UM FRAGMENTO DO MEU “LIVRO DE EROS” E UMA IMAGEM DE EDGAR DEGAS | Casimiro de Brito

Uma das mulheres que melhor me amou nunca a vi à luz do dia. Nem à luz de velas. Entrava no quarto (de um pequeno hotel) à noite, com a luz apagada, com todas as persianas cerradas, e com a luz apagada saía. Assim tínhamos combinado. Costumava dizer-me, como no mito, Nunca deverás olhar-me, se precisares de luz para me ver é porque és cego ou não tenho em mim luz bastante. Tinha. Um corpo perfeito, uma voz alcalina, uma arte indizível ou talvez só essa cantada pelos poetas do amor. “Não podes saber quem sou, nem sequer se te amo.” Amava-me, isso sim, amava-me porque fazia o que fazia com arte e entusiasmo, fundidos com fervor crescente um no outro. Nunca acendi a luz. Aceitei a desigualdade, e penso que só com ela a aceitei: sentindo que, ela, conhecendo-me embora o rosto e o percurso, também desejava desvendar os meus mistérios. Um dia senti que me estava a apaixonar por ela, e disse-lhe. Foi o fim. Disse-me apenas, “Isso seria a nossa desgraça. Vou partir.” E partiu, essa que devia ser a mulher de algum dos meus amigos. Nunca quis saber, nunca procurei saber nada, e talvez agora me leias. Mas conheci de ti fontes que outros não poderão conhecer — porque nesses momentos tu eras uma-comigo, a tua humidade derramava-se em mim, numa dor única e feliz e sei que nunca ninguém te amará como eu te amei. Nem imaginas o que eu daria, não para ver o teu rosto, não para saber quem és, mas para me sentir novamente afogado nas tuas fontes loucas, que nunca mais esquecerei. Onde estarás? O que sentirás quando passas por mim e não te vejo? O que sentirás quando leres isto? Talvez me telefones de novo.

Casimiro de Brito

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito

DIÁLOGO REVOLUCIONÁRIO | Fernando Gomes

— Bom dia, cavalheiro. Em que lhe posso ser útil?
— Bom dia. É aqui que vendem revoluções?
— É sim. De que tipo deseja?
— Olhe, nem sei bem como escolher.
— Bom, há quem as escolha por século, por ano, por mês…
— Muito bem. Pode ser uma de Outubro. É que o Outono é a minha estação favorita.
— Temos duas dessas. Prefere Republicana ou Vermelha?
— Qual é a diferença entre elas?
— A diferença geográfica é cerca de quatro mil e quinhentos quilómetros. A temporal é de sete anos e vinte dias.
— Estava a pensar na diferença de preço.
— Que importa isso, caro senhor? Uma revolução bem feita não tem preço.
— Já vi que conhece bem o produto que vende.
— Assim é, cavalheiro. Sou um profissional, e as nossas revoluções são de primeiríssima qualidade.
— Acho que vou levar uma vermelha, como os cravos. A minha mulher gosta de cravos.
— Aconselho-o, então, a levar uma de Abril e não de Outubro. Pode não ser boa ideia contrariar a sua mulher num assunto destes.
— Pois é… Se calhar é melhor não ligar ao mês e escolher baseado noutras características.
— Talvez queira ver por estilo. Temos a Liberal…
— Sou mais para o conservador, sabe…
— Deixe que lhe diga, cavalheiro, que é a primeira vez que tenho na loja um conservador a pedir uma revolução.
— Admito que tenho uma alma cheia de contradições…
— Quem não tem? Compreendo-o perfeitamente. Talvez precise de uma revolução interior.
— Não, obrigado. Sinto-me bem como sou.
— E que tal estilos menos agressivos? Temos, por exemplo, a Industrial…
— Hum… Tem ar de ser muito pesada.
— Nesse caso, porque não opta por algo mais leve como uma simples revolta?
— Isso não! Comigo é tudo a sério. Quero mesmo uma revolução. E à grande.
— Talvez o cavalheiro prefira escolher por nacionalidades. Temos a Americana, a Chinesa…
— A Chinesa é a Cultural, não é?
— Exacto. E o cavalheiro parece-me bastante culto. Olhe que é uma boa escolha. Garanto-lhe que vai bem servido.
— Também não. Temo que seja muito Mao para mim.
— Então, a Cubana, a Espanhola… Já sei. Se quer à grande, porque não leva uma Francesa?
— Não. Não gosto de guilhotinas. As lâminas arrepiam-me… Até as injecções… Nem lhe conto. Uma vez, nas urgências…
— Compreendo. Talvez o cavalheiro não seja talhado para isto das revoluções…
— Acha mesmo?
— Aqui entre nós, porque não fica simplesmente em casa a gritar contra o governo?

Fernando Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Fernando Gomes

Silas Correa Leite Lança seu Romance Místico ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS

ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS, Romance místico, romance religioso ou romance ecumênico? Depois de Goto, A Lenda do Reino Encantado do Barqueiro Noturno do Rio Itararé, pela Clube de Autores Editora, SC, romance pós-moderno (considerado a melhor obra do escritor); depois do gracioso Gute-Gute, Barriga Experimental de Repertório, Editora Autografia-RJ, e depois do revoltado Tibete-De quando você não quiser mais ser gente, Editora Jaguatirica, RJ, três romances de peso e agraciados por boas críticas literárias de renome, o escritor, ciberpoeta, ensaísta, crítico literário e então por isso mesmo romancista, Silas Correa Leite, de Itararé-SP, premiado em diversos concursos literários, lança finalmente o romance ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS, primeiro de uma trilogia. Este livro começou a ser escrito em 1998, terminado em 2015, e só agora finalmente lançado pela Sendas Editora do grupo Kotter Editorial de Curitiba-PR.

Como todos os livros diferenciados do autor, polêmicos, críticos, ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS não foge à regra e ao estilo de Silas Correa Leite vai nesse fulcro literário. Desta feita, entrando num campo por assim dizer místico, ele narra a história de um cidadão de Itararé, claro – “Canta a tua aldeia e serás eterno”, disse Leon Tolstoi – (e isso o Silas faz como primeiro expoente da chamada Literatura Itarareense), e narra sobre um cidadão pobre, renegado pelo pai empresário rico da cidade de origem, que depois de décadas de muitos trabalhos e estudos em SP, vence na vida, feito um new rich da chamada alta sociedade paulistana.  Menino sensível, camuflou seu lado sentidor, especial, para ganhar dinheiro. Ficando rico – e ninguém fica muito rico impunemente entre riquezas impunes e lucros injustos – o personagem (real, imaginário?), dr Paulo de Tarso Trigueiro um dia ao sair de um luxuoso jantar em point rico de área nobre da capital, tem uma visão que o alumbra.

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Poème | Zoubida Belkacem

Toujours prompt à s’immiscer
Entre le bon grain et l’ivraie
Cherchant à s’incruster
Faisant fi de toute civilité.

Toujours prompt à crier et vociférer
Haussant la voix, élevant le ton
Le doigt accusateur, les yeux exorbitants
N’admettant aucune contradiction
La colère gronde faute d’arguments.

Toujours prompt à eructer
La coupe pleine de sombres vérités
Le verre de vin au goût âpre et amer.
Les raisons de la colère éclatent
Chargés de doutes mortifères

Toujours prompt à s’indigner
Aussi fort que les mots qui résonnent
Aussi violent que les coups qui assomment
Un volcan sans cesse en ébullition
Crache sa lave d’extermination.

Toujours prompt à diminuer et blesser
Le petit oiseau qui essaye de voler
Le cri qu’il veut amplifier
Lui brisant ses petites ailes
Pour l’empêcher de s’échapper.

Zoubida Belkacem
Nice le 15 février 2019
Oeuvres protégées

Retirado do Facebook | Mural de Zoubida Belkacem

VÍCIO | Licínia Quitério

Tenho o vício dos teus olhos
das tuas mãos em tremura
da tua boca de seda
escaldante como o carvão
na minha lareira acesa.
Da tua voz registada
no meu ouvido profundo.
Tenho o vício de te ver
em memórias de veludo
nas sementes espalhadas
pelas flores que não cuidei.
Tenho o vício de sentir
as dores que não rejeitei.
Tenho o vício de cheirar
campos que não cultivei.
Tenho o vício de voltar
a caminhos que não pisei.
Tenho o vício de me rir
do choro que já chorei
e o vício da solidão
que me envolva de lembranças
das andanças que vivi.
Tenho o vício de escutar
segredos que me contaram
e aqueles que não contei.
Mais do que toda a virtude
é água pura a correr
o vício de te querer
sabendo que te não tenho.

Licínia Quitério, 2006

Retirado do Facebook | Mural de Licínia Quitério

Rainer-Maria Rilke | Pour écrire un seul vers

Pour écrire un seul vers, il faut avoir vu beaucoup de villes, d’hommes et de choses, il faut connaître les animaux, il faut sentir comment volent les oiseaux et savoir quel mouvement font les petites fleurs en s’ouvrant le matin.

Il faut pouvoir repenser à des chemins dans des régions inconnues, à des rencontres inattendues, à des départs que l’on voyait longtemps approcher, à des jours d’enfance dont le mystère ne s’est pas encore éclairci, à ses parents qu’il fallait qu’on froissât lorsqu’ils vous apportaient une joie et qu’on ne la comprenait pas ( c’était une joie faite pour un autre ), à des maladies d’enfance qui commençaient si singulièrement, par tant de profondes et graves transformations, à des jours passés dans des chambres calmes et contenues, à des matins au bord de la mer, à la mer elle-même, à des mers, à des nuits de voyage qui frémissaient très haut et volaient avec toutes les étoiles — et il ne suffit même pas de savoir penser à tout cela.

Il faut avoir des souvenirs de beaucoup de nuits d’amour, dont aucune ne ressemblait à l’autre, de cris de femmes hurlant en mal d’enfant, et de légères, de blanches, de dormantes accouchées qui se refermaient.

Il faut encore avoir été auprès de mourants, être resté assis auprès de morts, dans la chambre, avec la fenêtre ouverte et les bruits qui venaient par à-coups.

Et il ne suffit même pas d’avoir des souvenirs.

Il faut savoir les oublier quand ils sont nombreux, et il faut avoir la grande patience d’attendre qu’ils reviennent.

Car les souvenirs ne sont pas encore cela.

Ce n’est que lorsqu’ils deviennent en nous sang, regard, geste, lorsqu’ils n’ont plus de nom et ne se distinguent plus de nous, ce n’est qu’alors qu’il peut arriver qu’en une heure très rare, du milieu d’eux, se lève le premier mot d’un vers.

Rainer-Maria Rilke ( 1875-1926 )

Les Cahiers de Malte

La solitude | Rainer-Maria Rilke

La solitude est pareille à ces pluies

Qui montant de la mer s’avancent vers les soirs

Des plaines, elle va lointaine et perdue

Au ciel qui la contient toujours

Et c’est du ciel qu’elle retombe sur la ville.

La solitude pleut aux heures indécises

Lorsque vers le matin se tourne vers une heure

Lorsque les corps épuisés de méprise

S’entre-écartent, tristes et inassouvis

Et que les hommes qui se haïssent doivent coucher ensemble dans un lit

La solitude alors dérive au fil des fleuves.

Efemérides Cariocas | Para se conhecer a história do Rio de Janeiro de Neusa Fernandes e Olinio Gomes P. Coelho | por Adelto Gonçalves

                                                          I
O jornalista Elio Gaspari, autor de cinco inolvidáveis livros sobre o regime militar (1964-1985), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, dia 30 de janeiro de 2019, observou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso gosta de relembrar uma cena na qual o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) discutia o tamanho de algumas figuras do Império e ensinou: “Doutora, eles eram atrasados. Nós não temos conservadores no Brasil. Nós temos gente atrasada”. Em seguida, o jornalista fez uma relação sucinta de males causados ao Brasil e à população brasileira por atitudes e decisões tomadas por gente despreparada e inculta, ou seja, “atrasada”, que chegou ao poder tanto pela força das armas como por acordo entre elites ou pelo voto popular.
Para ter uma ideia dos males que esse tipo de “gente atrasada” já causou à cidade do Rio de Janeiro, o antigo Distrito Federal, o leitor não pode deixar de ler EfeméridesCariocas (Rio de Janeiro, edição dos autores, 2016), dos historiadores Neusa Fernandes e Olinio Gomes P.  Coelho.  Ali pode constatar um dos maiores atentados à inteligência e à cultura nacional que foi a demolição a 5 de janeiro de 1976 do Palácio Monroe, projetado para representar o Brasil na Exposição Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos, e inaugurado em 30 de abril de 1904.

