AS MEMÓRIAS POLÍTICAS DE CARLOS BRITO: “ÁLVARO CUNHAL. SETE FÔLEGOS DO COMBATENTE”, por José Pedro Castanheira

Foi há 16 anos que o ex-dirigente do PCP Carlos Brito publicou as suas memórias políticas, que são igualmente uma espécie de biografia de Álvaro Cunhal. Com o sugestivo título de “Álvaro Cunhal. Sete fôlegos do combatente”, com a chancela das Edições Nelson de Matos, é um dos livros mais interessantes alguma vez escrito por um dirigente histórico do PCP.

Para além de membro do seu Comité Central durante décadas, Carlos Brito foi o líder da bancada parlamentar comunista durante quinze anos e candidato a Presidente da Repúblicas nas eleições de 1980, tendo desistido a favor de Ramalho Eanes.

Carlos Brito faleceu a 7 de maio, com 93 anos. Aqui se deixa a recensão que publiquei no caderno Actual do semanário “Expresso”, a 22 de maio de 2010, daquele seu interessantíssimo livro, e a que então dei o título de…

CUNHAL SUFOCOU O PARTIDO POR AMOR

Carlos Brito conheceu Álvaro Cunhal em Paris, em Outubro de 1966, num café da Place de Clichy. Saído da prisão havia menos de três meses, Brito “ainda andava aturdido com a liberdade”. Militante do PCP desde 1954, recorda que o mítico dirigente era conhecido por “o chefe”.

A última conversa entre ambos foi em fevereiro de 2000, com Cunhal regressado “de facto ao comando do partido, impondo a férrea obediência” à “ortodoxia conservadora”. Brito escrevera um artigo no “Avante!” sobre a morte de Luís Sá, um dos expoentes da renovação e que muito admirava.

Da iniciativa do velho líder, a conversa serviu para “criticar” o artigo, com acusações de permeio, como “o Luís Sá não era leninista”. Horas depois, a conversa foi relatada ao Comité Central pelo próprio Cunhal, embora sem referir o interlocutor.

“Profundamente chocado”, Brito assumiu-se de imediato “como o interlocutor que Cunhal omitira”, após o que escreveu uma carta à direção do partido – publicada na revista “Visão” -, que serviria de pretexto à sua suspensão disciplinar por dez meses e à subsequente rutura.

33 ANOS DE CONTACTO INTENSO

Entre as conversas de Paris e Lisboa, foram 33 anos de um contacto intenso, por vezes diário, sobretudo durante os 15 anos em que Brito foi líder parlamentar, com gabinetes no mesmo 6º andar da sede da Rua Soeiro Pereira Gomes. Personalidade “fascinante e intrigante”, mas com “certos comportamentos autoritários”, Cunhal “fez-me inesperadas confidências

inusuais”.

O projeto do livro era antigo. “Há largas páginas deste trabalho que estavam escritas há muito. Do que precisei foi de tempo para sarar as feridas dos combates internos no PCP (…) em que ficámos em campos opostos.

SURPREENDIDO PELO 25 DE ABRIL EM PARIS

Antes do 25 de Abril, realce para o encontro com a ASP de Mário Soares em Paris, em 1972. No final, Brito tinha mais de 40 graus de febre e Cunhal levou-o “para a sua secretíssima casa”. Brito ainda resistiu: “Não pode ser, a tua casa é altamente ‘compartimentada’, um segredo do Partido.” Cunhal replicou: “Está decidido, é matéria de disciplina.” Foi lá que convalesceu.

As notícias sobre o Movimento dos Capitães depararam com um “grande ceticismo” por parte de Cunhal, que foi “surpreendido pelo 25 de Abril, em Paris”. Na manifestação do 1º de Maio, Cunhal “teve que fugir de Mário Soares, que queria à viva força dar-lhe o braço para partilhar a sua impressionante popularidade”.

