OS GOSTOS DE EUGÉNIO DE ANDRADE

Certo dia, um jornalista perguntou a Eugénio de Andrade: “Então de que é que gosta?” Ele respondeu assim:

«De framboesas. Do Mozart. Do Moby Dick. Do Walt Whitman. Das infantas de Velázquez. Gosto das Geórgicas e da Ilíada. De cerejas, de gatos e do Miguel. Gosto de Florença e Praga e Oxford. Gosto dos oiros e dos vermelhos de Rembrandt, das naturezas-mortas de Morandi. Gosto de Li Bai e da canção única de Meendinho. Gosto de Andrei Tarkovsky, dos versos de Pessanha, de Cesário. Gosto de espirituais negros. Gosto da sombra dos plátanos e das ilhas gregas. Gosto de muros brancos, de praças quadradas. Gosto dos madrigais de Monteverdi, da Casa sobre a cascata de Frank Lloyd Wright. Das Variações Goldberg. Das Illuminations. Gosto do deserto, dos coros alentejanos. Gosto de minha mãe e de Virgínia Woolf. Da Via Ápia. Gosto dos esquilos do Central Park e das dunas de Long Island no inverno. Gosto de um verso do Cesariny: “Conto os meus dias, tangerinas brancas”. Gosto do aroma do feno e de Schumann. Gosto do cheiro dos corpos que se amam. Hoje, não gosto de mais nada.»

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA | José Saramago | por Valdemar Cruz

Ainda a recuperar das ondas de choque e espanto desencadeadas pela estreia no Teatro Nacional de S. João de ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, a partir do romance de José Saramago. A encenação de Nuno Cardoso, com versão cénica de Cláudia Cedó, a par do espantoso trabalho dos actores, proporciona uma daquelas raras situações em que sentimos estar a viver um momento único. Porventura irrepetível. Romance poderoso sobre uma distopia, evolui em palco como um inquietante épico momento teatral.

Quando se pergunta para que serve um Teatro Nacional, aqui está a esmagadora resposta. Um espectáculo com esta grandeza só é possível graças a uma co-produção que envolve o TNSJ e o Teatre Nacional de Catalunya. Com actores portugueses e catalães (legendas em português e catalão) a peça, até pela sua duração, se surge como um desafio para os actores, não deixa de constituir um permanente desassossego para os espectadores. Até pela surpresa e inventividade de algumas opções cénicas.

Dali ninguém sai como entrou. Mas ninguém se devia furtar à experiência de ir ao TNSJ para, se puder olhar, ver. Se puder ver, reparar.

‘Confinados’, um livro para crianças e para adultos | Ozias Filho e Nuno Azevedo | por Adelto Gonçalves

                                                 I

          Um menino que vive em Portugal e, de repente, deixa de ir à escola, perde o contato com os amiguinhos e que olha através da janela as pessoas que passam na rua, todas mascaradas. Esse é o universo do livro do gênero infantil Confinados (Amadora, Edição Canto Redondo, 2022), de autoria do brasileiro Ozias Filho, jornalista carioca radicado em Portugal há mais de três décadas, e do artista plástico português Nuno Azevedo, responsável pelas várias belas peças que ilustram a obra.

Igualmente fotógrafo e responsável por uma coluna no tradicional jornal literário impresso Rascunho, de Curitiba, Ozias Filho escreve poesia, contos, notícias para jornais erevistas e é autor de livros com textos e outros com muitasfotografias de lugares bonitos. Desta vez, porém, ingressa pela primeira vez na experiência de escrever livros para o público infantil. E se sai muito bem porque consegue escrever como se fosse um menino, o que garante que será lido por pais e filhos por muito tempo, mesmo depois que a pandemia de coronavírus (covid-19) venha a se tornar apenas uma amarga lembrança como a peste negra (peste bubônica), a gripe espanhola, a Aids (Sida)e outras pestes.

Continuar a ler

Adieu | Poèsie – Ines Hayouni | SILA 2022

Contempler ton cortège funèbre un beau jour d’été

J’attendais impatiemment ta belle arrivée

Les nobles soldats portaient ton tombeau fleurdelisé

Quel rêve fantasmagorique de voir ton corps endormi

Enveloppé dans ce beau linceul

De ta gentillesse, le monde s’est appauvri

L’odeur de camphre caresse mes narines

Et apaise mon cœur affaibli

Les anges t’ont bercé jusqu’à la méridienne

J’appréhendais notre rencontre

Mais notre séparation m’a laissée sereine

Un contentement trompeur a pris le relais de ma peine

Prologue d’une douleur à en perdre haleine

Afropeu | A diáspora negra na Europa, de Johny Pitts

Redescobrir a Europa pelo olhar das comunidades afropeias. Afropeu – A diáspora negra na Europa, de Johny Pitts, é uma viagem pelos locais do Velho Continente onde os europeus de ascendência africana jogam com obediências múltiplas e constroem novas identidades. A obra vencedora do Prémio Europeu de Ensaio 2021, traduzida pelo escritor Bruno Vieira Amaral, chega a Portugal pela Temas e Debates a 2 de junho, e a sessão de lançamento, que conta com a presença do autor e de Bruno Vieira Amaral, acontecerá no dia 4 de junho, às 18h, na livraria Ler Devagar, em Lisboa.
Fascinante e arrebatador, Johny Pitts traz a visibilidade necessária a comunidades negras que continuam a ser silenciadas. De Afropeu – A diáspora negra na Europa resulta um mapa alternativo, que nos leva da lisboeta Cova da Moura, com a sua economia clandestina, a Rinkeby, zona de Estocolmo onde oitenta por cento da população é muçulmana. Johny Pitts visita também a Universidade Patrice Lumumba em Moscovo, onde os estudantes oeste-africanos continuam a aproveitar ao máximo as ligações com a URSS surgidas durante a Guerra Fria, e Clichy-sous-Bois em Paris, onde nasceram os motins de 2005. Seja qual for a geografia, são os afropeus os protagonistas da sua própria história. Com um efeito quase cinematográfico, é notável a maneira como Johny Pitts capta o espírito de cada lugar, fazendo com que a perceção que o leitor tem da Europa seja desafiada e reimaginada

.Johny Pitts, movido pela sua própria história, viajou por vários países europeus (França, Bélgica, Países Baixos, Alemanha, Suécia, Rússia e Portugal) em busca de comunidades negras que não tivessem a visibilidade merecida. Como resultado, Afropeu – A diáspora negra na Europa é um belíssimo estudo sobre a identidade negra na Europa. Venceu também os prémios Leipzig Book Award for European Understanding 2021,Jhalak Prize 2020 e Bread & Roses Award for Radical Publishing em 2020.
O autor vai estar em Portugal para o lançamento do livro e está disponível para entrevistas.

Grupo Bertrand Círculo

Solha: a história da Humanidade num poema | por Adelto Gonçalves

I 

Depois de publicar, em 2019, Vida Aberta (São Paulo, Editora Penalux), o romancista, poeta, cordelista e ator de teatro e cinema W. J. Solha (1941) chega com 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite (Cajazeiras-Paraíba, Arribaçã Editora, 2021), ao quinto volume de seu Tratado Poético-Filosófico, de seis que pretende publicar. Trata-se da continuação de um longo poema em versos livres, um discurso utópico, em que procura reconstituir a história da Humanidade e seus muitos saberes e numerosos fracassos.  

Poeta que sempre operou a anarquia nos gêneros, espécies e formas literárias como maneira de se libertar do peso da tradição que sempre impediu que se fizessem voos mais altos e abertos para a intuição, Solha volta a fazer a junção do popular com o erudito, exigindo de seu leitor um conhecimento profundo não só de Literatura e Filosofia como de fatos que marcaram a vida no planeta, com citações que vão desde o Evangelho de João até Machado de Assis, passando por Descartes, Santos Dumont, Frida Khalo, Salvador Dali, Mozart, Caravaggio, Bela Bartok, Shakespeare, Charlie Chaplin, Freud, Stendhal, Tolstoi, Darwin, Gilberto Gil, Gal Costa, Ivete Sangalo e muitos outros nomes representativos da cultura mundial e nacional. 

Continuar a ler

Victoria Fyodorova | Russian-American actress and author

Victoria Fyodorova (formerly Pouy; January 18, 1946 – September 5, 2012) was a Russian-American actress and author. She was born shortly after World War II to Jackson Tate (1898–1978), then a captain in the United States Navy, and Russian actress Zoya Fyodorova (1909–1981), who had a brief affair before Tate was expelled from Moscow by Joseph Stalin. Victoria Fyodorova wrote the 1979 book, The Admiral’s Daughter, which was about her experience attempting to reunite with her father.

Aristóteles à la minute resume a guerra da Ucrânia! | por Carlos Matos Gomes

A Odisseia de Homero vista por um agente de viagens. Há um invadido e um invasor. Um Mau e um Bom! Mas onde raio está o cavalo de Troia?

No século VIII a.C., Homero escreveu a Ilíada, apontada como o livro inicial da literatura ocidental, onde versava sobre a Guerra de Troia. O segundo livro, Odisseia, dava conta do que aconteceu depois da batalha, quando Ulisses tentava regressar.

Um dos seus aspetos mais notáveis da epopeia é o modo como está construída, com um início in media res, que foi reproduzido em inúmeras obras posteriores. Uma sofisticada técnica literária que permite entrar na metade da história, revelando os eventos que aconteceram antes através de memórias e flashbacks.

A Odisseia é uma narrativa política e histórica complexa, que que trata entre outros temas do papel da mulher na sociedade — Penélope; fantástico e que versa sobre a descoberta de outros mundos — Poseidon; do poder, do encantamento, da vingança — Ulisses.

