A carta de Galileo Galilei | Francisco Louçã

Foi descoberta num arquivo de Londres a carta original de Galileo ao seu colega Benedetto Castelli, um matemático da universidade de Pisa, que defendia em 1613 que a Igreja Católica estava errada, que o Sol não anda à volta da Terra, e ainda que a investigação científica deve ser livre de teologia. Pensava-se que a carta estava perdida.

Em 1615 foi denunciado e depois julgado pela Inquisição.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Dez anos mal contados e que contam muito | Francisco Louçã

É o décimo aniversário da crise do subprime? Não, está mal contado. É certo que a bancarrota do Lehman Brothers, em setembro de 2008, com a sua dívida de 613 mil milhões de dólares, foi, à época, a maior na história dos EUA. Mas já em 2007 vários fundos da finança-sombra tinham entrado em incumprimento e desde março de 2008 as grandes falências multiplicaram-se nos EUA. Quando o Lehman caiu já a procissão saíra do adro e no fim desse mês já ia em mais sete falências: o venerável Bear Stearns (em Março); o gigante de seguros AIG; start-ups como o IndyMac, o Washington Mutual e o Wachovia; e entidades parapúblicas como o Fannie Mae e o Freddie Mac. A resposta foi mais liquidez, nacionalizar os ativos tóxicos e concentrar a banca. Dez anos depois, estamos pior em quatro domínios.

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DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA | Mário de Carvalho

Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura.

Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família».

Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar».

Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai.

Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal.

Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua.

Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio.

Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão.

Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina.

Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde.

Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro.

Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer;

Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche.

Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.

MdC

04-09-2012

Diez años bastan | En este decenio se ha producido la mayor intervención pública para salvar el capitalismo y la democracia tal y como los conocíamos | EL PAÍS | Introdução de Carlos Matos Gomes

Passam por agora 10 anos sobre a chamada crise do subprime e da falência do banco Lehman Brothers (18 Setembro)

O jornal EL PAÍS recolhe elementos de 10 livros sobre a crise que ajudam a perceber a tempestade que se levantou e as consequências que ela provocou e que ainda vivemos.

A crise de 2008: “Não foi um acidente pontual, mas uma mudança global: trouxe populismo, autoritarismo e Brexit.”

“Nesta década houve a maior intervenção pública para salvar o capitalismo e a democracia como os conhecíamos” – quanto a princípios e competências dos economistas neoconservadores e neoliberais (o diabo que os distinga), estamos conversados.

“A recessão foi muito pior do que teria sido sem a intervenção de economistas ortodoxos”

Após o colapso do banco de investimento Lehman Brothers, após fracassarem todas as tentativas por parte das autoridades dos EUA para vendê-lo a alguém, o Tesouro Americano (FED) injetou cerca de 105 bilhões de dólares no sistema, mas logo percebeu que não poderia deter a maré de retirada de dinheiro. As autoridades financeiras americanas (FED presidido por Alan Greenspan, um radical neoliberal) decidiram suspender a operação, fechar as contas monetárias e anunciar garantias de US $ 250.000 por conta, para que não houvesse mais pânico. Se não o tivessem feito, estimaram que 5,5 bilhões de dólares do sistema de mercado monetário dos EUA teriam sido retirados às duas horas daquela tarde, e isso teria destruído a economia mundial.
Teria sido o fim do nosso sistema económico e do nosso sistema político, como o conhecemos.

No dia seguinte à queda do Lehman, os mercados financeiros ficaram paralisados, o governo republicano de Bush nacionalizou a AIG, uma das maiores seguradoras do mundo, e começaram as primeiras injeções de centenas de bilhões de dólares (capitais públicos) para salvar Wall Street!
Alguns textos (10 anos de crise, Rumo ao controle cidadão das finanças, publicados pelo ATTAC) defendem que a Grande Recessão ainda não acabou, embora o mundo tenha retornado a um estágio de crescimento económico e redução das taxas de desemprego, mas houve uma mutação silenciosa e uma metástase de seus efeitos negativos mais estruturais, como a precariedade da vida, dos mercados de trabalho e o aumento da desigualdade.
Durante as três décadas anteriores, a revolução conservadora havia ensinado ao mundo que “o mercado resolveria tudo”. Mas Wall Street caiu e a solução foi renegar todos os princípios e sacar dinheiro público para a maior intervenção com dinheiro público de que havia memória.
O famoso “consenso de Washington” (disciplina fiscal e monetária) foi nada mais e nada menos que uma ejaculação piedosa dos teóricos necons sem contato com a realidade. O problema não era, como eles haviam dito, dos grandes governos, dos ogros filantrópicos, mas dos executivos fracos, de menos Estado, que haviam destruído, ou enfraquecido os instrumentos regulatórios adequados para enfrentar os desafios do mercado entregue à lei da selva.

O texto introdutório foi feito a partir de uma tradução automática do espanhol para o português do Brasil.

LER TEXTO DO EL PAÍS AQUI: 

https://elpais.com/cultura/2018/09/07/babelia/1536338430_931760.html?id_externo_rsoc=FB_CC

The Ancient Origins of Consciousness | How the Brain Created Experience | by Todd E. Feinberg and Jon M. Mallatt

How consciousness appeared much earlier in evolutionary history than is commonly assumed, and why all vertebrates and perhaps even some invertebrates are conscious.

Summary

How consciousness appeared much earlier in evolutionary history than is commonly assumed, and why all vertebrates and perhaps even some invertebrates are conscious.

How is consciousness created? When did it first appear on Earth, and how did it evolve? What constitutes consciousness, and which animals can be said to be sentient? In this book, Todd Feinberg and Jon Mallatt draw on recent scientific findings to answer these questions—and to tackle the most fundamental question about the nature of consciousness: how does the material brain create subjective experience?

After assembling a list of the biological and neurobiological features that seem responsible for consciousness, and considering the fossil record of evolution, Feinberg and Mallatt argue that consciousness appeared much earlier in evolutionary history than is commonly assumed. About 520 to 560 million years ago, they explain, the great “Cambrian explosion” of animal diversity produced the first complex brains, which were accompanied by the first appearance of consciousness; simple reflexive behaviors evolved into a unified inner world of subjective experiences. From this they deduce that all vertebrates are and have always been conscious—not just humans and other mammals, but also every fish, reptile, amphibian, and bird. Considering invertebrates, they find that arthropods (including insects and probably crustaceans) and cephalopods (including the octopus) meet many of the criteria for consciousness. The obvious and conventional wisdom–shattering implication is that consciousness evolved simultaneously but independently in the first vertebrates and possibly arthropods more than half a billion years ago. Combining evolutionary, neurobiological, and philosophical approaches allows Feinberg and Mallatt to offer an original solution to the “hard problem” of consciousness.

A bala | Geraldo Alckmin

O desemprego, as filas na saúde, a fome e outros problemas que atingem principalmente os grupos mais vulneráveis da nossa população não serão resolvidos na bala. Tem que ter experiência, responsabilidade e determinação para unir o Brasil e fazer as mudanças que o nosso país precisa. Assista ao vídeo da campanha de Geraldo Alckmin 45!

(O comercial é uma adaptação da premiada campanha inglesa “kill the gun”.)

Por Francisco | Carlos Zorrinho

Com as “guerras santas” a serem travadas um pouco por todo o globo e os escândalos mundanos dilacerando as diferentes igrejas, é importante refletir sobre a condição humana na sua complexidade espiritual e racional, face aos novos contextos da vida moderna.

A vida é antes de mais uma experiência que permite formar a consciência de que se existe e partir daí para todas as interrogações sobre o seu sentido. A experimentação do sagrado é uma forma de consciencialização que tem vindo a perder terreno face a tudo aquilo que a modernidade oferece ao Homem como experiências múltiplas, científicas, desportivas, artísticas, profissionais, sensoriais, relacionais ou outras. Experiências devidamente certificadas, embaladas, com folheto de instruções e prazos de validade.

O vazio da experiência, quando existe, tende a ser preenchido pela norma ou pelo estabelecido, naquilo a que podemos chamar fé nas suas diversas demonstrações e aplicações. Neste contexto, o espaço para o inesperado, para o deslumbramento puro, para a sensação forte, para a descoberta encantadora é cada vez menor.

É neste quadro de exaltação extrema da experiência organizada para ser consumida até ao limite do vazio e do acantonamento da fé, reservada para compor, quando é caso disso, os buracos negros da consciência, que emerge a força da tentação mesmo onde ela seria menos expectável.

Os recentes escândalos de práticas pecaminosas por dignitários da igreja católica, designadamente de práticas de pedofilia, são um alerta e um apelo ao retorno à simplicidade e ao reencontro dos indivíduos consigo mesmos e com a sua natureza, seja qual for a missão específica que desempenham na comunidade em que vivem.

O conservadorismo ultramontano que agora critica abertamente Francisco, ao impor no passado medidas não naturais como o celibato obrigatório dos Padres, ajudou a construir a teia onde agora quer prender os que demonstram uma mente mais aberta aos desafios dos novos tempos.

Uma das razões pelas quais Francisco é um Papa respeitado muito para além dos fieis da igreja que chefia é o seu sentido forte de relação com o que é natural, com a perservação do planeta, com o respeito pelas culturas e pelas diferenças e com a dignidade como direito matricial do ser humano.

Que Francisco continue a ser iluminado e a iluminar-nos, para que o sagrado e a fé, combinados à medida da consciência de cada um, nos afastem das tentações destrutivas e degradantes que corroem partes importantes da nossa sociedade.

Carlos Zorrinho

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Zorrinho

Um raio-X da Inquisição em Minas Gerais | Neusa Fernandes | por Adelto Gonçalves

                                                          I

Como tantas manifestações sociais registradas na História do Brasil que sofreram um certo abrandamento ao longo dos tempos, também o antissemitismo foi amenizado e começa agora a passar por um revisionismo graças a pesquisas nos arquivos brasileiros e portugueses, que deixam claro que a Inquisição, por intermédio de seus comissários, familiares, padres e bispos, perseguiu, torturou e queimou muitos cristãos-novos, especialmente os mais abastados. É o que mostra a historiadora Neusa Fernandes em A Inquisição em Minas Gerais no século XVIII (Rio de Janeiro, Mauad Editora, 2014) e A Inquisição em Minas Gerais: processos singulares (Rio de Janeiro, Mauad Editora, 2016).

Em suas pesquisas, a professora valeu-se principalmente dos processos inquisitoriais que estão no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, que revelam que os cristãos-novos alcançados pelas malhas da Inquisição, na maioria, estavam envolvidos no comércio do ouro e diamantes e de escravos, ainda que se

dedicassem a outras práticas comerciais.  Através das redes comerciais espalhadas por Portugal, Brasil e várias regiões da África, esses cristãos-novos alcançaram notoriedade social e até mesmo poder em suas comunidades, o que lhes garantia a segurança necessária para que continuassem a desenvolver as práticas judaicas, de que nunca se desvinculariam.

Mas, como mostra a historiadora, essas práticas só começaram a incomodar as classes poderosas a partir do momento em que as atividades comerciais desenvolvidas por esses cristãos-novos passaram a subverter o projeto metropolitano que queria a colônia voltada para o comércio exterior, ou seja, para o fornecimento de matérias-primas para os grandes comerciantes de Portugal, que, como se sabe, eram também dependentes daqueles círculos europeus mais fortes, especialmente ingleses, holandeses, franceses e italianos. Aliás, como registrou em 1755, à época do terremoto, o insuspeito ministro Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), o marquês de Pombal, no século XVIII, “Portugal estava sem poder e sem força, e todos os seus movimentos eram regulados pelos desejos da Inglaterra” (vol. 2, pag.239).

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Em 1990 a direita recusava a vinda de Le Pen a Portugal | Francisco Louçã in Jornal Expresso

Em 1990 a direita recusava a vinda de Le Pen a Portugal. Em 2018 indigna-se porque Marine Le Pen foi desconvidada. O que fez virar a direita?

No dia 5 de julho de 1990, algumas centenas de personalidades protestaram por escrito contra a vinda de Le Pen a Portugal. Apelidaram os que com ele se reuniam em Sesimbra como “pessoas não gratas” e o Presidente da República denunciou a iniciativa. Entre quem então recusou a vinda de Le Pen estava gente grada do CDS (Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires, Basílio Horta, António Lobo Xavier, Abel Pinheiro, Narana Coisssoró) e do PSD, então no governo (Emídio Guerreiro, Manuela Aguiar, Pedro Roseta, Montalvão Machado, Rui Carp, Guilherme Silva).
Em 2018, em contrapartida, a direita levantou-se indignada por Marine Le Pen não vir à Web Summit. Nuno Melo, no seu estilo leve, gritou contra a má educação do desconvite. Os jovens turcos do PSD multiplicaram-se em explicações atabalhoadas sobre como estariam na primeira fila a ouvir Le Pen e a detestá-la mesmo muito. O Observador explodiu em amargura, anunciando que vivemos em “fascismo obrigatório” (Helena Matos, secundada pelo inimitável Alberto Gonçalves) ou que Le Pen foi alvo de um “ataque fascista” (Sebastião Bagulho), mais uns salamaleques de Rui Ramos e por aí adiante, há sempre um concurso de Constanças naquele panfleto quando há festa ou festança. 

