‘Quadrigrafias’: a poesia do efêmero | por Adelto Gonçalves

                                                                           I
O leitor compra um livro e leva quatro boas obras de poesia. É esta a proposta de Quadrigrafias, fruto de um projeto criado e incentivado pelo escritor e diplomata Márcio Catunda, desde 2003, que consiste na edição de livros de livros. Quadrigrafias reúne quatro obras independentes entre si: Elaine Pauvolid comparece com Silêncio-Espaço, Márcio Catunda com Dias Insólitos, Tanussi Cardoso traz Dos Significados e Ricardo Alfaya, Álbum sem Família.
            O título é alusivo aos quatro autores, suas escritas, suas visões e suas visualidades, já que a palavra grafias tanto sugere a escrita quanto as artes visuais, modalidades que cada vez andam mais próximas. Essa é a terceira coletânea de livros individuais em que os quatro autores estão juntos. As anteriores foram Rios (Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2003), e Vertentes (Rio de Janeiro, Editora Five Star, 2009).
            Em Quadrigrafias, a carioca Elaine Pauvolid (1970), poeta e artista plástica, autora também do prefácio, participa com poemas de O silêncio como contorno da mão (Selo Orpheu, 2011), revisitado, e Poemas para projetor. No primeiro poema, mostra seu interesse pelo tema do vazio, observando que “a impossibilidade da palavra em dizer completamente” constitui “o motor do fazer poético”. É o que procura dizer nestes versos em que faz um excepcional jogo de palavras: deus o silêncio abrasa / deu-se o silêncio à brasa / deus o silêncio abraça. Já em Poemas para pr ojetor, procura explorar a espacialidade dos versos no branco da página, em poemas minimalistas.
            O cearense Márcio Catunda (1957), em Dias Insólitos, faz da meditação uma força transformadora, como assinalou Ricardo Alfaya no prefácio que escreveu para esta obra.  E o faz sem se prender a modismos, deixando-se levar pela meditação e, principalmente, evocando reminiscências, como aqui nestes versos de “Poema de fevereiro” em que diz: “(…) Quisera ser aquele menino / que atravessava a Avenida Atlântica, / na década de 70. / Ir à praia, com o mesmo entusiasmo de outrora. / Mas, ao menos, caminho descalço pela areia / e ainda cobiço os belos corpos femininos. / Recu so-me a ser este homem idoso que recorda / os passeios marítimos de sua juventude (…).
            Ou quando evoca a imagem da mãe perdida no tempo passado, como diz no poema “Dona Zenilda”: (…) Lá fora, vejo o esplendor abissal do dia. / Fito a luz do Sol, / na expectativa de ver o rosto de minha mãe. / Quando as estrelas brilharem, / sei que ela estará naquelas imediações.


                                                           II
            Por sua vez, o carioca Ricardo Alfaya (1953), advogado e jornalista, em Álbum sem Família, livro temático, composto por 100 poemas, expõe textos que seriam legendas para fotografias reunidas num álbum, que, metaforicamente, representaria o próprio autor em sua solidão, ironia e perplexidade de divorciado sem filhos. Tanussi Cardoso no prefácio que escreveu para este livro observa que, “atrás de uma aparente simplicidade, (Alfaya) trabalha um jogo de espelhos quebrados, onde os fragmentos dispersos são unos e únicos”.
            E acrescenta: “Os poemas são pequenas joias: fotos de um realismo, filtradas em poesia valorosa e elegante, mesmo quando aborda temas sociais ou sutilmente libidinosos e amorosos”. Veja-se aqui em “Foto 031: a tarde desnuda”, poema em que recupera o seu cotidiano no Rio de Janeiro e evoca uma viagem a Madri: “Encontro, encantado, a tarde. / Descubro-a de repente, / recostada no espaldar de uma cama, no El Prado. / A tarde é clara e tem o peito perfumado. / Os alados bicos de seus seios tremulam / junto à linha do horizonte. / A tarde é morena, / mora em Ipanema / e tem a fragilidade de um dia. / Mistura de paisagem que flutua, / mulher nua e tela de Goya”.
III
Por fim, em Dos Significados, o poeta, crítico, contista e letrista de música popular Tanussi Cardoso (1946), carioca, jornalista e advogado por formação, faz uma profunda reflexão sobre o sentido e o significado da poesia, como se vê no poema “Das possibilidades” em que parece dialogar com o poeta Manuel Bandeira (1886-1968): “Não lamentes o que és / ou o tempo que poderia ter sido. / O passado não existe / e o que és é futuro. / O amor é sempre a falta de. / O intervalo entre. / A ausência de. / A hora do que seria. / Nunca a completude, / mas o verbo do que poderia. / O amor é sempre / a impossibilidade do possível. / Não chores nem lamentes. / Tua cidade te espera. / Tua cadela te late. / Teu silêncio é tua música. / Tua cama é tua calma. / Pacifica teu coração / que, apesar de tudo, / bate. / O amor pode não ser, / mas a vida é sempre / a possibilidade do impossível”.
            No prefácio, Ricardo Alfaya avisa que quem abrir o livro Dos Significados encontrará mais perguntas implícitas do que esclarecimentos semiológicos, mas desde logo garante: o leitor sairá gratificado. E cita o poema “Memorabilia”, considerando-o um poema cheio de movimento cinematográfico, “que faz a mente brincar de ir a vir e que retira qualquer um da imobilidade mental, o que seria uma das mais belas e profícuas funções da arte”.
            Até por isso vale a pena reproduzir o poema aqui: “esqueço o trem. / e ao esquecer o trem, esqueço / o gesto de adeus / do homem na janela do trem. / esquecendo o gesto do adeus, esqueço o rosto do homem triste / olhando pela janela do trem. / e esquecendo o adeus e o olhar / do homem triste na janela do trem, / esqueço sua / história. e ao esquecer sua história, / deixo para trás sua vida, / como se deixa partir um trem”.  
            Embora distintos, os quatro livros que compõem esta antologia procuram resgatar, de maneira lírica, o que de efêmero há na vida. E constituem uma prova da vitalidade que ainda há na poesia contemporânea brasileira. Enfim, o leitor que descobrir Quadrigrafias, com certeza, terá em mãos uma bela amostra da produção de quatro dos mais importantes poetas do Brasil neste começo de século XXI.
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Quadrigrafias, de Elaine Pauvolid, Márcio Catunda, Ricardo Alfaya e Tanussi Cardoso. Rio de Janeiro: Editora Uapê. 212 páginas, R$ 33,00 (frete incluído), 2015. Pedidos para: Alfaya Livreiro e Revisor. Link: https://alfayalivreiroerevisor.blogspot.com/
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(*) Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Im esp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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O que vestir na escola? E no trabalho? | Carlos Matos Gomes

