Um diálogo com a Literatura na História | Adelto Gonçalves

                                                        I

        O significado de uma obra literária não corresponde à intenção do criador, pois ela tem vida própria e seu sentido pode ser acrescido à medida que é avaliada por leitores de diferentes épocas. Essa definição consta de “Conceito e divisão da Teoria da Literatura”, primeiro capítulo do livro Teoria da Literatura “Revisitada” (Petrópolis-RJ, Editora Vozes, 2005), das professoras Magaly Trindade Gonçalves (1941-2015) e Zina C. Bellodi, e constitui um exemplo perfeito da qualidade das ideias que o estudioso de Literatura irá encontrar nesta obra, fundamental desde a sua publicação para quem quer se aventurar na arte (pouco compensatória em termos financeiros) de escrever resenhas e ensaios.

Na verdade, o livro traça, de modo geral, o percurso das ideias sobre a Literatura ao longo da História, trazendo à tona as mais diversas concepções do literário, que, embora distantes no tempo e no espaço, vivem quase sempre em permanente diálogo, já que não só as ideias sobre o literário mudam, mas mudam também as marcas essenciais da própria criação literária.

Discípulas do poeta, crítico, tradutor e novelista português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), perseguido pelo salazarismo (1933-1974) e exilado no Brasil a partir de 1954, professor  da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), campus de Araraquara, interior de São Paulo, a partir de 1962, as professoras Magaly e Zina mostram neste trabalho já considerado clássico como o Realismo do século XIX e, mais particularmente, o Naturalismo trazem a marca do interesse científico em explicitar o mundo e o homem. E acrescentam: “E o romance prestava-se magnificamente ao trabalho com as novas descobertas científicas, já que ele se volta, normalmente, para tramas que ocorrem em grupos humanos, de maneira aparentemente natural”.

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Palestras em Quito | Uma leitura brasileira de Pessoa, Bocage e Gonzaga | Adelto Gonçalves

Em Quito, pesquisador Adelto Gonçalves discorre sobre a vida e a obra dos poetas em conferências para estudantes e acadêmicos

QUITO – A convite da Embaixada do Brasil no Equador, o jornalista e escritor Adelto Gonçalves fez na segunda semana de junho duas apresentações de sua obra literária em palestras dirigidas ao público estudantil e acadêmico de Quito. Sábado, dia 8, no Instituto Brasileiro-Equatoriano de Cultura (Ibec), o pesquisador apresentou a um público formado por mais de 50 estudantes equatorianos de Português um alentado trabalho sobre sua trajetória literária que inclui nove livros publicados e uma nova obra a sair ainda neste ano pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Na segunda-feira, à noite, dia 11, participou, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrión, com o escritor Rogério Pereira, ex-diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do jornal mensal literário Rascunho, que contou com a moderação do poeta Santiago Estrella, jornalista do diário El Mercurio. Os dois encontros contaram com a presença e a participação do embaixador Joao Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.  Gonçalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa (1888-1935), Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Já Rogério Pereira abordou a relação entre literatura e jornalismo como espaços confluentes.

De Fernando Pessoa, Gonçalves destacou que o ensaio “O ideal político de Fernando Pessoa”, que consta de seu livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em Estudos sobre Fernando Pessoa (Rio de Janeiro, Fundação Cultural Brasil Portugal, 1986), teve uma trajetória internacional interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaísta Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro Fernando Pessoa: Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edição.

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Para se conhecer o pensamento político de Fernando Pessoa | Adelto Gonçalves

                                                         I

Depois de 22 anos, Politica e Profezia: Appunti e frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pellicani Editore, 1996), que reúne textos políticos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), traduzidos e anotados por Brunello Natale De Cusatis, professor de Língua Portuguesa e Literaturas Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perugia, hoje aposentado, ganhou em 2018 pela Edizioni Bietti, de Milão, uma segunda edição, revista e aumentada, constituindo o 26º volume da coleção l´Archeometro. Na introdução que preparou para esta edição, entre outras argutas observações, De Cusatis recupera a polêmica travada à época da primeira edição com o escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), autor de Afirma Pereira (1994), na qual também teve participação (involuntária) este articulista.

Como se sabe, à época, o fato de ter mostrado que o pensamento político de Fernando Pessoa passava longe dos hostes esquerdistas, embora não se pudesse qualifica-lo de fascista, aparentemente, desagradou Tabucchi, antigo professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena, diretor do Instituto Italiano de Cultura em Lisboa e tradutor de obras de Fernando Pessoa para o italiano. E o que se seguiu foi uma série de ataques pela imprensa, especialmente um artigo publicado no jornal Corriere della Sera, de Milão, em 31 de maio de 2001.

Como escreveu o crítico José Almeida, no periódico impresso O Diabo, de Lisboa, na edição de 15 de janeiro de 2019, a polêmica mostrou, “de um lado, as calúnias, as mentiras e as infâmias de Tabucchi e respectivo séquito, de outro a verdade assente sobre os fatos, a honestidade intelectual e o profundo conhecimento de De Cusatis em relação à obra do modernista português”.

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Nelson Urt: do jornalismo à ficção | Adelto Gonçalves

                                                    I

Depois de uma carreira de três décadas em grandes veículos de comunicação de São Paulo, como O Estado de S.Paulo, revista Placar (Editora Abril),  Diário Popular e ESPN Brasil, entre outros, o jornalista Nelson Urt, 65 anos, voltou em 2004 para a sua Ladário natal, antigo distrito e hoje cidade vizinha a Corumbá, no Pantanal do Estado do Mato Grosso do Sul, onde continuou a exercer sua profissão nas redações do Diário Corumbaense e do Correio de Corumbá e como autônomo, além de dedicar-se aos estudos acadêmicos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

A par disso, em fevereiro de 2019, decidiu criar uma editora, a Maria Preta Cartonera, pela qual acaba de lançar Amor e Morte em Tempos de Chumbo, que reúne um conto inédito e crônicas, além de poesias e artigos escritos ao longo dos últimos dez anos. Juntamente com o livro de Urt, a Maria Preta Cartonera lançou Paixão e Morte no Bordel, com contos dos jornalistas e historiadores Luiz Fernando Licetti, Silas de Almeida e Nelson Urt.

O mergulho de Urt na ficção, porém, não deixa de ser um retrato bem acabado de uma realidade vivida por jornalistas e outros intelectuais, de modo geral, na cidade de São Paulo nos anos 60 e 70, durante os tempos de chumbo provocados pelo regime militar (1964-1985). Com um texto enxuto e pacientemente elaborado de quem dedicou os seus melhores anos à escrita de reportagens na área esportiva, o jornalista, agora ficcionista, reconstitui no conto que dá título ao livro as peripécias de Marcus, uma espécie de alter ego, fotógrafo do Diário da Noite, periódico do empresário Assis Chateaubriand (1892-1968), dono do conglomerado Diários Associados, magnata das comunicações entre o final de 1930 e o começo da década de 1960.

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Paulina Chiziane, autora que toda mulher deveria conhecer | Adelto Gonçalves

                                                    I

A exemplo do que já fizera em Dicionário de personagens da obra de José Saramago (Blumenau-SC: Editora da Fundação Universidade Regional de Blumenau – EdiFurb, 2012), levantamento de 354 protagonistas que perpassam os romances e peças teatrais do Prêmio Nobel de Literatura de 1998,  feito a partir de pesquisa que durou 15 anos e contou com a colaboração de mais de oito dezenas de seus alunos, a professora, contista, ensaísta e crítica Salma Ferraz acaba de lançar Dicionário de personagens da obra de Paulina Chiziane (São Paulo: Todas as Musas, 2019), publicado com recursos do Ministério da Cultura, através da Lei de Incentivo à Cultura.

A obra é resultado de um trabalho coletivo que durou cinco anos e foi realizado por uma equipe coordenada pela professora Salma Ferraz, incluindo 53 alunos de graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o auxílio de duas alunas da Pós-Graduação em Literatura Brasileira da mesma UFSC, Patrícia Leonor Martins e Márcia Mendonça Alves Vieira. Como diz na apresentação que escreveu para este livro Tania Macedo, professora titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e diretora do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (USP), este trabalho constitui uma espécie de “mapa” da escrita da autora moçambicana Paulina Chiziane (1955) que vai muito além daquilo que o título da obra deixa entrever.

Além de relacionar personagens que aparecem em vários livros de Paulina, o Dicionário traz uma fortuna crítica e uma biografia da autora, bem como duas entrevistas concedidas por ela para órgãos de imprensa do Brasil e do exterior e dois ensaios de especialistas. Um dos responsáveis por um desses ensaios é este articulista, autor de “O feminismo negro de Paulina Chiziane”, originalmente publicado em Passagens para o Índico: encontros brasileiros com a literatura moçambicana, de Rita Chaves e Tania Macedo, organizadoras (Maputo: Marimbique Conteúdos e Publicações, 2012, pp. 33-41). O outro ensaio é “Adão e Eva na obra de Paulina Chiziane”, de António Manuel Ferreira, professor associado com agregação do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. Ao final, o livro traz ainda uma fortuna crítica de textos acadêmicos dedicados à obra da autora moçambicana.

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J’ai couru vers le Nil | Alaa El Aswany

Le Caire, 2011. Alors que la mobilisation populaire est à son comble sur la place Tahrir, Asma et Mazen, qui se sont connus dans une réunion politique, vivent leurs premiers instants en amoureux au sein d’une foule immense. Il y a là Khaled et Dania, étudiants en médecine, occupés à soigner les blessés de la manifestation. Lui est le fi ls d’un simple chauffeur, elle est la fille du général Alouani, chef de la Sécurité d’État, qui a des yeux partout, notamment sur eux. Il y a là Achraf, grand bourgeois copte, acteur cantonné aux seconds rôles, dont l’amertume n’est dissipée que par ses moments de passion avec Akram, sa domestique. Achraf dont les fenêtres donnent sur la place Tahrir et qui, à la suite d’une rencontre inattendue avec Asma, a été gagné par la ferveur révolutionnaire. Un peu plus loin, il y a Issam, ancien communiste désabusé, victime de l’ambition de sa femme, Nourhane, présentatrice télé, prête à tout pour gravir les échelons et s’ériger en icône musulmane, qu’il s’agisse de mode ou de mœurs sexuelles.
Chacun incarne une facette de cette révolution qui marque un point de rupture, dans leur destinée et dans celle de leur pays. Espoir, désir, hypocrisie, répression, El Aswany assemble ici les pièces de l’histoire égyptienne récente, frappée au coin de la dictature, et convoque le souffle d’une révolution qui est aussi la sienne. À ce jour, ce roman est interdit de publication en Égypte.

