Praça Alberto Guedes – Minde: quando uma obra se torna um sintoma, por Luís Assunção

Há obras que constroem mais do que paredes. Constroem confiança, identidade, futuro. E há obras que fazem exatamente o contrário. A intervenção na Praça Alberto Guedes, em Minde, infelizmente, caiu na segunda categoria. Não porque Minde não precise de investimento precisa, e muito mas porque o que está a ser feito ali revela um problema maior: a distância entre quem decide e quem vive as consequências dessas decisões.

A Praça Alberto Guedes é um dos espaços mais emblemáticos da vila. É o lugar onde a memória se cruza com o quotidiano, onde o passado conversa com o presente. Por isso, qualquer alteração naquele espaço deveria ser tratada com cuidado, com visão e, acima de tudo, com respeito pela comunidade. Mas o que se viu foi o contrário: um projeto decidido em gabinete, apresentado como facto consumado e executado sem o diálogo que a população merecia.

O novo edifício algo volumoso, desproporcional e com habitação até ao rés‑do‑chão parece mais preocupado em preencher um vazio físico do que em responder às necessidades reais da praça.

A opção por habitação no piso térreo é, no mínimo, incompreensível num espaço que poderia ser dinamizado com comércio, serviços ou equipamentos culturais. É uma oportunidade perdida de devolver vida ao centro da vila.

Mas o problema não é apenas estético ou funcional. O problema é político no sentido mais profundo da palavra: diz respeito à forma como se governa. Quando uma comunidade inteira se sente ignorada, quando as promessas de participação pública se transformam em meras formalidades, quando a obra avança apesar das críticas fundamentadas, então não estamos perante uma simples divergência de opiniões estamos perante um falhanço de governação.

A Câmara Municipal defende que tudo está dentro da legalidade. Acredito que sim. Mas governar não é apenas cumprir a lei. É ouvir, ponderar, ajustar, explicar. É ter a humildade de reconhecer que uma vila não se constrói contra as pessoas, mas com elas. E isso, neste caso, falhou.

A polémica da Praça Alberto Guedes não é um capricho de meia dúzia de vozes. É o reflexo de um sentimento coletivo: o de que Minde merece mais. Mais ambição, mais transparência, mais respeito pela sua identidade. O edifício ficará lá durante décadas. A pergunta é: ficará também a sensação de que a população foi deixada de fora?

Se esta obra servir ao menos para despertar uma consciência cívica mais forte, para exigir processos participativos verdadeiros e para lembrar que o espaço público é de todos, então talvez ainda haja algo a ganhar.

Mas para isso é preciso que quem governa aprenda com o erro. E que quem vive em Minde continue a fazer ouvir a sua voz.

Porque uma praça é mais do que um conjunto de pedras. É o espelho de uma comunidade. E o que vemos hoje na Praça Alberto Guedes não é apenas um PRÉDIO, é um alerta.

Bom Fim de Semana

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