Bolas de Berlim | Inês Salvador

Comprei umas bolas de Berlim. As bolas de Berlim que eu comprei não valem nada. Pensei, estas bolas não são de Berlim. Fui ver a etiqueta na embalagem e confirmei, Vila do Conde?! As bolas são de Vila do Conde. Uns gajos de Berlim irem para Vila do Conde fazer bolas só podia dar nisto, as bolas não valem nada.

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E foi tão bom, que os vizinhos acenderam um cigarro | Inês Salvador

Vou tentar comentar a sério as declarações da Cristina Ferreira. A sério, sem me rir, o que é difícil. Embora a Cristina Ferreira não queira saber das meus comentários para nada, e faz ela bem, atrevo-me a sugerir-lhe que, antes de escrever aquelas coisas, leia, pelo menos, Henry Miller: “Sexus”, Plexus” e “Nexus”. Podia ainda adicionar outras sugestões, mas a leitura deste monumento literário já chegaria para a Cristina não escrever “Quando chegares a casa quero que me comas contra a parede”, e, em vez desta patetice do “comer”, chamar os bois pelos nomes. É que “comer” é da família da queca e da pilinha, e de tudo o que remete a mau sexo. O que surpreende (a mim) é, não só a falta de qualidade da linguagem, que a Cristina quer picante, mas que lhe saiu só baixa e sem sal, de meia tesão, sem o obsceno, ainda que insinuado, que é a tesão toda, como a expressão de desejo quase a medo, de fantasia iniciática, pouco mais que adolescente, em clichês, como se estivesse a partir a loiça toda na expiação do motel, essa área de serviço reservada à experimentação de “coisas novas”, não exatamente novas, entenda-se, mas a estrear na prática para quem nunca as fez. E fiquei eu assim na surpresa desta descoberta da sexualidade numa moça que está a abrir as portas da meia idade. Moça ocidental, emancipada e independente, que disto tudo, ao menos, tem uma certeza:”devagar sabe melhor”. Bom, Cristina, velocidades à parte, não basta ter um Ferrari, é preciso saber guiá-lo, do contra a parede ao contra o tecto, é capaz de haver um bocado para andar… E foi tão bom, que os vizinhos acenderam um cigarro.

E, com esta qualidade de influência na opinião pública, nunca mais nos livramos dos 900 anos de recalcamentos que é a nossa História.

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Há 1 ano | Uma memória | Inês Salvador

Estava aqui a olhar para o terror das imagens que puseram nos maços de cigarros e a lembrar-me de uma vez que estive em Birmingham com uns amigos. Chegámos ao hotel e tratamos de fazer o habitual check in. Um a um, iam perguntando se éramos fumadores ou não fumadores. Isto já foi há uns anos, no tempo que ainda se fumava dentro dos aviões, e a questão de ser ou não fumador, colocada ali, no check in de um hotel, era para nós uma novidade. Aos que se davam à morte, dizendo que eram fumadores, propunham um quarto para fumadores, pelo que cobravam uma taxa extra. Os meus amigos deixaram imediatamente de fumar. Ter de pagar uma taxa extra foi remédio santo para que ali, e imediatamente, ainda que de forma temporária, abandonassem o vício do fumo. Fui eu a única que, por uns “couple of pounds”, não abdiquei temporariamente de ser quem era, e disse que sim, fumo e quero um quarto para pessoas como eu. Chaves distribuídas, dirigimo-nos aos quartos. Era um hotel de charme e todo o cenário parecia de filme, com as típicas remodelações inglesas, de alcatifa sobre alcatifa a afundar os sapatos e as paredes revestidas a papel de parede sobre papel de parede, criando espessura, em estonteantes e imensas e pirosas estampagens, as alcatifas e o papel de parede, nada batendo certo com nada, mas tudo batendo certo com tudo. E lá fomos, ao longo do alegórico corredor encontrando a porta do quarto que nos estava reservado. Chegada a minha vez, entrei e todo um mundo de deslumbramento não me deixava fechar a boca. O meu quarto era belíssimo. Imenso. Podia correr-se lá dentro. As janelas eram enormes e davam para um jardim. A casa de banho era outro imenso quarto, com mais janelas enormes a dar para o mesmo jardim. E sem bidé, tipicamente sem bidé. Essa maravilhosa erotizante peça que os ingleses desprezam. Essa peça de maravilhosa fonética onde se refrescam os pipis. O desprezo dos ingleses pelo bidé sempre me fez desconfiar da sexualidade dos ingleses, mas isso seria outra conversa. E continuava distraída pela decoração que acumulava história, tudo era contemplação. Havia águas, frutas, cafeteira para chás e chás, rebuçados de mentol e uma infinidade de mimos e detalhes que me faziam pensar que podia ficar ali para sempre. Saí porta fora à procura dos meus amigos. O hotel era extraordinário, tínhamos de partilhar aquilo. Desatei a bater-lhes à porta e a desolação foi chegando. Os quartos deles eram feios, pequenos, escuros, acanhados. Mostrei-lhes o meu. Fomos todos à recepção saber se havia engano. Não havia. Os fumadores precisam de espaço, de ar, de janelas. É importante prevenir que não causem incêndios. Os fumadores fumam e depois têm sede, que fumar faz sede. Fumam e depois querem livrar-se do cheiro do tabaco e, por isso, num quarto para fumador, de tudo havia para resolver as necessidades de um fumador. Fomos todos para o meu quarto fumar e beber chá com vistas para o jardim e, ali, concluímos que fumar, afinal, era uma coisa boa.