ANGELUS NOVUS, A ALBÂNIA E A EUROPA | Fernando Couto e Santos

Umas das livrarias de que mais gosto em Lisboa é a Palavra de Viajante. Situada no nº 34 da Rua de São Bento, é especializada em livros de viagens, mas viagens no sentido lato, pelo que temos à nossa disposição uma ampla gama de literatura de primeira água em várias línguas: para além do português, há livros em inglês, francês, espanhol e, em menor quantidade, em italiano. Ou seja, em todas as línguas que tenho o privilégio de dominar (umas um pouco melhor do que outras, naturalmente). Nesta livraria, descobri, graças ao profissionalismo das suas proprietárias, Ana Coelho e Dulce Gomes, vários livros e autores que desconhecia. Uma das minhas últimas descobertas foi a tradução espanhola de um livro de um escritor albanês de que ouvira vagamente falar, de nome Bashkim Shehu. Da literatura albanesa, lera sobretudo inúmeros livros de Ismail Kadaré, mas também em tempos um de Fatos Kongoli e tenho memória de ter folheado algures – talvez na própria Palavra de Viajante ou numa outra livraria de culto para mim, a Nouvelle Librairie Française, dirigida pelo meu grande amigo Frédéric Strainchamps Duarte – um romance de Dritëro Agolli. Ultimamente, nalguma imprensa europeia, fala-se da escritora e artista plástica Ornela Vorpsi, nascida em Tirana e com livros escritos em três línguas: o albanês, a sua língua materna, o italiano, língua do país onde começou os estudos universitários e, mais recentemente, o francês, língua do país onde vive atualmente.

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«Leonardo da Vinci e as Mulheres», de Kia Vahland

«Leonardo da Vinci e as Mulheres», de Kia Vahland: Um novo olhar sobre a vida e obra do grande génio no 500.º aniversário da sua morte.

Em Leonardo da Vinci e as Mulheres, que chegará amanhã às livrarias portuguesas, a autora e historiadora da arte Kia Vahland dá-nos a conhecer que, séculos antes dos movimentos de emancipação femininos, Leonardo da Vinci desenvolveu na sua pintura a imagem da mulher moderna.

Este génio universal, e criador da lendária Mona Lisa, celebra nos seus quadros e desenhos a persistência, o intelecto, as emoções e a sensualidade femininas – e, com os seus modelos, revela a mulher moderna como a contrapartida do homem, em plena igualdade. Na realidade, Leonardo retratou as mulheres como o mundo ainda não as conhecia, inventando a imagem da mulher autónoma com ideias próprias, a mulher bela e autoconfiante mas também vulnerável que encara diretamente o homem a partir da tela.

Segundo Nicola Kuhn, do Der Tagesspiegel, «A linguagem de Kia Vahland é clara e direta. Recusando perder-se em formulações egocêntricas, trata as coisas pelos nomes, amiúde com um toque de ironia.»

Já Niklas Maak, do Frankfurter Allgemeine Zeitung, diz que «Kia Vahland movimenta-se no mundo académico e jornalístico e escreve sobre a história da arte como se de um romance policial se tratasse. Trabalha com a linguagem como um pintor com as tintas.»

Um livro de leitura obrigatória que chega até nós no ano em que se assinala o 500.º aniversário da morte deste artista.

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VAMOS CURAR A TERRA, de Julian Lennon e Bart Davis e ilustrado por Smiljana Coh

Esta semana nas livrarias – infantil/juvenil

VAMOS CURAR A TERRA, de Julian Lennon e Bart Davis e ilustrado por Smiljana Coh chega esta semana às livrarias

No seguimento de Vamos Ajudar a Terra publicado o ano passado pela ASA, Vamos Curar a Terra é uma nova história inspiradora e enraizada na vida e obra de Julian Lennon, filantropo, fotógrafo, músico e produtor musical.

Elogiado neste projeto por figuras como Bono ou Laurie Berkner, Julian Lennon, filho do lendário líder dos The Beatles, leva os jovens leitores numa viagem que os desafia a fazerem da Terra um sítio melhor para toda a Humanidade, protegendo o meio ambiente e ensinando todos a amar o nosso planeta.

Sobre o Livro

Coloca-te de novo aos comandos do Avião da Pena Branca, um avião mágico que pode levar-te até onde quiseres, e faz parte desta aventura para curares a Terra! Basta carregares nos botões das várias páginas e inclinares o livro nas direções indicadas.

O Avião da Pena Branca tem como missão transportar os leitores numa viagem pelo mundo fora e mostrar-lhes como podem fazer da Terra um sítio melhor para toda a Humanidade, protegendo o meio ambiente e ensinando todos a amar o nosso planeta.

JULIAN LENNON é cantor, compositor e músico (com uma nomeação para os Grammy Awards e outra para os MTV Video Music Awards), produtor musical, fotógrafo e filantropo. Nasceu em Liverpool, Reino Unido, e desde sempre se afirmou como um observador da vida em todas as suas vertentes, razão pela qual necessita de se expressar através das mais variadas formas de arte. Em 2007 fundou a organização The White Feather Foundation, que leva a cabo iniciativas ambientais e humanitárias, atuando nas áreas da preservação da natureza, educação, saúde pública e proteção das culturas indígenas.

BART DAVIS é autor tanto de romances ficcionados como de livros de não-ficção, em especial biografias, tendo obras suas sido traduzidas para múltiplas línguas. No seu currículo conta ainda com a escrita de dois filmes e também de múltiplos artigos de opinião, no âmbito da sua colaboração regular com a imprensa. Vive em Nova Iorque.

SMILJANA COH estudou animação para filmes e, no seu trabalho, combina técnicas de ilustração mais tradicionais com técnicas de ilustração digital. A sua criatividade emerge da atenção que dá a cada detalhe das suas ilustrações. Além de já ter ilustrado alguns livros infantis, também já se aventurou, ela própria, na escrita. Vive na Croácia.

Ficha do Livro: Título: Vamos Curar a Terra – Nº págs: 48 – ISBN: 9789892344850 – PVP C/ IVA: 11,90€

RAÍZES DO ESTRANHAMENTO: A (IN)COMUNICAÇÃO PORTUGAL-BRASIL | Carlos Fino

(Tese de doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e pela Universidade de Brasília)

Resumo

Apesar da língua e de um fundo histórico e cultural comuns, as relações entre Portugal e o Brasil têm sido reconhecidamente permeadas por um sentimento de estranhamento ou desconforto mútuo, mesmo quando no plano estatal – sobretudo em períodos de coincidência ideológica e política dos regimes que os governam – se registam avanços em termos de acordos e tratados celebrados em diversas áreas.

Esse estranhamento opera como fator inibitório do aprofundamento das relações, que estão aquém da intensidade registada noutros casos de relacionamento entre a ex-potência colonial e as ex-colónias, designadamente os Estados Unidos com a Inglaterra e a Espanha com os países latino-americanos. Essa situação de latência não inteiramente realizada entre Portugal e o Brasil já foi caracterizada como “parceria inconclusa”.

Paralelamente, regista-se entre os dois países um défice de comunicação, que tanto pode derivar desse sentimento de desajustamento mútuo como estar, até, na sua origem. Em qualquer caso, essa (in)comunicação tende a reforçar o estranhamento e vice-versa, num perpetuum mobile em que ambos mutuamente se alimentam.

Investigar as origens dessa realidade, sondar na História do passado comum as razões desse estranhamento e dessa (in)comunicação – este o objetivo do presente estudo.

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Sonata de Abril | Maria Isabel Fidalgo

Trago a poesia das searas
num anseio suspirado
pela luz de Maio 
do primeiro dia
e de um Abril cantado
folar de cravo
sol em folia.

Emerge de novo a noite
dos passos senhoreais
e gemem as doces brisas
nos pinheirais.

Mas a voz será de canto
se alguém quiser
na arma a mão da criança
se cravo houver.

«Antes de Mim um Verso», Poética Edições | maria isabel fidalgo

BORGES, OS LAPSOS E A EUROPA DO EXTREMO-OCIDENTE | Fernando Couto e Santos

O recente Congresso Internacional da Língua Espanhola – que se realizou no final do passado mês de março na Argentina – ficou marcado pelo discurso inaugural do rei Felipe VI. Por lapso, o monarca espanhol, ao referir-se ao mais conhecido e universal dos escritores argentinos de todos os tempos, nascido em 1899 e falecido em 1986, trocou-lhe o nome e, em vez de o identificar como Jorge Luis Borges, chamou-lhe José Luis Borges. Muitos observadores glosaram sobre este equívoco de sua majestade, se seria sinónimo de desinteresse pela literatura ou resultado de uma mera distração. Afinal – afirmaram alguns – embora Jorge seja um nome comum, José é-o ainda mais e José Luis é no mundo hispânico – tal como no lusófono, aliás – mais corrente do que Jorge Luis (em castelhano Luis não leva acento na letra «i»). Em tempos, conversando com alguém que conheci e que, não sendo particularmente erudito, tinha a pretensão de saber alguma coisa de literatura, tive a surpresa de verificar que o dito cujo parecia nunca ter ouvido falar de Jorge Luis Borges, visto que me respondeu, perante uma citação que lhe fiz do génio argentino, que desconhecia que o padre José Luís Borga escrevesse livros, pois pensou que eu me referia a um tal padre cantor que, por acaso, entretanto, até já publicou um livro. Por conseguinte, a confusão entre Jorge Luís e José Luís é deveras vulgar. Que eu saiba, não existe nenhuma figura pública chamada Jorge Luís Gomes de Sá, pois correria o risco de ser confundido com uma reencarnação ou um descendente do famoso negociante de bacalhau e comerciante portuense José Luís Gomes de Sá Júnior (1851-1926) que deu origem à célebre receita de Bacalhau à Gomes de Sá.

