Dia Mundial do Livro | Maria Isabel Fidalgo

Dedico ao meu olhar o livro 
pejado de ruas onde me passeio
e me sinto resvalar por atalhos e vielas
mapas de mundos abertos
para a lucidez das janelas.
Meu amigo fiel e companheiro
no livro busco o que não tenho
nas horas incompletas:
o outro olhar das coisas
o ser e o sentir
o ver que me não cegue
para a poeira das horas
para o abismo crepuscular
para a surdez da névoa
para o patamar estagnado
do sossego.
Dedico o meu olhar às linhas
que trazem o rumor dos astros
e o silêncio triste dos aflitos
e quanto mais as leio
mais as sinto tremeluzir
numa carícia de água
donde jorram as fontes.

maria isabel fidalgo

The 50 Greatest Books | Dia Mundial do Livro

This list is generated from 116 “best of” book lists from a variety of great sources. An algorithm is used to create a master list based on how many lists a particular book appears on. Some lists count more than others. I generally trust “best of all time” lists voted by authors and experts over user-generated lists. On the lists that are actually ranked, the book that is 1st counts a lot more than the book that’s 100th. 

http://thegreatestbooks.org

1 . In Search of Lost Time by Marcel Proust

Image of In Search of Lost Time

Swann’s Way, the first part of A la recherche de temps perdu, Marcel Proust’s seven-part cycle, was published in 1913. In it, Proust introduces the themes that run through the entire work. The narr…

2 . Don Quixote by Miguel de Cervantes

Image of Don Quixote

Alonso Quixano, a retired country gentleman in his fifties, lives in an unnamed section of La Mancha with his niece and a housekeeper. He has become obsessed with books of chivalry, and believes th…

3 . Ulysses by James Joyce

Image of Ulysses

Ulysses chronicles the passage of Leopold Bloom through Dublin during an ordinary day, June 16, 1904. The title parallels and alludes to Odysseus (Latinised into Ulysses), the hero of Homer’s Odyss…

4 . The Great Gatsby by F. Scott Fitzgerald

Image of The Great Gatsby

The novel chronicles an era that Fitzgerald himself dubbed the “Jazz Age”. Following the shock and chaos of World War I, American society enjoyed unprecedented levels of prosperity during the “roar…

5 . Moby Dick by Herman Melville

Image of Moby Dick

First published in 1851, Melville’s masterpiece is, in Elizabeth Hardwick’s words, “the greatest novel in American literature.” The saga of Captain Ahab and his monomaniacal pursuit of the white wh…

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Capitão de Abril, Capitão de Novembro | Rodrigo Sousa e Castro

Dos pecados mortais de Spínola às armas em boas mãos de Otelo

COMO JAIME NEVES NÃO QUIS SER NOVAMENTE HERÓI. OS «PECADOS MORTAIS» DE SPÍNOLA. OTELO PÕE AS ARMAS EM «BOAS MÃOS».

O coronel Sousa e Castro foi um dos mais destacados protagonistas do ciclo de mudanças políticas, militares e sociais que Portugal viveu entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Neste livro, Rodrigo Sousa e Castro faz o relato de um dos períodos mais turbulentos do século XX português.

Percorremos com o autor os bastidores da história. Como ele somos espectadores privilegiados e emocionados da preparação do 25 de Abril, do plano de batalha que os capitães traçaram e da explosão pós-revolucionária que se lhe seguiu.

Sousa e Castro mostra-nos sobretudo a face oculta da história. O verdadeiro teatro que foi o Verão Quente de 75, a contagem de espingardas que precedeu o 25 de Novembro, e o definitivo estabelecimento da democracia que nesse dia Portugal ganhou.

No «quem é quem» e no «quem fez o quê» da história, Rodrigo Sousa e Castro revela-nos muitas surpresas e estilhaça alguns mitos.

« […] é curioso ver como Rodrigo de Sousa Castro chegou a 1974, como descreve o 16 de Março, o 25 de Abril e o 25 de Novembro, como critica Spínola ou Otelo, como faz sobressair Vasco Lourenço, Melo Antunes e Eanes, como conta a sua experiência de conselheiro da Revolução.» Do prefácio de MARCELO REBELO DE SOUSA.