Continuar a ler

Café littéraire Al-Rûmi | Sacré Coeur | Alger

Chères et chers membres, Vous êtes conviés à assister une séance de dédicaces du roman « Les maux conjugués », le 3ème roman de Jugurtha Abbou. L’événement aura lieu à votre café littéraire Al-Rûmi Samedi le 14 Mai 2022 à 13:30.

Bienvenus

Aperçu:

« Les maux conjugués » est le titre de la 3e œuvre de Jugurtha Abbou. Ce roman évoque la période du début des années 2000, qui a vu sur le plan national, deux tragédies naturelles, les inondations de Bab El Oued et le séisme de Boumerdes, et sur le plan international, les attentats du 11 septembre et le bouleversement des relations internationales, l’invasion de l’Irak notamment.

Pour illustrer cette époque, l’auteur raconte l’histoire de Mehdi. Cet étudiant en italien était épris de Houria, sa camarade du lycée puis de l’université, avant que le sort ne la ravisse à lui, victime qu’elle soit du tremblement de terre de 2003, elle qui, deux ans auparavant, avait perdu son frère dans les inondations de Bab El Oued. L’existence de Mehdi vire alors au cauchemar. Désormais, il n’a qu’une idée en tête : partir. Hélas! Sa demande de visa est rejetée. Il se résout alors à partir en harraga avec l’aide d’Amel, une fille louche, via la Libye. Mais le rêve de Mehdi se trouvera horriblement détourné lorsqu’il se voit embarqué vers une destination aux antipodes de son rêve italien. Car c’est en Irak qu’il atterrit, un pays en ruines laissé par les Coalisés après l’expédition destructrice du printemps 2003.

Continuar a ler

‘Homem de papel’, uma metaficção machadiana | João Almino | por Adelto Gonçalves

Oitavo romance de João Almino será fundamental para quem quiser saber, daqui a cem anos, o que foi o Brasil destes tempos.

I 

Foi quando já estava em seus derradeiros anos que Machado de Assis (1839-1908) escreveu o romance Memorial de Aires (1908) e que tem como personagem principal o conselheiro Aires, um diplomata em fim de carreira que já havia aparecido em Esaú e Jacó (1904) como participante do enredo, anotando em seu caderno tudo o que de mais significativo acontecia ao redor de sua vida. Esse personagem-narrador seria um alter ego do autor, como deixam concluir algumas coincidências, tais como a idolatria que dedica à mulher e a ausência de filhos em seu casamento. 

Pois é esse personagem carismático que já não se sentia como “deste mundo”, pois se achava um homem do século XIX, que o premiado romancista João Almino ressuscita e transporta para o século XXI em sua última obra, Homem de papel (Editora Record, 2022), que, desta vez, alinha-se ao gênero da metaficção, ao romper com os cânones do Modernismo, mostrando-o como um autor pós-modernista. É o que se conclui da observação do professor Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, feita no posfácio, ao ressaltar que “a primeira possibilidade de Homem de papel é assim a metaficcional”, com “Aires narrando-se de novo, mas para se inventar novo”. 

Continuar a ler

Veuve | Ines Hayouni

Ils se sont dits oui
Pour le meilleur et pour le pire
Elle a passé des décennies à pleurer
C’est dans leur lit conjugal
Qu’elle se verra croupir
Elle maudit le jour
Où elle avait accepté
De vivre avec l’homme
Qu’elle avait tant aimé
Elle n’avait qu’une idée en tête
Celle de déguerpir
Mais les bons moments l’en empêchaient
Il ne passe pas un jour
Sans qu’elle pousse de fourbus soupirs
Elle en avait gros sur le cœur
Personne ne pouvait le nier
Elle se plaignait tous les jours à son seigneur
Il a fini par être fatigué de l’écouter
Alors pour mettre fin à son malheur Il tua son mari

Casimiro de Brito | DOZE FRAGMENTOS DO MEU “LIVRO DE EROS OU AS TEIAS DO DESEJO”, TÃO MÍNIMOS QUANTO POSSÍVEL E A IMAGEM DA CAPA DO MEU LIVRO (UM FRESCO DE POMPEIA)

1

A morte não existe. Tudo é sexo e canto.
7

Razão? A razão? Que razão? Estou apaixonado.
27

O sexo é um festim; amar, uma cerimónia.
30

Amor, que amor o de quem o vive sem a lâmpada da loucura?
37

Eros, um deus? Com saudáveis pés de barro.
57

Ela nunca se lavava depois de fazermos amor. Levo-te comigo, dizia.
62

A separação é um deserto quando um só grão de areia já seria dor bastante.
64

A arte de amar, sem ti, não me serve para nada.
86

A paixão (essa que tanto dói) é o golpe de graça do amor.
102

As mil e uma noites – a noite que passei contigo.
108

Amando, separo o bem do mal. Ainda não aprendi a amar.
125

Dói. Dói muito. Mas temos ainda espaço para a dor maior, a do amor.

Poema à Mãe, de Eugénio de Andrade

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Continuar a ler

Mestiçagem e desmitificação do discurso eurocêntrico | por Adelto Gonçalves

I 

Terceiro livro do professor Sebastião Marques Cardoso, Poéticas da mestiçagem – textos sobre culturas literárias e crítica cultural (Curitiba, Editora CRV, 2014) resume a clivagem que o autor fez em seus estudos a respeito da literatura brasileira a partir do conhecimento de textos de autores oriundos de países africanos de língua oficial portuguesa, o que se deu, em 2009, quando, já doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), atuou como leitor na Embaixada do Brasil na Guiné-Bissau com bolsa oferecida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação vinculada ao Ministério da Educação. À época, auxiliou na docência e na administração da Universidade Amílcar Cabral (UAC) e tornou-se o primeiro assessor científico daquela instituição, na ocasião, partilhada com a Universidade Lusófona da Guiné (ULG). Hoje, a UAC, pública, e a ULG, particular, não estão mais interligadas. 

Se durante o período da graduação, do mestrado e do doutorado, Cardoso optou pelo estudo de personagens anônimos da literatura brasileira, considerando-os “figurinos” em João do Rio (1881-1921) e “anti-heróis”, em Oswald de Andrade (1890-1954), a partir da experiência africana ampliou suas reflexões críticas, estudando principalmente a obra do guineense Abdulai Sila (1958), autor de Eterna paixão (1994), que é considerado o primeiro romance de seu país. Como observa o professor Benjamin Abdala Junior, da USP, no prefácio que escreveu para a obra, nestes estudos sobre poéticas da mestiçagem há “reflexões atuais sobre as bases críticas da formação de nosso imaginário nacional e também sobre as que se desenharam nos países africanos de língua oficial portuguesa, na particularidade da Guiné-Bissau”. 

Continuar a ler

O Tempo, Esse Grande Escultor | Marguerite Yourcenar

«No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo, a sua vida. Fechou-se a primeira fase, em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra fase, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar, pouco a pouco, ao estado de mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado.
Já não temos hoje, todos o sabemos, uma única estátua grega tal como a conheceram os seus contemporâneos.»


SOBRE A AUTORA:
Marguerite Yourcenar (quase um anagrama do seu apelido verdadeiro, Crayencour) nasceu a 8 de Junho de 1903 em Bruxelas. Escreveu romances como Memórias de Adriano e A Obra ao Negro, e várias novelas. Publicou poesia e traduziu Virginia Woolf, Kavafis, Henry James e espirituais negros. Foi ainda ensaísta e crítica.Primeira mulher eleita para a Academia Francesa, em 1980, afirmou não conceder importância a tal distinção. A sua infância foi invulgar. A mãe morreu quando ela tinha dez dias, sendo educada pela rígida avó paterna e pelo pai, ligado à aristocracia, um viajante inconformista que desempenhou um papel de relevo na sua formação pessoal e literária. Marguerite Yourcenar passava os Invernos em Lille e os Verões, até aos 11 anos, na propriedade familiar em Mont Noir. Estudou em casa e o seu pouco memorável livro de poemas, Le Jardin des chimères, saiu em edição de autor quando tinha 18 anos. Acompanhou o pai em viagens a Londres, durante a Primeira Guerra Mundial, à Suíça e a Itália, onde descobriram a Villa Adriana.

Continuar a ler

Diário do Escritor | Fiódor Dostoievski

«A ideia do Diário do Escritor nasceu durante a estada de Dostoiévski no estrangeiro em 1867-1871. Sempre atento aos acontecimentos da vida corrente, o escritor sabia captar nos factos aparentemente insignificantes os indícios de fenómenos históricos globais, sabia discernir o lugar desses factos no processo histórico de desenvolvimento dos países, dos povos e das religiões. Os textos do seu “Diário”, enquanto análise e interpretação dos acontecimentos da sua época do ponto de vista da eternidade histórica, mantêm o seu carácter actual ainda hoje, passado quase um século e meio desde a sua criação.» [Da Nota Introdutória de Nina Guerra]

SOBRE O AUTOR:
Fiódor Dostoievski nasceu em Moscovo em outubro de 1821, o segundo de sete filhos. A mãe morreu em 1837, de tuberculose, e o pai, médico, saído da nobreza provinciana, foi assassinado dois anos depois, quando se instalara já como proprietário rural. Dostoievski estudou num colégio interno em Mos- covo e, entre 1838 e 1843, frequentou a Academia Militar de Engenharia, onde se interessou mais por Púchkin, Gógol e Lérmontov do que pelas disciplinas do curso. Nessa época, leu também Shakespeare, Byron e Balzac (traduziu Eugénie Grandet), Victor Hugo, Hoffmann, Goethe e Schiller. Publicou a sua primeira história, «Gente Pobre» (onde a influência de O Capote de Gógol é visível), aos vinte e cinco anos, obtendo um enorme sucesso.

Em 1849, quando escrevera já uma dúzia de contos, foi preso e condenado à morte por participar no Círculo Petrashevski. A pena foi substituída à última hora por cinco anos de trabalhos forçados numa prisão siberiana.

