Livros dos 500 Anos Camões-Sena | Manuel S. Fonseca, Abril 23, 2024

Os governos de Portugal lá saberão de si. E saberão, porventura, porque esqueceram ou temem vir recitar em público o «Alma minha gentil» ou esse outro verso «Que eu canto o peito ilustre Lusitano / A quem Neptuno e Marte obedeceram»!  

E, no entanto, diz-nos Jorge de Sena, explicando-nos tudo com uma arrebatadora erudição e com uma devastadora sedução, Camões é um poeta do futuro. Não o poeta do passado, anacrónico, imperial, colonial (e despejem-se aqui os ismos que se queiram), mas um poeta que transcende hagiografias nacionais e que, n’Os Lusíadas e sobretudo n’Os Lusíadas, apela a toda a humanidade. Camões é um expoente de universalidade, diz, quase nos fazendo o desenho, Jorge de Sena. 

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De tarde, naquele «pic-nic» de burguesas, Cesário Verde

Naquele «pic-nic» de burguesas,

Houve uma coisa simplesmente bela,

E, que sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão de bico

Um ramalhete rubro de papoilas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, inda o Sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas.

Cesário Verde, 1887

Notas

granzoal (v. 7): campo semeado de grão-de-bico.

malvasia (v. 12): vinho licoroso. 

Retirado do Facebook | Mural de Maria Teresa Carrapato, completado com https://folhadepoesia.blogspot.com/

OCIDENTE: por que é tão odiado? | Occident : pourquoi est-il autant haï ? L’analyse de Jean-François Colosimo

02/05/2024 | Jean-François Colosimo, éditeur et spécialiste de l’articulation de la géopolitique publie «Occident : ennemi mondial n°1» (Albin Michel), était l’invité de Vincent Roux dans «Points de Vue».

Camões por Frederico Lourenço. Verdades biográficas e verdades poéticas

05/05/2024 | Em 2024, decorre a primeira edição do FeLiCidade Festival. Tive a honra de receber o convite para participar na Abertura do Evento dando a primeira de uma série de aulas que irão decorrer ao longo de todo o Festival. O tema por mim escolhido foi Camões, não sõ por se tratar de uma imensa e avassaladora paixão minha no mundo da Literatura, mas também para homenagear este Poeta maior da nossa língua no seu quinto centenário, assinalado entre 2024 e 2025. Aqui, debruço-me sobre o tema da “verdade” na obra de Camões. Como ler e entender Camões? O que é verdade biográfica, factual; e o que é verdade poética? E como se estudou Camões no passado?

A Ética de Spinoza pode ser vista como um mapa: uma carta do mundo e da mente humana, por Marcos Bazmandegan

A Ética de Spinoza é um hipertexto. Um livro dinâmico, labiríntico, com inúmeras referências internas e quase nenhuma referência externa. Pretende ser um sistema fechado e infinito, imanente, autorreferencial.

Spinoza não remete o leitor para fora do texto, para outros autores ou obras. Continuamente remete para o próprio texto, para as definições e proposições anteriores que são premissas e pressupostos de outras proposições. A complexidade estrutural da Ética exprime a própria complexidade do universo, na sua teia de relações e afeções.

Na imagem abaixo vemos graficamente essa teia de relações que se estabelecem entre as cinco partes da Ética. Este mapa digital foi realizado por John Bagby, um estudante de doutoramento da Universidade de Boston e procura apresentar a estrutura argumentativa da Ética de Spinoza.

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