A escola do Agrupamento de Escolas Cardoso Lopes, na Amadora, tinha afixado à sua porta um cartaz a mostrar o que os alunos podiam ou não vestir, um código de vestuário para frequentar um estabelecimento de ensino público.

O ensino público inclui dois pontos nucleares que a sociedade, através do Estado, entende serem essenciais para a vida em comum e, por isso, decidiu afetar-lhe vastos recursos públicos: saber de humanidades e ciências que se possam traduzir em criação de riqueza e bem estar e uma integração social que proporcione uma harmoniosa vida em comum, isto dentro do princípio de que uma sociedade é mais que um agregado caótico de individualidades. Eram proibidas tops cai-cai — uma peça de pano usada por mulheres que circunda as mamas e deixa o umbigo à vista — calções curtos, calças largas ou descaídas, segundo a moda originária das prisões americanas para os presidiários anunciarem a disposição para relações sexuais (segundo informação da internet).

No regulamento interno da escola existia também uma regra que determinava que o vestuário não podia “expor partes do corpo, que possam atentar contra o pudor público”.

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AUKUS: UM ACORDO PARA ACORDAR A UNIÃO EUROPEIA | Paulo Sande

Não podia vir mais a propósito.

Três países – EUA, Reino Unido e Austrália, aliados antigos, um dia depois de Ursula von der Leyen ter feito o seu discurso da União e apelado à Europa da Defesa, anunciaram um acordo de segurança que é, na opinião de muitos especialistas de segurança, o maior desde a 2ª guerra mundial.

O AU – (u)K – US (AUKUS) formaliza a cooperação de defesa entre estes países na região do Indo-Pacífico e foca-se na capacidade militar, com dimensões como a cibernética, tecnologias quânticas, inteligência artificial. E depois (ou antes) há os submarinos.

1. SUBMARINO AO FUNDO

A compra de submarinos nucleares pela Austrália, o investimento mais caro de todo o acordo, criou um incidente diplomático com a França. Não admira, pois fica em causa o contrato (de 2016) de venda de 12 submarinos convencionais por parte da França à Austrália que, com este acordo, compra submarinos nucleares aos EUA (que pela 2ª vez apenas partilham a sua tecnologia submarina), tornando-se o 7º país do mundo a tê-los.

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Como entender a equação de Einstein para a relatividade geral | Albert Einstein | in https://bigthink.com

Matematicamente, é um monstro, mas podemos entendê-lo num inglês simples.

– As equações de campo de Einstein parecem muito simples, mas codificam uma quantidade enorme de complexidade.
– O que parece uma equação compacta são, na verdade, 16 equações complicadas, relacionando a curvatura do espaço-tempo à matéria e energia do universo.
– Ele mostra como a gravidade é fundamentalmente diferente de todas as outras forças e, no entanto, de muitas maneiras, é a única que podemos compreender.

Embora Einstein seja uma figura lendária na ciência por um grande número de razões – E = mc², o efeito fotoelétrico e a noção de que a velocidade da luz é uma constante para todos – sua descoberta mais duradoura é também a menos compreendida: sua teoria de gravitação, relatividade geral. 
Antes de Einstein, pensávamos na gravitação em termos newtonianos: que tudo no universo que tem massa atrai instantaneamente todas as outras massas, dependendo do valor de suas massas, da constante gravitacional e do quadrado da distância entre elas. 
Mas a concepção de Einstein era totalmente diferente, baseada na ideia de que o espaço e o tempo eram unificados em um tecido, o espaço-tempo, e que a curvatura do espaço-tempo dizia não apenas à matéria, mas também à energia como se mover dentro dela.

