ANGELISMO | Francisco Seixas da Costa in Jornal “Negócios”

Na língua portuguesa, a expressão é raramente utilizada. Angelismo é uma atitude de inocência ou credulidade, que descarta, ingenuamente, motivações mais interesseiras. Ao atentar na onda de loas com que foram recebidas as últimas declarações de Ângela Merkel sobre a Europa, claramente sugerindo a Alemanha como impulsionador de um processo de autonomização em matéria de defesa e segurança, perguntei-me se não estaríamos a embarcar num novo «angelismo», desta vez com etimologia derivada de Ângela e já não de anjos. Mas, no segundo seguinte, também me interroguei sobre que outras alternativas estão disponíveis no mercado de alianças.

Donald Trump, na brutalidade de muitas das suas posturas, tem a curiosa vantagem de tornar as coisas muito simples, por mais complexas que elas sejam. A nova América projeta uma agenda de afirmação nacional de interesses com imensa transparência, descurando deliberadamente a retórica acomodatícia de que, por muitos anos, se alimentou o «politicamente correto» das relações internacionais. Trump diz ao que vem: o relacionamento externo da «sua» América far-se-á exclusivamente nos termos que melhor corresponderem aos seus objetivos nacionais. E di-lo «alto e bom som», para óbvios efeitos internos, com isso reduzindo muitas das hipóteses de recuo ou compromisso.

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“AI PORTUGAL, PORTUGAL!” | Francisco Seixas da Costa

Roubei o título a uma canção de Jorge Palma, neste dia de alegria e boa música, com a consciência de que a letra conclui pela questão “… de que é que tu estás à espera?”. A um país fazem falta momentos como estes, uma difusa ideia de que tudo está a correr bem, de que os astros se conjugaram para fazer sorrir as pessoas, de que Portugal está na moda. E, na verdade, está, de uma certa forma, e isso é bom e deve ser aproveitado – no plano material e naquilo que isso possa induzir no bem-estar das pessoas que por cá vivem. Nestes tempos de alguma euforia, parecerá quase sacrílego (e em coro com malévolos e ácidos cultores da desgraça) alertar, conta o vento dominante, dizer que tudo isto são boas ondas passageiras, que a realidade de fundo permanece, neste que é, de há muito, o país mais pobre da Europa ocidental, emissor de gente para o mundo, pela incapacidade de lhe proporcionar futuro onde nasceu. Gozemos bem estes dias, embora o passado nos venha ensinando, desde há séculos, que temos uma endémica incapacidade para sustentar os nossos episódios de sucesso e uma insuperável dificuldade em cavalgá-los para construir um futuro sereno, próspero, que venha a evitar novos ciclos de depressão e angústia, como os que, ainda há pouco, atravessámos. O melhor serviço que poderíamos prestar a nós mesmos, nestes dias de euforia e de otimismo, seria tomar a decisão de nos organizarmos definitivamente para a mudança, para o rigor, para a disciplina, para a não perda de tempo, para a pontualidade, para o respeito pelos outros, para o fim do xicoespertismo, para que esta não fosse mais uma “alegria breve”, para usar o termo cunhado, para outra realidade, por Virgílio Ferreira. Mas, se calhar, se viéssemos um dia a mudar, não seríamos nós, dirão alguns. Provavelmente, é neste eterno ser ou não ser – glórias e derrotas, euforias e depressões, do “agora é que é!” ao “não vale a pena!” – que, afinal, está a graça (e a desgraça) deste país.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa

FÁTIMA | Francisco Seixas da Costa

Como ateu, tenho a minha opinião formada, desde há muito e em definitivo, sobre Fátima – a qual creio ser fácil de presumir. Essa leitura (certa ou errada) tem a montante um esforço de racionalidade, que é natural em quem não foi “tocado pela fé”. Não me recordo de alguma vez ter discutido o tema de Fátima com crentes, porque sempre entendi que me situava num plano diverso, e irreconciliável, no tocante à interpretação do fenómeno. Mas que fique claro: respeito sinceramente quem acredita no “milagre” de Fátima, como matéria de fé.

Serve isto para dizer que, sendo embora “de outra freguesia”, acho de uma grande insensatez o debate que aí vejo, envolvendo figuras da igreja, sobre se o que se passou há um século, em Fátima, foi uma “visão” ou uma “aparição”. São reflexões sobre os factos que, em alguns casos, relevam da procura de uma certa racionalidade. Ora Fátima ou é uma matéria estrita de fé ou não é – e aqui tudo muda de figura. Posso estar enganado, mas ao enveredar por estas “technicalities”, a igreja católica abre um caminho fácil à contestação de Fátima. Se segue por esta via, com facilidade podem ser trazidos à colação textos de Tomás da Fonseca, de Mário de Oliveira e até de Fina da Armada, entre muitos outros. É isso que querem? Eu aconselharia a que, quem acredita, continuasse no registo cândido da Virgem que apareceu aos pastorinhos sobre uma azinheira. E ponto.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa

