O que vestir na escola? E no trabalho? | Carlos Matos Gomes

A escola do Agrupamento de Escolas Cardoso Lopes, na Amadora, tinha afixado à sua porta um cartaz a mostrar o que os alunos podiam ou não vestir, um código de vestuário para frequentar um estabelecimento de ensino público.

O ensino público inclui dois pontos nucleares que a sociedade, através do Estado, entende serem essenciais para a vida em comum e, por isso, decidiu afetar-lhe vastos recursos públicos: saber de humanidades e ciências que se possam traduzir em criação de riqueza e bem estar e uma integração social que proporcione uma harmoniosa vida em comum, isto dentro do princípio de que uma sociedade é mais que um agregado caótico de individualidades. Eram proibidas tops cai-cai — uma peça de pano usada por mulheres que circunda as mamas e deixa o umbigo à vista — calções curtos, calças largas ou descaídas, segundo a moda originária das prisões americanas para os presidiários anunciarem a disposição para relações sexuais (segundo informação da internet).

No regulamento interno da escola existia também uma regra que determinava que o vestuário não podia “expor partes do corpo, que possam atentar contra o pudor público”.

O caso do cartaz tornou-se polémico após ter sido foi tornado público por Sónia Tavares, uma senhora que é vocalista de uma banda musical — The Gift — , que fez uma publicação no Instagram onde mostra uma fotografia do cartaz. “Eu, em 1993 ia para a secundária vestida de LuísXV, de canudos no cabelo, sapato de fivela, folhos e calções e nunca a minha individualidade foi posta em questão por qualquer professor ou docente, só um ou outro parvo da turma, como sempre, é que mandava uma boca”, escreve a cantora, da descrição da foto. No fim remata: “E AÍ???? Estou maluca, ou estamos verdadeiramente a andar para trás?

Ninguém tem nada a ver com o estado mental da senhora vocalista. Mas a pergunta se estamos se estamos a andar para trás merece uma reflexão. A senhora que canta nos Gift é que pelos vistos não andou para a frente. Isto é, não deu o passo que vai da macaquice provocatória típica da adolescência — vestir-se à Luís XV — à reflexão e ao conhecimento que a aprendizagem e a maturidade costumam proporcionar.

Um, ou uma adolescente, vestir-se de Luís XV, ou de Super- Homem, ou Minnie da Disney, ou de Barbarella, ou usar camisolas com o nome de um outro — Ronaldo, por exemplo — não é um ato de afirmação de individualidade, é exatamente o seu contrário, é um ato de confusão de individualidade, de querer ser outro. É um ato de abdicação de ser único à custa do seu esforço e talento para ser outro. É ser um sósia. É uma fuga à realidade.

A senhora que canta nos Gift não é uma boa referência intelectual para se pronunciar sobre a relação da individualidade com a fatiota.

A questão do que vestir é na realidade mais complexa. O vestir reflete uma cultura. Um excerto do discurso de Tuiavii, chefe de tribo de Tiavéa nos mares do Sul, sobre o Papalagui (o branco) após uma visita à Europa. Sobre o vestir do Papalagui, o branco, escreve Tuiavii: De como o Papalagui cobre as carnes com inúmeros panos e esteiras:

O Papalagui esforça-se o mais possível por enconbrir as suas carnes. (…) Tudo quando se refere à carne é pecado. Assim fala o Papalagui. (…) Até mesmo aquelas partes com que se fazem os filhos, para maior alegria da vasta terra, são pecado. (…)

É por essa razão que o corpo do Papalagui está, da cabeça aos pés, coberto de tecidos, pelos e panos tão cingidos e grossos que jamais olhar humano ou raio de sol poderá atravessá-los (…).

