro que a qualquer momento podemos despir.”
A fatalidade transformou o sobretudo de Weber numa “jaula de aço”.

A religião na escola pública | Anselmo Borges, Padre e Professor de Filosofia, in “Diário de Notícias”

anselmo-borgesQuantos cristãos saberão que, se Adão e Eva fossem figuras reais e nossos contemporâneos, precisariam, para viajar para o estrangeiro, de um passaporte iraquiano? Quantos se lembram de que Abraão, que está na base das três religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo, islão -, possuiria igualmente nacionalidade iraquiana? Quantos se lembram de que os primeiros capítulos do Génesis, referentes ao mito da criação e da queda, se passam na Mesopotâmia, onde mergulham algumas das nossas raízes culturais? Há guerras em curso, também por causa da divisão entre xiitas, sunitas e jihadistas. Mas quem conhece essas divisões e a sua origem e importância históricas? Qual é a relação entre religião e violência, religião e política, religião e desenvolvimento económico?

Há já alguns anos, Umberto Eco, agnóstico, lamentava-se: “Nas escolas italianas, Homero é obrigatório, César é obrigatório, Pitágoras é obrigatório, só Deus é facultativo. Se o ensino religioso se identificar com o do catecismo católico, no espírito da Constituição italiana deve ser facultativo. Só lamento que não exista um ensino da história das religiões. Um jovem termina os seus estudos e sabe quem era Poséidon e Vulcano, mas tem ideias confusas acerca do Espírito Santo, pensando que Maomé é o deus dos muçulmanos e que os quacres são personagens de Walt Disney…”

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A Verdade sobre o Mal – John Gray

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A nossa fé no avanço civilizacional leva-nos a acreditar que estamos a coberto de erros do passado e, consequentemente, do “mal” que assolou a humanidade em tempos idos. Qualquer retrocesso civilizacional é considerado como pontual e corrigível. Saddam Hussein foi a personificação do mal que uma vez extirpado, mergulharia o Iraque numa florescente democracia. ISIS é agora o novo mal. John Gray olha para a nossa história e para o percurso da humanidade e constata de que, nem a nossa civilização evolui em direção do bem, nem o mal traz assim uma tão grande novidade.

Removido o tirano, nada garante que as forças do bem prevaleçam. É um facto histórico.

Our leaders talk a great deal about vanquishing the forces of evil. But their rhetoric reveals a failure to accept that cruelty and conflict are basic human traits.

O texto, em inglês, é extenso, mas recorrendo-se à função long read torna-se fácil segui-lo.

(texto na edição online do The Guardian)

O povo da televisão | ANTÓNIO GUERREIRO in Jornal Público

O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos.

O espírito popular desapareceu”, escreveu Pasolini num dos seus textos de crítica e resistência ao presente. Quarenta anos depois, esta proposição tornou-se um axioma, mas de onde se ausentou o sentido que tinha para Pasolini: o de uma catástrofe. Desapareceu o espírito popular, mas os vários canais portugueses de televisão insistem, quase sem excepção, em construir um povo que não existe, mas cujo simulacro — pensam eles, os “produtores de conteúdos” televisivos — é telegénico que se farta e tem aquela qualidade tão apreciada pelos construtores de mentiras: o “efeito de real”. Trata-se daqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e entertainers para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco. O povo construído pela televisão é degenerado, ridículo, monstruoso. E os seus criminosos construtores têm nomes publicamente conhecidos e sucesso alargado: são as Júlias, as Luísas, os Joões, os Manueis e os seus directores de programas, produtores, chefes, empresários, até ao topo da hierarquia. Há o “povo” que vem aos estúdios dos programas da televisão (quase sempre um “povo” suburbano que já conhece bem os códigos da televisão e sabe imitá-los); e há o povo que a televisão visita no seuhabitat natural, geralmente os recantos profundos do país onde se vai em busca de arquétipos. Um e outro são descaradas mentiras, falsas construções que deformam até à degradação. Qualquer que seja o sentido da palavra, tenha ela um sentido sociológico e político ou aponte na direcção utópica da criação artística para a qual há sempre “um povo que falta”, existe mais “povo” em qualquer filme de Pedro Costa (um povo que vem, isto é, venturo, como o nome de Ventura) do que em todos os programas de televisão. O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos. Quantas vezes não assistimos já às câmaras a fazerem um zoom sobre as mãos encarquilhadas, ou qualquer outra parte do corpo, do indivíduo do “povo” que se queixa de uma qualquer decisão — ou da ausência dela — dos governantes? Nesse momento, a pessoa é espoliada do seu estatuto político e ganha uma espécie de qualidade étnica. Já alguém deu por a televisão fazer um grande plano das mãos de um ministro? Já alguém viu, na televisão, as mãos de Marcelo Rebelo de Sousa a não ser como instrumentos de gesticulação expressivo-didáctica? O povo da televisão não é representado como sujeito minoritário do populus, do corpo de todos os cidadãos. É visto, antes, como espécie castiça de um parque natural que fica longe, muito longe, da Comporta. Deste modo, este povo que a televisão reconstrói e deforma à medida das suas exigências tem alguns pontos de coincidência com o povo do populismo. Mas há uma diferença fundamental: o populismo dirige-se à classe geralmente excluída da política e que, por isso, não tem privilégios de sujeito político constitutivo, reclamando que essa classe é o único poder legítimo, é uma parte do populus, do povo como categoria política, detentor da soberania, que deve funcionar como a totalidade da comunidade. A televisão, pelo contrário, quer tudo muito bem arrumado nos seus lugares e que não se quebre a harmonia estabelecida no parque natural do povo.