Continuar a ler

UM JUDEU EM LISBOA | JOSHUA RUAH

SINOPSE

Um dos grandes méritos desta autobiografia, Joshua Ruah. Um Judeu de Lisboa, reside na ausência de literatura. É uma descida às raízes, sem quaisquer limitações convencionais, para nos transmitir o que se acumulara nos espaços invisíveis do universo mais íntimo. Faz um balanço à vida. Apresenta nos a realidade quotidiana, nos seus múltiplos aspetos, através de uma comunicação frontal, numa linguagem direta, persuasiva e imediata com os leitores.

SOBRE O AUTOR

Joshua Ruah

Por exemplo, eu provavelmente sou berbere. Não se tem a certeza porque o meu apelido em hebraico pode ler-se de duas maneiras diferentes, ou aquela que eu uso, e que quer dizer «espírito ao vento», ou um nome que existia no Médio Oriente, que se escreve com as mesmas letras e se pronuncia «Revah». Sempre que lá vou dizem que sou (…)

Victor Hugo / écrivain, dramaturge, poète, politicien, 1802 – 1885

Victor-Marie Hugo, né le 26 février 1802 à Besançon et mort le 22 mai 1885 à Paris, est un écrivain, dramaturge, poète, homme politique, académicien et intellectuel engagé français, considéré comme l’un des plus importants écrivains romantiques de langue française. Victor Hugo occupe une place importante dans l’histoire des lettres françaises et celle du XIXe siècle, dans des genres et des domaines d’une remarquable variété,.

Il est à la fois poète lyrique avec des recueils comme Odes et Ballades (1826), Les Feuilles d’automne (1832) ou Les Contemplations (1856), mais il est aussi poète engagé contre Napoléon III dans Les Châtiments (1853) ou encore poète épique avec La Légende des siècles (1859 et 1877). Il est également un romancier du peuple qui rencontre un grand succès populaire avec Notre-Dame de Paris (1831) ou Les Misérables (1862). Au théâtre, il expose sa théorie du drame romantique dans sa préface de Cromwell en 1827 et l’illustre principalement avec Hernani en 1830 et Ruy Blas en 1838.

Son oeuvre multiple comprend aussi des discours politiques à la Chambre des pairs, notamment sur la peine de mort, l’école ou l’Europe, des récits de voyages (Le Rhin, 1842, ou Choses vues, posthumes, 1887 et 1890), et une correspondance abondante. Victor Hugo a fortement contribué au renouvellement de la poésie et du théâtre ; il a été admiré par ses contemporains et l’est encore, mais il a été aussi contesté par certains auteurs modernes.

Il a aussi permis à de nombreuses générations de développer une réflexion sur l’engagement de l’écrivain dans la vie politique et sociale grâce à ses multiples prises de position qui le condamneront à l’exil pendant les vingt ans du Second Empire. Ses choix, à la fois moraux et politiques, durant la deuxième partie de sa vie, et son oeuvre hors du commun ont fait de lui un personnage emblématique que la Troisième République a honoré à sa mort le 22 mai 1885 par des funérailles nationales qui ont accompagné le transfert de sa dépouille au Panthéon de Paris, le 31 mai 1885.

Solitude | Ines Hayouni

 Ne compte sur personne 

Tu es seul

Du matin à la nuit 

Des voisins aux amis

Ne compte sur personne

Tu es seul

Tu es né seul et tu mourras seul

Du sein nourrissant à l’inévitable linceul

Ne compte sur personne

Tu es seul 

Profite des présents de la vie 

Ne donne pas d’importance aux moments un peu moins jolis

Tu es le seul responsable de ta survie

DANIEL PROENÇA DE CARVALHO | por Francisco Seixas da Costa

Ontem, juntaram-se na Fundação Champalimaud muitos amigos e conhecidos de Daniel Proença de Carvalho, por ocasião do lançamento do seu livro de memórias “Justiça, política e comunicação social – memórias do advogado”.

Manuel Alegre, seu amigo desde Coimbra, fez um retrato sentimental da sua relação com o autor, o que foi complementado por uma bela peça de Miguel Sousa Tavares, que aproveitou para “desancar” na justiça portuguesa e nos seus agentes – tema que, aliás, é central ao livro.

Faço parte de quantos – e alguns, como eu, estavam naquela sala -, em momentos diversos do passado, nas últimas décadas, estiveram em “barricadas” opostas a Daniel Proença de Carvalho. No meu caso, sempre e só no plano político, onde creio que, desde sempre, nunca tivemos a felicidade de ver as nossas escolhas coincidirem. Coisa que a nenhum de nós minimamente interessa.

Continuar a ler

Spinoza | Philosophie Pratique | Poche, 10 avril 2003

La Philosophie Théorique de Spinoza est une des tentatives les plus radicales pour constituer une ontologie pure : une seule substance absolument infinie, avec tous les attributs, les êtres n’étant que des manières d’être de cette substance.

Mais pourquoi une telle ontologie s’appelle-t-elle Éthique ? Quel rapport y a-t-il entre la grande proposition spéculative et les propositions pratiques qui ont fait le scandale du spinozisme ?

L’éthique est la science pratique des manières d’être. C’est une éthologie, non pas une morale. L’opposition de l’éthique avec la morale, le lien des propositions éthiques avec la proposition ontologique, sont l’objet de ce livre qui présente, de ce point de vue, un dictionnaire des principales notions de Spinoza.

D’où vient la place très particulière de Spinoza, la façon dont il concerne immédiatement le non-philosophe autant que le philosophe ? « Il suffit d’entrer dans ces pages vives, nerveuses, lumineuses, pour se retrouver, comme à chaque fois avec Deleuze, emporté par un tourbillon d’intelligence. Les dernières lignes évoquent, à propos de Spinoza, un vent-rafale, un vent de sorcière. »

Il se pourrait que Deleuze parle de lui-même. L’unité de ce volume multiple repose sur l’affirmation que les registres de la vie et de la pensée spinozistes ne se séparent pas.

Vivre en philosophe, polir des lentilles pour microscope, user de la méthode géométrique, c’est finalement une seule et même activité. Elle vise à augmenter la puissance d’agir, donc la joie.

Au lieu d’être seulement théoricien, architecte de système, grand maître du rationalisme, Spinoza apparaît ainsi, indissociablement, comme un penseur pratique, engagé dans une transformation permanente de soi et du monde. »

(Roger-Pol Droit, Le Monde) Cet ouvrage est paru en 1981.

Fumoir | Ines HAYOUNI

Il était là Sous la trochée de la lanterne

Cette rue lugubre et apatride

Devenue le fumoir de la morose baderne

La gorge nouée

Un amalgame d’angoisses et de regrets macramés

Un regard mouillé

Lorsqu’il repense à son desiderata assassiné

Ses cernes couleurs de lilas

Apportent un peu de vie

À la vie qui n’est plus là

Une vie partie en fumée

Tout le monde le désertera

De toutes les cigarettes qu’il a allumées

Il pense que la dernière le consolera

“Não esqueças o meu nome” | Maria Isabel Fidalgo | Poética Edições

Um nome é uma eternidade mesmo no silêncio,

quando as aves não regressam à árvore e a noite se fecha.

Digo o teu nome, uma sílaba, e uma cascata de luz consubstancia a verdade.

Sal de lume, se te chamo, mais alto que os voos, o teu nome.

Maria Isabel Fidalgo, in “Não esqueças o meu nome”, Poética Edições.

Rencontre littéraire, Échanges constructifs | Kamel Daoud | Librairie Guerfi

Kamel Daoud était l’invité des rencontres littéraires organisées par la librairie Guerfi.

Redha Guerfi MERCI beaucoup pour tout ce que tu fais pour promouvoir la culture.

MERCI également à toute l’équipe de la librairie, des jeunes actifs, brillants et investis: Guerfi Mouiz, Hou Da Oun , Salsabil, Farès, Sami, Assil et Mallek…

Kamel Daoud est l’un des écrivains algériens les plus connus aujourd’hui, il est “L’intellectuel qui secoue le monde” comme l’a titré Le Point en 2017.

C’est un chroniqueur- écrivain qui n’a pas cessé d’attiser tantôt l’adulation et l’admiration, tantôt la détestation et la haine. Mais ce qui est sûr c’est qu’il ne laisse personne indifférent…

Kamel Daoud est né en 1970 à Mesra, un petit village dans la wilaya de Mostaganem, où il a eu une enfance simple, stable et heureuse. Très jeune il fait de la lecture son passe temps favoris et son refuge, c’est ainsi qu’il apprend le français. A cette langue, il voue une passion “dévorante”, et de cette passion, naîtront, des années plus tard, Mille et un Merveilleux textes…

Continuar a ler

Adelto Gonçalves | Bocage: uma história agora contada com primor | por Silas Corrêa Leite

Lançado em Portugal em 2003, o livro ganhou a sua edição brasileira em 2021 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

                                                           I

            Pelo que me lembro, na minha chamada memória recorrente desde priscas eras de atiçado buscador e ledor voraz, Bocage era e ficava entre um Pedro Malasartes  (figura tradicional nos contos populares da Península Ibérica, tido como burlão invencível, astucioso, cínico, inesgotável de expedientes, de enganos, sem escrúpulos e sem remorsos) e um Casanova (Giacomo Girolamo Casanova, escritor e aventureiro italiano, tendo interrompido as carreiras profissionais que iniciou — a militar e a eclesiástica — e que passou a levar uma vida aventurada), em terras de Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, muito antes ainda de José Saramago, portanto. Tinha-o como um boêmio aprontador em terras lusas de Cabral e de Pero Vaz Caminha.

            Lendo agora Bocage, o perfil perdido, que virou clássico da obra-pesquisa-documentário do mestre e doutor Adelto Gonçalves, depois de levar tempo para lê-lo, tal o peso do livraço e a densidade do historial enquanto pesquisa e documentário também, posso dizer que tive uma universidade de mais de ano inteiro sobre o poeta. Afinal, um curso e tanto, um livro precioso, com aulas magnas desse que já é escritor esmerado de tantos outros portentosos livros, que tive o prazer de ler, curtir e gostar, e até me mesmo fazer aqui e ali breves resenhas.