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cães que passeiam o dono pela trela | Inês Salvador

As noites quentes inundam o centro da cidade de cães que passeiam o dono pela trela. A felicidade quente pendura-lhes a língua para fora, a uns para a esquerda, a outros para a direita, como se viessem a avisar mudança do sentido de marcha. E sorridentes, sempre sorridentes, justificam a iluminação pública pelo brilho nos olhos. Cruzam-se e cheiram-se, rodopiam lentamente em busca das traseiras mútuas. Mais moderados, os donos, rodopiam menos e cheiram-se menos, mas igualmente sorridentes, mantêm-se presos pela trela do círculo social do seu cão. É uma beleza e um milagre de afectos a vida de cão. Ninguém teria parado, ninguém teria sorrido com tanto brilho terno, se não viesse pela trela do seu cão.

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Poesia | Inês Salvador | José Luiz Sarmento Ferreira

Escrevem umas coisas que não entendem, sombreadas de palavreado arcaico e de aqui e ali, na tentativa falhada da vida em vernáculo, uma pífia imagem pornográfica e acham que estão a escrever poesia. As massas gostam. As lasanhas, as carbonaras, as pizzas e os raviolis, gostam. A gordura gosta do pífio. Os azeiteiros comem à mesma mesa. Alfabetizamos, a literacia não se cumpriu. Já os restaurantes italianos expandiram bem. Um alfabetismo obeso, sem educação do gosto. Por complexo, se não se entende é arte, se for estrangeiro é melhor.
Para as estrangeiras há um lote crescente de prestáveis moços a oferecer serviços. Um atropelo à circulação. Sou portuguesa e não estou de férias, não parecendo. Parecendo, estes moços são poesia pífia.
Os Miseráveis de Victor Hugo e os grotescos de Dickens, um scanner social.

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Comentáro ao texto supra de José Luiz Sarmento Ferreira:

Há um mito nórdico sobre a origem da má poesia. A história pode ser encontrada na recolha feita por Neil Gaiman. Como dá muitas voltas, não a vou resumir aqui. Destaco apenas o final: Odin, tendo roubado o hidromel da poesia ao gigante que o tinha guardado e não o partilhava com ninguém, transforma-se em águia e voa para a residência dos deuses, onde Thor e os outros, que entretanto se tinham dedicado à construção de tonéis, estão à sua espera. O gigante espoliado persegue-o, também transformado em águia. Chegado a Aasgard, morada dos Aesir, Odin regurgita o hidromel para os tonéis; e é por isso que os homens têm hoje o dom da poesia. Mas a história tem uma coda: pouco antes de chegar a Aasgard, Odin solta pelo ânus uma bufa monumental e fétida que vai bater em cheio no bico e nos olhos do seu perseguidor. Este, desorientado, volta para trás e vai-se lavar no tonel que tanto se tinha esforçado por guardar mas está agora vazio. A água suja dessa lavagem ainda está no tonel do gigante. E é assim que sabemos ainda hoje, sempre que ouvimos um mau poema, com rimas forçadas, métrica coxa, léxico impreciso, ideias feitas ou metáforas despropositadas, de que tonel bebeu o poeta.