O que é que então mudou na direita portuguesa para que em 1990 protestasse contra Le Pen e em 2018 acarinhasse a vinda da sua herdeira? E para que em 1990 achasse que a democracia é uma barreira e em 2018 defenda que Le Pen deve ser normalizada? Vale a pena reparar nesta transformação porque é um sinal. Há a razão pretextual: se a esquerda critica o convite a Le Pen, a direita quer Le Pen. Mas isso é só pavloviano. Há ainda a razão ideológica, relançar o refrão da Guerra Fria: a esquerda combate os fascistas por ser igual. Mas isso também é grotesco. Há outro motivo, esse mais importante, e é que a direita está encantada com Steve Bannon e Trump, achando que, como só tem a propor o sofrimento ao povo, a forma de ganhar eleições é espalhar ódio.
O episódio do convite a Le Pen, em si, não vale nada, é só uma tontice de Cosgrave. Mas a fúria convidativa da direita revela algo muito importante: a partir de agora, toda a sua política será suja. Vale tudo. Vamos ter salada ideológica, campanhas de calúnias, blogs falsos, imprensa escandalosa. Bannon é o mestre.

Francisco Louçã

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

CONDIÇÃO FEMININA NUMA SOCIEDADE MACHISTA | António Galopim de Carvalho

(In “Évora, anos 30 e 40”, em preparação)

Depois do jantar, os homens saíam a caminho dos seus interesses. Fossem ricos, remediados ou pobres, a regra era essa. As mulheres ficavam em casa. Prisioneiras das responsabilidades que, tradicionalmente, lhes eram atribuídas, continuavam no exercício das tarefas domésticas e, ao mesmo tempo, a cuidar dos filhos. Destes, os mais pequenos faziam os trabalhos da escola ou brincavam, muitas vezes na rua, à porta da casa, sempre aberta. Nas famílias sem posses para terem criadas, competia às mães e às filhas com idade para ajudar, levantar a mesa, lavar a loiça, arrumar a cozinha e, as mais das vezes, costurar.

Eram as mães que, contra elas próprias, educavam as filhas e os filhos a perpetuarem os hábitos da sociedade machista em que cresci e me fiz homem, numa vivência estimulada pela Igreja e pelo poder político da época. Jovem casadoira, qualquer que fosse a sua condição, já sabia que o seu lugar ia ser no lar ou no ninho como algumas e alguns gostavam de dizer. Ao contrário das mulheres do campo, eram poucas as da cidade com trabalho fora de casa. Grande número destas, uma vez casadas, abandonavam o emprego, para se dedicarem à casa e aos filhos.
No mundo rural não era assim. Pobres por condição e tradição, mães com ou sem filhos e raparigas adolescentes tinham mesmo de trabalhar sempre que as oportunidades surgissem e essas oportunidades eram, sobretudo, a monda, a ceifa e a apanha da azeitona.

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João Paulo Oliveira e Costa | ‘Antes dos descobrimentos nenhum ser humano sabia como era o planeta’ | in Jornal “Sol”, com José Cabrita Saraiva

Foi um dos académicos que se pronunciaram contra a construção de um Museu dos Descobrimentos em Lisboa. Mas também não se identifica com aqueles que consideram os Descobrimentos uma tragédia. ‘Os portugueses agregaram o mundo’, resume. ‘Não fomos os maiores, mas fomos importantes – e somos’.

Catedrático do departamento de História da FCSH (Universidade Nova de Lisboa), João Paulo Oliveira e Costa recebe-nos no seu gabinete com vista para a igreja de N. Sr.ª de Fátima, de Porfírio Pardal Monteiro. Geralmente conotado com a direita, o historiador faz questão de nos mostrar uma fotografia tirada na Festa do Avante. Mostra uma pintura mural, como uma frase em grandes parangonas: ‘Os Lusíadas exaltam a maior contribuição coletiva do povo português para o progresso humano: os Descobrimentos, a abertura das relações através dos oceanos, num processo histórico ainda hoje não terminado. Processo que tem incluído (e continua a incluir), desumanidades colonialistas e imperialistas’. «Esta para mim é a visão mais equilibrada do processo dos Descobrimentos», comenta. Com uma vasta obra sobre o assunto (e perto de 40 anos de estudo), João Paulo Oliveira e Costa foi um dos signatários de uma carta publicada no semanário Expresso contra a criação de um Museu dos Descobrimentos na capital. Ao SOL, explica porquê, mas também por que não concorda com algumas das críticas que estavam implícitas nesse texto.

Temos a ideia de que os Descobrimentos são um tema tão estudado que se torna pouco estimulante para um historiador. Esta polémica vem desmentir essa ideia?

Se estamos a falar estritamente das viagens de exploração, há muito pouco a acrescentar. Ninguém consegue acrescentar muito às viagens de Vasco da Gama e de Bartolomeu Dias, às explorações que levaram os portugueses ao Japão ou mesmo às explorações no interior do Brasil.

Está tudo estabelecido?

Aí sim. Mas se falarmos de uma coisa muito mais vasta que é a Expansão desde o início do século XV, com a conquista de Ceuta, até à independência de Macau em 1999 e de Timor em 2002, esse processo tem pano para mangas e muitos temas que continuam completamente virgens. Portanto o tema da Expansão…

… é quase inesgotável.

E universal. Ainda na passada semana assinámos um acordo com uma fundação saudita que quer conhecer toda a documentação que há em Portugal acerca da Arábia.

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Esta palavra “Descobrimentos”…! | LUÍS REIS TORGAL | in Jornal Público

É bom discutir conceitos, mas é necessário, fundamentalmente, ir muito além das palavras.

Uma discussão efémera e sem consequências?

Não sei porque acabei por vencer o meu comodismo de aposentado para vir discutir a questão do uso do nome “Museu dos Descobrimentos”.

O certo é que não acredito muito nestas discussões, em geral supérfluas e efémeras, por mais interesse que tenha a sua temática. Não levam geralmente a nada, pois os responsáveis pelas decisões finais são, normalmente, os poderes instituídos. Vejam o que se passou com os feriados: houve em 2012 argumentos sérios de historiadores e cidadãos contra a sua abolição ou suspensão. Nenhum argumento significativo se esboçou a favor dessa eliminação, a não ser o do puro pragmatismo. E, todavia, quatro feriados foram “suspensos” ou “extintos”, até que outro governo, com outra ideologia, decidiu trazê-los de volta.

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Da nau encalhada à Descoberta discreta, um museu aos tropeções | João Pedro Pincha | in Jornal Público

19 de Maio de 2018

Um museu para os Descobrimentos não é ideia nova. Já se quis uma nau à beira-rio, já se quis um pólo interactivo que contasse a História a partir da língua. As Descobertas incendiaram o debate, mas agora é de Descoberta que se fala. Faz diferença? E sobretudo: será que é desta?

Dia 22 de Maio de 2015. Um dia depois de ser finalmente inaugurado o novo Museu Nacional dos Coches, em Belém, Fernando Medina chamava os jornalistas aos Paços do Concelho para testemunharem a assinatura de um “protocolo de formalização de interesse” na construção de um núcleo museológico dedicado aos Descobrimentos. Com o nome provisório de Pólo Descobrir, o projecto tinha a particularidade de incluir a instalação de uma nau, com cerca de 40 metros de comprimento, na Ribeira das Naus.

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A propósito da polémica sobre o Museu das Descobertas. Equívoco, teimosias e hipersensibilidades | João Paulo Oliveira e Costa | in Diário de Notícias

12 Maio 2018

O equívoco

Seis meses depois das eleições autárquicas surgiu uma reacção a um dos pontos do programa eleitoral de Fernando Medina que propunha a criação de um Museu das Descobertas, o que suscitou uma carta, que também assinei, em que se criticava o nome do museu. No meu caso fi-lo por entender que o processo de expansão ultramarina portuguesa que deve ser musealizado é muito mais amplo, no tempo, no espaço e nas suas dinâmicas, do que a simples sequência de navegações e explorações dos séculos XV e XVI. Confundir a conquista de Ceuta ou de Goa bem como a colonização do Brasil, por exemplo, com os Descobrimentos é uma generalização errada que, no fundo, criou um mito. A carta saída no Expresso tinha como pretexto um hipotético museu, mas logo a polémica ficou centrada na palavra e nas suas leituras sem que ninguém tentasse discutir conteúdos. Estava criado o equívoco, se é que não foi um embuste.

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Por um Museu dos Descobrimentos | Luís Filipe Thomaz | in Jornal Observador

Os Descobrimentos portugueses não inauguraram o Paraíso na Terra, mas deram origem ao mundo moderno tal como o temos, com os defeitos e virtudes inerentes a toda a construção humana.

A intenção de organizar um “Museu das Descobertas” anunciada pelo presidente da Câmara de Lisboa suscitou uma reacção histérica. Se me perguntam se concordo com a ideia, respondo: plenamente. Se me perguntam pelo nome, não. Prefiro “Museu dos Descobrimentos”.

A nossa língua é rica em subtis cambiantes semânticos, pelo que, ao contrário do francês ou do italiano, faz uma diferença entre descoberta descobrimentoDescoberta usa-se sobretudo para coisas materiais e pode ser meramente fortuita: a descoberta do fogo na Pré-História, a do magnetismo terrestre pelos chineses da época Sung (960-1279), a da radioactividade pelo casal Curie, ou do ouro na Austrália, no século XIX.

Ao invés descobrimento denota um processo activo e voluntário de exploração geográfica, como em 1972 mostrou Armando Cortesão no seu artigo “Descobrimento” e Descobrimentos na revista Garcia de Orta. Eu dediquei-lhe um artigo relativamente extenso que enviei para publicação na revista Brotéria, onde, espero, sairá logo que haja paginação disponível. Aqui, não pretendo senão deixar um breve apontamento.

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Os Donos do Mundo | Pedro Baños

Pedro Baños revela-nos as táticas e os segredos dos países para dominar e influenciar à escala mundial, incluindo através da religião. Recorrendo a vários exemplos reveladores, o autor mostra-nos ainda as estratégias clássicas – todas com uma base de hipocrisia e aproveitamento das fragilidades alheias – e aponta os erros do passado que continuam a repetir-se e que são inerentes à condição humana. As regras do jogo podem ter mudado, mas há princípios imutáveis.

Uma análise reveladora sobre as principais estratégias de manipulação implementadas pelos países para manter e reforçar o seu poder ao longo dos séculos.

Pedro Baños é coronel do Exército na reserva. Diplomado pelo Estado-Maior de Espanha, é um dos maiores especialistas em Geopolítica, Estratégia, Defesa, Segurança, Terrorismo, Inteligência e Relações Internacionais. Casado e pai de três filhos, é atualmente analista e conferencista.

Europa marítima e Europa continental - novos papéis | Carlos Matos Gomes

Substituir a Inglaterra como a potência marítima da Europa

A Europa, pelo menos desde as cruzadas, dividiu-se e articulou-se segundo dois polos: um polo atlântico, que fez dela uma potência marítima, e que incluiu as Ilhas Britânicas, a Holanda e Portugal, e um polo continental constituído com base no império de Carlos Magno, com a França, a Alemanha e o Norte de Itália, ao qual se associou a Espanha, que construiu um império nas Américas e no Pacífico (Filipinas), absorvido pelos ingleses.

Estes dois eixos mantiveram-se até à II Guerra Mundial. Nós, portugueses, pertencemos desde sempre ao “círculo” marítimo — a Batalha de Aljubarrota e o casamento do novo rei com Felipa de Lencastre são um exemplo, o apoio à restauração da soberania através de um rei português e a expulsão da rei espanhol é outro, assim como o decisivo apoio inglês contra as invasões napoleónicas. Até o ultimato inglês a propósito da presença portuguesa numa área de África é, no fundo, uma imposição da pertença de Portugal no “círculo” da potência marítima contra a tentação de se aliar à potência continental, na altura a Alemanha de Bismark.

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Não, Portugal não foi a maior potência esclavagista | João Pedro Marques | in Jornal “Diário de Notícias”

O historiador Miguel Cardina afirmou, em recente entrevista ao DN, que Portugal foi “a maior potência esclavagista da modernidade” e que isso não tem sido devidamente considerado no país. Devo dizer ao meu colega que está enganado. Eu não sei em que fonte ou fontes Miguel Cardina se apoiou para afirmar o que afirmou. Admito que tenha recorrido ao site The Trans-Atlantic Slave Trade Database. Se foi esse o caso, não terá visto com suficiente rigor. As tabelas do referido site, referem-se exclusivamente ao tráfico transatlântico de escravos, e para além de deixarem de fora, claro está, a parte africana do negócio escravista, reportam os números de Portugal e Brasil, em conjunto. Já chamei a atenção para isso em artigo anterior, que terá passado despercebido a Miguel Cardina.