Continuar a ler

Noan Chomsky, les médias et les illusions nécessaires | Long métrage, documentaire

Avram Noam Chomsky dezembro de 1928) é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, ensaísta histórico,crítico social e ativista político. Às vezes chamado de “o pai da linguística moderna”, Chomsky também é uma figura importante na filosofia analítica e um dos fundadores do campo da ciência cognitiva. É professor laureado de linguística na Universidade do Arizona e professor emérito do Institutode Tecnologia de Massachusetts (MIT), e é autor de mais de 150 livros sobre temas como linguística, guerra, política e mídia de massa. Ideologicamente, alinha-se ao anarco-sindicalismo e ao socialismo libertário.

𝗦𝗮𝗹𝘃𝗮𝗱𝗼𝗿 𝘁𝗲𝗿𝗮́ 𝗽𝗿𝗶𝗺𝗲𝗶𝗿𝗼 𝗲𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗹𝗶𝘁𝗲𝗿𝗮́𝗿𝗶𝗼 𝗱𝗲 𝗮𝘂𝘁𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗟𝗚𝗕𝗧𝗤𝗜𝗔𝗣+ 𝗲𝗺 𝟮𝟱 𝗱𝗲 𝗺𝗮𝗿𝗰̧𝗼 | por Valdeck Almeida de Jesus

Promover falas já potencializadas, naturalizar, impulsionar e proporcionar produções diversas no mercado literário local. Esse é um dos objetivos do I Encontro Literário de Autores LGBTQIAP+ de Salvador que acontece no dia 25 de março de 2022, às 19h, ao vivo pela página do site Primeira Orelha e pelo YouTube do Primeira Orelha e Passos Entre Linhas. De forma criativa e leve, o evento tem por finalidade catalogar pessoas da área da literatura, principalmente as LGBTQIAP+ e com isso, ecoar vozes que são distanciadas do universo literário, trazendo desta forma, a diversidade e novidades do que é produzido atualmente na cidade de Salvador e Região Metropolitana.

O evento vai apresentar uma programação com falas diversas de importantes autores que estão produzindo e publicando conteúdo local. Entre eles, estão Deko Lipe (@dekolipe) que está à frente do encontro como idealizador e realizador, Lorena Ribeiro, co-criadora do Primeiro Encontro Literário LGBTQIAP+ de Salvador, além de apoiadores como o @doistercos e o @cade.lgbt .

Continuar a ler

Cada vez mais preciso de silêncio, de tempo para o silêncio | ANA VIDAL

Cada vez mais preciso de silêncio, de tempo para o silêncio.

Preciso dele para pensar, para pensar-me, para me centrar ou para me evadir, para me reconhecer no que sou até ao ponto mais longínquo que há em mim.

Às vezes, só para chorar e deixar que essa água salvífica, finalmente vencida pela lei da gravidade, deixe que as nuvens, de novo leves e límpidas, se entreguem por inteiro à sua magna tarefa de glorificar o efémero.

Preciso dessa solidão silenciosa como de um espelho revelador, benigno como tudo o que é verdadeiro mesmo quando dói.

A solidão não me assusta, pelo contrário: acolhe-me, acolho-a, faz-me falta como uma velha amiga que me habita desde sempre.

Aflige-me quem a teme, quem foge dela como de uma maldição ou uma ameaça, quem prefere sempre trocá-la por qualquer outra coisa, qualquer outra presença, qualquer, qualquer que seja, tudo menos o vazio.

Não falo de quem sofre de solidão por abandono, sem opção nem bálsamo, aquela solidão permanente e deserta como uma sentença de morte.

Falo de quem, sem sequer ter dado por isso, se viciou em ruído e acaba tendo medo do que não tem som porque essa ausência lhe rouba uma ilusão de companhia.

Retirado do Facebook | Mural de  Ana Vidal

Maria João Cantinho e a arte de esculpir poemas | por Adelto Gonçalves

                                                 I

       Autora consagrada na área ensaística, especialmente com livros sobre o filósofo e sociólogo alemão Walter Benjamin (1892-1940), Maria João Cantinho (1963) chega ao seu quinto livro de poemas com Escopro e Luz (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2021), afirmando-se como uma das maiores poetisas (e por que não poetas?) da Língua Portuguesa dos séculos XX e XXI. Mas isto não significa que atue de maneira independente numa e noutra área do pensamento.

            Pelo contrário. Em sua poesia, percebe-se o desencanto da poetisa com o mundo em que lhe coube viver, como se visse a História pelas lentes de Walter Benjamin que, em sua crítica ao progresso, prognosticara períodos de crescimento seguidos de outros de barbárie e selvageria, antevendo o retrocesso europeu e norte-americano dos tempos atuais, o que inclui também a época de desconstrução e desagregação social por que passa o Brasil de hoje.   

            Como já anteviu o professor José Cândido de Oliveira Martins, da Universidade Católica Portuguesa, em alentado e percuciente ensaio-introdutório de 12 páginas escrito à guisa de prefácio, a palavra poética de Maria João Cantinho “tem o misterioso poder de ajudar a cicatrizar a ferida aberta, regenerando e revitalizando o corpo sofrido, assim plasmado no corpo do poema ou da poesia”. Afinal de contas, diz o professor, são estas vozes (da poesia, das lembranças da infância ou de outras proveniências) que nos resgatam da iminência do naufrágio – “São as vozes que nos salvam”.

Continuar a ler

Duanne Ribeiro e a experiência da perda | por Adelto Gonçalves

                                                                                           

                                                 I

       O jornalista Duanne Ribeiro (1987), mestre e doutorando em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo (USP), surpreende a crítica e o público-leitor com o seu primeiro trabalho de ficção mais alentado, o romance As Esferas do Dragão (São Paulo, Editora Patuá, 2019), em que procura, a partir de experiências pessoais, especialmente ligadas à infância e adolescência, construir um texto que foge aos padrões tradicionais, pois permeado de referências à cultura pop e aos desenhos animados, especialmente o Dragon Ball, criado pelo desenhista japonês Akira Toriyama (1955), que, exibido no Brasil pelas redes SBT, Band e Globo, tornou-se um marco na programação infantojuvenil na década de 1990. 

            Se o romance de Duanne Ribeiro constitui uma releitura do desenho Dragon Ball, a produção do mangaká Toriyama, criador de mangás (quadrinhos japoneses), por sua vez, é inspirada em Jornada para o Oeste, um dos quatro clássicos da literatura chinesa, escrito no século XVI pelo romancista Wu Cheng’em (c.1500-c.1582), durante a dinastia Ming, que combina ação, humor e lições espirituais. Esse conto de aventuras ocorre no século VII e conta a história de um dos discípulos de Buda Sakyamuni que teria sido banido do paraíso celestial pelo crime de danificar a Lei do Buda e enviado ao mundo e forçado a passar dez vidas para expiar seus pecados.

Continuar a ler

Cartas a Spinoza | por Nise da Silveira, Francisco Alves | in Revista Caliban

As sete cartas escritas em 1989 compõem o livro Cartas a Spinoza, Nise da Silveira, Francisco Alves, 1995.

Pintura de Eduardo Ruiz, Dra. Nise da Silveira

Cada Leitor, um Spinoza

  • CARTA I

Meu caro Spinoza,

Você é mesmo singular. Através dos séculos continua despertando admirações fervorosas, oposições, leituras diferentes de seus livros, não só no mundo dos filósofos, mas, curiosamente, atraindo pensadores das mais diversas áreas do saber, até despretensiosos leitores que insistem, embora sem formação filosófica (e este é o meu caso), no difícil e fascinante estudo da filosofia.

Mais surpreendente ainda é que, à atração intelectual, muitas vezes venham juntar-se sentimentos profundos de afeição. Assim, Einstein refere-se a você como se, entre ambos, houvesse “familiaridade cotidiana”. Dedica-lhe poemas. O poema para A Ética de Spinoza [1] transborda de afeto: “Como eu amo este homem nobre / mais do que posso dizer por palavras”.

Continuar a ler

Um livro por amor a Clarice Lispector | Hugo  Almeida | por Adelto Gonçalves

                                                 I

Se os grandes romancistas ou contistas projetam nova luz sobre os predecessores que lhes apontaram os caminhos e foram nada mais que ávidos leitores, então, a fronteira entre o vivido e o lido, praticamente, não existe e, portanto, procurá-la seria vã tarefa, como afirma o hispanista norte-americano Stephen Gilman (1917-1986) em Galdós and the Art of the European Novel: 1867-1887 (Princeton, 1981). Mais: que leitor, por mais desmemoriado que seja, não constatou nas páginas de uma novela gestos e palavras de outras?  

Afinal, como observou a filósofa e crítica literária búlgara-francesa Julia Kristeva (1941) no ensaio “Le mot, le dialogue et le roman”, escrito em 1966, “todo texto é construído como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto. E no lugar da noção de intersubjetividade o que se instala é a intertextualidade, e a linguagem poética é lida, ao menos, como dupla”. Nesse caso, o texto passa a ser um “diálogo de várias escrituras”, como define Julia Kristeva.

Estas observações foram extraídas de Entre lo Uno y lo Diverso (introducción a la Literatura Comparada – ayer y hoy (Barcelona, Tusquets Editores, 2005), do acadêmico e escritor espanhol Claudio Guillén (1924-2007), e vêm aqui a propósito de Feliz aniversário, Clarice: contos inspirados em Laços de família (Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2020), organizado pelo jornalista e escritor Hugo Almeida e que reúne 27 contos escritos por autores tanto novatos como experientes a partir da leitura de um dos contos que integram o livro Laços de família, de Clarice Lispector (1920-1977), publicado em 1960.