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ALFA & ÓMEGA | Casimiro de Brito

EIS ALGUMAS DAS SUAS ENTRADAS

AMADA
Ela é água e vaso, a minha amada.
Escuto no seu corpo a música do mundo.

BACANTE
Quase não bebe, essa bacante. Tudo me dá a beber.

CANIBALISMO
Quando nos amamos, ó prazer tão alto!

DANÇA
A dança das flores ao vento, talvez a primeira inspiradora.

ETERNIDADE
A eternidade, embora de passagem, senta-se comigo à mesa.

FEMININA
Felina. São guerras que parecem perfumadas.

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Lançamento do Livro “Que fazer contigo, pá?” | Carlos Vale Ferraz | Apresentação de José Pacheco Pereira

Minhas amigas e meus amigos. Teria o maior prazer na vossa presença na apresentação do novo romance, que será feita pelo José Pacheco Pereira. Pela minha parte responderia `pergunta:

O livro é sobre quê?

Assim:

É sobre um homem a quem impuseram um destino que o ultrapassava e que, no fundo, ele não estava disposto a cumprir.

É um romance sobre a vaidade de ser um herói.

Sobre a ficção das histórias oficiais. Eu escrevi (tentei) uma história verdadeira sob a forma de ficção.

É sobre os salvadores das pátrias e dos povos.

É sobre a falsidade, a perversidade e a mentira

É sobre o clássico herói e salvador vencido pela história.

É um romance sobre mim.

O discurso histórico oficial é sempre uma conveniência.

Este romance é contra as conveniências do discurso oficial sobre um período recente e marcante da nossa história: o 25 de Abril, o 25 de Novembro e a violência revolucionária e contra revolucionária.

A ficção é a minha forma de transmitir a minha verdade.

Eu tenho uma verdade sobre o 25 de abril, sobre o 25 de novembro, sobre a nossa história. Este romance é o romance da minha verdade.

Os leitores poderão ver aqui quem quiserem, Otelo e Calvão, Eanes, Jaime Neves, o cónego Melo ou o Carlos Antunes, o ELP e as FP, mas o que está neste romance sou eu e a minha verdade sobre um período da nossa história.

É um romance sobre o outro que todos os sensatos têm de reserva.

Este é também um romance sobre loucos. Sobre os loucos que ocupam os marcos da História.

O que é um ex-revolucionário?

Como perdemos os ideais?

Ser generoso, dar a sua vida por uma causa é prova de quê? De inteligência? De estupidez! Só temos uma vida.

Gostaria muito de os ter nesta apresentação

Carlos Vale Ferraz

A mulher mais bonita do mundo | José Luis Peixoto

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luis Peixoto

Je me souviens … | Malika Bouazza

Je me souviens que lorsque j’étais petit, ma mère m’a demandé si je savais quelle partie de mon corps était la plus importante.

Au fil des ans j’ai essayé de deviner et de trouver la bonne réponse.

Je me souviens de la première fois où je lui ai répondu ce qui me semblait à l’époque le membre le plus important : « mes oreilles, maman ? »

Elle me répondit « Beaucoup de gens sont sourds. Mais persévère, continue à y réfléchir. On en reparlera plus tard. »

Quelques années passèrent. Je n’avais pas oublié sa question, j’y avais réfléchi. Je pensais avoir une bonne réponse quand elle me reposa cette question. C’est alors qu’avec fierté je lui dis : « les yeux maman ! La vue est très importante ! »

Elle me regarda avec tendresse et me dit : « Je vois que tu as pris de la maturité. Mais ce n’est pas la bonne réponse. Il y a beaucoup de gens qui sont aveugles. »

J’étais déçu… Cependant, intrigué, j’ai continué à chercher. Je lui donnais mes réponses au fil des ans qui passèrent. Et à chaque fois sa réponse était la même : « Non…, tu progresses, mais ce n’est pas ça, continue à chercher. »

Puis, quelques années plus tard, mon grand-père nous a quittés. Nous étions tous très affectés par sa disparition. Tout le monde était en pleurs. Même mon père pleurait. C’était la deuxième fois de ma vie que je voyais mon père pleurer.

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POEMA 165 DO LIVRO INÉDITO “SILÊNCIO QUASE” E UMA ESCULTURA DE RODIN | Casimiro de Brito

Amo-te porque sou dependente do teu odor. 
Amo-te porque balanças nos ventos futuros.
Porque sou uma árvore que se abriga à tua sombra.
Amo-te porque só sei respirar na cidade de Eros.
Amo as marcas indecifráveis de todas as etnias
que produzem a beleza do teu rosto.
Bebo nas tuas coxas o linho molhado da minha infância.
Amo-te porque és alucinação e mulher real
no mesmo corpo volátil. Amo-te
porque também de noite és o meu sol quotidiano.
Amando-te não preciso de correr por montes e vales
em busca da mais antiga das mães. Tu, a irmã
da minha vagabundagem sempre inaugural. Amo-te
porque deixei de ter pressa. Um poema infinito,
uma cascata em cada sílaba. Uma lua que me engole
quando começo a ser sábio. A vegetação
no jardim que foi de pedra. Conheci na tua carne
a lama do meu reino luminoso. Amo-te
porque me fazes saltar o coração e lá vai ele
a caminho do país dos cedros. E assim renasço
no enigma da tua carne que no chão deitada, voa.
Amo-te porque dependo da tua cor do teu odor.
Amo-te porque me acolhes à tua sombra de árvore
para sempre iluminada. Amo-te
porque não tenho pressa e também as tuas águas
parecem um ribeiro por entre as colinas
da manhã. Amo-te mistura de linho e do mármore
macio da manhã. Amo-te porque os teus caracóis
se transformaram em carícia onde sou mais só.
Amo-te porque te vejo arder
como se desejasses que também eu ardesse
a teu lado.

Casimiro de Brito

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito

O MARCENEIRO, A ÚLTIMA TENTATIVA DE CRISTO | Silas Correa Leite

Ao ler o novo – e de novo polêmico e de novo diferenciado – romance (místico, ecumênico, religioso?) “O MARCENEIRO, A última Tentativa de Cristo”, Editora Viseu, 2018, de Silas Corrêa Leite, a primeira coisa que nos vem à mente é uma frase de Friedrich Nietzche: “A verdadeira questão é: quanta verdade consigo suportar?”. Simples assim. O livro, segundo o autor, é do final do ano 2.000, com aquela história do tal bug do milênio, o mundo iria acabar, coisa assim, e ele escreveu este despojo para não dizer que não era capaz de escrever um romance, principalmente se mirando o livro Memorial de Maria Moura, de Raquel de Queiroz, quando então se decidiu que, se aquele era um romance contemporâneo, atual, também poderia bolar um. Deu nisso. Um desafio? Um braço quebrado, engessado, outro com problema, pois pegou uma velha maquina remington, botou papel de formulário contínuo, e, feito um surto-circuito – psicografado? Jorro neural? –  por quinze dias, a média de doze horas por dia, de licença médica, macetou o começo, meio e fim do projeto então se formalizando. Às vezes, confessa, aqui e ali, numa parte emocionante e elevadora, do registro que punha para fora, sentia que, madrugada a dentro, a sala do apartamento da Alameda Barros onde morava no bairro de Santa Cecilia como se iluminava, e ele, que tem medo de fantasma, de espírito, feito um bobo, parava assustado e chamando a esposa, acendia todas as lâmpadas do lugar, quando ela assustada, mas já o conhecendo, perguntava:

-O que você está fazendo?

-Estava escrevendo sobre Jesus, dizia ele.

Ela então entendia, e respondia:

– E você quer escrever sobre Jesus sem iluminação de algum lugar? Quem procura, acha…

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Esta é a Forma Fêmea | This is the female form | WALT WHITMAN

À Vossa, Mulheres!
E aos Homens que nos encantam!

Sónia Soares Coelho 

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.

Walt Whitman
in “Leaves of Grass”

http://www.citador.pt/poemas/esta-e-a-forma-femea-walt-whitman

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As mulheres | Quadro de Pablo Picasso | 8 de Março, Dia Internacional da Mulher | Paulo Fonseca

Pensamento do dia : Com << As mulheres>> de Picasso e com os números de mortas como punhais que envergonham, declamo sangrando às mulheres do mundo, em celebração do seu (nosso) dia …


Voo de pássaro rasante,
epopeia heróica
hino de glória
canto de boa memória
seiva de vida
estóica.
Louca acendalha de fogo
és a ópera da boa esperança…
Bojadora,
que enfrenta as tormentas
e todas as horas de pranto….
fogueira que aquece os famintos….
Graça que abraça…
os enfermos
instintos….
Esperteza que desperta os amados…
musa que inspira os fados
diferentes….
Mulher,
dia como outro qualquer…
canto-te devoto
À mãe, à filha, à mulher….
a outra mãe qualquer,
em respeito….
pra alavancar o efeito
tão leve…
tão breve….
Saúdo as Mulheres,
em gratidão,
Sou um homem que olha de igual…
para cima,
para a dimensão….
para dentro,
para o coração…
para a mulher,
a revolução…..
Sempre desperta,
sempre em alerta….
almofada
humanidade
fada
humidade
desejo
alvor de caridade….
colo que encanta
de vida….
Mulher,
a quem devo quem sou,
altar
da eternidade…
bombom….
Deusa do amor
coragem,….
intrépida ternura
Esplendor !….