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https://bigthink.com/surprising-science/einstein-general-theory-relativity-equation/

‘Ar de arestas’: uma meditação sobre a dor | Iacyr Anderson Freitas | por Adelto Gonçalves

Livro de Iacyr Anderson Freitas: poeta presente em mais de 20 antologias no Brasil e no exterior, e Ozias Filho, jornalista, fotógrafo e poeta: carioca radicado em Portugal há três décadas (em baixo).                                                             

A precariedade da vida ou a dor da partida – este é o tema de um longo poema de Iacyr Anderson Freitas que se lê em Ar de arestas (São Paulo, Escrituras Editora, Juiz de Fora-MG, Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage-Funalfa, 2013), livro finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Portugal Telecom. Em quadras rimadas, com versos heptassílabos, trata-se de um peça que medita sobre a precariedade iminente do ser, sobrepujado pela manifestação da dor, que lhe é transfigurada “através da exploração sistemática de um sistema de símiles e metáforas”, como observou o crítico, contista, ensaísta e tradutor Paulo Henriques Britto em enriquecedor posfácio que escreveu para este livro.

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UM DISCURSO COM ALMA SOBRE O ESTADO DA UNIÃO | de Ursula von der Leyen | Paulo Sande

“Se sembra impossibile allora si può fare”

Como todos os anos, ritual inaugurado pelo muito nosso (salvo seja) Durão Barroso, quando Presidente da mesma Comissão, Ursula von der Leyen, actual incumbente no cargo, pronunciou ontem, 15 de setembro, o seu discurso da União – em 2021, num ano ainda duro, dolorosamente presente, de futuro indecifrável, onde mora o medo mas também a coragem, o desânimo mas também a esperança.

Aqui ficam dez apontamentos sobre este discurso – um grito pela Alma da Europa.

1. A Europa, em tempo de pandemia, assegurou o acesso praticamente simultâneo de todos os países europeus à vacina. E foi a única região a partilhar metade das vacinas com o resto do Mundo (700 milhões de doses para os europeus, 700 milhões espalhadas pelo globo). E mais de 70% dos adultos europeus estão vacinados. E o projeto europeu HERA, num investimento de 50 mil milhões €, visa garantir que nenhum vírus transformará no futuro uma epidemia local numa pandemia global.

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As Inseparáveis | Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir tinha nove anos quando conheceu Zaza, Élisabeth Lacoin. Da intensa amizade que nasceu desse encontro, e que apenas a morte trágica de Zaza, aos 21 anos, terminou, nasce o livro As Inseparáveis, uma pequena preciosidade literária que a Quetzal publica pela primeira em Portugal, com tradução de Sandra Silva e posfácio de Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha adotiva da autora, Simone de Beauvoir.

Esta é a história de duas amigas inseparáveis, da infância à idade adulta, um livro de grande valor literário e documental e uma peça importante no conhecimento da vida e obra da autora. Zaza foi uma personalidade extraordinária em vida, e a sua memória perdurou através das personagens em vários livros de Beauvoir, como Memórias de uma Menina Bem-Comportada Os Mandarins.

Escrito em 1954, As Inseparáveis narra, em registo ficcional, a história das duas raparigas rebeldes, ao longo da sua educação sexual e intelectual, personificadas em Andrée e Sylvie. Quando Andrée começa a frequentar a escola de Sylvie, esta fica imediatamente fascinada com a nova colega: tão inteligente, elegante, sensível e autoconfiante como uma adulta. Ficaram logo amigas, conversavam e faziam planos durante horas a fio. Mas Andrée escondia algumas feridas e sofria uma educação demasiado exigente e repressora. Andrée é Zaza; e Sylvie, a pequena Simone.

Nesta edição, Sylvie Le Bon de Beauvoir faz um relato factual e cronológico desta amizade da sua mãe, da vida e do contexto familiar de Zaza, e inclui um conjunto de cartas e de fotografias que ajudam a documentar a história que as une. Disponível a partir de hoje.  

Quetzal | Grupo Bertrand Círculo

“Não não existe democracia com algoritmo” | Entrevista com Francisco Louçã

No seu último livro, o economista e professor catedrático no ISEG analisa como as redes sociais e as novas tecnologias podem ser poderosos instrumentos de condicionamento da liberdade humana e garante que “Não é possível perceber o ascenso da extrema-direita hoje sem o papel das redes sociais”.

Muito mais que um terço da humanidade frequenta o Facebook, um número muito superior de pessoas se englobarmos todas as outras redes sociais. É impossível perceber a sociedade actual sem entender os efeitos dessas novas realidades tecnológicas e sociais nas nossas vidas. Segundo o autor, vivemos um sociedade de medo. Tornamo-nos cobaias do maior espaço social que existe, com a plataformização do trabalho, a vigilância de dados e a sua comercialização. Francisco Louçã aproveitou o confinamento para ler sobre a erupção das redes sociais e as suas implicações na política e na vida, criando uma espécie de ditadura do presente que esmaga o futuro e ignora o passado. Desse trabalho, resultou o livro: “ O Futuro Já Não É o que Nunca Foi, uma Teoria do Presente”.

As redes sociais e as mutações que elas implicam não são a sua área de trabalho habitual?

Sim, mas é uma preocupação crescente, acho que vamos entrar num período muito complicado e perigoso.

Para esse alerta é importante a saída de livros como o “Capitalismo de Vigilância” de Soshana Zuboff?

Já tinham saído uma série de trabalhos antes desse livro, antes de chegar ao “Capitalismo de Vigilância”. Apesar de não partir de uma análise de classes é um trabalho é muito interessante.