Continuar a ler

O Fim da Civilização | Gustave Flaubert, in ‘Memória de um Louco’

Quando se extinguirá esta sociedade corrompida por todas as devassidões, devassidões de espírito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hipócrita a que se chama civilização, haverá sem dúvida alegria sobre a terra; abandonar-se-á o manto real, o ceptro, os diamantes, o palácio em ruínas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da égua e da loba.

Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.

Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensidão deve acabar por cansar-se desse grão de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de mãos e de corromper, o outro esgotar-se-á; este vapor de sangue abrandará, o palácio desmoronar-se-á sob o peso das riquezas que oculta, a orgia cessará e nós despertaremos.

Continuar a ler

A teologia de Jesus | por JOSÉ BRISSOS-LINO in Revista Visão 16.02.22 | sobre texto de Viriato Soromenho Marques

Se um dia boa parte dos teólogos e das igrejas cristãs tiverem a coragem de se centrar efectivamente no discurso e obra do Mestre de Nazaré, deixando de lado o corpo das respectivas tradições, terão um choque ao verificar quão distantes se encontram daquilo a que podemos chamar a teologia de Jesus.

Grande parte das atuais controvérsias no campo religioso cristão, mas também das tensões entre este e o mundo secular relacionam-se com aquilo que S. Paulo denomina “preceitos e doutrinas de homens”: “As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens. As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:22,23). Com efeito, o que os textos neotestamentários nos fornecem relativamente tanto à palavra como à ação do Cristo dos evangelhos, parece ir em contramão com a pregação, os preceitos e a praxis do cristianismo como o conhecemos, nas suas diferentes versões.

Em obra recentemente publicada (“A Teologia de Jesus: Tudo o que o Mestre falou”, Lisboa: Ed. Univ. Lusófonas, 2021) e que Viriato Soromenho Marques me deu a honra de prefaciar, procurei abordar a questão, com apoio de um esforçado colaborador nesta investigação (Vitor Rafael).

Continuar a ler

Emoceano | Beth Soares

Na noite passada, tive um sonho desses bem vívidos, difíceis de esquecer. Eu estava num lugar diferente do que vivo hoje, numa espécie de aldeia, para a qual eu havia acabado de me mudar. Era meu primeiro dia naquela casa, e eu tirava minhas coisas de caixas, quando a paisagem roubou minha atenção. Da janela, eu podia ver um castelo belíssimo, com uma cúpula arredondada. Eu sabia que estava perto do mar e, de repente, conseguia sentir a maresia e ouvir o som das ondas, que começaram a parecer cada vez mais fortes. Enquanto eu admirava o castelo, que agora parecia estar ao alcance das minhas mãos, comecei a ver as ondas arrebentando em suas muralhas. Pensei estar presenciando uma ressaca, algo que me é tão familiar na Ponta da Praia, em Santos.

Em poucos segundos, o mar avançou. As ondas ficavam cada vez maiores, mais fortes, até que uma delas cobriu o castelo. Eu sentia que a próxima seria ainda maior. Vi quando ela, gigante, começou a se formar e cobrir o sol. Eu me afastei um pouco da janela e, embora fosse um cenário cataclísmico, não senti um medo paralisante.

Continuar a ler

POEMA 128 DO LIVRO INÉDITO “NA FLORESTA DO MÍNIMO” | Casimiro de Brito

Amo as mulheres: são belas

e sangram. Foram feridas por deuses

que já não existem. Sim,

elas descendem dos deuses cantados por Hesíodo!

Sal, espuma, resinas! E por igual

as amo

quando já não sangram: porque têm

do sangue

a suave memória. E então a sua ferida

é mais doce ainda: mel, perfumes,

especiarias!

Borges, Cristina e a poesia cotidiana Beth Soares

A poesia já me salvou muitas vezes. Salvou-me, inclusive, da vontade de não escrever, sintoma que sempre indica coisa ruim, já que esta é a tarefa que mais me aproxima do que entendo por Deus. Falo de todo tipo de poesia. Daquela da vida cotidiana, que se esconde nos pormenores do mundo. Disfarçada de seu prato predileto, feito por uma amiga num dia despretensioso. Revelada na foto de um amigo, de tirar o fôlego pela beleza. Embalada pela prosa num comentário sensível ou numa mensagem de voz emocionada sobre algo que a gente escreveu. Ela está também na sabedoria de um pai que, do outro lado do oceano, diz a uma filha: “Não se preocupe. O Bem sempre encontra um jeito de chegar aos justos”.

A poesia sempre me pega de surpresa nas madrugadas. Acho que é nestas horas que ela anda por aí a nos espreitar pelos silêncios, pelas reflexões que chegam abraçadas à insônia. Quando o sono não vem – seja pela ansiedade por algo bom, seja pela preocupação com algo ruim – torno-me mais sensível aos sons, cores e acontecimentos comuns. E foi justo num desses dias pós-insônia que recebi o texto do escritor angolano José Eduardo Agualusa das mãos da professora Cristina. Nele, Agualusa dá voz ao escritor argentino José Luis Borges, falecido em 1986, tornando-se uma espécie de ‘médium’ e permitindo que Borges relate-nos como tem sido sua experiência no paraíso: “O Paraíso é pensar”, diz. O texto nos leva a uma reflexão sobre o mundo dos livros hoje e sobre a importância das pequenas editoras, com sua luta ingrata para que a literatura seja preservada. E termina: “A beleza é ingrata. E, contudo, é a beleza”. Diante daquele presente-poesia no meu primeiro dia de aulas em terras estrangeiras, deixei correr uma emoção aliviada. Aquela manifestação poética, para mim, era a confirmação de que eu estava há milhares de quilômetros da minha casa, da minha família, dos meus amigos e dos meus gatos, mas era exatamente onde eu deveria estar.

Continuar a ler

Ele escreve para mim | Beth Soares

Eu só o conheci recentemente. Nunca havia me aproximado, pois achava que era demais para mim. O clichê “muita areia para meu caminhão”, gritava forte toda vez que eu pensava nisso. Até que um dia dei de cara com ele que, sedutor, acenou-me. Olhei ao redor, para confirmar se era mesmo comigo, e percebi que havia apenas eu e ele — que sempre foi meu crush —na sala. Naquele momento, tive certeza de que esse segredo já não fazia mais sentido. Tomei coragem e o convidei para sair dali. Ele foi simpático, agradeceu e, posso jurar, pareceu aliviado.

No início, conversávamos todas as noites. Na verdade, eu só me mantinha atenta às suas palavras. Ele contou-me a história de um pescador. Uma história que falava do humano e da sua coragem. E sobre não termos controle de todas as coisas o tempo todo:  circunstâncias, natureza, o que fazem as outras pessoas, nem mesmo das nossas necessidades essenciais. Falava da importância de olharmos para a vida com simplicidade. E que a medida da nossa força vai muito além do corpo que nos serve de instrumento. Contou-me isso de maneira seca. Direta. No fim da história, chorei um choro doído pela beleza crua da vida. Percebi como é frágil a matéria de que somos feitos. E, ainda assim, ela pode nos levar longe, pois tem algo de indestrutível.

Continuar a ler

‘Certos casais’: contos escritos com raro talento | Hugo Almeida | por Adelto Gonçalves

                                                                          I

               Com textos que misturam diálogo, descrição, fluxo de consciência, vozes cruzadas e, às vezes, a combinação disso tudo, Hugo Almeida (1952) chega ao seu quarto livro de contos, Certos casais (São Paulo, Editora Laranja Original, 2021), dentro de uma extensa obra que inclui livros dos gêneros infantil e juvenil, romance, ensaios e uma tese de doutoramento, além da organização de coletâneas de contos e ensaios. Dividido em duas partes, Livro I e Livro II, Certos casais reúne nove contos inéditos, alguns escritos há duas ou três décadas, mas que receberam ajustes para esta publicação.

            O livro está dividido em duas partes distintas, mas os oito contos da primeira podem ser lidos como uma espécie de romance ou minirromance porque as personagens fazem parte de três gerações de uma mesma família. Seja como for, os relatos podem ser lidos separadamente, sem que haja dependência de um texto para outro.

Continuar a ler

Chamadas Telefónicas, Roberto Bolaño

No conto que dedica a Enrique Vila-Matas, no livro Chamadas TelefónicasRoberto Bolaño esclarece que o poeta consegue suportar tudo, mas essa máxima leva-o à ruína, à loucura, à morte. «Enrique  queria ser poeta e punha nesse empenho toda a força e toda a vontade de que era capaz», escreve Bolaño, na sua primeira coletânea de contos, que a Quetzal faz chegar às livrarias a 10 de fevereiro.

Um bom conto – segundo Ernest Hemingway – deve ser como um icebergue: o que se vê é sempre menos do que aquilo que se mantém oculto debaixo de água e que é o que dá densidade, mistério, força e significado ao que flutua à superfície. Os contos de Chamadas Telefónicas cumprem cabalmente esta premissa.

Reunidos em três blocos, os catorze contos que compõem esta antologia remetem para outros romances, outros escritores, outras personagens do universo ficcional daquele que é um dos grandes criadores literários do século xx. Um complexo e fascinante organismo vivo, em permanente expansão.

Continuar a ler

Transpenumbra do Armagedom | distopia depois de uma hecatombe  | Silas Corrêa Leite | por Adelto Gonçalves

Autor de livros polêmicos e diferenciados, Silas Corrêa Leite (1952), depois de publicar Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial), em 2018, O Marceneiro: a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu), em 2019, e Cavalos selvagens (Taubaté, Letra Selvagem; Curitiba, Kotter Editorial), em 2021, surpreende seus leitores com Transpenumbra do Armagedom (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021), obra em que, mais uma vez, mistura gêneros e estilos, fazendo com que a crítica fique em dificuldades para defini-la.  