Mas há um segundo aspecto do seu engano que é muito mais importante. É que para além de não ter visto com suficiente rigor ao perto, Miguel Cardina também não terá visto bem ao longe. Deixou-se encadear, imagino eu, pelos números das tabelas e encadeou-nos inadvertidamente a nós. É que a história do tráfico de escravos e da escravidão não se resume ao tráfico transatlântico nem é ele que por si só cria uma “potência esclavagista”. Não estou a pôr em causa, de modo algum, as tabelas do Trans-Atlantic Slave Trade Database, que são muito úteis, e que conheço desde a década de 80, época em que David Eltis, o seu criador, mas enviava pelo correio, pois ainda não estavam online. Mas as tabelas estão longe de dizer tudo. Referem-se apenas ao tráfico transatlântico e não nos falam, por exemplo, do que se passava em terra. Na verdade, no Ocidente, a maior potência esclavagista, se essa expressão tem algum sentido ou algum interesse, não foi Portugal, mas sim os Estados Unidos. É verdade que os Estados Unidos proibiram o tráfico transatlântico de escravos em 1807 e que, nos estados do norte, começaram a abolir a escravidão ainda antes disso, logo em 1777. Os estados do sul, porém, mantiveram-na até à derrota na guerra civil, em 1865, e, se bem que já não importassem escravos por mar a não ser de forma residual e ilícita, produziam-nos e comerciavam-nos internamente, através daquilo a que se chama breeding, isto é, a reprodução biológica.

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Deuses Gregos e Romanos | in Historia do Mundo Uol

https://historiadomundo.uol.com.br

Na foto o deus HERMESDeus da eloquência, da hermenêutica, das comunicações e viagens, do comércio, da ginástica, da astronomia, da magia, da divinação, dos ladrões, dos diplomatas e de algumas formas de iniciação, guia das almas dos mortos para o reino de Hades.

Nome nativo: Hermes

Morada: Monte Olimpo

Símbolo: caduceu

Pais: Zeus e Maia

Irmão(s): Ártemis, Afrodite, Musa, Cárites, Ares, Apolo,

Dioniso, Hebe, Atena, Héracles, Helena, Hefesto, Minos, Poro

Romano equivalente: Mercúrio

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hermes

Durante o século IV e III a.C., os romanos encontram os gregos que estavam instalados na região sul do que hoje é a Itália desde o século VIII a.C. Além de alguns conflitos e trocas de mercadorias, esses dois povos trocaram, ou melhor, começaram a trocar algo igualmente importante: idéias.

Entre os séculos II e I a.C. os romanos conquistam a Península Balcânica, local em que a civilização grega se desenvolveu. Lá os romanos fizeram muitos escravos, entre eles diversos sábios gregos.

Ao chegarem em Roma, esses sábios escravizados realizaram diversas funções como, por exemplo, educar os filhos das famílias aristocráticas do Império. Ao educar essas crianças, os sábios passavam muitos do seus valores para elas. Ou seja, transmitiram valores da cultura grega às crianças romanas, fazendo com que estas assimilassem esse valores e misturassem aos seus próprios, como no caso dos deuses e da religião.

As crianças se tornam adultas, mas não perdem os valores passados pelos sábios gregos. Esse adultos acabam dando continuidade a esses valores. Existem vários exemplos dessa mescla de valores, mas o mais conhecido é a associação dos deuses gregos aos deuses romanos. Zeus, o principal deus grego foi associado a Júpiter; Ares, deus da guerra dos gregos foi associado a Marte, o deus romano da guerra. Portanto, através dessa associação, várias características dos deuses gregos foram incorporadas aos deuses romanos.

Deus Grego Deus Romano Função ou Característica
Zeus Júpiter Pai dos deuses e dos homens, principal deus do Olimpo.
Cronos Saturno Deus do tempo, pai de Zeus. Pertencia à raça dos titãs.
Hera Juno Rainha dos deuses, esposa de Zeus.
Hefesto Vulcano Artista do Olimpo, fazia os raios que Zeus lançava sobre os mortais. Filho de Zeus e Hera.
Poseidon Netuno Senhor do oceano, irmão de Zeus.
Hades/Dis Plutão Senhor do reino dos mortos, irmão de Zeus.
Ares Marte Deus da guerra, filho de Zeus e Hera.
Apolo Febo Deus do sol, da arte de atirar com o arco, da música e da profecia. Filho de Zeus e Latona.
Artemis Diana Deusa da caça e da lua, irmã de Apolo.
Afrodite Vênus Deus da beleza e do amor, nasceu das espumas do mar.
Eros Cupido Deus do amor, filho de Vênus.
Palas Atenas Minerva Deusa da sabedoria, nasceu da cabeça de Zeus.
Hermes Mercúrio Deus da destreza e da habilidade, cultuado pelos comerciantes. Filho e mensageiro de Zeus.
Deméter Ceres Deusa da agricultura, filha de Cronos e Ops.

https://historiadomundo.uol.com.br/artigos/deuses-gregos-romanos.htm

O capitalismo em estado de guerra civil | José Goulão in Blog “abrilabril.pt”

POR JOSÉ GOULÃO 

A guerra civil capitalista está lançada. Quanto aos resultados a proporcionar pela vitória de qualquer dos campos em confronto, por indefinidos que ainda sejam, que venha o diabo e escolha.

A ordem mundial – chamemos-lhe assim, por comodidade – monolítica e unipolar, nascida nos escombros do muro de Berlim, e consolidada através do cada vez mais misterioso atentado de 11 de Setembro de 2001, está à beira do fim.

Atribuir o funesto desenlace de um sistema que fica como espelho da ortodoxia neoliberal aos maus humores de Donald Trump, à sua embirração com a senhora Merkel, à falta de polimento congénita e à mais do que comprovada tendência autoritária é uma explicação apenas ao alcance de indigentes mentais. Só as cabeças que se deixaram formatar pela quadratura neoliberal, a arte de transformar a ausência de reflexão e de ideias em pensamento único, podem alinhar numa tese tão desfasada da realidade.

Observar o presidente dos Estados Unidos da América passar um atestado de óbito à União Europeia, vê-lo desqualificar a elite governante da NATO, sentar-se ao lado do presidente da Rússia com o desejo declarado de iniciar uma nova relação entre Washington e Moscovo não pode ser uma questão humoral; nem subjectiva; nem um delírio. Tem que haver causas objectivas.

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Há um défice de reflexão crítica à Esquerda e à Direita sobre o passado | Miguel Cardina, historiador | in Jornal “Diário de Notícias”

O presidente do Conselho Científico do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra falava à agência Lusa, sobre a memória que a sociedade portuguesa tem do período colonial e dos 500 anos da presença portuguesa noutras latitudes, uma temática, advertiu, “complexa”, pois a “memória nunca é total nem pura” e há “memórias desencontradas”.

Para o investigador, “há uma leitura, em setores dominantes da sociedade e em alguns setores do Estado, que tende a ser amnésica, preferindo expressões que acentuam uma dimensão positiva daquilo que foi a experiência colonial, e tendem a esquecer o reverso, que foi justamente a dimensão profundamente desigual, violenta e hierárquica imposta pelo colonizador, aos povos colonizados”.

E, a este nível, afirma, “nem sempre a Esquerda e a Direita se distinguem”.

A questão colonial é “um dado que está ausente do espaço público em Portugal, apesar de haver trabalho académico”, realçou o investigador à Lusa, segundo o qual “há uma consciência crítica desse passado, quer através da academia, com a produção de vários trabalhos, quer da parte de movimentos e associações de afrodescendentes, e de movimentos sociais”.

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A estátua da rainha Njinga | uma nova frente na luta de memórias | João Pedro Marques | in Jornal “Público”

Estamos perante novos preconceitos de matriz ideológica e cultural que inverteram os preconceitos racistas dos séculos XIX e XX.

A investigadora Cláudia Silva escreveu um novo artigo sobre escravatura. O artigo diz várias coisas acertadas, não faz afirmações panfletárias e tem pelo menos três méritos. O primeiro é o de nos relembrar algo que raramente é dito, isto é, que os africanos já tinham escravos e que os árabes já os adquiriam, na África subsariana, muito antes da chegada dos portugueses. O segundo é o de procurar ser equilibrado, esclarecedor e justo, ainda que em três ou quatro pontos Cláudia Silva não o consiga inteiramente. De todo o modo, esforça-se por isso e recomenda, e muito bem, que não se olhe para a história da escravatura com olhos maniqueístas. Porém, e a pretexto de ir contra o maniqueísmo, a articulista sugere que se erga, em Lisboa, uma estátua à rainha Njinga, apesar de reconhecer que a dita rainha “possuiu escravos e também os vendeu, tendo assim participado no tráfico de escravos”. Esta sugestão é, ainda que involuntariamente, o terceiro mérito do seu artigo, não pela proposta em si mesma, que é inadequada para não dizer absurda, mas porque nos ajuda a perceber melhor os propósitos que movem, e as contradições de que enfermam, muitos dos intervenientes neste debate sobre escravatura.

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O legado da escravatura e as narrativas de Lisboa | Cláudia Silva | in Jornal “Público”

O comércio Atlântico criou uma demanda sem precedentes que extrapolou o tráfico interno africano.

É impossível alterar o passado. Mas podemos alterar o presente. Mas para alterar o presente precisamos compreender e reconhecer o passado. Deve-se reconhecer um legado histórico deixado pela escravatura atlântica, que é facilmente identifi cado nas coisas mais fundamentais, desde uma determinada linguagem quotidiana de cunho racista que usamos na língua portuguesa — talvez por herança — à toponímia de Lisboa. Há hipóteses, por exemplo, de que o nome da Rua do Poço dos Negros talvez faça referência a uma vala onde os cadáveres de escravos não batizados eram depositados. E a Rua da Preta Constança, na Ajuda? Diz-se que Preta Constança era uma “escrava trazida dos confi ns de África” e “viveu a fortuna, a desilusão e a desgraça neste bairro lisboeta”. Mas o que é que os nomes de ruas lisboetas têm a ver com esta discussão? Estas exemplifi cam um legado impregnado no espaço urbano que mal vemos, compreendemos ou sequer reconhecemos. No meio científico, há quem chame a isto de desenterrar histórias da arquitetura ou do espaço urbano “narrativa arqueológica”. Poderemos, portanto, reconhecer a história de certos espaços urbanos se escavarmos e trouxermos à tona estas narrativas. O mesmo se passa com a história em geral. Daí a relevância de um memorial de escravos ou de um museu que exponha o tema através de documentos históricos, narrativas e imagens. Mas, antes, é preciso uma compreensão do passado (e do que se quer), que passa também por reconhecer certos legados. A respeito dos legados, há quem levante o seguinte questionamento: os portugueses foram os primeiros a levarem pessoas escravizadas de África para as Américas? Isto é um facto histórico partilhado nas publicações de historiadores portugueses (Arlindo Manuel Caldeira, no livro Escravos e Traficantes no Império Português) bem como de não-portugueses (Linda Heywood, Anthony T. Browder, John Thornton, James A. Rawley e Stephen D. Behrendt).

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Centenário do nascimento de Nelson Mandela | Carlos Esperança

Em 18 de julho de 1918 nasceu o maior vulto do continente africano dos últimos cem anos.

O prisioneiro 46 664, foi o símbolo dos que não desistem de transformar o Mundo e deixar um país livre e multirracial. O primeiro presidente da África do Sul, condenado a prisão perpétua, resistiu ao cativeiro 27 anos, e ao ódio e à vingança o resto da sua vida. 
Distinguido com o Prémio Nobel da Paz, foi maior o prestígio que conferiu ao Prémio do que este ao premiado. Paladino da liberdade e o grande obreiro da transição pacífica de um regime racista e colonialista para um país multicultural e multirracial – a África do Sul –, permanece a maior referência de África e uma das maiores figuras da Humanidade.

Faleceu aos 95 anos esse gigante da História cuja grandeza ética, inteligência e sensibilidade o distanciaram dos dirigentes políticos do seu tempo, deixando-nos a esperança de um mundo onde não seja possível a discriminação por razões de raça, religião, sexo ou convicções políticas.

A grandeza moral levou-o a perdoar aos países que, em 1987, votaram contra a sua libertação incondicional, proposta pela Assembleia Geral das Nações Unidas, – EUA, Inglaterra e Portugal –, onde governavam Reagan, Thatcher e Cavaco, anões morais que se tornaram ainda mais vis perante a grandeza do homem que pretendiam preso.

Nelson Mandela é um daqueles homens que será sempre maior do que a lenda.

Carlos Esperança

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In vino veritas | Carlos Matos Gomes

In vino veritas. Isto é, o futebol destapa complexos. 

A alegria que vejo pela derrota da Inglaterra não resulta apenas de uma vulgar manifestação do velho complexo de inferioridade. É mais triste. É uma manifestação de masoquismo. Gostamos de ser pequeninos. Somos uns Calimeros.
Muitos portugueses exultaram com a derrota da Inglaterra e identificaram-se com a Croácia. Para esses, nós somos a Croácia, nação que, como se sabe, tal como nós e a Inglaterra, deu mundos ao mundo, navegou por todos os mares do planeta, levou a civilização europeia e a Europa a todos os continentes. Goste-se ou não do resultado, foi um feito histórico mundial, que nos devia fazer olhar os ingleses como iguais, e não os historicamente irrelevantes croatas (com o devido respeito, as coisas foram e são assim).
Os croatas têm, tal como nós temos uma língua falada nos 5 continentes? O inglês está ao nível do servo-croata, do catalão e do provençal! Não é? Parece que sim. 