O edifício abrigou o Ministério de Viação e Obras Públicas, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, a partir de 1915, até a sua mudança para Brasília, em 1960. Apesar dos protestos da população e de entidades ligadas à engenharia e à arquitetura, o ditador da época, Ernesto Geisel (1907-1996), determinou ao ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen (1935-1997), a demolição do palácio, sem quaisquer justificativas técnicas e culturais. O local seria revitalizado com a instalação de um antigo chafariz da cidade e a construção de uma garagem subterrânea (p.24-25).

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TO FUCK, OR NOT TO FUCK: THAT’S THE QUESTION ! | Eugénio Lisboa

“O ratio literacia/iliteracia é constante, mas, 
nos nossos dias, os iletrados sabem ler e escrever”. 
(Alberto Moravia)

Peço, desde já, que me perdoem o tom desenfastiado desta prosa, a começar pelo título: paráfrase libertina de um solilóquio célebre. Vou usar, como verão, vocábulos desataviados ou mesmo crus: o culpado disto tudo é o escritor António Lobo Antunes que, numa entrevista recente – das muitas que ele não gosta de dar mas vai dando – sugeriu o mote, ao afirmar o seguinte, referindo-se a Fernando Pessoa: “Eu me pergunto se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.”

Não é a primeira vez que o autor de Memória de Elefante nos serve este mimo. Provavelmente, ao tê-la, gostou tanto da ideia, que não se cansa de no-la servir, faça chuva ou faça sol. Reajo a ela, não tanto pela crueza vicentina do tom (e do glossário), como pelo facto de me não parecer cientificamente sustentável.

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pieds nus | Zoubida Belkacem

Que nous soyons pieds nus, pauvres et insouciants
Dans la misère absolue ou en haillons
Nous serons toujours ces gamins heureux
Qui se suffisent d’un petit partage merveilleux
Dans un moment de grâce mielleux

Que nous soyons ces enfants oubliés
Habitants les bourgs et villages isolés
Sans accès, sans routes goudronnées,
Ni bus pour nous transporter
On garde enfoui en nous, innocence et vivacité.

Que nous soyons privés d’écoles à proximité
De chauffage et d’électricité
Sans loisirs pour nous divertir
Ni même de vêtements dignes pour nous vêtir.
Nous sommes toujours partant
Pour cueillir le bonheur , en un instant

Que nous soyons ces gamins indigents
Sans tablettes ni portables apparents
Nous gardons toujours dans nos yeux, ces constellations.
Cette euphorie que nous partageons.
Des enfants ni désoeuvrés, ni affamés
Nous voulons juste , de rêves d’évasions , nous enivrer.

Que nous soyons ces mômes marginalisés
Qu’on montre du doigt et qu’on n’ose à peine regarder.
Ces gamins libres et insoumis
Bouillonnant de vigueur et de vie
Portant toute l’innocence inassouvie.

Jeunesse souriante, jeunesse palpitante
Prendre un selfi, a l’aide d’une chaussure
L’espace d’un moment
Quelques instants volés au temps
Qui donnent l’impression, de vivre éternellement.

Zoubida Belkacem
Constantine le 03/02/2019
Oeuvres déposées

Retirado do Facebook | Mural de Zoubida Belkacem

UM POEMA DE SAFO DE LESBOS | O HOMEM QUE SE SENTA A TEU LADO | CASIMIRO DE BRITO

O homem que se senta a teu lado

E ouve de perto a tua voz tão doce

O riso que se infiltra no meu coração

Invejo esse homem como se fosse um deus

Pois só de vê-lo a fala me falta

A língua me seca na boca e os olhos

Me ficam cegos e surdos os ouvidos

O suor aninha-se na pele e o corpo

Todo me treme e já desfaleço e verde

Como as ervas fico e nem sequer respiro

Poderei eu viver com tal calamidade?

 

DEDICADO A UMA QUERIDA AMIGA MINHA | Casimiro de Brito

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito

Poema em forma de prosa | Maria Isabel Fidalgo

nesta manhã de sol, a intensidade da luz é um oboé de esperança. sopro e ocorrem-me primaveras intensas, tanta a beleza do verde ao longe. a noite, em marés de receios é um apeadeiro de desgraças. hoje canto o dia e o mistério da claridade a sacudir os sentidos. sagrado este brilho onde o coração dos pássaros se ergue alto.
hoje celebro o dia, a manhã clara para planar numa colina de sonho onde haja futuro para os nossos voos.
depois sorrimos. és tão depressa quando me fazes sorrir depois da noite.

Garças | Lídia Borges | novo livro de poemas

No próximo dia 26 de Janeiro de 2019, pelas 15h30, na biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, vem à luz um novo livro de poemas.
Com um percurso em crescendo, e uma poesia apurada e depurada em imagens do mais puro lirismo,intimista, de raízes telúricas e afetivas, onde o mundo é absorvido na esfera do belo e do inteiro, Lídia Borges/Olívia Marques, traz-nos, agora, as ” Garças”.
A apresentação será feita por Isabel Cristina Mateus.

(…) Ao entrar na cozinha nesta manhã tão antiga
são as cerejas, o pão, o leite
a manteiga, a voz da avó
a trazer ao céu da minha boca
o sabor do amor mais pleno que senti. (…)

Este lançamento coincide com a reedição da obra “Sementes Daqui”, vencedora do Prémio Literário Maria Ondina Braga 2013 (1ª edição Novembro de 2013).

Vinte Poemas de Amor e Uma Crônica Desesperada | Valdeck Almeida de Jesus

Sinopse: O poeta Valdeck Almeida escreveu vinte textos poéticos e uma crônica, os quais refletem um amor não realizado por uma pessoa conhecida através de cartas e outra através de redes sociais. Ambas são do Triângulo Mineiro, e nenhuma das duas foram encontradas pessoalmente, nesse trânsito que durou mais de trinta anos. O livro foi traduzido ao espanhol, com ilustrações de Zezé Olukemi.

Interessados podem clicar nesse link e baixar gratuitamente:
Para Valdeck “esta é uma oportunidade de circular por lugares não acessíveis e ter a sensação de poder fazer parte do imaginário de leitores de todos os cantos, além de ser uma alternativa para escritores iniciantes e/ou veteranos para democratizar sua produção literária”.

O Livro do Império | João Morgado

Um manuscrito resgatado pela Inquisição para redenção de Portugal.

«Portugal tem um império em declínio, com um rei destemido, mas influenciado por uma nobreza e um clero corruptos. Omnipotente, a Inquisição não hesita em prender, matar e destruir as mentes e as obras mais brilhantes.

No país vizinho, observam a decadência de Portugal, jogam com o poder e o apoio dos jesuítas, e mantêm a esperança de voltar a dominar toda a península.

Mas eis que um trota-mundos sem eira nem beira, apesar de uma vida de prisões, putaria e inimigos poderosos, decide cantar as glórias desse povo num poema épico que lembra todos “aqueles, que por obras valerosas” se foram da “lei da morte libertando”. Mas ao cantar uma estirpe de homens que se igualara a deuses, por contraste compunha também um libelo acusatório contra a depravação vigente. Como foi possível que el-rei e o Santo Ofício tenham deixado publicar esta obra?

Livro do Império narra a vida de um poeta arrependido e a história de Portugal em vésperas da batalha de Alcácer-Quibir.»

JL Jornal de Letras “Glória, Decadência, Redenção”, por Miguel Real (19.12.2018)

“Se um Eça do nosso tempo se atrevesse a perguntar a João Morgado – Filho, tu estavas lá? – teria rigorosa resposta – Sim, estive lá. Porque a expressão aliciante da sua prosa consegue despertar a convicção de que o autor estava efectivamente esteve lá, e tudo o que diz tem igual autoridade à dos documentos que lhe permitem enriquecer a crónica dos acontecimentos, que recria e medita com a minúcia do seu espírito criador”,

Prof. Adriano Moreira Apresentação da obra, 17.DEZ.18

“Após séculos de mal-entendidos, «O Livro do Império» vem, por fim, reconciliar um Camões humanizado com o público leitor”, numa obra que “pela sua argúcia analítica, pela cultura da época, riqueza da linguagem e ritmo narrativo, consagra João Morgado como um escritor de referência no romance histórico e na literatura portuguesa.”

F. Delfim dos Santos, Universidade Nova. Apresentação da Obra, FNAC Chiado, 17.DEZ.18

Os Lusíadas, (Canto IX, 83) | Luis Vaz de Camões

Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Os Lusíadas, (Canto IX, 83)

Luis Vaz de Camões

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente 
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte     violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas     portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida     há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

MÁRIO CESARINY

Poema | Licínia Quitério

Há homens que atravessam a rua
sem olhar
Levam nos ombros pedaços da noite
e não há cor que os vista
São homens cinzentos 
indiferentes ao sol ou à borrasca
Quem os vê diz
ali vão os homens tristes
mas nem eles sabem o tamanho
da tristeza ou da improvável alegria
O chão da rua conhece
a cadência incerta
a leveza ausente
dos passos destes homens
Há quem lhes chame homens de bruma
porque vagos são
os seus contornos
Virá uma manhã sem homens tristes
Ninguém perguntará
para onde foram
Alguém escreverá a sua história
no livro branco
do esquecimento
A rua permanece

Licínia Quitério

Lancement du Prix littéraire francophone régional : «Le Choix Goncourt de l’Algérie» | in “alifa” le magazine de l’art et de la culture

Le Choix Goncourt de l’Algérie est un prix créé par l’Académie Goncourt et porté par l’ambassade de France et l’Institut français Algérie.

L’Institut français d’Algérie a obtenu cette année la création d’un prix littéraire spécifique, parrainé par l’Académie Goncourt : «Le Choix Goncourt de l’Algérie». Organisé seulement dans une douzaine de pays à travers le monde, le Choix Goncourt sera décerné pour la première fois en 2019 en Algérie. Cette première édition est donc un événement.

Dans chaque ville où l’Institut français d’Algérie est présent (Alger- Annaba – Constantine – Oran – Tlemcen), des jurys composés d’étudiants, de lycéens et d’adhérents aux médiathèques des cinq instituts français voteront pour désigner leur lauréat. Ce dernier sera choisi parmi les huit ouvrages francophones présélectionnés en 2018 par l’Académie Goncourt, en vue de l’attribution de son célèbre prix.

La proclamation du prix «Le Choix Goncourt de l’Algérie» aura lieu en mars 2019, à l’occasion de la Semaine de la langue française et de la francophonie, en présence des présidents des différents jurys. L’écrivain(e), dont le roman aura été choisi, sera invité(e) à parrainer l’édition suivante.

Pour en savoir plus : www.academiegoncourt.com/choix-goncourt-algerie.

