Baruch Spinoza | WIKIPÉDIA | Biographie, origines et débuts

Baruch Spinoza naît le 24 novembre 1632 dans une famille appartenant à la communauté juive portugaised d’Amsterdam, à l’époque « ville la plus belle et singulière d’Europe »p 2. Il tient de son grand-père maternele son prénom « Baruch », Bento en portugais, qu’il latinise en Benedictus, « Benoît », et qui signifie « béni » en hébreu.

À cette époque, la communauté juive portugaise d’Amsterdam2 est composée de Juifs expulsés ou réfugiés des villes ou pays alentourf mais majoritairement de conversos, « nouveaux-chrétiens »g convaincus mais suspectés, hésitants ou contraints — ces derniers étant appelés marranes4 (qui veut initialement dire « porcs »), c’est-à-dire des Juifs de la péninsule Ibérique convertis de force au christianisme, mais ayant pour la plupart secrètement maintenu une certaine pratique du judaïsme (crypto-judaïsme). Confrontés à la méfiance souvent féroce des autorités, particulièrement de l’Inquisition, et à un climat d’intolérance envers les convertis4, un certain nombre d’entre eux, volontaires ou forcés, ont quitté la péninsule Ibérique et sont revenus au judaïsme lorsque cela était possible, comme aux Provinces-Unies (actuels Pays-Bas) au xviie siècle, terre réputée pour sa plus grande tolérance.

La lignée paternelle de Spinoza est vraisemblablement d’origine espagnoled, soit de la région connue en Castille-et-León comme Espinosa de los Monteros, soit de celle qu’on appelle Espinosa de Cerrato, plus au sud. Les Spinoza ont été expulsés de l’Espagne en 1492, après que Ferdinand d’Aragon et Isabelle de Castille eurent imposé aux musulmans et aux juifs de devenir chrétiens ou de quitter le royaume, en vertu du décret de l’Alhambra du 31 mars 1492année cruciale. Les Spinoza décident de s’installer au Portugal, moyennant paiement exigé à l’arrivée par les autorités portugaises4,h mais ils sont rapidement obligés de se convertir au catholicisme pour pouvoir rester dans le pays. En effet, après le mariage de Manuel Ier du Portugal avec Isabelle d’Aragon en 1497, le monarque ordonne lui aussi l’expulsion des juifs de son pays (« le baptême ou l’exil »). Néanmoins, afin de ne pas priver le Portugal de l’apport des Juifs qui occupaient des positions importantes dans la société (médecins, banquiers, commerçants, etc.), il se ravise et ordonne un vendredi des baptêmes forcés pour le dimanche suivant : à peu près cent vingt mille Juifs sont alors convertis au catholicisme en quelques jours, avec, à présent, interdiction d’émigrer4. Ce décret ne sera assoupli qu’en 1507, après le massacre de Lisbonnei. Les Spinoza et leurs coreligionnaires ont pu vivre à peu près en paixj dans le pays jusqu’à ce que l’Inquisition s’y implante véritablement sur ordre papal, environ quarante ans plus tard5.

Le grand-père de Baruch, Pedro, alias Isaac Rodrigues d’Espinoza, né en 1543, est originaire de Lisbonne et s’est installé à Vidigueira, la ville natale de son épouse6, Mor Alvares, avec laquelle il a eu trois enfants dont Miguel Michael, le futur père du philosophe. Sans doute accompagné de sa sœur Sara7 et de sa propre famille, Pedro Isaac, « effrayé par les arrestations inquisitoriales », quitte le Portugal en 1587 pour venir à Nantesk et y rejoindre son frère Emanuel Abrahaml, le grand-oncle du futur Baruch, déjà réfugiém (la présence d’Emanuel Abrahamn y est attestée en 1593). Pedro Isaac n’y est pas resté, probablement parce que le judaïsme était officiellement interdit à Nantes et qu’il y régnait, là aussi, une certaine hostilité envers les marranes8 et des sentiments fréquemment contrastés voire agressifs envers les Portugais (ou les Juifs dits portugais)o,9. Apparemment expulsé de Nantes avec sa famille et son frère Emanuel Abraham, en même temps que tous les autres Juifs de la ville, en 1615p, Pedro Isaac gagne alors Rotterdam des Provinces-Unies dans l’actuelle Hollande méridionale, où vit déjà une partie de la diaspora juive portugaise. Il y décède en 1627q. À l’époque, les Provinces Unies font partie d’un ensemble de lieux appelés « terres de liberté » voire « terres de judaïsme », c’est-à-dire des cités où le judaïsme est soit officieusement toléré donc restreint (comme à Anvers), soit franchement accepté et où les juifs sont reconnus comme tels ; ainsi, AmsterdamHambourgVeniseLivourne ou une partie de l’Empire ottoman (SmyrneSalonique10, où nombre de marranes et « nouveaux chrétiens »4, ces juifs contrariés, en profitent pour se convertir à leur religion d’origine.

Le père de Baruch, Miguel alias Michael, né à Vidigueira (Alentejo) au Portugal en 1588, est un marchand réputé dans l’import-export de fruits secs et d’huile d’olive, et un membre actif de la communauté (synagogue, œuvres de bienfaisance et écoles juives) qu’il aide à se consoliderr. La mère de Baruch, Ana Debora Marques, épousée en secondes noces, vient elle aussi d’une famille juive séfarade d’origine espagnole et portugaise11 de Porto et Ponte de Limas, et meurt alors que Baruch Spinoza n’a pas six ans. À l’adolescence, il perd aussi son demi-frère aîné, Isaac, et un peu plus tard sa belle-mère Estert qui l’avait élevé. De sa fratrie nombreuse, Baruch ne gardera à l’âge adulte que sa sœur ainée Rebecau.

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AS ORIGENS | A albergaria de Minde | 20 de Janeiro de 1165 | por Abílio Madeira Martins

Nos recuados tempos da fundação da monarquia a região montanhosa denominada Maciço Calcário Estremenho era certamente o que, nos tempos atuais, se poderia chamar um maravilhoso e genuíno parque natural.

Poderiam considerar-se como povoados demarcantes de toda essa vasta área, então praticamente despovoada, as vilas de Alcobaça, Aljubarrota, Porto de Mós, Ourém, Torres Novas e Alcanede que balizavam um perímetro de mais de 120 quilómetros, e entre elas a espessura dos matos ou o escalvado dos fraguedos onde o chão minguava, intercalados com a exuberância dos bosques que preenchiam as pregas e os covões de terra funda, quais oásis disseminados pelo imenso manto verde do corpo da serrania.

Era preciso que esta enorme cadeia rochosa, a servir de barreira às ligações entre o norte e o sul, o litoral e o interior, se tornasse mais fácil de transpor por quem, se viesse a meter pelas suas brenhas.

Foi o reconhecimento dessa necessidade que levou o rei D. Afonso Henriques a decretar a criação de albergarias em lugares estratégicos do maciço com vista a darem poiso e apoio aos transeuntes nos trajetos viáveis indicados pela conjugação de vales e portelas. Daí a fundação da albergaria de Minde, por carta régia desse mesmo rei, datada de 20 de Janeiro de 1165 no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.

Esta carta que, com alguma lógica , se pode considerar a certidão de nascimento de Minde como povoação, confere-lhe, portanto, existência institucional desde os primeiros anos da monarquia.

in Martins, Abílio Madeira, “A herança de Dom David”. Folheto Edições e Design, 15-17

Retirado do Facebook | Mural de Junta de Freguesia de Minde

O Doutor comenta os debates | Jovem Conservador de Direita

O primeiro debate de hoje foi entre o partido conhecido por defender os direitos dos animais e o partido que defende os direitos dos investidores bolsistas, que também são animais, mas com a diferença de que criam riqueza. Enquanto uma hiena não for capaz de investir em criptomoedas, é óbvio que vou estar do lado da IL.

O ambiente foi um dos principais temas do debate. O PAN apresentou a posição irracional de fazer alguma coisa para reverter as alterações climáticas. Teria maior apoio se fosse mais moderado. Ser totalmente contra as alterações climáticas é muito radical. Tem de ser mais centrista nesse assunto.

Felizmente estava lá o Dr. Cotrim Figueiredo, com a sua racionalidade, a afirmar que não se pode salvar o ambiente à custa da actividade económica. Há que ter noção das prioridades. Uma coisa é haver alterações climáticas, outra coisa é o Estado intervir para tratar desse problema. A IL não abdica dos seus princípios, intervenção estatal nunca. Se foi a mão humana a destruir o ambiente não deverá ser a mão humana a salvar o planeta. É só ver os índices de mercado e fazer uma análise SWOT do impacto da sobrevivência da Humanidade na economia.

Segundo o Dr. Cotrim Figueiredo, “enriquecer Portugal é uma boa política ambiental”. É verdade, sem tantos pobres a cheirar mal o ambiente fica melhor. O enriquecimento é o febreze da sociedade e não há melhor política ambiental do que baixar os impostos às pessoas para que elas possam investir em desodorizantes.

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RAZÃO VERSUS FÉ, UMA DIALÉCTICA DA IDADE MÉDIA (1) | António Galopim de Carvalho

Situada entre aproximadamente os séculos V e XV, a IDADE MÉDIA foi um tempo de alastramento do cristianismo e da vida cultural na Europa ocidental, sobretudo através do surgimento de mosteiros da Ordem dos Beneditinos. Seguidores de São Bento de Núrcia (480-547), os monges desta comunidade cristã, iniciadores do movimento monacal, foram os herdeiros da cultura latina e os depositários do essencial do saber do mundo antigo. Estão entre eles os criadores do enciclopedismo, com destaque para Santo Isidoro de Sevilha (570-636) que nos deixou “Etymologiae sive origines”, publicado oito séculos depois, em 1483. Durante este período, o estudo e o ensino transitaram dos mosteiros e conventos para as chamadas escolas catedrais, criadas por toda a Europa, estas que, por seu turno, foram os embriões das universidades nos centros urbanos mais importantes (Salermo, Bolonha, Paris, Oxford, Montpelier, Arezzo, Salamanca, Pádua, Orleães, Roma, Siena, Lisboa, entre muitas outras), privilegiando o ensino de disciplinas como teologia, gramática, retórica, dialéctica (lógica), aritmética, geometria, astronomia, direito, medicina e música.

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RAZÃO VERSUS FÉ, UMA DIALÉCTICA DA IDADE MÉDIA (2) | António Galopim de Carvalho

Visto como o mais ilustre professor da Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, o filósofo e alquimista dominicano alemão Albrecht von Bollstädt (1206-1280), o “Doctor Universalis”, é conhecido entre nós por Alberto, o Grande ou Alberto Magno e, também, por “Maître Aubert”, ou simplesmente “Maubert”. Lembrado como o maior filósofo e teólogo cristão da Idade Média, Alberto Magno foi também figura de grande prestígio no mundo da ciência do seu tempo, em domínios mais tarde incluídos na química e na mineralogia, que realizou na sua qualidade de alquimista. Após concluir os seus estudos em Pádua e em Paris, Alberto optou pela vida religiosa, ingressando na Ordem de São Domingos, em 1223, tendo chegado à dignidade de Bispo de Regensburgo (Ratisbona).

Tendo estudado o pensamento de Aristóteles e de Averróis, produziu uma das mais importantes sínteses da cultura medieval e defendeu a coexistência pacífica da ciência e da religião, tendo sido o primeiro a aplicar as ideias do fundador do Liceu de Atenas no pensamento cristão. Mas não se limitou a repetir a obra do “Estagirita” (Aristóteles nasceu em Estagira, antiga cidade da Macedónia, na Grécia). Procurou recriá-la com a sua própria experiência e as suas observações. No propósito de subordinar o aristotelismo à fé cristã, o Papa Gregório IX incumbiu Alberto Magno dessa árdua tarefa. Em resultado do seu trabalho, a física e a metafísica, a lógica, a ética, a psicologia e a política de Aristóteles passaram a fazer parte da escolástica.