Também foram os cruzados croatas que vieram auxiliar o rei Afonso Henriques a tomar Lisboa, e Silves, para constituir o território do que é hoje Portugal. E foram croatas que combateram ao lado das tropas daquele que seria o rei João I em Aljubarrota, claro. E a rainha Felipa de Lencastre, uma das mais importantes figuras da nossa história, mãe de Henrique o Navegador, e do que designamos por ínclita geração, por exemplo, era croata e não inglesa?

E também foram croatas os que vieram com Wellington, um general croata, lutar contra as tropas de Napoleão? Claro. E foram croatas que desembarcaram no Mindelo com os liberais do rei Pedro. E foi para a Croácia que se dirigiram os exilados portugueses anti-absolutistas no século XIX e, no século XX os antifascistas? E é aos engenheiros croatas que devemos a caldeira a vapor e o que se seguiu na revolução industrial. 

Deixemos a história. Cada um escolhe os seus referentes. Os croatas são o que são e desempenharam nela o papel que desempenharam. Merecem-me respeito, mas não identificação. Resta o prazer.
Que diabo, o barão de Forrester, tido como o inventor do vinho do Porto, não era croata, era inglês! E o uísque também não é croata. Há excelentes uísques ingleses! Nem os Beatles, nem os Monty Phyton! 

Quanto à final: sou adepto do champanhe, com ou sem ostras. De Cognac e Armagnac. E da trilogia da liberdade, igualdade e fraternidade. Também me merecem muito respeito os portugueses que morreram na França na Grande Guerra, os que lá se exilaram, os que para lá emigraram, lá vivem e trabalham.

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

50 anos da Carta a Salazar | D. António Ferreira Gomes | in Agência Ecclesia

Luís Filipe Santos | 

A missiva de D. António Ferreira Gomes dá a conhecer as misérias da época e aponta soluções fundamentadas nos documentos pontifícios

Nunca um «pró-memória» foi objecto de tanta investigação como aquele que D. António Ferreira Gomes escreveu a António de Oliveira Salazar. Redigido a 13 de Julho de 1958, este documento está a celebrar o seu cinquentenário. À carta-denúncia das injustiças sociais, Salazar respondeu, um ano depois, com o exílio do bispo do Porto. Depois das eleições de 1958, cujo vencedor foi Américo Tomás, o célebre bispo do Porto remeteu a Salazar a missiva que referenciou como «pró-memória» para um seu eventual encontro com o presidente do Conselho. “Cumpre-me, antes do mais, agradecer a V. Exª o ter manifestado a boa disposição de me ouvir” – início do documento de D. António Ferreira Gomes ao Presidente do Conselho. Depois de explicar as razões da sua vinda a Portugal para votar – estava “legitimamente ausente em Barcelona” -, D. António Ferreira Gomes considera que o pedido que lhe foi feito, “por forma tão extraordinária e pública, não poderia deixar de considerar-se propaganda da Situação” – realça o «Pró-Memória». A «história» dessa carta começou, no exacto momento, em que o bispo do Porto se recusou a servir de bandeira do regime nas eleições para a Presidência da República no mês transacto. “Em tais condições e forçado a ser, diametralmente ao contrário do meu desejo, uma bandeira, eu não podia deixar de fazer uma declaração de voto. Como a não deveria fazer ao público, requeri fazê-la a V. Exª” – escreveu no documento. Após as explicações iniciais, o prelado natural de Milhundos mostrou-se preocupado pelo facto da Igreja em Portugal, como a “campanha eleitoral revelou de forma irrefragável e escandalosa”, estar “perdendo a confiança dos seus melhores” – sublinha. Com o intuito de esclarecer a sua afirmação, D. António Ferreira Gomes apresenta dois casos ao Presidente do Conselho. No Minho – “coração católico de Portugal” – “mal os padres começavam a falar de eleições, os homens, sem se importarem como sentido que seria dado ao ensino, retiravam-se afrontosamente da igreja”. Nas juventudes da Acção Católica, os dirigentes “mais responsáveis saltam fora dos quadros e da disciplina, para manifestarem a sua inconformidade e desespero, fugindo ao conhecimento dos assistentes (que, apesar de tudo, lhes aconselhariam paciência)”. Estes dois factos causam preocupação ao bispo do Porto. “Está-se perdendo a causa da Igreja na alma do povo, dos operários e da juventude; se esta se perde, que poderemos esperar da sorte da nação?” – lê-se no «Pró-Memória». (PDF no final do artigo)

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Portugal ainda resiste a olhar para o passado de forma crítica | Miguel Cardina e Bruno Sena Martins | Entrevista de Camilo Soldado in Jornal Público

09-07-2018 | Jornal “Público” | Entrevista Camilo Soldado

Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, os investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra organizaram o livro “As Voltas do Passado”. Um conjunto de textos sobre o último fôlego do passado colonial português.

O pretexto para a publicação do livro As Voltas do Passado é o CROME, o projecto do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação, que procura compreender como se foram reconfigurando as memória das guerras, desde a independência dos vários países até à actualidade. O subtítulo da publicação, A Guerra Colonial e as Lutas de Libertação, traduz essa tentativa de tratar “diferentes processos de memorialização”, tanto provenientes de Portugal como das ex-colónias. O resultado acaba por ser um mosaico de vozes, de geografi as e de gerações, com o colonialismo português como pano de fundo. No livro, lançado recentemente pela Tinta da China, cabem os momentos cuja importância é mais frequentemente reconhecida na história, como o discurso de Salazar que marcou o início da guerra, em 1961, o 25 de Abril de 1974 ou as independências após a revolução. Mas cabem também episódios menos conhecidos: desde a vida a bordo Vera Cruz, o paquete que transportava tropas a partir da metrópole, às páginas mais negras do domínio português em África, ilustradas pelos massacres de Batepá (São Tomé e Príncipe), Pidjiguiti (Guiné), Mueda e Wiriamu (Moçambique).

O cruzamento de memórias, afirmam os coordenadores da obra que reúne textos de mais de 40 autores, Bruno Sena Martins, doutorado em sociologia, e Miguel Cardina, doutorado em história e coordenador do CROME, “dá-nos um outro olhar sobre esse passado”. Defendem também que essa polifonia ajuda a explicar parte da organização social do país actual.

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Portugal e a escravatura: dois mal-entendidos | João Pedro Marques | in Jornal “Observador”

6/7/2018

Se o fito de Fernanda Câncio for esclarecer a opinião pública, então deve parar um pouco para se informar melhor. Mas se a sua intenção for flagelar Portugal, então não precisa de se informar.

A jornalista Fernanda Câncio, que, em Abril de 2017, na sequência da ida de Marcelo Rebelo de Sousa à ilha de Gorée, no Senegal, foi uma das iniciadoras do debate em torno da questão da antiga escravatura, esteve longos meses alheada desse tema, mas regressou agora a ele num artigo publicado no DN, no qual fez duas afirmações enganadoras. Disse, nomeadamente,“que Portugal sozinho (…) foi responsável por quase metade dos 12,5 milhões de negros escravizados e traficados de África para as Américas entre 1501 e 1875”; e acrescentou que “o grosso desse recorde mundial decorreu entre 1826 e 1850, ou seja, já após a mítica abolição da escravatura por Pombal (1761)”.

Comecemos pelo fim. Há, da parte de Fernanda Câncio, um mal-entendido quanto ao alvará abolicionista de Pombal. O dito alvará nada tinha a ver com tráfico transatlântico, aplicava-se apenas a Portugal metropolitano. Mas não é mítico. Existiu e produziu efeito. Deixaram de se importar escravos para o território metropolitano e um alvará posterior (1773) extinguiu gradualmente o estado de escravidão em Portugal continental. Foram os primeiros passos no sentido da abolição que, no âmbito do império português, só décadas depois seriam continuados. Mas esses passos deram-se e não foram revertidos. Fernanda Câncio parece ignorar que as leis abolicionistas foram muitas vezes graduais e sucessivas, abolindo parcela a parcela. A própria Inglaterra, a incontestável campeã do abolicionismo, aboliu o seu tráfico de escravos em anos sucessivos e não de uma só vez. Fernanda Câncio parece ignorar, também, que na terminologia do século XVIII, a palavra escravatura significava geralmente tráfico de escravos (e não escravidão, como significa para nós). Daí, talvez, alguma da sua confusão.

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UM EQUÍVOCO QUE TARDA EM DESFAZER-SE | Rodrigo Sousa e Castro

Após a queda do muro de Berlim e a pulverização da URSS o pacto de Varsóvia colapsou e a ameaça para a qual a NATO foi instituída desapareceu.
Quer do ponto de vista ideológico, – a Rússia e todas as ex repúblicas soviéticas são hoje países capitalistas – , alguns no pior sentido, quer do ponto de vista militar com os exércitos desses países em confrangedor estado, juntamente com os inevitáveis ajustes de contas que ainda correm entre eles, deixaram de ser uma ameaça credível para as potências regionais europeias.
O que restou então ?
Apenas e só os interesses inconfessados de uma camarilha de privilegiados que mantêm a ficção que o inimigo está no Leste.
No auge da guerra fria , o grande De Gaulle, manteve as forças armadas francesas fora do comando NATO, porque sabia, tal como os britânicos que a sua força de dissuasão nuclear era mais que suficiente para manter em respeito qualquer veleidade soviética.
Hoje é mais que evidente que a NATO, mercê da ambígua politica alemã, mantem a ficção do inimigo a Leste estando em vias de cair definitivamente no ridículo.
Esta situação , ausência de inimigo credível, coloca a NATO num vazio estratégico e permite que Trump e a sua administração diga:
– querem brinquedos caros , paguem-nos.
O próximo encontro Putin Trump, dirá muito sobre a sorte dos apaniguados da nova guerra fria artificialmente criada e mantida para sustento de escassas elites e orgasmo intelectual de comentadores e jornalistas da treta.

Rodrigo Sousa e Castro

Retirado do Facebook | Mural de Rodrigo Sousa e Castro

José Manuel Tengarrinha (1932-2018), uma vida à procura da geringonça | por Nuno Ribeiro in Jornal “Público”

“Ou saímos todos ou nenhum”. Esta frase foi mais uma dificuldade, inesperada, para o Movimento dos Capitães, nas horas imediatas ao 25 de Abril de 1974. As vozes vinham do Forte de Caxias e, entre esse coro de solidariedade reivindicativa que punha em causa a libertação por fases dos presos políticos defendida pelo General António de Spínola, estava José Manuel Tengarrinha (1932-2018), a cumprir a sua sexta pena de prisão de uma luta incessante contra a ditadura. O corpo de Tengarrinha, que morreu sexta-feira na sua residência do Estoril, está a partir das 18 horas deste domingo na Basílica da Estrela, de onde sairá na segunda-feira para cremação, numa cerimónia reservada à família.

“Hoje, os partidos de esquerda não são suficientemente credíveis para mobilizarem, limitam-se aos rituais das campanhas eleitorais”, dizia Tengarrinha, em Abril de 2012 ao PÚBLICO, na véspera de uma homenagem pelos seus 80 anos: “[os partidos] não têm capacidade de flexibilizar posições, de encontrarem pontos de encontro, quem está na linha dura pensa que será mal compreendida uma aliança com o outro sector.”

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Migrações e refugiados | Carlos Matos Gomes

No futuro todos nós, europeus e americanos vamos vaguear em busca de uma terra prometida

Quanto a fechar fronteiras e erguer muros para impedir migrantes, em especial africanos, de entrar nos nossos espaços com casas climatizadas, água, eletricidade, hospitais, escolas, horários, salários, mercados, imagens de felicidade e abundância em cartazes de publicidade, quer a Europa quer os Estados Unidos têm razão: eles não são bem vindos. Nãos os queremos a pedir às nossas portas, a estragar a nossa paisagem, a ameaçar a nossa ideia de tranquilidade!

A partir da segunda metade do século XX, a Europa e a América construíram o mais parecido com uma Terra Prometida que existiu na História da humanidade. É certo que alcançaram esse feito universal em boa parte à custa das riquezas das terras que colonizaram e ocuparam no planeta desde o século XVI, mas esse foi — assumem — já um mérito seu, da sua capacidade de inovação e de determinação, da sua superioridade. Trataram de si.

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AFINAL EXISTE O REINO DO ALGARVE | Joaquim Baptista

Porque razão o Algarve foi um Reino até 1910?