Contact presse : meliza.beghdad@diplomatie.gouv.fr

https://www.alifa-dz.com/lancement-du-prix-litteraire-francophone-regional-le-choix-goncourt-de-lalgerie/

Se eu morrer | Maria Isabel Fidalgo

Se eu morrer grita aos céus que foi por ti. vela o meu rosto com um leque de seda e encosta-o ao teu bafo quente para que o frio não me quebre. ficarei assim um pouco mais de tempo sobre o mundo num agasalho de hálito perfumado. não me despenteies. olha-me como no primeiro momento em que me cegaste com os ponteiros do olhar e talvez eu acorde para uma última despedida. pega no meu corpo inerte como num lenço de vidro e pousa-o sobre o mar no travesseiro das ondas onde o teu busca a liquidez no verão. escreve no azul – amo-te- e sorrir-te-ei em cada braçada de água como um verso que se desnuda quando se diz amor pela primeira vez.

mif

Casimiro de Brito | Fragmento 3454 | LIVRO DE EROS

“Era como se as nossas cerimónias de amor fossem um quarteto de cordas (a mais perfeita das formas musicais) e tivessem quatro andamentos brilhantemente improvisados:
um, “lento assai, cantate e tranquillo”, em que as nossas ondulações empreendiam a bela iniciação da respirar e aspirar o outro, o seu corpo todo;
um “andante cantabile”, em que ela subitamente se inclinava sobre o meu corpo deitado e lambia e moldava o meu sexo detendo-se apenas quando ele já se transformava em mármore exactamente ao mesmo tempo que os meus dedos ligeiramente ensalivados tocavam no seu clítoris e se sentiam subitamente dulcificados sob uma ainda frágil cascata;
seguia-se depois a penetração, o “allegro vivace”, com ela quase sempre por cima de mim, cavalgando-me, e assim o prazer era cada vez mais profundo e duas vezes fogoso;
e, por fim, depois do grande orgasmo dela (o meu sabia retê-lo e deixava-o para os seus seios ou para a sua boca) — ó como se contraíam e vibravam todos os nossos músculos —, “o adagio ma non troppo e molto expressivo”, em que ela se deitava e abria as pernas e colocava os pés no meu peito ou nos meus ombros e eu sugava todos aqueles delicados odores, a sua ambrósia, os seus sucos tão delicados que não apenas os conservava na boca como os derramava na boca dela, e assim ficávamos irradiados pelos corpos que, deste modo, o meu estendido sobre o dela, abraçados, pareciam um só animal terroso e sagrado. Depois gemíamos e ríamos e chorávamos até adormecer.”

Casimiro de Brito
Fragmento 3454
LIVRO DE EROS

Retirado do Facebook | Mural de Sónia Soares Coelho

Autismo | Valério Romão

ROMANCE FINALISTA DO PRÊMIO FEMINA (França, 2016)

“Uma obra maior.” — Le Figaro

“Eu acho que o Henrique é
Faltava só uma palavra, era o parto ao contrário, já tinha saído o corpo todo e faltava unicamente a cabeça da frase, o cérebro da frase, o complemento que dava o significado integral à frase e Rogério, como um carro que desaprendesse de arrancar à primeira, soluçava num martírio solitário as sílabas […], e Marta, do seu lado, esperava pelo fim da frase com os pés bem calcados no soalho do carro, com as mãos a agarrarem os estofos com a força possível, com todo o corpo eriçado como um gato a quem quisessem tirar da caixa no veterinário.
O Henrique, Marta, eu acho que ele é autista.”

“Um livro tremendo, brutal de tão honesto, sobre um casal que descobre no filho os sinais de uma doença que o isola do mundo e do afeto dos pais. Autismo revela um escritor capaz de tocar nas feridas humanas mais fundas.”
—Expresso

“Romão vai diretamente à jugular. Um livro impiedoso, que impressiona pela proximidade entre enredo e biografia. O autor pode estar a exorcizar os seus fantasmas, mas fá-lo com uma capacidade única de meter o leitor dentro da sua casa assombrada.”
—Time Out

Eu, Guilhermina | Ou a Verdadeira História das Mães de Bragança | Jorge Monteiro Alves

Esta estória baseia-se numa série de acontecimentos extraordinários registados em Bragança no Outono de 2003. Contudo, qualquer semelhança entre ficção e realidade será pura coincidência.

Dedicado a todas as nordestinas, de um e do outro lado do Atlântico

A estória da nordestina Guilhermina e do seu marido Quitério, tentado por fragâncias de amores-perfeitos que depressa murcharam, ou como um homem com uma rica vidinha estraga tudo por um par de mamas.

Santo Amaro de Oeiras

Jorge Monteiro Alves é natural do Porto, desse Norte onde não corre sangue lusitano nem magrebino, mas sim suevo, vândalo e godo, e onde as gentes parecem paridas do granito que cobre a terra. Talvez por isso não haja vento que as dobre. Ali, muito cedo aprende-se com as árvores – antes quebrar que torcer. E também elas gostam de morrer de pé. Partilham um sonho desde crianças: ver o Benfica na 2ª divisão. Ainda não o concretizaram. Mas não perderam a esperança.

— // — 

I – A velha apontou o dedo indicador na sua direcção e os olhos fizeram um esgar trocista, assim como a boca, coberta de dentes podres. Que podia ela fazer, pobre cega, contra poções de raízes de amor-perfeito, restantes ervas do demónio e macumbas com água suja das partes? Nada! O feitiço era demasiado poderoso. Mas que não perdesse a esperança, que vinha aí luz por entre nuvens escuras! Guilhermina, chorosa, ainda se atreveu a perguntar àquela bruxa medonha, coberta de rugas e de um xaile negro, se não havia mesmo forma de matar a vadia. A curandeira soltou um grunhido de protesto e fez um gesto brusco com a mão esquerda, como se afastasse maus espíritos ou a mandasse embora. Na dúvida, foi isto que fez. Não sem antes largar uma nota no imundo copo de plástico verde que servia de ornamento único à mesa comida pelos ratos.
Guilhermina saiu do casebre para a rua com alívio, liberta do cheiro a mofo, olhos de morcego e rabos de lagartixa. Má ideia tivera a comadre Otília em recomendar-lhe aquela ida à Benfazeja. E lá se tinham ido 50 euros naquela história! Mais do que não arranjar forma de matar a outra, o que lhe doía mesmo era ter largado tal quantia. E em troca de quê? De nada, pois então, que é igual a coisa nenhuma! Ela sabia lá quando vinha a luz ou que história era aquela das nuvens escuras! Quais esperanças, qual carapuça! Certo, mas certinho mesmo, era que o dinheiro se estava a ir. E mais depressa do que um balão furado perdia o ar.
Cumprimentou à direita e à esquerda. Olá, Guilhermina, olá! Onde vais a esta hora? Tu, por aqui? Ora bons olhos te vejam, rapariga! E ela estugava o passo, respondendo ao acaso e fugindo a todas. Atravessou meia Bragança cosida com as paredes das casas, como se fugisse do sol daquela manhã de Outono. Passou pelo cabeleireiro, cheiinho de vadias a tresandarem àquele perfume, de esplanadas com moças bonitas de perna traçada que falavam alto. E decerto dela. E assim passava de cabeça baixa, envergonhada, quase a medo. Estava certa, chegada que estava às portas da Igreja de Santa Clara, que todas a apontavam agora a dedo. Correu os últimos metros que a separavam do portão de casa, que abriu com dedos trémulos.

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AMOS OZ | Já viu um fanático com sentido de humor? | ENTREVISTA POR ISABEL LUCAS EM 11 DE OUTUBRO DE 2018 | in Jornal Público

Amos Oz, 79 anos, morreu esta sexta-feira (28-12-2018), vítima de cancro, anunciou a sua filha, a historiadora Fania Oz-Salzberger. “Ele morreu… agora mesmo, após rápida deterioração, durante o sono e em paz e rodeado pelos seus entes queridos.”

Nascido em 1939, tinha quase mais nove anos do que o Estado de Israel e conhecia como poucos esse território tão disputado pelos homens em nome de Deus. Lutou até ao fim pela paz nesse lugar. É que o tal território não foi apenas o centro da sua vida, mas também o de toda a sua literatura.

Mesmo que politicamente zangado, amargo ou só, Amos Oz continua a lutar pela sua ideia de Israel e de civilização. Caros Fanáticos é uma carta endereçada a todos, porque esse é um gene universal e deve ser combatido com antídotos como a imaginação, a curiosidade ou humor.

ENTREVISTA POR ISABEL LUCAS EM 11 DE OUTUBRO DE 2018

O fanatismo, escreve Amos Oz, “é a essência perene da natureza humana, o ‘gene mau’.” Atribuí-lo a uma civilização, a um povo, a uma religião é contribuir para propagar o gene e criar políticas de ódio identitário. Num momento em que se assiste ao exacerbar do fanatismo, o escritor israelita, várias vezes mencionado como um candidato ao Nobel, reflecte sobre fé, fanatismo e os desafios de viver em conjunto no século XXI num volume que reúne três ensaios breves e incisivos. Publicado em 2017 em Israel, Caros Fanáticos traz três reflexões. De 2002, 2014 e de 2015. Oz reviu e actualizou cada uma e o resultado é um acutilante olhar para o presente do mundo, com um foco nas questões judaicas e do Estado de Israel de que tem sido um crítico atento. Uma conversa com um homem de voz calma que começou por falar de Maio deste ano, um mês que não consta deste livro e que alterou equilíbrios políticos. Foi quando os EUA mudaram a sua embaixada para Jerusalém. É de Amos Oz a primeira frase desta conversa: “O problema não é se Jerusalém é ou não a capital da Israel. O problema é como é que a outra metade de Jerusalém pode ser a capital da Palestina no futuro.”

Em Israel, como em muitos, muitos outros países, o fundamentalismo e o fanatismo estão em ascensão. As pessoas estão a tornar-se mais nacionalistas, mais chauvinistas, mais egoístas e de visão estreita, e a destilar mais ódio em relação aos estranhos, os estrangeiros. Isto está a acontecer na Europa Ocidental, na Europa do leste, Estados Unidos, na Rússia, em Israel e em muitos outros países do Médio Oriente. Preocupa-me, porque acho que se nos afastarmos dos princípios fundamentais do humanismo estabelecidos depois da II Guerra Mundial, estaremos muito depressa a viver um inferno. Os problemas estão a tornar-se mais complicados e muitas pessoas procuram respostas muito simples; procuram respostas de uma frase, capazes de pôr tudo na ordem; frases que nos digam quem são os maus, quem são os inimigos, quem são os perigosos. Acham que se souberem isso o paraíso pode vir.

É também por isso que fala de uma infantilização da sociedade?
Sim, a infantilização tem que ver com o facto de muitos milhões de pessoas acreditarem que a vida deve ser um entretenimento e que a política é um jogo divertido e a essência da vida passa por fazer compras.

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Quem foi Jesus? | Frederico Lourenço

Quem foi o homem cujo nascimento hoje celebramos? Desde o século XIX, o estudo crítico do Novo Testamento e do primeiro cristianismo tem tentado reconstituir quem terá sido o «Jesus histórico». Em que ponto estamos desta investigação? Vou dar-vos uma proposta de biografia do Jesus real.

Jesus nasceu em Nazaré, na fase final do reinado de Herodes, o Grande (rei que morreu em 4 a.C.). Era filho de um construtor chamado José e da sua mulher, Maria. Jesus era o mais velho de vários irmãos e irmãs. Em casa, falava-se aramaico; mas Jesus beneficiou do facto de Nazaré estar perto de cidades gregas, como Séforis, cuja distância de Nazaré corresponde à que medeia, na nossa cidade do Porto, entre o Estádio do Dragão e a rotunda da Boavista. Em toda a volta de Nazaré, falava-se grego. De Gádara, uma das dez cidades gregas da zona, era originário o maior poeta grego do século I a.C., Meleagro. A helénica Séforis tinha um teatro; e Jesus sabia o que era o conceito grego de «actor», pois usou a palavra grega «hipócrita» numa acepção sem qualquer equivalente no aramaico falado em casa ou no hebraico da Escritura.

Jesus recebeu uma educação judaica baseada nessa Escritura e foi certamente o rapaz intelectualmente sobredotado de que vemos reflexo em Lucas 2:47. As pessoas não lhe chamaram «mestre» à toa.

Nos anos 20 do século I, Jesus contactou com o movimento de João Baptista, que apelava aos israelitas que «mudassem de mentalidade» e que, por meio do baptismo no rio Jordão, obtivessem o cadastro limpo perante Deus que, oficialmente, só podia ser obtido por meio do sacrifício de animais no templo. João Baptista atraiu a má vontade da elite sacerdotal de Jerusalém; o mesmo aconteceria com Jesus.