O Evangelho segundo Lázaro | Richard Zimler

“O Evangelho segundo Lázaro, sobre o mais extraordinário dos milagres atribuídos a Jesus, é o melhor de todos os romances de Richard Zimler, um escritor de estórias eruditas, de grande sensibilidade e profunda dimensão humana.” Laurentino Gomes

“Zimler escreve de modo íntimo sobre as temáticas bíblicas. A sua admirável narrativa é um modo de convívio sábio e belo com esse tempo tão fundador da cultura do mundo. Este é um livro viciante, esplendor puro de Richard Zimler.” Valter Hugo Mãe

No Novo Testamento, ficamos sabendo que Jesus ressuscitou um amigo próximo de nome Lázaro. Contudo, em parte alguma do Evangelho segundo São João – que contém esse episódio – se menciona como ele realizou o milagre, ou se teria algum motivo especial para fazê-lo.

O Evangelho segundo Lázaro preenche essas e outras lacunas ao narrar a história da perspectiva de Lázaro, descrevendo como ele e Jesus se conheceram quando crianças, a transcendência da ligação que os une e o momento em que Lázaro acordou no túmulo, desorientado e sem qualquer memória de uma vida após a morte.

A narrativa, resultada de uma pesquisa histórica minuciosa, é rica em detalhes e retrata com fidelidade o período, sem deixar de lado o intimismo.

Com a voz inconfundível de Richard Zimler, O Evangelho segundo Lázaro é um romance completo que irá, sem dúvidas, prender o leitor até as últimas linhas, ainda que seu desfecho já seja conhecido.

Ensina-me a Voar sobre os Telhados | João Tordo

SINOPSE

1917. Por desonrar o nome da família, o jovem Katsuro é exilado pelo seu próprio pai, um poderoso governador, num ilhéu inóspito. Abandonado, o rapaz irá deparar-se, pela primeira vez, com o terrível segredo da família Tsukuda, enquanto luta para sobreviver à fome, à sede e à culpa.

Lisboa, cem anos depois. No Liceu Camões, um dos mais antigos da cidade, um professor de Geografia suicida-se numa sala de aula. O nosso narrador, funcionário do liceu e alcoólico em recuperação, decide inaugurar uma reunião semanal para ajudar os colegas a superar o choque. Numa noite de Inverno, um misterioso desconhecido aparece no encontro. É japonês e chama-se Tsukuda. O seu estranho comportamento desperta no narrador um fascínio doentio. Ambos são perseguidos pelo passado, ambos desejam o impossível.

Algures entre o sonho e a mais pura realidade, Ensina-me a voar sobre os telhados é um lugar onde um pai e um filho aprendem a amar-se,é um espaço onde se procura aceitar dores antigas e abraçar a fragilidade humana. Um romance que é uma elegia à beleza imperfeita da vida.

O mundo teve um sonho … | Paulo Fonseca, 04 Abril 2018

Faz hoje 50 anos que o mundo teve um sonho….
e faz hoje 50 anos que morreu a inspiração desse sonho….
e faz hoje,
(todos os dias faz…..)
faz hoje anos 
que morreu Martin Luther King,
Cinquenta anos
tão curtos
que não chegaram pr’a sonhar….
apesar de mil sonhos
que pudemos trautear.
Cinquenta anos de sonhos
que não pudemos sonhar….
Cinquenta anos de sonhos
que é preciso semear….
Se fosse vivo,
Luther King
teria uma campanha jornalística
a descobrir
e publicar
que ressonava,
ou fungava,
ou chorava,
ou mijava….
Certamente seria menos
que o infinito
que Foi….
Se fosse vivo….
certamente descobririam
que foi preto,
que seria religioso,
que seria defeituoso,
que teria ligações,
que viveria aos encontrões….
Como está vivo,
disfarçado de morto,
Luther King
foge aos holofotes
e deixa-os aos pinotes
de saudade….
de puberdade
nos valores….
Há pessoas
que têm o condão de abanar….
de acender o avançar….
de olhar nos olhos do mundo,
num clamor,
e fecundar….
o Amor….