Paulo Fonseca

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Fonseca

Lisboa acolhe festival literário | in Jornal Público

O Festival da Palavra estreia a sua primeira edição na capital, a realizar-se entre os dias 8 e 11 de Março. E a palavra de ordem é “fronteira”.

Lisboa vai ser o palco da primeira edição de um festival literário promovido pela Cabine de Leitura da Praça de Londres, em colaboração com as livrarias Barata, Tigre de Papel e Leituria, e terá lugar na freguesia de Alvalade a partir desta sexta-feira, dia 8, a estender-se até ao dia 11 do presente mês.

Na sequência de outros actos de cidadania e voluntariado, como é exemplo a Cabine de Leitura, que criou em 2014 na Praça de Londres, Carlos Moura-Carvalho, o único fundador desta iniciativa, decidiu avançar para a realização de um festival literário.

“Lisboa não realiza um festival literário à sua dimensão, de capital, de metrópole turística, de urbe com uma história única na Europa”, aponta. “Realizar um festival centrado numa palavra pareceu-nos ser uma opção criativa e desafiadora”.

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Livros pouco livres | António Guerreiro in Jornal Público

Há dias, entrei numa livraria para comprar um romance que tenho muita vontade de ler, A Capital (Dom Quixote), do escritor austríaco Robert Menasse. Recuei quando vi a capa do livro, achei que não iria conviver facilmente com ela, durante o tempo de leitura, e muito menos guardaria um livro que assim se apresenta. Menasse não merece este gesto de rejeição, mas o seu livro também não merece ser assim editado. Em casa, fui à Internet ver como eram as capas do mesmo livro, na edição alemã, inglesa, francesa, italiana e espanhola. Não gostei de todas, mas conviveria com todas pacificamente. Sobretudo, nenhuma delas sofria desse realismo ilustrativo tão em voga desde há bastante tempo na edição em Portugal, que faz um uso imoderado da fotografia.

Robert Menasse é um dos grandes autores austríacos contemporâneos, dispensa certamente que os seus livros sejam embrulhados desta maneira e que sobre a imagem da capa (não numa badana, não numa cinta, não na contracapa) venha aterrar, vinda do Financial Times, uma daquelas frases bem recheadas de adjectivos e advérbios que parecem engendradas por maus publicitários: “Uma sátira deliciosamente cruel — e oportuna — sobre a União Europeia e o significado da Europa nos dias de hoje”. No Financial Times podem ter gostado muito de Capital,  mas tenho a certeza que não é desses lados que Menasse busca aplausos e legitimações. Fácil é perceber que o editor português aplicou a este livro, e a quase todos os que saem das suas oficinas, a bitola gráfica e propagandística que julga adequada a leitores incautos e com pouca autonomia, que é preciso atrair com imagens, cores, sinais e frases de alto ruído, grande visibilidade e fraca elaboração. Seja dito, em boa verdade, que não é um caso excepcional, é até a regra editorial em que vivemos, e é por isso que o tomo aqui como um exemplo banal, já quase naturalizado. Se quisermos procurar as excepções, temos que frequentar algumas franjas do mercado editorial. Por isso é que é um pesadelo entrar hoje nas livrarias portuguesas, sobretudo nas que pertencem às grandes cadeias: é um mundo saturado de cores e volumes de grande porte, prontos para uma guerra comercial completamente insensata (não há livros maiores do que os portugueses: de um romance de 150 páginas, conseguem as editoras fazer um calhamaço com a lombada do Guerra e Paz), com uma paginação e uma mancha que em tempos só eram usadas em livros infantis. Instaurou-se a infantilização dos leitores, a ideia de que quem entra numa livraria precisa, logo à entrada, de tutela e só quando chega às secções do fundo é que começa a ter direito à ousadia de pensar e ganhar autonomia.

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UM FRAGMENTO DO MEU “LIVRO DE EROS” E UMA IMAGEM DE EDGAR DEGAS | Casimiro de Brito

Uma das mulheres que melhor me amou nunca a vi à luz do dia. Nem à luz de velas. Entrava no quarto (de um pequeno hotel) à noite, com a luz apagada, com todas as persianas cerradas, e com a luz apagada saía. Assim tínhamos combinado. Costumava dizer-me, como no mito, Nunca deverás olhar-me, se precisares de luz para me ver é porque és cego ou não tenho em mim luz bastante. Tinha. Um corpo perfeito, uma voz alcalina, uma arte indizível ou talvez só essa cantada pelos poetas do amor. “Não podes saber quem sou, nem sequer se te amo.” Amava-me, isso sim, amava-me porque fazia o que fazia com arte e entusiasmo, fundidos com fervor crescente um no outro. Nunca acendi a luz. Aceitei a desigualdade, e penso que só com ela a aceitei: sentindo que, ela, conhecendo-me embora o rosto e o percurso, também desejava desvendar os meus mistérios. Um dia senti que me estava a apaixonar por ela, e disse-lhe. Foi o fim. Disse-me apenas, “Isso seria a nossa desgraça. Vou partir.” E partiu, essa que devia ser a mulher de algum dos meus amigos. Nunca quis saber, nunca procurei saber nada, e talvez agora me leias. Mas conheci de ti fontes que outros não poderão conhecer — porque nesses momentos tu eras uma-comigo, a tua humidade derramava-se em mim, numa dor única e feliz e sei que nunca ninguém te amará como eu te amei. Nem imaginas o que eu daria, não para ver o teu rosto, não para saber quem és, mas para me sentir novamente afogado nas tuas fontes loucas, que nunca mais esquecerei. Onde estarás? O que sentirás quando passas por mim e não te vejo? O que sentirás quando leres isto? Talvez me telefones de novo.

Casimiro de Brito

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito

DIÁLOGO REVOLUCIONÁRIO | Fernando Gomes

— Bom dia, cavalheiro. Em que lhe posso ser útil?
— Bom dia. É aqui que vendem revoluções?
— É sim. De que tipo deseja?
— Olhe, nem sei bem como escolher.
— Bom, há quem as escolha por século, por ano, por mês…
— Muito bem. Pode ser uma de Outubro. É que o Outono é a minha estação favorita.
— Temos duas dessas. Prefere Republicana ou Vermelha?
— Qual é a diferença entre elas?
— A diferença geográfica é cerca de quatro mil e quinhentos quilómetros. A temporal é de sete anos e vinte dias.
— Estava a pensar na diferença de preço.
— Que importa isso, caro senhor? Uma revolução bem feita não tem preço.
— Já vi que conhece bem o produto que vende.
— Assim é, cavalheiro. Sou um profissional, e as nossas revoluções são de primeiríssima qualidade.
— Acho que vou levar uma vermelha, como os cravos. A minha mulher gosta de cravos.
— Aconselho-o, então, a levar uma de Abril e não de Outubro. Pode não ser boa ideia contrariar a sua mulher num assunto destes.
— Pois é… Se calhar é melhor não ligar ao mês e escolher baseado noutras características.
— Talvez queira ver por estilo. Temos a Liberal…
— Sou mais para o conservador, sabe…
— Deixe que lhe diga, cavalheiro, que é a primeira vez que tenho na loja um conservador a pedir uma revolução.
— Admito que tenho uma alma cheia de contradições…
— Quem não tem? Compreendo-o perfeitamente. Talvez precise de uma revolução interior.
— Não, obrigado. Sinto-me bem como sou.
— E que tal estilos menos agressivos? Temos, por exemplo, a Industrial…
— Hum… Tem ar de ser muito pesada.
— Nesse caso, porque não opta por algo mais leve como uma simples revolta?
— Isso não! Comigo é tudo a sério. Quero mesmo uma revolução. E à grande.
— Talvez o cavalheiro prefira escolher por nacionalidades. Temos a Americana, a Chinesa…
— A Chinesa é a Cultural, não é?
— Exacto. E o cavalheiro parece-me bastante culto. Olhe que é uma boa escolha. Garanto-lhe que vai bem servido.
— Também não. Temo que seja muito Mao para mim.
— Então, a Cubana, a Espanhola… Já sei. Se quer à grande, porque não leva uma Francesa?
— Não. Não gosto de guilhotinas. As lâminas arrepiam-me… Até as injecções… Nem lhe conto. Uma vez, nas urgências…
— Compreendo. Talvez o cavalheiro não seja talhado para isto das revoluções…
— Acha mesmo?
— Aqui entre nós, porque não fica simplesmente em casa a gritar contra o governo?

Fernando Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Fernando Gomes

Silas Correa Leite Lança seu Romance Místico ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS

ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS, Romance místico, romance religioso ou romance ecumênico? Depois de Goto, A Lenda do Reino Encantado do Barqueiro Noturno do Rio Itararé, pela Clube de Autores Editora, SC, romance pós-moderno (considerado a melhor obra do escritor); depois do gracioso Gute-Gute, Barriga Experimental de Repertório, Editora Autografia-RJ, e depois do revoltado Tibete-De quando você não quiser mais ser gente, Editora Jaguatirica, RJ, três romances de peso e agraciados por boas críticas literárias de renome, o escritor, ciberpoeta, ensaísta, crítico literário e então por isso mesmo romancista, Silas Correa Leite, de Itararé-SP, premiado em diversos concursos literários, lança finalmente o romance ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS, primeiro de uma trilogia. Este livro começou a ser escrito em 1998, terminado em 2015, e só agora finalmente lançado pela Sendas Editora do grupo Kotter Editorial de Curitiba-PR.

Como todos os livros diferenciados do autor, polêmicos, críticos, ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS não foge à regra e ao estilo de Silas Correa Leite vai nesse fulcro literário. Desta feita, entrando num campo por assim dizer místico, ele narra a história de um cidadão de Itararé, claro – “Canta a tua aldeia e serás eterno”, disse Leon Tolstoi – (e isso o Silas faz como primeiro expoente da chamada Literatura Itarareense), e narra sobre um cidadão pobre, renegado pelo pai empresário rico da cidade de origem, que depois de décadas de muitos trabalhos e estudos em SP, vence na vida, feito um new rich da chamada alta sociedade paulistana.  Menino sensível, camuflou seu lado sentidor, especial, para ganhar dinheiro. Ficando rico – e ninguém fica muito rico impunemente entre riquezas impunes e lucros injustos – o personagem (real, imaginário?), dr Paulo de Tarso Trigueiro um dia ao sair de um luxuoso jantar em point rico de área nobre da capital, tem uma visão que o alumbra.