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Simone de Beauvoir | O Segundo Sexo | volume I

É por ela (mulher), através do que nela há de pior e de melhor, que o homem faz a aprendizagem da felicidade, do sofrimento, do vício, da virtude, do desejo, da renúncia, do devotamento, da tiranias, que faz a aprendizagem de si mesmo; ela é o jogo e a aventura, mas também a provação; é o triunfo da vitória e o mais áspero, do malogro superado; é a vertigem da perda, o fascínio da danação, da morte. Há todo um mundo de significações que só existem pela mulher; ela é a substância das acções e dos sentimentos dos homens, a encarnação de todos os valores que solicitam libertação. Compreende-se que, embora condenado aos mais cruéis desmentidos, o homem não deseje renunciar a um sonho no qual todos os seus sonhos estão envolvidos.

Eis, portanto, por que a mulher tem um duplo e decepcionante aspecto: ela é tudo a que o homem aspira e tudo o que não alcança. Ela é a sábia mediadora entre a Natureza propícia e o homem: é a tentação da Natureza indomada contra toda a sabedoria. Do bem ao mal, ela encarna carnalmente todos os valores morais e os seus contrários; é a substância da acção e o que se lhe opõe, o domínio do homem sobre o mundo e o seu malogro; como tal, é a fonte de toda a reflexão do homem sobre a própria existência e de toda a expressão que possa dar-lhe;  entretanto, ela esforça-se por desviá-lo de si mesmo, por fazê-lo soçobrar no silêncio e na morte. Serva e companheira, ele espera que ela seja também seu público e juiz, que o confirme no seu ser; mas ela contesta-o com a sua indiferença, e até com os seus sarcasmos e risos. Ele projecta nela o que deseja e o que teme, o que ama e o que detesta. E se é tão difícil dizer algo a seu respeito é porque o homem se procura inteiramente nela e ela é tudo. Só que é tudo à maneira do não-essencial: é todo o Outro. Enquanto Outro, ela é também outra e não ela mesma, outra e não o que dela é esperado. Sendo tudo, nunca é isso justamente que deveria ser; é perpétua decepção, a pópria decepção da existência que nunca consegue atingir-se nem reconciliar-se com a totalidade dos existentes.

Simone de Beauvoir

História de um muro branco e de uma neve | José Saramago

Não haveria nada mais fácil no mundo das histórias que escrever um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o caso de que uma criança que nasce está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral andamos das infâncias que vivemos, foi pensar que as crianças nascem uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de que o tempo passe e as transforme em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie diferente de seres humanos. A criança começa por nascer uma vez, que é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo: não tem outro remédio nem há outra maneira. Como se verá pelas duas breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras.

A terra, àquela hora, cobria-se de uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa da sua primeira cheia de Inverno, os charcos são de mercúrio. O ar está frio, parado, e estala quando respiramos, como se nele se suspendesse uma ténue rede de cristais de gelo. Há uma casa e luz lá dentro. E gente: a Família. Na lareira ardem grossos troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando à fogueira se lhes juntam gravetos, ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina os rostos da família e logo volta a quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas redondas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro.

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Querida Mãe Natal | Maria Isabel Fidalgo

Querida Mãe Natal

aí onde estás, não entre as renas,
mas vestida de estrelas soalheiras,
espaço estelar onde o espírito cintila
nas palavras que me inspiras,
faz-me ser, se possível for essa proeza,
ser eu, cada vez mais, a filha tua,
à altura da pessoa do teu nome
e no amor lavado com que me vestias
no dia a dia, que por o ser,
era sempre Ano Novo.
não deixes esmorecer a tua Bela
para ti, sempre vela natural,
e incendeia de chama, brasa,
luz de ti,
a braseira da minha alma de natal.

Carta escrita à minha mãe, depois da sua travessia, em noite de consoada…
maria isabel fidalgo

Zoubida Belkacem

Dis moi si c’est toi
Qui brille là-haut, de mille éclats
Qui éclaire cette obscurité qui m’entoure
Depuis ce jour fatidique, où tu m’as quitté sans retour.

Dis moi si c’est toi
Qui hante mes nuits, bercées du son de ta voix
Remplie de ton visage qui se rappelle à moi.
Te souviens-tu de ces nombreuses fois ?
Guidés par nos espérances de foi

Dis moi si c’est toi
Qui m’inssuffle la vie
Qui me fais battre ce cœur qui ne bat plus.
Tu ne franchira plus le seuil de la porte
Depuis ce jour tragique où tu es morte

Dis moi si c’est toi
Qui me fais pousser des ailes
Pour défier cette vie éternelle
Je te retrouve partout où je suis
Même si j’ai l’impression que tu me fuis

Dis moi si c’est toi
Qui chante encore des berceuses pour nos enfants
D’une voix céleste, même si maintenant, ils sont grands.
Tu remplies encore de ta chaleur, notre maison
Depuis ton départ, depuis notre séparation.

Je continu à croire que tu es toujours là
Que tu demeure encore à cet endroit
Ta présence illumine les lieux
Les jours s’égrènent comme les feuilles mortes.
Même si je me surprends à t’attendre encore au pas de la porte.

Zoubida Belkacem
Droits protégés
Constantine 19/12/2018

Pela frente ou por trás? | Manuel S. Fonseca in “A Página Negra”

(…) mas umas costas nuas! Nada se com­para ao ves­tido de finas alças nos ombros, estuá­rio aberto que se vem fechar sobre as cinco fun­di­das vér­te­bras do sacro – incom­pa­rá­vel é a geo­gra­fia de umas cos­tas nuas. (…)

(…) se há prazer que merece ser celebrado, é o das costas nuas. À frente, há uma planície venu­si­ana, certo? Mas atrás! Espa­ços aber­tos, duas rasas margens de um vale com um rio de vértebras ao meio. Ebúrneas e delicadas, castanhas e bronzeadas, de acetinado ébano, cantemos, de uma mulher, e logo desta mulher, as costas nuas. (…)

(…) Mas as cos­tas nuas! As cos­tas nuas pedem a didác­tica tensão de um Oví­dio, a per­sis­tên­cia do lento apren­diz de uma “Ars Amatoria”. (…)

Manuel S. Fonseca

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Pela frente ou por trás?

Fragmentos da Alma | Cristiane Miranda, Yunara Chita e Alicia Neto | Edições Burity | Lançamento em Fevereiro de 2019

Ser criança ainda, neste caso adolescentes, decidiram partir para a aventura de escrever, sonhando como se sonha nessa idade, esgrimindo sonhos ingénuos e fantasias deliciosas como só sente quem nas suas idades se encontra, desenham com palavras tudo isso, poemas muito bem desenvolvidos para a tenra idade que ainda possuem, mas, dando já indicadores do que as poderá esperar: “poetas de alma cheia!”. No decorrer dos cerca de 52 poemas encontra-se a afinidade com a poesia no seu mais estrito sentido. Poemas profundos e sentidos como de facto a poesia nos ensina, que nos levam em viagens e sonhos, delírios e passeios na verdade que a vida nos dispõe vivenciar. Demonstram ainda e muito cedo, a dor de se amar e também o quanto é belo o amor. São três meninas, que juntas, partem para um livro que certamente lhes ficará na memória, o orgulho dos pais e dos amigos, e acima de tudo, dos leitores, que irão encontrar neste livro como se pode, desde que a arte de escrever já nos começa a “incomodar”, a coragem de as explanar num livro aberto a todos os leitores do país e do mundo.

Felicidades promissoras escritoras!

Vítor Burity da Silva

Uma Lágrima que Cega | Casimiro de Brito | Apresentação, sábado, 15-12-2018, 18 horas na Livraria Férin, Lisboa

Amanhã, sábado, será apresentado às 18 horas na Livraria Férin (junto da Fnac-Chiado) o meu novo romance “Uma Lágrima que Cega”. O prazer que vou ter em encontrar alguns dos meus amigos daqui… Venham. Ofereço-vos um fragmento do meu romance:

O que queres fazer? Onde queres jantar? Italiano, francês, cipriota? O que queres que eu faça? Saímos? Ficamos em casa? Na cama? Precisas de alguma coisa? Pouco de pouco me basta e ela, que tanto é, mais ainda me quer dar, destinar. Atenta aos meus desejos mais velados, a ler-me, a tocar piano, a escutar-me, a desejar conceder-me o que desejo, se desejo alguma coisa, que nada peço, que me deixo somente ir na onda, enfim, pouco mais que nada. O teu nada é quase tudo, dizia-me Tessa, há vinte anos. Pesa. Hoje, ainda na cama, perguntei-lhe se ainda tocava. Líamos, vagueavamos no corpo do outro. E logo se levantou, nua e fresca, levou-me pela mão para a sala de música, sentou-se ao piano, um Bösendorfer de 1975, exactamente da sua idade e perguntou-me, Queres escolher? e meteu- me nas mãos um caderno com partituras de Mozart.

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CITAÇÕES | in DICIONÁRIO SENTIMENTAL DO ADULTÉRIO | by FILIPA MELO

1) – A fantasia, motor da infidelidade, ocupa-se em tornar-nos criativos. A imaginação estimula a mentira, que, quando bem-sucedida, nos  dá liberdades inimagináveis. Mentir é descobrir opções. O segredo faz o resto. No adultério, as variações de nós mesmos são infinitas.

2) – Os homens casam-se por cansaço. As mulheres, por curiosidade. Ambos se desiludem.

Lord Henry, em O Retrato de Dorian Gray, 1890.

3) – Nada mais glorioso do que a devoção de uma mulher casada – o que o homem casado desconhece completamente.

Cecil Graham, em O Leque de Lady Windermere, 1892.

in DICIONÁRIO SENTIMENTAL DO ADULTÉRIO | FILIPA MELO, autora

Poema de MARTIM SOARES | in DICIONÁRIO SENTIMENTAL DO ADULTÉRIO | FILIPA MELO, autora

“Pero Rodrigues, da vossa mulher,
Não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
Enquanto gozava, pelo que dizia,
Muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vos deu o céu mulher tão leal,
Que vos não agaste qualquer picardia,
Pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
Que vos estimava mais do que a ninguém;
E para mostrar quanto vos quer bem,
Fodendo comigo assim me dizia.”

MARTIM SOARES
(escrito entre 1241 e 1244)

Canção de amor desesperado | Tiago Salazar

Para irmos mais além (e muito para além) precisamos do tempo do dois.
Precisamos de amar o (nosso) amor.
De reinventar o amor (com carácter de urgência)
Amor de abraços, pele, ternura pura.
Precisamos de rituais antigos e juvenis.
O psicólogo disse-me para te dizer: “Gosto muito de ti mas acho que precisamos de aprender algumas ferramentas para melhorar a nossa relação”.
Falei-lhe de amor.
De como se pode ferir mais quem mais se ama.
De como a vida sem o amor (para nós) é pela metade.
Entendo a tua vida, entendo os binómios da vida, mas preciso que me ajudes a encontrar o caminho para o “nós”.
Sem ti o meu sul não tem norte.

Tiago Salazar

Poema sobre o Mar | Sophia de Mello Breyner Andresen

A minha vida é o mar o abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen

Être poète | Ser poeta | Florbela Espanca

Florbela Espanca, batizada como Flor Bela Lobo, e que opta por se autonomear Florbela d’Alma da Conceição Espanca, foi uma poetisa portuguesa.

8 de dezembro de 1894 | 8 de dezembro de 1930

Être poète

Être poète c’est être fort et le plus grand

Des hommes ! Et mordre comme mord un baiser !

Être mendiant et donner comme donnerait

Le Roi du Royaume d’En-deçà et d’Au-delà

… de la Douleur !

 

C’est d’avoir de milliers de désirs, la splendeur

Et ne pas même savoir ce que l’on désire !

C’est d’avoir au-dedans un astre qui flamboie,

C’est d’avoir les griffes, et les ailes du condor !

 

C’est d’avoir la faim et la soif de l’Infini !

Pour heaume, les matins de l’or et du satin…

C’est ramasser le monde entier en un seul cri !

 

Et c’est pouvoir t’aimer ainsi, éperdument…

C’est d’être l’âme, et le sang, et la vie en moi

Et pouvoir le dire à tout le monde, en chantant !

— 

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens ! Morder como quem beija !

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor !

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja !

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor !

 

É ter fome, é ter sede de Infinito !

Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…

É condensar o mundo num só grito !