Citação | Francisco Seixas da Costa

FranciscoSeixasdaCosta

A mim, preocupa-me apenas o futuro e, dentro deste, a triste constatação de que estamos perante um sistema bancário frágil, que reflete uma economia frágil, de um país muito frágil. O qual, sendo o nosso, merece que essa nossa preocupação e angústia nos levem à exigência máxima – de rigor, probidade e transparência – sobre aqueles que voluntariamente se oferecem para o gerir, no governo, parlamento e outras instituições do Estado.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa

ARGÉLIA | Francisco Seixas da Costa

argel fsc - 250Tenho um “fraco” pela Argélia, devo confessar. Pela sua cultura – de Camus a Kateb Yacine, embora não conheça muito mais -, pelo percurso complexo desse território atípico, que chegou a fazer parte das Comunidades Europeias (com efeitos até 1968, é verdade!), atravessado por uma das mais sangrentas guerras de libertação de que há memória. Mantenho presente a heroicidade dessa luta pela independência, bem como o papel desempenhado pelo país no contexto internacional que se lhe seguiu e, muito em especial, a sua contribuição para a manutenção da esperança da liberdade em Portugal, nos anos 60 e 70.

Da mesma maneira que entendo muito lamentável que os países africanos saídos do colonialismo português nunca tenham feito uma homenagem a quantos, por cá, arriscaram a liberdade e a vida para apoiar a sua luta (e estranhamente nunca ouvi ninguém falar disto), acho muito triste que a democracia portuguesa nunca tenha feito uma homenagem pública ao país que acolheu a FPLN e Humberto Delgado, nesses tempos difíceis em que a instauração da ditadura militar retirou ao Brasil o estatuto de esteio principal para o acolhimento dos lutadores anti-salazaristas. Com Paris, e mais limitadamente com Roma e algumas capitais do “socialismo real” onde se refugiava o PCP, Argel foi, por anos, a principal “capital” da luta pela nossa liberdade.

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O ESTADO DO CONSELHO | Francisco Seixas da Costa

francisco seixas da costaO Conselho de Estado é um órgão de consulta do Presidente da República. Os seus membros, que o integram por inerência de certas funções e por escolha do parlamento ou do chefe do Estado, comprometem-se a guardar absoluto sigilo do que se passa nesse órgão, das suas discussões e, muito em particular, das posições individuais assumidas durante as mesmas.

Contudo, o que se tem visto cada vez mais é a circunstância dessas conversas, que deveriam ser sigilosas, até para preservar a liberdade de cada um de poder ser totalmente franco, acabarem por surgir na praça pública, dias depois, através da imprensa. É um excelente retrato do nível a que chegou a ética cívica da paróquia!

Imagino que os arautos da “transparência” defendam que deveria haver mesmo uma transmissão televisiva em direto das sessões daquele órgão de Estado – “o povo tem o direito de saber!” – mas nunca será demais lembrar que a demagogia no poder não é sinónimo de democracia. Bem pelo contrário!

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Não lhes perdoo! | Francisco Seixas da Costa | in Blog Duas ou Três Coisas

FranciscoSeixasdaCostaAcaba hoje aquela que constitui a mais penosa experiência política a que me foi dado assistir na minha vida adulta em democracia. Salvaguardadas as exceções que sempre existem, quero dizer que nunca me senti tão distante de uma governação como daquela a que este país sofreu desde 2011.
Não duvido que alguns dos governantes que hoje transitam para o passado tentaram fazer o seu melhor ao longo destes cerca de quatro anos e meio. Em alguns deles detetei mesmo competência técnica e profissional, fidelidade a uma linha de orientação que consideraram ser a melhor para o país que lhes calhou governarem. Mas há coisas que, na globalidade do governo a que pertenceram, nunca lhes perdoarei.
Desde logo, a mentira, a descarada mentira com que conquistaram os votos crédulos dos portugueses em 2011, para, poucas semanas depois, virem a pôr em prática uma governação em que viriam a fazer precisamente o contrário daquilo que haviam prometido. As palavras fortes existem para serem usadas e a isso chama-se desonestidade política.
Depois, a insensibilidade social. Assistimos no governo que agora se vai, sempre com cobertura ao nível mais elevado, a uma obscena política de agravamento das clivagens sociais, destruidora do tecido de solidariedade que faz parte da nossa matriz como país, como que insultando e tratando com desprezo as pessoas idosas e mais frágeis, desenvolvendo uma doutrina que teve o seu expoente na frase de um anormal que jocosamente falou, sem reação de ninguém com responsabilidade, de “peste grisalha”. Vimos surgir, escudado na cumplicidade objetiva do primeiro-ministro, um discurso “jeuniste” que chegou mesmo a procurar filosofar sobre a legitimidade da quebra da solidariedade inter-geracional.

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