Os tempos sujos, segundo Vargas Llosa | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

Vargas Llosa é alguém que, nos seus meneios sociais e serôdia ambição de carreira política, se sabe fazer detestar. É também um gigante da literatura, que merece ser lido sempre pelo que escreve. Deu-nos, aos seus leitores devotos, algumas das grandes obras do nosso tempo. Está bem, nem sempre é assim: no meu caso, uma vez desiludido, achei o seu recente “Cinco Esquinas” pretensioso, sem chama, até triste na forma. Mas quem escreveu “A Guerra do Fim do Mundo”, mesmo que depois de trabalho com Ruy Guerra, ou antes “A Casa Verde” ou “Conversa na Catedral”, e mais haveria a citar, é um escritor monumental. O seu recente “Tiempos Recios” (imagino que se traduza por “Tempos Difíceis” ou “Tempos Sombrios”) restitui-nos à escrita de fôlego.

Num livro anterior, “A Festa do Chibo”, Vargas Llosa tinha descrito o sangrento regime de Trujillo na República Dominicana. Este “Tempos Difíceis” regressa a um tema próximo, investigando o golpe na Guatemala contra o Presidente Jacobo Arbenz, em 1954, e o que se seguiu. Em modo de reportagem, recupera personagens reais, como Sam Zemurray, o dono da United Fruit, Edward Bernays, o responsável da empresa pela campanha na opinião pública contra um governo que se limitara a exigir-lhe que pagasse imposto, o embaixador John Peurifoy, que coordenou a operação de derrube do regime, o Generalíssimo Trujillo e Somoza, os seus aliados, ou ainda Johnny Abbes Garcia, o chefe dos serviços da informação militar dominicana que vai assassinar o ditador que substituiu Arbenz, ou ainda Marta Borrero Parra, chamada Miss Guatemala, que perpassa pela vida de vários dos personagens desta história verdadeira. Acrescenta-lhes um agente da CIA a quem chama Mike, esse nome serve, como outro qualquer, para contar o que se passou antes e depois do golpe e como estes personagens se envolvem no turbilhão de uma história sangrenta e sem remissão. São páginas notáveis de um grande escritor.

Vargas Llosa também regista aqui uma mensagem política. Como explica numa entrevista, o golpe da United Fruit, da CIA e do Departamento de Estado contra Arbenz “levou muitos jovens latino-americanos, eu entre eles, a desacreditar da democracia e a pensar no socialismo”. “Se os Estados Unidos, em vez de derrubar Árbenz, tivessem apoiado as suas reformas, provavelmente a história da América Latina seria outra, provavelmente Fidel Castro não teria se radicalizado e tornado comunista, nem Che Guevara, que estava na Guatemala nesse momento”, lamenta. O golpe “atrasou dezenas de anos a democratização do continente e custou milhares de mortos, mas contribuiu para popularizar o mito da revolução armada e do socialismo em toda a América Latina”, escreve na última página do livro. Há neste drama uma história de vida e ela é irremediável, o golpe foi o que foi e a lição foi sentida em todo o continente. Mas o que o livro nos traz de novo é um imponente retrato das pessoas que foram atropeladas pela história.

Francisco Louçã

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Centro Ciência Viva do Alviela – CARSOSCÓPIO | Comemoração dos 12 anos | 15 de dezembro 2019

O Centro Ciência Viva do Alviela faz 12 anos e comemora o seu aniversário em ambiente natalício.