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

In Lyrics Translate

https://lyricstranslate.com/pt-br/ser-poeta-%C3%AAtre-po%C3%A8te.html

JOSÉ PACHECO PEREIRA | OPINIÃO | Aprender com a crise da Fundação Mário Soares | in Jornal Público

A crise na FMS tem outro efeito perverso que é a desconfiança de que a entrega de espólios e acervos a instituições que pareciam sólidas se revele instável com o tempo.

Este artigo pode ser entendido como manifestando um conflito de interesses. Fica já isto dito à cabeça, embora pense que na verdade não o seja, visto que o que me move é uma questão de interesse público que está muito para além de também eu “andar aos papéis” para o Arquivo Ephemera.

O assunto é, como é óbvio, a crise da Fundação Mário Soares (FMS), uma instituição com enorme mérito, que muito estimo e que acompanho praticamente desde a sua criação. Aproveito, aliás, para dizer que o que se diz pelas redes sociais e nos comentários, mesmo de leitores do PÚBLICO, sobre essa crise me merece a maior repulsa e um sentimento de vergonha pelos meus semelhantes capazes de se regozijarem com o que se está a passar em nome do ódio a Mário Soares. Esse ódio justifica para eles uma política de terra queimada, o equivalente a queimar livros numa pira como se fazia nos tempos do nacional-socialismo. A crise da FMS empobrece-nos a todos e torna Portugal pior.

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L’oiseau et la rose blanche | Malika Bouazza

Il était une fois un oiseau qui est tombé amoureux d’une rose blanche. Il a décidé de lui déclarer son amour, mais elle l’a refusé. Elle lui a dit qu’elle ne l’aimait pas. Il continuait à lui déclarer son amour de façon quotidienne.
Enfin, la rose blanche a dit : «Lorsque ma couleur deviendra rouge, je vous aimerai.”
Un jour, l’oiseau est venu et a coupé ses ailes et a propagé son sang sur la rose blanche, alors sa couleur est devenue rouge.
La rose a réalisé combien l’oiseau l’aimait mais c’était trop tard parce que l’oiseau est “mort”.
Parfois l’amour on le voit, mais on ne le reconnaît pas …

Retirado do Facebook | Mural de Malika Bouazza

À beira cais | Maria Isabel Fidalgo

O inverno ajeita-se sobre o corpo
e o frio esfia-se em filamentos de água na cortina dos vidros.
Queria ter-te à mão, juventude, e cantar
cantar
até florescerem rosas nos quintais vadios
que eram quase todos esmeraldinos
quando a primavera complacente
não desfalecia com a nudez das árvores.
Queria ter-te à mão, loucura ou poesia,
musa fiel da claridade
promessa perdurável de beleza
que o tempo ruiu.
Queria tanto ter-te, ó maciez do azul,
subtil sonho de rapariga fugidia
a que fui.
Agora
o inverno ajeita-se sobre o corpo
e se cantar me quero
-ó ai ó linda-
a voz se quebra
à beira cais.

maria isabel fidalgo 

Dylan Thomas | N’entre pas sans violence dans cette bonne nuit (Do not go gentle into that good night, 1951)

N’entre pas sans violence dans cette bonne nuit,
Le vieil âge devrait brûler et s’emporter à la chute du jour ;
Rager, s’enrager contre la mort de la lumière.

Bien que les hommes sages à leur fin sachent que l’obscur est mérité,
Parce que leurs paroles n’ont fourché nul éclair ils
N’entrent pas sans violence dans cette bonne nuit.

Les hommes bons, passée la dernière vague, criant combien clairs
Leurs actes frêles auraient pu danser en un verre baie
Ragent, s’enragent contre la mort de la lumière.

Les hommes violents qui prient et chantèrent le soleil en plein vol,
Et apprenant, trop tard, qu’ils l’ont affligé dans sa course,
N’entrent pas sans violence dans cette bonne nuit.

Les hommes graves, près de mourir, qui voient de vue aveuglante
Que leurs yeux aveugles pourraient briller comme météores et s’égayer,
Ragent, s’enragent contre la mort de la lumière.

Et toi, mon père, ici sur la triste élévation
Maudis, bénis-moi à présent avec tes larmes violentes, je t’en prie.
N’entre pas sans violence dans cette bonne nuit.
Rage, enrage contre la mort de la lumière.

*

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

***

Dylan Thomas (1914-1953) – Vision et Prière (Poésie/Gallimard, 1991) – Traduit de l’anglais par Alain Suied.

T.S. Eliot | Les Hommes creux (The Hollow Men, 1925)

Ce poème célèbre a notamment servi de référence dans des films comme « Apocalypse Now » où Kurtz (Marlon Brando) lit à voix haute The Hollow Men de T.S Eliot ou plus récemment dans le film « Control » de Anton Corbijn consacrée à la vie du chanteur de Joy Division, où Ian Curtis écrit une lettre à sa femme en citant ce poème.

LES HOMMES CREUX

I

Nous sommes les hommes creux
Les hommes empaillés
Cherchant appui ensemble
La caboche pleine de bourre. Hélas !
Nos voix desséchées, quand
Nous chuchotons ensemble
Sont sourdes, sont inanes
Comme le souffle du vent parmi le chaume sec
Comme le trottis des rats sur les tessons brisés
Dans notre cave sèche.

Silhouette sans forme, ombre décolorée,
Geste sans mouvement, force paralysée ;

Ceux qui s’en furent
Le regard droit, vers l’autre royaume de la mort
Gardent mémoire de nous – s’ils en gardent – non pas
Comme de violentes âmes perdues, mais seulement
Comme d’hommes creux
D’hommes empaillés.

II

Les yeux que je n’ose pas rencontrer dans les rêves
Au royaume de rêve de la mort
Eux, n’apparaissent pas:
Là, les yeux sont
Du soleil sur un fût de colonne brisé
Là, un arbre se balance
Et les voix sont
Dans le vent qui chante
Plus lointaines, plus solennelles
Qu’une étoile pâlissante.

Que je ne sois pas plus proche
Au royaume de rêve de la mort
Qu’encore je porte
Pareils francs déguisements: robe de rat,
Peau de corbeau, bâtons en croix
Dans un champ
Me comportant selon le vent
Pas plus proche –

Pas cette rencontre finale
Au royaume crépusculaire.

III

C’est ici la terre morte
Une terre à cactus
Ici les images de pierre
Sont dressées, ici elles reçoivent
La supplication d’une main de mort
Sous le clignotement d’une étoile pâlissante.

Est-ce ainsi
Dans l’autre royaume de la mort:
Veillant seuls
A l’heure où nous sommes
Tremblants de tendresse
Les lèvres qui voudraient baiser
Esquissent des prières à la pierre brisée.

IV

Les yeux ne sont pas ici
Il n’y a pas d’yeux ici
Dans cette vallée d’étoiles mourantes
Dans cette vallée creuse
Cette mâchoire brisée de nos royaumes perdus

En cet ultime lieu de rencontre
Nous tâtonnons ensemble
Evitant de parler
Rassemblés là sur cette plage du fleuve enflé

Sans regard, à moins que
Les yeux ne reparaissent
Telle l’étoile perpétuelle
La rose aux maints pétales
Du royaume crépusculaire de la mort
Le seul espoir
D’hommes vides.

V

Tournons autour du fi-guier
De Barbarie, de Barbarie
Tournons autour du fi-guier
Avant qu’le jour se soit levé.

Entre l’idée
Et la réalité
Entre le mouvement
Et l’acte
Tombe l’Ombre

Car Tien est le Royaume

Entre la conception
Et la création
Entre l’émotion
Et la réponse
Tombe l’Ombre

La vie est très longue

Entre le désir
Et le spasme
Entre la puissance
Et l’existence
Entre l’essence
Et la descente
Tombe l’Ombre

Car Tien est le Royaume

Car Tien est
La vie est
Car Tien est

C’est ainsi que finit le monde
C’est ainsi que finit le monde
C’est ainsi que finit le monde
Pas sur un Boum, sur un murmure.

***

T.S. Eliot (1888-1965) – La terre vaine et autres poèmes [1922; 1976 pour la traduction française] (Éditions du Seuil, Collection Points Poésie, 2006) – Traduction de Pierre Leyris.

T.S. Eliot | La Chanson d’amour de J. Alfred Prufrock (The Love Song of J. Alfred Prufrock, 1917)

T.S. Eliot – La Chanson d’amour de J. Alfred Prufrock (The Love Song of J. Alfred Prufrock, 1917)
——
La Chanson d’amour de J. Alfred Prufrock décrit les états d’âme d’un homme dans la quarantaine, esseulé et sans amour, conscient que ses aspirations et ses envies sont beaucoup plus profondes que celles du reste du monde. L’orateur sait que les femmes ne le regarderont pas s’il n’attire pas leur attention par quelques actes violents ; il ressent la nécessité d’attirer l’attention mais craint d’être rejeté et raillé. Un des éléments thématiques principaux du poème est d’ailleurs le vieillissement : L’orateur contemple les détails de sa détérioration physique, et médite l’idée d’une mort imminente.
——
Allons-nous en donc, toi et moi,
Lorsque le soir est étendu contre le ciel
Comme un patient anesthésié sur une table :
Allons par telles rues que je sais, mi-désertes
Chuchotantes retraites
Pour les nuits sans sommeil dans les hôtels de passe
Et les bistrots à coquilles d’huîtres, jonchés de sciure :
Ces rues qui poursuivent, dirait-on, quelque dispute interminable
Avec l’insidieux propos
De te mener vers une question bouleversante…
Oh! ne demande pas : « Laquelle ? »
Allons plutôt faire notre visite.
 
Dans la pièce les femmes vont et viennent
En parlant des maîtres de Sienne.
 
Le brouillard jaune qui frotte aux vitres son échine,
Le brouillard jaune qui frotte aux vitres son museau
A couleuvré sa langue dans les recoins du soir,
A traîné sur les mares stagnantes des égouts,
A laissé choir sur son échine la suie qui choit des cheminées,
Glissé le long de la terrasse, bondi soudain,
Et voyant qu’il faisait un tendre soir d’octobre,
S’est enroulé autour de la maison, puis endormi.
 
Et pour sûr elle aura le temps,
La jaunâtre fumée qui glisse au long des rues,
De se frotter l’échine aux vitres ;
Tu auras le temps, tu auras le temps
De te préparer un visage pour les visages de rencontre ;
Le temps de mettre à mort et de créer,
Le temps qu’il faut pour les travaux et jours des mains
Qui soulèvent, puis laissent retomber une question sur ton assiette :
Temps pour toi et temps pour moi,
Temps pour cent hésitations,
Pour cent visions et révisions,
Avant de prendre une tasse de thé.
 
Dans la pièce les femmes vont et viennent
En parlant des maîtres de Sienne.
 
Et pour sûr j’aurai bien le temps
De me demander: « Oserai-je ? » et « Oserai-je ? »
Le temps de me retourner et de descendre l’escalier
Avec une couronne chauve au sommet de ma tête…
(Et l’on dira : « Mais comme ses cheveux se font rares! »)
Ma jaquette, mon faux col montant avec fermeté jusqu’au menton,
Ma cravate riche et modeste rehaussée d’une discrète épingle…
(« Voyez comme ses bras et ses jambes sont grêles ! »)
Oserai-je
Déranger l’univers ?
Une minute donne le temps
De décisions et de repentirs qu’une autre minute renverse.
 
Car je les ai connus, je les ai tous connus –
J’ai connu les soirées, les matins, les midis,
J’ai mesuré ma vie avec des cuillers à café;
Je sais les voix mourantes dans une mourante retombée
Sous la musique venue d’une pièce lointaine
Comment, dès lors, me risquerais-je ?
 
Et j’ai connu les yeux, je les ai tous connus –
Ceux qui vous rivent au moyen d’une formule
Et une fois mis en formule, une fois étalé sur une épingle,
Une fois épinglé et me tordant au mur,
Comment, dès lors, commencerais-je
A cracher les mégots de mes jours et détours ?
Comment, dès lors, me risquerais-je ?
 