A participação do secretário-geral nos Governos Provisórios “aumentou o seu prestígio nacional e sobretudo internacional, especialmente na URSS”. “Julgo que Álvaro Cunhal se sentia bem na pele de membro do Governo. Tinha um acentuado sentido de Estado e até o culto do Estado (…) No seu gabinete de São Bento cultivava um ar respeitoso, quase religioso – falava-se a meia voz e andava-se como que em bicos dos pés.” Por essa altura começou a funcionar, “por sua iniciativa e sob a sua direção directa”, uma Comissão Militar, cujas ramificações se estenderiam ao primeiro-ministro, a membros do Conselho da Revolução e à 5ª Divisão.

O 11 DE MARÇO TRANSFORMOU O LÍDER COMUNISTA

“Nunca tinha visto Álvaro Cunhal tão eufórico e confiante no decurso da revolução portuguesa como nos dias que se seguiram” ao fracasso do golpe spinolista de 11 de março de 1975. Seguiram-se as eleições para a Assembleia Constituinte.

“Posso garantir que nunca fez vencimento na direção do partido a ideia de pressionar a não realização das eleições ou o seu indefinido adiamento.” Os resultados eleitorais foram um “tremendo balde de água fria – o primeiro de muitos”.

No “quadro de confusão” que foi o PREC, “o PCP perdeu de alguma maneira o pé”.

“Nunca vi Álvaro Cunhal tão perturbado, e com tanta dificuldade de definir um rumo, como neste período. O PCP estava habituado a rebocar a esquerda militar (…), agora era de certo modo arrastado por ela. O secretário-geral sufocava.” Brito foi operado de urgência a 19 de julho, dia da manifestação do PS na Fonte Luminosa, em Lisboa. Foi visitado dias depois por Cunhal.

“Vinha contente, nesse dia. Começou por me dizer que os militares dos Comandos da Amadora tinham saneado Jaime Neves.” Mas não deixou de frisar: “A correlação de forças no plano militar é muito oscilante, mas pode virar-se contra nós.”

Passou a demarcar-se do “sectarismo e esquerdismo” do círculo de Vasco Gonçalves. Data dessa altura o quarto dos sete fôlegos a que se refere o título do livro: “Substituir a crescente confrontação por uma linha de conciliação.” Nesta súbita “viragem”, afastou-se “decididamente de qualquer forma de conspiração militar de tipo golpista”.

IMPEDIMOS O ASSALTO À CONSTITUINTE

Um dos episódios mais detalhados no livro é o da manifestação dos operários da construção civil. “Não conseguimos evitar o sequestro dos deputados, mas conseguimos impedir o assalto à Assembleia Constituinte, que em vários momentos esteve iminente.”

O PCP participou ainda na organização dos Soldados Unidos Vencerão (SUV), cujas movimentações deram alento “aos sonhos insurrecionais de largos sectores da esquerda, militar e civil, incluindo dentro das fileiras do Partido”, colocando na agenda “o imediato assalto ao poder”. “Num encontro urgentíssimo” pedido à direção do PCP, o MES enfatizou que “as condições estavam maduras para a insurreição”. Diferente era a análise dos comunistas: “Sabíamos das nossas diminutas forças na área militar.”

A 25 de Novembro, Melo Antunes foi à televisão dizer que o PCP era essencial à democracia. “Algum tempo depois, o general Ramalho Eanes fez questão de dizer a uma delegação do PCP (…) que a declaração de Melo Antunes tinha obedecido a uma decisão do comando militar, de que ele tinha a chefia.”

Num balanço sobre o PREC, Brito não duvida: Cunhal “contribuiu decisivamente para salvar o Partido do esmagamento militar, a democracia da ameaça fascizante e Portugal da guerra civil”.

A criação do PRD, em 1985, foi “um ponto de intenso diálogo” entre Cunhal e Melo Antunes, mas também com Hermínio Martinho, o primeiro presidente do partido eanista. O PCP contribuiu mesmo para a recolha de assinaturas para a

legalização do partido.

O VETO DE SARAMAGO PARA DIRETOR DE “O DIÁRIO”

O livro detém-se na vitória de Mário Soares nas eleições presidenciais de 1985 e conta as conversações travadas entre “dois representantes do candidato”, Gomes Mota e Jorge Sampaio, com uma delegação do PCP, integrada pelo próprio Brito e por Octávio Pato. A reunião realizou-se no Hotel Altis, na manhã seguinte à primeira volta. O PCP foi decisivo para a eleição de Soares, a quem Cunhal chegara a chamar “líder da reação” – o que lhe custou o fim do mito da “infalibilidade”.