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Doce Certeza | Florbela Espanca

Por essa vida fora hás-de adorar

Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,

Em infinito anseio hás de beijar

Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado

Cabelos d´ouro e risos de mulher,

Muito beijo d´amor apaixonado;

E não te lembrarás de mim sequer…

Hás de tecer uns sonhos delicados…

Hão de por muitos olhos magoados,

Os teus olhos de luz andar imersos!…

Mas nunca encontrarás p´la vida fora,

Amor assim como este amor que chora

Neste beijo d´amor que são meus versos!…

Florbela Espanca, in “A Mensageira das Violetas”

Retirado do Facebook | Mural de Emilia Roque

Insubstituíveis e heróis circunstanciais | Carlos Matos Gomes

Jorge Sampaio deixou um exemplo. Um exemplo de santidade ou martírio? Não: um exemplo de decência!

Os cemitérios estão cheios de insubstituíveis. É uma frase feita para querer significar que nem nos devemos dar demasiada importância, nem aos outros, porque o mundo seguirá a sua marcha, independentemente dos nossos trabalhos, preocupações e esforços.

A frase é feita e, como falácia, contem verdade e não a verdade. A questão não é a dos insubstituíveis. A questão é a de que não existimos para nos substituir uns aos outros, mas sim para nos continuarmos, seja por evolução, seja por rutura. Nesse sentido, somos como os corredores de estafetas: tem de existir alguém que, terminado o nosso percurso, pegue no testemunho e prossiga a prova. Ou que parta para outro destino e por outra pista!

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Top 10 “Must Know” Opera Songs

Prima Donna

This is just my selection of the top ten “must-know” opera songs for newcomers to the genre (or lovers of opera who want to listen to a couple of classics).

10. Una Furtiva Lagrima – from l’Elisir D’Amore – featuring Luciano Pavarotti (0.00)

9. Vide Cor Meum – from Hannibal – featuring Danielle Di Niese & Bruno Lazzaretti (4.48)

8. Un Bel Di Vedremo – from Madame Butterfly – featuring Maria Callas (8.40)

7. Duo des Fleurs (Flower Duet) – from Lakmé – featuring Sabine Devieilhe & Marianne Crebassa (13.20)

6. Libiamo, ne’ lieti calici – from La Traviata – featuring Juan Diego Flórez & Diana Damrau (17.52)

5. La Donna è Mobile – from Rigoletto – featuring Luciano Pavarotti (21.01)

4. Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen (Queen of the Night Aria) – from Die Zauberflöte (The Magic Flute) – featuring Diana Damrau (23.48)

3. Habanera – from Carmen – featuring Anna Caterina Antonacci (26.50)

2. Nessun Dorma – from Turandot – featuring Luciano Pavarotti (28.59)

1. O Mio Babbino Caro – from Gianni Schicchi – featuring Maria Callas (32.05)

SOUÂD KEDRI | LIBERTÉ | Entretien

La musique, la littérature, le cinéma, les arts visuels et les jeux nous permettent de réfléchir notre humanité, de consolider notre solidarité et d’imaginer la période post-pandémie.”

Liberté : La crise sanitaire a complètement bousculé le monde culturel en Algérie. Elle a aussi pesé lourd sur les artistes et les entreprises artistiques. Quel point de vue apportez-vous sur cette situation ?

Souad Kedri : La Covid-19 a mis sous cloche toute l’humanité. Pour faire face à la monstruosité et à l’horreur de cette pandémie, l’homme a été contraint à l’isolement social, à l’enfermement et à la crise économique. En somme, le virus a imposé à l’homme un nouveau mode de vie. Cette pandémie a impacté plusieurs secteurs, tout particulièrement le secteur culturel. En Algérie, quand a éclaté la crise sanitaire en mars 2020, on a tout arrêté (report des activités culturelles et fermeture des organismes culturels). 
La pandémie a donc pesé lourd sur ce secteur, en général, et les artistes, en particulier. Aujourd’hui, la recrudescence de la Covid-19 a mis encore une fois en quarantaine le secteur culturel afin de protéger les citoyens et d’endiguer la propagation du virus. La situation sera donc difficile du côté des cinémathèques, des théâtres régionaux, des galeries, plus difficile encore pour les associations et les coopératives culturelles. 
Encore une autre rude et dure épreuve pour les artistes, et c’est une situation qui peut s’installer pour quelques années. La pandémie est une évidence et l’impact est difficile à mesurer. Malheureusement, c’est le blocage de toutes les activités culturelles qui prend le pouvoir à chaque recrudescence de la Covid-19. Avec l’absence d’un plan de sortie de crise, dans ce secteur, qui doit lier avec force culture et pandémie, les arts et les artistes ne se relèveront pas aussi facilement demain. 

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Arts et crise sanitaire | Un éternel retour à la case départ | Souâd Kedri  

En cette période de crise sanitaire, l’art peut être une bouffée d’air frais face l’asphyxie omniprésente que nous impose la pandémie. Il n’est donc pas à sous-estimer. L’homme a besoin de l’art et de ses effets empathiques, éthiques et thérapeutiques. L’art contribue au bonheur, à la paix, à l’enrichissement intellectuel, au développement personnel et à la résilience pour voir les limites de notre courage et notre volonté à dépasser toute épreuve difficile. En somme, c’est un moyen d’une fin jugée bonne et utile, il constitue un réel apport pour l’épanouissement de l’individu en société.