Et j’ai connu les bras déjà, oui, tous connus…
Les bras cernés de bracelets et blancs et nus
(Mais sous la lampe duvetés de châtain clair !)
Est-ce un parfum de robe
Qui me fait ainsi divaguer ?
Les bras couchés sur une table, les bras qui enroulent un châle.
Devrais-je dès lors me risquer ?
Comment devrais-je commencer ?
 
Dirai-je : j’ai passé à la brune par des rues étroites,
Et j’ai vu la fumée qui s’élève de la pipe
Des hommes solitaires penchés en bras de chemise à leur fenêtre ?
 
Que n’ai-je été deux pinces ruineuses
Trottinant par le fond des mers silencieuses.
 
L’après-midi, le soir dort si paisiblement !
Lissé par de longs doigts,
Assoupi… épuisé… ou jouant le malade,
Couché sur le plancher, près de toi et de moi.
Devrais-je, après le thé, les gâteaux et les glaces,
Avoir le nerf d’exacerber l’instant jusqu’à sa crise ?
Mais bien que j’ai pleuré et jeûné, pleuré et prié,
Bien que j’ai vu ma tête (qui commence à se déplumer) offerte sur un plat,
Je ne suis pas prophète… et il n’importe guère ;
Ma grandeur, j’en ai vu le moment vaciller,
Mais j’ai vu l’éternel Laquais tenir mon pardessus et ricaner,
En un mot j’ai eu peur.
 
Aurait-ce été la peine, après tout,
Après les tasses, le thé, la marmelade d’orange
Parmi les porcelaines et quelques mots de toi et moi,
Aurait-ce été la peine
De trancher bel et bien l’affaire d’un sourire,
De triturer le monde pour en faire une boule,
De le rouler vers une question bouleversante,
De dire : « Je suis Lazare et je reviens d’entre les morts,
Je reviens pour te dire tout, je te dirai tout » –
Si certaine, arrangeant un coussin sous sa tête,
Avait dit : « Non, ce n’est pas ça du tout;
Ce n’est pas ça du tout que j’avais voulu dire. »
 
Aurait-ce été la peine, après tout,
Aurait-ce été la peine,
Après les arrière-cours, les couchers du soleil et les rues qu’on arrose,
Après les tasses de thé et les romans, après les jupes qui traînent sur le plancher –
Et ceci et tant d’autres choses ?
Ah! comment exprimer ce que je voudrais dire ?
Mais comme si une lanterne magique projetait le motif des nerfs sur un écran:
Aurait-ce été la peine si certaine,
Arrangeant un coussin ou rejetant un châle,
S’était tournée vers la fenêtre en déclarant:
« Ce n’est pas ça du tout,
Ce n’est pas ça du tout que j’avais voulu dire. »
 
Le Prince Hamlet ? Non pas, je n’ai jamais dû l’être ;
Mais un seigneur de la suite, quelqu’un
Qui peut servir à enfler un cortège
A déclencher une ou deux scènes, à conseiller
Le prince ; assurément un instrument commode,
Déférent, enchanté de se montrer utile,
Politique, méticuleux et circonspect ;
Hautement sentencieux, mais quelque peu obtus ;
Parfois, en vérité, presque grotesque –
Parfois, presque, le Fou.
 
Je vieillis, je vieillis…
Je ferai au bas de mes pantalons un retroussis.
 
Partagerai-je mes cheveux sur la nuque ? Oserai-je manger une pêche ?
Je vais mettre un pantalon blanc et me promener sur la plage.
J’ai, chacune à chacune, ouï chanter les sirènes.
 
Je ne crois guère qu’elles chanteront pour moi.
Je les ai vues monter les vagues vers le large
Peignant les blancs cheveux des vagues rebroussées
Lorsque le vent brasse l’eau blanche et bitumeuse.
 
Nous nous sommes attardés aux chambres de la mer
Près des filles de mer couronnées d’algues brunes
Mais des voix d’hommes nous réveillent et nous noient.
 
***
 
T. S. Eliot (1888-1965) – La terre vaine et autres poèmes (Points) – Traduit de l’anglais par Pierre Leyris.

A Náusea | Jean Paul Sartre

Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea. Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante? Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta. Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca… E subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi. A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.

Jean-Paul Sartre

A arte do azulejo em Portugal e no Brasil | Clara Emília Sanches Monteiro de Barros Malhano e Hamilton Botelho Malhano | por Adelto Gonçalves

                                                     I

Considerada arte menor ou apenas decorativa, a azulejaria ganha agora foro de expressão artística com o estudo Desenhadores & Azulejeiros – Ensino e Aprendizagem, Arquitetura e História (Rio de Janeiro, Synergia Editora, 2018), de Clara Emília Sanches Monteiro de Barros Malhano e Hamilton Botelho Malhano (1947-2017), que resgata a história de vida de dois artistas portugueses – José Colaço (1868-1942) e Manuel Félix Igrejas (1928) –, além de analisar o ensino das Belas Artes no Brasil, o que inclui a azulejaria, e a sua relação com a arquitetura neocolonial e modernista. Para tanto, o trabalho, segundo definição dos autores, procura entender as “técnicas artesanais, manufatureiras e industriais da produção cerâmica azulejeira luso-brasileira em relação a outras produções de azulejos enquanto arte de caráter internacional”.

Nascido no Tânger, Marrocos, Colaço, de origem aristocrata, com formação acadêmica, pensou em emigrar para o Brasil e chegou a adquirir bilhete de viagem, mas deixou de fazê-lo porque a morte o alcançou antes, já na idade madura. Deixou atrás de si uma série de trabalhos, dos quais os mais famosos são os painéis de azulejos que decoram o grande átrio da Estação de São Bento, no Porto, desde 1915, e até hoje encantam os passageiros que por lá passam pela primeira vez ou não, e a parede de uma sala na Casa do Alentejo, próxima aos Restauradores, em Lisboa, de 1918.  No Brasil, porém, é mais conhecido pelos painéis da fachada principal do Estádio de São Januário, do Clube de Regatas Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, que produziu na década de 1930.

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ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS | Silas Correa Leite | Lançamento

Romance místico, romance religioso ou romance ecumênico? Depois de Goto, A Lenda do Reino Encantado do Barqueiro Noturno do Rio Itararé, pela Clube de Autores Editora, SC, romance pós-moderno (considerado a melhor obra do escritor); depois do gracioso Gute-Gute, Barriga Experimental de Repertório, Editora Autografia-RJ, e depois do revoltado Tibete-De quando você não quiser mais ser gente, Editora Jaguatirica, RJ, três romances de peso e agraciados por boas críticas literárias de renome, o escritor, ciberpoeta, ensaísta, crítico literário e então por isso mesmo romancista, Silas Correa Leite, de Itararé-SP, premiado em diversos concursos literários, lança finalmente o romance ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS, primeiro de uma trilogia. Este livro começou a ser escrito em 1998, terminado em 2015, e só agora finalmente lançado pela Sendas Editora do grupo Kotter Editorial de Curitiba-PR.

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Contos que exalam perfume | Helio Brasil | por Adelto Gonçalves

I
Depois de ambientar os seus dois primeiros romances – A última adolescência (Bom Texto, 2004) e Ladeira do Tempo-Foi (Synergia Editora, 2017) – no tradicional bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, o escritor Helio Brasil retorna aos contos, gênero em que fez sua estreia tardia na literatura, aos 64 anos de idade, com a publicação de O anjo de bronze e outros contos (Oficina do Livro, 1994). Desta vez, em O perfume que roubam de ti… e outras histórias (Synergia Editora, 2018), título assumidamente inspirado nos versos da famosa canção “As rosas não falam”, dos compositores cariocas Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980), e Guilherme de Brito (1922-2006), reúne 26 contos que retratam personagens de diversos momentos da vida brasileira, desde o Brasil Colônia até os dias atuais.
Aparentemente, estas histórias são o resultado de uma vida inteira dedicada ao vício da literatura, amor escondido a sete chaves até que, já na idade madura, o autor, arquiteto de talento reconhecido por suas obras no Rio de Janeiro e também celebrado como professor universitário, resolveu deixar o excesso de modéstia de lado e transformar-se também em escritor. Ganhou a literatura de Língua Portuguesa, pois, desde então, o autor passou a fazer parte de um seleto grupo de escritores cujas carreiras começaram tardiamente, o que não os impediu de alcançar a fama e o reconhecimento literário, de que bons exemplos são José Saramago (1922-2010), Pedro Nava (1903-1984) e Cora Coralina (1889-1985).
Agora, Helio Brasil decidiu revirar o baú para dar a público histórias inéditas que reúnem todos os sentimentos humanos, os bons e os maus, como amor, violência, solidão, preconceito, heroísmo, conspirações, desejo, fé, traição, intrigas, sedução, mistério e outros. Ao mesmo tempo, reedita alguns contos que já haviam sido publicados anteriormente em coletâneas.

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Madrugada | Paulo Fonseca

Refém 
da desordem tresloucada…
ergonomia do caos,
cristal assolapado,
vínculo quebrado
que alui
num fado…
foguetório,
desdém sem retorno,
fundida luminária,
império prostrado
no colo da alimária
média…
Tanto amor vingou,
tanta história se levantou
da magna pátria…
Cantos,
epopeias,
sonhos,
raízes que rasgaram o ventre
da terra mãe
…e floriram…
Flores
seduziram
amores….
Sol
e chuva
e olhos chorados
emoção incontida
sorriso,
gargalhada,
arrepio,
volúpia apaixonada…
poros
de pele,
erectos,
comovidos,
multidão,
corações acelerados,
batendo,
dilacerados…
tombo
de caule que murcha…
voo
de gume afiado…
rasante
que corta,
agride,
amassa…
punhal selectivo
destrutivo…
erva daninha
definha
o meu ser
Portugal…
louca,
loucura
nação valente
acorda…
sonha de novo,
agita este Povo,
acende o futuro
destrói a erva daninha…
muda o feitio,
desafio,
para cantar
outra vez…

 

Paulo Fonseca

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Fonseca

Poème | Malika Mellal

Mystère insondable de son esprit 
Énigme fascinante reliée à sa vie
Naissance magique de son génie
Tigre sacré qui feule du fond des nuits
Enchanteur quand il sourit
Nulle part il existe un être comme lui
Du fond des âges il tire son savoir
Souffle sur ma vie un coup de Blizzard
Tout s’arrête quand loin de moi il part
Union du feu et du vent
Délicieux brasier incandescent
Élève mon âme au firmament
Lien précieux nourri d’encens
Attirance électrique , je deviens aimant.
Paroles subtiles , mots élégants
Raffinement d’un autre temps
Intense charme insolent
Sincère tendresse aux mots troublants
Ode d’amour dans ses yeux noirs
Noie mon cœur dans son regard
Détient mon âme dans sa mémoire
Éteint mon ciel quand il s’égare
Tantôt ange ou bien démon
Observe le moindre de mes sillons
Nébuleux d’un sombre profond
Charmée par la pointe de son harpon
Ondes sensuelles au diapason
Entente parfaite, ma fusion
Unique raison de ma déraison
Rare esprit il est ma passion.

Malika Mellal novembre 2018

Retirado do Facebook | Mural de Malika Mellal

Rejeição (e atracção) | Tiago Salazar

Desde o primeiro instante, apesar de um encantamento, um déja-vu, uma atracção inexplicável, do calor de um beijo dado, e outro, chega o momento de ambos se despirem e nenhum está despido para além do corpo. Dentro do corpo de ambos há um nervoso miudinho, a incerteza do que é o outro, quem frequentou, quantos corpos conheceu, quem fodeu, amou ou fornicou. Prevalece a vontade nervosa de mostrar um à-vontade inexistente. Estão ambos em rejeição do que se chama entrega. Duvidam, no fundo, por medo. É o medo que leva à rejeição. Um quer quase sempre mais do que o outro, embora a retração de um leve à rejeição do outro. Pode haver a suspeita de um que o outro dorme ou fode com outro. Pode haver a ideia de que a entrega total não existe, por niilismo. Pode haver a descrença fruto de relações falhadas, ou, mais atrás, de uma falha uterina, uma carência desmedida. Começa então o vaivém, do querer e não querer, do ir e voltar. A mulher pode ser romântica mas no seu íntimo desconfia e só se entrega uma em mil vezes, para algures no encontro querer sair depressa dos braços do amado. Pode querer mais, porque há um réstia de esperança nas suas capacidades de amar, de querer amar, de querer ser amada. Nunca viveu a experiência de amar e ser amada. Ou uma, ou outra, a maior parte das vezes nenhuma, caindo nas suas próprias armadilhas de caçadora de emoções. É uma amazona, ele um predador. Ambos são frágeis nas suas capacidades de se deixarem apenas o privilégio de sentir. Ambos são casados com outros, e o facto de se terem descoberto e de tardarem a encerrar os seus relacionamentos torna-os mais receosos. Rejeitam-se a amar-se.