I 

Na verdade, trata-se de uma reunião de textos que vão do romance de ficção científica a contos futuristas e crônicas minimalistas, passando por poemas de cunho libertário. Enfim, uma obra que traz uma visão épica e fantástica de um futuro que se desenha para o planeta Terra e que se avizinha como assustador. 

O autor reconhece que procurou fazer uma literatura de ficção futurista baseado na new weird fiction, (que pode ser traduzida como “ficção esquisita”), estilo que produz criaturas mutantes, personagens que não são totalmente humanos, que surgiu na década de 1990 com a ideia de subverter conceitos, combinando elementos da ficção científica, horror e fantasia, não seguindo convenções ou exemplos estereotipados. Um gênero que anuncia a chegada da distopia, também denominada cacotopia ou antiutopia, que representa a antítese do que se lê em Utopia, do escritor inglês Thomas Morus (1480-1535), onde um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. 

Continuar a ler

“Apelo” | Carlos Drummond de Andrade

Em 1965, a jovem Nara Leão, então com 23 anos, dá uma entrevista por telefone a um jornal brasileiro em que critica duramente o regime militar ditatorial acabado de instalar: “Sou contra militar no poder. Considero os exércitos, no plural, desnecessários e prepotentes.” A censura ainda não tinha sido instaurada no país e a musa da Bossa Nova, que deve conhecer do clássico “João e Maria”, enfrentava a ameaça de prisão e tortura. Mas não vacilava: “Não mudo de opinião.” O poeta modernista Carlos Drummond de Andrade, que nem a conhecia pessoalmente, escreveu então um poema ao marechal-ditador Castelo Branco que mandou publicar nos jornais.

É assim: 

Continuar a ler

Logística: os novos desafios | herança de um megaempresário e visionário | Silas Corrêa Leite

SÃO PAULO – O livro Logística: os novos desafios (São Paulo, 2020), de Milton Lourenço, belamente ilustrado pelo artista plástico Paulo von Poser, lançado em homenagem póstuma a um importante empresário, é obra extremamente importante na área de comércio exterior, pois constitui um mosaico de textos brilhantes. Ex-diretor do Grupo Fiorde, Milton Lourenço (1967-2020) era, por assim dizer, um visionário, dotado de uma mente brilhante e muito além de sua época.

            Neste livro, reuniu textos sobre temas importantes como concorrência desleal, desindustrialização em marcha, o porto de Santos e seus desafios, modernização, o isolacionismo brasileiro, Mercosul-União Europeia, os embates EUA x China, entre outras tantas dezenas de temas enfocados com qualidade de conhecimento profundo e escrita de qualidade. Em muitos de seus artigos, defendeu a ideia de que o Brasil, para aumentar a sua participação no comércio exterior, teria de assinar mais acordos com grandes países e blocos.

Continuar a ler

O Mundo Segundo a Física, uma fascinante visão da física moderna | Jim Al-Khalili

Lisboa – 17 de janeiro de 2022

Com uma visão atual das perspetivas mais profundas reveladas pela física moderna, Jim Al-Khalili convida-nos a conhecer o que esta ciência crucial nos mostra não só sobre o universo mas sobre a própria natureza da nossa realidade.

De uma forma absolutamente cativante, Al-Khalili começa por introduzir os quatro conceitos fundamentais: espaço, tempo, energia e matéria. Só depois descreve os três pilares da física moderna: a teoria quântica, a relatividade e a termodinâmica. Conceitos absolutamente essenciais para o leitor ter uma visão correta da realidade. Através de maravilhosos exemplos e provocatórias analogias, o autor percorre todos os campos de estudo, desde os extremos cósmicos e as escalas quânticas às banais experiências quotidianas, dando ao leitor as principais ideias de física.

Tida como uma intrépida demanda humana dos princípios fundamentais que explicam o mundo que nos rodeia, o autor transforma a física num verdadeiro guia de valores fundamentais como a honestidade e a dúvida.

Continuar a ler

O verdadeiro papel da educação | Edgar Morin

“A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.”

O filósofo francês Edgar Morin fala sobre um dos temas que o tornou uma influência mundial, a educação. Morin fala sobre a necessidade de estimular o questionamento das crianças, sobre reforma no ensino e sobre a importância da reflexão filosófica não tanto para que respostas sejam encontradas, mas para fomentar a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos. Leia abaixo:

O senhor costuma comparar o nosso planeta a uma nave espacial, em que a economia, a ciência, a tecnologia e a política seriam os motores, que atualmente estão danificados. Qual o papel da educação nessa espaçonave?
Ela teria a função de trazer a compreensão e fazer as ligações necessárias para esse sistema funcionar bem. Uso o verbo no condicional porque acho que ela ainda não desempenha esse papel. O problema é que nessa nave os relacionamentos são muito ruins. Desde o convívio entre pais e filhos, cheio de brigas, até as relações internacionais — basta ver o número de guerras que temos. Por isso é preciso lutar para a melhoria dessas relações.

Continuar a ler

Cavalos Selvagens | uma obra imaginativa | Silas Corrêa Leite | por Adelto Gonçalves

Depois de publicar, em 2018, Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial) e, em 2019, O Marceneiro: a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu), Silas Corrêa Leite (1952) acaba de lançar o romance Cavalos Selvagens, publicação que marca o início de uma parceria entre as editoras Letra Selvagem, de Taubaté-SP, e Kotter Editorial, de Curitiba-PR. Este romance, escrito há 15 anos, porém, não faz parte da projetada trilogia aberta pelas duas obras anteriores. Segundo o autor, o último livro da trilogia está praticamente concluído e deverá vir a público em 2023. 

A nova obra do romancista e poeta, a exemplo das anteriores, pode ser definida como mística, ecumênica e religiosa, mas vai além, partindo do título inspirado numa canção dos roqueiros ingleses Keith Richards e Mick Jagger, em que a expressão “cavalos selvagens” pode ser apenas uma metáfora de tudo o que o ser humano é, como se lê em Hamlet, tragédia do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), escrita entre 1599 e 1601 e que explora temas como traição, vingança, incesto, corrupção e moralidade.   

Continuar a ler

Il paraît que c’était la journée, ou c’est la nuit de l’orgasme, je ne sais pas vraiment | Hanane Trinel

Il paraît que c’était la journée, ou c’est la nuit de l’orgasme, je ne sais pas vraiment 🙃

J’ai fouillé chez mon héroïne la plus flamboyante , la plus sensuelle Amira, et voilà ce qu’elle écrit à son amoureux

MON AMOUR…

Je ne m’endormirai pas, ce soir, lovée au creux de toi ?

Ce lieu paradisiaque me fait furieusement fantasmer, tu le sais, depuis l’aube de Nous.

Tel ce symbole désuet de l’éternel féminin, victime consentante, me voici devenue, de mon plein gré, ta Juliette Drouet, indéfectiblement fidèle à son séducteur de Victor.

Continuar a ler

FELIZ NATAL | 24.12.2021

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
– Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa… em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

FLORBELA ESPANCA

CARLOS FINO | “PORTUGAL-BRASIL: RAÍZES DO ESTRANHAMENTO” | APRESENTAÇÃO DO LIVRO in Jornal Público

Apresentação

“ouro preto. chego pela primeira vez aonde

sempre estive.”                                              

José Luís Peixoto

Apesar da língua partilhada, dos laços de sangue e de um fundo histórico-cultural comum de mais de três séculos, as relações entre Portugal e o Brasil têm sido reconhecidamente permeadas por um sentimento de estranheza ou desconforto mútuo, mesmo quando no plano estatal – sobretudo em períodos de coincidência ideológica e política dos regimes que os governam – se registam avanços em termos de acordos e tratados celebrados em diversas áreas.

Esse estranho estranhamento opera como fator inibitório do aprofundamento das relações, que estão aquém da intensidade registada noutros casos de relacionamento entre a ex-potência colonial e as ex-colónias, designadamente a Inglaterra com os Estados Unidos e a Espanha com os países latino-americanos.

Continuar a ler

O erótico na literatura portuguesa | Manuel Frias Martins | in Companhia dos Livros

O professor universitário, ensaísta e crítico Manuel Frias Martins analisa a literatura erótica portuguesa num artigo em que passa também em revista o impacto dos fatores sociais, políticos e religiosos na nossa perceção sobre os valores morais dominantes em cada época.

As práticas censórias da ditadura salazarista, amparadas pela norma clerical que moldou a cultura moral portuguesa, e que continua subterraneamente presente em vários recantos do inconsciente da nação, sufocaram a imaginação erótica e muitas das suas expressões literárias possíveis. Cidadãos “virtuosos”, porque inimigos de representações artísticas do corpo, do desejo e do sexo, ocuparam lugares-chave da cultura oficial ou a ela ligados, e a partir dos quais expulsaram a experiência de Eros, denegando em consequência os múltiplos aspetos e possibilidades artísticas do sexo. Esta é a explicação mais simples, mas também a mais adequada, para a escassez de cultores literários do erotismo em Portugal.

Continuar a ler

Leiradella e a Capitu portuguesa | por Adelto Gonçalves

Além do teatro, do ensaio e do roteiro para vídeo, cinema e televisão, Cunha de Leiradella (1934), ao curso de uma longa vida bem vivida, sempre cultivou igualmente o romance e o conto, gêneros a que mais se dedicou, como bem sabe quem já compulsou a sua biografia. Em Isto não é um romance, porém, chega a um ponto em que inaugura um gênero, pois se trata de um conto que parece ter escapado ao controle do escritor, alcançando as dimensões físicas de um romance. Talvez venha daí a opção por tal título, embora o leitor possa concluir também que este texto não conta a história de um amor exaltado, como bem se afiguraria a um romance tradicional, mas de um amor frustrado, que não houve. É a história de um homem que não conseguiu se realizar na vida sentimental e faz um relato confessional de seu passado melancólico.