L’art sert à se laver l’âme de la poussière de tous les jours disait Pablo Picasso. Et en ce moment de vide, de peur et de panique collective, comment peut-on utiliser les arts à bon escient ? Les arts peuvent adoucir notre quotidien marqué par les incertitudes de par leurs fonctions empathiques, éthiques et de cohésion sociale ne serait-ce que sur le plan virtuel. La musique, la littérature, le cinéma, les arts visuels et les jeux nous permettent de réfléchir notre humanité, de consolider notre solidarité et d’imaginer la période post-pandémie. L’art, c’est le plus court chemin de l’homme à l’homme, rappelait André Malraux.

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ENTREVISTA | Em busca de rastros de Bocage | Luthero Maynard conversa com Adelto Gonçalves

Adelto Gonçalves, 70 anos, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é um dos maiores especialistas em século XVIII português. Um de seus trabalhos notáveis é Bocage, o perfil perdido, que sai agora pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), depois de publicado em 2003 pela Editorial Caminho, de Lisboa, resultado de um trabalho de pesquisa em arquivos portugueses com bolsa de pós-doutoramento da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

        Ainda sobre o século XVIII, o pesquisador publicou outro trabalho notável, Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999), biografia do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), sua tese de doutoramento, e os ensaios históricos Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo colonial – 1709-1820 (2015), e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (2019), publicados pela Imesp.

        Jornalista desde 1972, Adelto Gonçalves passou por várias redações, incluindo Cidade de Santos, A Tribuna, de Santos, O Estado de S. Paulo e Folha da Tarde e as editoras Abril e Globo. Em Portugal, é colaborador do quinzenário impresso As Artes Entre as Letras, do Porto, e das revistas Vértice e Colóquio/Letras, de Lisboa. É também colaborador do Jornal Opção, de Goiânia, do Diário do Nordeste, de Fortaleza, e da revista digital VuJonga, de Lisboa, dedicada aos povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre outros sites do Brasil e Portugal.

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VIDA | Maria Helena Ventura

Quando os teus olhos

molhados de infinito

pedirem o esboço de uma

nova rota

aprenderás a navegar

pelas ranhuras da ruína.

E entre céu limpo

e a densidade de abismos

sentirás a doce aragem

da manhã seguinte

aconchegada no regaço

de um canal de luz.

Estás viva.

Maria Helena Ventura – QUANDO O SILÊNCIO FALAR

Pintura: PAPOILAS de MIKKI SENKARIK

O Alentejo, por Miguel Torga

Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora. Os espasmos irreprimíveis da outra, demasiado instintivos e afirmativos, não lhe permitem uma meditação construtiva e harmoniosa. E compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascesse a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo. Só daquelas ondas de barro, que se sucedem sem naufrágios e sem abismos, se poderia partir com confiança para as verdadeiras. Enquanto a nação andava esquiva pelas serras, ninguém se atreveu a visionar horizontes para lá da primeira encosta. Mas, passado o Tejo, a grei foi afeiçoando os olhos à grande luz das distâncias, e D. Manuel pôde receber ali a notícia da chegada de Vasco da Gama à Índia.

Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.

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É JÁ ALI … | Autor desconhecido | Retirado do Facebook, Mural de Carlos Fino

(Via José Branco, a quem agradeço – Carlos Fino)

“Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.

Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.

Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar… E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.

Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado.”…

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Francisco Louçã e Mariana Mortágua | Manual de Economia Política

Lisboa, 9 de setembro de 2021

Francisco Louçã e Mariana Mortágua, dois nomes de respeito na esfera económica e política, escrevem Manual de Economia Política, um manual completo,
rigoroso, com fórmulas e gráficos de apoio, que atualiza o trabalho iniciado por José Castro Caldas, também em parceria com Francisco Louçã, com o livro Economia(s), publicado em 2009. Disponível em todas as livrarias a partir de hoje.


Este é um manual de economia, dividido em 14 capítulos, que parte do real para discutir a teoria, que promove a pluralidade de perspetivas e o pensamento crítico. «Num momento em que de novo se fazem ouvir reclamações de mudança de “paradigma” e juras de arrependimento pelos “excessos” anteriores de terapêuticas baseadas na Economia da idade das trevas. Desta vez é que há mudança?», escreve José Castro Caldas, autor do prefácio.

Sinopse:

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A vida de Bocage | António Cabrita

                                                                                                       

            Não sei se Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) era bilharista. A sê-lo, alinharia pelos que se comprazem na complexidade do jogo às três tabelas, arredio a submeter-se às triangulações mais clássicas e lineares — a acreditar no vaticínio do seu arqui-inimigo José Agostinho de Macedo: “É um gênio incapaz de simetria!” De fato, não se pode dizer de Elmano Sadino — o seu nome arcádico — que, como Shakespeare, Mozart ou Picasso, fosse artista, capaz de captar, sintetizar ou magnificar tudo o que a sua época lhe oferecia.

            Há um anacronismo muito português que o fere, um engenho que lhe minou a obra até ao achamento de si. Para a época clássica, a natureza do gosto era submetida a leis universais e invioláveis e seria necessário romper com demasiadas coisas para assomar no plano estético a subjetividade que culminaria no Romantismo.