Paulo Fonseca

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Fonseca

Ma cage | Malika Mellal

Tu dessinais autour de moi
Des paysages où tout flamboie.
Tu traçais des chemins divins
Où chaque pas mène à un écrin.
Tu peignais de toutes les couleurs
Le vide qui régnait dans mon cœur.
J’écoutais ta voix chaque matin
Me délivrer des mots câlins.
Tu caressais du bout des doigts
Mon corps offrant ses beaux émois.
Tu me menais doucement par la main
Vers cet abîme , mon quotidien.
Cette cage où tu m’as enfermée,
Ma vie que tu as désertée,
Sans mot et sang froid,
Du jour au lendemain, comme ça.
Tu me fais grâce parfois
D’une belle rose sans éclat.
Tu dresses plus haut chaque jour
Ce mur entre nous et notre amour.
J’attends et nourris l’espoir
Que tu reviennes un soir
Me délivrer de cette jolie cage
Où tu m’as oubliée dans ton sillage.

Malika Mellal février 2018

Copyright @mellalmalika

Illustration Avogado6

O mar dos meus olhos | Sophia de Mello Breyner Andresen

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen

À roda da saia | Maria Isabel Fidalgo

A autora, Maria Isabel Fidalgo, “à roda da saia” obriga o leitor a entrar na roda, na roda da vida. Uma obra absolutamente feminina, sem idade,eternamente jovem, pronta a ser rodada no corpo de uma outra mulher , como património (ou matrimónio?) de uma cultura enraizada num lugar que se vai universalizando com o olhar fresco da geração que se segue: ” minha mãe deu-me uma saia / a saia de sua mãe/ a saia roda no corpo/ da minha filha também/ minha neta pequenina/ anda também a rodar / na roda da saia dela / em todas que há de gerar”.
Nestes versos vive uma sensualidade misturada com maternidade impressionantes.Porque “as mães têm braços enormes (p. 18),e (n)as rodas da saia ” uma manhã carnal entra pela luz”(p.41). Mas é na ria de Aveiro que a leveza de ser… ” um pedacinho me basta/ para ser asa que passa/ rente à água” (p51). E há uma vida, única, que continua ” como um fio de água que escorre pela nascente/assim me construí”. E a sensualidade aprende-se devagar ” saio do teu corpo / como se lá não estivesse estado” (p.65).E o corpo assume o seu grau maior de identidade e beleza ” rodinha da minha saia / meu tesouro de araça/não me quero noutro corpo/ com a roda que esta dá”. Mas, como em todos os poetas, o seu tempo era mais além e ” não me preveni contra o tempo/ sempre achei que a vida era para lá dos dias/ e que a ceifa do corpo/ era numa azenha muito ao longe”. Mas as rodas da saia continuam…” já não roda a saia/ rompe-se o vestido/ vem amor dormir/ um verso comigo.”
Um livro que merce ser dançado com vigor e mestria. A autora, Maria Isabel Fidalgo, está de parabéns. A obra foi editada por ” Poética Edições” em Janeiro de 2018.

“É uma saia que é uma celebração da vida e dos afetos, feita com o melhor tecido das palavras, com as rendas da ternura e da música, com os bordados das vivências, com os folhos das alegrias e das lágrimas, com um bolso discreto cheio de ensinamentos, com bainhas feitas de sonhos e engomada com saudades. É uma herança, portanto, e disso não duvidemos nunca: herança de um eu precedido por outros seres que não se esquecem, que não passam, que ficam marcados em cada ponto a mais que se der no tecido – porque esta saia está à espera que cada um a ornamente com a sua própria vida, agora que a recebeu.”

Tiago Aires, excerto do prefácio

La trahison | Malika Mellal

La trahison ce vilain mot même au son
Quand elle arrive au plus profond
Par l’être aimé celui que nous chérissons
Si cruellement qu’il n’existe aucun pardon.

Sans crier gare , c’est le top départ
D’une diabolique machination
Une douleur vous submerge , vous empare
Vous souffrez jusqu’à la déraison

Que tire-t-il de cette manipulation ?
Faire souffrir apporte autant de satisfaction ?
Il faut croire que c’est bon
D’orchestrer une destruction.

Cet être qui n’a plus rien d’humain
Hier encore on se tenait la main
Un amour plein de lendemains
De nous il avait faim.

Comment comprendre et accepter
Cet être qui vous a piégé
Sans rien vous épargner
L’erreur de l’avoir aimé.

Un cœur détruit anéanti
Plus rien ne lui fait envie
Sauf un besoin d’oubli
Pour tenter un retour à la vie.

Malika Mellal 14 avril 2018
Illustration de avogado6

Soneto da saudade | Guimarães Rosa

Quando sentires a saudade retroar 
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!

Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas…
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas…

Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.

Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos…
Nem a distância apaga a chama da paixão

Guimarães Rosa

A Livraria Bertrand e a Guerra e Paz convidam

Vai ser uma série de antologias de Fernando Pessoa & Companhia. A primeira – Absinto, Ópio, Tabaco e Outros Fumos – vai dar uma animada conversa. É já na 3ª feira, dia 17, na Bertrand do Chiado. Reparem bem na tremenda variedade das bocas que vão estar à conversa: Eugénia de Vasconcellos, poeta e ensaísta; Júlio Resende, compositor e pianista; Jorge Barreto Xavier, professor e programador cultural. Eu vou-me sentar ao pé deles, boca fechada está claro, que o que é bom é ouvir quem sabe. É às 18:30 e preciso que venham todos. Querem ver o convite? Já mostro! [ Manuel S. Fonseca ] 

Fiz um conto para me embalar | Natália Correia

Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.

Natália Correia

Histórias da História | Paulo Fonseca

Histórias de luta e de afecto 
e de vidas em directo.
Longa lista leva já,
a história da humanidade …
mártires,
guerreiros,
heróis,
ternos da liberdade 

voz dos simples,
batutas de luz
contra as pautas da injustiça …
também ingenuidade
de criança,
de noviça …
Poetas do sonho
que fez mudar o mundo
enfadonho.
imundo …
Jesus Cristo,
Madre Teresa,
Mandela,
Che Guevara,
Luther King,
Xanana,
Mandala,
Gandhi,
Pepe Mujica,
Salgueiro Maia,
Gorbatchov e
agora Lula …
lavradores do afecto,
verbo e complemento directo,
todos mal tratados
na horta que semearam …
suor bento
que corre de emoção
hino triunfal da devoção
aos outros,
ao mundo,
ao coração …

Paulo Fonseca

Ergo Uma Rosa | José Saramago

 

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou ventos de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontua de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me doi de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.

José Saramago 

Poema | Pablo Neruda

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda

Poema | neorrealismo | Manuel da Fonseca

A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
p’ra namorar-se ao espelho.

A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.

A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel…

No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir…

A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz…

E os namorados cansados de namorar…
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.

Manuel da Fonseca

“La Reine de Saba” | Malika Mellal | toile de Hocine Ziani

Amour de Reine

Mon voyage vers toi , mon roi
Moi la grande reine de Saba
Simple femme devant toi
Mon cœur loin du tiens est aux abois

Je te porte myrrhe , encens et élixirs
Pour parfumer tes nuits de mille désirs
Caravanes pleines d’or et de trésors
Dignes d’un roi au palais d’or.

Oiseaux de paradis et génies
Offrandes au roi au bel esprit
Contes et légendes pour t’éblouir
J’aime éveiller les sens de mon Sire.

Étoffes précieuses des plus belles soies
Pour accueillir nos beaux émois
Des huiles rares et précieuses
Sercrets de caresses délicieuses.

Ma beauté digne des houris
Sera tienne toutes les nuits
Tes bras dont je me languis
Me font traverser tous ces pays.

Amour Royal et majestueux
Plaisirs infinis et savoureux
Lien fabuleux et mystérieux
Amour légendaire béni des cieux.

Deuxième version (Le roi Salomon)

Ma reine arrive

Elle arrive ma belle et sa caravelle
Bel ange descendu du ciel
Je ferai taire les langues infidèles
Qui doutent de sa beauté éternelle

Sur ce sol façonné tel un miroir
J’ai fondé tout mes espoirs
Démontrer à jamais , graver l’histoire
D’un reflet divin à ma gloire
Je les ferai tous choir.

Ma belle reine attendrie
Pardonne mon acte de duperie
N’y vois aucunes fourberies
Seul une preuve d’amour, un démenti

Ma reine d’amour aux feux ardents
Ils t’imaginent velues aux sabots d’argent
Ta crainte de tremper tes beaux habits
Te fera lever le bas de tes soies serties
Apparaîtra tes chevilles d’une peau éblouie.

Moi qui sait ton corps d’une beauté innouie
Je serai roi d’amour d’un cœur embelli
Pour ma maîtresse reine aux charmes de vie
Tu ensorceles mon âme et mon esprit
Je suis glorieux par ton corps soumis
À mes rêves d’amour infini.