António Guerreiro

http://publico.pt/culturaipsilon/ … (FONTE)

Noam Chomsky e as 10 Estratégias de Manipulação dos Media

O linguista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranquilas’)”.

Noam Chomsky

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

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Um dia isto tinha que acontecer | Mia Couto

id_331_2Um dia isto tinha que acontecer Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

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Modern life means children miss out on pleasures of reading a good book |Guardian|

Busy parents are dropping bedtime stories and teachers lack time to instil a love of reading, conference told.

A young girl reading a book

Reading for pleasure is declining among primary-age pupils, and increasing numbers of “time poor” parents are dropping the ritual of sharing bedtime stories with their children once they start school.

Research presented to the Children’s Media Conference in Sheffield last week found that, while parents read to pre-schoolers, this later tails off, and by the final year of primary school only around 2% read to their children every day. Once children can read competently, parents tend to step back, and this usually happens at the age of seven or eight.

The report, entitled Is Children’s Reading a Casualty of Modern Life?, also found that 82% of teachers blame the government’s “target-driven” education policies for the fact that fewer children are reading for pleasure.

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A sedução totalitária | Adelto Gonçalves

I

            Por que o século XX foi um período tão propício a experiências totalitárias? Sabe-se que Hitler, Mussolini, Stalin, Franco, Salazar, Vargas e outros ditadores menos cotados ou conhecidos não chegaram ao poder e muito menos governaram sozinhos, contando com o apoio não só de grandes homens de negócios, que sustentaram as maiores ignomínias praticadas contra seres humanos, em troca de interesses pessoais e, muitas vezes, mesq     uinhos, como do homem comum, o das ruas, o homem-massa, conforme o definiu o pensador espanhol Ortega y Gasset (1883-1955).

            Examinar a gênese do pensamento totalitário e as razões que o levaram a encantar multidões foi o que motivou a XIII Semana de Filosofia, realizada em 2010 na Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), em Minas Gerais. São os 12 estudos apresentados durante esse seminário que estão reunidos em Poder e Moralidade: o totalitarismo e outras experiências antiliberais na modernidade (São Paulo, Annablume/UFSJ, 2012), com apresentação e organização do filósofo e psicólogo José Maurício de Carvalho, professor titular de Filosofia Contemporânea do Departamento de Filosofia da UFSJ, doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro.

            Em poucas palavras, os estudos revelam que o totalitarismo é adversário do homem livre, ou seja, daquele que se percebe responsável por seu destino histórico, que escolhe e é capaz de sustentar responsavelmente suas opções, como assinala o professor José Maurício de Carvalho na apresentação que escreveu para este volume. Isso não significa que nos regimes ditos liberais não existam focos de totalitarismo, como sabe muito bem quem já trabalhou em redações de jornais e revistas e viu de perto grandes empresas e autoridades públicas procurarem asfixiar a liberdade de pensamento à custa de pressões econômicas. Sem contar que a chamada liberdade de imprensa quase sempre é a liberdade do dono do jornal de publicar o que quiser, mas não a do empregado jornalista.

                                                           II

            Para o professor Selvino Antonio Malfatti, da Universidade Federal de Santa Maria, do Rio Grande do Sul, o fenômeno totalitário é uma experiência relativamente recente na história política do Ocidente e constitui um desvio de rota da moralidade ocidental. Em seu estudo “Moralidade e Política no Totalitarismo”, Malfatti diz que o fenômeno é resultado da falência dos valores humanos e da descrença na capacidade do homem de se organizar sozinho.

