“O problema não está no PS e a solução não é a ala esquerda do PS” – Daniel Oliveira in “Expresso” de 06/05/2026

“Chegado de Angola, onde tudo está por fazer e isso relativiza todas os pequenos dramas domésticos, choquei de frente com uma nova novela política que, entretanto, abrandou: Pedro Nuno Santos regressou ao parlamento com estrondo e obrigando todos a reagir. É natural que isso aconteça quando um ex-líder se mantem no parlamento. Uma decisão que só faz sentido se se quiser voltar a ser qualquer coisa relevante na política. Duarte Cordeiro reagiu à acusação de “tacticismo”. É verdade que podia ter avançado contra Carneiro. Quando houve uma mudança de ciclo, Pedro Nuno avançou. No pior momento para ele e para o PS. Mas numa coisa Cordeiro tem razão: é o género de polémica que entusiasma comentadores e embala de tédio a generalidade dos portugueses.

Interessa-me mais, por isso, a análise de Pedro Adão e Silva, que conhece melhor o PS do que eu. Apesar de não concordar com várias coisas (a comparação entre Pedro Nuno e Santana Lopes é uma absurda ferroada que até tira força analítica ao texto), o debate vai para lá da falta de carisma de Carneiro (que até se vai safando) ou da vontade de travar o passo a Duarte Cordeiro num momento em que o PS sobe nas sondagens. A questão não será tanto, como diz Adão e Silva, se a liderança é mais ou menos “populista”, expressão que, de tão abastardada, deixou de ser operativa no debate político. É, como também diz, se tem espaço para polarizar. E eu digo que não, pela experiência recente e pela lógica da política.

Continuar a ler

AS MEMÓRIAS POLÍTICAS DE CARLOS BRITO: “ÁLVARO CUNHAL. SETE FÔLEGOS DO COMBATENTE”, por José Pedro Castanheira

Foi há 16 anos que o ex-dirigente do PCP Carlos Brito publicou as suas memórias políticas, que são igualmente uma espécie de biografia de Álvaro Cunhal. Com o sugestivo título de “Álvaro Cunhal. Sete fôlegos do combatente”, com a chancela das Edições Nelson de Matos, é um dos livros mais interessantes alguma vez escrito por um dirigente histórico do PCP.

Para além de membro do seu Comité Central durante décadas, Carlos Brito foi o líder da bancada parlamentar comunista durante quinze anos e candidato a Presidente da Repúblicas nas eleições de 1980, tendo desistido a favor de Ramalho Eanes.

Carlos Brito faleceu a 7 de maio, com 93 anos. Aqui se deixa a recensão que publiquei no caderno Actual do semanário “Expresso”, a 22 de maio de 2010, daquele seu interessantíssimo livro, e a que então dei o título de…

CUNHAL SUFOCOU O PARTIDO POR AMOR

Carlos Brito conheceu Álvaro Cunhal em Paris, em Outubro de 1966, num café da Place de Clichy. Saído da prisão havia menos de três meses, Brito “ainda andava aturdido com a liberdade”. Militante do PCP desde 1954, recorda que o mítico dirigente era conhecido por “o chefe”.

A última conversa entre ambos foi em fevereiro de 2000, com Cunhal regressado “de facto ao comando do partido, impondo a férrea obediência” à “ortodoxia conservadora”. Brito escrevera um artigo no “Avante!” sobre a morte de Luís Sá, um dos expoentes da renovação e que muito admirava.

Da iniciativa do velho líder, a conversa serviu para “criticar” o artigo, com acusações de permeio, como “o Luís Sá não era leninista”. Horas depois, a conversa foi relatada ao Comité Central pelo próprio Cunhal, embora sem referir o interlocutor.

“Profundamente chocado”, Brito assumiu-se de imediato “como o interlocutor que Cunhal omitira”, após o que escreveu uma carta à direção do partido – publicada na revista “Visão” -, que serviria de pretexto à sua suspensão disciplinar por dez meses e à subsequente rutura.

33 ANOS DE CONTACTO INTENSO

Continuar a ler