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2022 | António Carlos Cortez

– ameaça de guerra na Ucrânia

– conflito entre China e EUA por causa de Taiwan

– desastre humanitário no Iémen

– multiplicação dos eventos climáticos extremos

– Índia e China não cumprem na íntegra o protocolo de Quioto

– continuação de ataques terroristas

– continuação de crimes com armas de fogo em estabelecimentos de ensino, seja nos EUA, na Rússia ou em França

– ameaça da extrema-direita vir a ser poder em França

– ameaça de guerra no médio-oriente devido às tensões sobre o nuclear no irão e a questão israelo-palestiniana

– em África o perigo de fome de proporções bíblicas, da Etiópia à Eritreia, do Níger à Somália milhões poderão morrer

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Fernão de Magalhães | um herói de Portugal para o mundo | A Era dos Descobrimentos | in Ncultura

A Era dos Descobrimentos tornou Portugal num país poderoso. Outro país, Espanha, também se revelou influente. Um nome tornou-se numa referência, Fernão de Magalhães.

Ao longo da nossa história, com quase 900 anos, foram vários os momentos marcantes. No entanto, poucos momentos terão sido tão notáveis como a Era dos Descobrimentos.

Fernão de Magalhães (1480-1521)

Fernão de Magalhães foi um fidalgo da pequena nobreza, existindo diferentes versões que identificam locais de nascimento distintos. Uns defendem Trás-os-Montes, enquanto outros historiadores defendem que ele terá nascido no Porto.

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Os 13 Reis Suevos que governaram Portugal antes de D. Afonso Henriques | in VortexMag

A história que aprendemos na escola é que o nosso país começou por ser um condado pertencente a Castela, o Condado Portucalense, governado por D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, que viria a ser o primeiro Rei de Portugal. Mas se recuarmos uns séculos, há muito ainda por contar. Portugal começou por ser a Lusitânia, que depois foi anexada pelos Romanos. Após alguns séculos de domínio Romano, a zona que hoje corresponde a Portugal foi invadida por tribos germânicas, os Suevos e os Visigodos.

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EDSON ARANTES DO NASCIMENTO | PELÉ “Não posso ser um novo Pelé. Ele é o único que ultrapassa os limites da lógica” | by Johan Cruyff

Tal como Messi, CR7 e Neymar nos dias de hoje, Johan Cruyff, que faleceu em 24/3/2016, aos 68 anos, também foi um dos muitos gênios do futebol que ao longo da história foi comparado a Pelé, e tal como nos dias de hoje, naquela época muitos diziam que Cruyff era “melhor que Pelé”, “o melhor de todos os tempos”, “o melhor da história” e etc, etc, etc,…

Realmente Cruyff foi um dos melhores da história do futebol, melhor jogador europeu do século XX, mas tal como Maradona, Eusébio, Di Stéfano, Romário e tantos outros, foram comparados ao Rei mas nunca conseguiram pelo menos chegar perto do patamar de Pelé.

A única vez em que se enfrentaram, foi no dia 1 de setembro de 1974 em Cadiz na Espanha, em jogo válido pelo troféu Ramon de Carranza, um mês antes do jogo de despedida de Pelé do futebol brasileiro. O Barcelona venceu o Santos FC por 4 x 1.

Cruyff, tal como outros gênios do futebo como Zico, Puskas ou Di Stéfano, nunca teve a sorte de vencer uma Copa do Mundo, mas escreveu seu nome na história do futebol com letras de ouro.

Pedro Hispano | o português mais poderoso de sempre | in vortexmag

Quem foi Pedro Hispano? O português mais poderoso de sempre viveu na Idade Média e foi o Papa João XXI. Conheça a sua história e como chegou a Papa.

A 20 de setembro de 1276, Pedro Julião (ou Pedro Hispano, como também era conhecido) foi coroado com o nome de Papa João XXI, uma semana depois da sua eleição para o papado, em Viterbo. Esta votação esteve envolvida nalguma agitação, já que o seu predecessor, Adriano V, tinha falecido prematuramente, pouco mais de um mês após a sua eleição.

Numa altura em que na Europa prevaleciam os conflitos e guerras entre vários pequenos reinos e com a ameaça dos muçulmanos à porta, ser Papa significava ser a pessoa mais poderosa do mundo naquela época. Reis, nobres e povo… todos deviam obediência ao sumo pontífice. Era ele quem ditava as leis, estabelecia as regras e mediava conflitos.

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Albert Einstein | Leçon de vie

Un jour, Albert Einstein a écrit sur tableau :

9 x 1 = 9

9 x 2 = 18

9×3 = 27

9×4 = 36

9×5 = 45

9 x 6 = 54

9 x 7 = 63

9 x 8 = 72

9 x 9 = 81

9 x 10 = 91

Le chuchotement a soudainement commencé dans la salle parce qu’Einstein s’est trompé.

La bonne réponse est : 9×10=90

Tous ses élèves se moquaient de lui. Einstein a attendu que tout le monde se taise et a dit: “Même si j’ai résolu neuf problèmes correctement, personne ne m’a félicité. Mais quand j’ai fait une erreur, tout le monde a commencé à rire.”

“Cela signifie que même si une personne réussit, la communauté remarquera sa moindre erreur et elle l’aimera. Alors ne laissez pas la critique détruire vos rêves. La seule personne qui ne fait jamais d’erreurs est celle qui ne fait rien.”

O homem Massa | Günther Anders | ′′ A obsolescência do homem ′′ 1956 | via Manuel Tavares

Foi em 1956 que o filósofo judeu alemão Günther Anders escreveu essa reflexão premonitória:

′′ Para sufocar antecipadamente qualquer revolta, não deve ser feito de forma violenta. Métodos arcaicos como os de Hitler estão claramente ultrapassados. Basta criar um condicionamento coletivo tão poderoso que a própria ideia de revolta já nem virá à mente dos homens. O ideal seria formatar os indivíduos desde o nascimento limitando suas habilidades biológicas inatas…

Em seguida, o acondicionamento continuará reduzindo drásticamente o nível e a qualidade da educação, reduzindo-a para uma forma de inserção profissional. Um indivíduo inculto tem apenas um horizonte de pensamento limitado e quanto mais seu pensamento está limitado a preocupações materiais, medíocres, menos ele pode se revoltar.

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O 25 de Novembro e a sua novembreza | Carlos Matos Gomes

Escrevi há poucos dias um texto sobre o evento de apresentação do franchising português da CNN, realizado no edifício dos Jerónimos, na parte ocupada pelo Museu Arqueológico. Considero que os monumentos nacionais, evocadores do passado, podem e devem ser utilizados para eventos marcantes do presente. E o que se comemorava a 22 de Novembro é marcante em termos de apresentação e representação de um novo poder, da novembreza.

Não tive uma palavra de expetativa sobre o produto que vai entrar no mercado. Portugal é um pequeno país, não produz acontecimentos de relevo mundial, vive uma cómoda paz, felizmente. As notícias sobre Portugal serão sempre casos menores. A primeira página do tabloide Correio da Manhã, ou do site do Sapo explicam a nossa insignificância. Sem ovos não se fazem omeletas e a estação CNN Portugal não fará o milagre de nos colocar no centro de um universo de manipulação informativa, a não ser em caso de grande catástrofe. Espremerá até à última gota os pequenos frutos locais (ia a escrever furtos e também se adequava). A notícia importante no happening dos Jerónimos foram os seus convidados, que se entrevistaram uns aos outros, mesmos os exilados por terem cometido excessos ao trepar.

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PORTUGAL-BRASIL: RAÍZES DO ESTRANHAMENTO | Carlos Fino

EM DESTAQUE NO MUNDO LUSÍADA

Jornalista Carlos Fino lança obra “Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento”.

Nova obra do jornalista português traz 500 páginas profusamente ilustradas com imagens de caráter histórico sobre a complexa relação Portugal-Brasil.

Da Redação do “Mundo Lusíada” – um dos principais jornais da comunidade portuguesa no Brasil:

Uma tese de doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e pela Universidade de Brasília do jornalista português residente no Brasil, Carlos Fino, deu vida ao livro “Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento”.

Segundo o autor, a força da relação Brasil-Portugal por via da história, do sangue e da língua, por um lado, contrasta com a permanência de um sentimento de estranhamento e incomunicação. Confrontado com estas duas realidades contraditórias, quis aprofundar o estudo dessas razões.

Em mais de 500 páginas profusamente ilustradas com imagens de caráter histórico sobre a complexa relação Portugal-Brasil, o autor estuda nesse passado comum as razões de um estranhamento e (in)comunicação, como por exemplo, cita um “sentimento antilusitano” que existe disseminado no Brasil.

O livro está em fase de pré-lançamento nos dois países pela Editora LISBON BOOKS – Livraria Atlântico.

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Terras da Beira | Jornal do Fundão, 21-09-2006 e Pedras Soltas (Ed. 2006) | Carlos Esperança

São cada vez mais os mortos que povoam os cemitérios e menos os vivos que restam. Os jovens saíram pelas estradas que invadiram o seu habitat. Fugiram das courelas que irmãos disputavam à sacholada e à facada, dos regatos que secaram a caminho das hortas, da humidade que penetrava as casas e os ossos, e da pobreza que os consumia.

Não há estímulo para permanecer. Não se percebe que as penedias tivessem custado vidas na disputa da fronteira, que homens se tivessem agarrado aos sítios e enchido de filhos as mulheres que lhes suportavam o vinho, a rudeza e os maus tratos.

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MINDE | INAUGURAÇÃO DO MUSEU ROQUE GAMEIRO | 21 Novembro DE 1970

FOI HÁ 51 ANOS QUE FOI INAUGURADO O MUSEU ROQUE GAMEIRO Em 21 de Novembro de 1970 Minde vivia momentos de grande agitação. Foi inaugurado o MUSEU ROQUE GAMEIRO e Minde recebeu a presença do Senhor Presidente da República, Almirante Américo Deus Rodrigues Thomaz.

Os membros da Junta de Freguesia de Minde eram Lourenço Coelho Anjos da Silva, seu Presidente, Manuel da Silva Micaelo e João Almeida Mengas, que lideraram o grupo que se empenhou com grande bairrismo na concretização deste belo projecto. O Presidente da Câmara era o Sr. José Maria Baptista. Recordamos também o Senhor Rogério Venâncio, figura ímpar e marcante da Cultura de Minde, sempre disponível e activo na colaboração com a Junta de Freguesia, tal como todos os membros da Comissão Instaladora do Museu Roque Gameiro. Os Mindericos estiveram orgulhosamente presentes na recepção ao Sr. Presidente da República, na inauguração e no almoço de confraternização que se seguiu. Liderava a Banda da Sociedade Musical Mindense o Sr. Padre Mário Marques dos Anjos, que acompanhou o desfile da população na recepção ao Sr. Presidente da República. Foi bonito. O Pintor Alfredo Roque Gameiro, que nasceu na casa onde foi inaugurado o Museu em 4 de Abril de 1864, tendo falecido em 4 de Agosto de 1935, é considerado o maior pintor aguarelista português.

21-11-2021 | Vítor Coelho da Silva

JORNAL DE MINDE | NOVEMBRO DE 1970

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ver 32 fotos alusivas ao evento

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Calão Minderico | Minde | Portugal

piacao3Piação do Ninhou – Linguagem  Comum 

António de Jesus e Silva , Augusto Porfírio Fragoso , Cid Manata Pires , Dr.Miguel Coelho dos Reis , José António de Carvalho , Prof. Abílio Madeira Martins , Tiago Madeira Martins , Vítor Manuel Coelho da Silva, 06-09-2013

CALÃO MINDERICO – PORTUGUÊS

Letra A

Abecê – Poucos ( são muito abecê = são muito
poucos )
Abobrar – Descansar
Abrilense – Cuco
Achega – Funcionário dos Correios ( mulher )
Migança ( homem )
nota : do apelido da primeira-chefe do
Correio de Minde
Adegueira – Vasilha ; pipa ( vid. Tavares )
Adueiro – Castanheiro ( vid. Tavares ; por dar
uma das madeiras mais usadas em aduelas
Agadanhar . Apanhar ; colher ; furtar
Agoirento – Mocho
Aguentas(Os…) – Os ombros
Albertinas – Bolachas
Aldeia Grande – Ourém
Aleluia – Pedra de grande peso ; tudo o que
represente peso
Alentejas – Azinhas
Alexandre – Coxo
Alexandrino – Fotógrafo
Alexandrinas – Fotografias( do nome de um fotógrafo que durante anos tirou fotos ” à la minuta ” na Feira de Sant’Ana
Alhandra(O de …) – O lume ; o fósforo ; uma fogueira – O de Alhandra preto=carvão
Alhoa – Praga ( Jordou pela d’el rei na piação da Alhoa = seguiu pela estrada a rogar pragas )
Alqueire ancho – Moio ; o equivalente a sessenta alqueires

Ver tudo:

http://minderico.net/artigo.asp?cod_artigo=123069

Site desactivado – em breve voltará ( Vítor Manuel Coelho da Silva )

PORTUGUÊS – CALÃO MINDERICO 

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Biografía Ludwig Van Beethoven

Beethoven pese a la profunda desesperanza que experimentó se inspiró para realizar la sinfonía cumbre de su carrera, la novena, apasionada y optimista, fue escrita por un Ludwig sordo que no podía vencer la miseria de la vida diaria, la finalizó basándose en el poema “Oda a la alegría” de Schiller que era un elevado himno a un Dios virtuoso y la hermandad entre todos los hombres. Enfermo, intentó escribir una décima sinfonía en un último gesto de poder ante la adversidad pero su propia imperfección heredada lo venció, ¿lo volveremos a ver? eso queda entre Jehová Dios y usted.