(…) numa rotação lasciva e desafiadora (…) | Inês Salvador

Tanto se está a falar da Madonna, pois vou contar uma história. Há uns anos, e já lá vão uns quantos, fui parar à área VIP da Moda Milão para assistir a um desfile “reservado”. Às tantas, todas as atenções estavam viradas para alguém que acabava de entrar, mas que de tão ladeada de seguranças, uns moços gigantes africanos muito bem-apessoados, mal se conseguia perceber logo quem era. O círculo de seguranças foi abrindo até deixar ver a pequena figura de uma mulher de pele branca, muito branca, muitíssimo branca, branca como ninguém quer ser, da cor das folhas de papel, das paredes caiadas. da neve e do açúcar. A pele imaculada, mas apertada para os pululantes tendões que se debatiam a cada passo com as veias azuladas da cartografia do tónus. O olhar, mais que os olhos, imparáveis mas lentos, numa rotação lasciva e desafiadora, que tudo parecia notar. Era a Madonna. Sorria, sorria sempre, parecia ver-nos a todos, parecia sorrir a todos. Firme e certeira, sentou-se no lugar que lhe estava reservado. A Madonna viu o desfile, nós vimos a Madonna.

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a revolução abanava as paredes e gritava-se viva la france | Inês Salvador

Em tempos, sempre que chegava a Primavera chegava o francês para passar uma temporada em casa da minha então vizinha de cima. Era a época em que o colchão da vizinha rangia das molas todas as noites. Caiam objectos, soltavam-se ais e gemidos, a revolução abanava as paredes e gritava-se viva la france com a bastilha a ser tomada várias vezes pela noite dentro. De manhã, calhava-me encontrar o francês no elevador e na circunstancial conversa lá arriscava “vacances?”, “oui”, respondia ele lascivo e meio desgrenhado de sorriso morno, como se a revolução ainda lhe estivesse no pêlo. Uma temporada, uma manhã, encontrei o francês no elevador e soltei o tradicional camarada de circunstância “vacances?”, “comme ci comme ça” foi tudo o que disse à procura de um ponto onde assentar os olhos. Nunca mais vi o francês.

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Os caridosos nunca deixarão os pobres sair da pobreza | Inês Salvador

Cilinha sabia que de tudo que sabia o que mais lhe valia era a beleza da juventude. Foi no tempo da revolução, era eu ainda muito miúda. Muito miúda era o disfarce do tempo com que rematava a existência. Nunca poderia ter muita idade, se tudo o que sabia lhe vinha de ter de sido muito miúda a todo o tempo de todas as datas. Mas muito miúda já não lhe servia. Sempre que dizia muito miúda sentia os olhos interlocutores percorrerem-lhe o socalco das rugas. Os caridosos nunca deixarão os pobres sair da pobreza, diz-me a minha intuição. Cilinha passou a fazer da longevidade da própria vida um oráculo, uma bola de cristal que consultava por intuição. Cilinha nunca envelheceu. Morreu bela e jovem, como um vampiro da vida.

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“Poensia”, florinhas e gatinhos | Inês Salvador

Imagino que o máximo que pode acontecer naqueles perfis que estão numa relação, eventualmente com alguém, não especificam, depois estão solteiros, eventualmente com alguém, não especificam, depois estão numa união de facto, eventualmente com alguém, não especificam, depois estão outra vez numa relação, eventualmente outra vez com alguém, outra vez não especificam, depois “poensia”, florinhas, gatinhos, coisinhas lindinhas e outra vez gatinhos e pouco mais, que mais não especificam, se houver um golpe de estado ou coisa que o valha, não especificam e alteram a relação para “é complicado”.

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o dia da mulher | inês salvador

Fofinhos, talvez dizer-vos que hoje é dia da mulher, não é dia dos namorados, portanto, flores e florzinhas, bombons e pinchavelhos e almocinhos coisinhos… Enfim. Se o dia da mulher tem simbolismo e serventia, não é de certeza a de mais uma xaropada de objetificação do feminino.
Moças, não se passem por tolinhas por um molho de nabiças com pétalas. Amanhã está tudo na mesma, a pilha de roupa continua a ser a mesma para passar a ferro e no fim do mês a folha de ordenado não mente.
Sobre os presentes que se dão às mulheres, que os presentes insistem em ter destinatário no género, lembro-me de um programa que passou na tv há uns anos, em que um casal, cada programa um casal diferente, um homem e uma mulher, duas personalidades conhecidas, seguiam de carro conversando sobre as coisas dos homens e das mulheres e das relações entre eles. Tipicamente, os homens compareciam ao programa com flores para oferecer à mulher. Num dos programas, o casal convidado foi a Julie Sergent e o Otelo Saraiva de Carvalho, e o que o Otelo ofereceu à Julie Sergent foi um saco de alheiras.
Está bem, está bem, o Otelo e blá-blá, mas é nesta e noutras que se vê quem é capaz de alinhar na revolução.