Dia 15 de dezembro, é dia de festa no Centro Ciência Viva do Alviela. Comemoramos 12 anos e oferecemos entrada gratuita nas nossas exposições, das 10h00 às 18h00.
Às 15h30, há Café de Ciência: A árvore e a estrela de Natal. O astrónomo Máximo Ferreira, Diretor do Centro Ciência Viva de Constância, explica-nos que fenómeno poderá ter ocorrido no céu e que foi interpretado pelos “Reis Magos” como a “estrela” que os guiaria ao local onde havia nascido o “filho de Deus”. Seria um cometa? Um meteoro? Com recurso a modernos meios de simulação do céu, demonstrar-se-ão alguns dos fenómenos astronómicos que têm sido considerados nas pesquisas levadas a cabo ao longo dos tempos. Jorge Canhoto, investigador do Centro de Ecologia Funcional do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC, fala-nos da árvore de Natal e qual o grupo de plantas ou espécies usualmente utilizadas como árvore de Natal em Portugal e em outros países do Mundo. Sabe como se iniciou a tradição da árvore de Natal em Portugal? Donde virá a associação da cor vermelha ao Natal: da imagem do Pai Natal ou da planta utilizada pelos povos celtas na comemoração do solstício de i! nverno?
Às 17h00 sopramos as velas do nosso bolo de aniversário e brindamos aos 12 anos de promoção da cultura científica, em Alcanena.
A Floresta – Centro Ciência Viva de Proença a Nova, também está presente no nosso aniversário! Desde o dia 1 de dezembro que estamos a oferecer pinheiros-bravos, provenientes da limpeza das florestas, para quem quiser fazer a sua árvore de natal recorrendo a um produto natural. Limpamos a floresta e reflorestamos: juntamente com o pinheiro-bravo é oferecido um pinheiro-manso para plantar. Já veio buscar a sua árvore de Natal?

Junte-se a nós na comemoração dos 12 anos do Centro Ciência Viva do Alviela!

Agradecemos inscrição para o Café de Ciência através do 249 881 805 ou info@alviela.cienciaviva.pt

A Restauração da Independência de Portugal | 1 de Dezembro de 1640 | Vítor Aguiar e Silva in Diário do Minho

Há trezentos e setenta e nove anos, no dia 1 de Dezembro de 1640, Portugal recuperou a independência nacional, após sessenta anos de integração no império espanhol. Felipe II, filho de uma princesa portuguesa e neto de D. Manuel, fora reconhecido como rei de Portugal pelas Cortes de Tomar, em 1581, comprometendo-se a respeitar a autonomia do seu novo reino patrimonial. Após o falecimento do cardeal-rei D. Henrique, os exércitos do Duque de Alba tinham ocupado militarmente Portugal e Cristóvão de Moura conseguira, com a sua astúcia e a corrupção dos dinheiros de Castela, vencer a resistência de grande parte da nobreza, do clero e da alta burguesia.

O regime liberal oitocentista, a 1.ª República e o Estado Novo celebraram com fervor patriótico a Restauração da Independência. A inauguração, no dia 28 de Abril de 1886, do obelisco dos Restauradores, na praça do mesmo nome, no centro de Lisboa, foi a expressão do sentimento geral do povo português. A Comissão Central do 1.º de Dezembro de 1640 materializava no obelisco dos Restauradores o simbolismo da ressurreição de uma nação submetida durante seis séculos ao jugo estrangeiro. Após o restabelecimento da democracia em Portugal e em Espanha e a adesão dos dois países ibéricos à Comunidade europeia, a comemoração em Portugal do evento histórico do 1.º de Dezembro de 1640 tornou-se compreensivelmente mais discreta.

Naquela manhã do dia 1 de Dezembro de 1640 – um dia que amanheceu claro, sem rigores invernais –, um pequeno número de conjurados, pertencentes à nobreza mas com ligações importantes ao clero e à burguesia, alterou radicalmente a situação política em Portugal, modificou significativamente os factores geopolíticos da Espanha e contribuiu decisivamente, como hoje, séculos volvidos, podemos entender, para o futuro histórico do Brasil e de Angola, que conheceriam futuros bem diferentes se tivessem caído sob o domínio duradouro de outras potências colonizadoras europeias.

Após a morte, em 1598, de Filipe II, tornara-se cada vez mais grave a decadência multiforme de Espanha: as guerras europeias em que esteve envolvida durante o século XVI, em particular na Flandres e na Itália, tinham arruinado as finanças do reino, obrigando o poder político a aumentos sucessivos dos impostos; a recessão económica e a crise demográfica provocaram o despovoamento de grandes áreas do território; a criminalidade e o banditismo aumentaram dramaticamente; as epidemias assolaram as populações desesperadas e famintas.

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