Até 1910, o chefe de Estado em Portugal ostentava o título de Rei de Portugal e dos Algarves, D’Áquem e D’Álem Mar em África, etc. Nesse mesmo ano, após o golpe de Estado republicano, foi abolido o Reino de Portugal, mas curiosamente, por lapso, não aboliram o Reino do Algarve, pelo que, presumivelmente, ainda estaria na ordem constitucional actual.
Sendo o Algarve uma província assumidamente portuguesa pelo menos desde o reinado de D. Afonso III, porque motivo nunca foi incluído formalmente no Reino de Portugal?

O Al-Gharb dos muçulmanos não era só o Algarve com as fronteiras de hoje. O Al-Gharb de Al-Andalus ia desde Coimbra (Kulūmriyya) até às fronteiras do Algarve dos dias de hoje. Já naquela altura o Algarve era um reino, aliás Silves (Xelb) era a capital desse reino e o Algarve islâmico da época atingiu um elevado esplendor cultural e económico que já vinha a crescer desde a época romana.
A grande conquista cristã que a história de Portugal nos conta quebra com a realidade do que era o Algarve da altura, e com o que realmente aconteceu. Durante mais de cinco séculos (c. 711-1249), sobre o domínio dos povos islâmicos, árabes e beberes, também o cristianismo existia entre a população do Algarve. Durante séculos viveram moçárabes e cristãos sob governos muçulmanos.

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Houve mesmo descobertas… e ainda há! | DAVID MARÇAL e CARLOS FIOLHAIS

As descobertas geográficas luso-espanholas abriram caminho para a Revolução Científica dos séculos XVI e XVII. 27 de Junho de 2018

Lemos os artigos que se opõem à intenção do município de Lisboa de criar um museu evocativo dos descobrimentos ou descobertas portuguesas e ficámos perplexos. Parece que não existiram descobertas! Mas existiram: antes de a América ter sido descoberta ninguém na Europa sabia que ela lá estava. E sim, essa como outras descobertas semelhantes partem do ponto de vista dos europeus, porque o ponto de vista não pode deixar de ser nosso. As descobertas geográficas luso-espanholas, que conduziram a descobertas de novas espécies, de populações e culturas diferentes, abriram caminho para a Revolução Científica dos séculos XVI e XVII: se era possível que existissem novas terras e novas gentes que antes não conhecíamos, então também era possível, em geral, formular conhecimento novo. E esta ideia, que hoje parece óbvia – sim, é claro que há coisas que não sabemos e que podemos vir a saber –, não era nada óbvia no século XV.

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O duro fardo de ser português | Manuel Carvalho in Jornal “Público”

Chamem-lhe descobertas, expansão, viagem, encontro ou o que quer que seja, mas não queiram que se passe da glorificação acrítica para a anulação preconceituosa de um período crucial para a definição do que somos. 27 de Junho de 2018

Retire-se a esfera armilar da bandeira, suprima-se o estudo de Os Lusíadas, dinamite-se a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos, arrase-se Goa, Ouro Preto e Moçambique, apaguem-se os nomes dos navegadores da toponímia das cidades, proíbam-se as Décadas da Ásia de João de Barros, mudem-se os versos do hino que exaltam o “esplendor de Portugal”, enterre-se a lusofonia e meta-se Portugal num divã a sublimar os traumas do seu passado. O debate em torno do museu dos Descobrimentos proposto por Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, para promover a “reflexão sobre aquele período histórico nas suas múltiplas abordagens, de natureza económica, científica, cultural nos seus aspectos mais e menos positivos” está em vias de criar um complexo de culpa tão intenso e profundo que exige a reinvenção do país. Já não está em causa o debate saudável promovido por académicos em torno do significado dos “descobrimentos”; agora a coisa fia mais fino e só se supera com uma revolução cultural que destrua uma das mais consensuais bases da identidade nacional.

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O descobrimento de Portugal | Fernanda Câncio | in Diário de Notícias

25 Junho 2018

O debate sobre o nome do museu “Das Descobertas” descobre-nos um país obstinado no negacionismo.

Em memória dos milhares de judeus vítimas da intolerância e do fanatismo religioso assassinados no massacre iniciado a 19 de abril de 1506 neste largo”. A frase lê-se numa estrela de David recortada em pedra, monumento inaugurado a 23 de abril de 2008, no Largo de São Domingos, Lisboa. O erigir deste memorial era uma antiga aspiração da Comunidade Israelita Lisboeta, cuja presidente, Esther Mucznik, dois anos antes, no mesmo largo e na celebração do quinto centenário do pogrom que matou entre dois mil e quatro mil “cristãos novos”, lamentava a inexistência, na cidade, de “um único marco público relacionado com a perseguição dos judeus”. Políticos identificáveis, nesse assinalar de um acontecimento terrível de que a maioria dos portugueses nunca teria ouvido falar, só três deputados do BE, incluindo Francisco Louçã, que disse ao DN ter ido “fazer um encontro com a história” e o ex Provedor e ex ministro da Justiça, Menéres Pimentel. Também referida nas notícias foi a comparência do então diretor do Público, hoje “publisher” do Observador, José Manuel Fernandes, e da filósofa Maria Filomena Molder, que, questionada pelo DN sobre a razão pela qual estaria ali tão pouca gente, falou da “supressão da memória como um problema muito português.”

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2/8 | Breve História da Europa. Do Século XX aos nossos dias | Carlos Matos Gomes in “Medium”

O Estado é um protagonista da História, mas habitualmente muito esquecido enquanto tal… O Estado tem má “imprensa”, nem caso, pouca consideração como elemento determinante da História.

II — O Estado

É forçoso atentar na importância do Estado na vitória do capitalismo e na História da Europa até derrota desta na II GM: os dois Estados que mais profundamente se industrializaram foram aqueles onde os aparelhos de controlo social eram mais fortes, mais eficazes, com melhores exércitos e polícias, a Inglaterra e a Alemanha. Serão estes estados fortes a dirigir a História da Europa e, logo, das suas dinâmicas sociais. Serão eles, na realidade, os contendores das duas grandes guerras que começam por ser europeias e se transformam em mundiais.

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DESCOBRIMENTOS | Francisco Seixas da Costa in blog “duas ou três coisas”

Anda por aí um debate sobre o nome a dar ao museu que se pretende fazer em Lisboa sobre as viagens de Quinhentos. Perante a sugestão de que se chamasse “das descobertas” ou “dos descobrimentos”, logo surgiu uma opção “de recuo”, a propor o nome de “a viagem”. Acho mal.

As viagens tituladas pela coroa portuguesa, desde o ataque a Ceuta, foram quase sempre operações de conquista (com exceção das desertas ilhas atlânticas), com toda a violência que isso à época implicava. Afonso de Albuquerque foi um guerreiro sanguinário e os outros capitães das frotas e das naus não devem ter sido muito mais meigos. Pode imaginar-se o modo como foram tratados os árabes, os negros ou os indianos e outros orientais que lhes apareceram pela frente, nessas expedições para encher alforges e porões, tendo como alibi ideológico a expansão da cruz. A captura e uso de escravos, com a desenfreada exploração laboral e sexual, fez parte integrante da empresa ultramarina e Portugal foi dos Estados europeus que prolongou essa selvática prática até mais tarde. O nosso atraso histórico é, aliás, recorrente: um século depois, quando já quase toda a Europa tinha descolonizado, por cá ainda se falava do “Ultramar” e do “Portugal do Minho a Timor”.

O Estado Novo, prosseguindo, aliás, uma velha narrativa colonialista republicana, pretendeu dar a essa aventura além-Europa uma aura de santidade civilizacional. Usou “Os Lusíadas” como bíblia apologética e capturou oportunisticamente em favor de um patriotismo de regime essa parte da nossa História, consagrando-a de forma caricatural, em textos e momentos hagiográficos, de que a Exposição do Mundo Português (que já ecoava modelos alheios) foi o mais curioso exemplo. A minha geração deve ter sido a última que foi atulhada por uma historiografia gongórica, de que muita da estatuária que por aí anda é aliás tributária.

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O Regresso à aldeia de La Salle | Rodolfo Miguez Garcia

A crónica seguinte tenta repor a verdade histórica sobre a aldeia de La Salle, onde irredutíveis Lusitanos resistiram à invasão e ocupação Romana, durante muitas Luas e Sóis, e por quem sois.

Consultados papiros de linho no arquivo histórico de Barce Linhus e as notas do arquivo musical de Valha Dó Li, é agora possível repor a história com factos tão verdadeiros, que parecem mentira. Facto indesmentível é que a aldeia não suportou o cerco eternamente, mas também não abdicou do seu desígnio. Ora leiam:
Corria o ano de LXXIV do império Romano de Facius II. A aldeia Lusitana de La Salle em Abra Antes, permanecia inexpugnável, e os seus ocupantes dedicavam-se exclusivamente às tarefas diárias de adquirir conhecimentos, habilidades e valores morais, para levar e ensinar a outros povos.

Chefes, druidas e jovens alimentavam-se da poção mágica de transmitir e receber ensinamentos, fundamental mente pelo método convencional, complementado por vezes com uma “carolada”, método Paciente, ou com “chapadita” método Joaquim Xá Pad. Ensaiou-se com êxito nessa altura um sistema inovador de transmissão de conhecimento, através do lobo frontal do cérebro. A matéria era introduzida na mioleira, dos mais distraídos com um giz manejado com perícia pelo druida João, carinhosamente conhecido por João o “DucK”. Quando o método não produzia resultado imediato, voava o apagador do quadro negro, o que, como resultados colaterais, provocava também, embora rara mente, algumas nódoas cinzentas.
As notas e nódoas eram assim positivas e a fama espalhou-se por todas as províncias, acorrendo à aldeia cem temas de jovens de todo o reino desejosos de adquirir e defender os valores humanistas de La Salle.

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Inauguração da Praça S. João Baptista de La Salle em Abrantes | 17 de Junho de 2018

VENHAM, TRAGAM FAMÍLIA E AMIGOS.Podem ter “derrubado” o edifício do nosso La Salle, mas não derrubam o nosso espírito Lassalista. É por isso que no próximo dia 17 vamos dizer que o La Salle está vivo. Vivo nos seus alunos, professores, colaboradores e amigos da cidade de Abrantes. Inauguraremos a praça S. João Baptista de La Salle, patrono universal dos professores.

É uma justa aspiração, agora satisfeita pela CMA, e que passa a ser a referência Lassalista que o edifício perdeu, após a transformação. O programa está publicitado na página La Salle do Facebook. Venham tragam família e amigos.

Passem a palavra e divulguem, já somos uma centena ou mais. Inscrições para 969 005 225 ou carlosoliveiraborrego@hotmail.com.

Rodolfo Miguez Garcia

Frases e expressões do povo no Brasil | Marcia Lailin Mesquita

NAS COXAS
As primeiras telhas dos telhados nas Casas aqui no Brasil eram feitas de Argila, que eram moldadas nas coxas dos escravos que vieram da Africa. Como os escravos variavam de tamanho e porte físico, as telhas ficavam todas desiguais devido as diferentes tipos de coxas.
Daí a expressão fazendo nas coxas, ou seja, de qualquer jeito.

VOTO DE MINERVA.
Orestes, filho de Clitemnestra, foi acusado pelo assassinato da mãe. No julgamento, houve empate entre os acusados. Coube a deusa Minerva o voto decisivo, que foi em favor do réu. Voto de Minerva é, portanto, o voto decisivo.

CASA DA MÃE JOANA
Na época do Brasil Império, mais especificamente durante a
menoridade do Dom Pedro II, os homens que realmente mandavam no país costumavam se encontrar num prostíbulo do Rio de Janeiro, cuja proprietária se chamava Joana. Como esses homens mandavam e desmandavam no país, a frase casa da mãe Joana ficou conhecida como sinônimo de lugar em que ninguém manda.

CONTO DO VIGÁRIO
Duas igrejas de Ouro Preto receberam uma imagem de santa como presente. Para decidir qual das duas ficaria com a escultura, os vigários contariam com a ajuda de Deus, ou melhor, de um burro. O negócio era o seguinte:
Colocaram o burro entre as duas paróquias e o animalzinho teria que caminhar até uma delas. A escolhida pelo quadrúpede ficaria com a santa. E foi isso que aconteceu, só que, mais tarde, descobriram que um dos vigários havia treinado o burro. Desse modo, conto do vigário passou a ser sinônimo de falcatrua e malandragem.

FICAR A VER NAVIOS
Dom Sebastião, rei de Portugal, havia morrido na batalha de Alcácer-Quibir, mas seu corpo nunca foi encontrado.
Por esse motivo, o povo português se recusava a acreditar na morte do monarca. Era comum as pessoas visitarem o Alto de Santa Catarina, em Lisboa, para esperar pelo rei.
Como ele não voltou, o povo ficava a ver navios.

NÃO ENTENDO PATAVINAS
Os portugueses encontravam uma enorme dificuldade de entender o que falavam os frades italianos patavinos, originários de Pádua, ou Padova, sendo assim, não entender patavina significa não entender nada.

DOURAR A PILULA
Antigamente as farmácias embrulhavam as pílulas em papel dourado, para melhorar o aspecto do remedinho amargo.
A expressão dourar apílula,significa melhorar a aparência de algo.