            Essa é uma ideia muito antiga e que, ao final de 1797, por exemplo, serviu para o intendente-geral de Polícia, Diogo Inácio de Pina Manique, organizar uma sessão da Nova Arcádia na grande sala da Real Casa Pia, no Castelo de São Jorge, em Lisboa, em homenagem ao aniversário de D. Maria, em que o acadêmico Manuel Bernardo de Sousa e Melo, presidente do encontro, defendeu “a solidez interna das monarquias reais” e condenou “a fraqueza das fórmulas republicanas”. Dirigindo-se ao príncipe regente D. João, o acadêmico dizia que “os homens não nascem bons e, por isso, onde quer que vão levam consigo a depravação de origem”.

             Dizia mais: “Portanto, os homens levarão consigo a depravação, a ambição, o ódio, a sensualidade, o ciúme, a vingança; enfim, levarão as paixões, estes ímpetos precipitados do nosso ânimo, estes monstros domésticos do nosso coração, mais indomáveis que feras exteriores, pois, desenfreados e livres, não respeitam outro direito que o da força nem conhecem outras virtudes mais que as suas mesmas satisfações”. Era o que o intendente queria que o príncipe regente ouvisse para justificar mais repressão, como se lê em Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003, p. 241), deste articulista.

            Muitos anos mais tarde, do outro lado da Europa, em São Petersburgo, um morador de um prédio que fica no cruzamento da rua Koppuznetchny com a rua Dostoevskaia, antiga Iamskaïa, não muito distante da igreja do Ícone de Nossa Senhora de Vladimir, escreveria que “nada de grandioso se pode esperar do homem”, seguindo na mesma linha do acadêmico Sousa e Melo.  Esse morador chamava-se Fiodor Dostoievski (1821-1881) e ninguém como ele retratou com tanta fidelidade a humanidade em toda a sua miséria e degradação.

            Esse pensamento deve ter ficado na alma das gerações que os sucederam. Se o Portugal joanino e o Portugal salazarista como a Rússia czarista e a Rússia soviética eram países atrasados e com altos índices de analfabetismo, a conclusão a que se poderia chegar é que constituíam terreno fértil para a sedução do totalitarismo. Mas como explicar que a Alemanha, já desenvolvida à época e com altos índices de alfabetização, também se tenha deixado atrair pela insânia nazista?

                                                           III

            Diz o professor Malfatti que, em troca da adesão, o totalitarismo oferece uma ideologia que se propõe a explicar toda a vida da sociedade. “Todos devem professar a ideologia como se fosse uma fé religiosa”, diz o professor. “O ditador, rodeado de uma pequena parcela da população, submete o resto. Para tanto”, diz, “cria um partido, único evidentemente, dirigido por ele à frente de fanáticos seguidores. O passo seguinte é instaurar um sistema de terrorismo policial que invade e vasculha toda vida pública e privada dos indivíduos. O outro passo é o controle dos meios de comunicação para que só a ideologia oficial seja ouvida. Tudo isso permeado por ideais salvacionistas”. E acrescenta: “Os líderes soviéticos no período stalinista e os chefes do nazismo estavam imbuídos de que estavam cumprindo uma missão para a humanidade”.

            De fato, durante a ditadura militar (1964-1985) no Brasil, uma parte dos torturadores e de seus financiadores imaginava que estava colocando o País a salvo da ameaça comunista, mas a maior parte fazia o serviço sujo não só por sadismo e mau-caratismo como para se aproveitar de vantagens pessoais e oportunidades que se ofereciam com o saque dos despojos das vítimas.

                                                           IV

            Já José Maurício de Carvalho e Vanessa da Costa Bessa, da UFSJ, em “Totalitarismo e ética em Ortega y Gasset”, defendem que a recusa do homem-massa em assumir a sua vida é o sangue que impulsiona os governos totalitários que a Europa produziu no século passado. Para os autores, as ideias de Ortega y Gasset ainda permitem entender o fenômeno, embora o mundo de hoje seja outro e pior, pois assolado por violência urbana, pelo crime organizado associado ao tráfico de drogas, fanatismo religioso convertido em terrorismo e ameaças de desequilíbrio ecológico.