El mejor baile de pareja de la Historia | Eleanor Powell y Fred Astaire

Nunca volvieron a bailar juntos. Pero cuando lo hicieron, en 1940, se escribió la mejor página de la historia del baile. Eleanor Powell y Fred Astaire parecían la sombra de cada uno. Él nunca tuvo una pareja más competitiva y perfecta. Ella era él. Aquí les vemos al son del Begin the Beguine, la inmortal melodía de Cole Porter. Comenta brevemente la escena Frank Sinatra.

Un seguidor de este canal opina que Rita Hayworth era mejor bailarina que Eleanor Powell, y que bordó la Bossa Nova junto a Fred Astaire.

Quiero, al hilo de esto, matizar varias cosas: Rita tenía buen tipo y bailaba muy dignamente, pero nunca fue –para los estudios de cine– una experta del baile, como sí Eleanor Powell, quien, como Fred Astaire, Donald O’Connor, Ray Bolger, Gene Kelly, Vera-Ellen y otros grandes, se especializaron en ello. Cada cual en lo suyo. Es verdad que Fred sintió a Rita como su mejor pareja de baile, pero ella no puede competir con la maestría de la Powell en esta escena. Además, nunca bailaron la Bossa Nova juntos Fred y Rita, aunque se le haya puesto después esta melodía a alguna secuencia con ambos.

Rita Hayworth bailaba con mucho estilo, pero en este ámbito solo nos la dejaron conocer a medias.

En realidad, Eleanor Powell no formó pareja con Fred Astaire. Solo bailaron juntos en esta ocasión. Puede que Fred la tuviera mucho respeto, dada la altísima perfección de ella. Además, Eleanor se retiró pronto del mundo del espectáculo para convertirse en señora de Glenn Ford. Estoy de acuerdo con que Astaire tuvo otras buenas parejas, la más elegante, sin duda, Cyd Charisse, maravilla clásica en sus piernas infinitas. Cyd venía de otro estilo, el ballet clásico, lo mismo que Leslie Caron (quien acompañó a Fred en “Papá piernas largas”), y eso aportaba mucha clase al ritmo de temas como “Bailando en la oscuridad” (Dancing in the Dark), de “The Band Wagon” (1953).

História da minha viagem rumo ao socialismo | Helena Pato

Em 1964, com o fascismo no seu pleno, eu tinha 25 anos, ia a caminho de me tornar uma marxista-leninista convicta e militava fervorosamente nas fileiras do PCP. Para mim era sagrada a frase «um terço dos países do mundo e dois terços da humanidade vivem em regimes socialistas» e nunca duvidava de que o Socialismo seria o destino de toda Humanidade. Lembro-me de que sonhava com a oportunidade de, alguma vez no futuro, poder conhecer de perto o mais avançado desses países, a «pátria-mãe» das sociedades sem classes. Não havia de morrer sem ver o socialismo com os meus próprios olhos. O dia em que me comunicaram que iria integrar a delegação portuguesa ao Fórum da Juventude, em Moscovo, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Éramos dez – apenas duas raparigas – e nem todos militantes do partido. Saídos quase todos de Portugal e a conta- -gotas, concentrámo-nos, na maioria, em Paris. Aí se planeou cuidadosamente essa viagem à União Soviética e aí ficou (em turismo) um dos companheiros, ido de Lisboa, desistente por na reunião preparatória se ter apercebido do risco de ser preso no regresso ao país.

A 13 de Setembro, ainda era Verão na Europa ocidental, voei sozinha para Moscovo e trajada tão primaveril quanto me pedia a minha alma, pois não houve por perto uma criatura informada ou sensata, que me desse um lamiré acerca do frio rigoroso que, por essa altura, já se fazia sentir nas redondezas dos Montes Urais. Nevava quando desci a escada do avião, e não exagero se disser que a temperatura rondava os 15 graus negativos. Atravessei a pista em sandálias, de manga curta e casaquinho de malha, envolvida pela aba do casaco de pele de raposa, que vestia a opulenta cama rada russa, destacada para me receber na pista do aeroporto. Poucos minutos depois, colada à Elena – assim se chamava –, eu entrava, superprotegida, num sonho, numa história fantástica, construída nas muitas leituras de romances de Gorki e nos manuais de Lenine. No balcão da polícia ouvi falar russo pela primeira vez e o vozear dos funcionários transportou-me para as canções populares da revolução de 1917. «O socialismo começou aqui!» – pensei, enquanto a minha simpática acompanhante recusava, no tom firme do poder, a entrega do meu passaporte à polícia, facultando-lhes uma folha à parte, dobrada em quatro, destinada a ser carimbada, conforme o combinado entre a funcionária do meu partido e a Embaixada Soviética em Paris. Tudo muito bem delineado, já que, era sabido, carimbo de entrada num país socialista dava prisão pela PIDE no regresso a Portugal. Os enormes prédios na ampla e longuíssima avenida que percorri após a saída do aeroporto – primeiro eu e, nos dias seguintes, os restantes jovens portugueses – deixaram-nos embasbacados: naturais de um Portugal pobre e provinciano, nunca víramos nada as sim, e o nosso olhar estava particularmente desperto para admirar as glórias do socialismo.

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A 6 de Novembro de 1772, Marquês de Pombal institui o ensino primário oficial

Com o iluminismo, surge em Portugal uma certa necessidade de instruir. A alfabetização da população começa a ser considerada cada vez mais importante e, na tentativa de realizar esta ambição, o país passa por várias reformas a nível do ensino, ao longo do reinado de D.José I. Estas visavam melhorar a situação escolar em que a Companhia de Jesus havia deixado o país e possibilitar a todos o acesso à instrução. Quem se encarregou de realizar o projecto reformista foi o Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, que aspirava à instituição de um ensino estatal e laico. É de especial importância referir que muitas das reformas implantadas pelo estadista foram influenciadas, quer pelo tempo que este passara no estrangeiro, quer pelos novos pensamentos iluministas.

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À procura do túmulo de Vergílio (Nápoles, Outubro 2021) Frederico Lourenço

Desde que descobri – já não sei como – que existe em Nápoles um lugar tido como o túmulo de Vergílio, não me largou mais a ideia de ir lá prestar homenagem ao deus maior do meu panteão. Graças ao talento organizacional do André, foi possível pôr essa aventura em marcha durante uma curta estadia em Itália. O problema foi perceber onde, em Nápoles, se situava o túmulo, já que toda a investigação que eu tinha feito (com a leitura de artigos eruditos em revistas de filologia clássica) me deixara sempre uma impressão confusa. O túmulo era em Posillipo (a colina nobre de Nápoles onde vivera a aristocracia na época romana – e o próprio Vergílio, muito provavelmente – e onde vivem agora os «calciatori», vedetas do futebol), ou no sopé da colina, em Piedigrotta?

E em qual dos dois parques napolitanos dedicados a Vergílio é que se situaria? No «Parco Virgiliano» ou no «Parco Vergiliano»? (Nunca nos livraremos do problema Vergílio/Virgílio…)

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Epístola sobre o que celebramos hoje | Todos os Santos. Há festa no Olimpo.

A ideia de a Igreja Católica Romana, através do Papa Bonifácio IV, no século sétimo, de dedicar o Panteão dos deuses romanos a todos os santos do cristianismo, de promover um festival de santos, o que na neolinguagem poderia ser uma Rave de santidade, foi e é, porventura, bem intencionada, mas não deixa de ser desanimadora.

Olhando a história da humanidade, e não só o seu presente, desde há quinze séculos que em vez de esperança, apesar dos esforços e sacrifícios de todos os santos, mártires, virgens, doutores, o que temos é um percurso do homem lobo do homem e predador da natureza. Os santos não conseguiram que o homem ganhasse, se não bondade e virtude, pelo menos juízo.

Este dia de Todos os Santos de 2021 não é diferente dos anteriores e não será, presume-se, diferente dos do futuro. No caso, todos os grandes santos do momento estiveram reunidos na cimeira do G-20 e partiram em voo de Roma para Glasgow, a fim de tratarem das ameaças das alterações climáticas que os santos que estiveram nas anteriores celebrações causaram com a sua ganância e perversidade, explorando recursos até os humanos comuns, os que não obtiveram reconhecimento de santidade, terem decidir se querem desaparecer afogados ou gaseados.

Entretanto, os atuais santos e os seus arcanjos, os que à volta deles surgem nos ecrãs de televisão e nas páginas de jornais gordinhos, a tocar trombetas, já fizeram desaparecer das preocupações as tristes figuras que lhes poderiam entortar a auréola dourada que paira sobre as suas cabeças e borrar as asinhas que os fazem flutuar.

De repente, os santos do momento, através dos seus mágicos manipuladores da realidade, fizeram desparecer as vergonhosas imagens do Afeganistão, por exemplo. Como estarão os homens e mulheres do Afeganistão a celebrar o dia de Todos os Santos? E os migrantes do Mediterrâneo? E os sírios? E os palestinianos? E os hondurenhos e haitianos? Não há, como parece evidente, santos que lhes valham. Nem todos juntos.

Sendo os santos tão historicamente inúteis o que celebramos hoje nos vários templos e púlpitos? Que som sai dos sinos?

Born 1946; retired military, historian Carlos Matos Gomes

Palácio Nacional da Ajuda

Na manhã de 1 de Novembro de 1755, a  Família Real estava na sua Quinta de Belém  quando eclodiu o Terramoto e a residência oficial régia-   Paço da Ribeira foi fortemente atingida.  O rei D. José I ficou em  pânico e recusou-se a  voltar a morar em  edifícios construídos “em pedra e cal”.

 A urgência da construção de um novo Palácio e o facto da Família Real ter sobrevivido ao cataclismo por se encontrar na zona de baixa sismicidade de Belém/Ajuda, justificou a escolha do local: o  alto da colina da Ajuda.

O Palácio, construído em madeira para melhor resistir a abalos sísmicos, ficou conhecido por Paço de Madeira ou Real Barraca.  O novo Paço, habitável desde 1761, veio a ser a residência da Corte durante cerca de três décadas. Em 1794, no reinado de D. Maria I, um incêndio destruiu por completo esta habitação real e grande parte do seu valioso recheio.

Coube a Manuel Caetano de Sousa, Arquitecto das Obras Públicas, a tarefa de projectar um novo palácio de pedra e cal, que foi traçado ainda de acordo com as tendências arquitectónicas do Barroco. Mais tarde a construção passaria por outras intervençoes arquitectónicas.  Para saber mais sobre esta história, basta acessar o link : http://www.pnajuda.imc-ip.pt/…/historia/ContentDetail.aspx

fontes:

texto – Palácio Nacional da Ajuda

imagem  – IMC- Palácio Nacional da Ajuda

Legenda da imagem: Palácio da Ajuda, Portugal, Enrique Casanova, século XIX (2ª metade), Ass.: «CA», Aguarela sobre papel, 20 x 27,5 cm, Aquisição: BTA,1991, Palácio Nacional da Ajuda, inv. 54502

Retirado do Facebook | Mural de Projeto Memória

Carta aos meus filhos sobre Freitas do Amaral (onde se fala do CDS) | por Luís Osório

1.

Sabem o que sou politicamente.

Sou do mesmo lugar onde sempre me encontraram.

Mas sabem também da minha vontade que sejam abertos para o mundo, a vontade que escutem todas as partes, que conheçam as histórias de mulheres e homens que não pensam como eu.