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Poème | Zoubida Belkacem

Toujours prompt à s’immiscer
Entre le bon grain et l’ivraie
Cherchant à s’incruster
Faisant fi de toute civilité.

Toujours prompt à crier et vociférer
Haussant la voix, élevant le ton
Le doigt accusateur, les yeux exorbitants
N’admettant aucune contradiction
La colère gronde faute d’arguments.

Toujours prompt à eructer
La coupe pleine de sombres vérités
Le verre de vin au goût âpre et amer.
Les raisons de la colère éclatent
Chargés de doutes mortifères

Toujours prompt à s’indigner
Aussi fort que les mots qui résonnent
Aussi violent que les coups qui assomment
Un volcan sans cesse en ébullition
Crache sa lave d’extermination.

Toujours prompt à diminuer et blesser
Le petit oiseau qui essaye de voler
Le cri qu’il veut amplifier
Lui brisant ses petites ailes
Pour l’empêcher de s’échapper.

Zoubida Belkacem
Nice le 15 février 2019
Oeuvres protégées

Retirado do Facebook | Mural de Zoubida Belkacem

VÍCIO | Licínia Quitério

Tenho o vício dos teus olhos
das tuas mãos em tremura
da tua boca de seda
escaldante como o carvão
na minha lareira acesa.
Da tua voz registada
no meu ouvido profundo.
Tenho o vício de te ver
em memórias de veludo
nas sementes espalhadas
pelas flores que não cuidei.
Tenho o vício de sentir
as dores que não rejeitei.
Tenho o vício de cheirar
campos que não cultivei.
Tenho o vício de voltar
a caminhos que não pisei.
Tenho o vício de me rir
do choro que já chorei
e o vício da solidão
que me envolva de lembranças
das andanças que vivi.
Tenho o vício de escutar
segredos que me contaram
e aqueles que não contei.
Mais do que toda a virtude
é água pura a correr
o vício de te querer
sabendo que te não tenho.

Licínia Quitério, 2006

Retirado do Facebook | Mural de Licínia Quitério

Rainer-Maria Rilke | Pour écrire un seul vers

Pour écrire un seul vers, il faut avoir vu beaucoup de villes, d’hommes et de choses, il faut connaître les animaux, il faut sentir comment volent les oiseaux et savoir quel mouvement font les petites fleurs en s’ouvrant le matin.

Il faut pouvoir repenser à des chemins dans des régions inconnues, à des rencontres inattendues, à des départs que l’on voyait longtemps approcher, à des jours d’enfance dont le mystère ne s’est pas encore éclairci, à ses parents qu’il fallait qu’on froissât lorsqu’ils vous apportaient une joie et qu’on ne la comprenait pas ( c’était une joie faite pour un autre ), à des maladies d’enfance qui commençaient si singulièrement, par tant de profondes et graves transformations, à des jours passés dans des chambres calmes et contenues, à des matins au bord de la mer, à la mer elle-même, à des mers, à des nuits de voyage qui frémissaient très haut et volaient avec toutes les étoiles — et il ne suffit même pas de savoir penser à tout cela.

Il faut avoir des souvenirs de beaucoup de nuits d’amour, dont aucune ne ressemblait à l’autre, de cris de femmes hurlant en mal d’enfant, et de légères, de blanches, de dormantes accouchées qui se refermaient.

Il faut encore avoir été auprès de mourants, être resté assis auprès de morts, dans la chambre, avec la fenêtre ouverte et les bruits qui venaient par à-coups.

Et il ne suffit même pas d’avoir des souvenirs.

Il faut savoir les oublier quand ils sont nombreux, et il faut avoir la grande patience d’attendre qu’ils reviennent.

Car les souvenirs ne sont pas encore cela.

Ce n’est que lorsqu’ils deviennent en nous sang, regard, geste, lorsqu’ils n’ont plus de nom et ne se distinguent plus de nous, ce n’est qu’alors qu’il peut arriver qu’en une heure très rare, du milieu d’eux, se lève le premier mot d’un vers.

Rainer-Maria Rilke ( 1875-1926 )

Les Cahiers de Malte

La solitude | Rainer-Maria Rilke

La solitude est pareille à ces pluies

Qui montant de la mer s’avancent vers les soirs

Des plaines, elle va lointaine et perdue

Au ciel qui la contient toujours

Et c’est du ciel qu’elle retombe sur la ville.

La solitude pleut aux heures indécises

Lorsque vers le matin se tourne vers une heure

Lorsque les corps épuisés de méprise

S’entre-écartent, tristes et inassouvis

Et que les hommes qui se haïssent doivent coucher ensemble dans un lit

La solitude alors dérive au fil des fleuves.

Efemérides Cariocas | Para se conhecer a história do Rio de Janeiro de Neusa Fernandes e Olinio Gomes P. Coelho | por Adelto Gonçalves

                                                          I
O jornalista Elio Gaspari, autor de cinco inolvidáveis livros sobre o regime militar (1964-1985), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, dia 30 de janeiro de 2019, observou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso gosta de relembrar uma cena na qual o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) discutia o tamanho de algumas figuras do Império e ensinou: “Doutora, eles eram atrasados. Nós não temos conservadores no Brasil. Nós temos gente atrasada”. Em seguida, o jornalista fez uma relação sucinta de males causados ao Brasil e à população brasileira por atitudes e decisões tomadas por gente despreparada e inculta, ou seja, “atrasada”, que chegou ao poder tanto pela força das armas como por acordo entre elites ou pelo voto popular.
Para ter uma ideia dos males que esse tipo de “gente atrasada” já causou à cidade do Rio de Janeiro, o antigo Distrito Federal, o leitor não pode deixar de ler EfeméridesCariocas (Rio de Janeiro, edição dos autores, 2016), dos historiadores Neusa Fernandes e Olinio Gomes P.  Coelho.  Ali pode constatar um dos maiores atentados à inteligência e à cultura nacional que foi a demolição a 5 de janeiro de 1976 do Palácio Monroe, projetado para representar o Brasil na Exposição Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos, e inaugurado em 30 de abril de 1904.

O edifício abrigou o Ministério de Viação e Obras Públicas, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, a partir de 1915, até a sua mudança para Brasília, em 1960. Apesar dos protestos da população e de entidades ligadas à engenharia e à arquitetura, o ditador da época, Ernesto Geisel (1907-1996), determinou ao ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen (1935-1997), a demolição do palácio, sem quaisquer justificativas técnicas e culturais. O local seria revitalizado com a instalação de um antigo chafariz da cidade e a construção de uma garagem subterrânea (p.24-25).

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TO FUCK, OR NOT TO FUCK: THAT’S THE QUESTION ! | Eugénio Lisboa

“O ratio literacia/iliteracia é constante, mas, 
nos nossos dias, os iletrados sabem ler e escrever”. 
(Alberto Moravia)

Peço, desde já, que me perdoem o tom desenfastiado desta prosa, a começar pelo título: paráfrase libertina de um solilóquio célebre. Vou usar, como verão, vocábulos desataviados ou mesmo crus: o culpado disto tudo é o escritor António Lobo Antunes que, numa entrevista recente – das muitas que ele não gosta de dar mas vai dando – sugeriu o mote, ao afirmar o seguinte, referindo-se a Fernando Pessoa: “Eu me pergunto se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.”

Não é a primeira vez que o autor de Memória de Elefante nos serve este mimo. Provavelmente, ao tê-la, gostou tanto da ideia, que não se cansa de no-la servir, faça chuva ou faça sol. Reajo a ela, não tanto pela crueza vicentina do tom (e do glossário), como pelo facto de me não parecer cientificamente sustentável.

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pieds nus | Zoubida Belkacem

Que nous soyons pieds nus, pauvres et insouciants
Dans la misère absolue ou en haillons
Nous serons toujours ces gamins heureux
Qui se suffisent d’un petit partage merveilleux
Dans un moment de grâce mielleux

Que nous soyons ces enfants oubliés
Habitants les bourgs et villages isolés
Sans accès, sans routes goudronnées,
Ni bus pour nous transporter
On garde enfoui en nous, innocence et vivacité.

Que nous soyons privés d’écoles à proximité
De chauffage et d’électricité
Sans loisirs pour nous divertir
Ni même de vêtements dignes pour nous vêtir.
Nous sommes toujours partant
Pour cueillir le bonheur , en un instant

Que nous soyons ces gamins indigents
Sans tablettes ni portables apparents
Nous gardons toujours dans nos yeux, ces constellations.
Cette euphorie que nous partageons.
Des enfants ni désoeuvrés, ni affamés
Nous voulons juste , de rêves d’évasions , nous enivrer.

Que nous soyons ces mômes marginalisés
Qu’on montre du doigt et qu’on n’ose à peine regarder.
Ces gamins libres et insoumis
Bouillonnant de vigueur et de vie
Portant toute l’innocence inassouvie.

Jeunesse souriante, jeunesse palpitante
Prendre un selfi, a l’aide d’une chaussure
L’espace d’un moment
Quelques instants volés au temps
Qui donnent l’impression, de vivre éternellement.

Zoubida Belkacem
Constantine le 03/02/2019
Oeuvres déposées

Retirado do Facebook | Mural de Zoubida Belkacem

UM POEMA DE SAFO DE LESBOS | O HOMEM QUE SE SENTA A TEU LADO | CASIMIRO DE BRITO

O homem que se senta a teu lado

E ouve de perto a tua voz tão doce

O riso que se infiltra no meu coração

Invejo esse homem como se fosse um deus

Pois só de vê-lo a fala me falta

A língua me seca na boca e os olhos

Me ficam cegos e surdos os ouvidos

O suor aninha-se na pele e o corpo

Todo me treme e já desfaleço e verde

Como as ervas fico e nem sequer respiro

Poderei eu viver com tal calamidade?