            Mais uma vez, a personagem principal de um texto de Leiradella é Eduardo da Cunha Júnior, que, em outras obras, já foi vendedor de livros, dramaturgo, engenheiro, executivo e detetive. Desta vez, o alter ego do autor é um cidadão que, licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto, filho de um comerciante bem-sucedido, nunca saiu da confortável casa em que nasceu nem precisou ir à luta para ganhar a vida, vivendo dos rendimentos e dos bens que os pais teriam deixado, e que se define como “um parasita social que não é pago com dinheiro público”.

Continuar a ler

Laissons-nous bercer par l’écume des jours, mon amour … | Hanane Trinel

Sans clepsydre, ni sablier, sans horloge, ni pendule, sans attendre le crépuscule, Amira s’inquiète de l’heure, elle l’observe.

Son visage adoré est son cadran solaire.

Hélas, elle le vois qui lui annonce que le rêve, aussi sublime fut-il ces deux dernières semaines, s’est déjà achevé, qu’il va devoir se lever, se rhabiller, son bagage boucler, qu’il va l’embrasser, et puis, encore une fois, à mille lieues d’elle, être obligé de s’en retourner.

Il es allé, son magicien, ce soir-là, jusqu’à prendre au mot cette phrase de Boris VIAN qu’elle lui avait envoyée, si innocemment :

« Je voudrais que tu sois là

Que tu frappes à la porte

Et tu me dirais c’est moi

Devine ce que j’apporte

Et tu m’apporterais toi. »

Continuar a ler

Livro ESPANTALHOS, Ensaios e afins | Silas Corrêa Leite

Os ossos e ócios dos espantalhos do estupendo literato ADEMIR DEMARCHI

Breve Resenha Crítica

-Eu já o conhecia de outras plagas e sítios, das redes sociais e do próprio nome forte nas lidas da literatura contemporânea de um modo geral. Aqui e ali, volta e meia nos acercamos, mas, aqui e ali também não deu liga de presto, até que, finalmente, num desses sadios contatos que  as redes sociais graciosamente propiciam, e, vai lá, agregamento feito, conexão confirmada, e ele generosamente me mandou alguns de seus portentosos livros, que, claro, sentindo-me honrado com a gentileza, e, de cara, garrei a ler, primeiro o livraço ESPANTALHOS, 312 pgs, 2017, Nave Editora de SC. Foi a gota d´água, quero dizer, foi o tsunami literário me encantando, leitor voraz…

Continuar a ler

Guardador de Rebanhos | Fernando Pessoa | Poesia Portuguesa II | Mário Viegas

Mário Viegas ironiza sobre a “popularidade” de Fernando Pessoa, escritor e poeta da primeira metade do século XX; Mário Viegas conversa com “Fernando Pessoa” (personagem interpretada por Mário Viegas) sobre a sua personalidade e obra; 41m50: Mário Viegas declama 10 poemas do livro “Guardador de Rebanhos ” de Alberto Caeiro, acompanhado por António Marques à flauta e a interpretação de Rui Miguel, ator; reconstituição do quadro “Retrato de Fernando Pessoa” de José Almada Negreiros.

BELDROEGAS, UMA SABOROSA E PERFUMADA SAUDADE | António Galopim de Carvalho

(excerto do meu livro “Açordas Migas e Conversas” Âncora Editora, 2018)

A “Portulaca olerácea”, de seu nome científico, que, como lembrou Monarca Pinheiro, “já matou a fome a muita gente”, é uma erva levemente acidulada, de folhas carnudas, por vezes bem grandes e caules tão tenros que se aproveitam quase todos. É boas nas sopas, nas saladas, no esparregado e, até, em jeito de peixinhos-da-horta (com os caules mais grossos).

O meu pai gostava e, sempre que as beldroegas aparecessem na praça do mercado, eu tinha ordem para as comprar e a minha mãe fazia-as, nesse mesmo dia, em sopas de pão com queijo de ovelha, branco, de meia cura, e ovos escalfados.

Continuar a ler

PORTUGAL-BRASIL: RAÍZES DO ESTRANHAMENTO | Carlos Fino

EM DESTAQUE NO MUNDO LUSÍADA

Jornalista Carlos Fino lança obra “Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento”.

Nova obra do jornalista português traz 500 páginas profusamente ilustradas com imagens de caráter histórico sobre a complexa relação Portugal-Brasil.

Da Redação do “Mundo Lusíada” – um dos principais jornais da comunidade portuguesa no Brasil:

Uma tese de doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e pela Universidade de Brasília do jornalista português residente no Brasil, Carlos Fino, deu vida ao livro “Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento”.

Segundo o autor, a força da relação Brasil-Portugal por via da história, do sangue e da língua, por um lado, contrasta com a permanência de um sentimento de estranhamento e incomunicação. Confrontado com estas duas realidades contraditórias, quis aprofundar o estudo dessas razões.

Em mais de 500 páginas profusamente ilustradas com imagens de caráter histórico sobre a complexa relação Portugal-Brasil, o autor estuda nesse passado comum as razões de um estranhamento e (in)comunicação, como por exemplo, cita um “sentimento antilusitano” que existe disseminado no Brasil.

O livro está em fase de pré-lançamento nos dois países pela Editora LISBON BOOKS – Livraria Atlântico.

Continuar a ler

Os desespelhos quase esquizocênicos da poética teatral de Daniel Osiecki | por Silas Corrêa Leite

  • Quando você recebe “de grátis”  alguns livros de um generoso amigo virtual que conheceu pelas artes lítero-culturais das ricas redes sociais, você sempre se sente um privilegiado. Mas, quando você começa a ler aqui e ali, versos e prosas, tudo junto e misturado, você fica atiçado e, pego pelas palavras, e ritmos, em delirantes cenas rápidas, corre, saca e sente que precisa escrever sobre o que viu de lastro e lustre. E foi isso que ocorreu, quando recebi, entre outras obras, o livro “27 episódios diante do espelho” de Daniel Osiecki, de Curitiba Paraná, com o qual tive o prazer de  já estar e palavrear em duas Lives, via You Tube da Kotter.
  • Daniel Osiecki foi professor universitário, é mestre em teoria Literária, editor-chefe da Revista TXT, organizador de saraus coletivos e apresentador do Programa VIVA LITERATURA no canal do Youtube. Também altamente produtivo assim e assado, autor de Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Fora de ordem(2021) e  ainda em 2021 este livro de Episódios… Ou seriam, trocadilhando,  EPI-sódios? Curto e grosso, poemas-cenas-de-teatro aberto, acidez-solo, e vai por aí a derrama da arte de Daniel na cova dos leões das palavras, atos e fatos, prismas e cenas rápidas. Aliás, EPI-Equipamento de Proteção Individual. Sódio, isso mesmo, o principal ingrediente do sal, que é o cloreto de sódio, importante para a manutenção do equilíbrio do pH do sangue, dos impulsos nervosos e da contração muscular.
Continuar a ler

Soliloques | Kateb Yacine

CE QU’EN DIT L’ÉDITEUR – Je suis étudiant. Mais je n’ai pas envie de continuer. Je voudrais écrire.  – Ah, ça tombe bien, moi je suis imprimeur. Apporte moi tes poèmes.”

Cet homme extraordinaire, mon premier éditeur, s’appelait Carlavan. Il était en faillite, après avoir dirigé l’imprimerie du Réveilbônois, journal du soir à Annaba. Commeil lui restait un stock de papier, il a décidé de finir en beauté, en publiant un jeune poète inconnu.

C’est ainsi qu’il a imprimé “Soliloques” en mille exemplaires qu’il m’a remis, sans rien me demander en échange. Ces poèmes de jeunesse datent de presque un demi-siècle. On y retrouve deux thèmes majeurs : l’amour et la révolution, dans une première ébauche de l’œuvre qui allait suivre. En un mot, “Soliloques”, ce n’est pas encore Nedjma, mais c’est son acte de naissance.” Extrait de l’introduction de Kateb Yacine, écrite quelque temps avant sa mort.

SEM PALAVRAS NÃO HÁ PENSAMENTO | Título de Carlos Fino

“La disparition progressive des temps (subjonctif, passé simple, imparfait, formes composées du futur, participe passé…) donne lieu à une pensée au présent, limitée à l’instant, incapable de projections dans le temps.

La généralisation du tutoiement, la disparition des majuscules et de la ponctuation sont autant de coups mortels portés à la subtilité de l’expression.

Supprimer le mot «mademoiselle» est non seulement renoncer à l’esthétique d’un mot, mais également promouvoir l’idée qu’entre une petite fille et une femme il n’y a rien.

Moins de mots et moins de verbes conjugués c’est moins de capacités à exprimer les émotions et moins de possibilité d’élaborer une pensée.

Des études ont montré qu’une partie de la violence dans la sphère publique et privée provient directement de l’incapacité à mettre des mots sur les émotions.

Sans mot pour construire un raisonnement, la pensée complexe chère à Edgar Morin est entravée, rendue impossible.

Plus le langage est pauvre, moins la pensée existe.

L’histoire est riche d’exemples et les écrits sont nombreux de Georges Orwell dans 1984 à Ray Bradbury dans Fahrenheit 451 qui ont relaté comment les dictatures de toutes obédiences entravaient la pensée en réduisant et tordant le nombre et le sens des mots.

Il n’y a pas de pensée critique sans pensée. Et il n’y a pas de pensée sans mots.

Continuar a ler

Ocupação Literária em Salvador | Casa do Benin recebe Ocupação Ani é 10 

Projeto reúne exposição, oficina e performances a partir do universo literário do escritor Nelson Maca 

Lançado em julho, o primeiro romance do escritor Nelson Maca é tema da Ocupação Ani é 10, que será aberta no dia 17 de novembro e integra a programação especial da Casa do Benin na Festa Literária Internacional do Pelourinho – Flipelô.  A ocupação reúne exposição com imagens e textos, mostra de videoclipes, performances poéticas e oficina com o ilustrador paulista Alexandre De Maio, que deu vida ao personagem no livro Ani Todos os Fela do Mundo. Pelas mãos de Alexandre, o garoto criado no Engenho Velho de Brotas, que se torna um astro da música internacional, ganha cores, formas e muita vida.  

