ABRIL NOS DEU A HORA E NADA FOI EM VÃO!, por Licínia Quitério

É sempre tempo de falar de um Abril que aconteceu, de remoer um Abril que se não deu.

Em Abril renascemos. Respirámos tão fundo que à nossa volta estremeceu o mundo.

Assim fizemos nós, os já cansados, os sofridos, os ansiosos pela luz tardia no brilhar.

Assim falo eu dos que Abril aguardaram em silêncios redondos de medo e solidão. Dos que mais longe foram e rasgaram o escuro e por isso pagaram com o corpo e o coração.

Depois de Abril nasceram. Não trouxeram consigo a memória das sombras. Não precisaram de aprender da Liberdade o nome, porque ela os inundou como se seiva fora, primordial e imensa.

Assim falo eu dos que souberam pelos pais e os pais dos pais que um outro mundo houvera em que o Adamastor impedira a dobragem do Cabo das Tormentas que em Esperança se tornou para lá dos temporais.

Outros irão nascer, netos dos netos a haver. A pouco e pouco Abril se irá esbatendo, a lembrança dos homens esmorecendo. Mas Abril ainda aqui está e aos fantasmas do ontem que por aí assomam, de sorriso rasgado, mas com o olhar gelado, aos novos comedores do sangue da manada, aos velhos fazedores do mito e da traição, hoje diremos, com o queixo levantado, do nosso amigo segurando a mão, a palpitar, festivo, o coração:

ABRIL NOS DEU A HORA E NADA FOI EM VÃO!

Licínia Quitério, 24.04.2006