RSI: mitos e factos, no país das desigualdades | José Soeiro in Jornal Expresso

Portugal continua a ser um país de contrastes e de desigualdades profundas. Muitos dos discursos que afirmam condoer-se com a pobreza (mesmo que sobre ela tenham uma visão fatalista), não parecem especialmente importunados com o crescimento da desigualdade. São insufladas clivagens internas aos pobres para alimentar conflitos que evitem pôr o foco nas desigualdades sistémicas, de classe e de distribuição da riqueza. Não se trata de um acaso ou de um pormenor, mas de uma estratégia consciente que precisa de quem se lhe oponha sem hesitações

Um fosso de desigualdades

Esta semana ficámos a saber, através de um estudo da consultora Mercer, os números mais recentes das desigualdades salariais nas empresas portuguesas. Com 916 mil euros de salário médio anual, os CEO das empresas do PSI-20 ganham cerca de 30 vezes mais, em média, do que os trabalhadores da sua empresa. Além do fosso enorme dentro das organizações, choca o facto de ele não parar de aumentar. Num ano, os salários do topo cresceram 20%, os dos trabalhadores 1,5%. O pódio da desigualdade tem vencedores recorrentes: Pedro Soares dos Santos, dono do Pingo Doce, ganha 167 vezes o salário médio de um trabalhador do grupo. António Mexia, ex-presidente executivo da EDP, auferia cerca de 2,17 milhões de euros de remuneração anual. Carlos Gomes da Silva, da Galp, 1,4 milhões.

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O uno e o múltiplo: lições das presidenciais | Porfirio Silva

1. Em maio de 2020, quando foi possível debater explicitamente as eleições presidenciais nos órgãos do meu partido, apresentei o meu ponto de vista, com dois alertas (como foi noticiado, com razoável rigor, por exemplo aqui). 

Primeiro, o apoio, declarado ou implícito, do PS a Marcelo Rebelo de Sousa introduziria desequilíbrios no regime democrático, porque, ao criar a expectativa de uma votação esmagadora (com o apoio de todos os partidos que alguma vez governaram Portugal em democracia constitucional), abriria um novo espaço à direita extrema, oferecendo-lhe o bónus de ser a principal novidade das presidenciais e, consequentemente, o palco da campanha, sendo desse palco que vivem os movimentos contra o sistema democrático. Com a agravante de que o palco à extrema-direita perturba a capacidade do PSD para ser uma alternativa decente de governo.

Segundo, alertei para o perigo de, naquele cenário de união de facto com MRS, virmos a ter na área socialista somente uma candidatura populista, sem histórico de um programa de esquerda articulado e coerente, mas vocal na crítica à política e nos ataques ao PS.

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CDS, Chega, IL, PSD – a direita em mudança | José Ribeiro e Castro in Jornal Público

Hoje temos dois problemas principais. O primeiro é o de a relação esquerda/direita não se alterar e favorecer a esquerda. O segundo são as posições políticas do Chega serem tão radicais e desrazoáveis. 22 jan 2021

O que se passa em Portugal é uma reestruturação do sistema partidário. Tem acontecido noutros países, como Espanha, França e Itália. Chegou a nossa vez. As razões, oportunidades e factores desencadeantes não são os mesmos; mas o fenómeno é. Já tinha começado à esquerda; agora, chegou à direita. À esquerda, começara em 1999 com o BE; recentemente, juntaram-se Livre e PAN. À direita, o fenómeno surgiu em 2019, com a entrada em cena de Chega e IL.

Porquê à direita? Por duas razões que sempre aparecem: uma, porque os partidos que ocupavam o espaço deixaram de representar preocupações e aspirações de partes relevantes do seu eleitorado, cavando nele frustração crescente; outra, porque correntes de opinião que se exprimiam dentro desses partidos quiseram autonomia e voz própria.

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Certamente! Quinta-feira, 21 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
Hoje não tenho disposição para escrever. Para compensar, deixo-te um conjunto mais alargado de opiniões e de sugestões de leitura.Amanhã ou no fim de semana tenciono abordar Marcelo Presidente 2.0, que deverá ser substancialmente diferente da primeira versão, bem como colocar em dia a correspondência dos leitores.A frase do dia: “O falhanço coletivo que nos trouxe até aqui é mais um rombo no deve e haver que as gerações mais novas têm para com um sistema político que os exclui e não os representa.” Susana Peralta

OPINIÕESEditorial: Voltar à escola. JornalDeNotícias👉Diogo Martins escreve: Obstrução do direito de voto sem paralelo na democracia portuguesa. LadrõesDeBicicletas 👉Rui Tavares Guedes escreve sobre a pandemia Covid-19: Não é a economia, estúpido. Visão 👉Fátima Marques escreve sobre viver em situação de catástrofe: Re-humanizar os índios e os cowboys. CapitalMagazine 👉Borja González del Regueral escreve sobre empresas e Europa: As tendências tecnológicas para 2021, um ano eminentemente digital. DiárioDeNotícias 👉Paulo Pisco escreve sobre democracia e André Ventura: O germe do fascismo. Público 👉Ricardo Salazar também escreve sobre André Ventura: Vírus Ventura. Público👉Valupi também escreve sobre Ventura: Das vantagens de Ventura ficar em 2º.AspirinaB 👉Mafalda Anjos: Escolas, trilemas e falhanços. Visão 👉 
LINKLOGWarming ocean waters could reduce the ability of fish, especially large ones, to extract the oxygen they need from their environment. Animals require oxygen to generate energy for movement, growth and reproduction. In a recent paper in the Proceedings of the National Academy of Science, researchers describe their newly developed model to determine how water temperature, oxygen availability, body size and activity affect metabolic demand for oxygen in fish.  //mcgill.ca 🇬🇧Electric car batteries with five-minute charging times produced. First factory production means recharging could soon be as fast as filling up petrol or diesel vehicles  //theguardian.com 🇬🇧A strain of covid-19 that appears to spread faster is colliding with the campaign to vaccinate Americans. That appearance of the variant has already led the US to require British visitors to test negative before flying. Some scientific leaders say the US should now consider a coordinated national lockdown period.  //technologyreview.com 🇬🇧Biden’s 17 Executive Orders and Other Directives in Detail. The moves aim to strengthen protections for young immigrants, end construction of President Donald J. Trump’s border wall, end a travel ban and prioritize racial equity.  //nytimes.com 🇬🇧Amazon sends letter to President Biden, says it is ‘ready to assist’ with U.S. vaccination efforts  //geekwire.com 🇬🇧Brave becomes first browser to add native support for the IPFS protocol. Brave users will now be able to seamlessly access ipfs:// links.  //zdnet.com 🇬🇧35 unforgettable images that capture Trump’s wild and bitter presidency  //medium.com 🇬🇧Adictos a las redes: ¿Tienes ansiedad digital? Aunque sirven para mantenernos conectados, las redes sociales también pueden ser factores para aumentar nuestro malestar y ansiedad.  //ethic.es 🇪🇸A estratégia para a Igualdade de Género para o período de 2020-2025 que foi aprovada esta quinta-feira em Parlamento Europeu quer atrair mais mulheres para as áreas de informática e tecnologia — e parte do processo passa por mudar a forma como as mulheres são retratadas nos canais audiovisuais.  //publico.pt 🇵🇹 
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Sobre a pandemia | José Vítor Malheiros

O presidente americano Lyndon B. Johnson, um texano apreciador da vida ao ar livre, disse uma vez a propósito de J. Edgar Hoover, director do FBI, que preferia tê-lo “dentro da tenda a mijar para fora, do que fora da tenda a mijar para dentro”. A tirada, que Johnson parece ter repetido muitas vezes a propósito de outros políticos, rivais ou adversários, é uma variação colorida do aforismo de Sun Tzu “Mantém os teus amigos próximos, mas os teus inimigos ainda mais próximos”. É um bom conselho.Nestes dias em que a situação da pandemia se agrava de forma alarmante, sem melhorias à vista, em que os governantes não parecem seguros do que devem fazer e em que a oposição começa a animar-se com a perspectiva de uma catástrofe (é difícil de acreditar, mas basta ver o tom triunfalista que certos políticos usam para referir os recordes de casos e mortes, como se fossem respostas às suas preces) tenho-me lembrado muito da tirada de Johnson.

E tenho-me lembrado, em particular, quando vejo, a propósito de uma decisão do governo ou de uma nova má notícia, a vaga de críticas com que é recebida por parte de organizações profissionais e de diferentes instituições.

A posição de Johnson era ditada por um mero cálculo político. Mas há muitas outras boas razões para, em situações de crise, convidar mais gente para dentro da tenda. Pessoas com outras perspectivas podem ter outras ideias e algumas delas podem ser boas. Pessoas de outras áreas (profissionais, regionais ou políticas) têm outras fontes de informação. Pessoas que participaram do processo de decisão não podem criticar o processo de decisão. Pessoas que conhecem as razões que existem para as medidas tomadas não poderão dizer que não as conhecem ou compreendem – ainda que discordem delas.

Numa fase de extrema gravidade como a que atravessamos, incluir no processo de decisão pessoas e instituições com competências relevantes e que têm influência nas atitudes dos cidadãos e na mobilização das organizações parece-me indispensável. E já me parecia antes de termos atingido a fase de extrema gravidade. Esta é a tal “comunicação” que não tem nada a ver com propaganda, que é absolutamente indispensável, e na qual as autoridades de saúde têm falhado continuamente. É a comunicação interna, no seio do Sistema Nacional de Saúde – que inclui mas excede o círculo do Serviço Nacional de Saúde e que inclui mas excede (em muito) a simples difusão de informação e a propaganda a que se quer resumir a comunicação.

