Portugal devastado: rotina ou terrorismo? | José Goulão in blog “http://www.abrilabril.pt”

O vento sopra em todo o país, mas as chamas, tal como em 1975, poupam as zonas onde prevalecem grandes interesses económicos tendencialmente sem pátria.

O terrorismo tem mil caras. Lançar o terror contra pessoas comuns e quase sempre indefesas, ou atemorizar populações e devastar países usando os cidadãos apavorados como reféns são práticas que preenchem os nossos dias num mundo que, pela mão de dementes usando o poder acumulado por conglomerados do dinheiro, caminha para inimagináveis patamares de destruição.

Portugal tem tido a sorte de ser poupado pelo terrorismo, diz-se e repete-se, por vezes com inflexões de um misticismo bolorento próprio de pátrias «escolhidas» para auferir das mercês do sobrenatural. Uma interpretação com curtos horizontes e vistas estreitas, características cultivadas por uma comunicação social habilmente arrastada para realidades paralelas e que reduz o terrorismo dos nossos dias ao estereótipo do muçulmano fanático imolando-se com explosivos à cintura, ou atropelando a eito, não se esquecendo de deixar o cartão de identidade, intacto, num local de crime reduzido a destroços humanos e amontoados de escombros.

Assim sendo, deixa de ser terrorismo, por exemplo, o que a NATO fez na Líbia, o que Israel pratica em Gaza, os massacres que as milícias nazis integradas no exército nacional da Ucrânia «democratizada» cometeram, por exemplo, na cidade de Odessa.

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A PRIVATIZAÇÃO DO ESTADO E A “DEMOCRACIA MODERNA” | José Goulão

Há muito que escutamos indiscutíveis lições a ensinar-nos o quão saudáveis são as privatizações para o nosso tecido económico, enquanto elas vão progredindo, tomando conta de tudo.

Todos os dias, em ambiente de acrescida e assustadora indiferença, somos testemunhas de fenómenos absurdos que gradualmente se vão inserindo, com anormal normalidade, num quotidiano cada vez mais em marcha – assim proclamam os tempos – que se acha moderno, inovador, de tal maneira prafrentex que até há quem goste de lhe chamar «progressista».

Isto por contraponto inquestionável ao «conservadorismo» de quem continua a defender que o ser humano deve ter direitos e não apenas deveres, uma vida decente e não uma servidão que alimente os números das estatísticas e os valores dos lucros ditados pelos sumos-sacerdotes do mercado.

É a «democracia moderna», sentenciam alguns que ganharam colunas de «referência» em observadores expressos e todos privados, embora alguns se digam públicos, correios, diários i jornais das notícias da manhã, da tarde ou da noite, todas iguais, mais ou menos polidas, por regra contaminadas pela verve do engano, pelo vírus da falsificação.

Nunca se explica muito bem o que é essa «democracia moderna», talvez porque faltem artes mágicas aos colunistas para convencerem leitores, ouvintes e espectadores de que é marchando em rebanho para a ditadura que se moderniza a democracia. Por isso navegam discorrendo com impagável sabedoria pelos pântanos daquilo a que chamam política, uma lama fedorenta e repugnante a que os cidadãos devem fugir cada um por si para tratarem do que é seu, entregando-se aos deuses ou à sorte, o que vem a dar no mesmo.

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Um passo mais para o caos | José Goulão

jose_goulaoO ano de 2016 representou, em todo o Médio Oriente, mais um passo em direcção ao caos que os estrategos de Washington e do poder absoluto dos Estados Unidos sobre a globalização – independentemente do ocupante da Casa Branca – dizem ser construtivo.

Nos anos 90 do século passado, sobre os escombros da União Soviética e quando a unipolaridade sob tutela norte-americana reinava, com poder absoluto, em quase todo o mundo, o Dr. Paul Wolwovitz cavalgou as nuvens do tempo e sentenciou: «O nosso principal objectivo é evitar o ressurgimento de qualquer rival que signifique uma ameaça semelhante à da anterior União Soviética, tanto na ex-URSS como em qualquer outro lugar. Esta é a base da nossa nova estratégia de defesa regional, e exige o nosso esforço para evitar que uma potência hostil domine uma região cujos recursos, sob um poder consolidado, sejam suficientes para gerar a energia global».