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Da auto-indulgência | Inês Salvador

Pessoas que não são gordas, estão é fortes, e não é fácil que enfraqueçam, derivado a passar fraqueza, porque são largas de ossos. Homens que não são gordos, têm é barriga… Se tirarem a barriga… Mas não tiram, e assim se mantém infinitamente magros com barriga, a mesma barriga que até já esteve maior, no verão passado, por exemplo, quase a fazer crer que já nem é barriga, mas apenas o umbigo que cresceu em metamorfose definitiva. E quase não comem, não comem nada, toda aquela carga é que se lhes foi colando aos ossos como um injusto bónus desta passagem pelo mundo que é vida.

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Gente que sai da barraca… | Inês Salvador

salvador-200Receio que hajam muitos mais joãos bragas do que se supõe… Desde logo entre as mulheres que acham que os bons homens escasseiam porque andam a virar para o outro lado, o lado do inimigo, entenda-se, e os homens que suspeitando-se que o outro é do lado do inimigo das mulheres se afastam, não se dê o caso de serem confundidos ou aquilo ser alguma doença que se pegue e não tenha cura, “diz que quem experimenta já não volta”, mais a segurança social que andamos todos a pagar a gentes de outras raças para passarem o dia no mc donald’s sem fazer nada, mais as casas em lisboa que estão caríssimas por causa dos turistas – orgulhosamente sós é que estávamos bem – e do lobby dos moços do lado do inimigo das mulheres que controlam as zonas históricas, e mais as mulheres independentes que só por isso já correm o risco de reputação duvidosa, o que nos homens é mérito de campeão, para elas é “subir na horizontal”, ainda que mais mal pagas que eles, elas não podem ser inteligentes, o que elas têm de ser é “boas”, “boazonas”, casadas ou comprometidas, alto lá com as liberdades e violência doméstica – física e psicológica – a dar com um pau, e eles têm sempre de ganhar mais que elas e serem mais espertos para se sentirem seguros da sua macheza, “ao homem português a dependência da mulher é erotizante”, disse mais ou menos assim a Agustina, e quem mais ataca as mulheres são as outras mulheres, e esta é a ordem natural das coisas… E assim, sucessivamente, uma enormidade de disparates que se ouvem, vêem e observam, nesta democracia sem democratas, de pequenos pides coscuvilheiros, moralistas e invejosos da vida dos outros, genuínos amantes da liberdade, desde que não sejam contrariados. Gente que sai da barraca, mas a barraca nunca há-de sair deles.
Sim, este é um dos posts mais fofinhos que já publiquei e não me digam que não andam no mesmo país que eu e não ouvem o mesmo que eu oiço.

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(título garbosamente escolhido por VCS)

Os meus dias e a rotina | Inês Salvador

salvador-200Aos meus dias nunca nada de extraordinário pontua, ou melhor, é sempre uma espécie de extraordinária rotina. Por exemplo, ontem fui ao final do dia ao shopping. A um daqueles shoppings muito grandes onde há de tudo, desde pessoas a comprar casacos de dois mil euros a outras que andam a cravar tabaco na área da restauração. E era mesmo para a área da restauração que eu ia, jantar qualquer coisa com amigos e colegas. Sabe-nos sempre bem, depois de um dia de trabalho, aquele exercício de andar a tourear mesas em faenas triunfantes e poses de capote até chifrarmos uma mesa em que caibamos todos, de tabuleiro na mão, enquanto a sopa arrefece e a salada aquece. Logo que entrei no shopping, a preparar-me para a corrida, que a lide ia ser difícil, dirigi-me a uma caixa multibanco para levantar uns trocos do que me pinga das offsuores, que a vida é mais transpirar. E foi então que desatei aos gritos. Aos gritos. E não parava de gritar. Uma mão humana acenava-me de dentro do ecran do multibanco, uma mão masculina a querer dizer-me alguma coisa insistia em gesticular na minha direção de dentro do ecran do multibanco. Estava um homem preso dentro da caixa do multibanco. Fez-se logo ali um ajuntamento de gente a saber o que se passava com a moça, que era eu, e logo a seguir sai de detrás da parede um homem sorridente a dizer-me que tivesse calma, que era da manutenção e estava a tentar dizer-me para não usar a máquina. Pronto, não passou disto e tudo se acalmou. A parte chata foi ter de aturar os que entraram de manutenção ao serviço de me consolar, “imagino o susto que apanhou”. Por cada susto que se apanha, há sempre vinte pessoas que imaginam o susto que os outros apanharam. Isto, pelas estatísticas de estudos norte-americanos ainda não realizados.