Malika Mellal 03/04/2018
malika mellal@copyright

D’après la toile de Hocine Ziani ” La reine de Saba ”

Adormecem mamilos gretados | Célia Moura

Adormecem mamilos gretados
De indignação
Em cada palavra
Que não ouso.

Gemem catadupas de papoilas
Entre o trigo
E por isso as digo
As escrevinho
Grito-as aqui
Neste papel de ninguém!

E que prazer é
Mordê-las!

Saborear-lhes o sangue
Expulso das artérias
Libertando-as de mim
Desta clausura
Onde tentam amordaçar-me
Todas elas
As mais insolentes
As deliciosas
As mordazes
E até as mais voluptuosas!

Que prazer,
Enamorá-las
Consenti-las
Dar-lhes permissão
Para logo a seguir
As arremessar certeiras
Fugidias ou sarcásticas
Como flores ou como dardos
Aguçando-lhes a destreza
Verbalizá-las todas,
Libertando-as do sémen
Que nos fecunda a seara
Do Bem e do Mal
Arrancando ervas daninhas
Pelos dentes.

© Célia Moura – A publicar “Terra de lavra” (2012)
(Imagem – Justin Grant Photography)

A confissão de um vagabundo | Serguei Iessiênin

Nem todos sabem cantar
Não é dado a todos ser maçã
Para cair aos pés dos outros.

Esta é a maior confissão
Que jamais fez um vagabundo.

Não é à toa que eu ando despenteado,
Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada, quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Então limito-me a apertar mais com as mãos
A bolha oscilante dos cabelos.

Como eu me lembro bem então
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um corpo,
Como à chuva que na primavera amolece o capim.
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injúria lançada contra mim.

Pobres, pobres camponeses,
Por certo, estão velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho é, em toda a Rússia,
O seu melhor poeta!
Seus corações não temiam por ele
Quando molhava os pés nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.

Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeão travesso.
A cada vaca, no letreiro dos açougues,
Ele saúda à distância.
E quando cruza com um coche numa praça,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de nooiva.

Amo a terra.
Amo demais a minha terra!
Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,
Me agradam os focinhos sujos dos porcos
E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordações da infância.
Sonho com a névoa e a umidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos nos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, não roubei!
Será ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca será rija como antes?

E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungão.
Cauda caída, vagueias no quintal,
Teu faro não distingue o estábulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pão de minha mãe
E mordíamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.

Sou sempre o mesmo.
Meu coração é sempre o mesmo.
Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.

Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo…
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.

Luz azul, luz tão azul!
Com tanto azul, até morrer é zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cínico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo Págaso exausto,
De que me serve o teu trote delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos,
Minha cabeça, como agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.

Eu quero ser a vela amarela
Rumo ao país para o qual navegamos.

Expoente de uma ramificação das vanguardas, o Imagismo, Serguei Iessiênin  simbolizou a tragédia vivida pelos grandes poetas soviéticos: viveu 30 anos de grande furor literário e pessoal, foi casado com a precursora da dança moderna. Isadora Duncan, e encerrou sua vida suicidando-se num quarto de hotel.

ESTE INFERNO DE AMAR | ALMEIDA GARRETT

Este inferno de amar – como eu amo! – 
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei…

Almeida Garrett, in ‘Folhas Caídas’

Poema | José Gomes Ferreira

Vem hoje um cheiro tão bom lá de fora do mundo!
Um cheiro a esponsais de primavera
com deusas de astros na fronte
e enlaces de folhas de hera
no cabelo voado…

(Ah! se eu encontrasse a ponte
que vai para o outro lado!)

José Gomes Ferreira

in Antologia Poética, Porto Editora, 197

 

Retirado do Facebook | Mural de Vítor Quelhas

RACISMO NO PAÍS DOS BRANCOS COSTUMES | Joana Gorjão Henriques, comentário de Bárbara Bulhosa

“Este livro não é um ensaio, nem quer produzir uma teoria. O que estas histórias expõem é a forma desabrida como o racismo se incrustou na nossa sociedade, com consequências graves, ao ponto de permitir que um professor catedrático goze publicamente com um colega por causa do seu nome, que um senhorio recuse alugar a casa a alguém apenas por ser afrodescendente, e que um banqueiro se dê ao luxo de colocar um currículo de lado por a candidata ser negra. Estas são histórias de hoje, em Portugal.”