Tiago Salazar

Retirado do facebook | Mural de Tiago Salazar

O INCÊNDIO DA BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA | Fonte: História do Mundo | in Facebook, Mural de Carlos Fino

Na sexta-feira da lua nova do mês de Moharram, no vigésimo ano da Hégira (isso equivale a 22 de dezembro de 640), o general Amr Ibn al-As, o emir dos agareus, conquistava Alexandria, no Egito, colocando a cidade sob o domínio do califa Omar. Era um dos começos do fim da famosa Biblioteca de Alexandria, construída por Ptolomeu Filadelfo no início do terceiro século a.C. para “reunir os livros de todos os povos da Terra” e destruída mais de mil anos depois.

A idéia de reerguer a mais formidável biblioteca de todos os tempos surgiu no final dos anos 70 na Universidade de Alexandria. Em 1988, o presidente egípcio, Hosni Mubarak, assentou a pedra fundamental, mas foi só em 1995 que as obras realmente começaram. O suntuoso edifício de 11 andares, que custou US 212 milhões, boa parte dos quais pago pela Unesco, foi concluído no ano passado. Só a sala de leitura da biblioteca principal tem 38.000 m2, a maior do mundo. O acervo, que ainda não foi inteiramente reunido, deverá contar com 5 milhões de livros. Será interessante ver como o governo egípcio, que não é exatamente um entusiasta das liberdades de informação e expressão, administrará as coisas. Haverá, por exemplo, um exemplar dos “Versos Satânicos” (obra de Salman Rushdie, tida como ofensiva ao Islã)? E quanto a livros que critiquem o próprio governo egípcio? Todos os cidadãos terão acesso a todas as obras? Mas não é tanto a nova biblioteca que me interessa, e sim a velha, mais especificamente a sua destruição.

Na verdade, seria mais correto falar em destruições. Como nos mitos, há na extinção da Biblioteca de Alexandria uma série de componentes políticos. A historieta com a qual iniciei esta coluna é uma das versões. É contra os árabes. Existem outras, contra os cristãos, contra os pagãos. Nenhum povo quer ficar com o ônus de ter levado ao desaparecimento da biblioteca que reunia “os livros de todos os povos”. É curioso, a esse respeito, que o site oficial da biblioteca (http://www.bibalex.gov.eg/) só registre as versões anticristã e antipagã. A contrária aos árabes é descartada sem nem mesmo ser mencionada. Utilizo aqui principalmente informações apresentadas pelo italiano Luciano Canfora, em seu excelente “A Biblioteca Desaparecida”. Continuar a ler

Onésimo Teotónio Almeida: “Haja um pouco de senso. O papel do historiador não é condenar a História, é narrar os factos, e explicar. ” in Jornal Público com JOSÉ RIÇO DIREITINHO

O livro O Século dos Prodígios — uma colecção de ensaios sobre a história da ciência no período da Expansão — acaba de ser publicado e distinguido com um prémio pela Fundação Calouste Gulbenkian. Onésimo Teotónio Almeida, o autor, falou com o PÚBLICO da nova mentalidade científica que surgiu em Lisboa no século XV.

Onésimo Teotónio Almeida (São Miguel, 1946) é professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros na Universidade de Brown, em Providence, nos Estados Unidos da América. O Século dos Prodígios (edição Quetzal) é o seu mais recente livro — que acaba de ser distinguido com o Prémio de História da Presença de Portugal no Mundo, da Fundação Calouste Gulbenkian — uma colecção de ensaios sobre a história da ciência no período da Expansão europeia, o dos Descobrimentos portugueses dos séculos XV e XVI.

Numa altura em que a palavra “Descobrimentos’” dá origem a algumas discussões acesas, e que, para alguns, será politicamente incorrecto usar, Onésimo Teotónio Almeida, em conversa com o PÚBLICO, disse que “descobrir não significa criar, inventar. Quando a Polícia descobre o criminoso, não o inventa. Os portugueses descobriram ilhas que não tinham ninguém nem estavam sequer mapeadas. Descobriram o caminho marítimo para a Índia, ninguém diz que os portugueses descobriram a Índia. Do resto são ‘Descobrimentos’ do ponto de vista europeu. Haja um pouco de senso. O papel do historiador não é condenar a História, é narrar os factos, e explicar. Na narrativa, lidamos com factos e com argumentos, não cabe absolver nem condenar a História.”

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O Século dos Prodígios vence Prémio História da Presença de Portugal no Mundo | Onésimo Teotónio de Almeida in Jornal Público

Um ensaio de Onésimo Teotónio Almeida, que se debruça sobre o carácter pioneiro da ciência portuguesa no período dos Descobrimentos, recebe prémio da Fundação Calouste Gulbenkian.

 O Século dos Prodígios, ensaio de Onésimo Teotónio Almeida, que se debruça sobre o carácter pioneiro da ciência portuguesa no período dos Descobrimentos, venceu o Prémio História da Presença de Portugal no Mundo, foi esta quinta-feira anunciado.

“O livro O Século dos Prodígios – A Ciência no Portugal da Expansão, de Onésimo Teotónio Almeida, foi anunciado, pela presidente da Academia Portuguesa de História (APH), Manuela Mendonça, como vencedor do Prémio Fundação Calouste Gulbenkian, História da Presença de Portugal no Mundo”, revelou a Quetzal, chancela que editou o livro.

O livro será lançado nesta sexta-feira e a cerimónia de entrega do prémio ocorrerá a 5 de Dezembro, nas instalações da APH, em Lisboa.

Trata-se de um prémio instituído pela APH e patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian, que visa galardoar obras históricas de reconhecido mérito.

Num momento em que se discute a importância e a natureza dos Descobrimentos, Onésimo Teotónio Almeida lembra, nesta obra ensaística, o carácter pioneiro da ciência portuguesa desse período.

“O nosso século XVI foi, verdadeiramente, um século de prodígios, cheio de inovação, de curiosidades e de especulação”, escreve.

Neste livro, Onésimo Teotónio Almeida presta especial atenção aos séculos XV e XVI, afastando-se tanto da perspectiva nacionalista (na qual incorrem com frequência os historiadores portugueses), como da indiferença que geralmente marca a historiografia anglo-saxónica – ao ignorar o papel que Portugal teve na história da ciência e do conhecimento, descreve a editora.

Um livro que é uma “revisitação desses anos de ouro da história portuguesa e a revelação de como, durante o ‘período da Expansão’, surgiu e cresceu um núcleo duro de pensamento e trabalho científico pioneiros, que tornou possíveis as viagens desses séculos – e dos posteriores”, acrescenta.

Durante as últimas décadas, como professor em universidades americanas, Onésimo Teotónio Almeida viu-se no papel de historiador da ciência portuguesa, papel para o qual — refere na introdução do livro — nem sempre estava tão preparado quanto desejava.

Contudo, foi aprofundando esses conhecimentos, através da análise e da recolha de informação.

Nascido em São Miguel, Açores, em 1946, Onésimo Teotónio Almeida doutorou-se em Filosofia pela Brown University e foi director de vários departamentos naquela universidade, onde lecciona uma cadeira sobre valores e mundividências.

Na Quetzal tem já publicados Despenteando Parágrafos e A Obsessão da Portugalidade.

https://www.publico.pt/2018/11/13/culturaipsilon/noticia/onesimo-teotonio-almeida-fascinio-novo-aconteceu-aqui-1850838

” Eu, pecadora, me confesso a Deus” | Maria Isabel Fidalgo

Lémen podia ser uma criança
perdida nos seus sonhos
uma folhagem deslumbrada
com um acontecer de primavera
uma ave
uma alba
uma nuvem
um céu musical aberto em rosa
uma cerejeira bicada de pássaros
uma erva macia onde o corpo caísse leve.
Lémen podia ser um outro olhar
uma casa horizontal
cuja voz acordasse os regatos
e meninos descalços enfeitassem de risos
as águas maculadas.
Lémen podia ser o coração do homem
antes do inferno
chamas de ódio
em corpos descarnados.
Lémen podia ser um um rosto
e não um esqueleto vivo
uma côdea de osso
sem força para chorar
a nossa culpa.

Maria isabel fidalgo

Desamores da portuguesa | Marta Barbosa Stephens por Adelto Gonçalves

                      I

Foi o escritor catalão Eduardo Mendoza, o romancista espanhol que mais vende livros na Espanha contemporânea, quem, a propósito da obra da escritora brasileira (de origem galega) Nélida Piñon, alertou este resenhista para o fato de que as mulheres olham para a vida por uma janela que sempre esteve vedada aos homens. Por isso, quando escrevem romances, criam personagens mais densas, provavelmente, porque as veem com maior sensibilidade.

Esta observação foi feita em janeiro de 1990, a uma mesa do café Samoa, que fica em frente à Casa Milà, também conhecida como La Pedrera, em Barcelona, e sua validade só tem sido confirmada ao longo destes 28 anos. De fato, essa observação pode ser confirmada também com a leitura do recém-lançado de Desamores da portuguesa, primeiro romance da escritora brasileira Marta Barbosa Stephens, que conta a história de vida de uma portuguesa, de 41 anos, sem nome, que vive um triplo autoexílio: do país, da língua e do passado.

Escrito em linguagem em que a autora demonstra domínio do ofício, como observa o escritor Luiz Ruffato na contracapa do livro, Desamores da portuguesa reconstitui a trajetória de uma mãe de três filhos que, em poucos anos, fracassara por três vezes na tentativa de formar uma família estável. E optara pela solidão, vivendo na fria Londres, longe de tudo e de todos, mas sem entender o que falavam nas calçadas, limitada apenas a rápidos diálogos com compatriotas. “Sua maior frustração era não ajudar as filhas nas tarefas escolares”, escreve a personagem que conta a história, uma brasileira, que, a exemplo da autora, também vive um autoexílio. “Ela não tentou aprender inglês, nem antecipou sua volta para casa. Insistiu a seu modo, esperando que um milagre a salvasse”.

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Les Onze mille verges ou les Amours d’un hospodar | Guillaume Apollinaire

« Mademoiselle, je ne vous ai pas plutôt aperçue que, fou d’amour, j’ai
senti mes organes génitaux se tendre vers votre beauté souveraine et je
me suis trouvé plus échauffé que si j’avais bu un verre de raki.
– Chez qui ? chez qui ?
– Je mets ma fortune et mon amour à vos pieds. Si je vous tenais dans
un lit, vingt fois de suite je vous prouverais ma passion. Que les onze
mille vierges ou même onze mille verges me châtient si je mens !
– Et comment !
– Mes sentiments ne sont pas mensongers. Je ne parle pas ainsi à
toutes les femmes. Je ne suis pas un noceur.
– Et ta sœur ! »
Cette conversation s’échangeait sur le boulevard Malesherbes, un matin
ensoleillé. Le mois de mai faisait renaître la nature et les pierrots parisiens
piaillaient d’amour sur les arbres reverdis. Galamment, le prince
Mony Vibescu tenait ces propos à une jolie fille svelte qui, vêtue avec élégance,
descendait vers la Madeleine. Il la suivait avec peine tant elle marchait
vite. Tout à coup, elle se retourna brusquement et éclata de rire :
« Aurez vous bientôt fini ; je n’ai pas le temps maintenant. Je vais voir
une amie rue Duphot, mais si vous êtes prêt à entretenir deux femmes
enragées de luxe et d’amour, si vous un homme enfin, par la fortune et la
puissance copulative, venez avec moi. »
Il redressa sa jolie taille en s’écriant :
« Je suis un prince Roumain, hospodar héréditaire.
– Et moi, dit-elle, je suis Culculine d’Ancône, j’ai dix-neuf ans, j’ai déjà
vidé les couilles de dix hommes exceptionnels sous le rapport amoureux,
et la bourse de quinze millionnaires. »
Et devisant agréablement de diverses choses futiles ou troublantes, le
prince et Culculine arrivèrent rue Duphot. Ils montèrent au moyen d’un
ascenseur jusqu’à un premier étage.

https://romainelubrique.org/IMG/pdf/apollinaire-onze-mille-verges_feedbooks.pdf

Publication: 1907
Catégorie(s): Fiction, Érotique
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II Encontro de Escritores no Chile | participação de Rita Pinheiro e Valdeck Almeida de Jesus, escritores baianos

A Garimpeira da Cultura Rita Pinheiro e o articulador cultural Valdeck Almeida de Jesus participam do evento internacional chileno “II Encuentro de Escritores Hispanoamericanos” organizado pela entidade “Abrazo de Escritores y Artistas Hispanoamericanos – AEAH”, sob a coordenação da poeta Nancy Arancibia em homenagem a Pablo Neruda. A reunião acontece em Santiago (Chile), entre os dias 7 e 10 de novembro de 2018, com uma vasta programação, incluindo palestras, leituras de poemas, visita a espaços culturais da cidade: Biblioteca Nacional, sede da Casa de la Sociedad de Escritores de Chile e Ilustre Municipalidad de San Bernardo; e finaliza com uma turnê turística noturna à capital chilena.