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(Título inventado na hora por Vítor Coelho da Silva – Inês, desculpe-me, mas era necessário)

Dia Mundial do Gato, Neco da minha rua | Inês Salvador

ines-200Na minha rua mora o Neco. O Neco é um gato. O Neco tem um dono, que é o dono do Neco e esta história começa todos os dias ao fim da tarde quando o dono do Neco vai passear o Neco à rua. O Neco passeia de trela pela rua como passeiam os cães. Não, não é assim que começa esta história, isso era dantes. Recomecemos a história. Os cães agora é que passeiam de trela pela rua como passeia o Neco. Assim pensa o Neco, todos os cães são gatos como ele e ele é o gato mais importante de todos. O Neco é o centro do mundo em desfile triunfante. Suave e firme, ondulante e negro, segura-nos com as esmeraldas que carrega nos olhos. Jaguar ou pantera, todo o mundo é dele. Primeiro os cães, e eles que se aproximem e que o adorem, para deles se afastar e ficar sozinho mais à frente. O Neco, que sabe tudo, deste e doutros mundos, sabe que ser o mais importante de todos é um lugar solitário e que da solidão dessa importância não pode vacilar. Segue-o o dono, na mera função de segurar a trela que o liga ao mundo. A trela é aparente. Um engodo que ilude todos, porque o Neco faz o que quer. Conhece-nos a todos, sabe quem somos e onde moramos, que lugar ocupamos na rua dele. E então espera-nos, escorrega-nos pelas pernas, depois pelas mãos, a salvar-nos do impulso de o querermos para sempre. Atiça-nos as esmeraldas com a promessa de voltar, se ele quiser, quando ele quiser. É ele que manda. Tem as verduras da frutaria para ver, e isso agora interessa-o mais. Vai cheirá-las a todas, indagar-lhes a forma, perscrutar as que estão debaixo, o que estiver escondido vai ser revelado. Tem uma rua para redescobrir todos os dias como se fosse a primeira vez. No cabeleireiro já o esperam, sabe-se desejado. O Neco é um sedutor, sabe tudo das pequenas grandes coisas das mulheres. Acaricia-lhes os pés, as mãos, conhece-lhes o verniz e a laca, certifica o champô e o penteado que se desenha no espelho. O Neco, se não fosse o gato mais importante do mundo, teria um cabeleireiro só para estar entre as mulheres, matreiro, de soslaio estudado, a todas garante serem as mais belas. Ser desejado é a sua profissão e na escola de condução também há expediente. O Neco, que sabe todos os códigos, talvez queira tirar a carta. De carro já anda, livre e solto, contra as normas, faz do dono motorista. De pêlo de veludo negro brilhante como seda, apresenta-se junto ao carro que sabe que é o seu. Aguarda a abertura da porta e entra para ficar à janela. O Neco gosta de passear de carro como um rei gosta de ver o seu reino. Atento e majestoso, vê para ser visto. É natural que todos o olhem, é a obrigação deles e, mesmo que não fosse, não poderiam resistir-lhe. É assim que arrasta o dono para a esquina onde se põem os dois num longo cigarro de fumaça contemplativa de quem passa, de tudo o que passa e se passa. O Neco já sabia tudo, está só a mostrar ao dono o tal segredo que é só deles. Se o mundo acabar é daquela esquina que o Neco vai ver. E depois do mundo acabar é naquela esquina que o Neco e o dono vão estar. Na esquina indestrutível do mistério que os une. Ali, indestrutíveis um do outro. E quando perguntamos ao dono como é aquilo possível, ouvimos-lhe na voz o Neco, suave e firme, ondulante de veludo e seda, e é “com todo o tempo do mundo” que nos responde. Todo o tempo do mundo é o tempo do amor, do sonho do amor, do amor de sonho. Do amor que fez do Neco o rei da nossa rua e guardião dos nossos sonhos.