Esta comunicação no seio do sistema é certamente difusão de informação por parte do Governo e autoridades de Saúde, mas é principalmente recolha, validação e agregação de informação (que não se resume a dados mas inclui também propostas e críticas), confronto de ideias, debate e negociação.

As “reuniões do Infarmed” podem ter parecido a alguns que servem para isto mas não servem. São organizadas como palestras oitocentistas, onde quem sabe ciência e medicina ensina aos ignorantes que não a sabem, para que depois estes tomem uma decisão política. Esta ideia autoritária de comunicação, unidireccional, de cima para baixo, onde sábios ensinam ignorantes, desperdiça o saber de quem ouve e desperdiça o conhecimento que nasce da discussão aberta e permanente. E isso acontece quer quando quem ouve os sábios são alunos quer quando são políticos. O facto de haver quem entre mudo e saia calado destas reuniões significa que elas não cumprem qualquer papel de construção de consensos ou de solidificação de opiniões.

É natural que, agora que a borrasca começou, os que mijam para dentro da tenda exibam alguma relutância em entrar num espaço cujo cheiro já não é muito agradável.

Mas as alternativas são todas piores.

José Vítor Malheiros

Retirado do Facebook | Mural de José Vítor Malheiros

Certamente! Quarta-feira, 20 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Hoje afirmo que — a confirmar-se a sondagem do dia — o candidato da extrema-direita é o grande derrotado das presidenciais, lembro que Rui Rio está vivo e aos pontapés e era bom que acertasse num alvo ou dois, explico porque não estou como toda a gente a pular de contente por ver Joe Biden na Casa Branca, e junto a minha à voz de Vital Moreira: nem mais um ministro infetado!Antes, uma rectificação: no diário de ontem escrevi “legislativas” quando era óbvio no contexto da frase que me referia às autárquicas, a disputar algures no outono. Era tão óbvio no contexto que aposto que metade de vós não deu pela coisa e, como eu a reler, entendeu “autárquicas” ao ler “legislativas”…
1
Faltam 4 dias para a conclusão das eleições para a Presidência da República. Sondagem do CESOP da Universidade Católica para a RTP e o Público divulgada ao fim do dia dá o resultado dentro do esperado: Marcelo vence à primeira e Ana Gomes fica no segundo lugar. (RTPPúblico)
Em relação à minha bola de cristal, Marcelo tem um desvio positivo de 2 pontos, Ana Gomes tem um desvio negativo de 1 ponto e o candidato da extrema-direita tem um desvio positivo de 2 pontos.Parece-me claro que, a confirmar-se no domingo esta projeção, André Ventura será o grande derrotado desta campanha. Falha todas as metas menos uma. Colocou a fasquia elevada demais para a sua capacidade. Um soldado de infantaria armado em Napoleão. Por outro lado os seus 10% indiciam que a extrema-direita encontrou o seu limiar máximo em Portugal: o crescimento anti-democracia estabilizou nos últimos 7/8 meses depois da arrancada explosiva nos 4/6 meses anteriores.A meta que não falhou: consolidou a extrema-direita como a bússola da televisão e imprensa, fazendo gato-sapato da agenda dos jornalistas.
2
Passou despercebido no meio da confusão e desnorte em que vivemos. Rui Rio lançou um movimento visando reformas no sistema político e nos estatutos do partido. Rio colocou o PSD a trabalhar nas propostas: a “reforma da Justiça, que acho ser vital, a revisão constitucional, porque é tempo de fazer, e a reforma do sistema político, porque continua a ser muito importante”. Foram criadas as comissões cujo trabalho consiste em preparar as propostas de reformas nessas três áreas e nos estatutos. Nada de inesperado nas pessoas que integram as comissões: Paulo Mota Pinto, David Justino, Manuel Teixeira e Isaura Morais são os coordenadores de equipas tão cinzentas, históricas ou laranjas, como preferires, que eles.Eu diria que Rio está a pretender lançar um sinal de reconciliação com o centro e com o país, depois da traição à pátria e à União Europeia perpetrada nos Açores com a coligação com a extrema direita anti-democrática. Espero que tenha sorte, embora tenha dúvidas: não se perdoa facilmente o que Rio fez e o silêncio sobre a campanha eleitoral não ajuda lá muito: ao eleitorado laranja não foram apresentados argumentos para não votarem no candidato da extrema-direita. E deviam.
3
E porque espero, e até gostava, que Rio tivesse sorte? Fácil. Primeiro, como compensação pelo seu comportamento de estadista ao longo da pandemia. O PSD nunca fez parte do problema. Votou com seriedade tudo o que tinha diretamente a ver com a pandemia. A direção fez oposição com responsabilidade, deixando aos apparatchiks as farpas e flamas, como é normal.Segundo, porque é vital para a democracia se aguentar nas canetas que haja uma alternativa no centro-direita na qual os eleitores possam confiar.Agora: confio em Rio depois da novilhada açoreana? Bem: não sou marinheiro daquelas águas e quero um país diferente do que Rio quer. Dito isto: a minha (des)confiança nele não mexeu um milímetro. Rio habituou-me a esperar boas e más decisões que surgem quando e onde menos espero — e isto já vem dos tempos da Câmara do Porto.
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O mais provável é teres hoje visto com otimismo a tomada de posse de Joe Biden como 46º Presidente dos Estados Unidos da América. O mundo vê-se livre de Trump e regressa à Casa Branca um democrata, como não estar otimista? Junta-lhe a primeira vice-presidente (um pormenor significativo para um homem como eu: Kamala Harris jurou a bíblia nas mãos do marido, uma honra que nenhum americano tivera antes), junta-lhe uma administração muito bem pensada e escolhida para o propósito de reunificar as tribos estado-unidenses — como não ficar sorridentemente otimista?Três razões. Uma: a Administração Biden não contraria, pelo contrário, a gerontocracia em que os EUA se tornaram, particularmente notório ao nível federal; não vejo que venha daí nada de bom.Outra: as divisões sociais não nasceram do trumpismo, que apenas acentuou as fracturas raciais que nunca pararam de se agravar ao longo da história do jovem país; tenho as maiores dúvidas que boas intenções e políticas manietadas pelas forças que controlam o poder (e das quais Biden nunca se afastou) cheguem para inverter o divisionismo social.Divisionismo que, bem vistas as coisas, é não só aceite como pretendido pelas maiorias: é pequeno e pouco poderoso o grupo de pessoas que vê as divisões raciais e de classe dos americanos como um problema. Pessoas mas também grupos empresariais olham para as divisões com bons olhos: das igrejas às armas, manter e incentivar o individualismo e o tribalismo dá mais lucro do que combatê-los.E outra: à medida que perde o momento geopolítico, a liderança e o protagonismo, fraqueja a cola que tem mantido federados os 50 estados e aumentam as vozes e o volume do coro que fala na independência de estados como o Texas (que é uma parte do México e nenhuma fronteira foi eficaz em mais de 100 anos) e a Califórnia; esta tendência vem-se agravando e era precisa uma administração do calibre de três ou quatro Roosevelts para a inverter.
5
Quantos mais ministros infetados e quantos mais confinamentos dos seus círculos de contactos próximos são necessários para ser adotada a única decisão decente, que é de vacinar os principais dirigentes políticos do Estado (PR, PM e ministros, Presidente e vice-presidentes da AR, pelo menos), como grupo de risco que são, pelas numerosas reuniões oficias e de trabalho presenciais em que têm de participar, muitas vezes em espaços fechados, ao serviço do Estado?”, pergunta Vital Moreira no Causa Nossa.Eu junto a minha à voz de Vital Moreira. Pelo menos num anterior diário referi que a primeira linha política devia encabeçar a primeira vaga de vacinas. Não usar nesse grupo a primeira remessa de vacinas é um erro. Cometido por uma péssima razão: o medo da reação da opinião pública.

OPINIÕESFrancisco Seixas da Costa escreve sobre eleitorado e Belém: Bom senso e bom gosto. DuasOuTrêsCoisas 👉Cristina Siza Vieira escreve sobre turismo e União Europeia: Viajar é preciso. DiárioDeNotícias 👉Carlos Esperança também escreve sobre a campanha e o recandidato Marcelo: Eleições Presidenciais E Liberdades. PonteEuropa 👉Pedro Santos Guerreiro está em Estado de choque. Expresso $José Brissos-Lino escreve sobre A fraude do nacionalismo cristão. Visão 👉Maria José da Silveira Núncio alto e bom som: Em nome da saúde, fechem as escolas!. Público 👉Rui Tavares escreve: Uma ideia melhor do que votar num racista autoritário? Não votar nele. Público $ 
LINKLOGOs dois projetos de lei do PSD e um do PAN, hoje em discussão no plenário da Assembleia da República, tiveram o melhor acolhimento da bancada parlamentar do BE e do PCP, que sublinharam a necessidade de proteger o princípio do juiz natural (escolha aleatória de um juiz do processo para assegurar a imparcialidade) e de aperfeiçoar os diplomas na especialidade.  //rtp.pt 🇵🇹French constitutional change on environmental preservation faces long road ahead  //euractiv.com 🇪🇸La sociedad vigilada: la pandemia precipita la digitalización : Ethic. La crisis sanitaria acelera la importancia de la digitalización para combatir al virus, pero también abre el debate sobre cómo gestionar la privacidad.  //ethic.es 🇪🇸África sofrerá efeitos da retração do financiamento externo chinês. Dois principais bancos de fomento chineses diminuem o financiamento de projetos no exterior em mais de 90%. Analistas veem que África também sentirá os efeitos da “nova disciplina” de liberação de recursos da China.  //dw.com 🇵🇹Lawmakers who denied Biden’s victory also embrace a deadlier conspiracy: climate denial. 90 of the 147 members of Congress who voted to overturn the election deny basic climate science.  //heated.world 🇬🇧Majority of Europeans fear Biden unable to fix broken US. Survey finds more Europeans than not say US cannot be trusted after four years of Trump.  //theguardian.com 🇬🇧 
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Pandemia à beira do abismo | David Pontes in Jornal Público

Como o PÚBLICO titulou há uma semana na sua primeira página estávamos “no princípio do pior” da situação pandémica em Portugal. Todos os indicadores – números de mortes, número de novos casos, necessidade de cuidados intensivos – já apresentavam um recorde nesse dia e, daí até hoje, tem sido uma sucessão de máximos ultrapassados. Ontem foi mais um.