            Bocage, por exemplo, fez a gesta, mas tal como Ovídio, que traduziu, só procurou nos lugares a reminiscência “histórica”. Foi essa a ilusão que o traiu, a raiz do seu desencontro com os lugares — velados pelos mitos. Vai ao Brasil, à Ilha de Moçambique, a Goa, a Damão, a Macau, perseguindo a irradiação de Camões, sem se abrir à experiência.

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Rústica | Florbela Espanca

Ser a moça mais linda do povoado.

Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,

Ver descer sobre o ninho aconchegado

A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,

Cheirando a alfazema e a tomilho…

– Com o luar matar a sede ao gado,

Dar às pombas o sol num grão de milho…

Ser pura como a água da cisterna,

Ter confiança numa vida eterna

Quando descer à “terra da verdade”…

Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!

Dou por elas meu trono de Princesa,

E todos os meus Reinos de Ansiedade.

Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”

Retirado do Facebook | Mural de Emilia Roque

Citando | Gonçalo M. Tavares, in JL

« Estamos sós com tudo aquilo que amamos. A nossa solidão tem o tamanho das nossas ligações”

“Estamos solos con todo lo que amamos. Nuestra soledad tiene el tamaño de nuestras conexiones “

« Nous sommes seuls avec tout ce que nous aimons. Notre solitude a la taille de nos connexions”

“We are alone with everything we love. Our loneliness has the size of our connections”

«Мы наедине со всем, что любим. Наше одиночество размером с наши связи »


Gonçalo M. Tavares, in JL

Poema 36 | Livro da Dança | Gonçalo M. Tavares

a proporção é morta.

a geometria tem tristeza.

Os seios feridos deitam sangue em vez de leite.

a matemática é impossível

a confirmação é a insistência do impossível

a prova é morder o fantástico e dar importância aos dentes

a proporção é MORTA.

Os ossos têm Cérebro e apaixonam-se.

a geometria tem tristeza

todo o conceito tem buracos por onde se escapa o vinho e o INSÓLITO.

a proporção é MORTA

o corpo é a biografia das últimas horas da CARNE à frente da técnica

É o dia depois da geometria (a dança)

últimas horas da carne à frente da técnica.

Gonçalo M. Tavares | Livro da Dança, edição Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

Descrição de uma cidade | in Livro 1 | Gonçalo M. Tavares

Não há lado esquerdo na metafísica,

O que não é uma limitação.

A produção industrial de problemas

Solta para o ar nuvens espessas

Que interferem no aeródromo.

Aviões cobertos de graffiti não conseguem levantar voo

Porque, entre os vários desenhos, os miúdos

Desenharam pedras de granito. A Ideia de granito

Pesa mais que a existência concreta de um

Balão, o mundo das ideias é estado transitório entre

O Nada e a montanha. Entretanto, a

Natação tornou-se importante para a cidade

Depois do dilúvio ocorrido há três mil anos. O governo

Oferece inscrições gratuitas e ainda casais de animais

Bruscos, mas mansos. Os homens andam felizes, e também

As mulheres, porque todos aprendem a nadar antes dos

Sessenta. Hoje, neste século, morre-se afogado mais tarde.

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W.A. Mozart | Concerto for Flute and Harp KV 299 (2nd movement)

Wolfgang Amadeus Mozart

Flute — ANNA KOMAROVA/ the Rimsky-Korsakov St. Petersburg State Conservatory Music School

Harp — ALISA SADIKOVA/ the Rimsky-Korsakov St. Petersburg State Conservatory Music School

The Symphony orchestra of the Rimsky-Korsakov St. Petersburg State Conservatory Music School/ Conductor ARKADY STEINLUCHT

SOCIAL DEMOCRACIA | Estado de bem-estar social | Otto von Bismarck | John Maynard Keynes

O Estado de bem-estar social, ou Estado-providência, ou Estado social, é um tipo de organização política, económica e sócio-cultural que coloca o Estado como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda a vida e saúde social, política e económica do país, em parceria com empresas privadas e sindicatos, em níveis diferentes de acordo com o país em questão. Cabe, ao Estado de bem-estar social, garantir serviços públicos e proteção à população, provendo dignidade aos naturais da nação.

O Estado de bem-estar social moderno nasceu na década de 1880, na Alemanha, com Otto von Bismarck, como alternativa ao liberalismo económico e ao socialismo.

Pelos princípios do Estado de bem-estar social, todo indivíduo tem direito, desde seu nascimento até sua morte, a um conjunto de bens e serviços, que deveriam ter seu fornecimento garantido seja diretamente através do Estado ou indiretamente mediante seu poder de regulamentação sobre a sociedade civil. São as chamadas prestações positivas ou direitos de segunda geração, em que se inclui gratuidade e universalidade do acesso à educação, à assistência médica, ao auxílio ao desempregado, à aposentadoria, bem como à proteção maternal, à infantil e à senil.