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Natal é ter Mãe. Para quem a tem, para quem a guarda na memória, é sempre Natal. | Inês Salvador

ines-salvador-200Em tempos idos tive uma ocupação profissional que me levava a visitar prisões e a ter contacto com populações prisionais, melhor dito, com parte delas. A hora das visitas era sempre vivida com muita ansiedade, gente que vinha do mundo “lá fora”, que trazia esse cheiro, esse olhar, esse brilho. Vem, não vem, quem vem, e para muitos nunca ia ninguém. Para os que ia sempre alguém, ia sempre a Mãe. Mãe que pudesse estava lá sempre! Do lado de fora, perto da hora da visita iam-se juntando, irmãos, primos, outra família, amigos, mas sempre as Mães, até serem sempre e só as Mães. Enquanto esperavam o ritual era o mesmo. As novas naquilo guardavam uma distância de reserva, como se estivessem ali por engano, as mais assíduas já se falavam, entretinham o tempo da espera com conversa. Ah, o meu não fez nada, veio aqui parar, mas isto foi das companhias. Ah, pois, o meu, coitado, nem sabia ao que ia, sempre foi tão bom filho e agora uma coisa destas. Foi a droga. Ah, sim! Foi apanhado com quanto? Umas gramas. Isso não é nada. Ao meu, quando os apanharam, levavam mais de 1kg. E logo outra intervinha: o meu é que sim, fez um assalto à mão armada, nunca o imaginei capaz de tal coisa. Um assalto?! Pois o meu está acusado de 7! E da desculpabilização, a todas as justificações impossíveis para o desfecho de estarem ali, rapidamente passavam à escalada de meças do estranho orgulho de que em criminoso o meu filho é melhor que o teu. O orgulho de Mãe não olha a meios, por mais adversas que sejam as circunstâncias, o filho nunca sai mal visto. Abriam-se as portas e entravam, aliviadas das revistas e inspecções a elas e a tudo o que carregavam. Mãe chega sempre carregada de farnéis e marmitas e de tudo o que lhe seja possível para fazer ninho ao filho. Na época do Natal os ânimos alteravam-se, família que é família é mais família no Natal e o Natal sem a família não faz sentido. Será que lhe dão a precária, será que vai passar o Natal a casa? Mães e Mães, pais poucos, desapareciam. Quando iam, naquela vez em que iam, mantinham-se “ao largo”, alheios, distantes, não falavam, incapazes de olhar o espelho da sua própria genética, incapazes da consciência pública da sua marca deixada ao mundo. Honrosas excepções sejam feitas, a maioria dos pais desaparecia. As Mães mantinham-se estoicamente como só uma Mãe pode ser. Sem falhas, sem atrasos, sem vacilar. Se o povo diz que quem tem Mãe tem tudo, garanto-vos do que vi e ouvi nesses tempos, que Natal é ter Mãe. Para quem a tem, para quem a guarda na memória, é sempre Natal. Alivie-nos a vida de nos provar isso.

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As estrelas Michelin | Inês Salvador

ines-salvador-200Ando um bocadinho apoquentada com a última saraivada do arquiteto torresmo Saraiva. Deu-lhe para desprezar as estrelas Michelin atribuídas aos restaurantes portugueses, nomeadamente, no advérbio do arquiteto, porque esses restaurantes não servem cozinha tradicional portuguesa. Mais saraivada, menos saraivada, já não se liga, o que apoquenta é ver a quantidade de apoiantes que colheu com isto. É ver num post alusivo a horda de apoiantes que junta, e pasme-se, a clamar pela quantidade de comida servida nos pratos dos chefs. Bom, está visto que esta gente toda nunca pôs o pé num destes restaurantes, não surpreende, são caros. Falam do que imaginam, do que vêem nas fotos, desconhecem o ritual, estão na fase primária de que comer bem é comer muito, é enfardar. Estão no terceiro mundo de uma infância passada com fome, senão foi a deles, foi ainda a dos pais, a dos avós. Há um gene faminto que persiste do tempo de uma sardinha para três, do tempo recente que era doutra senhora, um gene que persiste na memória, mesmo na mais inconsciente. Um gene da pobreza que estes tempos de crise acordaram a dominante. Tranquilize-se o gene. A estes restaurantes não se vai comer uma amostra de comida. Frequentemente, e assim compete, degusta-se, não se enfarda. Faz-se da mesa a arte da qualidade e não da quantidade. Faz-se da mesa uma arte, ponto.