Somos um dos países com um dos registos mais complicados da Europa e esse cenário lúgubre, reforça-se com a previsão dos administradores hospitalares que calculam que o número de internados por covid-19 possa aumentar 60% durante a próxima semana. Podemos vir a ter mais de 7500 infectados nos hospitais, 900 em cuidados intensivos. E a ser correcto o alerta do epidemiologista Carmo Gomes, de que os 10 mil casos diários podem ser “um tecto falso” que escondem uma realidade bastante pior por incapacidade de testagem, as previsões poderão até ser conservadoras.

Na marcha inexorável da epidemia, já não vamos a tempo de evitar que o cenário das ambulâncias à porta dos hospitais, da corrida pelo aumento da capacidade de internamento, venha a ser a dura realidade dos próximos dias. O pior dos horizontes, o de atingirmos a capacidade de resposta do sistema de saúde, pode estar terrivelmente próximo. Leia-se com atenção as palavras do presidente do conselho de administração do Santa Maria: “A capacidade dos hospitais não é ilimitada.”

Perante esta realidade, a inclinação do Governo para manter o equilíbrio entre as necessidades de saúde pública e a subsistência de uma economia em transe, começa a assemelhar-se a uma inclinação para o abismo. O confinamento teve uma partida em falso e se, passado o fim-de-semana, a situação se mantiver e as autoridades não reforçarem as restrições rapidamente, poderá ser uma situação de verdadeira catástrofe a levar o Governo a agir, o que seria péssimo pelo tempo desperdiçado e pelas vidas perdidas.  

As imagens dos hospitais sobrelotados como o de Loures ou Torres Vedras podem trazer o medo, que funcionou em Março, e que poderá levar alguns dos que encararam de forma mais ligeira este confinamento a arrepiar caminho. Mas o cansaço acumulado, e a necessidade de muitos continuarem a sua vida, deixa cada vez menos margem às autoridades para hesitações. Não reforçarmos o confinamento, perante o abismo que se avizinha, até para preservar coisas essenciais como o ensino presencial nos primeiros ciclos, será um caso de cegueira colectiva.

David Pontes in Jornal Público

https://www.publico.pt/2021/01/17/opiniao/editorial/pandemia-beira-abismo-1946651

“Poema à Mãe”, Eugénio de Andrade, dito por Manuel Capitão

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio de um laranjal…

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Certamente! Sexta-feira, 15 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

E pronto: metade do mês já lá vai. O tempo subjetivo passa cada vez mais depressa. Hoje no diário só dá eleições: as presidenciais portuguesas e para a liderança da CDU, o partido de Angela Merkel. E as rubricas habituais: opiniões (se és jornalista, não percas a opinião de Vital Moreira) e linklog (se és eco-sensível, não percas a vegetação senciente).
1
O Rui Tavares teme: a esquerda portuguesa preparando um desastre à francesa? (Público $). Refere-se à estratégia de candidaturas de cada área partidária somadas à desistência do partido do centro-esquerda a favor do candidato do centro-direita, “que nos deu duas presidências de Cavaco Silva e uma de Marcelo Rebelo de Sousa. E as direções partidárias continuam a justificar as suas escolhas como se estivéssemos em 1986. Pior ainda, a direção do maior partido à esquerda parece viver contente com a possível vitória do candidato da direita.”Há seis meses, quando as presidenciais se começaram a desenhar, estive entre os que acharam que a pulverização de candidaturas à esquerda não era uma coisa má. A popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa garantia-lhe a reeleição, que em si também não é propriamente uma coisa funesta. Só que isto é dinâmico. E chegados a dezembro, e mais particularmente a janeiro, vejo que essa minha interpretação foi um erro. O ganho com a divisão das esquerdas, que é Bloco e PCP manterem os seus eleitorados relativamente estanques, é largamente suplantado pelo prejuízo da candidatura da direita radical marcar a agenda e sair psicologicamente vitoriosa do inexistente combate com a esquerda.“Se em 1996 elegemos Jorge Sampaio à primeira volta contra Cavaco Silva”, recorda Rui Tavares, “foi porque os candidatos do PCP e da UDP, Jerónimo de Sousa e Alberto Matos, desistiram — e já se sabia que iriam desistir. Isso permitiu a toda a gente, mesmo a que via defeitos em Jorge Sampaio, a mobilizar-se a tempo para uma candidatura ganhadora”.É demasiado tarde para a candidatura de João Ferreira desistir a favor de outra. Nenhum sinal foi dado de que isso pudesse acontecer, nem sequer se notaram sinais de que alguém pensasse nisso. Acredito que a Marisa Matias tenha passado pela cabeça endossar Ana Gomes, por todas as razões a começar na força de uma candidatura feminina sinalizada informalmente por quase toda a esquerda e a terminar na camaradagem de ambas enquanto euro-deputadas. Mas ninguém desistiu e a janela está fechada.Objetivamente, a pulverização de votos nas três candidaturas da esquerda beneficiará a visibilidade da candidatura da direita. “Não está em causa a qualidade dos candidatos e candidatas à esquerda, tão estimáveis ou até admiráveis como os seus congéneres da esquerda francesa em 2002. Está em causa que juntos cilindrariam o candidato da extrema-direita com o triplo dos votos dele ou mais ainda. Separados, estão a dar-lhe uma hipótese de sair em segundo lugar, mesmo que só por umas décimas, como dizem certas sondagens”, acrescenta o Rui.
2
Uma pessoa sente-se tentada a apontar o dedo ao primeiro responsável pela estratégia do PS nas presidenciais. Até eu ia fazê-lo e fui procurar conselho na evolução das intenções de voto, mas a leitura que me parece óbvia absolve António Costa do pecado da esquerda: o próprio PS subiu uns pontos nos últimos 2 meses, que coincidem com os candidatos presidenciais nas ruas, como se pode ver no gráfico abaixo (tirado do EuropeElects).Não absolve totalmente, claro. A absolvição não cobre o alheamento da direção do PS, que mesmo sem candidato formal podia ter tido alguma influência nas estratégias das campanhas à esquerda. Dir-me-ás: o gelo relacional pós-Orçamento de Estado não deixaria isso suceder. Dir-te-ei: aí está, o PS alheou-se da sua responsabilidade de liderança política da esquerda.Mas a responsabilidade maior não é nem do PS nem da candidatura informal da sua área política. É do BE e do PCP. As suas prioridades egoístas deixam a esquerda à beira de um momento de vergonha. E comprometem os dois partidos.A pandemia tem aqui um efeito invisível. O cansaço acumulado nas pessoas e os comportamentos de escape consubstanciam-se eleitoralmente em voto de protesto — e por causa da gestão dos medos na pandemia o voto de protesto não penaliza o PS, partido exposto na governação e partido que abdicou de candidato oficial, mas sim os partidos da esquerda que entre outras mantém a função de pára-raios dos votos de protesto.Uma única candidatura presidencial de esquerda viria inverter, ou estancar, a tendência de crescimento do Chega, que é hoje o terceiro partido?A questão é mais complexa do que sim/não. Como deixei bem vincado no diário de ontemos candidatos outsiders em re-eleições obtém resultados anormais, pontuais, que não se consubstanciam em mudanças de fundo que afetem eleições futuras. Manda a tradição eleitoral que nas autárquicas de outubro próximo o Chega tenha metade da percentagem que Ventura conseguir nas presidenciais deste mês.O problema é menos de tendência e mais de momento. O que a divisão das esquerdas conseguiu foi um momento de vergonha e embaraço. Claro que os momentos deixam marcas. Mas não são condenações para a vida.No simbólico dia 26 de janeiro começa o período no qual as esquerdas têm de refletir por sua vez no fenómeno do Chega e concertar respostas. É hoje claro que o CDS foi absorvido e o PSD está comprometido. A direita portuguesa meteu todas as fichas na destruição da democracia; os que não gostam disso calaram-se. Não aconteceu em Portugal o que sucedeu noutras regiões da União Europeia: Rui Rio não vincou a linha vermelha à direita do sistema partidário. Talvez porque Passos Coelho a tinha apagado e Luís Montenegro se preparava para construir uma auto-estrada entre o centro-direita e a direita radical.
3
Parece-me gritantemente óbvio que uma das reflexões urgentes a fazer nas esquerdas é a necessidade de alterar a relação de forças na Comunicação Social. A pandemia e mais recentemente o período das presidenciais mostraram que a direita tem a hegemonia na condução estratégica dos órgãos de Comunicação Social. Um dos efeitos funestos é a manipulação das meias verdades e das mentiras e das sondagens para criar e modelar dinâmicas sociais. Não há em Portugal nenhum órgão de comunicação social que subscreva um modelo de sociedade que se possa caracterizar em moldes mínimos de esquerda. E a influência nos órgãos existentes é cada vez menor.
4
A chanceler alemã Angela Merkel deverá conhecer amanhã o próximo líder do seu partido, a CDU. O mais provável, segundo as sondagens, é Friedrich Merz, um adversário de Merkel que representa a linha mais à direita do partido democrata-cristão. Mas hoje a incerteza ainda pesava no processo eleitoral, que decorre online: os outros candidatos, Armin Laschet e Norbert Röttgen, mantinham a eleição em aberto.Se der Merz, a CDU abandona o pragmatismo de Merkel para abraçar o liberalismo económico — not that good para a União Europeia mas mau para a direita radical alemã da AfD. Enfim.De notar que se espera que, ao contrário do que é hábito e sucedeu com Merkel, o líder da coligação CDU/CSU a concorrer a chanceler em setembro venha não da CDU (o partido maior da coligação) mas da CSU: Marcus Söder.Aprofundar:German CDU on verge of electing divisive figure to replace Angela Merkel. Millionaire lawyer Friedrich Merz is favourite to take centre-right into federal elections // GuardianQuais as chances de um democrata cristão suceder Merkel? Em convenção virtual, 1.001 delegados da CDU vão escolher o novo chefe do partido de Merkel. Uma decisão de peso, pois novo líder conservador estará entre os favoritos para assumir a chefia do governo da Alemanha. // Deutsche WelleFriedrich Merz’s revenge. Thin-skinned lawyer who wants to succeed Merkel has a history of going after his critics. // PoliticoPrésidence de la CDU : Friedrich Merz veut sa revanche. L’expertise financière de cet homme d’affaires et son ambition réformatrice en font le favori des milieux économiques et conservateurs délaissés par Angela Merkel. Son passif avec la chancelière inquiète cependant nombre de délégués. // Les EchosTrês homens na corrida a líder da CDU. Para suceder a Merkel o favorito é outro. Friedrich Merz, Armin Laschet e Norbert Röttgen são os candidatos, mas é Markus Söder que poderá acabar por ir a votos nas eleições de 29 de setembro. // DN