Nestes dias em que se anuncia a morte do CDS gostaria de vos falar de um homem que morreu há dois anos, os mais velhos sabem quem foi, os outros um dia saberão.

Chamava-se Diogo Freitas do Amaral

2.

Foi um vencedor.

Um vencedor que não marcou golos como os gigantes do futebol, um vencedor que perdeu as batalhas políticas mais importantes da sua vida, um vencedor que viveu os últimos anos da sua vida condenado pelas elites políticas e jornalísticas ao estatuto de personagem secundário.

É um interessante paradoxo.

Fundou o CDS. Mas no CDS não gostavam dele. Chegaram a tirar a sua fotografia da sede, Paulo Portas condenou-o ao ostracismo. Como antes condenara Lucas Pires.

Interessante que agora são os mesmos que condenaram Freitas do Amaral ao esquecimento a rasgarem as vestes contra a incrível falta de democracia interna e memória por parte da nova liderança.

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Notas sobre a situação política | por Paulo Querido | Título de Vítor Coelho da Silva

O Governo cometeu algum erro gravíssimo? Não. Um conjunto de desastres? Não.

A pandemia foi mal gerida? Não.

Algum ministro foi julgado num escândalo de corrupção? Não.

Casos, houve. Há sempre casos. Mas houve algum caso grave, tipo terramoto político, capaz de abanar as intenções de voto? Capaz de alterar o rumo? Não se vislumbrou nem vislumbra. É de tal forma que as alminhas andam a agitar a sombra do acidente de Eduardo Cabrita há meses, em loop, um disco riscado, uma cassete triste — o ponto é: uma cassete única e um casinho lamentável, lamentavelzinho, inho. Grau 2 na escala de Richter política.

As finanças, como estão? As contas públicas estão bem e recomendam-se.

A economia está mal? Nem na cabeça do mais empedernido ayatollah da direita, o que inclui o Sol e i, quase toda a SIC, Observador, grande parte da TVI, metade do Expresso, pelo menos. A realidade é que Portugal está a crescer.

A crescer mais do que a previsão. A crescer acima da média europeia.

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TARRAFAL – o Campo da Morte Lenta (85.º aniversário) Texto atualizado | por Carlos Esperança

Há 85 anos, 29 de outubro de 1936, degredados, chegaram ao Campo de Concentração do Tarrafal 152 presos políticos. Nesse dia, com a chegada dos primeiros prisioneiros, começou a funcionar o presídio onde era mais doce a morte do que o Inferno da vida que os torturadores lhes reservavam.

Tinham sido 11 dias de viagem, de Lisboa ao Tarrafal, para a primeira leva de vítimas, grevistas do 18 de janeiro de 1934, na Marinha Grande, e alguns dos marinheiros que participaram na Revolta dos Marinheiros de 8 de setembro desse ano.

O Tarrafal foi demasiado grande no campo da infâmia e do sofrimento para caber num museu. Salazar teve aí, no degredo da ilha de Santiago, Cabo Verde, o seu Auschwitz, à sua dimensão paroquial, ao seu jeito de tartufo e de fascista.

Ali morreram 37 presos políticos desterrados, na «frigideira» ou privados de assistência médica, água, alimentos, e elementares direitos humanos, alvos de sevícias, exumados e trasladados depois do 25 de Abril.

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ANÁLISE DA PINTURA GUERNICA | PABLO PICASSO | por Roseli Paulino | @arteeartistas

Considerada uma das mais importantes obras produzidas no século XX, Guernica, de Pablo Picasso, não é somente uma pintura; é um documento histórico. Em determinado momento ela fala sobre si e nesse momento podemos identificar traços de uma época distante, analisar aspectos políticos, culturais e sociais de um período conturbado.

– Qual a mensagem que o pintor quis passar??? Ele foi definitivo em seu poema onde relata os horrores que retratou nessa tela:

“Gritos das crianças, gritos das mulheres, gritos dos pássaros, gritos das flores, gritos das camas, gritos das árvores e pedras, gritos dos tijolos, dos móveis, dos carros, das cadeiras, dos cortinados, das panelas, dos gatos e do papel, gritos dos cheiros, que se propagam um após o outro, gritos do fumo, que pica nos ombros, gritos que cozem na grande cadeira, e da chuva de pássaros que inundam o ar.”

No início de 1937, em plena Guerra Civil espanhola, o mestre do cubismo Pablo Picasso, recebeu como encomenda do governo republicano de Madri um afresco destinado ao Pavilhão Espanhol na Exposição Internacional, celebrada naquele ano em Paris. Mas Picasso, em suas próprias palavras, atravessava “a pior época” de sua vida no campo pessoal e artístico. No fim de abril, quando ocorreu o bombardeio de Guernica , o artista estava sem inspiração, até ficar sabendo do ocorrido.

Toda expressão artística está profundamente ligada à História. Na tela, o artista deposita toda sua consternação. A obra, ainda atual, está presente na memória da humanidade.

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Histórias da História de Portugal | Mário Faria | 5 Outubro 1143

Via Celestino Gomes e Carlos Fino

A fundação ou a independência do Reino de Portugal não foi um acto circunstancial isolado. Foi um processo constituído por vários actores e acontecimentos, e não deveria ser atribuído a nenhum em específico.

O uso do título e a designação de Rei (Reino) de Portugal é muito anterior a D.Afonso Henriques.

O primeiro monarca a utilizá-lo foi Garcia II, Rei de Portugal e da Galiza, ainda que por um curtíssimo período, no ano de 1071:

H. R. DOMINUS GARCIA REX PORTUGALLIAE ET GALLECIAE

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Afonso, O Conquistador | de Maria Helena Ventura 

SINOPSE

Esta é a história de um homem, do seu sonho e do nascimento de uma nação.

Tem nas suas mãos um romance épico: a vida de D. Afonso Henriques. Recorrendo a uma meticulosa pesquisa histórica, Maria Helena Ventura transporta-nos para o século XII e envolve-nos com as paisagens, culturas e figuras dessa época distante. No centro da acção está Afonso Henriques, o primeiro homem a sonhar Portugal, e que tornou esse sonho realidade com golpes de espada, traições familiares, intrigas religiosas e muita determinação.

Afonso chegou até nós como um homem sem medo, vencedor de batalhas impossíveis, líder na frente de combate e na frente diplomática. Mas Maria Helena Ventura vai mais longe e apresenta-nos um homem que faria as delícias de Maquiavel: astuto como poucos e sem escrúpulos sempre que necessário. E também um homem apaixonado pela vida, pelos filhos – fossem eles legítimos ou bastardos – e até pela mulher, que finalmente aprendeu a amar.

Amadurecendo de príncipe impulsivo para soberano ponderado, no fim da vida Afonso deixa-nos um território um pouco diferente daquele que temos hoje em dia. Sem ele não haveria Portugal nem língua portuguesa, e nunca as caravelas com a cruz de Cristo teriam partido em busca de novas paragens nem Camões cantado Os Lusíadas.

Biografia

Maria Helena Ventura nasceu em Coimbra, terra de toda a família materna. Mantém ainda uma profunda ligação afetiva ao Porto, de onde o pai era natural, e a Lisboa, para onde veio no final da adolescência, onde se licenciou e fez o Mestrado em Sociologia da Cultura. Vive no concelho de Cascais. É membro da IWA – International Writers and Artists Association, Sociedade de Geografia de Lisboa e Associação Portuguesa de Escritores. Tem dezanove títulos publicados, até ao momento: sete de poesia, onze de ficção (romance) e um título de literatura infantil, além de trabalhos académicos nas áreas da Sociologia da Educação e da Cultura.

Cette expérience valide la théorie de la relativité d’Einstein

En 2019, l’observation du trou noir supermassif situé au centre de notre galaxie permet de tester une nouvelle fois la théorie de la relativité générale publiée en 1915.

Que se passe-t-il lorsqu’une étoile passe près d’un trou noir supermassif ? Elle offre aux astronomes l’opportunité de tester les théories d’Einstein.

En observant le comportement d’une étoile tournant autour du trou noir situé au centre de notre galaxie, les scientifiques ont confirmé que le champ gravitationnel intense de ce mystérieux objet cosmique avait un effet sur la lumière stellaire, retardant considérablement le voyage dans l’espace de ses visiteurs. Cette observation est le meilleur moyen de tester une prédiction clef de la théorie de la relativité générale d’Einstein, qui suggère que la lumière perd de l’énergie lorsqu’elle a du mal à se déplacer à travers un champ gravitationnel extrême.

https://www.nationalgeographic.fr/espace/2019/07/une-nouvelle-experience-valide-la-theorie-de-la-relativite-deinstein?fbclid=IwAR2TFJfnqynJTl41SW2g5ZZoxvnxNgGnJRsMba4BeHa5wo-B3N5xaHWuO3w

Insubstituíveis e heróis circunstanciais | Carlos Matos Gomes

Jorge Sampaio deixou um exemplo. Um exemplo de santidade ou martírio? Não: um exemplo de decência!

Os cemitérios estão cheios de insubstituíveis. É uma frase feita para querer significar que nem nos devemos dar demasiada importância, nem aos outros, porque o mundo seguirá a sua marcha, independentemente dos nossos trabalhos, preocupações e esforços.

A frase é feita e, como falácia, contem verdade e não a verdade. A questão não é a dos insubstituíveis. A questão é a de que não existimos para nos substituir uns aos outros, mas sim para nos continuarmos, seja por evolução, seja por rutura. Nesse sentido, somos como os corredores de estafetas: tem de existir alguém que, terminado o nosso percurso, pegue no testemunho e prossiga a prova. Ou que parta para outro destino e por outra pista!

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O Alentejo, por Miguel Torga

Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora. Os espasmos irreprimíveis da outra, demasiado instintivos e afirmativos, não lhe permitem uma meditação construtiva e harmoniosa. E compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascesse a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo. Só daquelas ondas de barro, que se sucedem sem naufrágios e sem abismos, se poderia partir com confiança para as verdadeiras. Enquanto a nação andava esquiva pelas serras, ninguém se atreveu a visionar horizontes para lá da primeira encosta. Mas, passado o Tejo, a grei foi afeiçoando os olhos à grande luz das distâncias, e D. Manuel pôde receber ali a notícia da chegada de Vasco da Gama à Índia.

Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.

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É JÁ ALI … | Autor desconhecido | Retirado do Facebook, Mural de Carlos Fino

(Via José Branco, a quem agradeço – Carlos Fino)

“Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.

Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.

Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar… E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.

Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado.”…

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SOCIAL DEMOCRACIA | Estado de bem-estar social | Otto von Bismarck | John Maynard Keynes

O Estado de bem-estar social, ou Estado-providência, ou Estado social, é um tipo de organização política, económica e sócio-cultural que coloca o Estado como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda a vida e saúde social, política e económica do país, em parceria com empresas privadas e sindicatos, em níveis diferentes de acordo com o país em questão. Cabe, ao Estado de bem-estar social, garantir serviços públicos e proteção à população, provendo dignidade aos naturais da nação.

O Estado de bem-estar social moderno nasceu na década de 1880, na Alemanha, com Otto von Bismarck, como alternativa ao liberalismo económico e ao socialismo.

Pelos princípios do Estado de bem-estar social, todo indivíduo tem direito, desde seu nascimento até sua morte, a um conjunto de bens e serviços, que deveriam ter seu fornecimento garantido seja diretamente através do Estado ou indiretamente mediante seu poder de regulamentação sobre a sociedade civil. São as chamadas prestações positivas ou direitos de segunda geração, em que se inclui gratuidade e universalidade do acesso à educação, à assistência médica, ao auxílio ao desempregado, à aposentadoria, bem como à proteção maternal, à infantil e à senil.