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A tragédia dentro da própria tragédia | Inês Salvador

Ines Salvador -200A tragédia dentro da própria tragédia: casais às compras que se tratam por “mor”

– Mor, ó mor, vais ali pesar as cenouras?
– Porra, mor, ’tás aí há meia hora a escolher cenouras!
– Pá, mor, ´tava a ver as meloas…
– Também queres que pese as meloas, mor?
– Não sei, mor, olhó abacaxi… Também ’tá bom…
– Mor, decide-te, ’tou com fome, quero ir jantar!

 Por Mor de Deus!

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Quem aprendeu a gostar, então não gostou | Inês Salvador

salvador-200Leio por aqui posts “do coração” que me criam imensa perplexidade. Por exemplo, aconteceu a coisa certa com a pessoa errada. Isto quer dizer o quê? Que afinal o bacalhau era pescada? Ora, isto não é possível. O bacalhau ou é ou não é bacalhau. Ah, e tal, amo bacalhau à Brás, mas ando a comê-lo como  pescada. E, igualmente complexo, aconteceu a coisa errada com a pessoa certa. Amo bacalhau à Brás, mas ando a comê-lo à Gomes de Sá. Ora, vejamos isto com alguma pedagogia e pragmatismo, bacalhau à Brás é bacalhau à Brás, e, neste sentido, o bacalhau é à Brás e é bacalhau. E, depois, para remediar os azares gastronómicos, dizem que aprendem a gostar. Aprendem a gostar? Aprende-se gostar? Oh que tristeza! Do gostar, ou se gosta ou não se gosta! Mas há meio termo na esmagadora avalanche do se gostar? Um processo de aprendizagem? Uma alfabetização do sentimento? Hoje é a letra “q”, e o que é que aprendemos hoje? O quá-quá do gostar, que é gostar como os patinhos. Um gostar pequenino de bico amarelinho. Oh intrépidas e fulminantes existências! Oh que arrebatamento! Quem gosta do bacalhau, vai à Brás, à Gomes de Sá, à Zé do Pipo e o que o receituário aguentar. E não me macem com aprendizagens. Quem aprendeu a gostar, então não gostou. Foi mais o sento-me já aqui, que não sei se a carruagem da frente já vem cheia. E o que surpreende é isto num país de fadistas, de “olhos rasinhos de água”, que “por uma lágrima tua me mataria”. Opá, ou o fado ou comprar uma bimby, passar pela vida como um irlandês passa por Albufeira, e lá ficar fora de pé, é que só pode ser pior que a crise. Digo eu, sei lá.

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Humor logo pela manhã | Inês Salvador

ines-200Quem são estas pessoas que, ao sábado de manhã, enxameiam o feed de imagens de jogging por campos verdejantes e orvalhados, fitness, work outs e afins em salas de ginásio e vistas de pés cansados à beira mar? Não sabem ficar em casa? Dormir a manhã na cama? Arrastarem-se para o sofá da sala e lá ficar a comer torradas a pingar manteiga? Com franqueza, há gente muito estranha.

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Isto do Euro foi bom… | Inês Salvador

Ines Salvador -200

Isto do euro foi bom, mas não foi assim tão bom. A euforia não chegou para postar nudes, nem uma ameaça de nude se viu. Nem umas maminhas a assomar no feed, nem um tronco nu de moço a cerveja exibiu por aqui. Parece que foi bom, mas não foi assim tão bom. É que, como sabemos, para ser bom, mesmo bom, tem de fazer tirar a roupa.

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Brexit | Inês Salvador

Ines Salvador -200Brexit | Uma pessoa folheia o facebook e depara-se com posts de direitolas todos contentes com o brexit. Parece que ser direitola também é isto, ficar contente quando dá merda. Às vezes penso que os direitolas eram aqueles putos estúpidos que tocavam às campainhas e depois corriam a esconder-se. Depois cresceram e tornaram-se direitolas só para continuar a tocar às campainhas. Ah e tal, a união europeia é um neo marxismo, dizem a ver se parecem menos parvos. É sempre o velho Marx que as paga. Estou quase convencida que para eles também foi Marx quem inventou a campainha. Até parece que ser direitolas é só esta felicidade destrutiva do mau uso do bem comum.  A alegria de esfíncter infantil do ou brinco eu ou não brinca ninguém. Um palhaço de um egoísmo que não entende que ter 50% de alguma coisa é melhor que ter 100% de coisa nenhuma. Mas pronto, carreguem, carreguem à vontade, e quando rebentar corram a esconder-se.