Mais tarde, Cunhal viria a apoiar “a audaciosa proposta de Jorge Sampaio” de uma coligação de esquerda em Lisboa.

Durante a perestroika, quando algumas revistas “começaram a publicar artigos sobre a repressão nos tempos de Estaline e até de Brejnev (…), não hesitou em impor a proibição da sua venda nas sedes do PCP e comunicou pessoalmente a Gorbatchov”.

Em 1991, apostou na queda do líder soviético: “Não tenho dúvidas de que o camarada Álvaro foi um daqueles que acreditou no êxito do golpe de Estado do PCUS.” Brito critica o que chama de “conspiração”, quer do “Grupo dos 6”, quer da “Terceira Via”. Garante, porém, que “votei sempre contra

perseguições, sanções ou quaisquer medidas administrativas”, que estiveram na base do abandono do partido de “milhares de militantes e simpatizantes”.

Aquando da escolha de um secretário-geral adjunto, o primeiro nome que surgiu foi o de Luís Sá. “Pude testemunhar que Cunhal fez os máximos esforços para que Luís Sá aceitasse (…) só desistindo quando se convenceu que a recusa era definitiva.” Segunda escolha, Carlos Carvalhas viria a ser manietado pela “fação conservadora-sectária”. “Até elementos que, no tempo

do fascismo, se tinham portado cobardemente na polícia ou que tinham fugido em pânico para o estrangeiro (…), apareceram armados em duros e puros revolucionários, acusando os renovadores de traidores e arrependidos.”

“FAMOSAS EMBIRRAÇÕES PESSOAIS”

Brito afastou-se dos órgãos executivos do PCP em 1998, indo viver para Alcoutim, no Algarve. No ano seguinte, assistiu ao regresso em força de Cunhal. “Não se tratou desta vez de um novo fôlego. Foi um salto para trás.” Compara a saída

de cena com “uma abdicação condicionada, limitada e vigilante, como a de D. Pedro IV, o Rei Soldado”. Cita o histórico comunista Joaquim Pires Jorge, que contava “a história de uma mãe que tanto abraçava o seu adorado bebé que um dia o sufocou. Aconteceu mais ou menos isso com Álvaro Cunhal, no último troço da sua vida, em relação ao PCP”.

São poucos e parcos os comentários sobre pessoas com quem Cunhal se foi cruzando. Dado a “famosas embirrações pessoais”, duas das “mais notórias, grandes e fixas” atingiram Soares e Santiago Carrillo, o líder dos comunistas de Espanha. “Embirrações” que recaíram, em certa fase, sobre camaradas como Domingos Abrantes e José Saramago. “Muito crítico” quanto à forma como este dirigira o “Diário de Notícias”, vetou mesmo o  nome de Saramago para diretor do jornal “O Diário” (“O quê, o esquerdista?”).

De Vasco Gonçalves, confirma que se tornou no “principal aliado do partido no campo militar”. Agostinho Neto merecia-lhe especial apreço, enquanto Samora Machel não suportava o “paternalismo do Álvaro”.

À exceção de Carlos Costa, não faz juízos sobre os principais expoentes da ala conservadora do partido. Sobre a ex companheira, Zita Seabra, elogia a sua “valentia”.

Álvaro Cunhal – que na opinião deste seu especial biógrafo “não era estalinista” – morreu a 13 de junho de 2005. “Chorei comovidamente quando me chegou a notícia.” Brito retém a “espantosa despedida” que constituiu o seu funeral e cita o escritor argentino Jorge Luís Borges: “Há na derrota uma

dignidade que dificilmente pertence à vitória.”

[As fotografias são de José Carlos Pratas (Carlos Brito na campanha de 1980 para a Presidência da Republica) e de Ana Baião (Brito na campanha presidencial de Manuel Alegre de 2005); a capa é do livro de  memórias de Carlos Brito, das Edições Nelson de Matos]

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