Pensar é resistir, por Guilherme d’Oliveira Martins, in DN

Hannah Arendt, uma das grandes referências do pensamento contemporâneo, afirmou que a diferença entre os que resistem e os que passivamente colaboram com a injustiça está no pensar. Quem resiste fá-lo porque pensa e procura conhecer e compreender. A democracia constrói-se, por isso, com a intervenção atenta e crítica e com a responsabilidade. Por outro lado, como a escritora disse em A Condição Humana (1958), o que está em causa no mundo moderno é o exercício da liberdade e a consequente ação cívica e política. Amar o mundo, como ensinou Santo Agostinho, requer que ajustemos contas com a realidade, o que significa que precisamos da distância crítica, que recuse a indiferença, para que a experiência própria nos ajude à emancipação e a fazer da justiça um programa de vida. O isolamento, a recusa da partilha de responsabilidades constituem, assim, severos perigos para a ação no seio da sociedade. O súbdito ideal de um regime totalitário, disse Arendt em As Origens do Totalitarismo (1951), não é o militante cego e intolerante, mas sim aquele para quem a distinção entre factos e ficção, e a distinção entre verdadeiro e falso já não existem.

A banalidade do mal, que a pensadora encontrou na figura de Eichmann, o executor de milhares de mortes, corresponde à incapacidade desse “vulgar bufão” para um pensamento autoanalítico. Para ele a execução de um crime confundia-se com o cumprimento de uma obrigação. E assim o mal radical surgia associado a um sistema em que os homens se tornaram igualmente supérfluos. Deste modo, o pensamento racista dá lugar ao racismo, como instrumento de violência política. Eis por que o totalitarismo se distingue de outras formas de autoritarismo, pelo uso sistemático do terror e pela sua instrumentalização, a partir da atomização individual e pela eliminação da espontaneidade e da liberdade política.

No grande drama do século XX, as vítimas dos campos de concentração e de extermínio eram desligadas do mundo, incitando o terror ao esquecimento e a uma pungente falta de memória. Por isso, o totalitarismo torna a ação política impraticável, porque destrói a possibilidade de ações espontâneas e autónomas por parte das pessoas. Com efeito, a pluralidade é a condição da ação humana porque todos somos o mesmo, ou seja, seres humanos porque ninguém é irrepetível e não se confunde com outra pessoa. Quando alguém fica isolado no seu pensamento e na capacidade de se movimentar e agir livremente pelo mundo, aí temos um sinal de alerta relativamente ao totalitarismo que nasce. Recusando simplificações, Hannah Arendt considerou que só o pensamento é emancipador. Importava, no fundo, enfrentar o empobrecimento do espaço público da ação, através de um pensamento ágil, capaz de ser enriquecido através da memória e do diálogo com os livros como permanentes referências em tempos sombrios. O pensamento enriquece-se pelo diálogo plural, o que leva Celso Lafer, discípulo de Arendt em Cornell, a associar à tradição da mestra, os contributos de Isaiah Berlin, na distinção entre ouriços e raposas, e de Norberto Bobbio, como cultor da liberdade igual e da igualdade livre. Aqui se encontra a chave da democracia, encarada como sinal de resistência, uma vez que o valor universal da dignidade humana exige que a atenção e a memória sejam verdadeiros sinais de vida.

IRLANDA | Le monde Litéraire, in Facebook

Après le succès d’une phase pilote lancée en 2022, le gouvernement irlandais a annoncé en février 2026 que le programme de Revenu de Base pour les Arts deviendrait une mesure permanente. Le nouveau dispositif entrera officiellement en vigueur en septembre 2026, date à laquelle les candidatures seront ouvertes afin de sélectionner les 2 000 bénéficiaires qui recevront un revenu mensuel stable durant le cycle 2026-2029.

Cette aide, fixée à 325 euros par semaine (soit environ 1 300 euros par mois), sera attribuée de manière cyclique afin de permettre au plus grand nombre possible d’artistes d’accéder au dispositif au fil du temps.

Avec la mise en œuvre définitive de ce programme cette année, l’Irlande s’impose comme le premier pays à établir une structure de revenus de ce type afin de protéger durablement la créativité et le bien-être de son écosystème culturel.

O REINO DESUNIDO, por Francisco Seixas da Costa

Em julho de 1990, cheguei a Londres, para ocupar o lugar de ministro-conselheiro da embaixada. 

Há muito que era um observador interessado na trama política britânica, mas passar a ter a responsabilidade de informar diariamente Lisboa obrigou-me a uma rápida imersão naquele mundo, servido por uma comunicação social de grande qualidade, que muito ajudava a melhor entender aquela realidade.

Viviam-se tempos de claro desgaste de Margaret Thatcher, que não dava mostras de admitir abandonar o lugar. No seio dos conservadores, tinha emergido a figura de Michael Heseltine, que viria a desafiar formalmente a sua liderança. Contudo, muitos dos que já tinham por inevitável que Thatcher saísse opunham-se a que Heseltine ascendesse a primeiro-ministro — temendo em especial o seu europeísmo, num tempo em que Bruxelas e a Comissão eram os culpados de serviço de muitos dos males do reino.

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