SEM EIRA NEM BEIRA
Os telhados de antigamente possuíam eira e beira, detalhes que conferiam status ao dono do imóvel. Possuir eira e beira era sinal de riqueza e de cultura. Não ter “eira nem beira” significa que a pessoa é pobre, está sem grana.

O CANTO DO CISNE
Dizia-se que o cisne emitia um belíssimo canto pouco antes de morrer. A expressão canto do cisne representa as últimas realizações de alguém.

  O facebook também é cultura 

Marcia Lailin Mesquita 

As descobertas e as invenções — não se pode descobrir o que existe! | Carlos Matos Gomes in “Medium”

A discussão sobre o nome a dar a um futuro museu das descobertas tem-me proporcionado descobertas espantosas. O argumento mais espantoso que ouvi é o de que não se pode descobrir o que já existe!

É um argumento do mesmo tipo dos que explicam não poder a Terra ser redonda pela impossibilidade de os habitantes dos antípodas viverem de cabeça para baixo! É um argumento de pés no lugar da cabeça. Na realidade só é possível descobrir o que existe. Descobrir o que não existe não é descobrir, é inventar, ou criar. O átomo foi descoberto porque existe. As minas de ferro são descobertas porque existem concentrações de rochas ferrosas. O que não existia e teve de ser inventado foi a bomba atómica, ou as utilizações do ferro como utensílios, armas, estruturas, ou o aço.

A descoberta da impossibilidade de descobrir o que existe ocorre a propósito da recusa em aceitar que os portugueses descobriram novas terras e novas gentes.

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1/8 | Breve História da Europa. Do Século XX aos nossos dias | Carlos Matos Gomes in “Medium”

Raquel Varela escreveu a «Breve História da Europa, da Grande Guerra aos Nossos Dias» (Bertrand, Lisboa, 2018). Tive o prazer de apresentar o livro em Lisboa. Raquel Varela é uma jovem e talentosa historiadora social. Aborda a História pelas dinâmicas sociais. Eu sou um velho militar reformado e a leitura da obra da Raquel Varela incentivou-me a alinhar velhas e novas ideias a partir das dinâmicas que conduzem ao poder, à sua conquista e à sua manutenção. Serão 8 textos que colocarei aqui diariamente. Não uma crítica, nem uma análise da História. Empirismo assumido. Acientificidade. Apenas ideias soltas suscitadas por uma obra, essa sim fundamentada.

O esqueleto da obra é um roteiro de pontos a visitar que a autora nos propõe. Eu vou segui-lo com a minha visão e com as minhas interpretações. Vou aproveitar a riquíssima informação para partilhar interrogações.

O motor da História

Até que ponto são as “massas” (abrangente rótulo atribuído aos que ao longo dos séculos foram designados como o povo, os servos, os camponeses, os proletários, os que vivem do seu trabalho, os que se vendem ou se oferecem) o sujeito da História? Até que ponto são as massas o determinante da História?

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António dos Santos Ramalho Eanes | primeiro Presidente da República democraticamente eleito após o 25 de Abril | por Gaspar Macedo

Caro General Ramalho Eanes, ultimamente o Portugal que serviu enquanto Presidente da República tem-se chocado com o aproveitamento que muitos membros da nossa classe política interpretam. Somos o país que consegue sentir o choque do ridículo mas que normaliza tais comportamento porque, como sabemos, “todos os políticos são iguais”.

Ficamos surpreendidos quando soubemos que em média, entre 2006 e 2013, os nossos governantes gastaram 295 euros por refeição. Ficamos admirados com a notícia de José Conde Rodrigues , ex-secretário de Estado da Justiça, que gastou 13.657 euros dos fundos públicos na compra de 729 livros para beneficio próprio.
Ficamos pasmados com o caso da ex-ministra da Saúde Ana Jorge, ao ter usado um cartão de crédito em nome do Estado (para despesas urgentes de trabalho) em lojas de roupa, ourivesarias ou no El Corte Inglés.
Ficamos boquiabertos com o ex-ministro da economia, Manuel Pinho, que recebeu 1 milhão de euros na sua Offshore depois de beneficiar a EDP em vários contratos de parceria.
Ficamos espantados, mais recentemente, com o ministro-adjunto deste executivo que embora advogado de elite disse desconhecer a lei que o impedia de acumular cargos públicos com outros cargos em empresas privadas.

Enquanto grande parte da nação ajoelha-se boquiaberta e volta a esquecer estes abusos, como se um anulasse o anterior, não consigo esquecer o Presidente da República que num período de grandes dificuldades financeiras, consta que vendeu a sua própria casa de férias para pagar os custos que a presidência não conseguia suportar. Não consigo deixar de relembrar o individuo que tinha apenas dois fatos e que recebia as visitas ao Palácio de Belém com um chá depois da hora de jantar, para evitar custos desnecessários. Esse foi o senhor.

Em julho de 2017 o país ficou a conhecer o caso dos três secretários de Estado que beneficiaram de viagens pagas pela empresa Galp, antes de ser aprovado um benefício fiscal em dezenas de milhões de euros à mesma empresa. José Sócrates defendeu que as críticas se tratavam de “um excesso de patriotismo”, considerando que as suspeitas sobre os governantes eram “estapafúrdias” e António Costa não hesitou em reforçar a “relevante e dedicada colaboração dos três Secretários de Estado nas funções desempenhadas no XXI Governo Constitucional”.

Em abril de 2018 chegou a público os milhares de euros de que vários deputados beneficiaram ao receber em duplicado o valor das viagens que faziam em “nome do interesse nacional”. Carlos César, líder parlamentar do partido socialista e parte desse grupo, logo declarou não se sentir culpado por não ter feito “nada de errado”, sendo que o “atual modelo vigora há décadas e foi utilizado por altos cargos do Estado”. Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da Republica, declarou a inocência dos parlamentares que nas suas palavras não tinham “cometido nenhuma e ilegalidade.

Não esqueço o homem que RECUSOU receber 1 milhão de euros do erário publico, com o acumular de dezenas de anos sem receber a subvenção que tinha direito, após o parecer do Provedor de Justiça em 2008 ter defendido que todos os Presidentes deviam ser tratados de igual forma

Deparamo-nos com um ex-primeiro ministro que fez da acção política o benefício dos seus interesses pessoais, onde até históricos como Arons de Carvalho defendeu não achar “reprovável uma pessoa viver com dinheiro emprestado”
Vivemos na realidade de vários governantes e parlamentares que acumulam os vencimentos com ajudas de custo e subvenções vitalícias, de dezenas de nomes da política que acabaram nas administrações de grandes Bancos e Grupos Económicos, uma Assembleia da Republica onde se misturam os escritórios de advogados e as grandes empresas com as leis que se aprovam e propostas, como a do grupo parlamentar do partido socialista a janeiro deste ano, para tornar o lobby, a representação dos interesses de particulares nos corredores do poder, numa profissão reconhecida pela lei.

Aqueles que fazem da desaprovação o consentimento, esquecem-se que Portugal já teve como líder máximo um individuo que promulgou a lei que o impediria de acumular o salário presidencial com as restantes pensões a que teria direito, abrindo mão da pensão choruda de General. Só serviu os interesses de quem o elegeu e não de quem o tentou financiar.

Por isso, tenho orgulho em afirmar que por muito chocante que possa parecer, António dos Santos Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República democraticamente eleito após o 25 de abril, é o anormal no meio de um panorama político podre que para muitos é a norma controladora.

Sei que o senhor não é perfeito e podemos até ter as nossas divergências ideológicas, mas pelo menos tenho a certeza de que nunca fez parte do grupo que se aproveita do poder para se apoderar dos recursos que pertencem apenas aos portugueses. É para mim uma honra recordar uma Nação inteira que se deprime com os muitos que a serve, de que nem “todos os políticos são iguais” e de que enquanto houver quem no senhor se inspire haverá sempre esperança. Ao contrário do alguns dirão, recordá-lo não é “estar preso ao passado” senão querer um futuro onde o mais simples português não tenha de voltar a justificar a miséria do país com os políticos que são “sempre iguais” e que insistem em “não mudar”.

Por muito mau que o presente possa parecer eu não o esqueço, senhor presidente.

Tenho dito.

Gaspar Macedo

Retirado do Facebook | Mural de Gaspar Macedo

Quand les Musulmans fondèrent Madrid | Fernando Valdés Fernández

La capitale espagnole a été fondée par les musulmans et portait à l’origine un nom arabe. Plusieurs indices permettent de décrypter le passé islamique de la ville, comme l’architecture où le système d’acheminement de l’eau.

Peu de gens savent que la capitale espagnole est la seule ville de sa catégorie à avoir été fondée par les Arabes. Madrid commença par s’appeler Maˆyrit, en arabe, et ses origines furent pendant longtemps discutées. Jusqu’aux années 1930, nous manquions de précisions sur ses origines. En effet, depuis le XVe siècle au moins, les chroniqueurs castillans et espagnols n’acceptaient pas de bon gré que cette ville doive son existence à des musulmans infidèles. Ils déployèrent toute sorte d’arguments pour démontrer son origine romaine et chrétienne.

Romains vs musulmans

Cependant, ce phénomène de recherche de racines romaines, ou plutôt romano-chrétiennes, n’était pas propre à Madrid. La Renaissance et le goût pour les racines classiques de la culture occidentale affecta les autres villes et provoqua en Espagne une tentative généralisée de trouver des origines classiques à de nombreuses localités. Cette tendance générale s’accompagnait de propos politiques. La riche historiographie locale espagnole, dont une grande partie est due aux clercs, qui possédaient la plus vaste culture, atteste de cela. Et Madrid ne fut pas une exception, surtout à partir du moment où le roi Philippe II (1527- 1598) l’éleva de sa condition de ville de deuxième catégorie, dans le royaume de Castille, pour en faire le centre politique de son vaste domaine qui, à ce moment-là, s’étendait sur cinq continents.

L’acharnement fut vain. L’édition de la Chronique arabe d’Al Himayi, qui recueillait les témoignages d’auteurs andalous antérieurs, démontra que la ville devait sa fondation a l’émir omeyyade de Cordoue, Muhammad Ier Ibn Abd Al Rahman (852-886), et que cela avait eu lieu pendant le troisième tiers du IXe siècle. La date exacte est inconnue. A ce moment et depuis un certain nombre d’années, la dynastie omeyyade d’Occident menait à bien une politique de création de points fortifiés dans des lieux stratégiques, spécialement là où se croisaient des rivières. Dans le cas de Madrid, il s’agit de la rivière Manzanares, qui était à l’époque un peu plus importante que le triste ruisseau d’aujourd’hui.

La suite de l’article dans Zamane N°20

Par Fernando Valdés Fernández

Retirado do Facebook | Mural de Alexandre Noble

“A Chegada das Trevas” | Catherine Nixey in Jornal “Expresso”

O livro “A Chegada das Trevas”, agora publicado, começa com um relato da bárbara destruição de Palmira, em tudo semelhante à que foi feita pelos fundamentalistas do Daesh em 2015. Só que o livro da investigadora e jornalista Catherine Nixey descreve a conquista da cidade síria por guerreiros cristãos há 1700 anos. Essa página negra dos primeiros séculos do cristianismo inclui a queima de livros, perseguição de filósofos e destruição de templos. Um livro polémico em defesa da cultura grega e romana.

ENTREVISTA MANUELA GOUCHA SOARES

É jornalista de profissão mas a sua formação universitária é na área de Clássicas. Há quantos anos começou a reunir material para este livro?

Sou filha de um ex-monge e de uma ex-freira, o que faz com que em certo sentido esteja a preparar-me para escrever este livro desde que nasci. Cresci numa família católica, e a minha mãe ensinou-me que as obras [património] do mundo grego e romano chegaram até nós porque foram preservadas por monges católicos. Quando fui para a Universidade, escolhi a área de Estudos Clássicos; ao ler uma cópia de [um livro] Aristóteles na biblioteca da universidade, comecei a pensar que a mescla entre esses dois mundos não poderia ter sido tão perfeita [e pacífica], como aquela que minha mãe me transmitira. No fundo estou a trabalhar nesta pesquisa desde os tempos da universidade − e tenho 37 anos.

Ficou desapontada com essa descoberta?

Comecei a ler [mais], e descobri que os cristãos tinham destruído obras da filosofia [que chamaram] “pagã”, proibindo assim a leitura de muitas obras e atacando a aprendizagem sobre esse mundo “pagão”, que passou a ser considerado maligno e pecaminoso.

Também aprendi que, longe de proteger o mundo clássico, muitos cristãos desprezaram o ensino clássico. Nos séculos que se seguiram à cristianização, assistiu-se à destruição de cerca de 90% das obras da chamada literatura “pagã”.