Participam poetas, escritores, cronistas e artistas da palavra de vinte e um países, dentre eles o Brasil, com dois representantes, Argentina e Estados Unidos. Os participantes vão doar livros para uma biblioteca a ser fundada, cujos nomes dos doadores constarão de uma placa quando da inauguração da entidade.

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Tomás Pinto Brandão, um poeta renascido e revivido | por Adelto Gonçalves

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Da vida do poeta seiscentista/setecentista Tomás Pinto Brandão (1664-1743), pouco se sabe, a não ser aquilo que ele mesmo deixou escrito em sua obra Vida socinta, e abreviada do autor – por hum dos Acadêmicos seu Contemporaneo, que consta da edição de 1753 do livro Pinto Renascido. Mas tomar como verdadeiro o que um poeta colocou em seus poemas nunca foi aceito como método de pesquisa pela historiografia porque, como se sabe, o vate não tem nenhum compromisso com a verdade e sempre deixa o seu alter ego fluir para além da imaginação.

Este pesquisador mesmo teve de enfrentar esse problema quando se decidiu por pesquisar a vida e a obra dos poetas Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) e Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). E, muitas vezes, à falta de documentos, não encontrou outra alternativa que não fosse recorrer ao futuro do pretérito para alinhavar alguma informação que constava de algum poema, mas sempre deixando claro que a fonte não seria confiável.

Nos casos de Gonzaga e Bocage, não faltam documentos de arquivo que permitam recompor a tumultuada trajetória que ambos percorreram, mas, de Pinto Brandão, de geração anterior, já não se pode dizer o mesmo. Até porque, ao contrário de Gonzaga, não foi funcionário régio e tampouco uma figura tão notória e polêmica em Lisboa como seria Bocage.

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1.º ENCONTRO NACIONAL DE MILITARES ESCRITORES | UNIVERSIDADE DE COIMBRA | 24 Outubro 2018

No dia 24 de outubro, realiza-se, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), o ”1.º Encontro Nacional de Militares Escritores”. No âmbito das comemorações do Dia do Exército Português, a sessão vai contar com os seguintes palestrantes: Coronel Manuel Barão da Cunha, Coronel Carlos de Matos Gomes, Coronel Nuno de Lemos Pires, Tenente-Coronel Pedro Marquês de Sousa, Tenente-Coronel Luís Brás Bernardino e Sargento-Chefe Jorge da Silva Rocha.

A sessão vai decorrer no Teatro Paulo Quintela (FLUC – 3.º Piso), a partir das 15 horas.

Nunca conheci um patrão de casa de putas! | Carlos Vale Ferraz e Carlos Matos Gomes | in Jornal Tornado

(Capitulo para um futuro romance) – Eu também não.

Este é um texto que descobri nos rascunhos do marginal escritor Carlos Vale Ferraz, autor de um primeiro romance a que deu o título de Nó Cego, onde enreda as aventuras da geração que arriou as velas do fim de império africano.

Uma anti-epopeia que não merece sequer um registo nos planos nacionais de leitura, porque os juízos literários são isentos de boas vírgulas e prenhos de frases amendoadas. Dele disse ele no intróito do Nó Cego: “o autor  é pacato e gordo, cai-lhe o cabelo e escreve de noite com os óculos na ponta do nariz…” e, mais adiante: “Por si, garante, a Pátria não verá aumentada a galeria dos ilustres e não ganhará feriado em dia de morte ou de centenário.”

Não será tanto assim. Ou não foi. Descobri que esse tal Carlos Vale Ferraz pode ser agora gordo e careca, mas já foi, recolhido de fontes seguras, um belo valdevinos. Belo é autopromoção. Vaidade. Valdevinos é uma boa legenda para a foto antiga.

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Reza uma lenda do Séc. XIX que um dia a Verdade e a Mentira encontraram-se | Autor desconhecido

Reza uma lenda do Séc. XIX que um dia a Verdade e a Mentira encontraram-se. Diz a Mentira à Verdade: “Está um dia tão bonito”. E estava de facto um dia muito bonito. Passam algum tempo juntas até que chegam junto de um poço. ” A água está tão agradável, porque não tomamos um banho as duas?” sugere a Mentira. A Verdade, embora reticente, lá toca na água e a água estava realmente agradável. Despem-se então e banham-se. De repente a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge. A Verdade salta do poço e corre todos os lugares para encontrar a Mentira e recuperar as suas vestes. O Mundo, vendo-se confrontado com a nudez da Verdade, revira os olhos, entre o desprezo e a raiva. A Verdade volta então ao poço onde desaparece para sempre, escondendo a sua vergonha.
Desde então a Mentira tem percorrido o Mundo com as roupas da Verdade, satisfazendo os caprichos das pessoas e das sociedades, e o Mundo, esse, continua a recusar-se a encarar a Verdade nua.

(A Verdade a sair do poço, Jean-Léon Gérôme, 1896)​

Lançamento do livro “Poéticas Periféricas: novas vozes da poesia soteropolitana” | Valdeck Almeida de Jesus

O lançamento será dia 12 de outubro de 2018, das 19 às 20:30hs, no restaurante Dom Pepe (antigo Pouso da Palavra), em Cachoeira-BA, durante a Flica – Festa Literária Internacional de Cachoeira.

Galinha Pulando lança Poéticas Periféricas em Cachoeira

A antologia “Poéticas periféricas: novas vozes da poesia soteropolitana”, reúne textos de poetas da periferia de Salvador-BA e será lançada no dia 12 de outubro de 2018 (sexta-feira), das 19 às 20:30hs, no restaurante Dom Pepe (antigo Pouso da Palavra), na praça da Aclamação, Cachoeira-BA, durante a Festa Literária Internacional de Cachoeira – FLICA. O evento acontece na programação da editora Cogito e Ligia Benigo Produção Cultural.

templado pelo Calendário das Artes da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb/SecultBA), o livro reúne cerca de 100 autores e é resultado do trabalho coletivo de vários protagonistas de saraus, slams, grupos e coletivos de artistas da palavra, oriundos das periferias de Salvador. Textos de apresentação: Tia Má, Dhay Borges e Geilson dos Reis. Capa de Marcos Paulo Silva e Alisson Chaplin. A juventude da Bahia ocupa o centro e os bairros de Salvador como nunca antes na história, em luta, através da poesia, por espaço na cena literária e contra as opressões como racismo, genocídio dos jovens negros, intolerância religiosa etc. São centenas de grupos de saraus que recitam em ônibus, praças, esquinas. Este livro é uma compilação de parte dessa produção poética.

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O menino no Espelho | Fernando Sabino

O homem disse que tinha de ir embora – antes queria me ensinar uma coisa muito importante:
– Você quer conhecer o segredo de ser um menino feliz para o resto de sua vida?

– Quero – respondi.
O segredo se resume em três palavras, que ele pronunciou com intensidade, mãos nos meus ombros e olhos nos meus olhos: – Pense nos outros.”

[O menino no Espelho]
Fernando Sabino

Retirado do Facebook | Mural de Marcia Lailin Mesquita 

LQ, escrevinhando

Cacilda vai cabisbaixa a pontapear uma ou outra pedrita, a afastar os cabelos e a prendê-los atrás das orelhas, em gestos maquinais, repetidos. O corpo, agora muito delgado, dá-lhe um ar de rapariguinha precocemente envelhecida, mas ainda bonita, da beleza suave que certas mulheres ganham quando se aproximam da descida, sem atavios de tardia sedução, num despojamento de quem já aprendeu o amor e o esquecimento. É o ruído do fio de água a correr da bica da fonte que a faz aproximar-se, estender as mãos, delas fazer concha, nelas levar a água à boca, beber, deixar que escorra e molhe o vestido, os braços. Percebe-se na mulher um momento de prazer que a faz virar o rosto para o sol, fechar os olhos e assim ficar um tempo breve no desvão do silêncio onde não cabem vozes ásperas, gestos brutos, olhares que são prenúncio de tormenta.

LQ, escrevinhando

Retirado do Facebook | Mural de Licínia Quitério

FRAGMENTO DO ROMANCE “IMITAÇÃO DO PRAZER”, DE 1977 | Casimiro de Brito | Nú de Amadeo Modigliani

Arrumámos o carro debaixo de uma oliveira, lembras-te? Iniciavas o teu conhecimento prático das árvores e dos bichos e ficámos por ali um pouco a falar do mecanismo das colheitas e dos preços. Arrumámos o carro, pegámos nas coisas (duas toalhas, um livro, algumas peças de fruta) e entrámos por um caminho riscado na terra lavrada. Terra clara, culturas da beira-mar, areias castanhas, areias agora mais claras, quanto mais próximas do mar mais claras, figueiras e vinhas, clareando ainda, plantas agora espontâneas, rasteiras, e por fim as dunas, a praia, o mar. E, sobre tudo, um céu narcotizado. Como se não existisse.

Uma praia despida. Areia apenas. O desenho de uma criança ou de um louco.E dois corpos estendidos ao sol, reencontrados: como se não tivéssemos vindo um das dunas e o outro do mar — como se tivéssemos naufragado após séculos de usura e de podridão, abraçámo-nos sem ênfase.
Pousámos a cabeça num montículo de areia coberto pelas toalhas. O mar desdobrava-se a nossos pés.
Página sobre página, os nossos corpos nus. E um poema.

Lembro-me do poema porque o assinalámos com uma concha. Finíssima. Uma quase lâmina.
Lembro-me da página porque eu te disse que gostaria de ter escrito para ti aquele poema, este, de Octavio Paz:

“Entre tus piernas hay un pozo de agua dormida,
bahía donde el mar de noche se aquieta,
negro caballo de espuma,
patria de sangre,
única tierra que conozco y me conoce,
única patria en la que creo
única puerta al infinito…

E lembro-me que os teus ombros se erguiam lentamente à medida que o meu braço te envolvia e a mão aberta pousava pouco a pouco no teu seio esquerdo. E no outro. E no primeiro. Seios pequenos. E procurava pousar nos dois ao mesmo tempo.

Modigliani, lembras-te? Sopro de Modigliani. Seios nus, desatados. Acesos.

Pouco a pouco acesos. Palavras poucas. E os meus dedos escoavam-se nos mamilos cada vez mais duros (o livro caído na areia), e os teus dedos enovelavam-se nos meus joelhos, e tudo isto lenta, lentamente, dentro ainda da claridade do dia, metálicos ainda, era um filme submarino, uma câmara lenta, e metálicos ainda estamos, somos, quando pouco os meus lábios nos teus e não os cravo ou apenas um pouco nada quase e só depois com violência ou talvez não muita ou quase nenhuma.

Casimiro de Brito

Retirado do Facebook | Mural de Casimiro de Brito