Com atividades até fevereiro, a Ocupação Ani é 10 tem como ponto de partida o romance, mas passeia por outros livros do autor, sempre explorando a relação entre a palavra e a imagem. A mostra principal, no primeiro andar, reúne trechos, orelha, posfácio, capa e 15 ilustrações de Ani, em painéis de 50 cm X 70 cm, mostrando sua iniciação nos caminhos da música sacra do candomblé e da música pop. Personagens como o mestre percussionista baiano Jorjão Bafafé, o dançarino Negrizu e os músicos Fela Kuti e James Brown fazem parte dos ensinamentos do garoto e estão em destaque na exposição.  

Continuar a ler

Quem são os filhos da Madrugada? | Novo livro de Anabela Mota Ribeiro chega em Novembro

26 personalidades que formam um retrato do que se fez em Portugal
em tantos anos de democracia quanto os de ditadura.

Sinopse:

Uma coletânea de entrevistas realizadas por Anabela Mota Ribeiro onde o objetivo é dar a conhecer ao leitor,

personagens que marcam a vida quotidiana da democracia Portuguesa. Pessoas que de alguma forma têm a sua vida

marcada pelos efeitos de 48 anos de ditadura e que lutam para que a realidade da democracia em nada se pareça com

o que foi vivido no período que a antecedeu.

Continuar a ler

À procura do túmulo de Vergílio (Nápoles, Outubro 2021) Frederico Lourenço

Desde que descobri – já não sei como – que existe em Nápoles um lugar tido como o túmulo de Vergílio, não me largou mais a ideia de ir lá prestar homenagem ao deus maior do meu panteão. Graças ao talento organizacional do André, foi possível pôr essa aventura em marcha durante uma curta estadia em Itália. O problema foi perceber onde, em Nápoles, se situava o túmulo, já que toda a investigação que eu tinha feito (com a leitura de artigos eruditos em revistas de filologia clássica) me deixara sempre uma impressão confusa. O túmulo era em Posillipo (a colina nobre de Nápoles onde vivera a aristocracia na época romana – e o próprio Vergílio, muito provavelmente – e onde vivem agora os «calciatori», vedetas do futebol), ou no sopé da colina, em Piedigrotta?

E em qual dos dois parques napolitanos dedicados a Vergílio é que se situaria? No «Parco Virgiliano» ou no «Parco Vergiliano»? (Nunca nos livraremos do problema Vergílio/Virgílio…)

Continuar a ler

162 livros essenciais da literatura mundial | por Revista Prosa Verso e Arte

“O mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê.”
Umberto Eco

Não foi fácil escolher, mas aqui está uma lista com 162 grandes títulos da literatura mundial, incluindo obras nacionais e latino-americanas.

A lista apresentada pela Revista Prosa, Verso e Arte tem por objetivo tanto estimular a leitura dos clássicos, como incentivar que os leitores e leitoras produzam suas próprias listas.

1. O Nome da Rosa – Umberto Eco (1980)

2. O Pêndulo de Foucault – Umberto Eco (1988)

3. O Estrangeiro– Albert Camus (1942)

4. A Peste – Albert Camus (1947)

5. Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley (1932)

6. 1984 – George Orwell (1949)

7. A Revolução dos Bichos – George Orwell (1945)

8. Os Irmãos Karamázov – Fiódor Dostoiévski (1880)

9. Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski (1866)

Continuar a ler

32 ème anniversaire de la disparition de Kateb Yacine | Souâd Kedri

Romancier visionnaire et homme de théâtre “témoin de son temps”… Que penserait Kateb Yacine de l’Algérie d’AUJOURD’HUI ?

Je vous propose de lire un extrait du Dialogue avec Jean-Marie Serreau, dans Le Poète comme un boxeur (Seuil, 1994) :

« Le vrai poète, même dans un courant progressiste, doit manifester des désaccords. S’il ne s’exprime pas pleinement, il étouffe. Telle est sa fonction. Il fait sa révolution à l’intérieur de la révolution ; il est, au sein de la perturbation, l’éternel perturbateur. Son drame, c’est d’être mis au service d’une lutte révolutionnaire, lui qui ne peut ni ne doit composer avec les apparences du jour. Le poète, c’est la révolution à l’état nu, le mouvement même de la vie dans une incessante explosion. »

Repose en paix !

Photo du net

Poema escrito por Mário Soares a Maria Barroso, em 1962, quando se encontrava detido na prisão do Aljube.

Para ti

Meu amor

Levanto a voz

No silêncio

Desta solidão em que me encontro

Sei que gostas de ouvir

A minha voz

Feita de palavras ternas e doces

Que invento para ti

Nos momentos calmos

Em que estamos sós

Sei que me ouves

Agora…

… uma vez mais

Apesar da distância

E do silêncio

Opera esse milagre

Simples

Como tudo o que é natural.

[Na fotografia: Mário Soares e Maria Barroso em 1958]

Parles moi d’amour… | Hanane Trinel

Une amie m’a dit ce soir, je te donne un royaume pour une jolie histoire ! J’ai envie d’amour, j’ai envie de sexe, j’ai envie de bonheur.

Ma vocation serait donc donner du bonheur ?! Pourquoi pas.

Et là, la troisième se fâche.

 Paler de sexe ne choque plus personne ?! Mais nous marchons sur la tête !

Et alors ? Il en faut de peu pour que certains partagent la même couche. Et ce n’est pas les sites de rencontres qui vont me contredire, il faut bien que le corps exulte chantait déjà le grand Jacques , il y’a près d’un demi-siècle.

Oui mais parler de sexe, parler d’amour,  exposer la chose au grand jour, vraiment, ça ne se fait pas ! Et puis, nous  devons réserver ces mots à l’unique, le seul !

Les hommes le font bien eux ! Ils chantent, peingnent, écrivent bien leurs fantasmes, leurs désirs, l’amour selon eux !

Mais les hommes ont toujours préféré ces femmes-là Hanane !

Continuar a ler

Escritora moçambicana Paulina Chiziane vence Prémio Camões | in SIC Notícias

A escritora moçambicana Paulina Chiziane é a vencedora do Prémio Camões 2021, numa escolha feita por unanimidade, anunciou esta quarta-feira a ministra portuguesa da Cultura, Graça Fonseca.

“No seguimento da reunião do júri da 33.ª edição do Prémio Camões, que decorreu no dia 20 de outubro, a ministra da Cultura anuncia que o Prémio Camões 2021 foi atribuído à escritora moçambicana Paulina Chiziane”, lê-se na nota informativa hoje divulgada.

“O júri decidiu por unanimidade atribuir o Prémio à escritora moçambicana Paulina Chiziane, destacando a sua vasta produção e receção crítica, bem como o reconhecimento académico e institucional da sua obra. O júri referiu também a importância que dedica nos seus livros aos problemas da mulher moçambicana e africana. O júri sublinhou o seu trabalho recente de aproximação aos jovens, nomeadamente na construção de pontes entre a literatura e outras artes.

O júri referiu também a importância que dedica nos seus livros aos problemas da mulher moçambicana e africana. O júri sublinhou o seu trabalho recente de aproximação aos jovens, nomeadamente na construção de pontes entre a literatura e outras artes.

Continuar a ler

GONÇALO M. TAVARES NAS MASTERCLASSES COGITO

Um dos mais importantes escritores portugueses vem, mais uma vez, ao COGITO para falar sobre o futuro da arte e o humanismo tecnológico – o tema central da nossa programação deste ano.

Pode asssitir ao vivo no Palácio Flor da Murta, com inscrição em INSCRICOES@COGITO.PT.E pode assistir online na página de Facebook do COGITO https://www.facebook.com/ideiasquetransformamoeiras

A pedido do nosso convidado, que valoriza o contacto humano, a transmissão online não será integral, pelo que recomendamos a participação ao vivo.

Não é todos os dias que lidamos com um candidato ao Prémio Nobel da Literatura.

Vergílio ou Virgílio? | Frederico Lourenço

Não havendo a mínima dúvida de que o autor das «Bucólicas», das «Geórgicas» e da «Eneida» se chamava PVBLIVS VERGILIVS MARO – portanto, em português, Vergílio – porque é que as pessoas preferiram, durante toda a Idade Média e até praticamente aos dias de hoje, chamar-lhe Virgílio?

Antes de entrar nesta floresta de controvérsia, começo por uma declaração de simpatia subjectiva para com o nome «Virgílio». Acho um nome lindo, escrito assim com «i» na primeira sílaba, e envio daqui um cumprimento cordial a qualquer Virgílio (em Portugal ou no Brasil) que esteja a ler este texto. E, quanto ao poeta romano, quem sabe se ele até não gostaria de ver esta versão do seu nome? Eu não me importaria nada de ser «Friderico» em vez de «Frederico».

Objectivamente, porém, o nome latino é VERGILIVS. Verificamos isso em inscrições do período republicano e ainda do início do período imperial. Os preciosos manuscritos do século V (hoje em Florença e no Vaticano), que são os testemunhos mais antigos da obra do nosso poeta, grafam o nome, sem lugar para dúvida, como VERGILIVS, não só nos títulos das obras, como no famoso verso das «Geórgicas», que é a única passagem em que o poeta nos diz o seu nome e a sua residência: «naquele tempo me alimentava – a mim, Vergílio – a doce / Nápoles…» (Geórgicas 4.563-4; em latim, «illo Vergilium me tempore dulcis alebat / Parthenope…»).

Como surgiu, então, a forma Virgílio? E porquê?

Continuar a ler