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OUVIDOS E ESQUECIDOS | Artur Jorge, por José Gabriel in “Facebook”

(aviso: isto parece, mas não é sobre futebol)

Passa hoje o 30º aniversário da vitória do F C Porto na Taça dos Campeões Europeus. As televisões e os meus amigos portistas narram de muitos modos esta efeméride. Reportagens, memórias, festejos, palavras de exaltação clubista e portista. Tudo isto se compreende. Mas, mais uma vez – com excepção das vozes dos jogadores do tempo ouvidos – a figura de Artur Jorge parece esfumar-se. Era interessante percebermos porquê. É que há muito penso que, a dar um exemplo de desportista profissional, escolheria, entre muito poucos, Artur Jorge. Então por que razão este país que tão depressa incensa gente da bola como se fossem exemplos de excelência nacional e vértice da magnificência humana, esquece tal figura? É que os atributos do Artur Jorge estão nos antípodas do perfil que a imprensa e a opinião publicada “desportivas” sacralizam. Quer dizer: as qualidades de um dos maiores jogadores e treinadores da história do desporto português são exactamente o que o desqualifica para ser ídolo nacional-futebolista.

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TALES DE MILETO (c. 623-546 a.C.) | António Galopim de Carvalho

Que ao ensinar aos alunos o teorema de Tales, se lhes diga quem foi este filósofo que está nos alicerces da nossa forma de pensar.
Diz-se que a filosofia ocidental nasceu na Grécia, entre os séculos VII e VI a. C., quando alguns dos seus habitantes mais letrados esboçaram as primeiras tentativas de explicar o mundo que os rodeava sem recorrerem à mitologia, recurso esse que era a prática comum da época. Só meio século, depois, Pitágoras (circa 570-495 a.C.) deu o nome de FILOSOFIA a essa atitude mental.
Nascido em Mileto, cidade da Jónia, na Ásia Menor (atual Turquia), então colónia grega, Thales terá sido o primeiro pensador a romper com o ponto de vista religioso e, como tal, o primeiro filósofo ocidental. As datas dos seus nascimento e morte são incertas, sabendo-se, porém, com segurança, que ele viveu no período compreendido entre o final do século VII e meados do século VI a.C.

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Francisco Belard in Facebook | Museu dos Descobrimentos

Mais de cem “historiadores e cientistas sociais”, seguidos por mais de cem “agentes culturais” (que incluem “artistas, curadores/as, historiadores/as da arte e outros/as profissionais do sector cultural e científico”), têm publicado, na imprensa e na internet, documentos colectivos sobre um museu a criar em Lisboa, ideia que parece ter sido suscitada pelo programa eleitoral de Fernando Medina, hoje presidente da CML, que previa um “Museu da Descoberta”. À margem ou na sequência desse projecto autárquico e dos referidos textos colectivos, artigos individuais (de historiadores, museólogos e outros) têm também sido publicados. Não é difícil perceber que, entre as centenas de signatários dos textos, há pessoas de origens e formações muito diferentes. Tal como são diversos os projectos afirmados individualmente. Genericamente, parecem desenhar-se dois propósitos: um Museu da Escravatura praticada pelos portugueses (enquadrando-a nos “Descobrimentos” e na “Expansão” portugueses), e um Museu dos Descobrimentos (portugueses, contemplando a escravatura praticada pelos portugueses). Surgiu ainda a ideia de um museu da “Interculturalidade” (abreviando aqui a designação proposta). Não conheço a génese nem os contornos precisos (ou mesmo imprecisos) do projecto de Fernando Medina, do qual outros têm falado mais do que ele próprio, ainda que em muitos casos para o refutar ou para o encaminhar noutras perspectivas.

Os cidadãos/cidadãs (para usar uma fórmula do tipo frequente em alguns desses textos) estarão já convencidos/as da necessidade de um novo museu na Lisboa ribeirinha? Ou mesmo em Lisboa? Ou em Portugal? E sobre o quê? Questões que remetem para uma outra, a montante: devem os esforços do Estado (central e autárquico) incidir na criação de museus, antes de consolidar os já existentes, alguns em situação difícil?

Na sequência do já dito: havendo hoje um discurso insistente sobre o cosmopolitismo de Lisboa, no caso de mais um museu na Lisboa ribeirinha (de cuja urgência duvido, e cujo programa terá de ser muito bem discutido e definido), deverá ele limitar-se aos descobrimentos portugueses? E à escravatura feita por portugueses? Ah… não tenho lido nada sobre esses “pormenores”. Quem é que está interessado em ocultar o papel dos escravocratas de outras origens? Quem é que ignora o tráfico de escravos antes e depois do praticado por Portugal (e pelo Brasil)? Quem é que desconhece esse fenómeno noutras culturas, reduzindo-o a alguns países da Europa ocidental? E a África, e a Ásia (que são muitas e diversas), e as Américas, incluindo os EUA, onde trabalham alguns signatários dos documentos? O que resumidamente quero dizer, aqui e agora, é que Portugal não deve ser o único “mau da fita”. Em suma, nem a autoglorificação nem a autocrítica que ignorem os outros e o outro.

Francisco Belard 

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Belard 

Museu das Descobertas: Eduardo Lourenço não vê necessidade de “crucificar” passado. in Revista “Sábado”

“Uma parte desses senhores que subscrevem esse documento têm as suas razões (…)mas fomos os mais pacíficos, dos povos do sul da Europa”, considera o pensador.

O ensaísta Eduardo Lourenço afirma não compreender a necessidade de “crucificar” o país por causa do seu passado de colonizador, sublinhando que não houve maldade na génese e que o mal feito já não pode ser reparado.

Eduardo Lourenço comentava, em entrevista à agência Lusa, a polémica relacionada com um possível “Museu das Descobertas”, em Lisboa, que motivou uma carta aberta, publicada em Abril no jornal Expresso, de dezenas de historiadores que se opõem ao conceito por trás da designação, e teve já várias outras — a favor e contra — desde então.

“Não sei por que é que neste momento parece haver uma necessidade de crucificar este velho país em função de uma intenção louvável, mas que ainda não redime aqueles que querem realmente a redenção, aqueles que foram objecto de uma pressão forte como o do nosso domínio enquanto colonizadores, de uma certa época”, afirmou.

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DO MUSEU PARA AS DESCOBERTAS | UM MUSEU DO IMPÉRIO? | André Gago in “bloginstavel”

A criação de um museu que espelhe aquela que foi a gesta marítima portuguesa, bem como todas as suas consequências, só faz sentido se esse espelho não for mentiroso. Nesse espelho da história, não importa glorificar à moda antiga uma passada e incerta glória nacional. Terá de ser um espelho não em que vejamos uma imagem idealizada nossa, mas através do qual sejamos capazes de ver a verdadeira imagem que imprimimos no mundo. O nosso espelho terá de ser o olhar do outro.

Nesse sentido, a polémica em relação à denominação desse projecto (que em meu entender faz todo o sentido), e que foi expressa na voz de académicos nacionais e estrangeiros, que se pronunciaram contra o seu eventual baptismo enquanto Museu das Descobertas, tem plena razão de ser. A semântica é delicada: não apenas o outro, o putativo “descoberto”, pode com legitimidade não se reconhecer nessa narrativa, como o próprio termo, historicamente datado, não abrange todo o arco temporal das expansões marítimas iniciadas no século XV e que serviram a um projecto imperial que, em rigor, só se conclui no séc. XX, com a descolonização completa das chamadas províncias ultramarinas.

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Agentes culturais contra a designação e missão do “Museu da Descoberta” da C.M. de Lisboa

Neste momento é injustificável e extemporâneo que se crie o “Museu da Descoberta“ — se não se aproveitar esta oportunidade para refletir sobre o passado colonial português e as suas ramificações no presente; assim como as políticas de memória da cidade de Lisboa.

Nós, artistas, curadores/as, historiadores/as de arte e outros/as profissionais do sector cultural e científico, mas fundamentalmente cidadãos e cidadãs, juntamos as nossas vozes à recente carta pública sobre este tema assinada por mais de cem cientistas sociais.

O atual programa de governo da CML para um tal museu promove os seguintes objetivos: “uma reflexão sobre aquele período histórico nas suas múltiplas abordagens, de natureza económica, científica, cultural, nos seus aspetos mais e menos positivos, incluindo um núcleo dedicado à temática da escravatura.” Tais objetivos só serão rigorosos se em diálogo com o crescente movimento de descolonização da memória histórica que tem vindo a ser operado a partir do sector cultural e científico e de movimentos anti-racistas, feministas, LGBTQI. Esta articulação requer compromissos estruturais no que concerne aos objetivos e modelo de gestão deste projeto que devem ser debatidos num fórum de alargada participação. Um projeto museológico inovador tem obrigatoriamente de passar pela construção e/ou pela ativação de redes de conhecimento e solidariedades institucionais, narrativas e contranarrativas em disputa, bem como memórias díspares, individuais e coletivas.
Em repúdio de uma história anacrónica que assuma um ponto de vista unívoco e glorificador, o qual tem vindo a ser contestado em fundamentadas reformulações por múltiplas investigações académicas nacionais e internacionais, apoiamos a urgência da revisão dos termos “descoberta”/“descobrimentos” e outros eufemismos (“primeira globalização”, “viagem”, “diáspora”, “interculturalidade”, “mar”, “lusofonia”) como o primeiro passo para uma discussão mais ampla e plural.

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A controvérsia sobre um Museu que ainda não existe. Descobertas ou Expansão? (12.04.2018 ) in Jornal “Expresso”

Já vai em mais de cem o número de académicos que são contra a possibilidade de Lisboa vir a ter um “Museu das Descobertas”. Numa carta, que o Expresso publica abaixo, historiadores, especializados na história do império português , e cientistas sociais explicam porque é que um museu dedicado à expansão portuguesa nunca deverá ter esta designação. A ideia de criar na capital uma instituição como esta foi defendida no programa eleitoral de Fernando Medina, eleito presidente da câmara de Lisboa. Os signatários da carta consideram o nome “Museu das Descobertas” um erro de perspectiva. A lista de signatários não tem parado de aumentar desde que a carta foi tornada pública,na última quinta-feira. Aos portugueses juntaram-se desde então investigadores vinculados às universidades de Harvard, Yale, e UCLA, nos Estados Unidos, ao Collège de France, Sorbonne, EHESS, Paris e a EPHE, Paris, às principais universidades brasileiras, São Paulo, Universidade de Campinas, Universidade Federal da Baía, Universidade Federal Fluminense, o University College London, UK, ou a Universidad Complutense de Madrid.

Porque é que um museu dedicado à ‘Expansão’ portuguesa e aos processos que desencadeou não pode nem deve chamar-se ‘Museu das Descobertas’?

A ideia de construir um ‘Museu das Descobertas’ na cidade de Lisboa, incluída no programa eleitoral de Fernando Medina de 2017, não é nova, e tem sido objecto, nas últimas semanas, de algumas reflexões no espaço público. Num momento em que a capital está a viver um surto de turismo e interesse internacional nunca visto, criar um museu sobre este período histórico pode parecer tentador.

Se existem vantagens na criação de um espaço museológico deste tipo, porque é que ele não deve intitular-se ‘Museu das Descobertas’?

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Antes é que era bom? | Michel Serres

Este é um livro delicioso. Não há ninguém que não se tenha interrogado, uma vez que seja, sobre a relação entre o presente e o passado. Quem é que, num arroubo de nostalgia, não tropeçou já na mais emotiva das declarações: «Ah, antes é que era bom!» Mas era? O passado seria mesmo tão dourado como às vezes o pintamos?

Permitam-me, caros leitores, que vos ponha a falar com Michel Serres. Apresento-o, primeiro: Michel Serres é filósofo e historiador das ciências. E atreve-se: membro da Academia francesa, Serres intervém publicamente arriscando oferecer uma visão do mundo em que a filosofia, as  ciências e a cultura se combinam. Neste seu pequeno livro, repleto de fina ironia, Michel Serres, dos seus 87 anos de idade, afirma com toda a clareza: não, o passado não era bom! O presente é bem melhor.

Cito algumas saborosas passagens do livro:

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Da Síria à Coreia, o mesmo princípio: em Washington a paz é péssima para os negócios! | Carlos Matos Gomes in MOVER A MONTANHA

A intervenção na II Guerra Mundial deu origem a um regime de oligarquia nos Estados Unidos, ou foi fruto dela. Uma oligarquia que o presidente Eisenhower designou como “complexo-militar industrial”, que integra também o complexo financeiro de Wall Street. A partir daí o slogan “o que é bom para a General Motors é bom para a América” passou a ser o que é bom para o complexo militar-industrial é bom para a América e todas as ações gizadas em Washington devem ser analisadas à luz dos interesses da oligarquia que o controla.

A oligarquia americana instituiu-se como ”perturbador mundial” e desde o final da IIGM desenvolveu a sua manobra de domínio planetário através da criação de pontos quentes e situações de conflito permanente em zonas chave. Um pouco a estratégia de domínio de estreitos que Afonso de Albuquerque utilizou para dominar o Índico com forças reduzidas, em que os EUA criam os estreitos para depois induzirem a necessidade de os defender.

São os interesses desta oligarquia que estão em jogo na atual fase de aproximação das duas Coreias e de desestabilização da Síria e do Médio Oriente, em geral.