OPINIÕESEurico Reis escreve sobre Lei e Estado de Direito: O combate pela democracia. Expresso 👉Vital Moreira escreve sobre o caso dos jornalistas vigiados pelo Ministério Público: Às Avessas (2): Quando Os Infratores “viram” Queixosos. CausaNossa 👉Ana Alexandra Carvalheira escreve sobre o impacto da pandemia nos relacionamentos: Procura-se parceiro: Solteiros com a vida amorosa em atraso. Visão 👉António Luís Marinho escreve sobre os debates das presidenciais: Elogio da direita democrática . ionline 👉Rui Bebiano escreve: A guerra contra a Covid-19 e os partidos. ATerceiraNoite 👉Jorge Sampaio escreve: O Presidente da República no semipresidencialismo português. Expresso 🔒Simões Ilharco escreve sobre as medidas: Portugal no rumo certo apesar do confinamento. DiárioDeNotícias 👉 
LINKLOGResearch suggests that at least one type of plant – the french bean – may be more sentient than we give it credit for: namely, it may possess intent. The issue of whether or not plants choose their actions and possess feelings or even consciousness is a thorny one for many botanists, with the more traditional-minded strongly disputing any notion of sentient vegetation. Although plants clearly sense and react to their environments, this doesn’t mean they possess complex mental faculties, they argue.  //theguardian.com 🇬🇧We Mock the Rioters as Ignorant Buffoons at Our Peril  //politico.com 🇬🇧Global coronavirus death toll reaches 2 million people. Our world has reached a heart-wrenching milestone says United Nations chief António Guterres  //theguardian.com 🇬🇧How to fix EU’s weak Digital Services and Markets Acts.  //euobserver.com 🇬🇧 
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Certamente! Terça-feira, 12 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Hoje é um belíssimo dia para evitar o uso da palavra caos. Adiante. No menu: o plano de vacinação, a gravidade da pandemia e uma boa notícia científica. Adenda em cima do fecho, uma sombria reflexão sobre o dilema do Partido Republicano: ser ou não ser pela democracia, eis a questão.Fica para amanhã o correio dos leitores que esteve previsto para hoje.
1
A confiança nos grupos de técnicos e de governantes que integram a tomada de decisões faz parte da minha forma de encarar esta época extraordinária e esta é uma atitude tão profunda quanto inabalável. Isto não significa que não tenha dúvidas e opiniões. Vou tornar pública uma opinião contrária às prioridades do plano de vacinação em consequência do teste positivo do Presidente da minha República e por inerência comandante supremo das Forças Armadas e como tal o cidadão mais significativo do país.Entendo que a primeira linha política devia encabeçar a primeira vaga de vacinas. Não usar a primeira remessa de vacinas no Presidente da República, no Primeiro Ministro e numa lista de pessoas dos órgãos de soberania e de exposição pública elevada (uma lista fácil de fazer, filtrando ministros, secretários de Estado, líderes partidários, candidatos presidenciais, you name themé um erro. Cometido por uma péssima razão: o medo da reação da opinião pública.A um governante não peço que governe em função do que diz o grupo de privilegiados com espaço na comunicação social, nem dos trending topics do Facebook e Twitter, nem dos estudos de opinião. Peço que tudo isso tenha (bastante) menor prioridade que a eficácia das medidas a tomar, que as políticas sufragadas e que as necessidades de cada momento, sobretudo se estamos num momento excecional em que se pede ainda maior atenção às decisões.Se tiver de ser impopular, so be it. Governar não é um concurso de popularidade. Ser político é secundado por ser estadista. É assim que eu voto, é o meu pacto, a minha expectativa.
2
De acordo com o período de confinamento. Um mês, disse António Costa. Disse bem. É a política do medo? Pois que seja. Qualquer pessoa com um dedo e meio de testa já compreendeu a dimensão e a escala da ameaça que o novo coronavírus representa para a espécie humana.Há tempos usei a metáfora da bola de neve. A Covid-19 é a bola de neve: à medida que se espalha, o seu impacto no sistema de saúde aumenta exponencialmente e atrai todos os recursos e esforços que normalmente seriam distribuídos por outras patologias. Não interessa se é público, privado ou não sabe/não responde: o sistema global é afetado. É arrasado à medida que a bola de neve desce a encosta aumentando de tamanho.
3
Novo modelo de previsão da evolução da COVID-19 poderá aliviar a pressão sobre o sistema de saúde. Uma equipa de cientistas MedUni Vienna liderada por Alice Assinger no Centro de Fisiologia e Farmacologia desenvolveu um modelo para prever a sobrevivência de pacientes hospitalizados COVID-19 com um elevado grau de precisão. O aspecto importante deste modelo é que se baseia exclusivamente em medições clínicas de rotina existentes, de modo a não requerer qualquer análise laboratorial complexa adicional.Os médicos podem introduzir os parâmetros dos seus pacientes numa calculadora online, passando a dispor de uma ferramenta para os apoiar nas suas decisões relativas à potencial alta dos pacientes. O modelo matemático que sustenta a ferramenta foi desenvolvido por Stefan Heber do MedUni Vienna Institute of Physiology e baseia-se em medições repetidas do marcador inflamatório proteína C-reactiva, o marcador de creatinina que reflecte a função renal e o número de plaquetas (trombócitos) no sangue.Ainda sem o peer review, já estão disponíveis tanto o artigo científico como a ferramenta de cálculo para uso de especialistas.(Se escreves conteúdos para sites de imprensa ou és jornalista, toma o link para o press-release e dados adicionais.)
4
Uma das principais consequências da cedência do Partido Republicano aos avanços da direita radical, que acabou por levar Trump à presidência dos EUA, está agora exposta como uma ferida profunda: o partido tem hoje duas correntes, uma corrente que é intrinsecamente pró-democracia e outra corrente que quer destruir a democracia americana e tornar o país numa autocracia plutocrata.Os republicanos terão de tomar uma decisão pública sobre isto. Terão de ser claros perante a América: ou são pró-democracia, ou não. Continuarem divididos não é opção.Rui Rio e o que resta do PSD devem mirar-se naquele espelho. Na sua escala, a porta aberta por Passos Coelho com o seu compromisso com o ninho de radicais de direita que emergiu este século em Portugal expôs o PSD ao mesmo dilema vital.A diferença esteve em André Ventura: não quis esperar pelo trajeto interno, apressou-se e saiu do PSD para fundar o Chega. A direita radical portuguesa ganhou o seu veículo, um trator capaz de arrastar eleitores e quadros dos PSD para um movimento de debandada; o esvaziamento do PSD é o facto político desta legislatura.Regressando aos EUA: o sistema político estado-unidense tem-se aguentado bi-partidário até hoje. Será o GOP capaz de manter a tradição e a fidelidade à democracia?