 

DEDICADO A UMA QUERIDA AMIGA MINHA | Casimiro de Brito

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito

Poema em forma de prosa | Maria Isabel Fidalgo

nesta manhã de sol, a intensidade da luz é um oboé de esperança. sopro e ocorrem-me primaveras intensas, tanta a beleza do verde ao longe. a noite, em marés de receios é um apeadeiro de desgraças. hoje canto o dia e o mistério da claridade a sacudir os sentidos. sagrado este brilho onde o coração dos pássaros se ergue alto.
hoje celebro o dia, a manhã clara para planar numa colina de sonho onde haja futuro para os nossos voos.
depois sorrimos. és tão depressa quando me fazes sorrir depois da noite.

Garças | Lídia Borges | novo livro de poemas

No próximo dia 26 de Janeiro de 2019, pelas 15h30, na biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, vem à luz um novo livro de poemas.
Com um percurso em crescendo, e uma poesia apurada e depurada em imagens do mais puro lirismo,intimista, de raízes telúricas e afetivas, onde o mundo é absorvido na esfera do belo e do inteiro, Lídia Borges/Olívia Marques, traz-nos, agora, as ” Garças”.
A apresentação será feita por Isabel Cristina Mateus.

(…) Ao entrar na cozinha nesta manhã tão antiga
são as cerejas, o pão, o leite
a manteiga, a voz da avó
a trazer ao céu da minha boca
o sabor do amor mais pleno que senti. (…)

Este lançamento coincide com a reedição da obra “Sementes Daqui”, vencedora do Prémio Literário Maria Ondina Braga 2013 (1ª edição Novembro de 2013).

Vinte Poemas de Amor e Uma Crônica Desesperada | Valdeck Almeida de Jesus

Sinopse: O poeta Valdeck Almeida escreveu vinte textos poéticos e uma crônica, os quais refletem um amor não realizado por uma pessoa conhecida através de cartas e outra através de redes sociais. Ambas são do Triângulo Mineiro, e nenhuma das duas foram encontradas pessoalmente, nesse trânsito que durou mais de trinta anos. O livro foi traduzido ao espanhol, com ilustrações de Zezé Olukemi.

Interessados podem clicar nesse link e baixar gratuitamente:
Para Valdeck “esta é uma oportunidade de circular por lugares não acessíveis e ter a sensação de poder fazer parte do imaginário de leitores de todos os cantos, além de ser uma alternativa para escritores iniciantes e/ou veteranos para democratizar sua produção literária”.

O Livro do Império | João Morgado

Um manuscrito resgatado pela Inquisição para redenção de Portugal.

«Portugal tem um império em declínio, com um rei destemido, mas influenciado por uma nobreza e um clero corruptos. Omnipotente, a Inquisição não hesita em prender, matar e destruir as mentes e as obras mais brilhantes.

No país vizinho, observam a decadência de Portugal, jogam com o poder e o apoio dos jesuítas, e mantêm a esperança de voltar a dominar toda a península.

Mas eis que um trota-mundos sem eira nem beira, apesar de uma vida de prisões, putaria e inimigos poderosos, decide cantar as glórias desse povo num poema épico que lembra todos “aqueles, que por obras valerosas” se foram da “lei da morte libertando”. Mas ao cantar uma estirpe de homens que se igualara a deuses, por contraste compunha também um libelo acusatório contra a depravação vigente. Como foi possível que el-rei e o Santo Ofício tenham deixado publicar esta obra?

Livro do Império narra a vida de um poeta arrependido e a história de Portugal em vésperas da batalha de Alcácer-Quibir.»

JL Jornal de Letras “Glória, Decadência, Redenção”, por Miguel Real (19.12.2018)

“Se um Eça do nosso tempo se atrevesse a perguntar a João Morgado – Filho, tu estavas lá? – teria rigorosa resposta – Sim, estive lá. Porque a expressão aliciante da sua prosa consegue despertar a convicção de que o autor estava efectivamente esteve lá, e tudo o que diz tem igual autoridade à dos documentos que lhe permitem enriquecer a crónica dos acontecimentos, que recria e medita com a minúcia do seu espírito criador”,

Prof. Adriano Moreira Apresentação da obra, 17.DEZ.18

“Após séculos de mal-entendidos, «O Livro do Império» vem, por fim, reconciliar um Camões humanizado com o público leitor”, numa obra que “pela sua argúcia analítica, pela cultura da época, riqueza da linguagem e ritmo narrativo, consagra João Morgado como um escritor de referência no romance histórico e na literatura portuguesa.”

F. Delfim dos Santos, Universidade Nova. Apresentação da Obra, FNAC Chiado, 17.DEZ.18

Os Lusíadas, (Canto IX, 83) | Luis Vaz de Camões

Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Os Lusíadas, (Canto IX, 83)

Luis Vaz de Camões

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente 
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte     violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas     portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida     há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

MÁRIO CESARINY

Poema | Licínia Quitério

Há homens que atravessam a rua
sem olhar
Levam nos ombros pedaços da noite
e não há cor que os vista
São homens cinzentos 
indiferentes ao sol ou à borrasca
Quem os vê diz
ali vão os homens tristes
mas nem eles sabem o tamanho
da tristeza ou da improvável alegria
O chão da rua conhece
a cadência incerta
a leveza ausente
dos passos destes homens
Há quem lhes chame homens de bruma
porque vagos são
os seus contornos
Virá uma manhã sem homens tristes
Ninguém perguntará
para onde foram
Alguém escreverá a sua história
no livro branco
do esquecimento
A rua permanece

Licínia Quitério

Lancement du Prix littéraire francophone régional : «Le Choix Goncourt de l’Algérie» | in “alifa” le magazine de l’art et de la culture

Le Choix Goncourt de l’Algérie est un prix créé par l’Académie Goncourt et porté par l’ambassade de France et l’Institut français Algérie.

L’Institut français d’Algérie a obtenu cette année la création d’un prix littéraire spécifique, parrainé par l’Académie Goncourt : «Le Choix Goncourt de l’Algérie». Organisé seulement dans une douzaine de pays à travers le monde, le Choix Goncourt sera décerné pour la première fois en 2019 en Algérie. Cette première édition est donc un événement.

Dans chaque ville où l’Institut français d’Algérie est présent (Alger- Annaba – Constantine – Oran – Tlemcen), des jurys composés d’étudiants, de lycéens et d’adhérents aux médiathèques des cinq instituts français voteront pour désigner leur lauréat. Ce dernier sera choisi parmi les huit ouvrages francophones présélectionnés en 2018 par l’Académie Goncourt, en vue de l’attribution de son célèbre prix.

La proclamation du prix «Le Choix Goncourt de l’Algérie» aura lieu en mars 2019, à l’occasion de la Semaine de la langue française et de la francophonie, en présence des présidents des différents jurys. L’écrivain(e), dont le roman aura été choisi, sera invité(e) à parrainer l’édition suivante.

Pour en savoir plus : www.academiegoncourt.com/choix-goncourt-algerie.

Contact presse : meliza.beghdad@diplomatie.gouv.fr

https://www.alifa-dz.com/lancement-du-prix-litteraire-francophone-regional-le-choix-goncourt-de-lalgerie/

Se eu morrer | Maria Isabel Fidalgo

Se eu morrer grita aos céus que foi por ti. vela o meu rosto com um leque de seda e encosta-o ao teu bafo quente para que o frio não me quebre. ficarei assim um pouco mais de tempo sobre o mundo num agasalho de hálito perfumado. não me despenteies. olha-me como no primeiro momento em que me cegaste com os ponteiros do olhar e talvez eu acorde para uma última despedida. pega no meu corpo inerte como num lenço de vidro e pousa-o sobre o mar no travesseiro das ondas onde o teu busca a liquidez no verão. escreve no azul – amo-te- e sorrir-te-ei em cada braçada de água como um verso que se desnuda quando se diz amor pela primeira vez.

mif

Casimiro de Brito | Fragmento 3454 | LIVRO DE EROS

“Era como se as nossas cerimónias de amor fossem um quarteto de cordas (a mais perfeita das formas musicais) e tivessem quatro andamentos brilhantemente improvisados:
um, “lento assai, cantate e tranquillo”, em que as nossas ondulações empreendiam a bela iniciação da respirar e aspirar o outro, o seu corpo todo;
um “andante cantabile”, em que ela subitamente se inclinava sobre o meu corpo deitado e lambia e moldava o meu sexo detendo-se apenas quando ele já se transformava em mármore exactamente ao mesmo tempo que os meus dedos ligeiramente ensalivados tocavam no seu clítoris e se sentiam subitamente dulcificados sob uma ainda frágil cascata;
seguia-se depois a penetração, o “allegro vivace”, com ela quase sempre por cima de mim, cavalgando-me, e assim o prazer era cada vez mais profundo e duas vezes fogoso;
e, por fim, depois do grande orgasmo dela (o meu sabia retê-lo e deixava-o para os seus seios ou para a sua boca) — ó como se contraíam e vibravam todos os nossos músculos —, “o adagio ma non troppo e molto expressivo”, em que ela se deitava e abria as pernas e colocava os pés no meu peito ou nos meus ombros e eu sugava todos aqueles delicados odores, a sua ambrósia, os seus sucos tão delicados que não apenas os conservava na boca como os derramava na boca dela, e assim ficávamos irradiados pelos corpos que, deste modo, o meu estendido sobre o dela, abraçados, pareciam um só animal terroso e sagrado. Depois gemíamos e ríamos e chorávamos até adormecer.”