A estratégia do regime de Washington de aumentar as tensões nos pontos quentes que são a península da Coreia e o Médio Oriente sofreu recentemente dois sérios contratempos, um com o encontro dos presidentes das duas Coreias, o outro com a derrota na Síria dos exércitos islâmicos que os EUA apoiaram.

Na Síria, a desestabilização provocada pelos Estados Unidos trouxe a Rússia para zonas no Médio Oriente e nas margens do Mediterrâneo que a esta lhe interessava ocupar, deixaram desamparados e na expetativa os seus peões na região, Israel e a Arábia Saudita, e fê-los perder a Turquia como aliado incondicional. O tiro saiu pela culatra.

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Régis Debray, le monde expliqué à mon fils | in France Culture

Régis Debray, philosophe et écrivain, inventeur de la médiologie, revient avec nous sur les mutations de notre histoire politique qu’il a observées ces 50 dernières années à l’occasion de la sortie de son “Bilan de faillite” (Gallimard, mai 2018).

Il y a une bascule qui s’est faite de l’intellectuel vers l’émotif, du projet vers l’optique, de la réflexion aux images. L’heure est aux publicitaires, aux spin doctors, aux photographes et aux cinéastes, plus aux écrivains ou aux philosophes.” Régis Debray

La faillite dont il fait le bilan est à la fois collective et personnelle. Après un demi-siècle de combats révolutionnaires pour changer le monde, que reste-t-il de sa génération et ses espoirs? Croire en qui et en quoi? Croire encore?

Appelons-le « figure de la vie intellectuelle française », un pedigree dont il se moque avec humour…  Dans cette lettre à son fils, celle d’un homme de 76 ans à un garçon de 16 ans, il dit renoncer « à toute ambition d’influence». «Entre le tout-économie et le tout-image, les gens de mon espèce ne peuvent plus faire, avec leurs gribouillis, que des ronds de fumée.»

Dans Civilisation, Comment nous sommes devenus américains, (Gallimard, 2017) qui reparaît ce mois-ci en Folio,  il avait décrit le « changement de civilisation » qu’a connu la France sous l’influence de l’hégémonie culturelle américaine. Dans Le nouveau Pouvoir (Cerf, Septembre 2017) il montrait comment l’apparent changement politique que constitue l’arrivée au pouvoir de Macron marque une profonde mutation culturelle inscrivant la France, pourtant catholique et républicaine, dans l’avènement planétaire de la civilisation issue du néo-protestantisme. Des réflexions qui ont aussi produit une série d’émission l’été dernier sur France Culture devenue livre avec les éditions Autrement : «France-Amérique : un échange de bons procédés» est paru en février dernier.

La disparition de l’avenir est une chose notable. Il n’y a plus de parti idéologiquement structuré avec une vision de l’avenir, avec une vision de ce qui est à accomplir. Nous vivons dans le marketing de l’instant, dans le ‘présentisme’ du chiffre. »

Régis Debray, in France Culture

Carlos Vale Ferraz | Nó Cego

“A Porto Editora publica a 17 de maio uma nova edição do livro Nó Cego, primeiro romance de Carlos Vale Ferraz e livro de culto de uma geração que esteve envolvida na guerra colonial e que, a partir dela, entrou em rutura com o regime português da ditadura.

Nó Cego é hoje reconhecido como um livro essencial para compreender esse período crucial da nossa História que foram os anos da guerra colonial e o fim do regime de ditadura, bem como para conhecer os dramas, as angústias, as alegrias e as tristezas da geração que fez a guerra e que a terminou, abrindo Portugal à modernidade.

A nova edição deste romance serve de pretexto à conversa que Carlos Vale Ferraz, António-Pedro Vasconcelos e João de Melo terão na sessão de lançamento que se realiza a 19 de junho, pelas 18:30, na livraria Ferin, em Lisboa.”

DA GRATIDÃO | André Gago

A 2 de Maio de 1945, as tropas soviéticas tomam Berlim e hasteiam a bandeira soviética no Reichstag Alemão. A guerra custou aos russos 27 milhões de vidas. Nos primeiros minutos do dia 9 de Maio (hora de Moscovo, na última hora do dia 8 em Berlim), o alto comando alemão assina a rendição. O acto decorreu na Administração Militar Soviética em Berlin-Karlshorst.

Representantes:
União Soviética: Marechal Georgy Zhukov;
Reino Unido: Marechal Chefe da Força Aérea Arthur Tedder;
Estados Unidos: General Carl Spaatz, como testemunha;
França: General Jean de Lattre de Tassigny, como testemunha;
Alemanha: Marechal de Campo Wilhelm Keitel; General Almirante Hans-Georg von Friedeburg; Coronel-General Hans-Jürgen Stumpff.

Retirado do Facebook | Mural de André Gago

Karl Marx | UMA SEPULTURA EM LONDRES | Jorge de Sena

Pelo bicentenário do nascimento de Karl Marx 
(Tréveris, 5 de maio de 1818 — Londres, 14 de março de 1883)

UMA SEPULTURA EM LONDRES

No frio e no nevoeiro de Londres,
numa daquelas casas que são todas iguais,
debruça-se sobre todas as dores do mundo,
desde que no mundo houve escravos.
As dores são iguais como aquelas casas
modestas, de tijolo, fumegando sombrias, solitárias.
Os escravos são todos iguais também:
De Ramsés II, de Cleópatra, dos imperadores Tai-Ping,
de Assurbanípal, do Rei David, do infante
D. Henrique, dos Sartoris de Memphis, dos
civilizados barões do imperador D. Pedro II.
Ou das «potteries», ou da Silésia, de África,
da Rússia. (E o coronel Lawrence da Arábia
chegou mesmo a filosofar sobre a liberdade moral
dos jovens escravos com quem dormia.)
No frio inenarrável das eras e das gerações de escravos,
que nenhuma lareira aquece no seu coração,
escreve artigos, panfletos, lê interminavelmente,
e toma notas, historiando infatigavelmente
até à morte. Mas o coração, esmagado
pelo amor e pelos números, pelas censuras
e as perseguições, arde, arde luminoso
até à morte. – Eu quero ver publicadas
as suas obras completas – diz-lhe o discípulo.
– Também eu – responde. E, olhando as montanhas
de papéis, as notas e os manuscritos, acrescenta com
esperança e amargura – Mas é preciso
escrevê-las primeiro -.
Como têm sido escritas e reescritas! Como
não têm sido lidas. Mas importa pouco.
Naquela noite – creiam – a neve inteira
derreteu em Londres. E houve mesmo
um imperador que morreu afogado
em neve derretida. Os imperadores, em geral,
libertam os escravos, para que eles fiquem mais baratos,
e possam ser alugados sem responsabilidade alguma.
O coronel Lawrence (como anotámos acima), com os seus jovens escravos,
também tinha um contrato de trabalho. Mais tarde,
criou-se mesmo a previdência social.
No frio e no nevoeiro de Londres, há, porém,
um lugar tão espesso, tão espesso,
que é impossível atravessá-lo, mesmo sendo
o vento que derrete a neve. Um lugar
ardente, porque todos os escravos, desde sempre todos
aqueles cuja poeira se perdeu – ó Spartacus –
lá se concentram invisíveis mas compactos,
um bastião de amor que nunca foi traído,
porque não há como desistir de compreender o
mundo. Os escravos sabem que só podem
transformá-lo.
Que mais precisamos de saber?

1962
Jorge de Sena, In “Poesia III”.

Retirado do Facebook | Mural de Eduardo Graça

O espectro de uma ideia que mudou o mundo | Karl Marx | MANUEL CARVALHO, 5 de Maio de 2018 in Jornal “Público”

A leitura que Karl Marx fez do capitalismo e o programa de acção que propôs para o demolir mudaram o curso da História. Para o bem? Para o mal? Dos regimes brutais que se serviram das suas ideias à apologia da sua mensagem libertadora, que sentido faz Marx hoje? A crise de 2007, a desigualdade crescente ou o gigantismo de empresas como a Google podem ressuscitar a sua crítica do capitalismo? Karl Marx nasceu há 200 anos.

 Os últimos dias de Fevereiro de 1848 Paris entrou em estado de sítio. Soldados em parada ousaram vaiar o rei Luís Filipe, milhares de operários e estudantes tomaram as ruas de assalto, montaram barricadas, afrontaram as classes médias, determinaram a demissão do primeiro-ministro (Guizot), ousaram reclamar o poder e logo a seguir ditaram a abdicação do monarca e a criação da Segunda República. Não foi coincidência, mas por esses dias tumultuosos, a 24 de Fevereiro, Karl Marx publicava o Manifesto Comunista que parecia adivinhar e explicar a insurreição de Paris. “Um espectro assombra a Europa… o espectro do comunismo”, lia-se na primeira linha do Manifesto. A França habituada aos tumultos revolucionários acabaria por derrotar os sublevados e na verdade Marx já não era vivo quando, em Outubro de 1917, a sua deixou de ser sombra para se tornar realidade nas ruas de Petrogrado (São Petersburgo). Pela primeira vez, um projecto de comunismo estava em execução.

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Nem Descobrimentos nem Expansão | Pedro Lains | in Diário de Notícias

29 Abril 2018

Nem Descobrimentos nem Expansão: aquilo que é preciso é um museu da História de Portugal. E um museu em que primeiro se pensem os conteúdos e só depois o edifício.

Muitos países tiveram passados grandiosos. Apenas alguns exemplos próximos de nós servem. A Dinamarca já foi um império, a Turquia, o centro do Império Otomano e, claro, a Grã-Bretanha, que já foi o maior império que o mundo alguma vez conheceu. Portugal teve três impérios, cuja história é muito importante e o público sabe isso, porque sente o seu reflexo. Mas é preciso ir mais longe.

Quem estuda um aspecto específico da história da Expansão cedo reconhece que o mundo lá fora dá atenção a dois ou três aspectos e a pouco mais. Certo que Vasco da Gama e António Vieira são figuras de craveira mundial. Mas já muito poucos saberão quem foi Pedro Nunes ou o nónio. Dizer isto é reconhecer que o país é grande, mas à sua dimensão.

Então, será preciso um museu para mostrar quem foi Pedro Nunes? A pergunta pode ser respondida com uma outra: precisamos de um museu do Império Otomano ou da Expansão dinamarquesa? Precisamos de um museu do Império Britânico?

Pedir um museu da Expansão é pormo-nos exactamente ao nível dos que no passado tanto vangloriaram os Descobrimentos.

Os governos da monarquia liberal do século XIX, da República e do Estado Novo usaram os impérios como forma de se justificar perante os cidadãos. Seguramente foi o Estado Novo que mais o fez, com a Exposição do Mundo Português, em 1940, ou as comemorações henriquinas, em 1960. Queremos continuar nessa senda? A discussão do nome de um museu sobre este tema esconde esta questão. Faz o mesmo apenas mudando o nome.

O país precisa de um museu da História de Portugal. Um museu da presença no território que hoje é Portugal dos povos antigos, do Império Romano, das gentes muçulmanas, da reconquista cristã, da formação do Estado medieval e, claro, dos Descobrimentos e da Expansão. Precisa de um museu que mostre e explique a união dinástica com Espanha, a Restauração, o absolutismo, o liberalismo, a República, o Estado Novo, a democracia e o que somos hoje. Um museu que mostre as origens diversas de um país diverso num mundo diverso, de Viriato a Marco Paulo. Um museu de um período específico da história do país, escolhido por razões enraizadas num passado menos aberto, empobrece o país – e o próprio período que deveria enaltecer. E não seria alargando o âmbito do tema que o projecto melhoraria, pois do que não precisamos mesmo é de ver a história do país – e do mundo – através do binóculo da Expansão.

A teoria desta coisa tem uma tradução prática. Nunca haverá peças suficientes para um museu dos Descobrimentos ou da Expansão. Não há um número suficiente de objectos por aí espalhados à espera de serem reunidos. Não é uma triste realidade, é a realidade. Não há vestígios de uma única nau; o número de instrumentos de navegação é escasso; não há um espólio de Bartolomeu Dias, de Vasco da Gama ou de Pedro Nunes. Há cartas, documentos, pinturas e outras coisas, que faria sentido reunir. E há objectos que podem representar os mundos a que os navegadores e os comerciantes chegaram. Mas tudo isso não encherá um museu. Um museu da Expansão seria sempre um museu com mais ideias do que objectos, em que a ausência de materiais seria compensada por ideias, textos, conceitos. O mesmo não se aplica ao todo milenar que é a história de Portugal.

Todas as boas ideias já foram inventadas. Uma nação que já foi grande territorialmente, que já foi uma grande potência europeia, e que hoje é grande por aquilo que sabe fazer, a Dinamarca, tem o seu Museu de História Nacional. Exemplar, aliás. Com um museu da História de Portugal podíamos compreender os vários tempos históricos das pessoas e dos povos que viveram neste canto de Europa, e colocar os Descobrimentos e a Expansão no contexto nacional e internacional apropriado. Mas primeiro os conteúdos e depois o edifício, já que o país – sobretudo, Lisboa – já tem um número suficiente de obras de regime vazias, algumas feitas de propósito para serem “museus”.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Pedro Lains in Diário de Notícias