OPINIÕES

João Rodrigues desanca forte em Miguel Sousa Tavares: Passar o tempo. LadrõesDeBicicletas
👉
Marisa Fernandes escreve sobre a gestão política da tecnologia: De deusa da Terra a criadora da harmonia digital: Gaia a fechar a presidência alemã. DiárioDeNotícias
👉
João Figueira escreve sobre Jornalismo e André Ventura: As notícias da política rasca.SinalAberto
👉
Mariana Mortágua escreve sobre a extrema-direita: Pessoas de bem podem votar mal. JornalDeNotícias
👉
Afonso Camões escreve sobre o papel dos Estados: A desigualdade infeta. DiárioDeNotícias
👉
Rosália Amorim escreve sobre voto e MAI: Um novo normal exige um novo tipo de voto. DiárioDeNotícias 👉
LINKLOG
One of Trump’s most significant failures is a massive win for the climate movement. The fossil fuel divestment movement was a success in 2020. It will need to go even harder in 2021.  //msnbc.com 🇬🇧

Can Buddhism teach artificial intelligence engineers to make more ethical programs? In the MIT Technology Review, Professor Soraj Hongladarom of Chulalongkorn University in Bangkok argues that programmers not only in the East but also the West can benefit from the principles of Buddhism​ and that AI should strive to relieve “suffering from pain.”  //technologyreview.com 🇬🇧
50,4%
: a Chinese vaccine has been found to be significantly less effective than what previous data suggested, even as the Brazilian research institute that conducted the phase 3 clinical trials urges the public to not focus on the new efficacy rate.  //scmp.com 🇬🇧

10 momentos em que Ventura imitou Trump  //esquerda.net 🇵🇹
A extrema direita é um problema novo e não é apenas político-partidário. Os media e, por inerência, o jornalismo, têm de aprender a lidar com este fenómeno que, aproveitando o jogo e as regras da democracia, apenas as quer corroer. 
A política rasca exige mais vigilância e um jornalismo mais exigente, criterioso e completo. Tal significa que não se pode tratar de forma igual o que é desigual.  //sinalaberto.pt 🇵🇹 
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Celebração | Maria Isabel Fidalgo

Roda a luz de manhã nos dias lisos

de leves brisas fogosas.

O sol despe-a e exibe-a aos olhos

numa transparência diáfana quase divina

quase água, quase saliva ardida

uma clarabóia de fogo

numa dança solar

a festejar o corpo.

Ao crepúsculo ainda é festa

a luz

memorial de beijos e beleza

de céu sargaço, silêncio e mar.

Apetece então a celebração do poema

um nome amoroso bordado a sal

num concerto de búzios.

Ao lusco-fusco a ventilação do sol

é ainda um amor crescente

murmúrio de águas

a celebrar a maré

nas margens da corrente

essa respiração em brasa

Maria Isabel Fidalgo

UM PAÍS QUE SE AUTODERROTA | Pedro Adão e Silva | in Jornal Expresso de 31/12/2020

Primeiro era o plano que não existia e as vacinas que não iam chegar. Depois, era a impreparação generalizada do país para administrar vacinas. No dia em que a vacina chegou, o problema passou a ser distinto: em lugar de um diretor do serviço de doenças infectocontagiosas de um dos maiores hospitais do país, o primeiro vacinado deveria ter sido outro.

É um padrão conhecido. Um país que desconfia, que se autoderrota, mesmo contra as evidências, e que aguarda com entusiasmo provinciano que as coisas corram mal.

Esquecemos com isso que nenhum país estava preparado para lidar com esta pandemia e que em todos os casos foram cometidos erros. Muitos erros, aliás. Mas, tendo em conta o que já percorremos, há motivos para nos congratularmos com a resposta que os serviços públicos portugueses deram às solicitações dos cidadãos: a segurança social que teve de processar centenas de milhares de pedidos de lay-off, enquanto os seus funcionários estavam em teletrabalho; o ensino que teve de se adaptar às aulas à distância; os lares, geridos numa combinação singular entre recursos públicos e boas vontades particulares, que se adaptaram a situações limite; e o Serviço Nacional de Saúde, que conseguiu lidar com uma pressão que se anunciava ingerível.

Temos níveis de cobertura de vacinação, por exemplo de sarampo e rubéola, superiores a 95%. Alguma coisa teremos feito bem.

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Natal 2020 | Frederico Lourenço

Quem leu o famoso romance “Brideshead Revisited” de Evelyn Waugh lembrar-se-á de uma conversa entre Charles e Sebastian sobre a fé, em que Charles se afirma não-crente e exprime a sua estranheza perante o facto de o amigo acreditar na lenda do Natal (com Reis Magos e burrinho junto da manjedoura). Diz Charles: “but my dear Sebastian, you can’t seriously believe it all… I mean about Christmas and the star and the three kings and the ox and the ass”. Ao que Sebastian responde: “oh yes, I believe that. It’s a lovely idea”.

Neste ano de pandemia, tão dilacerante para milhões no mundo (e que nos trouxe em Novembro a notícia deprimente de que Donald Trump obteve mais 11 milhões de votos do que em 2016 e, em Dezembro, mutações super contagiosas do coronavírus), a “lovely idea” do Natal é mais precisa do que nunca, capaz de consolar pessoas religiosas e pessoas sem nenhuma religião. Na verdade, não preciso de acreditar que o menino deitado na manjedoura é filho de Deus para reconhecer a espantosa beleza da ideia de que o filho de Deus pudesse estar deitado num estábulo de animais, calmamente observado por um burro e por um boi. Também não preciso de acreditar na virgindade da mãe que o deu à luz para achar “a lovely idea” a noção de que uma virgem pudesse engravidar e parir uma criança.

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O QI médio da população mundial diminuiu nos últimos vinte anos | Christophe Clavé

Nunca vi esta problemática tão bem explanada desde a monumental obra “A era do vazio” do Gilles Lipovetsky (Manuel Tavares).

“O QI médio da população mundial, que sempre aumentou desde o pós-guerra até o final dos anos 90, diminuiu nos últimos vinte anos …É a inversão do efeito Flynn.

Parece que o nível de inteligência medido pelos testes diminui nos países mais desenvolvidos.Pode haver muitas causas para esse fenômeno.

Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem. Na verdade, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não é apenas a redução do vocabulário utilizado, mas também as sutilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos. O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento: incapaz de projeções no tempo.

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Deus e Tolentino | Feliz Natal | Luís Osório

  1. O Cardeal Tolentino de Mendonça, reclinado perante o Papa Francisco, perguntou-lhe: “Santo Padre, o que me fez”. Naquele momento em que o Papa, na Basílica de São Pedro, cumprimentava cada um dos 13 novos cardeais, o bibliotecário do Vaticano sentiu o tempo parar. Francisco respondeu que ele era a poesia. E seguiu. Já passaram dois anos, o tempo infelizmente não trava como nos momentos de grande jubilo interior, continua sempre.

2. O Cardeal Tolentino de Mendonça, o rapaz pobre de Machico, filho de um pescador, continua e escrever poemas. E a ser um habitante do silêncio… apesar de toda a balbúrdia, de todo o chinfrim do mundo, ele continua a ser a criança que atravessa o mundo.

Conhecem o meu poema preferido entre todos os que escreveu?

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Devia morrer-se de outra maneira | José Gomes Ferreira

Devia morrer-se de outra maneira.

Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.

Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol

a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos

os amigos mais íntimos com um cartão de convite

para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica

a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje

às 9 horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos

escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir

a despedida.

Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.

“Adeus! Adeus!”

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,

numa lassidão de arrancar raízes…

(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… )

a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se

em fumo… tão leve… tão sutil… tão pólen…

como aquela nuvem além (veem?) — nesta tarde de outono

ainda tocada por um vento de lábios azuis…

José Gomes Ferreira

Retirado do Facebook | Mural de Maria Cantinho

ARRANCADA DE SON HEUNG-MIN VENCE O PRÉMIO PUSKAS

Tottenham’s Son Heung-min celebrates after scoring his team’s first goal during the English Premier League soccer match between Burnley and Tottenham Hotspur at Turf Moor stadium, Burnley, England, Monday, Oct. 26, 2020. (Lindsey Parnaby/Pool via AP) Britain Soccer Premier League

Son Heung-Min, extremo sul-coreano do Tottenham, é o vencedor do Prémio Puskas 2020, prémio para o melhor golo. Uma distinção conseguida com o tento marcado ao Burnley, no triunfo por 5-0 a contar para a 16.ª jornada da Premier League passada.

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Álvaro Cunhal | por Jorge Amado

«Tão magro, de magreza impressionante, chupado a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português. Falava sobre Portugal, sobre que poderia falar?

Sua paixão e sua tarefa: libertar o povo português da humilhação salazarista, libertar Portugal dessa já tão larga noite de desgraça, de silêncios medrosos, de vozes comprimidas, de alastrada e permanente fome do povo, de corvos clericais comendo o estômago do país, de tristes inquisidores saídos dos cantos mal iluminados das sacristias e da História para oprimir o povo e vendê-lo à velha cliente inglesa ou ao novo senhor norte-americano. Sua paixão e sua tarefa: fazer de Portugal outra vez um país independente e do povo português um povo novamente livre e farto e dono da sua natural alegria.

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POÈME | Samia Cherradi

Rechante-moi les rêves d’autrefois!

Et explique-moi à nouveau,

Où est passé le temps des rois,

Le temps des princes et des châteaux!

Pourquoi avons-nous tellement changé,

Et détruit nos anciens jouets?

Qu’il y avait-il de mal

A ne pas vouloir grandir?

Qu’il y avait-il de mal

A vouloir toujours sourire?

J’ai gardé au plus profond de moi

Mes doux secrets de petite-fille,

Mes chagrins, et mes émois,

Mais ma mémoire, aujourd’hui, vacille.

Pourquoi avons-nous tant changé,

Et gardé nos vieux regrets?

Qu’il y avait-il de mal

A ne pas vouloir souffrir?

Qu’il y avait-il de mal

A vouloir toujours réussir?

Qu’il y avait-il de mal

A juste vouloir vivre

TAP – A HORA MAIS NEGRA | HELENA VASCONCELOS

A leviandade e ignorância que certos “comentadores” arvoram com arrogância e tibieza são, no que diz respeito ao momento terrível que a TAP atravessa, simplesmente criminosas.

Os ( e as) que afirmam com convicção que se deve “fechar a TAP” – como se se tratasse de um negócio de vão de escada – ou “deixar cair a TAP” – com a cobardia habitual de quem prefere cruzar os braços e é totalmente falho de visão – ou, como dizia uma dessas luminárias , “reestruturar” até a TAP estar a dar lucro e depois vendê-la – como se fosse uma vaca parideira ou um peru de Natal – toda esta gente que dá palpites a torto e a direito, sem informação fidedigna, sem uma verdadeira pesquisa aturada, é, simplesmente uma vergonha para o país.