Os apoiantes demonstram como exemplo de sucesso na adoção integral do Estado de bem-estar social a experiência de países nórdicos. Por outro lado, críticos alegam que pode haver compreensão equivocada do funcionamento do Modelo nórdico, e que os defensores do Estado de bem-estar social em outros lugares tentam copiar apenas os direitos e não as obrigações implementadas por aqueles países. De todo modo, os dados frios nórdicos, oriundos de nações que adotaram o sistema corretamente, independentemente de apoiadores onde o modelo não foi adotado por completo, mostram eficiência desse modelo de dignidade universal refletida em seu IDH, que, ao contrário do senso comum, não elimina a possibilidade de enriquecimento, apenas diminui a miséria quase por completo com distribuição de recursos e de renda realizadas sob regras reforçadas, objetivando mera dignidade para todos.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_de_bem-estar_social

Nas fotos: John Maynard Keynes | Otto von Bismarck

SHAKESPEARE E OS BEATLES | Livro de José Roberto de Castro Neves | texto de Alberto Bombig, O Estado de S. Paulo

O que Shakespeare e os Beatles têm em comum? Mais do que você imagina. Livro de José Roberto de Castro Neves encontra convergências e propõe reflexões acerca desses gigantes da cultura inglesa e mundial

Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021

É longa e sinuosa a estrada do tempo (quase 400 anos) que separa William Shakespeare dos Beatles e há mais mistérios no caminho do que pode sonhar a nossa filosofia. Desfiladeiros da alma, paraísos artificiais, rios de lágrimas, poços profundos de sabedoria e um mar de alegrias compõem a paisagem. O ticket para embarcar ou a licença para dirigir? Ter coragem de encarar a questão que desde a virada do século 16 para o 17 motiva os viajantes destemidos e intriga a humanidade: to be or not to be(atles)?

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A ORIGEM DO MEDO | Pedro Adão e Silva

Porventura, se optasse por examinar, por exemplo, o que é que permitiu a Marcelo Rebelo de Sousa, sendo de direita, vencer eleições com amplas maiorias, perceberia que as vitórias sustentáveis não se constroem a partir do ressentimento social, de polarizações artificiais ou de batalhas culturais fictícias. Tudo fatores que, enquanto descentram o debate público da discussão de alternativas, promovem um entrincheiramento que degrada a capacidade de compromisso.

Pedro Adão e Silva  | Jornal Expresso 03-09-2021

SINAIS DE BARBÁRIE | Massacre do Triunvirato | Pintura de Antoine Caron | por Vítor Serrão

A História da Humanidade poderia ser contada seguindo o rol sangrento das atrocidades cometidas contra os «outros». É um ciclo ininterrupto e, hoje, com crescente refinamento na maldade: os homens, sejam alienados, incultos, insensíveis, tomados pela cobiça pessoal ou seguindo a febre das massas, enfrentam aquilo que desconhecem e temem como legitimação para as suas intolerâncias e preconceitos e, no extremo, justificação dos massacres que praticam ou toleram…

Sempre me impressionou a crueldade descrita numa pintura de Antoine Caron (1521-1599), maneirista francês ligado à Escola de Fontainebleau que viveu a sinistra noite de St Barthélemy, no seu ‘Massacre do Triunvirato’ (1566), exposto no Musée du Louvre.

Também a História da Arte poderia ser contada através da miséria das guerras e da refinada crueldade contra os indefesos: será esse, afinal, o seu maior papel ? Como perguntava em 1547 o atormentado pintor florentino Jacopo Pontormo (na célebre parangona de Benedetto Varchi sobre a superioridade das artes: seria a Pintura superior à Escultura, ou vice-versa ?), que Deus inepto é este que criou de tão vil barro estas criaturas que somos ?

Só os artistas (e só por vezes) superam essa inépcia ao tocarem as asas do sublime: na música, na poesia, na literatura, na pintura — no humanismo… Por isso também, o poeta Sidónio Muralha (1920-1982), em ‘A Viagem dos Argonautas’, escalpelizava estes «selvagens gnomos que nós fomos — e somos», que querem ir a Marte buscar a sobrevivência da espécie não cuidando antes da paz e da harmonia na Terra.

Retirado do Facebook | Mural de Vitor Serrão

Afeganistão | Carlos Matos Gomes

Os Javalis do Afeganistão

Sobre o que acontece no Afeganistão se poderá dizer que se cumpriu a lei de Murphy: “tudo o que puder correr mal, vai correr mal”, que poderia ter sido inspirada na Batalha de Alcácer Quibir. O que hoje correu ainda pior do que o mal começou aí por volta de 1983, com a presciência de dois vultos que o conservadorismo elevou às glórias dos seus panteões, o antigo ator americano Ronald Reagan e uma senhora inglesa de classe média baixa ressabiada com as upper class e os intelectuais, chamada Margaret Tatcher

A propósito do Afeganistão foi agora recuperada uma fotografia de 1983 em que Reagan recebe na Casa Branca uma delegação de mujahedeens, que lutavam contra a presença da URSS e o governo que esta apoiava no Afeganistão.

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OTELO E A MEMÓRIA DO PREC Público, 16.08.2021 | Elísio Estanque

Vivi esse período de forma intensa como grande parte dos portugueses da minha geração. Assim, e porque a historia dos acontecimentos é conhecida, talvez se possa agora acrescentar conhecimento sobre o PREC e Otelo Saraiva de Carvalho recorrendo a uma perspetiva subjetiva, vinda do seio da multidão, mas enquadrada pelo exercício de reflexão e autocritica à distância de quatro décadas.

Foi Otelo e o MFA que abriram as portas da liberdade. Mas foi ao longo daqueles meses de brasa que se seguiram ao 25 de Abril, que a revolução se desencadeou. Os sonhos libertários irromperam das esquinas mais recônditas dos bairros operários, das fábricas industriais, dos amontoados de barracas onde os esgotos eram ainda a céu aberto, etc. Foi para aí que convergiram os mais diversos grupos de ativistas espontâneos, os setores sociais mais inquietos, em especial os jovens, alguns ainda sob a influência do Maio de 68 e dos movimentos estudantis da década anterior. Por detrás da linguagem polarizada da “classe contra classe” (democracia contra fascismo, ricos contra pobres ou operários contra a burguesia) ocorreu uma autêntica “fusão de classes”, quando o radicalismo de classe média rompeu com os valores pequeno-burgueses para abraçar a causa operária e popular. Uma força imparável de invenção criativa brotou dessa comunhão interclassista capaz de vislumbrar o paraíso debaixo das ruas insalubres dos bairros da periferia. Uma torrente de gente feliz, igualitária, unida em torno de projetos verdadeiramente emancipatórios como o dos “índios da Meia-Praia” (em Lagos) celebrizado pela conhecida canção do Zeca Afonso. Apesar da incipiente cultura democrática, a democracia nunca foi tão efetiva, não apenas pela mobilização coletiva mas até pelo envolvimento direto das Forças Armadas (MFA) numa dinâmica de «bottom-up», de que é exemplo o projeto SAAL.

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Da política internacional | José Maltez

O problema das análises de política internacional do nosso tempo é perdermos a noção de tempo, ao dizermos que os talibãs são medievais. Não são. São dos finais do século XX. As palas da visão ocidental da história como uma linha de caminho de ferro, como passagem do medieval para o moderno e deste para o contemporâneo é pura treta. Felizmente, a humanidade viveu fora das balizas de 476, queda de Roma, e de 1453, queda de Bizâncio. Maomé é mais moderno do que Cristo e o meu povo ibérico foi o primeiro a provar que a terra era redonda. Armilámos.

Retirado do Facebook | Mural de José Maltez

Reflexão do Presidente da Associação 25 Abril | VASCO LOURENÇO

O falecimento do Otelo, as diversas reacções ao mesmo, um debate que tive com o Mário Tomé, levam-me a algumas reflexões, sobre o posicionamento do MFA, nomeadamente no que diz respeito à sua intervenção na vida política no pós 25 de Abril. 

Muitos me aconselham a que “não vale a pena”, “não ganhamos nada com isso”, as ideias estão formatadas e formadas”, “a História nos dará razão e fará justiça”. 

Tudo bem, mas sou dos que consideram que, se nos calarmos, outros farão a História. Por isso, insisto em recordar alguns factos, mesmo que acompanhados de desabafos pessoais. Confio que me compreendam.

REFLEXÃO

Antes de mais, realço o posicionamento global que, constituindo o objectivo que nos uniu, seria também o que faria com que os que a ele se mantiveram fiéis fossem os que conseguiram sair vencedores das divisões em que nos envolvemos: falo da firme determinação em criar condições para que fossem os portugueses a decidir sobre o seu futuro. 

Posicionamento que, como sabemos mas vale a pena relembrar, estava plasmado –  de forma clara, precisa e concisa, como é timbre dos militares – no Programa do MFA (mesmo depois de alterado pela pressão de António de Spínola).

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Em defesa do ano 1975 e desmontando o ataque miserável e cobarde a Otelo | Liquidar Abril e a esquerda militar revolucionária | Manuel Duran Clemente

«Apenas – Otelo,e não só – evitou uma possível guerra civil. O falecido camarada Diniz Almeida, nunca compreendeu o papel de Otelo, nesse dia, e ficou desde sempre agastado com ele e com Vasco Lourenço. Nunca mais pôs os pés na Associação 25 de Abril, ficou muito chocado com o acontecimento e proferiu palavras amargas debaixo duma pressão inicial e mágoa por ter sido preso injustamente. Este estado de espirito ao longo dos anos e para sempre. Não perdoou aos que fabricaram o inventado golpe de 25 de Nov.  Nunca quis discutir o caso.Retirou-se do meio militar de forma radical. Respeita-se. Paz aos dois falecidos. Honra ao que fizeram e participaram na conquista da Liberdade. Os acontecimentos são bastante mais complexos e este aproveitamento é pouco sério. Ainda hoje e aqui tentarei explicar o que se passou,evitando uma provável guerra civil, e como foi decisiva a intervenção de Rosa Coutinho,Martins Guerreiro,Carlos Contreiras,José Emilio,Costa Martins, Comandante dos Fuzileiros …e outros . Otelo recusou um banho de sangue que seria provável se os Fuzileiros (como se propuseram) atacassem os Comandos. Como sabemos não houve nenhum golpe de esquerda nem de direita. Sim um aproveitamento da saída dos paraquedistas em litígio com o seu CEMFA.

 Leiam o livro “A Resistência” de Gomes Mota/1976. Ele explica as acções do grupo dos nove. Otelo não era desse grupo.» 

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30 de Junho de 1934: “Noite das facas longas” na Alemanha nazi.

30 de Junho de 1934: “Noite das facas longas”, na Alemanha nazi. Adolf Hitler, Goering e Himmler ordenam a morte dos dirigentes da tropa de choque SA.

A partir de 24 de março de 1933, o “Reichstag” (Parlamento alemão) aprova a chamada “lei dos plenos poderes”, dando a Adolph Hitler uma autoridade ditatorial. Estes primeiros anos no poder serão cruciais para o ditador estabelecer a sua autoridade e rodear-se de colaboradores leais. Em todas as províncias são instalados governadores do Reich e são drasticamente limitadas as liberdades democráticas. A nível social, a influência nazi começa igualmente a estender-se; não há, a partir de então, associação, profissão, emprego oficial, jornal ou empresa que não estejam integrados na linha omnipotente do partido. Ocorrem, também, os célebres pogroms contra os judeus.

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Cathédrale du Sacré-Cœur d’Alger

La cathédrale du Sacré-Cœur d’Alger, construite à partir de 1956, est devenue la nouvelle cathédrale d’Alger après que la cathédrale Saint-Philippe d’Alger eut été réhabilitée à sa vocation d’origine comme mosquée après l’indépendance puisqu’une mosquée se fut effondrée sur une petite partie de la parcelle sur laquelle la cathédrale avait été édifiée. Elle eLa cathédrale du Sacré-Cœur d’Alger, construite à partir de 1956, est devenue la nouvelle cathédrale d’Alger après que la cathédrale Saint-Philippe d’Alger eut été réhabilitée à sa vocation d’origine comme mosquée après l’indépendance puisqu’une mosquée se fut effondrée sur une petite partie de la parcelle sur laquelle la cathédrale avait été édifiée. Elle est l’église cathédrale de l’archidiocèse d’Alger.

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Caso Angoche, mistério por decifrar | Carlos Vale Ferraz | por Eduardo Pitta

Cinquenta anos passados sobre o Caso Angoche, mistério por decifrar, Carlos Vale Ferraz (n. 1946) deu à estampa «Angoche — Os Fantasmas do Império». Vale Ferraz, pseudónimo literário do coronel Carlos Matos Gomes, na dupla qualidade de oficial do Exército e de investigador de História contemporânea, sabe do que fala.