Retirado do Facebook | Mural de Bárbara Bulhosa

Os trompetistas não voam | Raquel Serejo Martins

Escolheu um vestido que não usava há muito tempo,
demasiadas flores, demasiados botões,
botões pequeninos de madrepérola,
demorou a enfiar os botões dentro das casas,
quase o mesmo tempo que demora a sair de casa,
mora num quinto andar sem elevador,
sentada ao espelho no toucador,
mas antes pôs um disco a tocar no gira-discos,
demorou a acertar com agulha
demorou até o Chet Baker começar a cantar
you make me smile with my heart
your looks are laughable
unphotographable,
um rapaz do seu tempo, da sua criação,
são do mesmo mês e do mesmo ano
Dezembro de 1929, morreu tão novo,
caiu da janela de um quarto de hotel em Amesterdão,
os trompetistas não voam,
ainda hoje não se sabe se acidente,
pensava, enquanto o ouvia cantar,
but don’t change a hair for me
not if you care for me
enquanto de nariz enfiado no espelho,
cataratas, miopia, pintava os lábios,
primeiro rosa, depois vermelho,
porque o rosa, mesmo com óculos, invisível aos seus olhos,
depois nos olhos passou um lápis-lazúli,
nas maçãs dos rosto um tom de avelã,
deu uma segunda demão nas cores,
do guarda-jóias um o colar de pérolas e os brincos em par,
comoveu-se com a sua vaidade,
estava feliz como há muito tempo não estava,
estava feliz sem saber porquê,
depois escolheu os sapatos,
tem dois pares de sapatos,
parecem mais pantufas que sapatos,
os joanetes nos pés não suportam sapatos,
agora que tem pés de pato, pensa e sorri,
e é com esse sorriso sai para a rua,
vai ao café, senta-se na sua mesa,
longe da porta e de correntes de ar,
sem pedir trazem-lhe um bolo de arroz,
uma chávena de chá, pacotinho de açúcar nenhum, diabetes,
e como se ele estivesse sentado ao seu lado,
ele está sempre ao seu lado, namoram um bocadinho,
todos os dias namoravam um bocadinho,
stay little Valentine, stay
each day is Valentine’s Day
o tempo de um bolo de arroz, de uma chávena de chá,
namoram até que, sem discrição,
uma menina na mesa ao lado aponta o dedo e pergunta,
aquela senhora a falar sozinha é um palhaço,
e, sem ter tocado no bolo de arroz, ele desaparece,
ela que estava feliz, fica desmedidamente triste,
porque a tristeza consegue ser mais triste quando já foi alegria.

©rsm | Raquel Serejo Martins

Donna al caffè, Antonio Donghi,1931

Retirado do Facebook | Mural de Raquel Serejo Martins

Capitães da Areia | Paulo Fonseca nas Filipinas, em Borakay.

Estive agora com Deus….
Estava imponente,
no limiar de um rochedo curvilíneo….
Sua graça transbordava doçura.
Derramou Divindade
em canivetes salgados
que rebentam diariamente na areia….
Cantou epopeias aos ventos….
Fez-me transbordar de emoção.
Mil rouxinóis melados
largam pegadas de azáfama
no carrocel da míngua.
Deus apontou-lhes o dedo,
apadrinhando a sinfonia…
Transbordo trôpego
na plateia das vidas,
destas aves perdidas.
Foi Deus que apontou o caminho….
Estrada da emoção,
não tem nada que enganar…
Petizes,
felizes,
na primavera da vida…
Não aprenderam,
ainda,
o inverno da morte….
da tortura,
má sorte….
ser parido
em favela,
em bote…
Sorrisos, ingénuos,
fervilham…
A fome
que dói,
não existe…
Tão triste…
Chilream
produtos de sonho….
esculturas,
pulseiras,
mergulhos,
entulhos medonhos….
Tanta esperança Divina
corre nesta vida varina….
Preferem dinheiro ou comer ?
<<eat is better, sir>>….
Ah….
afinal o sorriso é um papel….
uma força heróica
de mel….
Dentes de leite
aguçam
de anseio…
Sentem-se e comam.
<<You choose>>….
Oh…
<<We choose sir ?>>
<<Yes, you choose>>….
Festa na areia,
Capitães em sentido…
Comer….
Bocas pequenas
salivam sonhos de vida…
Ai Deus….
Milhões de petizes
riem
por não saberem chorar…
Milhões de corações
arrefecem
por não saberem amar…
Milhões de sorrisos
aquecem
por conhecerem o mar….
e os sonhos,
sentidos,
contidos….
Ameias do curral,
ao luar….
Oh Deus imponente,
rezo sorridente…
Alma ardente
te venera,
na espera….
bocas parecem rir….
a carpir….
Oh Deus,
emocionei-me e chorei….
a sorrir….