O “caso TAP” é singular e particularmente intrigante . Uma Companhia que soma prémios de excelência, que é reconhecida em todo o lado como referência, que dá cartas em inúmeros sectores – os pilotos são considerados dos melhores do mundo, os serviços de manutenção são procurados por todos, sem contar com um sem número de serviços que vão para além da aviação propriamente dita – essa mesma Companhia é vilipendiada a cada momento pelos cidadãos e cidadãs deste país que têm a memória curta e uma atitude de desprezo provinciano por algo de que deveriam acarinhar e orgulhar-se. Quando constato que tanta gente se indigna com vendas a países estrangeiros de tranches larguíssimas de empresas e companhias portugueses que são de importância estratégica – como por exemplo, a EDP – mas estão prontíssimos para vender a TAP ao desbarato, pergunto-me : afinal, o que querem? Aliás, hoje só me ocorrem perguntas: o que tencionam fazer com 10 mil desempregados, se “fecharem as portas”? Quem irá pagar os seus subsídios de desemprego, quem irá sustentar os negócios que estão agregados à TAP? Quem irá providenciar o sustento de famílias inteiras?

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Plano de reestruturação. “Se falharem as negociações em Bruxelas, a TAP é liquidada” | Ministro Pedro Nuno Santos | Texto de André Freire

Muitos parabéns ao senhor ministro das infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, pela excelente entrevista que deu ontem, 11-12-2020, na SICN, 23-24h, no horário habitual do Expresso da Meia Noite. Primeiro, pela forma vigorosa e contundente como desmascarou e contrariou um estilo de “entrevista jornalística” hoje muito em voga, não apenas na SICN (estes são apenas campeões, mas é geral), em que os jornalistas se comportam como opinadores num debate (no caso o diretor de expresso, João Vieira Pereira, e José Gomes Ferreira), emitindo opiniões (geralmente eivadas de uma vertigem populista, anti estado e anti político, de forte recorte neoliberal, defendendo tudo e o seu contrário) e impedindo amiúde o entrevistado de falar, para emitirem as suas opiniões…. Segundo, porque o plano de restruturação da TAP é muitíssimo duro e difícil, sobretudo para um governo de centro-esquerda e um ministro da ala esquerda do governo, e o Pedro defendeu-o com muita coragem, clareza e frontalidade! Terceiro pela preparação técnica que demonstrou à exaustão e pela forma como evidenciou também à exaustão a importância estratégica da TAP para o país! Quarto, pela defesa clara e inequívoca como defendeu o papel do Estado na companhia, contra o canto de sereia da vertigem neoliberal de privatizar tudo o que mexe, negando porém a rotunda falsidade de que o Estado queria o controlo total da TAP e fez sair os privados: estes é que, perante as dificuldades, “não quiseram colocar mais um tostão na TAP” e preferiram vender a sua posição ao Estado!

André Freire

Retirado do Facebook | Mural de André Freire

ENTREVISTA | VIDEO DA SIC NOTÍCIAS

https://sicnoticias.pt/economia/2020-12-12-Plano-de-reestruturacao.-Se-falharem-as-negociacoes-em-Bruxelas-a-TAP-e-liquidada

Ah, políticos como nós. Que refrescante! | por Mafalda Anjos | in Revista Visão

Os comentários acerca das lágrimas de Marta Temido mostram um equívoco enorme acerca da massa de que deve ser feito um líder e o mesmo machismo persistente em relação a mulheres em cargos de direção.

Uma das grandes epidemias deste século é a da falta de empatia. A tecnologia que colocou vários ecrãs entre nós e os outros tornou-nos menos capazes de ler quem está do lado de lá, de os sentir e de nos colocarmos no seu lugar. É cada vez mais raro alguém experimentar caminhar nos sapatos de outra pessoa, como dizem os ingleses, antes de tecer considerações sobre ela.

Desde o início da pandemia que Marta Temido e Graça Freitas têm sido sujeitas a esta epidemia da falta de empatia e a críticas que não teriam sido feitas a homens se estivessem nos lugares delas. Desde março que a sociedade portuguesa destila todo o seu preconceito em comentários maldosos que nada têm a ver com reparos à sua atuação, mas ao simples facto de lhes faltar a hormona da testosterona.

Quantas vezes ouviram que a tarefa de fazer face a uma pandemia é demasiado árdua para estar a cargo de duas mulheres? Que não têm força para isto, nem “tomates” para as decisões que é preciso tomar? Ou comentários infelizes aos dentes, aos alfinetes de peito, ao que vestem e como se apresentam? Eu li e ouvi centenas, milhares. Demasiados para o que seria de esperar em 2020. Não tenhamos dúvidas: liderar é difícil, liderar sendo mulher mais ainda. Sei do que falo.

Ontem, Marta Temido chorou em público e durante a tarde não se falou de outra coisa. Os comentários foram os mais variados, muitos deles irreproduzíveis aqui, tal e qual como quando se soube que Graça Freitas estava contaminada com Covid-19. A maioria tinha duas coisas em comum: um equívoco enorme acerca da massa de que deve ser feito um líder e o mesmo machismo persistente em relação a mulheres na política ou em cargos de direção.

Merkel, Lula da Silva, Jacinda Ardern, Obama e até mesmo Putin, imagine-se, já choraram em público. Um político não se pode emocionar? E não se pode irritar? Uma diretora-geral da Saúde não pode adoecer? Podem sim. Não só podem, como eu diria mesmo que é refrescante quando isso acontece. É sinal de que os dirigentes, políticos ou técnicos, são feitos da mesma massa do que os outros de nós, que são humanos, que também têm um coração que bate do lado esquerdo e um cérebro que funciona por sinapses. É sinal que têm consciência da repercussão das suas decisões nas vidas alheias e do peso da responsabilidade que assumem. É sinal de que não são robots analíticos desprovidos de humanismo.

Não se imagina o enorme fardo da tarefa que Marta Temido e Graça Freitas desempenham ininterruptamente desde março. As imensas dúvidas que terão tido, as decisões que tiveram de tomar não estando detentoras de toda a informação normalmente confortável para o fazer, os complexos dilemas que tiveram de ultrapassar, a frustração que sentiram perante a falta de recursos e de meios com que têm de atuar.  

Muitas vezes discordei das suas opções e muitas outras critiquei as suas decisões e declarações. Sim, é claro que cometeram vários erros. Mas esperar outra coisa é não ter noção nenhuma do que é conduzir a pasta da Saúde durante uma pandemia com um novo vírus.

Estamos cá para continuar a escrutinar. Quando tudo passar, será a História com o distanciamento devido a avaliar o seu legado e o seu desempenho. Creio que, perante as circunstâncias, não se estão a sair mal – mas ainda faltam os últimos quilómetros decisivos desta maratona, nomeadamente o plano de vacinação.

No entanto, desde já, uma coisa reconheço e agradeço a estas duas senhoras: a sua imensa resiliência, persistência e espírito de sacrifício, a sua quase inesgotável capacidade de trabalho, o seu talento para a gestão de crise com tato e serenidade. Atrevo-me a dizer que poucos seriam os homens à altura deste desafio. 

MAFALDA ANJOS DIRETORA da Revista Visão

Retirado do Facebook | Mural de Revista Visão

TAP | Tiago Franco

(Pessoal que quer ver a TAP pelas costas é melhor parar nesta linha)

Não sou um grande fã da ficção. Claramente alinho mais com a prosa factual e histórica. Ainda assim forcei-me a ler um livro que encontrei na Fnac: “Missão em Cuba” do Nelson deMille. “Best Seller” e “número 1 em Nova Iorque” prometia quem o publicitara. Eu confesso que o chamariz estava naquela foto de capa, com o capitólio de Havana e um carro da década de 50, brilhante e colorido pelos anos de embargo. Imaginei um espião no Malecón, um rum “shaken, not stirred” e rumbas húmidas com camaradas pelo meio. Mas era só na minha cabeça. Na realidade de quem pensou a história, ao fim de 100 páginas preparavam-se para aterrar em Havana. Relembro que o nome do livro é ”Missão em Cuba”. Já estava ligeiramente irritado quando ouço lá ao fundo o Cotrim a falar na Assembleia da República. De vez em quando corto na Bossa Nova e aposto no Parlamento para música ambiente. O tema era a TAP e a sua reestruturação.

O Cotrim, como se imagina, traçava o caminho da privatização e argumentava, como bom liberal, com o erário público que na sua visão deve ser reduzido. Aos poucos aquela voz, repetindo disparates, tomou a vez do Nelson e acabei por fechar o livro. Continuávamos sem chegar a Havana pelo que, mal por mal, resolvi trocar uma irritação por outra.Dizia o Cotrim, de cátedra, que não estava surpreendido com a situação da TAP e que há muito se adivinhava a necessidade de ajuda que agora se discutia. Portanto, num ano em que as companhias aéreas um pouco por todo o mundo colocaram os aviões em terra e os países encerraram fronteiras, o Cotrim percebeu que a TAP ia ter problemas. É melhor ninguém lhe dizer que sabíamos todos, para não lhe estragarmos o vídeo de 2 minutos que meteram no canal de youtube da Iniciativa Liberal.