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O RIDÍCULO MATA | José Goulão in “Mundo Cão”

jose goulaoVinte e sete chefes de governo de países da União Europeia deram a David Cameron o que ele queria. Tanto os que se dizem federalistas, como os que não sabem o que são, como os que só pensam em austeridade aceitaram levantar entraves à famosa “livre circulação” de pessoas, outorgaram o direito de veto ao santuário neoliberal da City, permitiram a institucionalização de um apartheid social para os imigrantes e aceitaram que o Reino Unido esteja isento dessa gloriosa máxima da farsa continental que obriga os Estados membros a “trabalhar por uma Europa cada vez mais estreita”.

“Vivam e deixem-me viver”, terá mendigado o primeiro-ministro britânico aos seus confrades, naquela que para o fervoroso diário federalista El País foi a cimeira “mais ignominiosa” da história da União Europeia. Do “efervescente” italiano Matteo Renzi, a Hollande, Merkel e cada um dos 27, ninguém escapa à furibunda pena do articulista, a imagem do estado de desespero em que caíram os fundamentalistas da União Europeia tal como ela é, pressentindo a degradação acelerada que tem exame decisivo no próximo 23 de Junho, a data do referendo no Reino Unido.

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CRIMEIA | José Goulão in “Facebook”

Bm_krimDe repente, a plêiade de dirigentes político-mercantis que gerem a União Europeia e os Estados Unidos da América, até há dias incapazes de apontar no mapa uma coisa chamada “Crimeia”, tornaram-se fervorosos ucranianos da Crimeia, até tártaros da Crimeia, defensores de direitos de pessoas de cuja existência, em boa verdade, jamais se tinham lembrado.

De Hollande a Obama, de Cameron a Merkel – os outros batem palmas e acenam com a cabeça – todos acham que o pecado é a realização de um referendo, uma consulta aos cidadãos para saber se querem ficar sob a pata de Bruxelas e Washington ou de Moscovo, já que independência ou autonomia não contam para o caso, o que conta são os portos no Mar Negro, que não gelam nem sob as ordens do temido general Inverno, o que conta são influências e negócios.

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MAINSTREAM | José Goulão

A ditadura do mainstream é elegante, bem falante, civilizada, polida, tolerando muito bem os programados excessos. Porém, é impiedosa, ou não fosse uma ditadura para os que não têm a bem aventurança de pertencer à ordem, afinal a maioria dos que habitam a comunidade de onde ela emana.
Mainstream, ao contrário do que rezam certas definições académicas, não é uma cultura de maiorias, de massas, de moda. É um círculo elitista, fechado, dentro do qual se passa tudo o que nos diz respeito sem que tenhamos nada a ver com isso.
Mainstream define a ordem dominante e o resto, incluindo os que julgam pertencer-lhe, seguidores bem comportados, é simples macaqueação.
Mainstream é a política única, a permitida, uma união nacional com as suas alas liberais, é a suserania dos mercados, a sociedade das pessoas virtuais onde nem só da farda de marca vivem as aparências mas também das excentricidades diletantes, são os jornais de referência, as televisões que dão ao público o que o público quer, a literatura de grandes superfícies e lojas de conveniência, os opinion makers, os comentadores oficiais com chancela política e outros que são também oficiais mas sem chancela política almejando que lhes seja concedida, os que ocupam as franjas folclóricas de marginalidade para compor o ramalhete plural e que, começando normalmente por professores dos trabalhadores e do irredentismo democrático, acabam como chefes dos patrões, frequentadores de Bilderberg e compreensivos para com o papel da espionagem ao serviço do poder.
Mainstream é, hoje, a ordem neoliberal com os seus satélites, que giram enquanto forem necessários, é a lei de violar as leis, o direito de atacar os direitos humanos em nome dos direitos humanos, de subverter a democracia em nome da democracia, de governar à direita e à esquerda desde que estejam dentro do mesmo centro, o culto da corrupção e do amiguismo se tudo se passar no interior do círculo dos escolhidos, a selecção natural da competitividade onde só cabem os paquidermes do negócio.
Mainstream é uma ditadura do faz-de-conta porque não se pratica aquilo que diz praticar-se, não se disse aquilo que se disse, jamais se escuta a voz dissonante, raramente se fala verdade em nome da verdade, nunca se faz em benefício do ser humano o que se cria e desenvolve em seu nome.
A ditadura do mainstream é a mais perigosa, porque tarda a ser identificada por aqueles que lhe estão submetidos enquanto age conscientemente para os deformar.