            Seja como for, para os autores, continuamos a viver um tempo de massas, tal como definiu Ortega y Gasset. Por isso, dizem, os riscos de nos depararmos com novas propostas totalitárias não estão afastadas de todo enquanto a responsabilidade com a construção do futuro não for retomada e o medo da liberdade não for vencido. “O risco é real porque poucas vezes na história humana os Estados Nacionais possuíram informações e controles tão completos da vida de seus cidadãos”, acrescentam.

            Pior ainda no Brasil de hoje em que se vive uma época de desmoralização da representação parlamentar, tal qual na Espanha pré-franquista. E essa desmoralização se dá pelos muitos parlamentares, que, em troca de vantagens pessoais e de grupos, acabam virando despachantes de contraventores, facilitadores de grandes negócios à custa do erário público – aliás, desde os tempos coloniais, o caminho mais fácil para o enriquecimento rápido. Desmoralizado o Parlamento, o caminho fica aberto à tentação totalitária. Eis aqui bem depositado o ovo da serpente.

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PODER E MORALIDADE: O TOTALITARISMO E OUTRAS EXPERIÊNCIAS ANTILIBERAIS NA MODERNIDADE, de José Maurício de Carvalho (organizador). São Paulo: Annablume/Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), 232 págs., 2012, R$ 40,00. E-mail: dfime@ufsj.edu.br Site: annablume.com.br

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(*) Texto publicado na Revista Estudos Filosóficos, do Departamento de Filosofias e Métodos da Universidade Federal de São João del Rei-MG, nº 9, 2012, p. 171-173.

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Os filósofos e a discussão pública por Aires Almeida in Blog da Crítica

Nigel Warburton postou no seu blog Virtual Philosopher a lista dos 10 filósofos vivos que mais têm contribuído para o debate público. Claro que há muitos outros filósofos, tão ou mais interessantes, e que não contribuem tanto como aqueles para o debate público. O mérito filosófico e a contribuição para o debate público não são exactamente coincidentes. Dificilmente se imagina um filósofo da matemática, por muito brilhante que seja do ponto de vista filosófico, ter o impacto público que um filósofo político tem.  Ainda assim, a contribuição para o debate público de ideias não deixa de ser um indicador da importância e da influência de alguns filósofos, pelo que a lista de Warburton tem algum interesse.

Não sei com que critérios foi elaborada a lista, mas decidi gastar dois minutos a pesquisar no Google os nomes daquela lista, mais dois ou três que estranhei não ver lá, tendo-me limitado a ver o número total de referências.
Tenho de confessar a minha ignorância em relação a Cornel West, de quem conhecia o nome e pouco mais. Mas, a seguir ao esmagador Peter Singer, o mais referido no Google é precisamente West. Isto se não contarmos com todas as vezes que Umberto Eco é referido, caso contrário, este ficaria em segundo lugar (mesmo assim muitíssimo longe de Singer). Só que a maior parte das referências a Eco são sobre os seus romances e não propriamente sobre as suas ideias filosóficas, pelo que não estão relacionadas com o seu contributo para a discussão pública. Mas pude confirmar que alguns nomes ausentes da lista de Warburton são mais frequentes na net do que outros que lá estão. São, por exemplo, os casos de Anthony Grayling e de Roger Scruton. Sobretudo o primeiro destes.
Uma das muitas coisas (e são tantas!) que os números do Google não mostram, é que alguns filósofos mais jovens têm sido recentemente cada vez mais referidos, o que indica que estão talvez mais presentes na discussão pública actual do que outros que já andam por aí há mais tempo. Parece-me que o caso de Sandel, um filósofo relativamente jovem, tem marcado mais o espaço público da discussão filosófica nos últimos tempos do que o veterano Habermas: o primeiro livro publicado por Habermas data de 1962, ao passo que o primeiro publicado por Sandel data de 1982.
Tendo todos estes aspectos em conta, eu faria uma lista ligeiramente diferente da de Warburton, acrescentado-lhe mais dois nomes. A lista ficaria assim:
1. Peter Singer
2. Michael Sandel
3. Cornel West
4. Amartya Sen
5. Daniel Dennett
6. Anthony Grayling
7. Kwame Appiah
8. Jürgen Habermas
9. Martha Nussbaum
10. Umberto Eco
11. Roger Scruton
12. Ronald Dworkin
Claro que a influência de cada um entre os seus pares é outra coisa. Para terminar, sublinhe-se o facto de Dennett navegar em águas diferentes (nem melhores nem piores) de todos os outros. O que vos parece?
FONTE:  http://blog.criticanarede.com/search/label/Filosofia