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Cabo Delgado | Moçambique | Carlos Matos Gomes

A violência em Cabo Delgado é simultaneamente simples de perceber e propositadamente difícil de explicar. A causa simples é a luta pelo poder, enquanto domínio que permite o acesso de um dado grupo às riquezas. Neste sentido, a causa da violência em Cabo Delgado é idêntica à da violência que conduziu às invasões do Iraque, da Síria e à destruição da Líbia. A única diferença é que a região onde se encontram as riquezas – petróleo, gás, e também pedras semipreciosas – é habitada por uma sociedade com poucos ou nenhuns meios de defesa (os macondes) e faz parte de um Estado fraco, incapaz de garantir a ordem interna e de se defender de ataques externos. Cabo Delgado é um alvo mole e barato para os assaltantes.

É deliberada a complexidade das diversas explicações para a violência em Cabo Delgado, classificada como «conflito» – não há qualquer conflito, há imposição de um poder pelo terror. A complexidade destina-se a esconder os responsáveis perante a opinião pública e a confundi-la. Os argumentos que salientam tensões etnolinguísticas, particularmente entre povos muçulmanos da costa, macuas, e macondes (animistas/cristãos), desigualdades no acesso a benefícios do Estado por parte dos macondes, favorecidos pelo estatuto dos antigos combatentes, representação política, assimetrias, lançadas para a opinião pública como estando na origem do jhiadismo e das suas práticas de terrorismo religioso são meras falácias, engodos e enganos.

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O código da vida, decifrado | Arlindo Oliveira | in Jornal Público

Um problema que, durante mais de meio século, desafiou os melhores grupos de investigação do mundo, foi agora resolvido pelo programa AlphaFold.

Sabe-se, há muito tempo, que determinadas características dos progenitores passam para os descendentes. Porém, os mecanismos de transmissão destas características só foram compreendidos há relativamente pouco tempo. Mendel descobriu, e publicou em 1866, algumas das regras que controlam a transmissão destas características, mas o seu trabalho permaneceu ignorado durante décadas e só foi redescoberto no princípio do século XX. Quando, em 1859, Charles Darwin comunicou a sua descoberta (que partilhou com Alfred Russel Wallace) de que este mecanismo de herança de características estava na origem de todas as espécies que existem no planeta, revolucionou a nossa compreensão do mundo. Existia, afinal, uma resposta simples, óbvia e definitiva para a questão: o que somos, de onde vimos, como aparecemos neste planeta? Mas Darwin não sabia como era feita a transmissão de características nem conhecia o trabalho de Mendel. Foi preciso esperar mais um século até ficar definitivamente esclarecido qual o mecanismo biológico usado pela natureza para passar as características dos progenitores para os seus descendentes, criando a variação, mas também a continuidade, que tornam possível o processo evolutivo.

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Glass Marcano, la jeune cheffe vénézuélienne qui va dynamiter la musique classique.

Há três meses, a jovem de 24 anos vendia frutas com a mãe em Yaracuy, no centro-oeste da Venezuela. Ela deixou o país pela primeira vez de uma forma bizarra e agora tira selfies com a Torre Eiffel ao fundo.

E também coleciona elogios em francês.

“É uma jovem extremamente talentosa, trabalhadora e inteligente que terá uma grande carreira”, prevê em conversa com a BBC News Mundo Romain Fievet, da orquestra Paris-Mozart, que em conjunto com a Filarmónica da capital francesa organizou o concurso Maestra, para profissionais mulheres.

La Maestra – Concours de cheffes d’orchestre – Finale – ARTE Concert

Elles ne sont plus que trois candidates à encore être en compétition. Face à elles, un jury présidé par Ewa Bogusz-Moore et composé de Marin Alsop, Claire Gibault, Pablo Heras Casado, Sian Edwards, Elizabeth Askren et Maxime Pascal.

Programme : Finale | Délibérations | Cérémonie de remise des prix

TEXTO DA HOMILIA DE JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA NA DESPEDIDA DE EDUARDO LOURENÇO

“Estamos aqui num dos mais emblemáticos lugares portugueses, neste “jardim de pedra” como um dia Eduardo Lourenço chamou ao Mosteiro dos Jerónimos; estamos aqui mulheres e homens, crentes e não crentes, no contexto desta liturgia cristã para expressar a mais comovida gratidão pela vida de Eduardo Lourenço.

Normalmente a morte tem uma dimensão pessoal e o luto que nos atinge, desabrido, ardente e radical, tem uma conjugação no singular. Eduardo Lourenço também viveu assim os seus lutos. Lembro um dos últimos, há precisamente sete anos atrás, quando morreu a sua mulher, Annie. Há um manuscrito de Lourenço onde se pode ler: “A Annie acaba de morrer. Eram quatro horas menos um quarto deste 1º de Dezembro, de 2013…” E continua: “A longa agonia silenciosa da Annie […] restitui à vida uma espécie de esplendor póstumo, o da ausência tornada enfim sensível. De fora fica apenas o lençol branco da minha inexistência sem ela.” Ou recordo um dos seus primeiros lutos, sigilado na forma de dedicatória do seu livro de estreia, quando corria o ano de 1949: “em memória do Cap.Abílio de Faria e de Maria de Jesus Lourenço, meus pais”.

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O PCP e o Orçamento do Estado para 2021 | António Filipe

O PCP posicionou-se perante o OE para 2021 em absoluta coerência com o que fez entre 2015 e 2020 e como sempre disse que faria.

Apreciou as propostas pelo seu conteúdo e sem perder nenhuma oportunidade para obter avanços favoráveis ao povo português. O PCP sempre disse que a sua relação com o Governo PS não dependeria de qualquer documento assinado mas da análise das propostas em discussão. A questão não é notarial. É política. Não assenta em proclamações mas em conteúdos. O PCP obteve ganhos de causa muito importantes neste Orçamento do Estado. Não para si, mas para os trabalhadores sujeitos a lay-off, para os reformados ou para quem defende o reforço do SNS.

Se o PCP não tivesse aberto a possibilidade de discussão na especialidade e tivesse votado contra, nada disso teria sido possível. A discussão na especialidade foi um terreno de luta de que o PCP não abdicou e com a sua posição permitiu que propostas de outros partidos tivessem sido aprovadas com os seus votos mesmo contra os votos do PS. Também foi a posição e a coerência do PCP que, ao permitir a discussão na especialidade e ao viabilizar o Orçamento, tornou isso possivel.

O PCP não desiste de lutar pelo que não conseguiu obter. O Governo PS não é melhor nem pior do que era antes, mas esta luta continua em melhores condições do que continuaria se este Orçamento tivesse sido rejeitado. O PCP terminou este processo orçamental com a consciência do dever cumprido porque foram obtidos avanços concretos que os portugueses não deixarão de sentir.

António Filipe

Retirado do Facebook | Mural de António Filipe

Fundação José Saramago | Eduardo Lourenço

No dia em que nos despedimos de Eduardo Lourenço, sobre quem José Saramago escreveu «Abriu-nos os olhos, mas a luz era demasiado forte. Por isso, tornámos a fechá-los.», recuperamos, dos diários de José Saramago (Cadernos de Lanzarote e O Caderno), algumas passagens sobre a duradoura relação de amizade e admiração que construíram.
Adeus, querido Eduardo Lourenço.

Abertura do «Último Caderno de Lanzarote», de José Saramago

23 de maio de 1993
Bastou-me esperar com paciência, e aí está: Eduardo Lourenço fez hoje 70 anos, apanhou-me. Jantámos juntos: Annie e Eduardo, Luciana, Pilar e eu. O restaurante chama-se El Callejón, também nomeado Rincón de Hemingway, cujas lembranças (fotos, nada mais que fotos) se mostram dentro. Espero que o Hemingway tenha tido a sorte de comer melhor do que nós: estes restaurantes que se gabam das celebridades que um dia por lá passaram, geralmente servem mal. Divertimo-nos como garotos em férias. Alguma má-língua risonha.

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Eduardo Lourenço faleceu | por Francisco Louçã

Eduardo Lourenço (1923-2020)

Será lembrado como o ensaísta mais marcante das últimas décadas, e era-o. Será venerado como um exigente europeísta, que não cedia ao maniqueísmo financeiro, e era-o certamente. Será homenageado como um pensador da esquerda e um criador de pontes, como era. E deve ser recordado como um ser humano excepcional, de amizade inquebrantável e fiel às interrogações que nos levam para a frente. Adeus, Eduardo.

1 de dezembro de 1640 | Restauração da Independência

A 1 de dezembro de 1640, D. João IV era aclamado Rei de Portugal, rompendo desta forma com o jugo castelhano sobre Portugal e dando inicio à Guerra da Restauração, que duraria até 13 de fevereiro de 1668, data em que se assinou o Tratado de Lisboa, entre Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha.

Conflitos da Guerra da Restauração: 1- Batalha do Montijo (maio de 1644); 2- Cerco de Elvas (outubro de 1644); 3- Recontro de Arronches (novembro de 1653); 4- Cerco de Badajoz (julho de 1658);5 – Batalha das Linhas de Elvas (janeiro de 1659);6 – Batalha do Ameixal (julho de 1663);7 – Batalha de Castelo Rodrigo (julho de 1664);8 – Batalha de Montes Claros (junho de 1665).

Aclamação de D. João IV como Rei de Portugal, pintado por Veloso Salgado (Museu Militar de Lisboa).

Rapariga era eu | Maria Isabel Fidalgo

Silêncio à proa das sílabas

onde as palavras roçam a sombra

que vem da vaga despedida do dia

ou do roçar da melancolia

no berço da noite.

Queria ser rapariga com sol dentro

a desbravar o fogo no lume verde

da erva dos meus olhos.

Se chamo

não vem a mansidão da madrugada

na voz dos búzios.

Nem tu.

Dorme a vida numa vigia muda

longe do arfar das ondas

ao lusco-fusco do desejo.

Queria ser rapariga

cana verde

assobio

malhão

vira

fado

rosa

ó és tão linda…!