Os apoiantes demonstram como exemplo de sucesso na adoção integral do Estado de bem-estar social a experiência de países nórdicos. Por outro lado, críticos alegam que pode haver compreensão equivocada do funcionamento do Modelo nórdico, e que os defensores do Estado de bem-estar social em outros lugares tentam copiar apenas os direitos e não as obrigações implementadas por aqueles países. De todo modo, os dados frios nórdicos, oriundos de nações que adotaram o sistema corretamente, independentemente de apoiadores onde o modelo não foi adotado por completo, mostram eficiência desse modelo de dignidade universal refletida em seu IDH, que, ao contrário do senso comum, não elimina a possibilidade de enriquecimento, apenas diminui a miséria quase por completo com distribuição de recursos e de renda realizadas sob regras reforçadas, objetivando mera dignidade para todos.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_de_bem-estar_social

Nas fotos: John Maynard Keynes | Otto von Bismarck

Alfred Cheney Johnston American photographer | Ziegfeld Follies showgirls | 13 photos

Alfred Cheney Johnston (1885-1971) was an American photographer🎨, known for his portraits of Ziegfeld Follies showgirls

Alfred Cheney Johnston (1885-1971) was an American photographer🎨, known for his portraits of Ziegfeld Follies showgirls as well as of 1920s and 1930s actors and actresses.The only book known to have been published by Alfred Cheney Johnston during his lifetime devoted to his glamour photography is the 1937 spiral-bound softcover “Enchanting Beauty“, which contains 94 black-and-white photos, mostly about 7×9 inches, centered on a 9×12-inch page, although a number are cropped circular or in other designs.

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SHAKESPEARE E OS BEATLES | Livro de José Roberto de Castro Neves | texto de Alberto Bombig, O Estado de S. Paulo

O que Shakespeare e os Beatles têm em comum? Mais do que você imagina. Livro de José Roberto de Castro Neves encontra convergências e propõe reflexões acerca desses gigantes da cultura inglesa e mundial

Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021

É longa e sinuosa a estrada do tempo (quase 400 anos) que separa William Shakespeare dos Beatles e há mais mistérios no caminho do que pode sonhar a nossa filosofia. Desfiladeiros da alma, paraísos artificiais, rios de lágrimas, poços profundos de sabedoria e um mar de alegrias compõem a paisagem. O ticket para embarcar ou a licença para dirigir? Ter coragem de encarar a questão que desde a virada do século 16 para o 17 motiva os viajantes destemidos e intriga a humanidade: to be or not to be(atles)?

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A ORIGEM DO MEDO | Pedro Adão e Silva

Porventura, se optasse por examinar, por exemplo, o que é que permitiu a Marcelo Rebelo de Sousa, sendo de direita, vencer eleições com amplas maiorias, perceberia que as vitórias sustentáveis não se constroem a partir do ressentimento social, de polarizações artificiais ou de batalhas culturais fictícias. Tudo fatores que, enquanto descentram o debate público da discussão de alternativas, promovem um entrincheiramento que degrada a capacidade de compromisso.

Pedro Adão e Silva  | Jornal Expresso 03-09-2021

SINAIS DE BARBÁRIE | Massacre do Triunvirato | Pintura de Antoine Caron | por Vítor Serrão

A História da Humanidade poderia ser contada seguindo o rol sangrento das atrocidades cometidas contra os «outros». É um ciclo ininterrupto e, hoje, com crescente refinamento na maldade: os homens, sejam alienados, incultos, insensíveis, tomados pela cobiça pessoal ou seguindo a febre das massas, enfrentam aquilo que desconhecem e temem como legitimação para as suas intolerâncias e preconceitos e, no extremo, justificação dos massacres que praticam ou toleram…

Sempre me impressionou a crueldade descrita numa pintura de Antoine Caron (1521-1599), maneirista francês ligado à Escola de Fontainebleau que viveu a sinistra noite de St Barthélemy, no seu ‘Massacre do Triunvirato’ (1566), exposto no Musée du Louvre.

Também a História da Arte poderia ser contada através da miséria das guerras e da refinada crueldade contra os indefesos: será esse, afinal, o seu maior papel ? Como perguntava em 1547 o atormentado pintor florentino Jacopo Pontormo (na célebre parangona de Benedetto Varchi sobre a superioridade das artes: seria a Pintura superior à Escultura, ou vice-versa ?), que Deus inepto é este que criou de tão vil barro estas criaturas que somos ?

Só os artistas (e só por vezes) superam essa inépcia ao tocarem as asas do sublime: na música, na poesia, na literatura, na pintura — no humanismo… Por isso também, o poeta Sidónio Muralha (1920-1982), em ‘A Viagem dos Argonautas’, escalpelizava estes «selvagens gnomos que nós fomos — e somos», que querem ir a Marte buscar a sobrevivência da espécie não cuidando antes da paz e da harmonia na Terra.

Retirado do Facebook | Mural de Vitor Serrão

Communiqué du Comité central du KKE sur le décès de Mikis Theodorakis

Communiqué du Comité central du KKE sur le décès de Mikis Theodorakis

Avec une profonde émotion et des applaudissements incessants, nous disons au revoir à Mikis Theodorakis, combattant-créateur, leader et pionnier d’un nouvel art combatif en musique.

Impulsif, inspiré et enflammé par la passion d’offrir au peuple, Theodorakis a réussi à faire rentrer dans son œuvre majestueuse toute l’épopée de la lutte populaire du XXe siècle dans notre pays. Après tout, il faisait partie de cette épopée.