Como o corpo das mulheres e das raparigas anda sempre tapado, os homens e os adolescentes ardem em desejo de ver as suas carnes: o que é muito natural. Pensam nisso noite e dia e falam muito das formas do corpo das mulheres e das raparigas, e sempre como se o belo e natural fosse um grande pecado e só pudesse ser apreciado nos sítios mais escuros. (…) Poderá haver mais estúpido pensar? (…)

Agora uma visão do europeu sobre o vestir de outros povos. Da carta de Pero Vaz de Caminha sobre o “achamento do Brasil”:

“Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.”

Parece evidente que a vocalista dos tais Gift não andou para a frente nestes conhecimentos sobre o modo como o vestir é apreciado por culturas distintas.

Acontece que a escola pública faz parte, com outras instituições, como as igrejas ou o serviço militar, ou até como determinados serviços públicos, caso da comunicação social, por exemplo, do que são designados meios de integração e nivelamento social. Uma sociedade não é, ao contrário do que pensa a senhora vocalista, e do que pensava a senhora Tatcher, já agora, e os economistas neoliberais Friedrich Hayek, da Escola Austríaca, e Milton Friedman, da Escola de Chicago, um somatório de indivíduos-consumidores do que alguém impuser como moda. A instituição tipo de um conjunto de individualidades cada uma a viver no seu mundo é o manicómio! Mesmo a horda tem regras.

No caso de Portugal, a sociedade é e tem sido construída com grupos humanos de diferentes origens e cabe também à atual escola pública integrar os grupos que têm chegado mais recentemente no todo, adotando as práticas que se foram tornando a norma e são consensualmente aceites — o que se designa pelo senso comum.

As periferias das grandes cidades são, tradicionalmente, os locais de instalação das comunidades mais recentes — dos imigrantes. A Amadora é uma periferia típica, onde se reúnem grupos culturais que têm do vestir normas tão “liberais” como as dos descendentes dos indígenas brasileiros retratados por Pero Vaz de Caminha — de que sambistas do carnaval do Rio, em top less e cueca de fio dental são exemplos — e tão restritivas como as dos radicais islâmicos que impõem a burka às suas mulheres e jovens adolescentes. Há ainda, uma comunidade de migrantes nacionais, que adotam as modas do que se designa por cultura suburbana.

É, pois, sensato, além de indispensável, que a escola pública, enquanto instituição de um estado democrático e laico, estabeleça denominadores comuns de convívio, o que inclui o vestuário. Não é, ao contrário do que afirma a senhora que ia vestida de Luís xv para a escola andar para trás. É ter senso e coerência. Sentido da realidade. Tolerância. Inteligência social.

Coerência porquê? Porque a senhora que ia vestida de Luís xv para a escola, não ia (não foi) assim mascarada para a conservatória do registo civil onde requereu o bilhete de identidade! Nem foi assim vestida, com certeza, que se apresentou para o exame da destinado a obter a carta de condução, se a tirou, ou que foi ao banco pedir um empréstimo para comprar casa, ou que tenha ido nesses preparos de afirmativa identidade a um julgamento, se alguma vez teve de se apresentar num tribunal.

E se é um bom argumento de liberdade ir vestida de Luís xv para a escola, porque não a de ir de guerreiro núbio: nu?

Aí, quando da imagem depende um bem que se pretende alcançar, já impera o bom senso e o juizinho. Não há lugar a “afirmações de identidade”.

A escola pública não é, nem pode ser um local sem lei nem regras.

Podia ainda ser abordada a questão do uniforme nas escolas, mas quando o alarme é causado por uma senhora, que parece ter tido o apoio de uma comissão de pais, a propósito de questões tão elementar bom senso como impor um mínimo de atavio que respeite diferentes formas culturais de entender o vestir numa escola, parece evidente que ocorreria uma explosão lugares comuns sobre a liberdade, a palavra usada como criada para todo o serviço, a começar pelo da demagogia. Imagino referências indignadas à Mocidade Portuguesa… mas não à capa e batina…

Carlos Matos Gomes

Born 1946; retired military, historian

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