Oficialmente, os factos são estes: no dia 24 de Abril de 1971, entre as cidades de Quelimane e da Beira, na costa de Moçambique, foi avistado à deriva, com fogo na ponte de comando e na casa das máquinas, o navio de cabotagem Angoche, que transportava material de guerra, treze tripulantes negros, dez tripulantes brancos, um passageiro e um cão. O alerta foi dado no dia 27 pelo petroleiro Esso Port Dickson, com pavilhão do Panamá, continuando por esclarecer o hiato de três dias. Nunca foram encontrados corpos, desconhecendo-se o destino de quem ia a bordo. O Angoche foi rebocado para a baía de Lourenço Marques, onde chegou a 6 de Maio. Mais vírgula menos vírgula, dependendo do jornal ou das fontes “autorizadas”, é aquilo a que a opinião pública tem direito desde 1971.

Há especulações e perguntas para todos os gostos. O Angoche foi atacado? Por quem? Foi vítima de golpe da ARA ou da FRELIMO? Submarino russo ou chinês? Que papel tiveram os serviços secretos sul-africanos? O que aconteceu aos 24 homens? Foram para a Tanzânia? Por que razão o radiotelegrafista se “esqueceu” de embarcar, ficando em Nacala? Que papel tinha na história a mulher de alterne “suicidada” na Beira?

Sobre o assunto existe bibliografia documental, mas «Angoche — Os Fantasmas do Império» é um romance. A fórmula permite a Carlos Vale Ferraz inserir a intriga ficcional nos interstícios dos factos. E faz isso muito bem.

«Angoche — Os Fantasmas do Império» é dedicado «a quem morreu por saber de mais sobre o caso. Mortos por uma causa que ninguém teve a coragem de assumir.»

Para desenvolver o plot, o narrador apoia-se nos conhecimentos do “tio Dionísio”, oficial da Marinha portuguesa com ligações aos serviços secretos sul-africanos. Narrativa aliciante, faz o retrato dos últimos anos da colonização, vistos a partir de Moçambique. Por exemplo, é muito curiosa a caricatura a traço grosso de alguma burguesia de Lourenço Marques (Eduardo de Arantes e Oliveira, governador-geral de Moçambique à data do caso Angoche, surge mais de uma vez), os atritos entre a PIDE e os militares, etc. A sombra da operação Alcora — aliança militar secreta entre Portugal, a África do Sul e a Rodésia — perpassa no relato. Em suma, 170 páginas de boa ficção sobre factos obscuros da guerra colonial.

Lembrar que da obra ficcional de Carlos Vale Ferraz faz parte «Nó Cego» (1982, reeditado em 2018), título incontornável da bibliografia sobre a guerra em Moçambique.

Retirado do facebook | Mural de Eduardo Pitta

CAMÕES TEM DE SER LIDO – NÃO INVENTADO | Helder Macedo

Poeta, ensaísta, romancista, Helder Macedo é professor catedrático emérito da Universidade de Londres King’s College, onde foi titular da Cátedra Camões até 2004. Iam já longe os tempos do Café Gelo, grupo de que foi um dos poetas fundadores. Nasceu – na África do Sul, em 1935 – não para secretariar a musa pomposa, pedante. O autor de “Tão Longo Amor Tão Curta a Vida” (2013) passa ao largo do convencionalismo, do estereótipo e das “mitificações rectrospectivas”. Tem provado que o discurso académico pode ser claro sem perder a densidade nem tropeçar no comum lugar tradicional.

Com Camões, que tem sabido desalojar do pedestal mítico, tem mantido um trato próximo, íntimo. Se no campo do ensaio essa presença é manifesta, quase avassaladora, já na sua ficção o vate surge de modo mais discreto, ora em títulos e epígrafes onde marca o seu lugar tutelar, ora em fugazes aparições textuais sempre significativas.

As contas nem sempre são redondas como seixos e há as que nem se deixam fazer: incontáveis anos de leituras continuadas; mais de três dezenas de estudos sobre Camões, de fôlego variável e a mesma fluência, publicados em várias línguas; 23 anos a dirigir a Cátedra Camões no King’s College; mais de 50 anos de vida literária; viagens infindas à roda da literatura portuguesa, com paragens meditadas em D. Dinis, Camões, Bernardim Ribeiro, Camilo, Cesário, Pessoa. Para Helder Macedo todos os dias são dias de Camões. Sabe, no entanto, que o 10 de junho é o dia mais propenso à canibalização de Camões pelos discursos.

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10 DE JUNHO – DIA DE CAMÕES | Deixem ir o amador à coisa amada | Manuel S. Fonseca

Este texto foi uma encomenda. Escrevi-o com muito gosto e com um descaramento que se baseia numa ideia simples: os poetas, os pintores, os romancistas devem ser falados, interpretados e comentados pelos seus leitores, mesmo por aqueles que, como eu, só como amadores os comentem. Recupero-o neste 10 de Junho de 2021.

Os amadores, na sua exaltada e infantil incompetência, nunca dispensarão os especialistas. Os amadores são como as criancinhas que um tolerante Cristo deixa vir a si. Mas mal do especialista que não deixe, magnânimo, sentarem-se os amadores aos pés da coisa amada.

saiba o mundo de Amor o desconcerto,

que já coa Razão se fez amigo,

só por não deixar culpa sem castigo.

O Século de Camões | Manuel S. Fonseca

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Quando os senhores são genocidas | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

O que aqui havia de novo não era a destruição, a escravatura ou sequer a desumanização das vítimas, era simplesmente a aceleração da ganância.

Há um triângulo entre o filme Apocalypse Now (1979), de Francis Coppola, o livro em que se inspira, O Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad, e outro que volta ao mesmo cenário de barbárie, O Sonho do Celta (2010), de Vargas Llosa, que conta a história da história. Coppola filmou a expedição que sobe o rio vietnamita para matar Kurz, um oficial escondido na selva; Conrad, a partir da sua própria experiência como capitão de navio de transporte de marfim no Rio Congo, tinha contado a busca por Kurz, um dos responsáveis pela empresa exploradora e que se perdera algures a montante. Ao entrar “na boca do grande rio”, o capitão Charles Marlow abandona a comodidade das aparências, em que se vive sem remorso a riqueza colonial. “Antes do Congo eu era só um animal”, diz o escritor, que depois descobriu a imensidão do território do horror (o seu livro foi décadas depois criticado por despersonalizar a população africana, a vítima que fica silenciosa). Não há guerra, não há deus, não há humanidade nessa selva, só há crueldade sem limite. A industrialização da morte foi um êxito da modernidade, quando os cavalheiros enriqueceram sobre pilhas de escravos.

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Angoche | Os fantasmas do império | de Carlos Vale Ferraz

SINOPSE

Nacala, 23 de abril de 1971. Um navio da Marinha mercante portuguesa parte desse porto moçambicano com destino a Porto Amélia (hoje, Pemba). A bordo leva a tripulação e um civil, num total de vinte e quatro almas, bem como um importante carregamento de material de guerra destinado ao Exército português no Ultramar. No dia seguinte, de madrugada, um petroleiro encontra esse mesmo navio, de seu nome Angoche, à deriva, incendiado e sem ninguém a bordo, como se de um navio-fantasma se tratasse.
De imediato, a PIDE/DGS abre um inquérito. Os relatórios iniciais mencionam duas explosões, e as teorias para o que aconteceu surgem em catadupa. Não faltam presumíveis culpados a quem apontar o dedo, mas não há provas. Para adensar o mistério, na noite do desaparecimento do Angoche, uma portuguesa, que trabalhava num cabaré da cidade da Beira e é tida como amante de um oficial da Marinha, cai de um edifício. Suicídio ou assassinato, as circunstâncias da sua morte nunca são verdadeiramente esclarecidas, e a dúvida paira…
Depois do 25 de Abril, os relatórios da PIDE/DGS desaparecem. A carcaça do navio, ancorado no porto de Lourenço Marques, acaba por ser afundada. Se testemunhas houve, não falam.
Estes são os factos. A partir deles, Carlos Vale Ferraz constrói um romance puramente ficcional, embora essencial e certeiro, sobre moralidade e heroísmo; e onde se demonstra como a imagem de um país se pode construir, não de verdade e justiça, mas da glorificação dos seus mais vergonhosos feitos.

Angoche – Livro – WOOK

Napoleão: foi em Portugal que começou a queda

Cumprem-se hoje 200 anos sobre a morte de Napoleão Bonaparte, o homem que veio da obscuridade, subiu às culminâncias, fez-se Imperador dos Franceses e morreu degredado numa ilha semi-desértica do Atlântico Sul.

Há um culto popular em torno de Napoleão e do 1.º Império, adesão que não se confina ao hexágono. Há estátuas e bustos celebrativos de Napoleão um pouco por todo o mundo e na Bélgica, Holanda, Itália, Canadá, Estados Unidos e México, activas associações de estudos incensam, entre a lenda e a realidade, a personalidade de Napoleão. Este sobrevive ao tempo, os seus aforismos, a petite histoire das suas paixões e anedotário são património comum, até das pessoas que não lêem; a sua aventura, das escarpas escalvadas da Córsega aos campos de Waterloo, da sagração a Santa Helena, surgem como irresistíveis histórias quase tocadas pelo fabuloso. Napoleão não deixa ninguém indiferente. A passagem pela história europeia de um homem desses, que se afirmava expoente da razão e em quem outros viram a história montada sobre um cavalo, continua a ser uma bela história.

Em 1809 e 1810 em Portugal, em 1812 na Rússia e em 1815 em Waterloo, a estrela de Napoleão empalideceu, congelou e estilhaçou-se. A derrota do Ogre, do Anti-Cristo, do Crocodilo Corso, da Besta Monstruosa, Novo Átila ou simplesmente Bonny para os britânicos – então satirizado como tronco de couve decepada, bilha partida, boneco esventrado – também convidava a interpretações providencialistas e dos desígnios de Deus, mudo desde 1789, em vão confiante no arrependimento dos homens, até finalmente se pronunciar, castigando aqueles que Dele se haviam afastado.

Entre o mito e a lenda, a propaganda e a caricatura, importa fazer a pergunta fatal. Quem derrotou Napoleão? Ora, Portugal, a Rússia e a sempre teimosa Inglaterra. Portugal foi o primeiro grande fracasso político e militar do Imperador. Há que lembrá-lo, sempre, pois, a quantos pensam [erradamente] que aquela partida da Família real para o Brasil foi um acto de cobardia. Não, se a família real portuguesa tivesse caído nas mãos de Junot, não teria havido resistência popular, heróica e desesperada, assim como não teria havido o levantamento nacional espanhol e a invasão de França pelos exércitos coligados. Se portugueses e russos não o tivessem detido, Napoleão teria triunfado e o curso da história teria sido diferente.

MCB in Nova Portugalidade

O esquecido papel de Napoleão na escravidão

No bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, celebrado por muitos na França como herói, discute-se um lado pouco lembrado de seu legado: em 1802, ele restabeleceu a escravidão, oito anos após ser abolida pelo país.

Como parte das comemorações do bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, que se completa nesta quarta-feira (05/05), o centro cultural Grande Halle de la Villete, em Paris, está apresentando uma grande exposição sobre o ex-imperador francês. Ela será aberta ao público assim que as restrições de covid-19 forem levantadas e poderá ser visitada até 19 de setembro de 2021.

Em meio a 150 objetos que incorporam a deslumbrante grandeza do ex-imperador francês – “uma figura que é, ao mesmo tempo, fascinante e controversa”, como diz o trailer da exposição –, uma seção da exibição foca, no entanto, um lado mais sombrio de seu legado.

Ela apresenta as cópias originais das leis assinadas por Napoleão em 1802, que reverteram a abolição da escravidão que havia sido anunciada oito anos antes, na esteira da Revolução Francesa. Essa legislação fez da França o único país a ter realmente reintroduzido a escravidão após torná-la ilegal.

“Quando se ouve falar sobre Napoleão, a maioria das pessoas pensa no grande império e nas muitas vitórias da França durante as guerras daquela época. Esta glória sobre Napoleão ofusca tudo mais o que ele fez”, diz Dominique Taffin, diretora da Fundação para a Memória da Escravidão, em entrevista à DW. “Decidimos que era necessário aumentar a conscientização sobre essa parte sombria de seus atos para um público mais amplo.”