Casimiro de Brito
Fragmento 3454
LIVRO DE EROS

Retirado do Facebook | Mural de Sónia Soares Coelho

Autismo | Valério Romão

ROMANCE FINALISTA DO PRÊMIO FEMINA (França, 2016)

“Uma obra maior.” — Le Figaro

“Eu acho que o Henrique é
Faltava só uma palavra, era o parto ao contrário, já tinha saído o corpo todo e faltava unicamente a cabeça da frase, o cérebro da frase, o complemento que dava o significado integral à frase e Rogério, como um carro que desaprendesse de arrancar à primeira, soluçava num martírio solitário as sílabas […], e Marta, do seu lado, esperava pelo fim da frase com os pés bem calcados no soalho do carro, com as mãos a agarrarem os estofos com a força possível, com todo o corpo eriçado como um gato a quem quisessem tirar da caixa no veterinário.
O Henrique, Marta, eu acho que ele é autista.”

“Um livro tremendo, brutal de tão honesto, sobre um casal que descobre no filho os sinais de uma doença que o isola do mundo e do afeto dos pais. Autismo revela um escritor capaz de tocar nas feridas humanas mais fundas.”
—Expresso

“Romão vai diretamente à jugular. Um livro impiedoso, que impressiona pela proximidade entre enredo e biografia. O autor pode estar a exorcizar os seus fantasmas, mas fá-lo com uma capacidade única de meter o leitor dentro da sua casa assombrada.”
—Time Out

Eu, Guilhermina | Ou a Verdadeira História das Mães de Bragança | Jorge Monteiro Alves

Esta estória baseia-se numa série de acontecimentos extraordinários registados em Bragança no Outono de 2003. Contudo, qualquer semelhança entre ficção e realidade será pura coincidência.

Dedicado a todas as nordestinas, de um e do outro lado do Atlântico

A estória da nordestina Guilhermina e do seu marido Quitério, tentado por fragâncias de amores-perfeitos que depressa murcharam, ou como um homem com uma rica vidinha estraga tudo por um par de mamas.

Santo Amaro de Oeiras

Jorge Monteiro Alves é natural do Porto, desse Norte onde não corre sangue lusitano nem magrebino, mas sim suevo, vândalo e godo, e onde as gentes parecem paridas do granito que cobre a terra. Talvez por isso não haja vento que as dobre. Ali, muito cedo aprende-se com as árvores – antes quebrar que torcer. E também elas gostam de morrer de pé. Partilham um sonho desde crianças: ver o Benfica na 2ª divisão. Ainda não o concretizaram. Mas não perderam a esperança.

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I – A velha apontou o dedo indicador na sua direcção e os olhos fizeram um esgar trocista, assim como a boca, coberta de dentes podres. Que podia ela fazer, pobre cega, contra poções de raízes de amor-perfeito, restantes ervas do demónio e macumbas com água suja das partes? Nada! O feitiço era demasiado poderoso. Mas que não perdesse a esperança, que vinha aí luz por entre nuvens escuras! Guilhermina, chorosa, ainda se atreveu a perguntar àquela bruxa medonha, coberta de rugas e de um xaile negro, se não havia mesmo forma de matar a vadia. A curandeira soltou um grunhido de protesto e fez um gesto brusco com a mão esquerda, como se afastasse maus espíritos ou a mandasse embora. Na dúvida, foi isto que fez. Não sem antes largar uma nota no imundo copo de plástico verde que servia de ornamento único à mesa comida pelos ratos.
Guilhermina saiu do casebre para a rua com alívio, liberta do cheiro a mofo, olhos de morcego e rabos de lagartixa. Má ideia tivera a comadre Otília em recomendar-lhe aquela ida à Benfazeja. E lá se tinham ido 50 euros naquela história! Mais do que não arranjar forma de matar a outra, o que lhe doía mesmo era ter largado tal quantia. E em troca de quê? De nada, pois então, que é igual a coisa nenhuma! Ela sabia lá quando vinha a luz ou que história era aquela das nuvens escuras! Quais esperanças, qual carapuça! Certo, mas certinho mesmo, era que o dinheiro se estava a ir. E mais depressa do que um balão furado perdia o ar.
Cumprimentou à direita e à esquerda. Olá, Guilhermina, olá! Onde vais a esta hora? Tu, por aqui? Ora bons olhos te vejam, rapariga! E ela estugava o passo, respondendo ao acaso e fugindo a todas. Atravessou meia Bragança cosida com as paredes das casas, como se fugisse do sol daquela manhã de Outono. Passou pelo cabeleireiro, cheiinho de vadias a tresandarem àquele perfume, de esplanadas com moças bonitas de perna traçada que falavam alto. E decerto dela. E assim passava de cabeça baixa, envergonhada, quase a medo. Estava certa, chegada que estava às portas da Igreja de Santa Clara, que todas a apontavam agora a dedo. Correu os últimos metros que a separavam do portão de casa, que abriu com dedos trémulos.

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AMOS OZ | Já viu um fanático com sentido de humor? | ENTREVISTA POR ISABEL LUCAS EM 11 DE OUTUBRO DE 2018 | in Jornal Público

Amos Oz, 79 anos, morreu esta sexta-feira (28-12-2018), vítima de cancro, anunciou a sua filha, a historiadora Fania Oz-Salzberger. “Ele morreu… agora mesmo, após rápida deterioração, durante o sono e em paz e rodeado pelos seus entes queridos.”

Nascido em 1939, tinha quase mais nove anos do que o Estado de Israel e conhecia como poucos esse território tão disputado pelos homens em nome de Deus. Lutou até ao fim pela paz nesse lugar. É que o tal território não foi apenas o centro da sua vida, mas também o de toda a sua literatura.

Mesmo que politicamente zangado, amargo ou só, Amos Oz continua a lutar pela sua ideia de Israel e de civilização. Caros Fanáticos é uma carta endereçada a todos, porque esse é um gene universal e deve ser combatido com antídotos como a imaginação, a curiosidade ou humor.

ENTREVISTA POR ISABEL LUCAS EM 11 DE OUTUBRO DE 2018

O fanatismo, escreve Amos Oz, “é a essência perene da natureza humana, o ‘gene mau’.” Atribuí-lo a uma civilização, a um povo, a uma religião é contribuir para propagar o gene e criar políticas de ódio identitário. Num momento em que se assiste ao exacerbar do fanatismo, o escritor israelita, várias vezes mencionado como um candidato ao Nobel, reflecte sobre fé, fanatismo e os desafios de viver em conjunto no século XXI num volume que reúne três ensaios breves e incisivos. Publicado em 2017 em Israel, Caros Fanáticos traz três reflexões. De 2002, 2014 e de 2015. Oz reviu e actualizou cada uma e o resultado é um acutilante olhar para o presente do mundo, com um foco nas questões judaicas e do Estado de Israel de que tem sido um crítico atento. Uma conversa com um homem de voz calma que começou por falar de Maio deste ano, um mês que não consta deste livro e que alterou equilíbrios políticos. Foi quando os EUA mudaram a sua embaixada para Jerusalém. É de Amos Oz a primeira frase desta conversa: “O problema não é se Jerusalém é ou não a capital da Israel. O problema é como é que a outra metade de Jerusalém pode ser a capital da Palestina no futuro.”

Em Israel, como em muitos, muitos outros países, o fundamentalismo e o fanatismo estão em ascensão. As pessoas estão a tornar-se mais nacionalistas, mais chauvinistas, mais egoístas e de visão estreita, e a destilar mais ódio em relação aos estranhos, os estrangeiros. Isto está a acontecer na Europa Ocidental, na Europa do leste, Estados Unidos, na Rússia, em Israel e em muitos outros países do Médio Oriente. Preocupa-me, porque acho que se nos afastarmos dos princípios fundamentais do humanismo estabelecidos depois da II Guerra Mundial, estaremos muito depressa a viver um inferno. Os problemas estão a tornar-se mais complicados e muitas pessoas procuram respostas muito simples; procuram respostas de uma frase, capazes de pôr tudo na ordem; frases que nos digam quem são os maus, quem são os inimigos, quem são os perigosos. Acham que se souberem isso o paraíso pode vir.

É também por isso que fala de uma infantilização da sociedade?
Sim, a infantilização tem que ver com o facto de muitos milhões de pessoas acreditarem que a vida deve ser um entretenimento e que a política é um jogo divertido e a essência da vida passa por fazer compras.

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Quem foi Jesus? | Frederico Lourenço

Quem foi o homem cujo nascimento hoje celebramos? Desde o século XIX, o estudo crítico do Novo Testamento e do primeiro cristianismo tem tentado reconstituir quem terá sido o «Jesus histórico». Em que ponto estamos desta investigação? Vou dar-vos uma proposta de biografia do Jesus real.

Jesus nasceu em Nazaré, na fase final do reinado de Herodes, o Grande (rei que morreu em 4 a.C.). Era filho de um construtor chamado José e da sua mulher, Maria. Jesus era o mais velho de vários irmãos e irmãs. Em casa, falava-se aramaico; mas Jesus beneficiou do facto de Nazaré estar perto de cidades gregas, como Séforis, cuja distância de Nazaré corresponde à que medeia, na nossa cidade do Porto, entre o Estádio do Dragão e a rotunda da Boavista. Em toda a volta de Nazaré, falava-se grego. De Gádara, uma das dez cidades gregas da zona, era originário o maior poeta grego do século I a.C., Meleagro. A helénica Séforis tinha um teatro; e Jesus sabia o que era o conceito grego de «actor», pois usou a palavra grega «hipócrita» numa acepção sem qualquer equivalente no aramaico falado em casa ou no hebraico da Escritura.

Jesus recebeu uma educação judaica baseada nessa Escritura e foi certamente o rapaz intelectualmente sobredotado de que vemos reflexo em Lucas 2:47. As pessoas não lhe chamaram «mestre» à toa.

Nos anos 20 do século I, Jesus contactou com o movimento de João Baptista, que apelava aos israelitas que «mudassem de mentalidade» e que, por meio do baptismo no rio Jordão, obtivessem o cadastro limpo perante Deus que, oficialmente, só podia ser obtido por meio do sacrifício de animais no templo. João Baptista atraiu a má vontade da elite sacerdotal de Jerusalém; o mesmo aconteceria com Jesus.

