CATALUNHA, UMA CRISE SEM FIM À VISTA | Fernando Couto e Santos

Há uma canção do cantautor Lluis Llach, um dos expoentes máximos da música catalã e um confesso independentista, chamada «Corrandes d´exili» (que se poderia traduzir por «Estrofes do exílio»), que acaba assim: «Una esperança desfeta/ una recança infinita/ i una pàtria tan petita/que la somio completa (Uma esperança desfeita/um remorso imenso/e uma pátria tão pequena/que até a posso sonhar de uma só vez).
Lluis Llach, hoje com 71 anos, esteve exilado em França no início da idade adulta, numa época em que o catalão não era bem visto pelo franquismo e era uma língua falada sobretudo em casa. Durante o período franquista, os catalães, os bascos, os galegos e os espanhóis em geral que ousassem dissentir eram obviamente reprimidos. Muitos viam a independência como uma saída – data do estertor do franquismo o atentado mais espectacular perpetrado pelo movimento terrorista basco ETA, com o assassinato do almirante Luis Carrero Blanco, então presidente do governo de Espanha, no final de 1973 -, mas a transição pacífica para a democracia, apesar dos sobressaltos iniciais – e à custa, é um facto, da amnésia –, aplacou ou amainou esses ímpetos, com a excepção dos atentados do citado grupo terrorista basco, movimento que só há poucos anos abandonou a luta armada. A constituição de 1978, com a criação das regiões autónomas, deu a possibilidade à Catalunha, ao País Basco, à Galiza e a outras comunidades de se auto-governarem, com um parlamento próprio e ampla autonomia em vários domínios, nomeadamente na educação, com a possibilidade da aprendizagem sem entraves das outras línguas do país que não o castelhano (vulgo espanhol).

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ANGELUS NOVUS, A ALBÂNIA E A EUROPA | Fernando Couto e Santos

Umas das livrarias de que mais gosto em Lisboa é a Palavra de Viajante. Situada no nº 34 da Rua de São Bento, é especializada em livros de viagens, mas viagens no sentido lato, pelo que temos à nossa disposição uma ampla gama de literatura de primeira água em várias línguas: para além do português, há livros em inglês, francês, espanhol e, em menor quantidade, em italiano. Ou seja, em todas as línguas que tenho o privilégio de dominar (umas um pouco melhor do que outras, naturalmente). Nesta livraria, descobri, graças ao profissionalismo das suas proprietárias, Ana Coelho e Dulce Gomes, vários livros e autores que desconhecia. Uma das minhas últimas descobertas foi a tradução espanhola de um livro de um escritor albanês de que ouvira vagamente falar, de nome Bashkim Shehu. Da literatura albanesa, lera sobretudo inúmeros livros de Ismail Kadaré, mas também em tempos um de Fatos Kongoli e tenho memória de ter folheado algures – talvez na própria Palavra de Viajante ou numa outra livraria de culto para mim, a Nouvelle Librairie Française, dirigida pelo meu grande amigo Frédéric Strainchamps Duarte – um romance de Dritëro Agolli. Ultimamente, nalguma imprensa europeia, fala-se da escritora e artista plástica Ornela Vorpsi, nascida em Tirana e com livros escritos em três línguas: o albanês, a sua língua materna, o italiano, língua do país onde começou os estudos universitários e, mais recentemente, o francês, língua do país onde vive atualmente.

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BORGES, OS LAPSOS E A EUROPA DO EXTREMO-OCIDENTE | Fernando Couto e Santos

O recente Congresso Internacional da Língua Espanhola – que se realizou no final do passado mês de março na Argentina – ficou marcado pelo discurso inaugural do rei Felipe VI. Por lapso, o monarca espanhol, ao referir-se ao mais conhecido e universal dos escritores argentinos de todos os tempos, nascido em 1899 e falecido em 1986, trocou-lhe o nome e, em vez de o identificar como Jorge Luis Borges, chamou-lhe José Luis Borges. Muitos observadores glosaram sobre este equívoco de sua majestade, se seria sinónimo de desinteresse pela literatura ou resultado de uma mera distração. Afinal – afirmaram alguns – embora Jorge seja um nome comum, José é-o ainda mais e José Luis é no mundo hispânico – tal como no lusófono, aliás – mais corrente do que Jorge Luis (em castelhano Luis não leva acento na letra «i»). Em tempos, conversando com alguém que conheci e que, não sendo particularmente erudito, tinha a pretensão de saber alguma coisa de literatura, tive a surpresa de verificar que o dito cujo parecia nunca ter ouvido falar de Jorge Luis Borges, visto que me respondeu, perante uma citação que lhe fiz do génio argentino, que desconhecia que o padre José Luís Borga escrevesse livros, pois pensou que eu me referia a um tal padre cantor que, por acaso, entretanto, até já publicou um livro. Por conseguinte, a confusão entre Jorge Luís e José Luís é deveras vulgar. Que eu saiba, não existe nenhuma figura pública chamada Jorge Luís Gomes de Sá, pois correria o risco de ser confundido com uma reencarnação ou um descendente do famoso negociante de bacalhau e comerciante portuense José Luís Gomes de Sá Júnior (1851-1926) que deu origem à célebre receita de Bacalhau à Gomes de Sá.

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