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Quando Rio, Santos, Ventura e Figueiredo se encontram num salão | Francisco Louçã in Jornal Expresso

É uma festa, que promete nada mais e nada menos do que abundar sobre a “reconfiguração social, política e económica para as próximas décadas”, nas vésperas da inauguração do congresso do Chega, que foi apontada para o faustoso dia 28 de maio. A caminho destas décadas tão prometedoras, a convenção do MEL junta os chefes dos quatro partidos da direita, os recentemente chegados encerram as manhãs, os que têm mais pedigree encerram os dias (Rio faltou no ano passado, vai este ano ser a estrela da companhia). Acrescenta-se a aristocracia do Observador, que veio em peso, José Manuel Fernandes, Rui Ramos e Helena Matos, mais alguns cronistas avulsos (e que injustiça esquecerem os do Sol), um painel dos notáveis do PS que são parceiros deste mundo, Luís Amado, Sérgio Sousa Pinto, Álvaro Beleza, mais um ex-governante PS que era do PSD e retornou ao PSD, Nogueira Leite, também Henrique Monteiro, não podia faltar, e mais algumas glórias laranjas, Joaquim Sarmento, Miguel Morgado e Poiares Maduro, desta vez Montenegro foi esquecido, e do CDS, Paulo Portas. Há ainda uma feira de extravagâncias: o representante dos hospitais privados, Óscar Gaspar, ou Camilo Lourenço, que escreve sobre a “deriva bloquista de Vítor Gaspar” e do FMI, lá se irão explicar ao Centro de Congressos. Numa palavra, está toda a gente que devia estar e, em vez de notarem com surpresa esta confraternização, os analistas deviam saudar o acontecimento, do qual resulta um interessante sinal convivial. Quanto mais juntos melhor, quanto mais falarem melhor.

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Faltam 2 dias para o mais belo de todos os dias | Carlos Esperança

Faltam 2 dias para o mais belo de todos os dias (texto reeditado)

Há quem, antes, não tivesse precisado de partido, quem não sentisse a falta da liberdade, quem se desse bem a viver de joelhos e a andar de rastos.

Houve cúmplices da ditadura, bufos e torturadores, quem sentisse medo, quem estivesse desesperado, quem visse morrer na guerra os filhos e nas prisões os irmãos, e se calasse. Houve quem resistisse e gritasse. E quem foi calado a tiro ou nas prisões.

Uns pagaram com a liberdade e a vida a revolta que sentiram, outros governaram a vida com a vergonha que calaram.

Houve quem visse apodrecer o regime e quisesse a glória de exibir o cadáver e a glória da libertação. Viram-se frustrados por um punhado de capitães sem medo, por uma plêiade de heróis que arriscaram tudo para que todos pudéssemos agarrar o futuro.

Passada a euforia da vitória, ninguém lhes perdoou. Os heróis da mais bela revolução da História e agentes da maior transformação que Portugal viveu são hoje proscritos e humilhados por quem lhes deve o poder.

Uns esqueceram os cravos que lhes abriram a gamela onde refocilam, outros reabilitam os crápulas que nos oprimiram, outros, ainda, sem memória nem dignidade, afrontam o dia 25 de Abril com afloramentos fascistas e lúgubres evocações do tirano deposto.

Perante os ingratos e medíocres deixo aqui a TODOS os capitães de Abril o meu eterno obrigado.

Não quero saber o que fizeram depois, basta-me o que nesse dia fizeram.

Obrigado a todos. Aos que partiram e aos que estão vivos. Por cada ofensa que vos fazem é mais um pedaço de náusea que provocam.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

SONDAGEM EXPRESSO/SIC | 23-04-2021

SONDAGEM DO ICS/ISCTE PARA A SIC E O EXPRESSO


PS – 37%, PSD – 29%, BE – 9%, CDU – 7%, CH – 6%, PAN – 2%, CDS – 1%, IL – 1%


1) A Direita continua em minoria;


2) o PS continua longe da maioria absoluta;


3) o BE e a CDU sobem;


4) o CHEGA desce (e é ultrapassado pela CDU).

ESQUERDAS = 37 + 9 + 7 + 2 = 55%
DIREITAS | Sociais-democratas, Conservadores, Centristas, Liberais e Extrema-Direita = 29 + 6 + 1 + 1 = 37%

MOÇAMBIQUE A URGÊNCIA DE AGIR Paulo Sande

Há alguns meses escrevi e partilhei um texto sobre Moçambique, mais particularmente sobre o norte de Moçambique, a pedir ao governo – e a quem tem poder para isso, neste Mundo de poderes múltiplos em que o mais poderoso, quiçá, é o do dinheiro – que interviesse com urgência para proteger e mitigar o sofrimento dos nossos amigos. Dos nossos irmãos moçambicanos.

Desde então, piorou a situação e nada de intervenção (a cacofonia, para os menos sensíveis à sinestesia, é propositada). Só notícias, mais notícias, sobre crianças decapitadas e outras bonomias.

O horror é o horror é o horror. Claro que à distância e praticado sobre gente miserável que nada tinha e a quem, imagine-se, até esse nada foi tirado, é tudo mais confortável e choramos, com denodo e sinceridade, lágrimas de crocodilo. “Coitados”, e segue a dança.

Conheço bem os argumentos que se opõem a uma ação mais firme por parte de Portugal ou os dos que a consideram impossível ou inútil. Eis alguns deles e a resposta possível.

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Olivença é um tesouro patrimonial e cultural, mas também moral, humano e espiritual | JOSÉ RIBEIRO E CASTRO | JUAN MIGUEL MÉNDEZ

Se há quem tenha apostado com verdadeiro zelo pela aproximação entre Espanha e Portugal, tendo Olivença como ponto de encontro, esse é José Duarte de Almeida Ribeiro e Castro (Lisboa, 1953) Advogado português de longa carreira política e social desde o nível municipal ao nível comunitário, ao ter sido membro do Parlamento Europeu. A sua figura tem sido fundamental para que os Oliventinos hoje também possam adquirir a nacionalidade portuguesa. HOY Olivenza faz em exclusivo um balanço com o Dr. Ribeiro e Castro da sua experiência institucional e da sua relação com Olivença.

– Lembra-se quando foi a sua primeira visita e como se sentiu quando conheceu Olivença?

– Foi no final de 1974. O meu pai viveu em Badajoz durante algumas semanas e eu ia estar muitas vezes com ele. Numa dessas visitas, aproveitei para dar uma saltada a Olivença. Vi, gostei, respondi à minha curiosidade, mas não senti nada de especial. Tinha 20 anos, a visita foi muito rápida. Fui sozinho, não conhecia ninguém. Na verdade, vi, mas não entendi.

Depois, no fim de 1980, vindo do sul de Espanha, em lua-de-mel, passei na estrada ao lado de Olivença, só para mostrar a minha mulher onde era. Mas nem chegámos a entrar. Vínhamos de regresso a Lisboa e não parámos. Estava muito longe de perceber e sentir o mistério e o feitiço de Olivença.

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Quadro de Honra de Abril | Carlos Esperança

Quadro de Honra de Abril – Instituições e pessoas de quem gosto

Num país onde um indivíduo cortado às rodelas por um herdeiro apressado merece mais protagonismo do que um cientista de topo, uma atleta de exceção e servidores públicos notáveis, é de elementar justiça mencionar quem apreciamos, enquanto lutas partidárias, mitómanos e fascistas procuram destruir os alicerces do Estado de direito democrático.

Militares de Abril – Sempre, grato até à morte;

SNS – Hoje e sempre;

Marta Temido – Ministra da Saúde;

Graça Freitas – Diretora-geral de Saúde;

Gouveia e Melo – Almirante, coordenador do bem-sucedido e exemplar plano de vacinação;

Médicos, enfermeiros e outro pessoal de Saúde;

Telma Monteiro – A judoca europeia mais medalhada de sempre;

Vítor Cardoso – Físico português (IST) a quem foi atribuída uma bolsa de 5,3 milhões de euros na Dinamarca para criar um grupo de investigação no Instituto Niels Bohr, da Universidade de Copenhaga, na Dinamarca, mantendo o seu grupo de investigação em Lisboa.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

A Abrilada de 1961 – Para Angola em força? Não: Para São Bento em Força! | Carlos Matos Gomes

A Abrilada de 1961 – Para Angola em força? Não: Para São Bento em Força!

Ontem, 13 de Abril, passaram 60 anos da Abrilada de 1961 – reduzida na historiografia oficial a um pronunciamento conduzido pelo general Botelho Moniz para afastar Salazar.

A RTP apresentou um apontamento sobre a efeméride, em que participei. Resultante de uma excelente entrevista de quase duas horas com a jornalista Ana Luísa Rodrigues, muito bem preparada e muito bem informada.

A efeméride bem merecia outro tratamento e a direção de informação da RTP tinha a obrigação de lho dar, porque é serviço público.

Tinha a obrigação porque em 13 de Abril de 1961 se jogou o futuro de Portugal: os 13 anos de guerra e a descolonização como ela ocorreu. Eu apresentei o meu entendimento de que Salazar poderia (e deveria) ter evitado guerra e poderia ter aberto Portugal ao exterior. Até a história de África poderia ter sido diferente se o desfecho do que aconteceu a 13 de Abril de 1961 tivesse sido outro, se a Abrilada tivesse vingado.

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Hoje atiro-me a José Sócrates. Tinha de chegar a minha vez. | PAULO QUERIDO

Certamente! Qui, 15 abril 2021: Pois mas Isaltino não tinha um apartamento de luxo em Paris.

Hoje atiro-me a José Sócrates. Tinha de chegar a minha vez.

Desagrada-me em José Sócrates a atitude face ao Partido Socialista. As instituições são maiores que as pessoas. Todas as pessoas. Isto inclui fundadores históricos e grandes conquistadores (e criminosos, acumulem ou não com outras definições). Sócrates tem todos os direitos, incluindo o de criticar o seu antigo partido. Criticar não me desagrada. Desagrada-me o modo como o faz: pessoalizando o assunto. Como se ele fosse credor e o partido devedor. Não: o partido não o serve. Ele serviu o partido. Ele, above all people, devia saber o que é um partido político e quais as regras implícitas da vida política.

Para abordar o assunto Sócrates é comum ver declarações iniciais de auto-crítica. O típico “eu até votei nele mas”. Compreende-se, embora seja errado. E corrigir este erro é um dever de cidadania. Vivemos uma época intensa em que cada palavra é um punhal ou um carinho. Por exemplo: eu regressei ao voto no PS por causa de José Sócrates. Mas fui eleitor do PS, não de José Sócrates. A distinção é importante não por qualquer tipo de demarcação — estive em comícios, ouvi Sócrates e outros socialistas, gostei das propostas e achei que ele tinha a visão e a paixão necessárias para conduzir o país e não me arrependo de ter votado nem me envergonho desse momento nem do Sócrates dessa época — mas para ficar claro o ponto principal: em eleições legislativas, votamos em programas de ação e seus executores embainhados por partidos.

José Sócrates é um cadáver político que insiste em circular como se estivesse vivo. É um passivo tóxico desprovido de auto-consciência. Fernando Medina (para minha surpresa) disse o que havia para dizer para o despertar para a dura realidade. Sócrates preferiu continuar no sono a sonhar que tem capital político. Se realmente se vê como um Lula, como decorre de comportamentos e afirmações públicas, é lamentável. Não falo da matéria processual. Comparo somente as figuras políticas. Se tivéssemos uma escala de lulismo de 0 a 10, Sócrates não passava de um 2, correspondente às doses de carisma e importância histórica. E mesmo sobre Lula há dúvidas quanto à sua importância política atual e futura. Sobre Sócrates há a certeza de que passou a capital negativo.

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A propósito dos 100 anos do PCP | O PCP e a independência das colónias | Vítor Dias in O Tempo das Cerejas

Título no «Avante! de Julho de 1961

Contam-me que, num recente debate de âmbito universitário sobre os 100 anos do PCP, um historiador voltou a menorizar o papel do PCP na luta contra a guerra colonial preferindo atribuir uma maior coerência nessa luta a sectores católicos e de extrema-esquerda.

Sobre o assunto, entendo sublinhar o seguinte :

1. Bastaria consultar a imprensa clandestina do PCP, os seus numerosos comunicados e materiais de agitação, as emissões da Rádio Portugal Livre (que teve um enviado à guerrilha do PAIGC na Guiné-Bissau) ou ter em conta as acções da ARA contra o aparelho de guerra colonial para se concluir da completa falta de fundamento da referida menorização.