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E elas foram à bica | Inês Salvador

Ines Salvador -200– Olha lá este…
– É giro!
– Põe like nas minhas fotos todas…
– Põe nas dele, não te atrapalhes.
– Deve querer qualquer coisa comigo…
– Olha, não te quero desiludir, mas não excluas o facto de eles porem likes nas fotos todas das moças todas!
– Todas?! Todas, não!
– Tens razão, todas não. Nas que lhe dão ponta. Um nadinha de ponta, vá, já chega.
– Às vezes não entendo, põem likes e comentam em gajas tão feias.
– Também há feias com pinta de serem danadas para a brincadeira e isso conta.
– Opá, às vezes são mesmo tão feias…
– São! Medonhas, bregas, tudo, mas têm um valente par de mamas, que Deus Nosso Senhor compensa e, indo por partes, a logística também conta.
– Ahahah Inês!!!
– Sim?! Já paguei os cafés.

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Bom dia Charlies | Inês Salvador

Ines Salvador -200Bom dia Charlies, sobre homofobia venho contar-vos o seguinte:

Em tempos idos, e por tempos do Super Bowl, pus na minha capa deste estranho sistema em que nos encontramos, uma foto dos New England Patriots. Para os mais distraídos, estamos a falar de futebol americano. O Super Bowl é o evento desportivo mais assistido no Estados Unidos e o segundo em audiência no mundo, logo a seguir à Liga dos campeões da UEFA. Um jogador de futebol americano é um jogador de futebol americano, e nesse sentido não há nada a tirar ou a acrescentar, porque é perfeito. A foto dos New England Patriots era isso mesmo, perfeita, esmagadora no que à beleza masculina refere. Era uma foto de balneário, um olimpo de deuses gregos americanos. E para que disso não houvesse dúvidas, alguns estavam nús, outros meio despidos, quase despidos, estrategicamente colocados para que nada demais se pudesse ver. Pois, meus Queridos Charlies, logo que pus a foto na capa, o meu chat inundou-se de msgs que me pediam que retirasse a foto, porque a exibição daquele “orgulho gay” era chocante e estava a chocar a malta. Não respondi e fui bloqueando gente, ao mesmo tempo que a foto era continuamente denunciada. Sabemos que vivemos na lama, rodeados de boçalidade, que a maioria das pessoas não é lida, não é viajada e o que melhor as distingue é o arroto, mais ou menos azedo, mas, caramba, passam o tempo a olhar para a televisão, não conseguem aprender qualquer coisinha?! Não. Não reconhecem uma imagem do super bowl e associam a beleza masculina, a nudez masculina, à homossexualidade, como se fosse tudo mau, a beleza, a nudez, e a homossexualidade. Se não fosse trágico, até tinha graça, que o que estes badochas querem é gajas boas, como se as gajas boas não se tivessem melhor que fazer. Isto para dizer, que tenho mais fé no pai natal do que em movimentos de indignação e que a minha fé nos homens é bastante reduzida. E não me venham cá falar em valores, porque para partilhar valores é preciso tê-los. Quando me dizem “não temos os mesmos valores”, sou quase sempre forçada a concordar, não é possível ter valores em comum com quem não tem valores nenhuns.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

vegetarianos, vegans e afins | Inês Salvador

Ines Salvador -200A uns certos vegetarianos, vegans e afins

Ponto de ordem e esclarecimento, que isto, às vezes, cansa:

1) – O peixe não é um vegetal! Por mais bem amanhado, em filete, com corte de chef, embrulhado em algas, se ainda não repararam, o peixe não é vegetal!

2) –  Quem põe os ovos são as galinhas e quem dá leite são as vacas! As vacas e as galinhas não são um vegetal! Também há outros animais que põem ovos e outros animais que dão leite. Nos mamíferos todas as fêmeas dão leite. Nós, as mulheres, também damos leite, é uma questão de emprenharmos e parirmos, que ficamos a dar leite, tal como as fêmeas das outras espécies de mamíferos. Se vos der para mamar noutro lado, e não se acanhem, também dá leite, é uma questão de lhe apanharem o jeito.

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