Paulo Fonseca

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Fonseca

Trilogia da Inquisição | Richard Zimler

Para quem quer conhecer os efeitos das perseguições aos judeus e cristãos-novos em Portugal e Goa, eis 3 romances sobre gerações diferentes da família Zarco. Acho a nova edição da “Goa ou o guardião da aurora” muito bonita! (Caso tenha amigos que estariam interessados nestes livros, agradeço que divulgue.) 

Poema | INVICTUS | William Ernest Henley | Poema de Inspiração de Nelson Mandela in Revista Pazes

Willian Ernest Henley, ao escrever o poema abaixo, jamais sonharia que os seus versos poderiam inspirar um homem com grandeza de Nelson Mandela a suportar, por vinte e sete anos, o cativeiro, condenado por sua luta contra o apartheid.

INVICTUS

William Ernest Henley

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

——

INVICTO

William Ernest Henley

Da noite escura que me cobre,
Como uma cova de lado a lado,
Agradeço a todos os deuses
A minha alma invencível.

Nas garras ardis das circunstâncias,
Não titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortúnio
Minha cabeça sangra, ainda erguida.

Além deste vale de ira e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaçadores,
Encontram-me sempre destemido.

Não importa quão estreita a passagem,
Quantas punições ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.

Declamado por Alan Bates – 2 vídeos – em inglês sem e com tradução – ver ambos

https://www.revistapazes.com/invictus-o-poema-que-inspirou-nelson-mandela-em-seus-27-anos-de-de-prisao/

Livros de cabeceira de grandes escritores | Virginia Woolf

Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski

Virginia Woolf era famosa por suas opiniões fortes – mesmo que as vezes fossem impopulares. Woolf fazia críticas sem piedade a autores que considerava ruins ou mornos, mas também elogiava na mesma intensidade. Na sua opinião, Fiódor Dostoiévski é “obviamente o melhor autor de todos os tempos”. Desta forma, ela cita duas obras do escritor como seus livros de cabeceira. Um deles é Crime e castigo, o qual Woolf indica para aqueles que querem conhecer a obra de Dostoiévski.

Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski

Apesar da linguagem de Os irmãos Karamazov ser mais complexa e densa do que de Crime e castigo, Virginia Woolf aponta o livro como o seu favorito de todas as épocas. A obra é elogiada por resumir toda a criatividade de Dostoiévski, no qual ele expõe todas a suas “malditas” questões existenciais que tanto o atormentaram – como a degradação moral da humanidade.

Afrin | para Hussein Habasch – Kurdish Poet | por Maria João Cantinho

Afrin

Para Hussein Habasch

Dizem que o pesadelo dos soldados do Estado Islâmico
é ser morto por uma mulher,
dizem que não terão as 72 virgens
nesse paraíso sonhado que os espera.

E elas, peshmerga, enfrentando a morte,
olhos de tigre, saltam-lhes ao caminho como demónios
livres e sem véus, implacáveis,
elas que, no amor e nos filhos, respiram a ternura
e a salvação.

Ceylan matou-se com a última bala de que dispunha,
talvez tivesse tido medo nessa hora,
mas o tempo não é para medos nem delongas
e Ceylan também não sabe ser heroína
que isso é para as ocidentais plasmadas
No tédio das suas vidas vazias,
entregues à contemplação de miragens,
criadas pelos que vendem a morte
em longínquas paragens.

Arin fez-se explodir, para não cair em mãos inimigas,
O seu corpo matou tantos quanto pôde,
em nome de um povo, que só na alma e no coração
conhece a sua pátria, ardendo
no olhar das suas crianças, quietas,
à espera do futuro, que silva entre as balas
e o sangue, as vísceras dos seus mortos.

Em Afrin, só a morte canta,
só ela floresce, petrificando,
diante da nossa indiferença gelada, muda.

Maria João Cantinho

Retirado do Facebook | Mural de Maria Cantinho