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RAPIDAMENTE E EM FORÇA | Francisco Seixas da Costa

Se acaso eu fosse democrata e adulto nos anos 40 e 50 do século passado, teria sido um orgulhoso colonialista.Como o haviam sido, desde o século XIX, os republicanos, os combatentes contra a ditadura, os anti-fascistas. Ser colonialista, ser adepto da manutenção do império colonial era um desígnio nacional, patriótico. Os republicanos puseram o país a ferro e indignação porque a “pérfida Albion” nos não deixou executar o sonho do “mapa cor-de-rosa”.

Portugal teimou, depois, em ir para a Grande Guerra para defender as suas possessões ultramarinas, as suas colónias. Cunha Leal, expoente da luta contra Salazar, era um ferrenho colonialista. Norton de Matos, antigo governador-geral de Angola, pedia meças ao ditador de Santa Comba no interesse em manter a nossa África nossa.

Nos anos 50, até o movimento descolonizador ter começado a abalar as anteriores certezas da esquerda portuguesa, as colónias eram “nossas”. Repito o que disse, com total convicção: se acaso fosse democrata e adulto nos anos 40 e 50 do século passado, teria sido um orgulhoso colonialista.

A legitimidade da “posse” colonial só começou a ser posta em causa, em Portugal, pelo PCP. Honra lhe seja! Fê-lo, naturalmente, porque a opinião de quem o guiava (leia-se, Moscovo) tinha entretanto mudado. Já havia tido lugar, entretanto, a Conferência de Bandung. A China de Mao, ainda antes do cisma sino-soviético, já tinha cheirado “l’air du temps” e pressentido que o “terceiro-mundo”, a Tricontinental, o suposto “não-alinhamento”, eram a nova fronteira de um Norte-Sul inevitável.

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Journée de la Femme | Nadia Achab

La première Journée de la femme a été introduite à l’initiative du Socialist Party of America, le Parti Socialiste d’Amérique, le 28 février 1909. En 1917, pendant la Révolution soviétique, les femmes russes choisissent le dernier dimanche de février pour faire la grève et obtenir ‘’du pain et la paix’’ ( хлеб и мир ).

La Russie soviétique est le premier pays à officialiser la Journée de la femme en 1921 et en fait un jour férié, mais non chômé jusqu’en 1965. L’événement est repris en Europe à la fin des années 1960 par la deuxième vague féministe. Il sera ensuite suivi par l’ensemble du monde. La journée internationale de la femme est l’occasion de dresser le bilan de la condition féminine dans chaque pays et à travers le monde. Les femmes manifestent pour célébrer les avancées et demander une réduction des inégalités entre les hommes et les femmes.

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O que a democracia deve ao PCP | Daniel Oliveira in Jornal Expresso

Tenta-se apagar o que existiu para escrever o que poderia ter existido. Comparam-se 48 anos de ditadura com um ano de poder na rua. Mas a democracia deve muito ao PCP. Pela duríssima luta contra a ditadura. Por, a 25 de novembro, ter evitado uma guerra civil. Melo Antunes disse que o PCP seria indispensável. Foi fundamental para um poder autárquico vigoroso, foi defensor do Estado de Direito e esteve presente em todas as lutas sociais. Quem respeita a História assume estas dívidas para com os comunistas.

resci numa família de comunistas. Interessava-me muito por política e filiei-me na Juventude Comunista Portuguesa (JCP) com 12 ou 13 anos, mal isso me foi permitido. Só de lá saí com 19 ou 20. As minhas discordâncias começaram por temas distantes: o que se passava na Polónia, a invasão do Afeganistão. Como é normal num processo inicial de politização, foram-se alargando a questões mais profundas e ideológicas. E, no confronto interno sobre estes temas, tornaram-se fatais perante as falhas formais na democracia interna. Quando uso o termo “formais”, não é para as diminuir. É que elas não são propriamente acompanhadas por ausência de debate interno. No PCP discute-se política e discorda-se. O problema é a representação dessas discordâncias. Só uns anos depois de deixar o PCP deixei de ser comunista. Só depois disso deixei de ser marxista. Tudo relativamente cedo na minha vida.

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A IMENSA ESTUPIDEZ DE QUERER DEIXAR QUIETA A HISTÓRIA E OS CRIMES DE GUERRA, DE FORMA DESONESTA E IRRESPONSÁVEL | Alfredo Barroso

Ao invés do que sugere Miguel Sousa Tavares, no semanário Expresso, nem todos os combatentes que são envolvidos nas guerras cometem ‘crimes de guerra’, nem é compreensível que os cometam, porque há leis e convenções sobre a guerra que devem ser respeitadas. Mais: não é o facto de, no pós-guerra, prevalecer inevitavelmente a ‘justiça dos vencedores’, que inibe qualquer de nós, de denunciar que também estes cometeram vários ‘crimes de guerra’, os quais, nem por serem menos abomináveis do que os cometidos pelos vencidos, deixam de ser, também, aterradores. A grande diferença é a de que nunca serão julgados pelos vencedores, e muito menos pelos vencidos…

Se porventura existe uma qualquer ‘escala’ para a abominação, direi, então, que os terríveis e abomináveis crimes de guerra cometidos pelos nazis alemães e os fascistas italianos – quer na Guerra Civil de Espanha (1936-1939) em apoio às tropas franquistas (cujo símbolo maior é, sem dúvida, o bombardeamento de Guernica, no País Basco), quer durante a II Guerra Mundial (cujo símbolo maior, para além de outras inúmeras atrocidades, é, sem dúvida, o Holocausto, no qual foram assassinados milhões de judeus e muitos milhares de ciganos, de deficientes físicos e mentais, e de políticos antinazis comunistas, socialistas e católicos) – tais crimes são hoje considerados como a contrapartida que justifica os vários ‘crimes de guerra’ cometidos pelos aliados – cujos símbolos maiores são os bombardeamentos de Dresde (na Alemanha) e de Tóquio (no Japão), em que milhares de civis morreram queimados vivos pelas bombas incendiárias, além dos horríveis massacres cometidos pelos EUA com o lançamento das duas primeiras bombas atómicas em Hiroshima e em Nagasaki (também no Japão). Há o direito de esquecer tais atrocidades?!

Sou dos que acham que não existe – nem na vida comum, nem na vida política, nem no ordenamento jurídico democrático, e muito menos na História – qualquer “direito ao esquecimento”. E até acho vergonhoso que o Tribunal Constitucional seja agora presidido por um jurista que defende esse direito – inexistente – ao esquecimento, de nome João Caupers (colega de curso de Miguel Sousa Tavares, como este referiu) e que, a meu ver, devia ser removido do próprio TC pelos juristas que o cooptaram e que, agora, o elegeram.

Tenho à minha frente Histórias da Guerra dos Cem Anos (a qual, na realidade, decorreu entre 1337 e 1453), da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), e da Guerra dos Sete Anos (1756-1763). E, desde que as li, posso afirmar que – porventura com excepção da brutal Guerra Civil Americana ou Guerra da Secessão (1861-1865) entre os do Norte (Unionistas) e os do Sul (Confederados) – a Guerra dos Trinta Anos foi, sem dúvida, a mais cruel e devastadora de que há memória, até à eclosão da I Grande Guerra (1914-1918), da Guerra Civil de Espanha (1936-1939), da II Guerra Mundial (1939-1945) e da Guerra do Vietnam (1955-1975), na qual a prática dos bombardeamentos de napalm (a que também recorreram as tropas portuguesas em África) sobre florestas, campos de cultivo e camponeses vietnamitas, foi de uso corrente pelas tropas americanas.

Tudo isto para concluir que, a meu ver, por maior que tenha sido a valentia demonstrada por Marcelino da Mata nos cenários da Guerra Colonial (1962-1974) em que actuou, se de facto cometeu os crimes de guerra de que é acusado, não me parece que deva ser considerado um ‘herói’. Do mesmo modo me custa imaginar que seja considerado um herói da II Guerra Mundial o baronete inglês conhecido como Sir Arthur “Bomber” Harris – nomeado, em 1942, comandante-chefe do ‘Bomber Command’ da Royal Air Force e promovido a Marechal do Ar – que terá sido o responsável pela morte de quase um milhão de civis alemães, em consequência dos bombardeamentos que ele planeou e ordenou sobre mais de um milhar de cidades, vilas e aldeias alemãs, sobre as quais foram despejadas um milhão de toneladas de bombas incendiárias e explosivas, que forem assim fabricadas tendo em conta os materiais inflamáveis (sobretudo a madeira) predominantes nas habitações atingidas. Da longa série de bombardeamentos constam as bombas que devastaram a cidade de Colónia, em Maio de 1942, e as que arrasaram a cidade de Dresde, em Fevereiro de 1945. Outro tanto se diga do general norte-americano Curtis Le May – que ordenou os bombardeamentos que arrasaram Tóquio com bombas incendiárias e explosivas – e do presidente dos EUA, Harry Truman – que ordenou o lançamento das duas bombas atómicas que arrasaram Hiroshima e Nagasaki. A confirmação histórica destes factos obtive-a graças à leitura de dois livros impressionantes: a “História Natural da Destruição – Guerra Aérea e Literatura” (1999), do grande escritor alemão W .G. Sebald (1944-2001); e “O Incêndio – a Alemanha sob as bombas, 1940-1945” (2002), do historiador alemão Jörg Friedrich (1944), especialista em criminalogia da guerra, quer terrestre quer aérea, investigador dos crimes cometidos pelo Terceiro Reich, o Estado nazi, e colaborador da “Enciclopédia do Holocausto”.

Só para terminar: não é sério pegar no exemplo de um deputado e ex-governante de ‘poucochinha’ envergadura e sedento de atrair sobre si as atenções – desta vez com a ideia macaca e imbecil de ‘destruir o padrão dos Decobrimentos’ – para tentar generalizá-lo, indirecta mas sugestivamente, à classe política, sobretudo à do partido a que ele pertence, o PS. É truque barato e exemplo típico da desonestidade política e intelectual do jornalismo de baixo calibre que, infelizmente, continuamos a ter em Portugal.

Campo d’Ourique, 27 de Fevereiro de 2021

Retirado do Facebook | Mural de Alfredo Barroso

CARTA DE ÁLVARO CUNHAL QUANDO PRESO NA PENITENCIÁRIA DE LISBOA | ÁLVARO CUNHAL | 6 de Outubro de 1951

Exmo. Senhor Director da Cadeia Penitenciária de Lisboa Álvaro Cunhal, preso nesta Penitenciária, vem, perante V.Exª. expor o seguinte:

1 – Foi-me hoje devolvida uma carta, que tinha escrito à minha família [1], com a indicação de não poder seguir, por conter «ciência comunista». Dada a minha surpresa e o meu pedido para me serem indicadas as passagens da carta que motivaram essa opinião e a decisão correspondente, fui esclarecido que se tratava de tudo quanto nela dizia acerca da obra de Darwin.

Embora eu soubesse o que tinha escrito e, como sempre, me tivesse esforçado (dada a minha situação) para não dizer tudo quanto penso, fui ler e reler a carta censurada. E se, ao ser-me comunicada a decisão acima referida, senti apenas surpresa, depois de nova leitura do que tinha escrito fiquei verdadeiramente perplexo.

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L’esclave islandaise | Steinunn Jóhannesdóttir | par Yacine Bouzaher

Un roman historique, ancré dans notre histoire Algérienne, celle de la régence d’Alger et des captifs esclavagisés, que beaucoup ignorent.

Bien sûr, il y a les captifs célèbres comme Miguel de Cervantes. Mais Alger, pendant des siècles, a été une ville cosmopolite sans pareille en Méditerranée. Combien, aujourd’hui, d’Algérois sont issu de ce cosmopolitisme, ignoré ou dénié. Nous avons là, un Roman avec, évidemment un point de vue, islandais. Mais comme toujours avec notre histoire, nous sommes contraints de nous servir du travail historique des autres, à déconstruire pour nous y retrouvez, puisque, pour diverses raisons, dont celle de la subjectivité idéologique, qui place sous tutelle tout travail universitaire sérieux, nous ne parvenons pas à écrire notre histoire nous-même.

Sauf, engluer dans le mémoriel plutôt que libéré par l’histoire, à l’instrumentaliser avec les révisionnismes au service de projets politiques et partisans qui n’ont strictement rien à voir avec l’histoire.

Yacine Bouzaher

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