Mas os ferrinhos desafinam

os tambores não rufam

o poema não tem folhos

nem colho alecrim aos molhos

na dolência do poema.

Guardador de Rebanhos | Poesia Portuguesa II

Mário Viegas ironiza sobre a “popularidade” de Fernando Pessoa, escritor e poeta da primeira metade do século XX; Mário Viegas conversa com “Fernando Pessoa” (personagem interpretada por Mário Viegas) sobre a sua personalidade e obra; 41m50: Mário Viegas declama 10 poemas do livro “Guardador de Rebanhos ” de Alberto Caeiro, acompanhado por António Marques à flauta e a interpretação de Rui Miguel, ator; reconstituição do quadro “Retrato de Fernando Pessoa” de José Almada Negreiros.

Vandalismo com futuro | Francisco Louçã

Ao longo do dia de hoje, o drama das eleições norte-americanas, que ainda não tem vencedor oficialmente certificado três semanas depois do dia do voto (e as contagens ainda continuam, mesmo que já não mudem nada), vai chegando ao fim.

Entretanto, foi-se convertendo numa farsa: os tuítes do presidente cessante deixaram de ser uma ameaça para serem risíveis, fracassou a convocação para a Casa Branca dos representantes da maioria republicana na assembleia estadual do Michigan para os convencer a imporem um golpe constitucional de duvidoso resultado, os anunciados processos com provas esmagadoras são amesquinhados por juízes conservadores em tribunal. Parece não sobrar nada da estratégia de Trump, que sorumbaticamente se arrasta por campos de golfe para passar o tempo, enquanto no seu país o número de casos Covid se aproxima dos duzentos mil por dia.

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PAN | PESSOAS-ANIMAIS-NATUREZA

O PAN defende uma sociedade informada, consciente, livre, justa e inclusiva e uma democracia baseada na participação, na ética, na convergência, no respeito e na igualdade.

Ciente do poder de mudança de cada um de nós, o PAN considera que as transformações políticas, sociais, económicas, ambientais e culturais que almeja só podem ser alcançadas por via do exercício da democracia participada, do pensamento livre, do compromisso pessoal e da responsabilização onde a reunião de vontades e esforços se conjugam no trabalho colectivo.

Os presentes estatutos conferem os instrumentos normativos para que todos e todas possam construir visões, estratégias e objectivos, promovendo o envolvimento e valorizando cada pessoa em toda a sua singularidade, na estreita observância dos princípios e valores éticos que norteiam o PAN.

Estas disposições procuram conferir uma organização interna baseada na confiança, na solidariedade, no respeito pela diversidade e, sobretudo, na liberdade e nas responsabilidades partilhadas a todos os níveis.

Reconhecendo a relevância de todos os contributos e a igualdade de oportunidades na participação nos destinos, implantação e consolidação do PAN, os estatutos garantem a representatividade dos vários pensamentos e sensibilidades que enriquecem este projecto, pois o PAN de cada um e de cada uma é o PAN de todos e de todas.

https://www.pan.com.pt

É melhor não repetir o que a TVI fez com o Banif | Francisco Louçã

A desvantagem de comentar a quente é esta: não se pensa duas vezes.

José Gomes Ferreira, que conhece bem a economia e as trapalhadas do Novo Banco, veio dizer hoje ao almoço que havia um “risco indireto” para os depositantes desse banco e um risco para o Estado português, em função da decisão do parlamento de não autorizar uma transferência de 478 milhões até haver resultado de uma auditoria confiável.

Ele apressou-se logo a corrigir e a dizer que o risco era “muito indireto”, mas fez mal em ter feito a sugestão inicial. Foi assim que uma informação da TVI, aliás errada, desencadeou uma corrida ao Banif.

Esse risco de depósitos não existe no Novo Banco e é errado suscitar esse receio. Os depósitos estão seguros. O que o parlamento decidiu é de simples bom senso.

O pagamento ao Novo Banco pelo Fundo de Resolução, que só ocorre em maio, deve ser precedido de uma justificação nos termos do contrato, da certeza de que não há abuso e de que as contas estão certas. Aliás, Gomes Ferreira declara peremptoriamente que os 478 milhões nunca iriam chegar e que, portanto, a conta proposta no Orçamento era a fingir. Ele tem a certeza de que vai ser pedido mais dinheiro, tem razão e ainda bem que o revelou.

Por isso, sabe-se que haveria sempre uma nova proposta do Fundo de Resolução e do governo para subir o financiamento. Tudo em maio, como está no contrato. Não há, portanto, nenhum incumprimento desse contrato pelo Estado português. Não sabemos é se há um incumprimento por parte da Lone Star e isso vai ser apurado pela auditoria.

Que um Estado decente proteja os seus cidadãos e os depositantes do banco é de meridiana clareza.

Não vejo como se possa alegar uma obrigação que ainda não está confirmada (nem as contas do ano estão fechadas) ou como se possa aceitar que um fundo financeiro imponha a um país a obrigação de lhe dar uma fatia do orçamento, só pela sua conveniência e à margem das obrigações contratuais.

Ouvir membros do governo falarem como se fossem porta-vozes da Lone Star, afirmando que o contrato está a ser incumprido só porque não foi autorizada em novembro, e até haver auditoria competente, um pagamento aprazado para daqui a seis meses, só permite uma constatação triste de como se degradou o sentido da governação.

Seria preferível defender Portugal e a seriedade das suas contas.

Francisco Louçã

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Querido Diego | Luís Osório

Não me conheces, mas eu aprendi a gostar de futebol com as tuas fintas, o teu toque de bola, a tua habilidade para fazer de cada jogada uma obra de arte.

Impossível ficar indiferente ao que eras dentro de campo. No palco estavam vinte e dois homens, mas os olhos das pessoas não se desviavam de ti, do teu corpo baixo e anafado, da tua pose provocadora, da tua arrogância de menino de rua.

Nunca conheci ninguém como tu. Nunca conheci ninguém que tivesse feito tanta merda para que o mundo desistisse de ti. Esforçaste-te o melhor que conseguiste para enterrar fundo tudo o que de bom fizeras nascer. Foste um mau exemplo para as crianças, mas as crianças continuaram a olhar fascinadas para as imagens dos teus golos.

Foste dependente de todas as drogas. Fumadas, snifadas, injetadas. Heroína, cocaína, anfetaminas, crack. Nos dias de catástrofe injetavas-te num braço com cocaína e no outro braço com heroína. Precisavas de acelerar para viver e de acalmar para que os cavalos não te saíssem a galope do coração. Mas mesmo assim o povo continuou a aplaudir-te como se tu fosses o que salva pessoas do vício e os faz acreditar que é possível a felicidade.

Em muitos dias alucinados agredias pessoas, disparavas tiros de espingarda contra jornalistas acampados à porta de tua casa, cuspias, ameaçavas e eras na maioria parte do teu tempo um mau caráter. Ah, mas as pessoas nunca te abandonaram.

Nunca desistiram de ti. A cada erro, a cada queda lá vinham os aplausos, os abraços, as lágrimas. Trataste mal filhos e mulheres com quem casaste. Foste um cabrão da pior espécie, mas depois erguias-te e tudo passava. Ficaste disforme. Duzentos quilos de gente. Um monstro de banhas num corpo quase anão, os olhos quase a sair das órbitas, um exemplo de decadência. Mas o povo não te via assim, via-te outra vez na Bombonera a partir os rins a meia equipa contrária antes de picares a bola por cima do guarda-redes.

Passavas os dias em bordéis e trocavas mensagens com chulos, mas até o Papa Francisco te definiu como o único ser humano que se aproximou de uma ideia de Deus.

Envolveste-te com a máfia napolitana, trocaste favores, fizeste trinta por uma linha, mas se fechar agora os olhos vejo-te a fintar meia equipa de Inglaterra antes de entrares com a bola pela baliza dentro.

Fizeste tudo o que pudeste para que o povo te abandonasse. Mas fracassaste, Diego. Desculpa que te diga, mas fracassaste nesse objetivo.

Aos deuses tudo se perdoa. E tu foste o único humano a quem tudo se perdoou. A esta hora não estarás a caminho do céu, não acredito nisso.

Mas sei que já estarás no Olimpo, uma terra de deuses imperfeitos onde pertences por inteiro direito.

Adeus, Diego. Não me conheces, mas eu conheço-te muito bem. E perdoei-te sempre. Nunca liguei ao que fizeste para que eu te esquecesse.

LO

Retirado do Facebook | Mural de Luís Osório

Mourir d’aimer | Zoubida Belkacem

Des mots blessants assénés

Aussi mortels qu’une flèche empoisonnée.

Prélude d’une tragédie annoncée

Ce n’était pas une lune de miel

Mais une nuit d’horreur et de fiel

Au crépuscule d’une aube vacillante

Un goût d’amertume, sous une pluie battante

Les larmes coulent étouffant des sanglots

Une blessure béante qui ne retient plus les maux.

Un coeur meurtri qui souffre trop

J’aurai voulu mourir d’aimer

Connaître l’amour et l’ivresse désabusée

Croire encore en ses promesses insensées

Mais où est la magie ?

lorsqu’il ne reste plus que

mensonge et mépris !!

Zoubida Belkacem

Texte protégé

Bendito seja o mesmo sol de outras terras | Alberto Caeiro

Bendito seja o mesmo sol de outras terras

Que faz meus irmãos todos os homens

Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,

E nesse puro momento

Todo limpo e sensível

Regressam lacrimosamente

E com um suspiro que mal sentem

Ao Homem verdadeiro e primitivo

Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.

Porque isso é natural — mais natural

Que adorar o ouro e Deus

E a arte e a moral …