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Simone de Beauvoir | O Segundo Sexo | volume I

É por ela (mulher), através do que nela há de pior e de melhor, que o homem faz a aprendizagem da felicidade, do sofrimento, do vício, da virtude, do desejo, da renúncia, do devotamento, da tiranias, que faz a aprendizagem de si mesmo; ela é o jogo e a aventura, mas também a provação; é o triunfo da vitória e o mais áspero, do malogro superado; é a vertigem da perda, o fascínio da danação, da morte. Há todo um mundo de significações que só existem pela mulher; ela é a substância das acções e dos sentimentos dos homens, a encarnação de todos os valores que solicitam libertação. Compreende-se que, embora condenado aos mais cruéis desmentidos, o homem não deseje renunciar a um sonho no qual todos os seus sonhos estão envolvidos.

Eis, portanto, por que a mulher tem um duplo e decepcionante aspecto: ela é tudo a que o homem aspira e tudo o que não alcança. Ela é a sábia mediadora entre a Natureza propícia e o homem: é a tentação da Natureza indomada contra toda a sabedoria. Do bem ao mal, ela encarna carnalmente todos os valores morais e os seus contrários; é a substância da acção e o que se lhe opõe, o domínio do homem sobre o mundo e o seu malogro; como tal, é a fonte de toda a reflexão do homem sobre a própria existência e de toda a expressão que possa dar-lhe;  entretanto, ela esforça-se por desviá-lo de si mesmo, por fazê-lo soçobrar no silêncio e na morte. Serva e companheira, ele espera que ela seja também seu público e juiz, que o confirme no seu ser; mas ela contesta-o com a sua indiferença, e até com os seus sarcasmos e risos. Ele projecta nela o que deseja e o que teme, o que ama e o que detesta. E se é tão difícil dizer algo a seu respeito é porque o homem se procura inteiramente nela e ela é tudo. Só que é tudo à maneira do não-essencial: é todo o Outro. Enquanto Outro, ela é também outra e não ela mesma, outra e não o que dela é esperado. Sendo tudo, nunca é isso justamente que deveria ser; é perpétua decepção, a pópria decepção da existência que nunca consegue atingir-se nem reconciliar-se com a totalidade dos existentes.

Simone de Beauvoir

História de um muro branco e de uma neve | José Saramago

Não haveria nada mais fácil no mundo das histórias que escrever um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o caso de que uma criança que nasce está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral andamos das infâncias que vivemos, foi pensar que as crianças nascem uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de que o tempo passe e as transforme em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie diferente de seres humanos. A criança começa por nascer uma vez, que é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo: não tem outro remédio nem há outra maneira. Como se verá pelas duas breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras.

A terra, àquela hora, cobria-se de uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa da sua primeira cheia de Inverno, os charcos são de mercúrio. O ar está frio, parado, e estala quando respiramos, como se nele se suspendesse uma ténue rede de cristais de gelo. Há uma casa e luz lá dentro. E gente: a Família. Na lareira ardem grossos troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando à fogueira se lhes juntam gravetos, ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina os rostos da família e logo volta a quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas redondas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro.

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Querida Mãe Natal | Maria Isabel Fidalgo

Querida Mãe Natal

aí onde estás, não entre as renas,
mas vestida de estrelas soalheiras,
espaço estelar onde o espírito cintila
nas palavras que me inspiras,
faz-me ser, se possível for essa proeza,
ser eu, cada vez mais, a filha tua,
à altura da pessoa do teu nome
e no amor lavado com que me vestias
no dia a dia, que por o ser,
era sempre Ano Novo.
não deixes esmorecer a tua Bela
para ti, sempre vela natural,
e incendeia de chama, brasa,
luz de ti,
a braseira da minha alma de natal.

Carta escrita à minha mãe, depois da sua travessia, em noite de consoada…
maria isabel fidalgo

Zoubida Belkacem

Dis moi si c’est toi
Qui brille là-haut, de mille éclats
Qui éclaire cette obscurité qui m’entoure
Depuis ce jour fatidique, où tu m’as quitté sans retour.

Dis moi si c’est toi
Qui hante mes nuits, bercées du son de ta voix
Remplie de ton visage qui se rappelle à moi.
Te souviens-tu de ces nombreuses fois ?
Guidés par nos espérances de foi

Dis moi si c’est toi
Qui m’inssuffle la vie
Qui me fais battre ce cœur qui ne bat plus.
Tu ne franchira plus le seuil de la porte
Depuis ce jour tragique où tu es morte

Dis moi si c’est toi
Qui me fais pousser des ailes
Pour défier cette vie éternelle
Je te retrouve partout où je suis
Même si j’ai l’impression que tu me fuis

Dis moi si c’est toi
Qui chante encore des berceuses pour nos enfants
D’une voix céleste, même si maintenant, ils sont grands.
Tu remplies encore de ta chaleur, notre maison
Depuis ton départ, depuis notre séparation.

Je continu à croire que tu es toujours là
Que tu demeure encore à cet endroit
Ta présence illumine les lieux
Les jours s’égrènent comme les feuilles mortes.
Même si je me surprends à t’attendre encore au pas de la porte.

Zoubida Belkacem
Droits protégés
Constantine 19/12/2018

Pela frente ou por trás? | Manuel S. Fonseca in “A Página Negra”

(…) mas umas costas nuas! Nada se com­para ao ves­tido de finas alças nos ombros, estuá­rio aberto que se vem fechar sobre as cinco fun­di­das vér­te­bras do sacro – incom­pa­rá­vel é a geo­gra­fia de umas cos­tas nuas. (…)

(…) se há prazer que merece ser celebrado, é o das costas nuas. À frente, há uma planície venu­si­ana, certo? Mas atrás! Espa­ços aber­tos, duas rasas margens de um vale com um rio de vértebras ao meio. Ebúrneas e delicadas, castanhas e bronzeadas, de acetinado ébano, cantemos, de uma mulher, e logo desta mulher, as costas nuas. (…)

(…) Mas as cos­tas nuas! As cos­tas nuas pedem a didác­tica tensão de um Oví­dio, a per­sis­tên­cia do lento apren­diz de uma “Ars Amatoria”. (…)

Manuel S. Fonseca

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Pela frente ou por trás?

Fragmentos da Alma | Cristiane Miranda, Yunara Chita e Alicia Neto | Edições Burity | Lançamento em Fevereiro de 2019

Ser criança ainda, neste caso adolescentes, decidiram partir para a aventura de escrever, sonhando como se sonha nessa idade, esgrimindo sonhos ingénuos e fantasias deliciosas como só sente quem nas suas idades se encontra, desenham com palavras tudo isso, poemas muito bem desenvolvidos para a tenra idade que ainda possuem, mas, dando já indicadores do que as poderá esperar: “poetas de alma cheia!”. No decorrer dos cerca de 52 poemas encontra-se a afinidade com a poesia no seu mais estrito sentido. Poemas profundos e sentidos como de facto a poesia nos ensina, que nos levam em viagens e sonhos, delírios e passeios na verdade que a vida nos dispõe vivenciar. Demonstram ainda e muito cedo, a dor de se amar e também o quanto é belo o amor. São três meninas, que juntas, partem para um livro que certamente lhes ficará na memória, o orgulho dos pais e dos amigos, e acima de tudo, dos leitores, que irão encontrar neste livro como se pode, desde que a arte de escrever já nos começa a “incomodar”, a coragem de as explanar num livro aberto a todos os leitores do país e do mundo.

Felicidades promissoras escritoras!

Vítor Burity da Silva

Uma Lágrima que Cega | Casimiro de Brito | Apresentação, sábado, 15-12-2018, 18 horas na Livraria Férin, Lisboa

Amanhã, sábado, será apresentado às 18 horas na Livraria Férin (junto da Fnac-Chiado) o meu novo romance “Uma Lágrima que Cega”. O prazer que vou ter em encontrar alguns dos meus amigos daqui… Venham. Ofereço-vos um fragmento do meu romance:

O que queres fazer? Onde queres jantar? Italiano, francês, cipriota? O que queres que eu faça? Saímos? Ficamos em casa? Na cama? Precisas de alguma coisa? Pouco de pouco me basta e ela, que tanto é, mais ainda me quer dar, destinar. Atenta aos meus desejos mais velados, a ler-me, a tocar piano, a escutar-me, a desejar conceder-me o que desejo, se desejo alguma coisa, que nada peço, que me deixo somente ir na onda, enfim, pouco mais que nada. O teu nada é quase tudo, dizia-me Tessa, há vinte anos. Pesa. Hoje, ainda na cama, perguntei-lhe se ainda tocava. Líamos, vagueavamos no corpo do outro. E logo se levantou, nua e fresca, levou-me pela mão para a sala de música, sentou-se ao piano, um Bösendorfer de 1975, exactamente da sua idade e perguntou-me, Queres escolher? e meteu- me nas mãos um caderno com partituras de Mozart.

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CITAÇÕES | in DICIONÁRIO SENTIMENTAL DO ADULTÉRIO | by FILIPA MELO

1) – A fantasia, motor da infidelidade, ocupa-se em tornar-nos criativos. A imaginação estimula a mentira, que, quando bem-sucedida, nos  dá liberdades inimagináveis. Mentir é descobrir opções. O segredo faz o resto. No adultério, as variações de nós mesmos são infinitas.

2) – Os homens casam-se por cansaço. As mulheres, por curiosidade. Ambos se desiludem.

Lord Henry, em O Retrato de Dorian Gray, 1890.

3) – Nada mais glorioso do que a devoção de uma mulher casada – o que o homem casado desconhece completamente.

Cecil Graham, em O Leque de Lady Windermere, 1892.

in DICIONÁRIO SENTIMENTAL DO ADULTÉRIO | FILIPA MELO, autora