Dès l’âge de 17 ans, il s’organise dans l’EAM et peu après dans le KKE, participant à la Résistance nationale. En décembre 1944, il a combattu dans la bataille d’Athènes, qui a été noyée dans le sang et après la défaite de l’Armée démocratique, il a partagé avec ses camarades la persécution sauvage de l’État bourgeois en exil à Ikaria et le martyre de Macronissos, où il a été brutalement torturé. Il se bat alors à travers l’EDA et les Lambrakides pour la renaissance culturelle, tandis qu’il “paye” de nouveaux procès, prisons et exilés, son action illégale contre la dictature des colonels en 1967. Les concerts qu’il donne à l’étranger jusqu’à la chute de la dictature puis dans toute la Grèce sont choquants . En 1978, il a été candidat du KKE à la mairie d’Athènes, tandis qu’en 1981 et 1985 il a été élu député du Parti. “J’ai vécu mes années les plus fortes et les plus belles dans les rangs du KKE”, a-t-il déclaré lors de l’événement organisé par le Parti pour honorer les 90 ans de sa contribution artistique et sociale.

En effet, Theodorakis n’a jamais oublié les idéaux de liberté et de justice sociale, qui sont restés insatisfaits. Son œuvre est une confrontation constante avec l’injustice et le défaitisme, une trompette de lutte, de nouvelles luttes, de résistance, d’exaltation et d’espoir. « Ne pleurez pas Romiosyni… là où il va s’accroupir… pour se mettre debout à nouveau » est sa réponse à l’amertume et à la frustration d’un peuple dont les rêves ne se sont pas encore vengés.

Cette détermination dans la vie et la lutte n’est pas superficielle et toujours facile. Parfois, il émerge à travers une réflexion tortueuse. Sans aucun doute, Mikis, aussi bien qu’il savait comment frapper chaque petite et grande injustice, savait bien établir la conviction que l’amour, le bonheur, la paix et la liberté sont des choses réalisables. Mais peu importe à quel point il maniait brutalement et bruyamment “l’épée à double tranchant”, “l’épée brillante” de sa musique, il savait facilement adoucir sa chanson, touchant avec une tendre sensibilité tout ce qui est bon et beau dans la vie et dans le monde.

La musique de Mikis est fermentée avec tous ces matériaux qui font le grand art, l’art qui capture le pouls de son temps et anticipe l’avenir. Le sentiment, l’esprit, la mémoire et l’expérience des personnes qui se battent, sont la source de leur inspiration. “Ce que nous avons fait, nous l’avons pris au peuple et nous le rendons au peuple”, a-t-il déclaré, et ce n’était pas de la modestie. Theodorakis était profondément conscient que son temps jouait un rôle important dans sa réussite artistique personnelle. Il était pleinement conscient que la manière particulière et le dynamisme de son art se reflétaient dans les actions du peuple et que sa propre participation à l’action populaire, bien qu’elle le distrayait dans une certaine mesure de sa création, en était l’oxygène. “L’artiste qui vit et crée dans la lutte, assure une place particulière à son travail”, a-t-il déclaré. Son œuvre est une preuve éclatante que le grand art est toujours politique, que son créateur le recherche ou non.

Theodorakis avait aussi confiance dans le peuple. Il croyait que le peuple avait le pouvoir de conquérir l’homme le plus élevé et le plus beau de son histoire. C’est pourquoi, avec une dévotion sacrée, il a cultivé un art qui élève le peuple. Mikis n’a pas seulement mis en musique de façon exquise le discours poétique sans le trahir, il l’a recréé et l’a livré sous cette forme qui pénètre directement dans le cœur populaire. « Il a apporté de la poésie à la table des gens, à côté de son verre et de son pain », comme l’écrivait Ritsos à son sujet. Ce n’est pas seulement la conversation irremplaçable de sa musique avec la poésie de Ritsos dans “Epitaph”, qui à travers les interprétations choquantes de Bithikotsis et Chiotis est devenue un deuil folklorique intemporel et un hymne à la mort qui féconde l’avenir. Theodorakis réussit à parler avec la noble poésie de l’âme populaire, même à travers des formes musicales exigeantes et inhabituelles pour l’oreille populaire, comme celles de “Axion Esti” d’Elytis, d’”Epiphania-Averoff” de Seferis, de “Spiritual Expedition ” d’Angelos Sikelianos et d’autres.

Dans le fleuve de son œuvre cohabitent presque toutes sortes de musiques : Les rues folkloriques et le chant folklorique, mais aussi la tragédie antique, le membre byzantin, le chant classique, la musique symphonique, les oratorios. Polyvalent et multi-talentueux, intellectuel comme il était, il avait également une riche œuvre littéraire. Dans le cas de Mikis Theodorakis, le génie artistique a rencontré une personnalité agitée, alerte et créative, qui a toujours ressenti le besoin de se dépasser. Sa musique a brisé les frontières du pays, tant sa langue à l’universalité des souffrances communes, des espoirs, des visions qui sont partagées par tous les peuples, tous les humbles de la terre. La reconnaissance mondiale de sa contribution artistique et sociale a été scellée avec le prix Lénine pour la paix. Et demain avec sa propre musique nous chanterons ensemble les peuples de Grèce, de Turquie, de Chypre, des Balkans, du Moyen-Orient, partout sur terre, le chant de la paix.

Mikis aimait marcher, respirer “dans les grandes rues, sous les affiches”. Et là, sa musique continue à se faire entendre, à inspirer, à motiver, à éduquer. Avec la musique de Mikis, nous continuerons à marcher jusqu’à ce que… « les cloches sonnent » de la libération sociale. Mais même quand “la guerre sera finie” nous ne l’oublierons pas… Il sera avec nous même quand “les rêves rougissent”.

Miki immortel!

Le KKE présente ses sincères condoléances à sa famille et lui souhaite bon courage et santé .